Publicado em agosto de 1979, ed. 49.
Editora Abril, São Paulo - SP.
ENTREVISTA
CAETANO VELOSO
Uma
conversa franca sobre música, política, mulheres, homens, prisão e as patrulhas
ideológicas com o mais polêmico dos nossos compositores
"É de manhã! Vou buscar minha fulô/ a barra do dia é vem/ e o galo cocorocó/ É de manhã..." — a voz quente e dramática da nova cantora, angulosa e magricela, que chegara da Bahia para substituir Nara Leão, no show Opinião — o espetáculo teatral de maior sucesso no Rio, em fins de 1964 e começo de 65 —, empolgou eletricamente a platéia. Terminado o show, Maria Bethânia, a nova estrela da canção que surgira naquela noite, foi cercada por uma multidão de admiradores que queriam cumprimentá-la e, sobretudo, queriam saber quem era o autor daquela música tão comoventemente bela. "É do mano Caetano", ela explicou, simplesmente.
Foi assim que começou a nascer, pelo menos para as platéias do Sul, o artista Caetano Vianna Teles Veloso, que seria consagrado como um dos mais talentosos — e polémicos — compositores de nossa música popular.
Um dos três filhos homens — tem cinco irmãs — de seu José e dona Canô, Caetano Veloso nasceu na pequena cidade de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, onde seu pai era agente dos Correios. Sua infância foi dividida entre as brincadeiras com os irmãos, subindo nas mangueiras e goiabeiras do quintal, e as aulas de piano com dona Haidil, que reclamava muito do aluno, porque só queria tirar músicas de ouvido. Aos 9 anos apaixonou-se por uma menina cujo nome era Dó, e hoje confessa, encabulado: "Não sei direito se fui correspondido. Mas veja só, ela tinha o nome da primeira nota da escala musical, e nessa, pelo menos, eu estou até hoje, e acho que correspondido".
Adolescente, e depois de uma curta passagem pelo Rio de Janeiro, Caetano mudou-se para Salvador, para cursar o Clássico e preparar-se para o vestibular na Faculdade de Filosofia. Na capital baiana, além de descobrir o encantamento dos romances de Guimarães Rosa e dos poemas de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Mello Neto, encontrou toda a efervescência cultural que movimentava a sua geração, levando-o a participar dos grupos que se dedicavam a atividades artísticas, como cinema, música e literatura. Escreveu críticas de cinema ("o cinema foi meu primeiro grande sonho"), entrou na faculdade, e logo, com sua irmã Bethânia, começou a tornar-se conhecido como compositor e cantor.
Quando seu nome ultrapassou as fronteiras da Bahia, pela voz de Bethânia, o público brasileiro passou a descobrir — por trás da imagem do rapaz tímido e de excelente memória, que se apresentava no programa Esta Noite se Improvisa, da TV Record — um compositor elaborado e sensível, que já ganhara um prêmio (o de melhor letra) num festival de música, com a canção Um Dia, iria ganhar outros com Boa Palavra e Alegria, Alegria, tinha outras letras e músicas maravilhosas, como De Manhã, e se tornaria o grande expoente do movimento musical conhecido como Tropicalismo, que viria a transformar decisivamente a música brasileira no final da década de 60. A partir daí, Caetano Veloso passou a ser sinônimo de polêmica, e sua música e comportamento passaram a influenciar toda uma geração. Em 1969, quando as coisas ficaram mais difíceis para todos os que se dedicavam à arte e à cultura no Brasil, Caetano e seu amigo, parceiro e conterrâneo, Gilberto Gil foram presos durante dois meses, e obrigados a abandonar o país, rumo ao exílio na Europa, onde permaneceram cerca de dois anos.
Hoje, com 36 anos, casado há doze com Dedé, e pai de Moreno, de 6 anos, Caetano não mudou muito. Continua o mesmo compositor inspirado e sensível, de letras apuradas, e é também um cantor notável, de voz educada e envolvente. Seus discos não vendem muito, é certo, mas seus shows, em qualquer cidade brasileira, sempre arrastam multidões de jovens, alguns ainda vestidos à moda hippie e orgulhosos de se definirem como "caetanistas fanáticos". Como bom baiano, é católico até onde começa o candomblé, no qual tem como protetores Ogum e Oxalá, dos quais certamente herdou as características de combatividade e franqueza, aliadas à sensibilidade e meiguice. A combatividade levou-o, recentemente, a abrir fogo contra uma parte da crítica, que ele definiu como "patrulheira e medíocre". Por esse motivo ("Já falei demais no ano passado, acho que não devo falar mais") foi muito difícil conseguir esta entrevista, que só se tornou possível graças ao empenho do jovem cantor Lula Carvalho, grande amigo de Caetano. Além disso, foi necessário superar outro obstáculo: o tempo. Caetano acorda invariavelmente depois das 16 horas, e durante o pouco tempo que tem disponível — antes ou depois dos shows — está sempre cercado por muitos amigos ou fãs.
Por isso, Marco
Aurélio Borba, de PLAYBOY, começou esta entrevista em São Paulo e só foi
terminá-la uma semana depois, em Manaus, onde Caetano apresentou o seu show Muito.
Lá, depois de uma estréia quase surrealista (mulheres de vestidos longos e
homens engravatados lotavam a platéia do suntuoso Teatro Amazonas para ver um
espetáculo cujo astro principal requebrava no palco, vestido de short, camiseta
e tênis), Caetano se descontraiu e falou durante vários dias — à vontade, de
calção, pulseiras e guias. Esse homem de extraordinária inteligência e
sensibilidade contou coisas de sua vida e de sua carreira, abordando muitos
aspectos até então desconhecidos do público brasileiro. Vamos a eles:
PLAYBOY —
Vamos começar tentando esclarecer um episódio de sua vida que nunca foi bem
explicado: sua prisão, pelos órgãos de repressão, em 1968, logo após a
decretação do AI-5. Qual o motivo que eles alegaram?
CAETANO VELOSO —
Não sei! Não sei de nada! Quanto a isso, você deve procurar os organismos que
nos prenderam, na medida em que eles voltem a ser mais acessíveis. Eu acho que
nos Estados Unidos, na Inglaterra, após um certo número de anos... eles abrem
os arquivos, não é? Isso seria bom também para mim e para o Gil, porque assim
ficaríamos sabendo por que fomos presos.
PLAYBOY —
Quanto tempo vocês ficaram na prisão?
CAETANO —
Dois meses.
PLAYBOY —
Foram interrogados?
CAETANO —
Fomos, mas só durante o segundo mês.
PLAYBOY — O
que eles queriam saber de vocês?
CAETANO — Os
interrogatórios duravam muito... bem... eu não sei se é oportuno falar sobre
isso, agora. Não tenho muito interesse... Vocês têm?
PLAYBOY —
Temos, porque é um episódio ainda obscuro de sua vida.
CAETANO —
Mas, como não sei os motivos, acho que foi um fato meio estranho.
PLAYBOY — Os
interrogatórios eram sobre a atividade profissional de vocês?
CAETANO —
Eram mais sobre minha vida pessoal. Por exemplo, o meu inquisidor me perguntava
coisas como "em que agência do Banco do Brasil trabalha o marido de sua
irmã mais velha? Quantos filhos eles têm, quais os seus nomes e idades?"
Às vezes me pediam detalhes sobre sobrinhos meus, detalhes que eu não sabia...
Além disso, me interrogavam sobre minha participação na Passeata dos Cem Mil,
no Rio...
PLAYBOY — O
que você respondeu?
CAETANO — Eu
falei: Mas todo mundo participou daquela passeata. Enfim, eu acho que, na
verdade, tudo aquilo foi um equívoco, entendeu? Eles não entendiam bem o
significado daquela onda de tropicalismo... E também, naquele momento, houve
uma febre de prender todo mundo...
PLAYBOY —
Fizeram perguntas sobre o tropicalismo?
CAETANO —
Fizeram. Não lembro se citaram esse nome, mas perguntaram sobre o nosso
comportamento nos shows... não sei se eles pensavam que a gente era comunista,
ou se pensavam que tínhamos um plano de criar um desrespeito à pátria, uma
mistura de comunismo com...
PLAYBOY —
Com o quê?
CAETANO —
Sei lá... Não havia muita clareza nos interrogatórios.
PLAYBOY —
Você chegou a assinar algum depoimento?
CAETANO —
Sim, eu acho que sim.
PLAYBOY — E
foram soltos depois, também sem explicação nenhuma?
CAETANO — É,
mas aí nos obrigaram a ficar confinados na Bahia, durante quatro meses.
PLAYBOY —
Proibidos de sair da Bahia?
CAETANO — De
Salvador. Fomos levados para lá num avião da FAB e ficamos quatro meses
confinados, sem poder sair de lá. Quando nos permitiram sair foi apenas por
quinze dias, para podermos tratar dos passaportes no Rio e abandonar o país.
PLAYBOY —
Sem explicação?
CAETANO —
Tudo sem explicação. Disseram apenas que a gente só poderia sair de Salvador
para tratar dos passaportes e sair do país. E na hora em que embarquei um deles
me disse que eu não voltasse mais...
PLAYBOY — E
hoje, o que você pensa disso tudo?
CAETANO — Eu
não sei. Eu tenho um pouco de medo, porque não tenho a coisa sob o meu
controle. Quero dizer, não tenho assim um entendimento objetivo sobre o que
realmente se passou, sobre como essas coisas se passam e como devo me comportar
com relação a isso.
PLAYBOY —
Mas a repressão contra você continuou durante mais algum tempo, não?
CAETANO — É,
posteriormente me deixaram vir de Londres, para visitar meus pais, que faziam
quarenta anos de casados. Mas não tive permissão para ir a lugar algum a não
ser Salvador. Permitiram que eu ficasse um mês, mas confinado em Salvador.
PLAYBOY —
Durante esse mês permitiram que você fizesse shows?
CAETANO —
Pude fazer uma apresentação na televisão...
PLAYBOY — Na
Bahia?
CAETANO —
Não, no Rio. No dia em que eu embarcava de volta para Londres. Na verdade...
não entendi por quê... mas eles me sugeriram que eu fizesse o programa O Som
Livre Exportação, na Globo. Eu fui, na verdade, coagido a fazer. Sabia que
a expectativa do público jovem era me ver aparecer numa explosão de
rock'n'roll, mas eu cantei o samba Adeus Batucada, acompanhando-me ao
violão, sozinho.
PLAYBOY —
Quem o coagiu a aparecer no programa?
CAETANO —
Fiquei seis horas sendo interrogado no aeroporto, quando cheguei de Londres. E
aí eles me recomendaram fazer aquela gravação, não raspar a barba nem cortar o
cabelo. Mas veja lá, não publique isso se você sentir que tem algum peso, porque
eu não quero ficar vociferando besteira. Esse meu caso eu ainda não consegui
resolver, não sei como é, entendeu?
PLAYBOY — E
sua volta para o Brasil?
CAETANO — Eu
voltei porque João Gilberto me telefonou para Londres, de São Paulo,
chamando-me para gravar um programa de televisão com ele e a Gal. Eu relutei,
disse a ele: "João, eu não posso, eu estive aí há alguns meses e me
prenderam seis horas num interrogatório". Mas ele me garantiu que dessa
vez nada iria acontecer. Eu falei: "Como é que você sabe?" E João
respondeu: "Deus quer". Aí, eu, que tenho uma confiança meio mística
no João Gilberto, tomei o avião e vim. E, quando cheguei, não aconteceu nada!
Mostrei o passaporte, passei normal, fui bem tratado, tudo perfeito. Então fiz
o programa com João e depois voltei a Londres, mas só para arrumar minha
bagagem e retornar de vez ao Brasil.
PLAYBOY — A
partir daí, não voltaram a mexer com você?
CAETANO —
Nunca mais! Os jornalistas do Pasquim é que começaram a me encher o
saco, eles só gostavam de mim enquanto eu estava preso e exilado.
PLAYBOY —
Antes de falar de seus problemas com o Pasquim, fale um pouco de seu
exílio. Você ficou todo o tempo em Londres?
CAETANO —
Não, nós saltamos em Lisboa, depois fomos para Paris. Eu não estava legal. Eu
me sentia mal em toda parte. Tinha medo de tudo. Na Bahia, principalmente, eu
tinha medo de tudo, ouvia tocar a campainha da porta e tinha medo, tocava o
telefone eu tinha medo, parecia que eu estava louco, perdi a noção do tempo,
sentia vertigens, tinha medo até de ir a restaurantes.
PLAYBOY — Ao
chegar à Europa esse pavor não passou?
CAETANO —
Não, quando cheguei a Lisboa senti o mesmo medo. Em Paris também. Eu tinha a
impressão de ver polícia por todos os lados. Não estava mesmo bom da cabeça.
Mas, em Londres, eu me senti mais tranqüilo, achei que lá eu estaria fora de
perigo. Londres transmitia essa impressão. Era o melhor lugar que havia para
mim. Porque para os Estados Unidos eu também tinha medo de ir, achava que era
um país violentíssimo, achava que lá eu iria sentir o pavor que sentia aqui, em
Lisboa e em Paris.
PLAYBOY — E
o que você fazia em Londres, naqueles primeiros tempos?
CAETANO — Eu
ficava em casa. E não gostava muito, não. Sentia frio, sentia angústia, ficava
querendo saber do Brasil e escrevendo para o Pasquim, para o Luís Carlos
Maciel, para todos os meus amigos, escrevia tantas cartas para eles que alguns
começaram a não responder. Porque eram cartas demais. Eu não estava nada legal.
Mas depois fui melhorando, melhorando.
PLAYBOY —
Nesse seu tempo de exílio, certamente você conheceu outros brasileiros na mesma
situação. Como foi a sua transa com eles?
CAETANO —
Bem, eu sou uma pessoa mais ou menos fácil no trato. Em geral sou assim. Eu
estava pensando agora mesmo por que estou falando certas coisas para você. Não
sei se deveria, entendeu? Eu havia lhe dito, antes, que não estava muito a fim
de dar entrevista, que já falei demais no ano passado, que tenho falado
muito...
PLAYBOY —
Você acha que tem senso de autocrítica?
CAETANO —
Tenho sim, em geral tenho muito senso crítico. Muitas vezes eu digo que as
minhas querelas com os críticos talvez nasçam dessa... impaciência minha,
porque eu me sinto um crítico muito melhor do que todos os críticos que eu
conheço. Então me dá uma impaciência, quero explicar tudo a todo mundo,
discutir, mostrar.
PLAYBOY —
Não é bem essa a opinião de Henfil sobre você. Na entrevista que ele deu a PLAYBOY,
disse que você, por não suportar críticas, deu declarações a jornais, chamando
alguns críticos de patrulheiros esquerdistas e até de comunistas. Segundo
Henfil, ao fazer esse tipo de acusação, num país onde ser comunista é crime
passível de cadeia e até de coisas piores...
CAETANO — É
também artigo de luxo, entendeu?
PLAYBOY —
... Você estaria, assim, deixando de ser simplesmente um descompromissado
político, e passando a colocar em perigo a segurança daqueles que você atacou.
CAETANO — É
mentira dele! Eu não botei ele em nenhum perigo. Nem ele, nem o Tárik de Souza,
nem o Maurício Kubrusly, nem o Sílvio Lancelotti, nem o Geraldo Mayrink. Pode
ir de porta em porta ver se a Maria Helena Dutra ou qualquer outro desses
imbecis ficou um milímetro sequer prejudicado pelas coisas que eu disse.
Mentira! Depois, é o seguinte: guerra é guerra! Se alguém me ataca, tem que
receber também uma porrada. Se eu me sinto atacado, perseguido, eu respondo,
bicho! É isso aí. Agora, o que eu fiz foi uma coisa simples, natural, humana,
correta, entendeu? Era a única coisa que eu podia fazer e que eu acho que devia
fazer. Já fiz, está feito! Já nem me interessa mais, não há mais nem
comentário, para mim, quanto às críticas que fiz a esses críticos. Eram justas,
e eu nem voltarei a pensar nelas.
PLAYBOY —
Você não admite que, na época atual, suas acusações poderiam ser perigosas para
eles?
CAETANO —
Não, não acho. Está todo mundo vendendo esquerdismo, porra! Eu vi, por exemplo,
o show da Elis Regina, é tudo mentira! M-E-N-T-I-R-A ! Vendem esquerdismo em
embalagem de bombom. Eu não tô nessa, bicho! Ou eu sou bombom mesmo, ou dou
logo uma porrada!
PLAYBOY —
Logo que você voltou do exílio, deu uma entrevista confessando que já não
suportava mais aquela unanimidade de aplausos em torno de você. E que, por
isso, achou "ótimo" — adjetivo seu — as críticas que começou a
receber de alguns jornalistas, duas semanas depois de chegar ao Brasil. Qual a
diferença entre aquelas críticas e as que você sofreu mais recentemente, e que
o fizeram reagir tão indignado?
CAETANO —
Nenhuma, eu acho tudo muito bom. Mas eu tenho de reagir, isso é a vida! A
unanimidade era a morte, isso é a vida. Mas não significa que eu não brigue
pela minha vida, entendeu?
PLAYBOY —
Você sempre alega que esses críticos vivem lhe cobrando engajamentos, atitudes
políticas. Mas Tom Jobim, Dorival Caymmi, Roberto Carlos — que sozinho vende
muito mais discos do que você, Tom, Caymmi e outros mais, juntos, e que,
portanto, na linguagem dos críticos, alienaria muito mais gente — nunca
sofreram essas cobranças. Não se vê nenhum ataque violento contra eles, embora
se mostrem também alheios à política.
CAETANO —
Não é assim. Roberto Carlos eles já atacaram, e não foi uma única vez, mas
várias vezes.
PLAYBOY —
Mas não no mesmo nível...
CAETANO — É,
mas de vez em quando criticam Roberto, escrevem coisas cheias de ironia sobre
ele.
PLAYBOY —
Mas por que com você eles são mais severos?
CAETANO —
Deve ser porque eu fui à universidade, tenho um nível cultural maior. Não me
formei mas cheguei até a universidade. Então... Além do mais, o que eles querem
impor é que ninguém, nenhum de nós, mije fora do penico. Exigem que todos façam
a mesma cena e tenham o mesmo jeitinho. Eu não tenho o mesmo jeitinho. Quer
dizer, não transo com homens, não fumo maconha, não faço nada que...
PLAYBOY —
Não bebe...
CAETANO —
Não bebo. Mas beber não conta, faz parte do "jeitinho", mas as outras
coisas que não fazem parte eu não faço. Não me identifico com essa média
inteligente brasileira, nunca me identifiquei!
PLAYBOY —
Você acredita que a crítica pode contribuir para aumentar ou diminuir a
vendagem de um disco?
CAETANO —
Acho que pode contribuir. Acho principalmente que a crítica no Brasil não é
exercida por especialistas, mas por pessoas que representam mais ou menos a
tendência da mediocridade brasileira, compradora de discos, principalmente os
de artistas como Chico, Milton Nascimento, Gil, Hermeto, Egberto Gismonti e eu
também, né. O fato é que essa crítica é uma bandeira assim do gostinho da
mediocridade brasileira... Mas por isso mesmo torna-se capaz de influenciar.
Porque representa uma média, uma ambição de ter status intelectual...
PLAYBOY —
Qual de seus discos mais vendeu?
CAETANO —
Foi o que eu gravei com o Chico Buarque, ao vivo, em Salvador.
PLAYBOY — E
o que vendeu menos?
CAETANO —
Acho que foi o último, Muito. Vendeu 25 mil cópias, durante a chamada
"faixa de venda". Mas agora talvez esteja vendendo mais. Houve também
Araçá Azul, que muita gente comprou e devolveu depois. Foi muito
vendido, mas quase todo mundo voltou às lojas para devolvê-lo. O índice de
devolução foi tão alto que as lojas forçaram a gravadora a recolher o disco.
Mas, dois ou três anos depois, ele começou a ser distribuído novamente. E a
vender outra vez.
PLAYBOY —
Você já ganhou muito dinheiro com música?
CAETANO —
Como os brasileiros são muito pobres, eu não posso, de modo algum, dizer que
não ganho dinheiro. Trabalhando com música eu já cheguei a poder comprar uma
casa na Bahia, uma casa simples, que comprei há uns seis anos. E agora estou
comprando uma casa no Rio. Tenho também um automóvel, um Corcel...
PLAYBOY —
Você não tem um público fiel? E esse público que sempre vai aos seus shows,
também não compra seus discos?
CAETANO —
Não é tão fiel. Fiz um show no Rio, no Teatro Tereza Rachel, com músicos como
Perinho Albuquerque, Moacyr Albuquerque, José Abreu, mas a platéia nunca
enchia. Depois fui para São Paulo, para o Tuca, durante cinco dias, e só encheu
nos últimos dois, fim de semana. Voltei para o Rio, levei o show para o Teatro
da Praia e a platéia só enchia pela metade. Em seguida fiz o circuito
universitário, pelo interior. Aí funcionou, mais ou menos... Mas agora veja: eu
fui a Paris e a Roma no ano passado, e cantei no Olympia de Paris e no Teatro
Sistina, em Roma, e fui muito bem, não só como sucesso de público como de
crítica. Saíram críticas em todos os jornais de Roma e no Le Monde, de
Paris, dizendo coisas tão boas sobre mim como eu não vejo há Lins quinze anos
em toda a imprensa brasileira.
PLAYBOY —
Você não tem interesse em partir para a conquista do mercado internacional?
CAETANO —
Não muito. Mesmo porque não sinto a menor vontade de morar fora do Brasil.
PLAYBOY —
Você mencionou há pouco sua divergência com o pessoal do Pasquim. Sua
briga foi sobretudo com o Millôr, não foi?
CAETANO —
Não conheço Millôr pessoalmente. E eu admirava o Millôr, era fã dele e acho que
escreve legal e também desenha lindo. Mas, no Pasquim, quando o Tarso de
Castro saiu de lá, o jornal ficou bem antipático comigo, publicando uma porção
de coisas absurdas. O Millôr, de certa forma, liderava muito aquilo. Além
disso, ele deu uma entrevista na Veja dizendo que não gostava dos
baianos que infestam nossa cultura lítero-musical. Eu acho gozado ele dizer
nossa, coisa bem de carioca! Dá a impressão de que os baianos vieram de outro
planeta e se apoderaram da cultura brasileira que pertence ao Rio. Mas hoje eu
não ligo para o que Millôr escreve. Eu olho as páginas dele na Veja, às
vezes leio, às vezes rio...
PLAYBOY — E
quanto ao Jaguar?
CAETANO —
Esse foi uma vez à minha casa, quando eu morava em Salvador, e como havia
publicado, junto com Ziraldo e outros mais, piadinhas comigo no Pasquim,
eu o recebi friamente. Mas ele foi logo falando: "Eu gosto muito de você,
fiz questão de vir à sua casa para lhe dizer que gosto de você e que não tenho
nada com aquele horror que fazem com você no Pasquim". Eu
perguntei: "Então, quem faz aquilo?" E Jaguar: "É o Millôr, que
te detesta". E olhe que o Jaguar é amigo do Millôr . Eles são mesmo uma
gente muito sem caráter. E tem mais: na mesma ocasião, Jaguar me disse ainda:
"Além do Millôr odiar baiano, ele odeia música".
PLAYBOY —
Com o Henfil, você também tem problemas?
CAETANO —
Não tenho nada contra ele! Nem contra ninguém. Eu curto, eu me esqueço dessas
coisas.
PLAYBOY — Há
quem veja, no chamado grupo baiano, do qual você, Gil, Gal, Bethânia e Capinam
fazem parte, e que inclui também artistas de outras áreas de criação, como
Glauber Rocha e até Jorge Amado, uma espécie de espírito tribal. Você acredita
que isso contribuiria, de algum modo, para explicar as manifestações de
hostilidade que vocês tenham sofrido?
CAETANO —
Toda vez que falam desse negócio de baiano, baiano, baiano, e alegam que eu
fico querendo menosprezar o Rio de Janeiro, eu sempre respondo lembrando uma coisa
importantíssima: o meu compositor, músico e cantor favorito é o Jorge Ben, um
carioca. Da minha geração, para mim ele é o maior. Às vezes as pessoas se
esquecem de que ele é carioca. Eu fui ver o último show dele, no Rio, vi duas
vezes. Aliás, o show foi pichadíssimo pela imprensa carioca, de uma maneira
totalmente imbecil, porque era o melhor espetáculo que havia no Brasil, era
genial! Tinha uma vitalidade, porra, comparável à que você encontra às vezes no
Maracanã, entendeu? Era lindo! E, no último dia, foi o mesmo dia em que o
Flamengo ganhou o campeonato, Jorge se apresentou com uma bandeira do Flamengo,
usando-a como uma capa, um manto. Ele é o próprio Rio de Janeiro, o verdadeiro
Rio, cheio de vida! E eu fiquei pensando assim: ninguém se lembra de que Jorge
Ben é carioca, acham que ele é paulista, ou uma cruza de baiano com paulista,
feito em outro planeta e impingido ao Rio. Não, ele é o verdadeiro Rio de
Janeiro!
PLAYBOY — A
música dele, inclusive, tem muito a ver com o Rio.
CAETANO — Só
tem. Com o Rio real, suculento, que às vezes a gente não encontra no próprio
Rio. Já o Chico Buarque, para mim, é bem representativo de São Paulo, ou
melhor: da Universidade de São Paulo.
PLAYBOY —
Atualmente, mesmo os que não gostam de você admitem que você é ótimo cantor.
CAETANO — Eu
acho que canto bem, aliás, sempre achei. Na verdade o que eu sempre mais gostei
de fazer foi cantar. E sempre cantei bem, muito bem. Canto desde menino. Lá em
Santo Amaro da Purificação, onde nasci e me criei, eu fazia muito sucesso
cantando nos shows do ginásio. Quando estava com uns 14, 15 anos, lembro-me de
Dr. Ranulfo Paranhos, diretor do meu colégio, dizendo ao meu pai: "Esse
menino, com essa idade, canta com tanto sentimento! Ele ainda não sabe nada da
vida, imagine então quando tiver 18 anos [risadinha]!" Mas, no
começo de minha carreira, eu não conseguia cantar razoavelmente bem em nível
profissional. Embora tenha conseguido, por exemplo, gravar bem Coração
Vaga-bundo, no disco Domingo. Mas, na fase do tropicalismo, eu não
achava muito boas as transas de gravação.
PLAYBOY —
Por quê?
CAETANO — Eu
não tinha domínio do meio, sentia-me meio intimidado no estúdio de gravação.
Sou muito tímido, até demais.
PLAYBOY —
Foi nessa época que você teve uma briga com o Geraldo Vandré. Como aconteceu?
Você ainda é inimigo dele?
CAETANO —
Olhe, eu adoro algumas músicas do Vandré e hoje em dia gosto dele, tudo bem.
Mas, de fato, tivemos uma briga por causa de uma bobagem: ele falou mal de uma
música minha, Baby, e destratou a Gal, na presença dela, numa mesa do
restaurante Patachou, em São Paulo. Então eu o expulsei da mesa. Porque ele
dizia que Baby era comercial. E eu tinha até chorado durante a gravação
de Baby, que é uma das minhas músicas que mais gosto. Aí me aparece o
Vandré, no restaurante, e pergunta à Gal como é a música. Ela começou a cantar,
mas, na terceira ou quarta frase, Vandré interrompeu: "Isso é uma
merda". Gal parou, assustada, e ele repetiu, gritando: "Isso é uma
merda!" Aí eu fiquei puto da vida e mandei ele ir embora. A nossa briga
foi assim, meio boba.
PLAYBOY —
Vocês ficaram sem se falar até quando?
CAETANO —
Até Londres. Mas eu sempre gostei muito de Disparada. Só não gostei
daquele negócio de Caminhando e não sei o quê... Eu não gostava daquilo,
com toda aquela gente no Maracanãzinho se balançando de um lado para outro...
PLAYBOY — A
música de que você está falando é a Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores?
CAETANO — É,
uma valsinha esquisita, com a platéia toda cantando... caminhando, cantando e
seguindo a canção. E balançando de um lado para o outro. Sabe, aquilo me
lembrou o nazismo, eu achava muito esquisito... Mas conheço pessoas geniais que
acham aquilo genial.
PLAYBOY —
Esquecida a velha desavença, qual é a sua opinião sobre o Geraldo Vandré?
CAETANO — Eu
gosto dele, acho Vandré intenso, acho que é um homem bonito. Ele era muito
bonito! E tem um clima sensual estranho, bonito, uma voz velada.
PLAYBOY —
Embora repelindo engajamentos políticos, você participou de um show pela
anistia e disse que achou muito bonito. Mas quando os jornais perguntaram por
que você havia participado, você disse que foi porque o convidaram. Mas o fato
de ter participado significa que você é a favor da anistia, porque, do
contrário, poderia ter recusado o convite...
CAETANO —
Claro!
PLAYBOY —
Ampla, geral e irrestrita?
CAETANO —
Quanto mais ampla, mais geral e mais irrestrita, melhor, né? Eu quero que
Miguel Arraes volte para o Brasil, bicho! Quando os jornalistas me perguntaram,
em Salvador, eu na verdade respondi assim: "Me assusta muito que vocês
estejam tão surpresos por ver alguém fazer uma coisa tão natural. Surpreendente
seria se fosse ao contrário, entenderam?" Porque eu, na minha cabeça, acho
que quanto mais anistia, melhor, porque eu preciso ser anistiado...
psicologicamente. O Nélson Rodrigues disse que quer a anistia por causa do
filho, eu quero por minha causa, eu quero ser solto, entendeu? [quase
gritando] Eu quero ser liberado!
PLAYBOY —
Quer todas as explicações que não recebeu quando foi preso?
CAETANO —
Quero todas as explicações. Quero a anistia total! Todo mundo quer!
PLAYBOY — Em
março de 1964 você estava com 21 anos. O movimento militar, naquela época, teve
algum significado para você? Mudou alguma coisa em sua vida, no seu modo de
encarar o mundo à sua volta?
CAETANO —
Ah... eu estava na universidade, então aquilo bateu muito forte para mim, muito
forte. Tanto que naquele mesmo ano eu abandonei a universidade, porque começou
a pintar a transação com música e também porque a universidade não estava mais
legal. Ficou triste. Na verdade, a maioria das pessoas, dos estudantes, era de
esquerda, e alguns foram presos, todo mundo se escondeu... Eu não participava
em nada da transa política, não entendia nada, porque não tenho mesmo vocação
para transação política, mas me dava com todo o pessoal que participava do
diretório... e depois fecharam o diretório... foi um trauma, porque naqueles
primeiros dias depois da Revolução não se podia sair de noite... me deu um
clima de terror, de angústia...
PLAYBOY —
Você entendia bem o que estava acontecendo?
CAETANO —
Bem, não. Eu entendia que era uma coisa ruim, que me metia medo, porque
compreendia que, com a tomada do poder pelos militares de direita, isso
resultaria em muita repressão e prisões. Sabia que muitas pessoas que eu
conhecia, legais, que eram de esquerda e que iriam ser perseguidas... as
pessoas mais inteligentes eram comunistas, pelo menos tinham uma maneira de ver
o mundo assim... de querer uma vida igualitária, mais justa.
PLAYBOY —
Passemos do geral para o particular. Você parece ter uma vida amorosa muito
estável. Está casado com Dedé há doze anos, não é?
CAETANO —
Desde 1967. Eu tenho uma tendência monogâmica. Fiquei com Dedé, estou sempre
com ela, gosto de ficar em casa, com ela e Moreno.
PLAYBOY — E
você nunca dá os seus pulinhos por fora?
CAETANO —
Muito não. Muito não. Muito pouco.
PLAYBOY —
Você revelou, quando conversamos para marcar esta entrevista, que ao compor a
música Terra estava apaixonado por uma garota.
CAETANO — Eu
estava apaixonado por uma menina cujo signo zodiacal era de elemento terra. Mas
eu estava apaixonado no momento em que fiz a música. Isso não significa que eu
tenha tido um caso com a menina, porque, às vezes, a gente fica algumas horas
apaixonado, às vezes alguns dias...
PLAYBOY —
Mas Dedé aceita isso?
CAETANO —
Sim, na medida do possível.
PLAYBOY —
Ela é ciumenta?
CAETANO — É.
PLAYBOY —
Você é muito assediado pelas garotas, não?
CAETANO — É,
mas eu não curto muita transa, não. Quer dizer [rindo] , se eu tivesse
de esconder da Dedé, não iria contar a PLAYBOY, não é mesmo?
PLAYBOY — O
que é que mais o atrai na Dedé, o que mais o prende a ela?
CAETANO —
Ela é uma pessoa cintilante. Temos uma amiga que diz isso: "Dedé, você é
cintilante!" E sempre me deu a impressão de ser uma pessoa saudável,
alegre, com quem eu sempre queria estar junto. É muito... não é fácil falar aos
outros da mulher da gente.
PLAYBOY —
Você sempre foi muito apegado à família, desde a infância. Os seus valores
familiares eram do estilo tradicional? Quer dizer, como diriam os jovens de
hoje, eram "caretas"?
CAETANO —
Eram sim. A minha gente é muito representativa da cultura do Recôncavo da
Bahia. Uma família muito calma, muito pacífica. O casamento de meus pais é
muito feliz. Acho que isso me marcou muito, marcou muito forte. A imagem do
homem junto com sua mulher é uma coisa muito forte dentro de minha cabeça.
PLAYBOY —
Você curte muito ser pai?
CAETANO —
Muito, imensamente. Curto muito meu filho e sofri muito quando morreu nossa
filha, neste ano.
PLAYBOY —
Morreu como?
CAETANO —
Sete dias depois de nascer. Era linda, parecidíssima com Moreno, a mesma forma.
E Moreno também sentiu muito, chorou muito.
PLAYBOY — A
Dedé contou que quando você estava gravando Eu Quero Mamãe, o Moreno
falou: "Não grave isso, porque vão pensar..."
CAETANO —
... "que você é um neném bobo".
PLAYBOY — A
propósito, como ele reage à imagem do Caetano Veloso que o público consome?
Como reage, quando ouve chamarem o pai de bicha?
CAETANO —
Acho que ele nunca ouviu isso não.
PLAYBOY — E
o que ele acha quando vê você cantando e dançando na TV, no teatro?
CAETANO — Ele acha legal, gosta muito, tem muito orgulho de mim. Ele me acha um barato, porque a gente é muito carinhoso em casa e nunca houve problema com esse negócio de bicha. Além do que, não acho que exista esse consenso sobre mim. Eu tenho fama de bicha pra quem?
PLAYBOY — As
pessoas mais conservadoras, na faixa dos 40 anos, ainda pensam que você é
bicha. Por causa de sua postura no palco, usando batom, roupas meio femininas e
aqueles requebros todos... Como naquele primeiro show que você fez depois que
voltou de Londres, no Teatro João Caetano e depois no Tuca, em São Paulo,
quando você fez aquela imitação de Carmen Miranda...
CAETANO — Eu
dava um toque de Cármen Miranda, uma coisa que também fiz nos shows em
Londres...
PLAYBOY — E
muita gente se apressou em rotulá-lo de homossexual.
CAETANO — O
que é uma grande bobagem. Quando eu cantava em Londres, a personalidade mais
conhecida da música popular brasileira lá era — e ainda é — Cármen Miranda.
Então eu fazia uma imitação irônica e poética do estilo dela. Ao voltar para o
Brasil, incluí essa coisa. Acontece que, em Londres, ela passava quase
despercebida, isto é, como conotação sexual era zero à esquerda, porque, com os
Rolling Stones no auge, aquela imitação da Carmen Miranda que eu fazia não
escandalizava ninguém. O público de Londres me via como um homem sóbrio, que
cantava canções brasileiras. Mas, no Brasil, aqueles trinta segundos de
imitação de Carmen Miranda se transformaram em um acontecimento escandaloso.
Mas isso por causa do arcaísmo social brasileiro.
PLAYBOY —
Chico Buarque, depois que fez aquele show com você, na Bahia, confessou sentir
uma certa inveja de sua desinibição no palco.
CAETANO [rindo]
— É porque ele não tem a curtição do palco. E o palco é isso, é fazer tudo o
que pintar. Lá podem acontecer mil coisas, você vira uma figura, depois vira
outra... Isso dá milhões de motivações para as pessoas e cria tensões entre a
sua imagem e as canções que você canta. Cria... multiplica os significados,
entendeu? Eu quero fazer um trabalho rico, isso é compromisso que tenho comigo.
Se alguém é meu filho, é filho de alguém que faz um trabalho rico, eu não vou
empobrecer meu trabalho por nada...
PLAYBOY —
Aos 6 anos, seu filho já compreende isso?
CAETANO — As
crianças vão apreendendo as coisas aos poucos. Eu acho que a criança,
inclusive, tem de ser vista como alguém que pode apresentar soluções novas,
imprevisíveis para você. Você sempre deve contar com essa possibilidade de ela
apresentar soluções inesperadas para os problemas que estão no mundo e que
ainda não passaram por nossas cabeças. Então eu acho que você deve encarar a
criança assim. Não pensar: o que é que deixo o meu filho ver, o que é que não
deixo. Eu não me preocupo com isso Acho que as pessoas são marginalizadas por
um motivo ou por outro, isso pode acontecer até no caso de uma postura
política.
PLAYBOY —
Como assim?
CAETANO —
Por exemplo, o pai é comunista e, na escola onde o filho estuda, dizem a ele, o
tempo todo, que o comunismo é abominável, terrível. De repente o menino
descobre que o pai é comunista. Você acha que o pai deve reagir assim:
"Não, eu não vou ser mais comunista, porque não quero assustar meu
filho"? É claro que tem fases em que a criança fica contra... um dia,
Moreno me disse: "Pai, por que você nunca usa paletó e gravata?" É
que havíamos feito uma viagem à Europa, eu e Dedé, e Moreno ficou com os avós,
os pais de Dedé. Acontece que meu sogro trabalha num banco e todo dia vai para
o trabalho de paletó e gravata. Então, Moreno me disse assim: "Pô, meu
pai, você não trabalha, não usa paletó nem gravata". Eu expliquei que
também trabalhava no show. Mas ele não se satisfez: "Ah, mas trabalhar só
em show? Trabalhar tem de ser todo dia, na mesma hora". Quer dizer, ele
está descobrindo as coisas da vida.
PLAYBOY —
Voltando à questão de sua postura no palco, você reconhece que todos nós temos
um lado feminino e outro masculino. Mas algumas pessoas têm mais facilidade em
soltar o outro lado. O Chico, por exemplo, consegue fazer isso muito bem
através das suas músicas, mas se contém, reprime-se no seu comportamento em
público, no palco. Você, ao contrário, se desinibe totalmente, tanto nas
músicas como na vida e no palco. A que você atribui essa sua maior
desenvoltura?
CAETANO — Eu
sou assim, já cheguei com uma transação feminina...
PLAYBOY — O
Chico tem músicas em que ele é a mulher...
CAETANO —
Acho que a gente tem de agradecer a Deus que o Chico expresse o seu lado
feminino através das canções. É muito mais do que quem não expressa de modo
algum, não é? E ele expressa isso de uma forma extraordinária. As canções de
Chico no feminino são lindas!
PLAYBOY —
Mas no comportamento pessoal ele é contido, ao contrário de você.
CAETANO — É
que eu sempre tive uma transa com o feminino. Tenho uma identificação feminina
forte, e reconhecida por mim desde menino. Seu eu reprimisse isso, seria
realmente uma repressão consciente... enquanto o Chico talvez nunca tenha tido
essa transação com o feminino. Ela começou a aparecer em suas canções, mas,
mesmo assim, no começo ele não gravava as músicas que fazia no feminino...
PLAYBOY —
Ele mesmo nos confessou isso...
CAETANO —
Pois é, mas depois ele começou a gravá-las. Eu notava aquilo e pensava:
"Pô, por que o Chico não canta Com Açúcar, Com Afeto?"
PLAYBOY —
Você já teve alguma vez, ou admite que possa vir a ter, experiências
homossexuais?
CAETANO — Eu
admito que todo mundo possa ter. Mas não levo vida homossexual, não. Minha vida
sexual é heterossexual e monogâmica, essa é a base da minha vida sexual. Se bem
que eu não deveria estar falando disso assim... publicamente, porque há pessoas
que ou precisariam mentir ou se expor a injustiças, enquanto eu posso estar
aqui falando com tranqüilidade, porque para mim é fácil dizer: não, eu vivo com
minha mulher, a minha vida sexual é essa mesmo.
PLAYBOY —
Estávamos falando há pouco sobre as diferenças entre você e Chico Buarque. Como
é o seu relacionamento com ele?
CAETANO — No
começo a gente era um pouco tímido um com o outro. Mas hoje em dia já nem
tanto. A gente tem se encontrado muito, no Rio...
PLAYBOY —
Por que essa timidez mútua?
CAETANO —
Não sei... eu acho que era... talvez fosse... medo de um odiar o outro [risada]
por inveja. Ou medo de admirar demais, ou de demonstrar um carinho que às vezes
um não sente pelo outro quando estamos distantes, demonstrar de um modo que soe
falso, enfim... tem muitas coisas complicadas... Mas isso já dançou... A gente
já trabalhou junto e tal... Está tudo bem.
PLAYBOY —
Fizeram juntos a canção Vai Levando. E qual foi a participação de cada
um na música e na letra?
CAETANO — O
Chico escreveu uns versos que diziam "vai levando", ou "a gente
vai levando". Ele me deu aquilo, a idéia do "vai levando". Ele
me deu para eu dar uma sacada. Eu então pensei: bem, a gente vai levando o quê?
Então fiz assim, procurei um objeto para ser levado. E botei: "a gente vai
levando essa chama, a gente vai levando essa guia, a gente vai levando
essa"... qual é mesmo a outra coisa? Ah... "a gente vai levando essa
gema". E fiz a melodia e a letra com essa idéia da primeira parte, da
segunda e do final. E Chico fez a melodia e a letra daquela parte que diz: "mesmo
com o nó no peito, com a sala escura, com a cara dura".
PLAYBOY —
"Com toda brama"...
CAETANO —
Não, a brama fui eu que botei...
PLAYBOY —
Entre as músicas que você fez em parceria, só como letrista, quais as que mais
o agradam?
CAETANO —
Há uma, por exemplo, que fiz com João Donato, que se chama Naturalmente,
que eu acho linda. Até o Chico Buarque elogiou, ele me disse que gostou muito e
é uma coisa muito rara o Chico elogiar alguma coisa...
PLAYBOY —
Alheia?
CAETANO —
Não, mesmo quando é dele. Chico não gosta de elogiar. Aliás, acho que isso é
típico das pessoas de Gêmeos... elas são muito econômicas nos elogios, se
vendem muito caro...
PLAYBOY — De
que signo você é?
CAETANO — Eu
sou de Leão, adoro elogiar. Fico esperando uma oportunidade para fazer a corte
a quem quer que seja. Eu adoro dizer coisas ótimas para as pessoas, eu sou bem
Leão. Adoro dizer que gosto, procuro sempre o lado mais lindo das coisas, para
elogiar. Isso é uma coisa de Leão, sabe?
PLAYBOY —
Excluindo você, Chico, Jorge Ben, Gil, Edu Lobo, todo esse pessoal da sua
geração, quais são, na sua opinião, os maiores compositores populares do
Brasil?
CAETANO —
Excluindo todos, de Edu até hoje, mas incluindo Tom Jobim, Carlos Lyra, o
pessoal da bossa nova?
PLAYBOY —
Isso mesmo.
CAETANO — Dorival
Caymmi, bicho! Caymmi é o maior, é o maior!
PLAYBOY — E
além dele? Noel Rosa?
CAETANO — Eu
gosto de Assis Valente, tremendamente! E de Geraldo Pereira.
PLAYBOY —
Você admite ter sofrido influência musical de alguém? De João Gilberto?
CAETANO —
Sem dúvida!
PLAYBOY — E
de Caymmi?
CAETANO —
Sem dúvida, também. Caymmi, para mim, é o genial total. É o mais genial deles
todos. Meu mestre é Caymmi. Como ele, eu sempre preferi, ao fazer uma canção,
que surgissem juntas a letra e a música. Pois o que acho mais lindo é essa
fluência, esse vínculo harmonioso entre o som das palavras, seu sentido, e as
frases musicais. Quando eu disse: "Minha palavra cantada, aos seus ouvidos
pode parecer exótica", na música Muito Romântico, foi conscientemente,
pois tenho necessidade de fazer uma coisa que seja a palavra cantada. Minha
base é a palavra cantada, ela é a matéria-prima, a transação da música popular.
Acho que quem faz isso à perfeição, hoje em dia, é o Chico Buarque de Holanda.
PLAYBOY — Há
algumas canções suas cujas letras, independentemente das melodias, são belos
poemas. Você tem consciência disso?
CAETANO —
Não posso lhe responder com segurança, eu nunca fiz poesia na minha vida, a não
ser para letra de música. Hoje em dia, sequer escrevo as letras das minhas
músicas, faz muito tempo que não escrevo. Eu só gravo as letras, vou cantando,
repetindo, repetindo. Só faço música cantando. Todas elas...
PLAYBOY —
Você vai gravando?
CAETANO —
Somente na memória, sem gravador.
PLAYBOY — E
consegue lembrar tudo depois?
CAETANO —
Nem sequer tenho um gravador. E nunca escrevo as letras. Vou repetindo,
repetindo, até decorar.
PLAYBOY — Sampa,
Terra, Tigresa, todas essas você fez a letra assim, sem escrever
nem gravar?
CAETANO —
Cantando.
PLAYBOY — Cantando?!
CAETANO —
Foi. Sampa eu fiz letra e música junto, mas a música de Tigresa eu
fiz antes. Fiz a melodia, ficava tocando e não tinha a letra. Então fiquei
batendo no violão, e fui cantando a letra, que me foi sugerida pela palavra
tigresa, aí foram saindo os versos...
PLAYBOY — Terra
também saiu assim?
CAETANO —
Ah, essa é uma exceção. Terra eu escrevi. Mas não a versão final. Eu
anotei aquele tema no dia em que assisti Guerra nas Estrelas. Cheguei em
casa e escrevi, porque eu queria fazer uma música sobre a Terra. Quase todas as
coisas que tem na letra Terra estavam naquele texto inicial. Mas não com
a mesma métrica, as mesmas palavras. Acontece que eu fui para o Rio e esqueci o
papel em Salvador. Aí eu peguei o violão e, de memória, tentei cantar as mesmas
coisas que eu havia anotado. Fui cantando e a coisa ficou da forma como foi
gravada.
PLAYBOY —
Outra coisa: você poderia explicar ao leitor de PLAYBOY o que significa a
palavra odara?
CAETANO — É
uma palavra que se usa na Bahia, principalmente entre os pretos, em áreas de
candomblé, e em Itapoã, onde mora muita gente preta. É uma palavra de origem
africana, mas como termo corrente ela quer dizer bonito, bom, bacana, legal...
PLAYBOY — Em
algumas de suas letras você revela uma certa inclinação mística, um fascínio
pelo esotérico...
CAETANO —
Menos que o Gil...
PLAYBOY —
Menos. Mas qual é seu grau de religiosidade? Seu relacionamento com Deus?
CAETANO —
Fui criado na religião católica e na proximidade do candomblé, principalmente
durante minha primeira infância. E até hoje eu tenho medo do transe. Por isso é
que não fumo maconha, não tomo droga nenhuma, tenho um medo horrível de sair do
meu estado normal. Tenho medo de entrar em transe, de ser possuído por outras
entidades... Mas eu sinto de fato uma sensação mística, uma sensação de entrar
em comunhão com alguma coisa transcendental... De todo modo, toda religiosidade
me interessa... Tem mais uma coisa: durante um tempo eu pensava que era ateu,
passei uma época pensando assim... mas é como me disse um amigo outro dia:
"Eu não creio em Deus, mas eu vi" [risada]. Então é isso,
entendeu? Eu adoro candomblé, sinto muita identidade com a religião do
candomblé...
PLAYBOY —
Qual é o seu santo?
CAETANO — Eu
sou de Oxóssi. Mas há *também muitos mitos católicos que permanecem fortes na
minha cabeça até hoje.
PLAYBOY —
Você ainda freqüenta a Igreja Católica?
CAETANO —
Não, mas o Cristo é uma figura que tem ainda muita força para minha cabeça.
Principalmente a Virgem Maria, eu acho linda aquela mulher que não morreu,
subiu aos céus direto, né?
PLAYBOY — Há
mais alguma coisa que você gostaria de dizer? Alguma coisa para encerrar nossa
conversa?
CAETANO —
Nada, acho que a gente falou tanta coisa! Foi legal nossa conversa, mas teve
momentos em que eu fiquei angustiado. Quando me vi falando em prisão, em
imprensa, em homossexualismo, maconha, eu de repente pensava: Meu Deus, falar,
falar, falar, não é nada disso, entendeu? Aí me dava uma angústia, me dava
vontade de dizer a você: Desista de fazer isso, me deixa um tempo sem dizer
nada a ninguém, não há nada a dizer, está tudo certo!
PLAYBOY —
Como dois e dois são cinco?
CAETANO — É,
cinco ou quatro, ou sete, ou doze... tanto faz [risada]...
Adorei o post,pena que no final ficou meio dífícil decifrar as letras.
ResponderEliminar