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viernes, 2 de noviembre de 2018

2018 - CAETANO - uma biografia [3]







Jornal Mundo Lusíada
29 de outubro de 2018


Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco


Por Igor Lopes

Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco são os autores do badalado livro “Caetano: Uma Biografia”, lançado em 2017 pela editora Seoman. Ao longo de mais de 500 páginas, 26 capítulos e cerca de duzentas entrevistas, a obra revela a vida de Caetano Veloso, “o mais Doce Bárbaro dos Trópicos”, reconhecido como um dos maiores cantores e compositores da música popular brasileira. Em entrevista à nossa reportagem, a dupla responsável pelo trabalho biográfico falou sobre a etapa de pesquisa da obra, as passagens mais marcantes, os obstáculos para a publicação do livro e a possibilidade de edição em outros países.

Como surgiu a ideia do livro?
Em 1996, decidimos escrever a biografia de um grande nome da música popular brasileira. Na época, percebemos que a história de alguns dos nossos cantores carecia de registro biográfico em forma de livro. O primeiro artista lembrado foi Roberto Carlos, mas as dificuldades de chegar até ele nos motivaram a mudar de personagem. A mãe de Marcio Nolasco, dona Ana Marlene, havia estudado com Rodrigo Velloso, irmão de Caetano Veloso, outro importante artista com a mesma lacuna bibliográfica. Isso nos facilitou o primeiro contato e assim decidimos pelo cantor baiano.

Como foi a pesquisa?
Foi o período mais agradável do projeto. Primeiramente, tivemos a ajuda de Rodrigo Velloso, que nos recebeu em Santo Amaro e Salvador, e nos apresentou à fotógrafa Maria Sampaio, guardiã do acervo da família. Com a base documental estabelecida por ambos, criamos, em seguida, uma rede de contatos que nos permitiu obter preciosos depoimentos, tanto de familiares quanto de amigos de infância e juventude. Dessa primeira relação de entrevistados, também recebemos apoio valioso de Antônio Nunes, o Manteiga, amigo de infância de Caetano, atualmente radicado em Itabuna, na Bahia. Aqui no Rio, fomos muito bem recebidos pelo cantor e compositor Roberto Menescal, um dos criadores da Bossa Nova, e pelas cantoras do Quarteto em Cy, que nos facilitaram a conexão com outras celebridades do meio musical brasileiro. Ao todo foram 103 entrevistados, totalizando quase duzentas entrevistas.

Quando e onde foi lançado?
Em meio a uma grande cobertura da imprensa, lançamos o livro no Rio de Janeiro em maio de 2017. No decorrer daquele mês, também lançamos em São Paulo, com show da cantora baiana Gilmelândia, e, em Salvador, com a presença de Mabel Velloso, irmã do cantor, e de artistas e amigos de infância dele. Não por acaso três dos principais cenários das muitas histórias contadas no livro.

Que pontos são mais marcantes na obra?
Particularmente, destaco todo o período da infância e juventude, que revela ao leitor como se deu a base da formação de Caetano Veloso. Primeiramente, em Santo Amaro, no interior da Bahia, e, depois, em Salvador, capital baiana. Esses trechos lançam luz em personagens importantes na formação do artista, pouco ou nunca lembrados pela imprensa brasileira. Também revelam o jovem Caetano Veloso, ainda estudante, em dúvida sobre qual carreira abraçar. Conhecida essa base da sua formação, é possível entender muitas decisões que ele tomaria no futuro, quando inaugurasse com Gilberto Gil o movimento Tropicalista, ou, em cada disco lançado, depois de engrenar uma carreira duradoura, reiniciada no início dos anos 1970, após o seu retorno do exílio em Londres.

Que histórias mais surpreenderam vocês em relação à vida de Caetano?
A origem de várias das suas canções, biográficas, em sua totalidade, é sempre cheia de referências afetivas. Identificar essas fontes, conhecendo o contexto em que as músicas foram compostas, nos permitiu compreender melhor a sua obra, e até mesmo entender, por exemplo, a lógica de seleção de um repertório em determinado show. As grandes turnês internacionais também renderam muitas boas histórias. Em Portugal, na Espanha, na Argentina, em Nova York, no Japão, por onde Caetano passou, havia uma legião de fãs e testemunhas. E nós falamos com muitas deles, que nos revelaram saborosas passagens. Os bastidores do regime militar, contados por um tenente da época, igualmente nos surpreenderam e nos ajudaram a entender como funcionava o protocolo de atuação daquele regime, que culminou com a prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil, em 1968. Detalhes inéditos da sua vida amorosa, que influenciaram a sua obra e carreira, também são revelados ao longo dos capítulos. O livro é rico em histórias inéditas, e não só do Caetano. Nesse sentido, são várias biografias dentro da biografia. Há, por exemplo, uma história mística de Maria Bethânia, que nos foi contada por uma das suas irmãs, e confirmada pela cantora, acerca da sua relação com um Orixá da Bahia antes de iniciar a sua carreira no Rio de Janeiro.

Que obstáculos encontraram durante a confecção da obra?
Inúmeros obstáculos. Todos os custos da pesquisa, incluindo as muitas viagens a São Paulo, Salvador e Santo Amaro, saíram do nosso próprio bolso. Então, o primeiro grande obstáculo nos afetou no plano financeiro. Outro grande desafio foi dividir o tempo de pesquisa com as nossas outras atividades profissionais. Durante os oito anos de trabalho, entre pesquisa e redação, praticamente não tivemos férias, e muitos dos nossos finais de semana foram consumidos dentro de bibliotecas ou diante de computadores. Vale destacar também as dificuldades naturais de localizar pessoas e documentos, no campo da pesquisa, e o desafio de estabelecermos um estilo literário comum aos dois autores, no quesito redação. Por fim, é importante registrar que o maior obstáculo pelo qual passamos aconteceu após a finalização da primeira versão da obra. A ausência de uma autorização formal do biografado nos forçou a engavetar o projeto por 11 anos, pois a lei brasileira em vigor na época obrigava a existência de uma autorização do biografado ou dos seus herdeiros para a publicação de uma biografia. Somente em 2015, após a Suprema Corte Brasileira abolir essa lei, foi possível desengavetar o livro, fazer uma revisão profunda, tanto de informações quanto de texto e estilo, e, finalmente, publicá-lo. Do início do projeto, em 1997, até a sua publicação, em 2017, foram 20 anos de espera. Parafraseando Caetano: “é engraçada a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer”.

Como o público tem recebido o livro?
A reação de quem leu o livro com isenção tem sido a melhor possível. A todo momento, recebemos em nossas redes sociais mensagens de leitores de todo o Brasil, e até do exterior, elogiando a obra e agradecendo por termos conseguido êxito nessa publicação tão necessária à preservação da memória das artes em nosso país. Recentemente, recebemos o apelo de um argentino para publicarmos o livro por lá. Ele nos passou as editoras indicadas e iniciamos o contato, pois o público latino-americano não pode ser privado dessa história. O mesmo sentimento nutrimos em relação à compartilhar com os portugueses o resultado desse trabalho. Esse livro vai chegar à América Latina e à Europa. É uma questão de tempo.

Que mensagem procuraram deixar com esse trabalho literário?
O livro mostra as escolhas e decisões que levaram um menino simples, nascido e criado no interior da Bahia, nos anos 1940, a se tornar um dos artistas brasileiros mais completos de todos os tempos, e mundialmente reconhecido. Além de apresentar ao leitor a trajetória de um cantor tão bem-sucedido, o livro demonstra a forma como ele se relaciona com tudo que está a sua volta, a sua época e os seus contemporâneos, e revela, por meio das suas escolhas estéticas abrangentes e da sua forma particular de pensar o mundo, os segredos do seu sucesso profissional e a origem da riqueza cultural da sua obra.

Que projetos têm para o futuro?
Há projetos individuais e em dupla. Especialmente um, em dupla, se mostra mais próximo de ser concretizado. Trata-se de outro livro biográfico. Por enquanto, não podemos revelar o nome do personagem, pois as negociações ainda estão para acontecer.

E qual é o perfil dos autores?
Carlos Eduardo Drummond é carioca, nascido em 1971. Formado em Administração de Empresas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pós-graduado em Relações Internacionais pela Universidade Cândido Mendes (UCAM). Poeta, escritor e compositor, autor de três livros e coautor dos Sambas de Enredo da Imperatriz Leopoldinense de 2011, ganhador do prêmio “Estandarte de Ouro”, e de 2013. Também é servidor público na Fundação Nacional de Artes (FUNARTE), ligada ao Ministério da Cultura.

Marcio Nolasco é também carioca, nascido em 1969. Formado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ávido leitor, cinéfilo, contista, com trabalhos publicados em diversas antologias. É auditor fiscal na Secretaria de Fazendo do Estado do Rio de Janeiro. Casado com a cantora e professora de música Tatiana Pinheiro, é pai de Guilherme.


domingo, 3 de diciembre de 2017

2017 - VERDADE TROPICAL - Portugal

Observador



1. “Devemos estar no bom caminho”
2. “De Noite na Cama”. Mas e a política?
3. De Carmen Miranda a Salvador Sobral
4. Caetano, não imite Proust


“Verdade Tropical”. A transa de Caetano Veloso com a literatura
02 Dezembro 2017


Por Luís Freitas Branco



A autobiografia de Caetano Veloso, marco da literatura no Brasil, chega a Portugal com um capítulo inédito, onde podemos entrar na cabeça do baiano em 2017, ano em que voltou para o ativismo político.


Foi uma autobiografia que quase matou Caetano Veloso. Depois da repressão da ditadura militar, prisão e décadas de beleza pura, o cantor baiano estava em 1997, e pela primeira vez, a considerar a possibilidade de suicídio. A vida passou a correr entre os dedos, sujos de tinta, acabados de escrever páginas e páginas da autobiografia, Verdade Tropical, uma prova irrefutável que era mortal. Hoje, 20 anos depois, Caetano lança-se numa reedição, não apenas da autobiografia, mas de si mesmo, com força e ativismo político como se estivesse novamente sozinho contra o mundo. Sozinho não, com as canções do seu lado.


“Carmen Miranda não sabia dançar” é a grande novidade na reedição da obra que foi um marco literário no Brasil, um capítulo novo recheado das características divagações proustianas do cantor-escritor, que delineiam a narrativa destas quase 300 páginas. Há 50 anos, Carmen Miranda já tinha sido devidamente homenageada na canção "Tropicália", agora serve de pretexto para Caetano refletir sobre a autobiografia, revelar a profunda depressão após a escrita em 1997, e acima de tudo, apresentar o que preocupa o cantor neste período conturbado brasileiro de impeachments, operações policiais e uma verdadeira guerra cultural entre conservadores e liberais.



“Verdade Tropical”, de Caetano Veloso (Companhia das Letras)



1. “Devemos estar no bom caminho”

“Enquanto escrevo, o Brasil está em perpétua convulsão e há coisas demais sugerindo que não temos por que ser otimistas”, diz no capítulo inédito, sugerindo a máxima de Fernando Pessoa que “nós nos extraviamos a tal ponto que devemos estar no bom caminho”. Se este tipo de consideração político-social lhe parece descabido num livro sobre a vida de tipo que canta sobre a juba de leãozinho, é porque ainda não leu Verdade Tropical. Num primeiro plano, é uma autobiografia clássica, como a matriz escrita por Benvenuto Cellini no Renascimento, ou seja, sobre a infância, os amigos célebres, a ascendência (Tropicália) e a queda (prisão e exílio). Porém, é também um livro sobre a importância da música na composição do mito brasileiro, e uma reflexão profunda sobre a arte e vida durante o período de ditadura militar.


“Eu sempre quis muito/ Mesmo que parecesse ser modesto”, avisou Caetano em “Muito”. 

Em 1997, casado com Paula Lavigne, e um recém nascido ao colo, Caetano assistia enquanto o Brasil discutia os méritos e deméritos de livro, sendo possuído por uma repulsa incontrolável, uma reação física de ter escrito muito e muito.


Sexo e internet são duas palavras de uma mesma conjugação, e para o compositor “De Noite na Cama”, sexo é assunto sério, papo reto, como se diz no Brasil. “Não sou nem heterosexual, nem homosexual, nem bissesexual” reflete no capitulo inédito, sobre a eterna questão da orientação do menino do Rio, um tema recorrente no livro.


“Eu não conseguia dormir nem comer. Emagreci muito. O surtos tinha semelhanças com os momentos de horror experimentados com o uso das drogas. Tinha sobretudo parecença com o que senti ao chegar de casa depois da prisão”, conta, ao lembrar duas partes memoráveis do livro, as experiências fracassadas com drogas e a saída tortuosa da prisão. Numa depressão inesperada aos 55 anos, motivada sobretudo pelo nascimento do filho mais novo, ainda consegue lançar Livros, o álbum que tem a canção “Um Tom”, que não por acaso, este ano faz parte do repertório dos concertos familiares ao lado dos filhos, Tom, Zeca (filhos de Paula) e Moreno (filho de Dedé, a primeira mulher e companheira ao longo da Verdade Tropical, desde a Bahia a Londres).

“Mas estou bem melhor que naquela altura, agora é só uma reedição”, desabafou a rir o cantor numa entrevista ao jornalista Pedro Bial. Só uma reedição, que chega no mesmo ano que Caetano, Uma Biografia, outro apontamento com história, a primeira biografia lançada no Brasil depois do sistema judicial dar sinal verde à publicação de biografias não autorizadas.
“Nesse contexto de incertezas, a primeira editora desistiu e nenhuma outra teve coragem de assumir o projeto. Isso foi em 2004”, conta ao Observador o escritor e poeta Carlos Eduardo Drummond, que assina esta obra com Marcio Nolasco. “Esperámos 11 anos até a mudança da lei, em 2015”. Caetano mantém uma atitude blasé em relação à obra, e indica até em “Carmen Miranda não sabia dançar” que nunca teve paixão pela proibição das biografias. Sobre Verdade Tropical, Carlos não tem dúvidas da qualidade, “é a versão de um dos períodos mais férteis e conturbados da música popular brasileira narrada por um de seus principais protagonistas”, com um “estilo literário particular”, e “uma forma complexa de pensar o mundo, que tornam o livro ainda mais singular.”



A biografia de Caetano assinada por Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco

2. “De Noite na Cama”. Mas e a política?

No Brasil futebolístico, Mick Jagger é o “pé frio” mais famoso do mundo, isto é, uma pessoa azarada, de tal maneir que a sua simples presença significa a derrota certa da equipa que estiver a apoiar, no caso mais extremo, sete a zero, sendo que o próprio admitiu culpa de pelo menos um golo da Alemanha. Os mesmos pés frios deram passos de dança no ano passado em casa de Jorge Ben Jor no Rio de Janeiro, e como ninguém teve coragem de lhe dizer não, o vocalista dos Stones publicou no instagram uma foto na festa, ao lado de Caetano e Paula Lavigne, que supostamente estavam separados há 11 anos depois de duas décadas de casamento. Além de ser também personagem em Verdade Tropical, agora Mick é narrador da história recente de Caetano, pois foi este reencontro público que motivou o baiano a assumir a relação e voltar para o ativismo político ao lado de Paula, mesmo que isso implicasse combater no ringue mais perigoso dos nossos dias, a internet.

Sexo e internet são duas palavras de uma mesma conjugação, e para o compositor “De noite na Cana”, sexo é assunto sério, papo reto, como se diz no Brasil. “Não sou nem heterosexual, nem homosexual, nem bissesexual” reflete no capitulo inédito, sobre a eterna questão da orientação do menino do Rio, um tema recorrente no livro, especialmente quando se trata de apreciar as feições de Chico Buarque. No fundo, Caetano é um ser sexual, que pensa profundamente, sofre na prisão com disfunção, e é livre de andar por aí a “caetanear o que há de bom”, nas palavras de Djavan:

Este ano, quando uma exposição queer em Porto Alegre fechou por protestos em relação à sexualidade explícita das obras, o cantor decidiu intervir contra o fecho, posicionando-se mesmo a jeito para levar de tabela dos famosos trolls das redes sociais. Quem fez os protestos originais contra a exposição “Queermuseu” foi a MBL (Movimento Brasil Livre), que acusaram as obras de zoofilia e pedofilia, e dias depois, orientaram a mesma fúria online para uma performance em São Paulo, começando uma guerra cultural no Brasil entre conservadores e liberais que se arrasta até agora.

“O maior problema do Brasil é a desigualdade. É disso que eles querem fazer a gente se esquecer, criando essas cortinas de fumaça, mas nós não nos esqueceremos”, disse na altura no programa de televisão Altas Horas. “Havemos de vencer a desigualdade. E é isso que nós temos que ter coragem de mudar, não ficar discutindo se um rapaz nu deitado e uma menina que foi levada pela mãe é pedofilia, é claro que não é pedofilia.” Atrás das telas dos computadores, os trolls decidiram quem seria o próximo inimigo abater.

Articulado por Paula Lavigne, o Movimento 342 junta artistas que querem combater os protestos conservadores, e também, lutar pelo fim de governo vigente brasileiro. Caetano assinou em baixo e seguiu para a luta, a combater de frente o MBL, que começou há cerca de duas semanas uma campanha de difamação para acusar Caetano de pedofilia, pelo início da relação com Paula enquanto a carioca era menor de idade, nos anos 80.


“Nos últimos tempos, minha inclinação para à esquerda viu-se obrigada a explicar-se, dada a intensidade com que as forças conservadoras se levantaram no Brasil”, explica no novo capítulo. “Para muita gente isso foi um combustível para a polarização e a volta a classificações e desclassificações fáceis.”


O criador da hashtag #CaetanoPedófilo foi agora proibido pela justiça de usar esta ferramenta de ataque, e uma figura bem conhecida entre os portugueses foi também proibida de fazer qualquer referência ao cantor, o “ator” Alexandre Frota, sob pena de multa pesada. “Nos últimos tempos, minha inclinação para à esquerda viu-se obrigada a explicar-se, dada a intensidade com que as forças conservadoras se levantaram no Brasil”, explica no novo capítulo. “Para muita gente isso foi um combustível para a polarização e a volta a classificações e desclassificações fáceis.”

A última batalha desta história ainda está para se desenrolar, depois de Caetano ter sido obrigado a descer do palco em São Bernardo do Campo, São Paulo. “Dá a impressão que não é um ambiente propriamente democrático” disse na hora aos jornalistas que noticiaram a ordem de tribunal a proibir o concerto. “No período democrático é a primeira vez” (que é impedido de tocar).

Na mesma entrevista improvisada, começa a cantar “Gente”, com os versos de “Gente quer comer/ Gente que ser feliz”. A gente são as sete mil famílias trabalhadoras e desalojadas, que improvisaram casa num descampado em São Bernardo do Campo, a quem o cantor tentava em vão entreter, sobre a alça da organização MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). O concerto foi remarcado para dia 10 de Dezembro, num comunicado da atriz Sónia Braga.

“Juíza fascista e arbitrária” foi a acusação de Ciro Gomes sobre o cancelamento do concerto, um assumido candidato de esquerda à presidência em 2018, o único com o selo de aprovação de Caetano. Se o cantor sempre foi o tipo de esquerdista que critica a esquerda e apoia certos conceitos capitalistas, agora deu a definitiva guinada para a esquerda, confirmando que nós nunca o vamos conhecer de verdade, mesmo depois de 300 páginas da autobiografia. “You don’t know me/ Bet you’ll never get to know me/ You don’t know me at all”, cantou durante o exílio em Londres.


3. De Carmen Miranda a Salvador Sobral

“Caetano é uma pessoa muito sensível a questões que já o atormentaram em outras épocas, sobretudo no período militar, na década de 1960. Alguns fatos lhe trazem à memória passagens traumáticas e isso desperta nele um desejo incontrolável de se manifestar, de se posicionar e lançar sua voz contra ou a favor das questões”, explica o seu biógrafo. “Os assuntos mais recentes, por exemplo, estão muito ligados à questão da censura: a tentativa de extinguir o Ministério da Cultura, a proibição de uma peça, o fechamento de um museu, etc. Diante de assuntos dessa natureza, Caetano se posiciona com a veemência que lhe é peculiar.”

Durante “Carmen Miranda não sabia dançar”, descreve a recente desolação brasileira e a existência trémula da União Europeia, e dá um exemplo único de superação e possível caminho: os nossos grandes hits de sucesso em 2017, a geringonça e Salvador Sobral. “Um governo de esquerda que resiste às fórmulas de austeridade da União Europeia e mostra bons resultados com isso. A vitória de um refinado Salvador Sobral no cafona festival da Eurovisão chega-me com gosto de sintonia com essa conquista política — e me leva a lembrar o pessoano e desaforado brado de Agostinho da Silva: ‘Portugal já civilizou Ásia, África e América: falta civilizar Europa.”


A meio de 'Verdade Tropical', o escritor confessa que uma vez lhe contaram que a primeira regra para escrever bem é não imitar Proust. Fez o inverso, mas como não pode ser exatamente Proust, é Caetano Veloso, o compositor que mora na filosofia, que rima amor e dor, desorganizado nos pensamentos.

Não estamos em 1997, mas as questões políticas que motivaram parte de Brasil a não comprar o livro ainda são as mesmas. “Vi que saiu nova edição do Verdade Tropical, de Caetano Veloso. Não li, e não gostei. Também não li o primeiro, do qual não gostei à época”, remata o colunista Miguel de Almeida, acusando o livro de ingenuidade política, que na altura apoiava algumas medidas do ex-presidente Collor. “Lula e Dilma foram os únicos que deixaram o Ministério Público e a Polícia Federal trabalharem em paz por muito tempo”, sugere o cantor na reedição, a lançar mais achas para a fogueira. Incapaz de ser mero passivo, este é o Caetano de 2017, que chega a receber em casa o controverso Deltan Dallagnol, procurador da Lava-Jato, para num tête-à-tête ouvir os argumentos da operação policial que tem criticado ao longo do ano.

“Como toda obra, essa também não é uma unanimidade”, confirma Carlos Eduardo Drummond sobre Verdade Tropical, “conheço gente que não terminou de ler, principalmente por conta do estilo ensaísta empregado pelo cantor.” As divagações proustianas em estilo de tese corrida, influenciado pela literatura francesa, ainda surpreendem, sobretudo no capítulo da prisão, “Narciso em Férias”, quase um livro à parte. 

“Se quem me está lendo é uma ou um jovem que vê este livro pela primeira vez, aconselho que, assim como veio a este parágrafo, vá direto ao capítulo Narciso em Férias”, sugere o próprio no início, aconselhando a ler somente sobre a prisão política de 1968 ao lado do colega e fundador da Tropicália, Gilberto Gil, evento de que já falámos mais detalhadamente por aqui.

4. Caetano, não imite Proust

“De início devo dizer que não sou a pessoa mais indicada para comentar a autobiografia de Caetano Veloso, pois não tenho bom conhecimento de música nem das composições do autor”, começa em ensaio Roberto Schwarz, o reverenciado crítico literário e estudioso de Machado de Assis. “Entretanto gosto muito do livro como literatura.” Para Roberto, a “prosa de ensaio” é perfeita para a surpreendente “conjugação de músico popular ao intelectual de envergadura”, resumindo que “a novidade que o livro recapitula e em certa medida encarna é a emancipação intelectual da música popular brasileira”. Roberto Schwarz acerta na mouche, e ainda deixa umas críticas para as tendências políticas do livro, que Caetano rebate também no capítulo inédito, apesar de aceitar a parte elogiosa do crítico literário.

A meio de Verdade Tropical, o escritor confessa que uma vez lhe contaram que a primeira regra para escrever bem é não imitar Proust. Fez o inverso, mas como não pode ser exatamente Proust, é Caetano Veloso, o compositor que mora na filosofia, que rima amor e dor, desorganizado nos pensamentos, que vamos reconhecendo como notas musicais, sons de Brasil e mais qualquer coisa, seja questões políticas ou sociais, como o próprio canta, “esse papo meu tá qualquer coisa e você tá pra lá de Teerã”.

Teerã ou Marraquexe, mas lá vamos concentrados a pescar umas pistas de dentro da cabeça do baiano. A solução é reler o livro, o caminho é longo, mas pode ser que seja desta que conseguimos perceber o que é que o baiano tem. “It’s a long, long, long, long way”.








Verdade Tropical
de Caetano Veloso

ISBN: 9789896653620
Edição ou reimpressão: 11-2017
Editor: Companhia das Letras
Idioma: Português
Dimensões: 146 x 228 x 39 mm
Encadernação: Capa mole

Páginas: 608


martes, 22 de agosto de 2017

1977 - A OUTRA BANDA DA TERRA


“Não se sabe ainda ao certo se A Outra Banda Da Terra
existe. O que há, entretanto, pintou por causa de Vinícius
e Arnaldo terem incrementado o hábito de fazer som
comigo, em casa, sem arranjos nem planos definidos. Hábito
a que aderiu Rubão. Isso me fez muito bem e me honra
muito. Quisemos tocar em público. Convidamos Tomás.
E Marcos. E Serginho deu uma supercanja que multiplicou
por mil o brilho do nosso show. Para o disco, convidamos
Bira e Bolão “Muito Romântico” é a única
faixa-satélite-artificial [por culpa minha] de brilho propio
[por culpa da competência e inspiração de Perna]”

[Caetano Veloso, texto na contra-capa do álbum Muito - Dentro da Estrela Azulada, 1978]





A OUTRA BANDA DA TERRA


Tomás Improta
Arnaldo Brandão
Vinicius Cantuária
Marcos Amma
Bira da Silva
Bolão




"... Em dezembro de 1977, o mistério poderia ser esclarecido mais facilmente do que se imaginava. Bastaria comprar ingresso e correr para o show de Caetano Veloso, no Teatro Clara Nunes, Shopping da Gávea, zona sul carioca..."

" ... Embora a imprensa não tivesse oficializado ainda, no show do Teatro Clara Nunes o grupo finalmente foi apresentado da forma que ficaria conhecido na história: A Outra Banda da Terra...

[CAETANO - uma biografia, Pág. 296]

























Reprodução

Ricky Goodwin, Júlio Barroso, José Emílio Rondeau, Ana Maria Bahiana, Waldemar Falcão, Dieter Stein, Antonio Carlos Miguel, Paulo Ricardo, Maurício Valladares e Beto Carvalho



Acervo pessoal Antonio Carlos Miguel

































1977
Jornal de Música
Dezembro de 1977









Janeiro de 1978
Jornal de Música



Foto: Paulo Ricardo




Caetano num show integral e natural

Antônio Carlos Miguel


Eu tinha gostado do Bicho Baile Show, de Caetano com a Banda Black Rio, mas este show atual é bem superior. Tem mais a ver com toda transação caetânica. Se em Bicho a atmosfera parecia um pouco forçada, apesar do repertório e dos ótimos músicos da Banda - o melhor grupo instrumental de 1977 - neste novo show Caetano está bem natural, com todo pique e toda suavidade peculiar.

Bicho foi em parte um trabalho conceitual que demonstrava a vontade de Caetano em fazer uma música mais próxima à dança e origens afro-brasileiras. Talvez por isso mesmo o destaque maior foi para a Banda. Havia por parte de Caetano interesse em dar força à música instrumental. Para todas essas ideias se completarem integralmente faltou um melhor entrosamento entre os dois trabalhos. A música de Caetano soava um pouco estranha, não se adaptando aos arranjos 'Black Rios'.

Este é um problema que não existe neste novo show, a impressão é de que estamos em casa. Tecnologia integral e natural. Mesmo voltando ao esquema 'banquinho-violão' temos um espetáculo solto e descontraído. Caetano está tranquilo, conversando bastante com o público, transmitindo toda sua segurança frágil. O show utiliza poucos recursos, nenhum cenário e uma iluminação discreta. Os músicos que o acompanham se integram neste clima todo. Alguns deles têm um contato bastante intenso com Caetano, Arnaldo Brandão (baixo e violão de 7 cordas) e Vinícius Cantuária (bateria e guitarra acústica) participaram do disco Bicho e tocam em 'jam sessions' caseiras; este também é o caso de Tomás Improta (piano acústico e elétrico). Na percussão está Marcos Amma. Nesta apresentação no Teatro Clara Nunes - este show já tinha sido apresentado no Teatro do Instituto de Educação (*) e na Concha Verde (**) - há ainda a participação superespecial de Sérgio Dias Baptista (guitarrista dos Mutantes).

O show começa com uma série de músicas acústicas, 'Leãozinho' é a primeira, na segunda música são apresentados os músicos e entra em cena dando 'uma supercanja', Sérgio. Enquanto Caetano canta Sérgio preenche todos os espaços e voa alto com seus solos mutantes. São apresentadas algumas composições novas, inclusive 'Sampa', o samba que Caetano fez para São Paulo... 'o samba é hoje em dia uma música típica de São Paulo'. Em seguida vem 'Rio'. Estas duas músicas já bastam para mostrar que ele continua sendo o mais instigante poeta/letrista na música brasileira. Algo como a loucura da lucidez. Antes do intervalo uma homenagem a Dylan, todos cantando 'Don't think twice, it's all right'.

Na segunda parte, só ao violão, Caetano interpreta alguns 'standards' da MPB: 'Quem Vem da Beira do Mar' (Dorival Caymmi), 'Eu Sei Que Vou Te Amar' (Tom Jobim/Vinícius de Moraes) e 'De Você Eu Gosto' (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira).

No final, com o grupo novamente, são apresentados, entre outras, 'Tigresa', 'Um Índio' e a incrível 'Muito Romântico' - gravada por Roberto Carlos em seu último disco. A interpretação de Caetano tem muita garra, superando a gravação de Roberto. Sérgio contribui com um lindo solo, que desta vez o obriga a se levantar da cadeira - até então ele tinha tocado sentado, com um painel de pedais.

O trabalho do grupo está perfeito. Arnaldo segura no baixo, Vinícius, além da bateria, dando uma boa ajuda nos 'backing vocals' e na guitarra acústica. Outro destaque para o trabalho de Tomás Improta no piano, com solos saborosos em contraponto ao canto de Caetano - por exemplo a música 'Love, Love, Love' - e a guitarra de Sérgio.

Fechando o show, não podia faltar, 'Odara'



(*) Teatro do Instituto de Educação


























(**) Projeto “Quem Sabe, Sobe” na Concha Verde do Morro da Urca do Pão de Açúcar, com dezenas de atrações nacionais e internacionais produzido por David Tygel.






























Terra Magazine

23/05/2013

Caetano – entre Muito e a Banda Cê

PAQUITO (*)

Tinha eu quatorze anos quando, levado por minha madrinha, assisti Caetano Veloso – e A Outra Banda da Terra – ao vivo pela primeira vez. O show era Muito, disco de 1978 que rendeu polêmica por conta das críticas negativas, a que o próprio Caetano respondia, o que lhe rendeu acusações de não aceitar opiniões contrárias, atitude que ele mesmo comentou na sua última coluna em O Globo.

Na época, apenas o fato de ir a um show era novo pra mim. Só estar em um teatro, tendo a experiência de ouvir ao vivo os sons que ouvira em discos – de certa forma, minimizados – era um acontecimento:"o som", sem intermediação da radiola ou tv. Como ainda não tinha o disco Muito, não conhecia nenhuma das novas canções – e nem muito também da obra anterior de Caetano – mas me lembro até hoje do impacto da música Terra, cujo refrão o público repetia, o que criava um clima ritualístico forte, sem que o cantor precisasse puxar o coro. Era uma prece conjunta.

No final do show, os percussionistas que estavam na plateia foram convidados a subir no palco, pra tocar na última música. Da prece passou-se à festa, e deu vontade de subir naquele palco, estar com aqueles músicos, ser como aquelas pessoas confraternizando-se. Eu não tinha consciência, mas o fenômeno da canção popular estava se dando na minha frente, com desdobramentos até hoje na minha vida, tanto que me tornei compositor, e escrevo basicamente sobre música aqui na Terra Magazine.

Outra lembrança forte é a da postura despojada de Caetano no palco, assim como o figurino, apenas camiseta branca sem mangas, bermuda e sapatos igualmente brancos, corpo magro, e os cabelos longos, cacheados e negros.

O figurino simples se contrapunha às roupas coloridas que se haviam popularizado com o Tropicalismo, que completara dez anos, e pelo qual eu começava a me interessar. Com seu violão Ovation, bojudo, contrastando com a magreza, Caetano levantava o joelho direito e permanecia algum tempo em posição de garça, um pé no chão, outro suspenso no ar.

A partir de então, assisti a quase todos os shows de Caetano, gostava de reparar na harmonia das músicas, e muitas delas aprendi a tocar apenas observando-o em apresentações. Com toda sofisticação que há no pensamento e no som de Caetano, a execução de suas músicas é relativamente simples no violão, o que tornava possível a um amador tocá-las exatamente como ele, o que era ótimo. Eu podia repetir em casa o que via no palco.

Assistindo ao Abraçaço, seu show mais recente, tantos anos depois, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, sei que é comum se associar Caetano a um ser mutante, que tanto pode aparecer num especial de Natal da Globo – com Ivete e Gil – quanto fazer um show e disco como esse com a banda Cê, que concorre ao Prêmio da Música Brasileira de Melhor Cantor na categoria de música pop/rock/reggae/hip hop, e não mpb, como seria mais convencional.

Caetano sempre fez o trânsito entre categorias aparentemente distintas, mas é um artista ancorado na tradição, mesmo que seja para reinventá-la, comentando-a.

O Funk melódico do Abraçaço é um exemplo: versos de Noel Rosa e Vinicius de Moraes são citados, dialogando com a rusticidade da música carioca dos subúrbios. (E, pensando bem, Noel é tão rústico quanto os funkeiros quando se trata de detonar uma mulher.)

Cláudio Leal escreveu um artigo legal sobre o Abraçaço aqui na Terra Magazine (Aquele abraçaço), então vou comentar – além das minhas memórias remotas – a respeito da banda Cê, que está com Caetano há três Cds: , Zii e Zie e este Abraçaço. Após um período em que pretendeu unir a percussão baiana à sofisticação do jazz, projeto do CC Livro, Caetano montou uma banda simples, com apenas três músicos jovens (Pedro Sá na guitarra, Marcelo Calado na bateria e Ricardo Dias Gomes no baixo e teclados), e compôs canções endereçadas ao formato e linguagem de um tipo de rock mais enxuto.

O artista e o conjunto integraram-se de tal maneira que a banda Cê é constitutiva desse novo Caetano, contribuindo pra tornar o Abraçaço mais forte e denso. A banda também dá conta, na medida, de tocar o Caetano pré-Cê, mantendo a diversidade rítmica e melódica do compositor, sem afetações, talvez porque não ambicionem ser virtuoses, não são músicos "músicos", como bem definiu Pedro Sá, numa conversa que tivemos depois do show. Eles estão ali pra servir às canções, e não se servir delas.

Eclipse Oculto -do disco final com a Outra Banda da Terra, Uns, de 1983, -mereceu seu arranjo e jeito de execução mais bacana, sem ambicionar ser pop, e mantendo a urgência do rock. Triste Bahia, do Transa, tem o clima e arranjo bem semelhantes ao do disco de 1972, cujo despojamento combina com o da Banda Cê, que tocou, no show , Nine out of ten, também do Transa, sem querer reinventá-la, o oposto ao arranjo pra mesma canção do disco Velô (1984), que hoje soa datado.

O Velô pertence aos anos oitenta e, naquele período, o tratamento dado às gravações tornava a música postiça, quando se pretendia soar tecnicamente avançado. Curiosamente, o Transa, bem anterior, soa mais moderno que o Velô, mesmo sendo este repleto de ótimas canções.

Assim como muita coisa muda, outras permanecem: comparando com o show Muito, os cabelos de Caetano ficaram brancos – sinal da passagem do tempo, o que independe de intenções estéticas – e o figurino, antes claro, se tornou escuro. Mas a posição de garça – e graça – mantém-se até hoje, simbolizando involuntariamente essa capacidade do artista de equacionar tradição e ruptura: um pé firme no chão, outro no ar.




(*) De 2006 a 2014, Paquito foi colunista da revista virtual Terra Magazine de Bob Fernandes.