“Se
a obra não polemiza, ela também não é chapa branca”
[Manoel
Lauand]
iG / Lu Lacerda
“Caetano – Uma biografia”:
mesmo não autorizada a livraria ficou cheia
04/05/2017
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| Marcio
Nolasco e Carlos Eduardo Drummond: autores lançam biografia sobre Caetano
Veloso, que não apreciou o texto, mas encheu a livraria / Foto: Daniel Delmiro |
Depois
de 11 anos engavetado, o livro “Caetano – Uma biografia“, de Carlos
Eduardo Drummond e Márcio Nolasco, foi lançado nessa quarta-feira (03/05),
na livraria da Travessa do Shopping Leblon. O cantor preferiu não se
envolver com o projeto, por isso a biografia sai com o status de “não
autorizada”, mas o próprio escritório, que tem à frente a mulher do artista, Paula
Lavigne, permitiu o uso de fotos, como a da capa.
Os
autores se dedicaram de 1997 a 2004, com pesquisas e histórias que vão a partir
da infância. Quando Caetano leu o texto, não apreciou pelo uso repetitivo de
chavões, mas “ele não quer fazer propaganda contra”, segundo Paula. A livraria
encheu para conhecer o novo trabalho sobre o rei da Tropicália.
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| 3/5/2017 - Rio de Janeiro |
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| 13/5/2017 - São Paulo, os autores com Manoel Lauand e Luciana Frateschi |
O GLOBO
Coluna
Parada Obrigatória
Christovam de
Chevalier
13/4/2017
Um personagem superbacana
Biografia de Caetano Veloso vai fundo na história
da família do cantor e sua infância na Bahia. ‘Livro não é chapa branca’, garante editor
Sai
em maio a biografia de Caetano Veloso, escrita por Carlos Eduardo Drummond e
por Marcio Nolasco. As pesquisas para “Caetano — Uma biografia” (Seoman) começaram
em 2004, e o resultado é rico em informações sobre a história dos Veloso e a
infância do artista. Mãe do cantor, Dona Canô, que morreu em 2012, foi uma das
fontes ouvidas em Santo Amaro da Purificação, cidade natal de Caetano, onde
também foram entrevistados ex-colegas de colégio do compositor. “Se a obra não
polemiza, ela também não é chapa branca”, analisa o editor Manoel Lauand.
E
TEM MAIS...
Mesmo
sem conhecer o resultado do livro (o cantor só receberá seu exemplar nos
próximos dias), Caetano autorizou o uso de sua imagem na capa (foto), em clique
de Thereza Eugênia, e nas do miolo. O artista pediu somente para saber em quais
contextos as imagens estariam inseridas e, para tanto, teve acesso a resumos
dos capítulos. O lançamento no Rio é dia 3 de maio na Travessa do Shopping
Leblon.
Correio Braziliense
7/5/2017
Biografia de Caetano Veloso detalha
a trajetória de um astro da MPB
Livro 'Caetano -
Uma biografia', de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, impressiona pelos
detalhes
Irlam
Rocha Lima
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| Obra demorou 20 anos para ter a publicação autorizada - Phono 73 (Foto: Thereza Eugênia) |
O que mais impressiona em Caetano — Uma biografia, escrita
por Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, é a riqueza de detalhes sobre a
vida e a carreira artística de um dos nomes mais icônicos da cultura
brasileira. A aprofundada pesquisa, feita pelos dois, os levou a entrevistar
mais de 100 pessoas ligadas direta ou indiretamente ao cantor e compositor
baiano, em diferentes cidades brasileiras — de Santo Amaro da Purificação,
terra natal, ao Rio de Janeiro, que o acolheu nos anos 1970.
Do processo de criação, iniciado em 1997, até o lançamento
recente pelo selo Seoman, do Grupo Editorial Pensamento, passaram-se duas
décadas.
Explica-se: quando ficou pronta, há 14 anos, não houve a autorização
para que ela chegasse às lojas. A possibilidade para que isso ocorresse surgiu
com a decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2015, ao derrubar a questão da
defesa de autorização prévia para a publicação de biografias. Mesmo assim, a
obra saiu como biografia não autorizada — “mas não desautorizada”, segundo os
autores. Aliás, Caetano e Paula Lavigne, mulher e empresária do artista,
consentiram o uso das fotos, como a da capa.
Na biografia, que traz como subtítulo A vida de Caetano
Veloso, o mais doce bárbaro dos trópicos, Drummond e Nolasco não se propõem a
fazer análise do legado do tropicalista. A competência de ambos aflora na
descrição, ao contar, com minúcias, as histórias — algumas, pouco ou nada
conhecidas — desse rico personagem.
É perceptível o rigor que eles se impuseram ao transpor para
o livro a trajetória artística de Caetano, desde quando, ainda criança, subiu
ao palco pela primeira vez, abrindo um show do então ídolo seresteiro Sílvio
Caldas, no Cine Teatro Subaé, em Santo Amaro; até a participação na cerimônia
de entrega do Oscar, em 2003. A convite do ator Gael García Bernal, cantou os
versos iniciais de Burn it blue (Eliot Goldenthal), canção da trilha sonora do
filme Frida, de Julia Taymor.
Personagens que povoam o universo do artista também estão
presentes. Dos pais, Zezinho e Canô, e a irmã — também famosa — Maria Bethânia
a cineastas como Federico Fellini, Ingmar Bergman, Pedro Almodóvar e Glauber
Rocha; passando por companheiros da Tropicália, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé
e José Carlos Capinam. São lembrados ainda os emblemáticos festivais da TV
Record; e a prisão e o consequente exílio, determinados pela ditadura militar.
A biografia vai até 2003. O que ocorreu depois é relatado,
de forma sucinta, no posfácio. Com esse adendo, os autores buscam deixar claro
que, “no decorrer do novo milênio, a obra de Caetano Veloso continua em
progresso”.
Como surgiu a ideia
da biografia?
Carlos Eduardo Drummond: a paixão em comum pela arte
despertou o desejo de realizar um projeto em conjunto que nos desse orgulho de
fazer. Naquele tempo, ousamos ao sonhar escrever a história de um ícone da
cultura nacional, que ainda não possuía um livro abrangente sobre sua vida e
carreira. Pensamos em alguns nomes e, no fim, chegamos a Caetano Veloso.
Vocês, antes de se
aterem ao livro, acompanhavam a carreira do Caetano?
Márcio Nolasco: sim, mas apenas como admiradores de música
em geral. Naquele momento, não tínhamos a real dimensão do alcance desse
artista multifacetado, de vanguarda, e, até hoje, em profunda sintonia com a
linha evolutiva da música popular brasileira.
Para escrevê-lo,
foram movidos pela admiração pela obra do artista?
Carlos Eduardo Drummond: gostávamos das músicas dele, mas
longe de sermos fãs incondicionais, tietes, etc. Acreditamos que essa
característica permitiu o grau de distanciamento suficiente para não escorregar
em uma idolatria desnecessária.
Efetivamente, a
partir de quando passaram a trabalhar em cima desse projeto?
Carlos Eduardo Drummond: tudo começou em 1997.
Quais foram os passos
iniciais?
Márcio Nolasco: definido que escreveríamos sobre Caetano, a
minha mãe (dona Ana Marlene) foi fundamental, pois estudou na adolescência com
Rodrigo Velloso, irmão do personagem. A amizade entre eles propiciou que
iniciássemos os contatos para que o projeto tomasse forma. Assim, conseguimos
entrevistar familiares e amigos, bem como ter acesso a todo o acervo oficial do
artista, sob a guarda da fotógrafa baiana Maria Sampaio. Além disso, contamos
também com a ajuda de outro grande nome da música brasileira, Roberto Menescal,
com quem fizemos a primeira das entrevistas dos artistas, o que nos abriu
portas para vários dos nomes com quem conversamos.
Impressiona a
profundidade da pesquisa feita por vocês. Têm noção de quantas pessoas ligadas
— direta ou indiretamente — ao Caetano serviram de fontes para esse trabalho?
Márcio Nolasco: entrevistamos mais de 100 pessoas com algum
tipo de ligação. Também tivemos a colaboração de várias outras, como diretoras
de instituições em que ele estudou, agentes que nos ajudaram a encontrar
artistas, pessoas que nos forneceram documentação, telefones, endereços, apenas
para citar alguns exemplos.
Que tipo de
dificuldades enfrentaram no processo de apuração?
Carlos Eduardo Drummond: realizar um projeto como esse não é
tarefa simples. Não tínhamos noção do quão complicado seria quando começamos. E
olha que tivemos manifestações de que algo desse gênero em um país como o nosso
seria impossível. Passamos por inúmeras dificuldades, mas todas ajudaram em
muito para ganharmos experiência com o processo. Teve desde carro quebrado em
Santo Amaro até pessoas que se negaram a falar conosco. Justiça seja feita,
esses casos foram poucos e raros. Dividíamos o tempo de pesquisa com as nossas
outras atividades profissionais e o resultado foram incontáveis fins de semana
trabalhando no interior de bibliotecas e arquivos. E também viajamos com
recursos próprios. De tão complexa, a história de vida do Caetano exigiu de nós
uma pesquisa que, em dado momento, nos pareceu não ter fim.
Houve algo que
quiseram saber, que ficou sem resposta?
Márcio Nolasco: a visão e a opinião das pessoas que não
conseguimos entrevistar. Certamente, essas pessoas teriam muito a acrescentar à
obra. Mas, de um modo geral, o que tínhamos em mente como meta em termos de
abrangência foi concretizado. E, como optamos por realizar uma biografia
descritiva e não analítica, procuramos abordar todas as principais passagens
relevantes para a formação de Caetano, seja como pessoa ou como artista. Uma
vez que a vida dele é riquíssima em episódios e interpretações, uma só
biografia não é suficiente. Esperamos que agora se inicie uma nova era, que
outras obras sejam lançadas e a nossa possa contribuir como fonte.
Algum aspecto da vida
e da trajetória artística tropicalista
deixou de ser abordado?
Carlos Eduardo Drummond: procuramos fazer do modo mais
completo possível, detalhando “onde”, “quando” e “como” os fatos aconteceram,
sem nos apegar mos a análises críticas da obra e da postura do artista. Para
alguém que está em plena produção no alto de seus quase 75 anos, vale dizer
que, se abordássemos analiticamente cada canção, cada disco, cada gesto do
artista, acabaríamos por gerar um livro que, de tão extenso, traria
dificuldades até para sua manipulação.
O Verdade Tropical,
livro escrito pelo Caetano, foi usado como fonte?
Márcio Nolasco: verdade tropical foi tão importante que, bem
no início, chegamos a pensar em dar ao nosso o título de Outras verdades. Já
que poderia soar pretensioso, como uma possível continuação do livro dele, que,
aliás, ele já indicou ter intenção de fazer, buscamos outras opções até
chegarmos ao título definitivo.
Incomodam os reparos
feitos à obra por Caetano, Paula Lavigne e colegas da imprensa?
Márcio Nolasco: de forma alguma. Vivemos em uma democracia.
O debate é natural, mesmo que muitas vezes polarizados em discussões quentes.
Até quando há algum toque preconceituoso ou que transmita um gosto particular
de determinado crítico, que gostaria de ver mais disso ou daquilo, ou gostaria
que fôssemos mais específicos numa passagem, tudo isso tem de ser tomado como
crescimento. Temos o nosso estilo e fomos fiéis a isso.
Caetano – Uma biografia (A vida de Caetano Veloso, o mais
doce bárbaro dos trópicos)
De Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco.
Lançamento da
Editora Seoman.
Preço: 59,90.
9/5/2017
Glamurama entrega foto
inédita de Caetano cantando aos 18 anos
[Joyce Pascowitch]
 |
| Foto exclusiva mostra Caetano cantando em uma rádio em
Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em julho de 1960 e a capa do livro
“Caetano, uma biografia” || Créditos: Divulgação |
Vinte anos depois de começar a pesquisa em Santo Amaro da Purificação,
onde Caetano nasceu, saiu do forno o livro “Caetano, uma Biografia”, de Carlos
Eduardo Drummond e Marcio Nolasco. Foi lá que eles entrevistaram a mãe, os
irmãos, os primos, os amigos de infância e os professores do músico. Depois,
colegas da escola, da faculdade e de profissão. Anônimos, famosos,
celebridades, todos foram ouvidos com o mesmo cuidado e no total 103 pessoas
servem de fontes para o livro que conta com 150 entrevistas.
Glamurama recebeu com exclusividade uma foto que deveria não só estar na
publicação, como teria grandes chances de ser a foto de capa, mas, como chegou
em cima da hora, infelizmente não pôde entrar. Trata-se de um retrato inédito
de Caetano cantando na inauguração de uma rádio em Santo Amaro da Purificação,
datada de julho de 1960 – quando ele tinha apenas 18 anos –, tirada por um
fotógrafo não identificado. A imagem veio do acervo das primas Mariinha e
Margarida e, na dedicatória à prima Mariinha, Caetano começa com a seguinte
frase: Minha Inha, Eis uma foto do seu
filho “cantor” (…)
O livro conta a origem de uma infinidade de canções e os bastidores das
suas gravações, mas também fala da relação de Caetano com o cinema, com as
artes plásticas, com o teatro e com a literatura. Aborda ainda as críticas, as
polêmicas, as musas, os amores, os casamentos, os filhos e as grandes turnês
internacionais. Vale lembrar que “Caetano, Uma Biografia”, é o primeiro livro
biográfico não autorizado a ser publicado após alterações na Lei de Direitos
Autorais e abrange a história completa do artista, passando por suas diferentes
fases.
Aos fãs e curiosos, um booktour do livro com noite de autógrafos será
armado em São Paulo. Tudo acontece neste sábado, na Livraria Cultura do
Conjunto Nacional, a partir das 16h, com direito a pocket show da cantora Gil
em “Tributo a Caetano”. O lançamento acontece também em Salvador, nesta
quarta-feira, no Salvador Shopping.
ENTREVISTA
COM O AUTOR
Editora lança biografia que Caetano Veloso vetou
Publicada:10/05/2017 16:20:00
Gustavo Gobbi, Redação/RedeTV!
Sabe-se
que o processo de escrita de um livro, qualquer que seja o livro, nunca é
simples. Passada a fase inicial, abre-se um universo de possibilidades com
revisões, novas pesquisas e até mesmo opiniões de outros avaliadores. Dito
isso, até mesmo o lento processo da escrita parece curioso se aplicado a "Caetano - Uma Biografia: A Vida de
Caetano Veloso, o Mais Doce Bárbaro dos Trópicos", de autoria de
Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, lançado no início de maio pelo selo
Seoman.
O livro
não se provou uma 'luta' apenas para ser escrito - foram anos de pesquisas
reunindo periódicos, livros, ensaios e entrevistas com mais de 100 pessoas -,
mas também para ser lançado. Caetano barrou sua publicação e a obra só chegou
ao mercado após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), quem em 2015 liberou
o lançamento de biografias sem a necessidade de autorização dos biografados.
Para
entender melhor o processo de pesquisa e produção de um material tão extenso a
respeito de um dos artistas brasileiros mais importantes da história, o RedeTV Geek conversou com Carlos
Eduardo Drummond, que falou sobre método, como o livro mudou aos longo dos anos
e o impacto de Caetano na vida de dois homens que passaram tantos anos
debruçados sobre a história do artista.
"Caetano"
surgiu em 1997, do desejo dos autores em fazer "uma biografia de um grande músico da MPB que ainda não tivesse
sido explorado". "Conhecíamos
o Caetano, mas não profundamente. Tínhamos uma admiração, mas não éramos
tietes", explica Drummond. A dupla optou por uma metodologia semelhante à
usada por Ruy Castro e Fernando Morais em trabalhos como "Garrincha - A
Estrela Solitária" e "Chatô - O Rei do Brasil".
"Foram
seis anos de pesquisa de campo, coleta de periódicos e levantamento de
bibliografias. A partir daí, iniciamos a fase das entrevistas - ao todo, 103
entrevistados -, toda baseada no alicerce desse estudo feito
anteriormente." Uma palestra de Castro, no ano em que deram início ao
trabalho, ajudou a clarear a metodologia a ser seguida: "Todo mundo sabe
que o Caetano é um artista multifacetado, é um cara que atira para todo o lado.
Com isso, se nós fôssemos conversar com todas as pessoas que conviveram com
ele, que foram testemunhas, esse livro ia demorar 50 anos para ficar pronto.
Elencamos cada fase de sua vida e colocamos peso igual em todas as fases,
aí começamos a identificar essas pessoas."
Geraldo
Vandré, notório recluso, por exemplo, custou a ser encontrado. Ele e Caetano
possuem uma história conturbada: de acordo com relato do segundo no livro
"Verdade Tropical", Vandré teria brigado com o baiano e com Gal Costa
por conta da música "Baby". Vandré, em entrevista de 2000, ainda com
o espírito polêmico intacto, disse que continua achando a música "uma mer**". Drummond
descobriu um restaurante em São Paulo onde a presença de Vandré constante. Fez
amizade com o garçom do local e foi atendido pelo cantor de "Para Dizer
Que Não Falei das Flores" após duas outras tentativas frustadas de
trazê-lo ao telefone. "Foi um
diálogo um pouco surreal, ele me passou o celular de uma secretária e ainda se
passou mais um ano e meio desde aquele contato para a gente fazer a entrevista.
Em termos de conteúdo, ela [a entrevista] foi uma 'porcaria', mas valeu a pena
por ter um diálogo com ele."
Houveram
encontros memoráveis também com Jorge Mautner, que resultou em um incidente com
um gato particularmente 'genioso' do músico, Maria Bethânia e Jards Macalé.
É dessa
diferença de vozes que surge a personalidade de Caetano e aponta um caminho
para sua vida. "No início, não conhecíamos ele profundamente. Uns poucos
anos antes de iniciar a pesquisa, aos 21 anos, me assustei ao descobrir que
Bethânia era irmã de Caetano. Depois de mergulhar na história dele, passei a
admirá-lo principalmente por um Caetano que se desdobra em mais de uma pessoa.
Ele é um artista que não tem preconceitos com relação à arte. Ele tem uma interlocução
constante, com isso ele se enriqueze constantemente. Nesse sentido, ele leva
vantagem com relação a outros artistas; um cara que fica focado em um único
ritmo e não se mantém aberto a novas experiências, ele vai perder a
oportunidade de se enriquecer culturalmente. Nesse sentido o Caetano nunca
parou, ele tá sempre se reinventando. Ele é realmente a síntese da
antroprofagia", explica Drummond.
No livro
"Verdade Tropical", lançado por Caetano e que funciona como uma
tentativa de explicar o movimento da Tropicália, que mexeu com o ambiente
cultural do Brasil entre 1967 e 1968, anos em que obteve enorme força. O
coletivo de artistas, entre eles Caetano, Gil, Mutantes, o maestro Rogério
Duprat, buscou inserir elementos da música mundial na linguagem da MPB, numa
tentativa de 'universalizá-la'.
O
processo de pesquisa extenso permitiu, como já falamos, uma reavaliação da obra
do artista sob os olhos de seus biógrafos, mas o que da carreira plural de
Caetano surpreendeu Drummond? "O Caetano como artista plástico é
extremamente interessante. Me surpreenderam suas habilidades. O livro apresenta
um autorretrato feito por ele entre 1960/1961 que é muito bonito.
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| Página 1: Autorretrato de Caetano Veloso feito em aquarela, no início dos anos 1960. Imagem cedida aos autores por Fernando Barros |
No final,
temos uma outra pintura excelente dele. Acho que Caetano poderia seguir muito
bem o campo das artes plásticas. E também poderia ser um cara ligada ao cinema,
um cineasta, como se provou com produções como 'O Cinema Falado'". A
produção de 1986, única vez que Caetano dirigiu um filme, mescla
experimentalismo e documentário com uma narrativa focada na palavra: prosa,
poesia, filosofia e outras maneiras diversas da escrita.
No campo
musical, Drummond elenca a fase com a A Outra Banda da Terra, que rendeu discos
como "Bicho" e "Cinema Tropical" [nota do Blog: Cinema Transcendental], como a que mais lhe
agrada. "Eles [a banda] incentivavam
Caetano musicalmente. Ele sempre gostou muito musicalmente de Gil, Jorge Ben, e
a A Outra Banda da Terra deixava ele muito à vontade. É uma produção muito
intensa, variada, ensolarada, e curiosamente a partir desse período ele começou
a vender mais discos."
Segundo
consta, Caetano vetou o livro pois julgou texto de baixo valor literário.
Chegou a convocar a ajuda do poeta Eucanaã Ferraz para auxiliar na produção,
mas o escritor preferiu não se intrometer. Decidiu-se, então, pelo veto.
Passado
tanto tempo de pesquisa e de trabalho, o trabalho não ia ser publicado se, em
2015, o STF não tivesse resolvido julgar a legalidade de biografias não
autorizadas. A decisão pela autorização das publicações agradou Drummond:
"Estávamos acompanhando o debate, especialmente para ouvir todos os lados.
É importante pois, quando aconteceu a situação em 2004 [o veto de Caetano], não
havia nenhum debate sobre o direito a liberdade de expressão e o direito de
intimidade e privacidade. Isso me permitiu formar uma opinião sobre o assunto,
ouvi todos os lados e nutria uma esperança de que houvesse uma mudança de lei
no país. Não podia ser diferente. Se continuássemos do jeito que estávamos, a
memória do país ia ficar nas gavetas, o livro jamais sairia sem isso."
Concluída
uma empreitada que durou 20 anos, Drummond diz que tem "algumas coisas na cabeça", mas que ainda não fez planos
mais específicos para o futuro. "Tenho
muita resistência a me lançar a um projeto semelhante a esse, uma biografia de
pessoa viva, por exemplo. Você percebe que passamos 20 anos nela. Se eu
precisar desse tempo todo para escrever um livro, é algo que se torna inviável.
Tenho uma ideia específica de um livro, que eu nem sei se vou fazer com o
Marcio, mas também devo seguir com projetos."
Doce bárbaro
Biografia ilumina a
trajetória rica e complexa de Caetano Veloso
Livro reúne mais de cem entrevistados destaca passagens como o
protagonismo do artistas no Tropicalismo e a temporada no exílio
Por: Marcelo Perrone
19/06/2017
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| Foto: Thereza Eugênia / Divulgação |
Aos 74 anos — completa 75 em 7 de
agosto — e em plena forma física e artística, Caetano Veloso é personagem
onipresente na vida cultural do Brasil e figura pública que vira notícia até
mesmo por banalidades como a folclórica estacionada de carro no Leblon. A
dimensão artística de Caetano e sua inter-relação com nomes, movimentos
estéticos e episódios históricos tão relevantes quanto ele já foram iluminadas
em diferentes publicações, inclusive na autobiografía Verdade Tropical,
que lançou em 1997. Nesta mesma época, Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco
deram início a um projeto de pesquisa ambicioso, que somente 20 anos depois
conseguiram apresentar: Caetano, Uma Biografia: A Vida do Mais Doce Bárbaro
dos Trópicos passa em revista vida e obra do cantor e compositor baiano ao
longo de 544 páginas. Sua publicação é resultado da decisão do Supremo Tribunal
Federal, em 2015, que derrubou a restrição que condicionava trabalhos
biográficos à autorização dos biografados ou seus familiares.
Drummond e Nolasco, ambos cariocas, investiram em
um trabalho de fôlego. Costuram na narrativa depoimentos de 103 entrevistados,
incluindo a mãe do artista, Dona Canô (1907 — 2012), irmãos e amigos que
cresceram com Caetano em Santo Amaro da Purificação, além de músicos e produtores
que trabalharam com ele.
A reconstituição da juventude de
Caetano no interior da Bahia apresenta o menino franzino que se apaixonou cedo
pelas grandes vozes do rádio (Vicente Celestino, Noel Rosa e Nelson Gonçalves,
entre outros cantores que animavam o casarão da família), enfurnava-se no
cinema para ver clássicos italianos, em especial os de Federico Fellini, e
precocemente mostrou interesse por poesia e filosofia.
Esse resgate memorialístico, segundo
relatam Drummond e Nolasco, emocionou Caetano quando este teve acesso a um
rascunho do material, nos anos 2000, e escreveu uma carta reconhecendo a
pesquisa e dando aval a sua continuação. Mas o artista nunca deu a autorização
formal exigida pelas editoras receosas de futuros processos. O projeto foi engavetado
em 2004 e acabou salvo pela resolução do STF 11 anos depois — Caetano, aliás,
integra o Procure Saber, movimento de artistas que defende a restrição a
publicações de biografias não autorizadas.
Mas não há nada, na biografia, com
que Caetano possa se incomodar. O tom é o da celebração a um artista inquieto,
multifacetado, transgressor e por vezes polêmico. Episódios da vida privada,
como seus relacionamentos amorosos (envolveu-se com sua mulher e empresária,
Paula Lavigne, quando tinha 40 anos e ela, apenas 13), já são bem conhecidos. O
que teria incomodado Caetano diz respeito à "baixa qualidade
literária" do projeto, conforme Paula Lavigne declarou com a chegada da
publicação às livrarias. Em entrevista a ZH (veja baixo), Drummond explica que
a opinião de Caetano é referente a um esboço do livro que recebeu em 2003:
— Alguns jornalistas abordaram o tema
sem apurar com rigor esse fato.
Para leitores mais exigentes da forma
aliada ao conteúdo, pode ser mesmo um entrave o passeio por tão aprofundada
pesquisa em meio ao tom por vezes laudatório e aos clichês narrativos, que vão
de trocadilhos ingênuos com títulos de canções a expressões como "gostinho
de quero mais" (usada duas vezes no intervalo de quatro páginas).
Vencido esse quesito, o trabalho
mostra-se robusto na reconstituição de momentos emblemáticos do caminho
trilhado por Caetano: o primeiro show, aos 12 anos abrindo uma apresentação de
Silvio Caldas em Santo Amaro (aos oito já havia cantado na rádio local); o
desbunde com o conterrâneo João Gilberto e a bossa nova; a efervescência
cultural de Salvador vivida com Glauber Rocha, Torquato Neto e Wally Salomão —
e, logo mais, com Gil, Gal e Tom Zé; a ida para o Rio (em 1965, acompanhando
Bethânia quando a irmã foi convidada para cantar no espetáculo Opinião); as
primeiras gravações, o processo de criação e os bastidores de seus discos mais
emblemáticos.
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| Foto: Thereza Eugênia / Divulgação |
O protagonismo de Caetano à frente do
Tropicalismo e a temporada do exílio em Londres são também ricamente detalhados,
inclusive destacando figuras como Jorge Mautner, guru intelectual da turma de
expatriados e artista múltiplo e visionário com suas incursões pela literatura,
música, cinema e ciências diversas. São interessantes também as notas de rodapé
que indicam a inspiração de Caetano para muitas de suas canções mais
conhecidas.
— Não éramos fãs de Caetano — diz
Drummond. — Sabíamos da importância de sua obra, mas não de forma aprofundada.
O primeiro personagem que pensamos biografar foi Roberto Carlos. Caetano veio
como segunda opção. Cada nova entrevista nos trazia histórias e detalhes que
nos surpreendiam. Conhecer também a origem de uma infinidade de canções mudou
nossa visão e percepção sobre o repertório dele. Mas as surpresas não se
resumem a Caetano. No livro há muitas histórias inéditas de Maria Bethânia, Gal
Costa, Gilberto Gil e tantos outros. Nesse sentido, são várias biografias
dentro da biografia.
Entrevista Carlos Eduardo Drummond e
Marcio Nolasco, biógrafos de Caetano Veloso
● Biografar alguém com trajetória que
parece ainda distante de um ponto final representou um desafio a mais na
empreitada? Está nos planos uma futura atualização do livro?
Drummond — Isso foi um grande desafio. O Caetano sempre produziu muito, em
diferentes áreas artísticas. Mapear essa quantidade monumental de informações,
ano a ano, se mostrou uma tarefa hercúlea. Esse é também um dos traços de
Caetano que o tornavam um personagem muito complexo de biografar. Muitas vezes
nos perguntamos: por que ninguém escreveu uma grande biografia dele até hoje?
Quantos pesquisadores e jornalistas desejaram se lançar nessa empreitada? No
fundo, tínhamos consciência de que tomamos uma decisão corajosa, por todas as
dificuldades envolvidas no projeto. E sobre os planos futuros, claro, toda biografia
de personagem vivo está sujeita a uma atualização em algum momento. Isso é
inerente a esse tipo de livro. No momento adequado, faremos essa atualização.
Nolasco — O Brasil, apesar de ser uma jovem democracia, ou até mesmo por
isso, fez questão de se manter na penumbra cultural ao não permitir a produção
regular de livros sobre seus ícones ainda vivos. A censura prévia vigente antes
da nova interpretação dos artigos 20 e 21 do Código Civil não favorecia que
tivéssemos esse modelo. Temos poucos e valorosos exemplos de autores nessa
linha. Se Lance Armstrong, um desportista contestável, possui mais de 30 livros
publicados no Exterior, com diversos tipos de abordagem à sua vida e carreira,
estranho é que alguém como Caetano, Gil, Chico, apenas para citar alguns poucos
nomes dentre outros personagens dignos de reconhecimento, não possuam obras
nesse sentido. Num período especialmente importante, onde a desilusão política,
social, econômica nos leva a repensar o país como nação, que possamos cada vez
mais trazer à luz acontecimentos importantes para nossa constituição como povo.
Que seja apenas o primeiro passo em um caminho consciente rumo à liberdade de
fato. Que as trevas fiquem para trás e muitas outras obras que prezem pela
seriedade, honestidade e profissionalismo possam ganhar vida.
● O livro é muito rico na
reconstituição da infância e juventude do Caetano em Santa Amaro. Como se deu
esse trabalho de mapeamento e contato com as pessoas que ajudam a contar essa
história?
Drummond — Esse foi um dos períodos mais gratificantes de toda a pesquisa.
Rodrigo Velloso (a grafia do sobrenome do artista ficou com um "l"
a menos no registro em cartório), irmão de Caetano, nos recebeu em Salvador
e Santo Amaro, e nos colocou em contato com personagens fundamentais na vida de
Caetano. Conhecemos amigos de infância, professores, colegas de classe,
cenários e locais frequentados por Caetano, ainda menino e adolescente. Também
com a ajuda de Rodrigo, passamos tardes agradáveis ao lado de Dona Canô e de
outros parentes. Ouvimos histórias inéditas, muito íntimas, e tivemos acesso
irrestrito ao acervo documental da família, na época em poder da fotógrafa
baiana Maria Sampaio, que também nos apoiou muito. As informações e documentos
obtidos durante esse período nos permitiram reconstituir com detalhes essa fase
desconhecida, que ajuda o leitor a entender como se deu a formação inicial do
artista e conhecer as pessoas que foram importantes para ele nessa fase. Todos
os recursos da pesquisa, incluindo passagens, transporte, estada e alimentação,
saíram de nosso bolso.
Nolasco — Cabe dizer também que o artista não nasce pronto. Trazer esse período
de vida à baila mostra suas influências, sua formação, seus laços de amizade e
fraternidade, não pelos olhos do próprio, mas pelas impressões daqueles que
estiveram e estão a seu lado até hoje.
● Vocês são profissionais de áreas não
diretamente ligadas à pesquisa, à história e ao jornalismo culturais (Drummond
é formado em Administração de Empresas e pós-graduado em Relações
Internacionais. É poeta, escritor e compositor e trabalha na Funarte, órgão do
Ministério da Cultura; Nolasco, é formado em Engenharia de Produção e tem
contos publicados em antologias) É. De que forma isso influiu no trabalho?
Drummond — Não somos jornalistas nem
historiadores, mas não estamos tão distantes da área cultural e da pesquisa.
Sou poeta, escritor e compositor, além de trabalhar na Fundação Nacional de
Artes, que apoia, entre outras atividades, a pesquisa e a preservação da
memória cultural do nosso país. Nolasco, por sua vez, escreve há bastante
tempo, é contista, cinéfilo, fez cursos de roteiro de cinema e televisão. Esse
conjunto de experiências também recebeu apoio da nossa capacidade de
planejamento e organização. A soma dessas habilidades nos permitiu fazer um
trabalho isento, cuidadoso e profissional.
● Como fãs de Caetano, que elementos
vocês encontraram na pesquisa que tenham revelado uma grande surpresa (positiva
ou negativa) em relação ao conhecimento prévio que tinham dele?
Nolasco — Não éramos e continuamos
não sendo fãs. A palavra tem o viés do seguidor, daquele que muitas vezes
descamba para uma "cegueira seletiva". Apesar de alguns pensarem que
às vezes bajulamos o artista, isso está muito distante da verdade. Reconhecer
sua importância é outra coisa. Não reconhecer isso seria esconder o óbvio,
gostando-se ou não dele como artista e podendo estender a opinião até ao ser
humano, ou não. Sendo ele um personagem que já despertava o ame-o ou odeie-o
muito antes do fenômeno das redes sociais, preferimos seguir o caminho do meio.
● Qual foi o critério usado para
equilibrar no livro o espaço para recortes históricos que exigiram pesquisa
mais aprofundada (por exemplo, até meados dos anos 1980) e as últimas décadas?
Drummond — O livro foi todo pensado e planejado antes de ser construído. É
impossível escrever a biografia de um personagem complexo como o Caetano sem
fazer um planejamento prévio. Não foi fácil conseguir esse equilíbrio. Todos os
períodos ganharam igual peso, o que tornou o livro bem dosado e equilibrado, em
número de capítulos e de páginas. As várias fases da carreira do artista
certamente geraram diferenças, e esforços maiores ou menores nessa busca pelo
equilíbrio. Nos anos 1980, por exemplo, já é o Caetano consagrado, com várias
canções nacionalmente conhecidas. O número de shows é muito maior que em outros
períodos, e ali começam as turnês internacionais. Por conta desse aumento de
atividades, não podíamos esmiuçar uma história ocorrida durante uma turnê, por
exemplo, pois corríamos o risco de chegar a 2.000 páginas no final do projeto.
Nessa fase, o poder de síntese precisou ser maior, e o resultado nos deixou
satisfeitos.
● Que tipo de cuidado tiveram
(presumindo que tiveram) para não invadir em demasia a vida íntima do Caetano?
Drummond — Todo biógrafo enfrenta
essa difícil tarefa, que é ainda mais difícil para um biógrafo de personagem
vivo: encontrar o equilíbrio entre a privacidade e a liberdade de expressão. Se
o biógrafo protege demais seu biografado e não expõe aspectos de sua vida pessoal,
tem sua biografia taxada de chapa-branca. Se avança além da conta, e de forma
sensacionalista, corre o risco de receber processos de herdeiros ou do próprio
biografado, não satisfeitos com uma invasão de privacidade ofensiva. Adotamos
um critério claro: se a informação pessoal fosse necessária para entender o
personagem e sua obra, incluímos, e, claro, narramos com o respeito merecido.
Do contrário, descartamos. Nosso livro possui muitas passagens da vida íntima
do Caetano, mas nenhuma delas está lá de modo gratuito, todas são necessárias
para entender algum aspecto da personalidade do artista ou de sua obra.
● Teve algum episódio que, na pesquisa
de vocês, mostrou-se diferente ou conflitante em relação ao relatado em outros
trabalhos biográficos?
Drummond — Não há outro livro
semelhante ao nosso que servisse plenamente de parâmetro. Vale lembrar que
nosso livro aborda todos os períodos da vida e da carreira de Caetano Veloso,
desde antes de seu nascimento até 2016, isto é, quase um século de história,
considerando as passagens envolvendo os antepassados dele. Encontramos muitas
dessas passagens em resumos biográficos ou livros com ênfase no Tropicalismo. A
exceção é o libro Verdade Tropical, escrito pelo Caetano, que apresenta
a visão dele sobre o movimento, com passagens biográficas de outras épocas.
Mesmo aí não encontramos versões conflitantes, mas, sim, complementares. Por
exemplo, durante a ditadura, enquanto Caetano apresenta a visão dele, de dentro
da cadeia, apresentamos a movimentação que ocorreu do lado de fora.
Entrevistamos um militar da época, citado por Bethânia, que foi fundamental
para nos ajudar a entender todo o protocolo empregado pelo regime militar.
Então, além de apresentarmos os fatos ocorridos dentro da prisão,
complementamos com o que ocorreu do lado de fora, impossível de ser
testemunhado por Caetano. Nesse sentido, nosso livro apresenta uma visão ainda
mais abrangente desse período.
● Vocês detalham os bastidores da
realização e percalços do projeto ao longo dos anos, inclusive lembrando a
reação positiva e emocionada de Caetano diante de alguns trechos prévios. Como
estão recebendo as declarações de Caetano (por meio da Paula Lavigne) de que
não falaria sobre o livro por considerá-lo "de baixa qualidade
literária"?
Drummond — É importante esclarecer
que essas opiniões de Caetano são de 2003, quando ele teve acesso ao esboço do
livro, que estava em construção, nem metade estava escrita ainda. Alguns
jornalistas abordaram o tema sem apurar com rigor esse fato. O assunto foi
deslocado no tempo, virou o destaque da notícia e colocou na cabeça das pessoas
que o texto final recém lançado desagradou Caetano. Em recente viagem à Europa,
Caetano foi questionado por jornalistas portugueses e declarou que não tinha
lido a versão final e que o faria quando voltasse ao Brasil. A essa altura, é
possível que ele já tenha lido. Ou está lendo aos poucos, pois o livro é
grande, e o tempo dele, curtíssimo. Naturalmente ele pode gostar ou não gostar.
Mas o fato de ele não gostar (o que ainda não se confirmou na versão final)
também não deveria determinar se o livro deve ser lido ou não. Alguns leitores
se basearam somente nas matérias iniciais e não compraram o livro, mas muitos
leitores não tomaram como verdade absoluta aquelas críticas deturpadas e
mergulharam na leitura. O livro está vendendo bem e temos recebido excelentes
opiniões dos leitores. Alguns elogiam exatamente a informalidade do texto,
porque resgata o Caetano Veloso artista popular, aproximando-o de seus fãs e de
leitores do dia a dia. Não seria adequado contar a história de um personagem
tão complexo empregando uma linguagem rebuscada, igualmente complexa. O livro
tem o mérito de ser simples, sem ser simplório, sem fazer análises filosóficas
da obra e da postura do artista. Escolhemos esse estilo e fomos fiéis a ele até
o fim.
Nolasco — Caetano gostar ou não é indiferente para o caso. Ele é Flamengo, eu
sou Fluminense e nem por isso precisamos brigar. Esse não é um livro que
precise pedir suas bênção. Essa não é nossa intenção. Não sendo algo encomendado
por ele. O fato de ainda haver alguma exploração em torno do fato de seu gosto
pode trazer um sentido de polêmica ao assunto.Qualquer opinião, mesmo que
eventualmente negativa, e seja ela de quem quer que seja, serve apenas para
apreciação do gosto pessoal de cada um, longe de ser uma definição.
● Que imagem vocês tinham de Caetano
quando começaram o livro e qual a que ficou?
Drummond — Como dissemos, não conhecíamos Caetano tão bem, então não tínhamos
uma ideia muito abrangente sobre ele. Mas ficamos surpresos com as muitas
habilidades artísticas que ele possui. Além de cantar, tocar e compor, Caetano
é um grande artista plástico, escreve muito bem, e tem uma relação muito íntima
com o cinema, ramo no qual atuou em diferentes papéis ao longo de sua carreira.
Mas de tudo que conhecemos de Caetano, o que mais nos impressiona é o fato de
se reinventar o tempo inteiro, não ter preconceitos em relação a qualquer
manifestação artística, absorver constantemente o que está a sua volta, criando
e recriando, com seu jeito particular de ver o mundo. O Tropicalismo acabou,
mas Caetano nunca deixou de ser tropicalista.
Nolasco — Caetano foi, é e será de vanguarda. Difícil imaginar outro que com
tanto tempo de vida e carreira ainda consiga manter-se com esse nível de
atividade. Sua capacidade de absorver o mundo que o cerca, devorar essas
sensações, digerir e ainda apresentar algo inovador, faz dele um dos grandes da
cultura brasileira.
Caetano, uma Biografia: A Vida de
Caetano Veloso, o mais Doce Bárbaro dos Trópicos
De Carlos Eduardo Drummond e Marcio
Nolasco.
Editora Seoman, 544 páginas, R$ 59,90.
JORNAL
OPÇÃO
Edição 2189
Um livro revelador
Biografia revela que Maria Bethânia fez sucesso primeiro do que Caetano
Veloso
24/06/2017
Por Euler de França Belém
Livro de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco
não é trabalho meramente de fã; é resultado de uma pesquisa exaustiva
Há
uma tendência a se dizer que “Caetano —
Uma Biografia” (Seoman, 544 páginas), de Carlos Eduardo Drummond e Marcio
Nolasco, é um “livro de fã”. Mas quem disse que “livro de fã” é necessariamente
ruim? Falta, quem sabe, uma avaliação mais precisa da música de Caetano Veloso,
mas essa tarefa é menos do biógrafo do que dos críticos de música, que têm
interpretado, com relativa precisão, a arte do cantor e compositor baiano. Mas
os fatos da vida do artista estão contados, até bem contados, por Drummond e
Nolasco.
Os
não-iniciados, por exemplo, ficam sabendo que Maria Bethânia, embora mais nova,
fez sucesso antes de Caetano Veloso. Aliás, a notável cantora arrastou-o para o
Rio de Janeiro, praticamente como uma espécie de segurança — ela era menor —,
onde substituiu a cantora Nara Leão no Opinião.
Sobretudo, o leitor fica
sabendo como o baiano de Santo Amaro se tornou um artista de primeira linha,
inclusive com incursões como historiador da música, notadamente da Tropicália.
Como
Caetano Veloso está vivo e continua produzindo cultura, a biografia é lacunar.
Aliás, se há um problema, é que os anos mais recentes do artista foram cobertos
com extrema rapidez pelos biógrafos. Talvez valha, na próxima edição, uma
atualizada. O fato é que o livro abre espaço para outras pesquisas e
biografias. A obra, que cita dezenas de pessoas, merece um índice de nomes.
 |
| 1965, Rio de Janeiro, Maria Bethânia e Caetano Veloso - Foto: Abril |
Celebridades
Biografia de
Caetano Veloso chega às livrarias
Na pesquisa para o livro
‘Caetano — Uma Biografia’, autores encontraram militar que atuou na prisão do
baiano e entrevistaram rivais como Geraldo Vandré
04/07/2017
Ricardo Schott
Rio - Por muito pouco, o primeiro
personagem retratado numa biografia pelos amigos Carlos Eduardo Drummond e
Marcio Nolasco não foi Roberto Carlos. A dupla, que acaba de lançar ‘Caetano —
Uma Biografia’ (Ed. Seoman, 544 págs, R$ 59,90), quase embarcou nessa canoa
(furada). “Mas as dificuldades para se chegar a Roberto eram grandes”, conta
Drummond. “O Marcio sugeriu Caetano e decidimos. Sabíamos da importância da
obra dele, mas nenhum de nós dois era tiete do Caetano”.
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| Biografia de Caetano chega às livrarias - Divulgação |
O trabalho da dupla —
cuja pesquisa começou há duas décadas, e cujo resultado inicial está preso nas
gavetas das editoras desde 2003 — tem uma história que, por si só, já daria um
livro. “Outro dia, dei palestra numa faculdade e perguntei quem ali tinha 25
anos. Levantaram o braço e falei: imagina você aos 25, vendo uma entrevista do
Caetano na TV e resolvendo fazer uma biografia dele, já que não existe nenhuma.
Foi assim com a gente!” O livro teve autorização de Caetano, que assinou em
2001 um documento reconhecendo a existência do projeto, e em 2004, foi parar
nas mãos da editora Objetiva.
Apesar da animação
inicial, nada foi para a frente. Foi noticiado recentemente que Caetano não
gostou do texto original (Paula Lavigne, empresária do cantor, disse isso em
entrevistas), e que tanto ele quanto a editora sugeriram a entrada de outros
escritores para ajudar a dupla. Drummond conta que na época não entenderam o
que aconteceu.
“Acho que, por sermos
desconhecidos, ninguém teve peito para bancar o projeto”, diz. Em abril,
Caetano disse numa entrevista em Portugal que não chegou a ver o livro depois
que ficou pronto e que, mesmo assim, autorizou o uso de fotos. “O texto que
Caetano leu na época não é o mesmo de hoje. Reescrevemos tudo. Ele pode não
gostar também do livro novo. O Caetano já criticou até livro do Ruy Castro!
Isso só não poderia determinar se o livro deve ou não ser lido”, conta
Drummond.
CARTA PARA A BAHIA
Nolasco e Drummond
começaram por vias incomuns. Numa época em que o baiano já era um personagem
blindado, mandaram uma carta para Rodrigo, irmão de Caetano, que sinalizou com
um OK informal. “Nem havia e-mail!”, espanta-se Drummond. A dupla fez viagens a
Santo Amaro da Purificação (BA), onde Caetano nasceu.
ntrevistaram toda a sua
família, amigos de infância, descobriram antigos amores do cantor (Aneci Rocha,
irmã do cineasta Glauber Rocha e atriz, foi com quem ele teve sua primeira
relação sexual), foram nas escolas em que Caetano estudou. E descobriram uma
similaridade que ele tem com outro artista bom de música e de autopromoção: o
roqueiro David Bowie (1947-2016). Ambos tiveram seus primeiros empregos em
agências de publicidade.
VANDRÉ PEDIU PESQUISA
Desafetos que Caetano
colecionou ao longo da vida foram entrevistados, como Fagner e Geraldo Vandré.
Este último deu trabalho à dupla. “Descobri um restaurante que ele frequentava
em São Paulo. O garçom me falou que ele ia aos sábados. Eu liguei todos os
sábados até conseguir falar com ele”.
Quando achou o
compositor, ganhou o telefone de sua secretária, mas nem assim foi fácil.
“Demoramos mais um ano para conseguir marcar. Quando falei com ele, Vandré me
pediu: ‘Você é pesquisador, né? Pode achar para mim alguns alunos que se
formaram comigo na Universidade Estadual da Guanabara (Uerj, hoje)?’”, diz,
rindo. “Achei quinze pessoas e ele me deu uma letra dele, ‘Fabiana’,
autografada”.
A dupla também mapeou os
destinos de Caetano na época do exílio em Londres, entre 1969 e 1972. Pouco
antes, o cantor ficou quase desaparecido da família, quando foi preso pela
ditadura militar — um coronel chamado Respício Antonio do Espírito Santo dá
detalhes de como os militares viam a situação de Caetano e Gil, ambos encarcerados.
“Essa parte foi muito difícil”, conta Drummond.