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sábado, 19 de septiembre de 2020

1991 - CIRCULADÔ

 

1991
Revista Veja
Ano 24 – n° 49
Edição n° 1.211
4 de dezembro de 1991




















1991
Revista ISTOÉ
n° 1158
4 de dezembro de 1991

















sábado, 1 de septiembre de 2018

2004 - MALÚCIDO








2004
Revista ISTOÉ
07/04/2004
Edição n° 1800

Pág. 86-90



CULTURA

MALÚCIDO
Mistura de maluco
e lúcido, nas suas 
palavras, Caetano Veloso 
continua o mesmo 
provocador nas 
opiniões e no trabalho, 
como prova seu recente 
álbum A foreign 
sound, uma primorosa 
viagem por clássicos 
americanos

Apoenan Rodrigues
Colaborou: Luiz Chagas
07/04/04


Durante os verões quentes da sua infância na cidade baiana de Santo Amaro da Purificação, onde nasceu, Caetano Veloso lembra que ouvia tocar no rádio, nas festas, nos bailes, uma música em inglês cheia de ginga latina, hoje entendida como a idéia que os americanos fazem do que seja uma música latina. “Assim meio cubana, meio querendo ser brasileira, sem saber o que é isso”, intui o cantor e compositor. A canção chama-se Carioca (The carioca) e é parte da trilha sonora do filme Voando para o Rio (1933), protagonizado pela lendária dupla de atores-dançarinos Ginger Rogers e Fred Astaire. Excessiva como todas as fitas de Hollywood daquele tempo, os dois rodopiam à frente de uma réplica do mítico hotel Copacabana Palace fazendo da cena um acontecimento alegre e extremamente brega que até hoje fascina Caetano. Tanto que é o carro abre-alas do aguardado disco A foreign sound, todo composto de canções americanas que estão no imaginário de qualquer pessoa. Com lançamento simultâneo no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos e no Japão previsto para a quinta-feira 8, o CD aporta rebocando mais uma vez a destreza de Caetano Veloso para tirar o pó de clássicos sonoros, destampando belezas encobertas e criando novas leituras com interpretações cada vez mais lapidadas que já o transformaram num dos melhores cantores nacionais.

É também um trabalho que marca ineditismos na sua carreira. Pela primeira vez ele terá um lançamento com plano de marketing, incluindo prioridade no Exterior, como afirma o diretor-geral da gravadora Universal Music, Jose Éboli. 

Neste esquema de divulgação, da segunda-feira 5 até a sexta-feira 9, Caetano recebe em Londres jornalistas enviados de 13 países interessados em entrevistá-lo sobre o novo álbum.

E nos dias 16 e 17 estará no Carnegie Hall de Nova York. “Caetano é um dos ícones da música brasileira e para a Universal é o maior artista brasileiro de todos os tempos”, derrama-se Éboli. “Independentemente da importância histórica, ele é um artista que sempre surpreende, que continua provocando.”

Parte desta provocação está contida no disco que, na definição de Caetano, mistura o refinamento da bossa nova com a ironia do tropicalismo. São 23 faixas de puro deleite, apresentando um repertório eclético, porém coeso, que inclui de Cole Porter a Nirvana, de Bob Dylan a Irving Berlin. Na Europa, além do CD corriqueiro, será lançado um Superaudio CD de tecnologia de ponta com 24 faixas. No Brasil, chega às lojas um DVD Audio – aquele com menu interativo para quem tem home theater –, também de 24 faixas. É o segundo na carreira do artista. O primeiro faz parte da caixa Todo Caetano, de janeiro de 2003. Em maio, acompanhado de orquestra, ele ainda grava um DVD de imagens na luxuosa Sala São Paulo, arrematando o pacote A foreign sound, cujo show deverá sair em excursão pelo País.

A idéia de gravar um álbum só com canções em inglês é acalantada há muitos anos. Bem antes do incensado Fina estampa, de 1994, no qual ele canta 15 clássicos em língua espanhola. Com paixão e modéstia, Caetano Veloso, hoje com 61 anos, falou a ISTOÉ sobre o novo disco, amenidades e vida cultural em meio a uma maratona de ensaios. Foram dois encontros, um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo, ambos à noite. Quando não está de férias, ele costuma dormir pelo menos até às cinco da tarde. “Gosto muito de conversar à noite, das luzes da noite”, diz. “Adoro a boêmia, adoro cerveja, embora não beba. Só no Carnaval, bebi durante uma noite inteira e não fiquei de porre.” Cerveja talvez seja uma das poucas bebidas alcoólicas para a qual Caetano faz concessão. Vinho, para ele, é a pior que existe. “Champanhe, então, acho horrível. Vodca, já bebi com muito prazer, mas vivia de ressaca.” Verdadeiramente, a bebida que nunca saiu da sua carta é Coca-Cola.

Feras – Foi entre pequenos goles no copo do refrigerante morno, que ele ensaiou no estúdio de Gilberto Gil, no Rio, em companhia de um time de cinco instrumentistas feras comandados por Jaques Morelenbaum, com quem divide a direção musical do CD. Para chegar ao repertório final, o artista passou por um processo dolorido. Ficaram de fora canções de gente como Prince, James Taylor e Bob Marley. O maestro Morelenbaum, que há 13 anos trabalha com o cantor, é testemunha. “Caetano detesta álbum duplo, e este é um projeto muito amplo, de um universo gigantesco que durante nove meses causou nele um sofrimento enorme, até nascer este filho multifacetado.”

Estar sob o crivo de Caetano Veloso às vezes também pode ser extremamente prazeroso. Para deixar o ambiente relaxado, não raro ele caça no baú de memórias histórias da sua vida, quase sempre associadas à música, como a que ele contou no estúdio carioca entre uma e outra passagem da canção Nine out of ten, originalmente gravada no disco Transa (1972) e que estará no repertório do show nova-iorquino. A música tem uma forte levada reggae. Lembrou, então, dos seus primeiros contatos com o ritmo quando, exilado, morava em Londres perto de Portobello Road, local de encontros multirraciais e multiculturais. “Ficava um monte de gente preta tocando aquela música e eu me perguntava ‘que bloco é esse?’ Os skinheads adoravam. Eles batiam em viado, em paquistanês, só não batiam em preto por causa do reggae. Eu morria de medo deles. Com cabelo comprido e essa cara de paquistanês, mudava de calçada cada vez que via um bando de skinheads.” Bem ao seu estilo, Caetano também gosta de comentar assuntos que o incomodam. Nestes momentos, frisa Morelenbaum, ele se insufla, eleva o tom de voz. “É como se estivesse falando para uma multidão e são apenas dois companheiros de música ouvindo.”

Aberto a novas experiências musicais – ele conhece a maioria das bandas novas de rock –, Caetano procura se cercar de músicos jovens. Entre eles o guitarrista Pedro Sá, 31 anos, os multiinstrumentistas Kassin, 30, Domenico e o filho Moreno Veloso, ambos de 31. Todos de alguma forma ligados ao novo empreendimento sonoro. “Ele é muito caxias e cobra o melhor de todo mundo”, conta o monossilábico Moreno. “Caetano é muito perfeccionista e leva este astral para toda a banda”, endossa o moderno Domenico, que tem tatuada no braço direito a palavra Liublio (algo como amo o som), título de um poema de Maiakovski, escrita em caracteres cirílicos.

Além da antena plugada nas novidades, Caetano continua detalhista. Assim como fez em Fina estampa, caprichou no sotaque das canções em inglês. No processo, contou com a ajuda de Duncan Lindsay, irmão do cantor e compositor Arto Lindsay, como ele um americano criado em Pernambuco. Queria entender melhor quais são as expressões consagradas e quais o autor inventou. Um bom exemplo é o título do disco, A foreign sound (som estrangeiro) –perfeito para o conceito e intenção do trabalho – que foi tirado de um dos versos da quilométrica canção It’s alright, ma (I’m only bleeding), de Bob Dylan. É uma expressão de força mais poética do que corriqueira. “Duncan quis trabalhar meu sotaque, mas eu não o ajudei muito”, brinca.

Prestígio – Ao contrário do que se possa imaginar, Caetano afirma não estar cultivando grande expectativa em relação ao CD. “Apesar de ser um disco muito sincero, com um comentário implícito da minha vivência dessas músicas no Brasil e do Brasil através da vivência dessas músicas, e da altíssima qualidade dos músicos, não olho para ele como sendo um incremento da minha popularidade. Se eu quisesse estar atento à manutenção do status conseguido, talvez evitasse fazer um negócio assim”, diz ele, que há algum tempo desfruta de prestígio junto à crítica internacional e às pessoas ligadas em sons alienígenas.

Ao longo dos anos, além de créditos Caetano conquistou amizades com pessoas de altíssima importância na formação de opinião. Uma delas é David Byrne. “Acho que Caetano fez este disco à sua maneira idiossincrática e não está seguindo o modelo Julio Iglesias. Para um nova-iorquino, sua seleção de canções é parte surpreendente, parte óbvia (Cole Porter) e parte peculiar e até perversa (Feelings)”, disse Byrne a ISTOÉ. Outro amigo-fã é o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que invariavelmente passa temporadas na espaçosa casa de veraneio que o compositor mantém em Salvador. “Quando escutei sua versão de Love for sale (eu diria subversão, por conta do risco) fiquei paralisado como Anjelica Huston em Os vivos e os mortos, quando ela desce uma escada e escuta uma canção que a faz lembrar um amor de juventude que a amou até ficar doente e morrer. Mas minha paralisia era de gozo e assombro”, contou Almódovar a ISTOÉ. A lista de celebridades internacionais em sintonia com o trabalho de Caetano Veloso ainda se estende à atriz Candice Bergen, à escritora indiana Gita Mehta e até a Richard Gere, que o conheceu no início da década de 1980, quando era casado com a pintora brasileira Silvinha Martins. A admiração de Gere é tamanha que na festa da revista Vanity Fair – acontecida depois da entrega do Oscar de 2003, quando Caetano cantou o tema do filme Frida –, o ator não só se entregou aos rapapés como beijou a mão do baiano.

Capri – São muitos os admiradores mundo afora, especialmente na Itália e na França, países onde ele tem maior penetração. O cantor italiano Lucio Dalla já o ciceroneou em uma cinematográfica visita a Capri, com direito a passeios em superlancha pelos mares azuis-andorinha da região. Michelangelo Antonioni, que nos anos 1990 o conheceu no Brasil, num jantar na casa do diretor Cacá Diegues, tornou-se seu fã após ouvir uma de suas canções. Depois ficaram amigos. Caetano até compôs em italiano a música Michelangelo Antonioni, incluída no disco Noites do norte (2000). A retribuição aconteceu de imediato. Quando completou 89 anos, em 29 de setembro de 2001, o diretor de A noite produziu uma grande festa de aniversário na sua residência de verão em Trevi. Na capa do cardápio estava impresso: “Almoço de gala para Caetano Veloso em casa de Michelangelo Antonioni no dia de seu aniversário.”

O êxito e o crescimento profissional, evidentemente, se calçam no talento do artista. Mas a ascensão financeira, contam nos bastidores, em muito se deve ao seu casamento com Paula Lavigne, que sabiamente abandonou a carreira de atriz para se dedicar à de empresária. Dona da Natasha Produções, ela hoje mantém um selo musical próprio, se embrenha na produção de cinema – vem com sua marca o sucesso Lisbela e o prisioneiro – e empresaria o marido, entre outras atividades. Conhecida nas internas como General, tal o pulso firme com que leva adiante sua empresa e seus contratos, Paula abriu os olhos de Caetano para cultivar um bom legado. Ele é dono de um apartamento na avenida Vieira Souto, em Ipanema, zona sul do Rio, um dos mais caros metros quadrados do Brasil; da bela casa em Salvador; e de um apartamento no sul de Manhattan, só para citar alguns dos seus bens. No Rio, circula num Audi blindado – Paula num BMW, também blindado. Seu cachê hoje varia entre R$ 80 mil e R$ 100 mil, o que o entroniza entre os artistas mais poderosos do País.

Caetano Veloso também é nome de status na relação comercial de interesses. Quando está em São Paulo, seu endereço e o de Paula é o exclusivo hotel Fasano, onde se hospedam na nobilíssima suíte número 1701, que permanece trancada com as roupas do casal. Pelos 120 metros quadrados de luxo e conforto, normalmente paga-se a diária de R$ 2.655. Mas pela amizade de Paula com João Paulo Diniz, sócio dos empreendimentos Fasano, a hospedagem é total cortesia. Assim como os jantares com vasto número de amigos no restaurante do hotel, onde a conta de uma refeição pode exceder os R$ 500 para um casal.

Cinema – Sagacidade e tino comercial fazem parte do caráter empresarial de Paula Lavigne. São características que, de certa maneira, suprem a falta de pragmatismo de Caetano no assunto. Ele é essencialmente um pensador, que adora discutir e palpitar em todas as áreas, sempre com frases veementes e idéias defendidas com rugidos leoninos. Quando a conversa chega no cinema, arte da qual foi crítico na juventude, é capaz de ficar horas dissertando sobre o trabalho de diretores nacionais e internacionais. “Apesar da minha grande admiração por Glauber Rocha, eu tinha muitas reservas em relação ao conjunto da obra dos cinemanovistas. Achava que eles estavam atados a questões do nosso subdesenvolvimento que não conseguiam superar. Se escoravam numa atitude intelectual e política exigentes ou pretensiosas. Era uma ambição desmedida, mas chamou a atenção da crítica européia e acabou formando cineastas de trabalhos relevantes. Todos eles se adestraram mais dos anos 1970 em diante, passando a fazer filmes mais bem-acabados e mais comerciais. Cacá Diegues, por exemplo, tem uma obra de peso. De todos os filmes destes últimos dois anos, o que mais me tocou é Deus é brasileiro.”

Seus pensamentos sobre a sétima arte podem ser melhor destrinçados no único filme que dirigiu, O cinema falado, um exercício verbal em imagens cujo recente relançamento em DVD ele coloca no mesmo patamar de importância do novo disco. É neste filme que Caetano destila seus questionamentos estéticos e declara sua paixão pelo diretor italiano Federico Fellini, por ele colocado entre os grandes de todos os tempos. Há algo de religioso na visão de arte de Caetano. Religioso no sentido da prática, do exercitar artístico com determinação, porque em relação às crenças o cantor já se assumiu publicamente um ateu. Em especial na inédita canção Diferentemente, apresentada às exclusivas platéias que, em dezembro passado, pagaram R$ 500 por cabeça para vê-lo de perto em shows beneficentes no paulistano bar Baretto.

A convicção atéia pode até ser interpretada como uma contradição, quando se pensa na sua ligação atávica com o candomblé. “Tenho um temperamento místico, cresci em ambientes impregnados de rituais católicos. Assumi responsabilidades ritualísticas, mas isso não me transformou numa pessoa religiosa”, justifica. Aliás, definir o compositor, cantor, escritor, pensador, cineasta, ator e artista plástico esporádico é tarefa difícil até para o próprio. Para facilitar, Caetano Veloso se autodenomina um malúcido – neologismo com as palavras maluco e lúcido. Sua pátria é sua língua




martes, 18 de octubre de 2016

1996 - CAETANO, o polêmico



  


1996
Revista ISTOÉ
Edição nº 1.389 – 15 de maio de 1996

Fotos: Pedro Agilson



Caetano,
o polêmico

O cantor prepara seu primeiro livro
e fala com exclusividade a ISTOÉ







Outras 
     palavras

Caetano Veloso escreve
livro sobre os anos 60 e
não abandona a polêmica

APOENAN RODRIGUES


Poucas pessoas sabem do pavor que Caetano Veloso sente de baratas. Os militares da ditadura da qual ele e centenas de outros presos políticos foram vítimas também não sabiam. Mas era como se soubessem. Na semana em que passou encarcerado incomunicável na solitária minúscula e fria do quartel da rua Barão de Mesquita, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, o baiano teve uma visão aterradora. Aninhado sobre um cobertor do Exército que, dobrado sobre o chão, fazia as vezes de cama, Caetano avistou o inseto passeando pela parede iluminada apenas pela luz que entrava do corredor. "Fiquei apavorado", conta ele. "Imediatamente chamei o guarda e falei: 'Olha, aqui dentro tem uma barata.' Ele foi maravilhoso, viu que eu estava com medo, aproveitou que o oficial estava dormindo, pegou a chave da cela e matou a barata. Eu sou eternamente grato a ele." Caetano Veloso, hoje com 53 anos, nunca tinha tornado esta história pública. Queria reservá-la para o livro que há mais de um ano vem desordenadamente escrevendo num laptop Macintosh. Ainda sem título, a estréia literária do polêmico artista rondará a riquíssima década de 60. "Será parte autobiográfico, parte crônica, parte um ensaio sobre as manifestações culturais do País." 







O livro do cantor, compositor, cineasta, ex-crítico de cinema, ator e artista plástico esporádico, modelo recente, e agora escritor foi uma encomenda da editora americana Alfred Knopf, que entrou em parceria com uma outra editora brasileira. O editor George Andreous ficou encantado com um artigo que Caetano escreveu para o jornal The New York Times, em 1991, falando da revitalização estética que Carmen Miranda provocou nas cabeças dos líderes do movimento tropicalista e da importância artística da performer que conquistou a América do Norte com seu estilo peculiar. Depois de ler o enorme ensaio, bem no estilo caudaloso do autor de Alegria alegria, Andreous propôs que o baiano produzisse algo sobre o período da contracultura no Brasil. "Ele viu no artigo o esboço de uma mesma história que aconteceu nos Estados Unidos, França e Inglaterra, mas que no Brasil ainda não tinha sido contada." O resultado deste passeio da memória do mais inquieto compositor nacional em breve estará nas livrarias americanas e brasileiras. 








Caetano não sabe calcular exatamente quanto já escreveu. Habitualmente intenso nas suas descrições, acredita que deva ter o equivalente a cerca de 500 páginas. O curioso é que por ser um livro de não-ficção, tudo até agora registrado só veio das suas lembranças. Nada ou quase nada foi pesquisado. Quando começou a rabiscar os primeiros trechos que falam do impacto da chegada da bossa nova à sua cidade natal, Santo Amaro da Purificação, ele pensava mergulhar em vasto material escrito e nas entrevistas que normalmente se faz neste tipo de projeto. "Não consegui rever os filmes nem reler os livros", reclama. "Agora é tarde." Ele só vai conferir as datas. Para não esquecer, ao lado de cada uma delas colocou um ponto de interrogação. "Eu sou uma pessoa sem método, escrevi muita coisa, mas não sei que tipo de unidade posso dar a elas. Não sei o que vou cortar, embora saiba que muito daquilo não vou usar", diz Caetano, que afirma não ter contratos assinados com nenhuma das duas editoras.

O processo um pouco caótico do livro que já nasceu com a aura de cultuado não envolve apenas a parte burocrática. Até o verão deste ano, que passou na sua casa em Salvador, Caetano não havia arquivado em disquete uma linha. Foi preciso que amigos interferissem. "O meu computador é daqueles que entram num outro grande, ele não aceita disquete", diz ele, demonstrando não ter grandes afinidades com a informática. "Algumas coisas eu perdi e outras apaguei sem querer." Diferente de Chico Buarque - que numa maneira muito própria e sofisticada guardou um bom período da sua produção literária para se trancar no seu apartamento em Paris e terminar os livros Estorvo, de 1991, e o mais recente Benjamim, de 1995 -, Caetano Veloso não reservou momentos especiais para se dedicar à nova atividade. "Eu nunca quis escrever um livro porque não sabia que tipo de livro podia ser, apesar de gostar de escrever. Agora tenho que me deparar com uma situação para a qual não estava preparado", confessa.

As principais queixas do cantor são a falta de tempo e o desleixo. Depois de gravar, em 1994, o maravilhoso disco Fina estampa, no ano seguinte saiu em turnê nacional com o show homônimo atualmente em temporada no Canecão carioca. No espetáculo ele desfia um irretocável repertório de canções em espanhol e português que desembocou no álbum Fina estampa ao vivo, um sucesso de 180 mil cópias vendidas que se soma a mais 280 mil do gravado em estúdio. Até a semana passada, dava os retoques finais na trilha sonora que compôs para Tieta, filme de Cacá Diegues previsto para estrear em agosto, com Sônia Braga, Marília Pêra e Chico Anysio no elenco. "Fiz dez temas e deles as variações para a música incidental." A trilha deve sair em CD. Será seu 25o. disco solo, sem contar coletâneas e parcerias com outros cantores.

A empolgação de Caetano pelo cinema não é recente. Antes de tentar a carreira artística no Rio de Janeiro e São Paulo, foi um contumaz crítico de filmes no tablóide O archote, de Santo Amaro da Purificação, no período de 1960 a 1962. Por trás das câmeras dirigiu o experimental Cinema falado (1986), alvo de comentários vorazes. E à frente delas atuou em Tabu (1982) e em O mandarim (1995), ambos assinados por Julio Bressane. Sem contar a participação em O demiurgo, um média-metragem cabeça de Jorge Mautner feito enquanto Caetano e Gilberto Gil amargavam exílio político em Londres, de 1969 a 1972.

Por ser multifacetado nas suas atividades, o baiano vive atormentado e atormentando quem cruza sua determinação leonina. Usina de polêmicas, tudo o que Caetano fala reverbera com a mesma intensidade de suas músicas. Um de seus maiores desafetos é o poeta carioca Bruno Tolentino, 55 anos, que criticou o fato de compositores da música brasileira serem estudados em escolas do mesmo jeito que Manuel Bandeira e Machado de Assis. "Depois que o chamei de débil mental ele resolveu escrever um livro. O Brasil é o único lugar onde compositores se passam por poetas e nenhum deles desencoraja seus próprios papéis", ataca Tolentino. "Caetano se julga uma espécie de sábio, o Göethe de Santo Amaro da Badalação. O Chico Buarque pelo menos tem formação cultural, mas é um mau escritor, já está velho para constituir uma obra literária."

O crítico literário Wilson Martins também falou mal de Chico, apontando fragilidades no seu romance Benjamim num artigo publicado no jornal O Globo, na época do lançamento do livro. Foi o suficiente para Caetano sair em defesa do amigo e vociferar em recente entrevista a Pedro Bial, no Fantástico da Rede Globo, que Martins não era "digno de lamber o chinelo de Antonio Candido" - o mais respeitado crítico literário do País. "Ele foi um pouco agressivo, ficou no plano emocional e não faço críticas no plano pessoal", rebate Martins. "Como o primeiro livro do Chico saiu bem escrito, e nenhuma publicação teve coragem de abrir espaço para os ressentidos o xingarem, no segundo esse problema já tinha passado. Aí disseram: 'Chama o canalha e ele escreve sobre o Chico', foi assim", defende Caetano. "Parece um crime a gente trabalhar em outra área. Quem é responsável pela alta cultura? Esses jornalistas mal educados, que só dão patadas para dizer que estão defendendo o refinamento? Não, não abaixo a cabeça para essa gentalha." Oposto do temperamento explosivo do baiano, Chico Buarque contemporiza. "Caetano é um pensador apaixonado, sempre foi muito enfático. Paralelo ao seu talento como artista ele se destaca pela lucidez e perspicácia."

Quando se trata de defender seu ponto de vista, Caetano Veloso nunca é econômico nos adjetivos fortes. Normalmente suave num contato mais próximo, ao se sentir cutucado seu tom de voz se transforma. As veias crescem no pescoço, as sobrancelhas arqueiam. O leão não só de signo ruge. Fica mais alto que seu 1,70m. Mais encorpado que seus atuais 57 quilos. Nestas ocasiões não sobra aconchego nem para o presidente Fernando Henrique Cardoso, em quem votou. "Não é admissível o que aconteceu no Pará. Fernando Henrique Cardoso deveria ter imposto uma atitude que desencorajasse isto. Fernando Henrique Cardoso é culpado pela chacina no Pará", dispara, lembrando que numa entrevista a ISTOÉ, em outubro de 1994, afirmou que o maior desafio do presidente seria a reforma agrária. "Mas acho um bom sintoma termos elegido Fernando Henrique Cardoso, porque é um homem com um histórico bonito e que foi eleito por causa do Plano Real. De todas as lideranças da América Latina atualmente é ele quem consegue vencer a inflação de maneira mais duradoura."

Em relação ao senador Antônio Carlos Magalhães, com o qual mais constantemente alterna farpas e elogios, Caetano é bem menos condescendente. "O que ele faz com a prefeita de Salvador é injusto e desigual, brutal e desumano. Antônio Carlos destrói quem quer destruir porque ali é o pedaço dele, só que ele não é meu dono nem da Bahia. Precisamos nos livrar de pessoas como Antônio Carlos", determina Caetano, que tem envolvimento direto com o Projeto Axé, que cuida dos meninos de rua de Salvador - os R$ 150 mil vindos da Caixa Econômica Federal como apoio ao seu espetáculo foram repassados à campanha. A contundência de Caetano Veloso é compreendida por seus mais próximos. Gilberto Gil reconhece que antes de tudo Caetano "é a pessoa mais inteligente" que ele conhece. "É um arauto de determinadas idéias e propostas intelectuais e comportamentais e tem uma enorme capacidade afetiva", diz o parceiro e amigo de décadas.

Gal Costa tem com ele uma sincronia quase telepática. Ela atribui a Caetano sua opção pela carreira artística. "Quando ele compõe para mim, é como se um estivesse conversando com o outro." A admiração, mesmo entre amigos, muitas vezes se mistura com respeito. É preciso saber administrar a oscilação do humor caetanal. "Ele já me chamou para ler o livro dele e eu ainda não fui. Deve estar queixoso comigo. Na verdade tenho muitas dificuldades em incomodá-lo, respeito suas rotinas, seus hábitos, suas horas de lazer", completa Gil.

Os hábitos de Caetano são um caso à parte para quem quiser conviver em paz com ele. Exceto quando está de férias na Bahia, dificilmente acorda antes das cinco da tarde. Seu relógio biológico é muito singular. Um exemplo destas diferenças se deu durante a bem-sucedida temporada que cumpriu na Argentina e no Uruguai. A partida de Montevidéu para Buenos Aires aconteceu ao meio-dia, portanto ele teve de acordar às dez da manhã. "Só que por eu ter sido acordado às dez fiquei muitos dias acordando às dez, embora continuasse dormindo tarde. Eu não posso ser acordado no meio do sono que descompensa tudo." Para recomeçar o arranjo biológico, ele levanta, vê televisão, lê jornais ou brinca com Zeca, seu filho de quatro anos com a segunda mulher, a atriz Paula Lavigne. O primeiro que teve com Dedé Gadelha é o estudante de física Moreno, 23 anos, que nas horas vagas também é músico.

Moreno de vez em quando participa como convidado do grupo Mulheres Q Dizem Sim. Na sua própria banda, a Gold Night Varsóvia - descrita pelo pai como um conjunto de estilo anárquico, que canta em inglês e italiano macarrônicos -, toca violoncelo, pandeiro e trumpete. "Às vezes eles são muito barulhentos, mas o som é interessante." Moreno é daqueles filhos que não dá para negar quem é o pai. Quando pequeno, se fantasiava com brincos, é extremamente observador e cultiva a sensação de poder circular num mundo vários degraus acima do normal. "Fui um pai mais tradicional com ele do que estou sendo com o Zeca", confessa Caetano. À sua maneira jovem, Moreno também curte um figurino diferenciado. É uma característica de família. "Meu pai Zeca era chiquéééérrimo", debulha-se o compositor. "Eu sempre fui naturalmente elegante, visto a primeira roupa que eu pego. Não sou como a Paulinha (Lavigne), que demora horas para escolher um vestido, troca, experimenta. O meu lado mais cuidado devo a ela."

Para provar seu gosto pelo glamour da moda e muitas vezes antecedê-la (leia quadro acima), no início deste ano Caetano Veloso posou para o catálogo da coleção primavera-verão do estilista italiano Romeo Gigli. Garante não ter recebido um tostão pelo trabalho. Em troca ganhou sacolas com coletes, gravatas e ternos. Com o último deles - um modelo de xantungue de seda rosa choque - foi à entrega do Prêmio Sharp na terça-feira 7. Também é de Gigli os óculos estilo Gepeto, o personagem de Pinóquio, com lentes de grau dois que usa para ler e escrever. Parte do sofisticado guarda-roupa Caetano certamente deve levar para a turnê européia que fará de 10 de outubro a 20 de novembro por nove países. Antes, no dia 23 de junho, apresenta-se num festival de verão em Nova York ao lado do músico japonês Ryuichi Sakamoto. Nenhum destes lugares, contudo, fascina tanto Caetano Veloso quanto seu próprio país - uma identificação às vezes segredada com dor, mas na maioria alardeada com paixão atávica nos versos de suas canções.


Colaboraram: Celso Fonseca e Ivan Claudio (SP) e Daniel Stycer (RJ) 




Múltiplos estilos do ídolo


À frente dos Beat Boys, em 1967, na TV Record: traje discreto


Com Gilberto Gil, em 1968: psicodélico


Volta do exilio, em 1972: hippie


No Prêmio Sharp, em 1993: saia pareô


Modelo: em 1995: sofisticação


Junto a Paula, em 1996: ofuscante

Caetano Veloso sempre esteve antenado com a modernidade. Navegante errante, quebrou padrões estabelecidos de comportamento e apontou para novas direções. Como um dos inventores e privilegiado intérprete de uma revolução musical, Caetano alternou momentos de visual espalhafatoso e discreto, mas com estilo próprio. Em 1965, magricela, calçando sandálias de couro e com os cabelos encaracolados, o jovem músico surgia em São Paulo como coadjuvante da irmã Maria Bethânia. Em 1967, com uma blusa de gola olímpica laranja e o famoso paletó xadrezinho, já reluzia para todo o País os acordes e versos do hino Alegria, alegria - "sem lenço, sem documento, nada no bolso e nas mãos". 

A gola olímpica ainda fez parte do seu traje de casamento hippie com Dedé Gadelha, na Bahia. Em 1968, em plena revolução estudantil, Caetano inaugura sua fase futurista-psicodélica. Metido em roupas de plástico, com os cabelos eriçados como a juba de um leão, introduz em cena o happening musical e quebra todas as estruturas com o manifesto É proibido proibir, numa histórica performance vaiada pelos estudantes de esquerda. Na extinta TV Tupi, com o programa Divino maravilhoso apura o conceito do tropicalismo e rompe com o chamado bom gosto em aparições anárquicas. Durante o exílio em Londres, surge introvertido, a barba rala crescida, olhar triste e saudoso sob uma vasta cabeleira, enrolado num casaco de pele de carneiro. 

De volta ao Brasil, sob o sol dos trópicos, mais uma vez inovou. Troca a bolsa hippie por balangandãs e tamancos coloridos e aparece no seu primeiro show em São Paulo como uma Carmen Miranda rediviva, usando bustiê e batom na boca. Com Araçá azul, de 1972, "um disco para entendidos", Caetano inaugura a fase solar. Seu descontraído visual verão passa pelos discos Qualquer coisa e Bicho - com a emblemática canção Odara - e culmina em Cinema transcendental e Outras palavras. Ao completar 40 anos, em 1982, adota um elegante chapéu na capa do disco Cores nomes. Dois anos depois, em Velô, surge mais amadurecido. Corta o cabelo e passa a usar ternos bem talhados. A irreverência volta à tona na entrega do Prêmio Sharp de 1993, quando aparece envolto numa saia e paletó de smoking. A saia, na verdade um belo tecido oriental enrolado como pareô sobre as calças, deu muito pano para manga. Na versão 1996 do Prêmio Sharp voltou a ser ofuscante. São variações de um estilo de quem tem fina estampa. 

Roberto Comodo