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viernes, 23 de agosto de 2024

2024 - CAETANO&BETHÂNIA - Turnê - RIO DE JANEIRO

 



3, 4, 10, 11 de agosto de 2024



4/8/2024 - Foto: Marcos Hermes


O GLOBO 

Cultura


Em ‘Caetano & Bethânia’, cantores dão ao grande público tudo o que ele quer

 

Estreia da turnê de arena dos irmãos baianos, patrimônios da MPB, revela um show cheio de sucessos, com poucas mas boas surpresas

Por Silvio Essinger

Rio de Janeiro

04/08/2024


Maria Bethânia e Caetano Veloso no show 'Caetano & Bethânia' na Farmasi Arena (Rio) — Foto: Silvio Essinger


Quem um dia sonhou ver Caetano Veloso e Maria Bethânia juntos, em uma turnê para arenas, como astros de rock, a cumprir um extenso repertório com a soma de seus sucessos e clássicos... cuidado com o que você deseja, porque “Caetano & Bethânia”, o show que estreou na noite de sábado na Farmasi Arena, no Rio, é bem isso. 

Ao longo de duas horas de apresentação, os irmãos de 81 (Caetano) e 78 anos mostraram vitalidade e disposição de agradar a um público vasto (13 mil pessoas na noite) com um repertório que reunia tudo que se poderia querer deles, algumas poucas (mas boas) surpresas e a constatação de que não restam muitos artistas capazes de fazer o que eles fazem. 

A banquinha de merchandising (com camisetas e canecas da turnê, quase como relíquias de Aparecida do Norte), a pista livre de mesas, os fãs aglomerados desde cedo na frente do palco, a discotecagem animada, tudo isso ajudava a compor o clima de noite em arena que antecedeu os primeiros acordes do show. 

Enfim, às 22h19, com a banda no palco e luzes apagadas, a abertura bombástica de “Alegria, alegria” começou a desfazer o grande mistério de “Caetano & Bethânia”: convergindo para a frente do palco a partir das rampas pensadas pela diretora Bia Lessa, os irmãos, ambos vestindo veludo, embora de diferentes cores, uniram vozes no hino tropicalista de Caetano, e foram recebidos como os Beatles do Shea Stadium: com um canto da plateia em tão alto volume que, para quem estava mais na frente, o som dos astros, saído dos alto falantes, parecia baixo. 

Com a dinâmica tradicional dos irmãos (Bethânia mais teatral e Caetano em busca das pontuações musicais e poéticas), o show seguiu, sem pausas, por “Os mais doces bárbaros”, “Gente”, “Oração ao tempo” (a partir da qual o som foi regulado), “Motriz” e um “Objeto não identificado” muito aplaudido. A banda, formada segundo a direção musical conjunta dos braços direitos de Caetano (o guitarrista Lucas Nunes) e de Bethânia (o baixista Jorge Helder), deu às canções iniciais do espetáculo uma pegada mais grandiloquente, acelerada, que aos poucos foi se diversificando e abrindo espaço para algumas delícias musicais. 

Foi o caso da parte mais Bahia e africana do show, com “Milagres do povo” e (“Isso é Gil!”, alertou Caetano) “Filhos de Ghandi”, à qual o naipe de sopros de Diogo Gomes, Joana Queiroz e Marlon Sette providenciou um sabor todo especial. A mesma impressão de que uma alquimia musical tinha sido feita se deu na dobradinha “Um índio” e “Cajuína”, a partir da qual o show adquiriu uma leveza maior, permitindo a Caetano enfim pegar um violão para cantar, sem a irmã, o seu hit “Sozinho”, de Peninha. 

A opção por entregar de bandeja ao público suas músicas mais populares, nos momentos solo, acabou rendendo alguns dos melhores momentos de “Caetano & Bethânia”. No caso do cantor, com um “Leãozinho” gostoso, em ijexá, e um “Você é linda” que foi pura radiofonia. Já no de Bethânia, foi com “Brincar de viver”, “Explode coração”, “Negue” e “As canções que você fez pra mim”, em que ela explodiu de emoção soul emoldurada pelos sopros e por backing vocals. 

De volta ao show em dupla, num palco no qual os telões foram usados com sobriedade e bom gosto, sem grandes invenções, Caetano e Bethânia passaram pelos sambas de temática mangueirense e chegaram à esperada homenagem à amiga Gal Costa, com “Baby” e “Vaca profana” (dos versos “quero que pinte um amor Bethânia”, que Maria cantou rindo). Outro dos grandes momentos do show se deu pouco depois, com “O quereres”, uma daquelas odisseias poéticas de Caetano que deu gosto de ver Bethânia percorrer, junto com o irmão, até o fim. 

Iza e Kleber Lucas

A maior surpresa de “Caetano & Bethânia” veio na sequência: os dois defendendo com firmeza a “Fé”, hit da cantora Iza (“fé pra enfrentar esses filhos da puta!” – foi bonito vê-los cantar esses versos). Um contraponto curioso para a corajosa decisão de Caetano de lutar, na parte solo de seu show, pouco antes, pelo louvor “Deus cuida de mim”, do pastor Kleber Lucas. Mesmo com o argumento de que hoje muitos brasileiros hoje são evangélicos, mesmo já tendo gravado a canção com Kleber... a verdade é que ela ficou deslocada no show. 

Inevitável e indispensável, do repertório comum a Caetano e Bethânia, o delicioso samba baiano “Reconvexo” foi o número escolhido, com sabedoria, para o espetáculo começar a dizer adeus. Mas, também, como terminar um show desses, de tantas emoções e histórias? A solução encontrada foi das boas: logo após o “Reconvexo”, um “Tudo de novo” (canção feita por Caetano para o primeiro show em dupla com a irmã, de 1978), uma rápida saída do palco e uma volta, com a banda suingando com “Odara”, para as despedidas de fato. 

Bis, não teve. E nem precisou. 

Cotação: Ótimo


Victor Chapetta / AG News

Victor Chapetta / AG News

Victor Chapetta / AG News

Victor Chapetta / AG News













Foto: Daniel Ramalho












Foto: Rodrigo Goffredo


4/8/2024



4/8/2024 - Foto: Marcos Hermes

4/8/2024 - Foto: Marcos Hermes

4/8/2024 - Foto: Marcos Hermes





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Notícia

 

Filhos de Dona Canô

Entre o sagrado e o humano: Caetano Veloso e Maria Bethânia celebram legado musical na estreia de turnê conjunta no Rio

 

Reportagem de Zero Hora assistiu ao primeiro show dos irmãos baianos, realizado nesse sábado para 13 mil pessoas. Artistas serviram um repertório de sucessos, fizeram homenagens e transmitiram vigor e irmandade aos fãs

 

04/08/2024

 

WILLIAM MANSQUE do Rio de Janeiro 

* O repórter viajou à convite da Live Nation

 

Os dois em um. O sagrado e o humano. O intenso e o suave. Quem for à Arena do Grêmio, no dia 12 de outubro, verá a comunhão de dois filhos de Dona Canô. 

Caetano Veloso, 81 anos, e Maria Bethânia, 78, cantam suas trajetórias em pouco mais de duas horas. Ao mesmo tempo, agraciam a irmandade. 

A reportagem de Zero Hora assistiu ao primeiro show da turnê Caetano & Bethânia, realizado nesse sábado (3/8), na Farmasi Arena, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro (RJ). Diante de 13 mil pessoas, as crias de Santo Amaro (BA) repassaram sucessos e transmitiram vigor. 

Embora a montagem do palco seja elegante, com oito telões verticais — que exibem as imagens do show, apresentam fotos de arquivo, vídeos e animações em concomitância da canção que está sendo cantada —, não se pode esperar pomposos efeitos especiais. Obviamente, também não se pode cobrar que Caetano e Bethânia esbanjem grandes movimentos físicos pelo palco. Só a presença dos dois já é sagrada o suficiente. 

Acompanhados de uma megabanda com 11 integrantes – o que inclui nomes como Jorge Helder, um dos baixistas mais renomados da MPB, e participação especial de Pretinho da Serrinha na percussão —, os irmãos ainda propiciam o principal: gogó e interpretação. 

Porém, quando o show abriu com Alegria, Alegria, Caetano estava um pouco contido. Parecia incomodado com algo. Era, talvez, um problema técnico: o som de sua voz estava baixo e abafado. Essa questão foi consertada ao longo do show, mas, em alguns momentos, o volume do cantor era menor. De qualquer maneira, Caetano se soltou durante a apresentação e impôs aquele seu canto afinado e suave. 

Por outro lado, Bethânia segue ostentando seu costumeiro vocal grave e potente. É como se ela preenchesse cada espaço da atmosfera do ginásio toda vez que entrasse na música. Algumas vezes, o público vibrava quando a cantora entrava nos duetos.

Depois de Alegria, Alegria, o repertório seguiu com canções como Os Mais Doces Bárbaros, Oração ao Tempo, Milagres do Povo, Dedicatória e Filhos de Gandhi (versão da música de Gilberto Gil dedicada ao cortejo de afoxé). Os dois alternavam as estrofes das músicas. 

Na vez de Tropicália, Bethânia sentou-se do lado esquerdo do palco e ficou apenas observando o irmão cantar. Na música seguinte, Marginália II, rolou o inverso:

Caetano se acomodou no canto direito para ver a irmã brilhar. Foi uma constante do show: sorrisos de admiração por quem está ao lado. 

Em seguida, enquanto cantava a inevitável Um Índio, Bethânia derrapou na letra e admitiu levemente: “Errei”. O público aplaudiu. Os dois são entidades da música brasileira, mas também são humanos. 

 

Da balada ao louvor

Depois de Cajuína, Bethânia deixou o palco. Era a vez do bloco do Caetano. Na primeira música, ele empunhou o violão para fazer todo ginásio cantar a balada romántica Sozinho. A verve pop e doce de Caetano seguiu contemplada com Leãozinho, na sequência, sendo outro triunfo recebido calorosamente pela plateia. 

Depois da desilusão amorosa de Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, Caetano trouxe a queridinha das novelas da Globo Você É Linda (trilha dos folhetins Belíssima, Fera Ferida, Além do Tempo e Eu Prometo). A deixa para os casais dançarem abraçados. 

Para encerrar o bloco, Caetano optou por um louvor: Deus Cuida de Mim, parceria com o pastor Kleber Lucas. Regravação de uma música de 1999 lançada como single em 2022, foi a música mais recente do repertório do show. Antes, ele anunciou: 

"O fato de virem crescendo enormemente o número de evangélicos no Brasil é uma coisa que tem imensa importância para mim. Por isso vou cantar o amado louvor de Kleber Lucas". 

Uma parcela do público comemorou e acompanhou a música. Mas, neste momento do show, parte da plateia ficou mais dispersa e se movimentou – saiu para comprar bebida ou foi ao banheiro.

 

A hora da loba 

Caetano deixou o palco para a vez da irmã. Se hoje as redes sociais costumam chamar uma mulher forte e independente de loba, é de se pensar que Bethânia facilmente lidera uma alcateia. 

Em seu bloco, a cantora trouxe Brincar de Viver e Explode Coração, dando razão a um diálogo do filme Aquarius (2016), em que Clara (Sônia Braga) aconselha o sobrinho: “Toca Maria Bethânia pra ela, mostra que tu é intenso”. 

A robustez da interpretação de Bethânia é incessante. Quando ela cantou sua versão de As Canções que Você Fez pra Mim, de Roberto Carlos, é possível que tenha convencido alguns por ali a mandarem uma mensagem de “lembrei de você” para uma pessoa errada. Momento delicado. 

Quando a introdução de Negue saiu apressada, enquanto a canção anterior ainda recebia ovação, a loba sentenciou para a banda: “Podem fazer de novo?”. Um momento até esperado, dado ao histórico sempre rígido e perfeccionista da cantora no palco. Ela sabe o que faz. Para fechar o bloco, Bethânia cantou Vida, de Chico Buarque.

 

Homenagens e celebração

Com a volta do irmão, houve um momento de exaltação à escola de samba Mangueira, resgatando samba-enredo e culminando na música Onde o Rio é Mais Baiano, de Caetano. 

A homenagem seguinte foi direcionada para Gal Costa, com a dobradinha Baby e Vaca Profana. “Gal para sempre”, bradaram os irmãos. Depois do tributo à Gal, foi a vez de outro baiano ser contemplado. Os irmãos interpretaram Gita, de Raul Seixas 

Depois de O Quereres, os irmãos apresentaram uma versão de Fé, da cantora Iza. De fato, pode ser animador ver Bethânia proferir o verso “Fé pra enfrentar esses filha da p***”. 

Uma das músicas mais aguardadas da turnê veio na sequência. Reconvexo sempre faz a plateia dançar. Aqui os dois irmãos ensaiaram uns passinhos no palco. Ao final, Bethânia beijou o rosto de Caetano. 

Por fim, Tudo de Novo fecha o show. É a música que abre o disco ao vivo dos dois, de 1978. Segundo Caetano já relatou, é uma música que ele fez para cantar com Bethânia, uma celebração. 

 

Talvez seja a música que melhor traduz o sentimento desta turnê: 

“Minha mãe, meu pai, meu povo/ Eis aqui tudo de novo/ A mesma grande saudade/ A mesma grande vontade / Meu povo, sofremos tanto/ Mas sabemos o que é bom/ Vamos fazer uma festa/ Noites assim como esta/ Podem nos levar pra o tom”. 

 

Ainda há um bis com Odara cantado pelo trio de backing vocals, como uma saideira festejante. Os irmãos voltam ao palco para se despedirem, Caetano até ensaia cantar, mas não prossegue. É um momento para o público celebrar o legado que viu no palco.

  

Show em Porto Alegre 

A turnê Caetano & Bethânia chegará a Porto Alegre no dia 12 de outubro, na Arena do Grêmio.

Os ingressos custam a partir de R$ 130 (meia-entrada) e pode ser adquiridos pela plataforma da Ticketmaster e na bilheteria da Arena (de terça a sábado, das 10h às 17h – não tem funcionamento em dias de jogos, feriados e emendas de feriados)


 

 












SET LIST 

[Domingo 4 de agosto de 2024]

 

CAETANO e BETHÂNIA

1. ALEGRIA, ALEGRIA (Caetano Veloso) 1967

2. OS MAIS DOCES BÁRBAROS (Caetano Veloso) 1976

3. GENTE (Caetano Veloso) 1977

4. ORAÇÃO AO TEMPO (Caetano Veloso) 1979

5. MOTRIZ (Caetano Veloso) 1983

6. NÃO IDENTIFICADO (Caetano Veloso) 1969

7. A TUA PRESENÇA MORENA (Caetano Veloso) 1977

8. 13 DE MAIO (Caetano Veloso) 2000

9. SAMBA DE DOIS-DOIS (Roque Ferreira/Paulo César Pinheiro) 2004

10. A DONZELA SE CASOU (Moreno Veloso) 2022

11. MILAGRES DO POVO (Caetano Veloso) 1985

 

Apresentação dos músicos

12. FILHOS DE GHANDI (Gilberto Gil) 1973

13. DEDICATÓRIA (Caetano Veloso) 1985

14. EU E A ÁGUA (Caetano Veloso) 1988

15. TROPICÁLIA (Caetano Veloso) 1967

16. MARGINÁLIA II (Gilberto Gil/Torquato Neto) 1968

17. UM ÍNDIO (Caetano Veloso) 1976

18. CAJUÍNA (Caetano Veloso) 1979

 

CAETANO

19. SOZINHO (Peninha ) 1996

20. O LEÃOZINHO (Caetano Veloso) 1977

21. VOCÊ NÃO ME ENSINOU A TE ESQUECER (Fernando Mendes, José Wilson e Lucas) 1978

22. VOCÊ É LINDA (Caetano Veloso) 1983

23. DEUS CUIDA DE MIM (Kleber Lucas) 1999


BETHÂNIA

24. BRINCAR DE VIVER (Guilherme Arantes/Jon Lucien) 1983

25. EXPLODE CORAÇÃO (Gonzaguinha) 1978

26. AS CANÇÕES QUE VOCÊ FEZ PRA MIM (Roberto Carlos/Erasmo Carlos) 1966

27. NEGUE (Adelino Moreira/Enzo Almeida Passos) 1960

28. VIDA (Chico Buarque) 1980

 

CAETANO e BETHÂNIA

29. SEI LÁ, MANGUEIRA (Paulinho da Viola/Hermínio Bello de Carvalho) 1968

30. ATRÁS DA VERDE-E-ROSA SÓ NÃO VAI QUEM JÁ MORREU (David Correia, Paulinho Carvalho, Carlos Senna e Bira do Ponto (1993)

31. MARIA BETHÂNIA, A MENINA DOS OLHOS DE OYÁ (Alemão do Cavaco/Almyr/Cadu/Lacyr D Mangueira/Paulinho Bandolim/Renan Brandão) 2016

32. EXALTAÇÃO A MANGUEIRA (Aloísio Augusto da Costa/Enéas de Brito) 1955

33. ONDE O RIO É MAIS BAIANO (Caetano Veloso) 1994

34. BABY (Caetano Veloso)

35. VACA PROFANA (Caetano Veloso) 1984

36. GITA (Raul Seixas/Paulo Coelho) 1974

37. O QUERERES (Caetano Veloso) 1984

38. FÉ (IZA/Sérgio Santos/Pablo Bispo/Ruxell/Lukinhas/Henrique Bacellar/Junior Pierro/Fabinho Negramande) 2022

39. RECONVEXO (Caetano Veloso) 1989

40. TUDO DE NOVO (Caetano Veloso) 1978

 

Final

41. ODARA (Caetano Veloso) 1977



 

3/8/2024 - Carolina Dieckmann e Preta Gil (8/8/1974-20/7/2025)
Foto: Victor Chapetta / Agnews





sábado, 10 de agosto de 2024

2024 - CAETANO&BETHÂNIA - Turnê


Quando: entre 3 de agosto e 18 de dezembro.

Onde: Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Belém, Porto Alegre, Recife, Brasília, Fortaleza, Salvador e São Paulo.



Foto: Fernando Young/Divulgação



3, 4, 10 e 11 de agosto: Rio de Janeiro (Farmasi Arena)

7 de setembro: Belo Horizonte (Estádio do Mineirão)

21 de setembro: Curitiba (Pedreira Paulo Leminski)

28 de setembro: Belém (Estádio Mangueirão)

12 de outubro: Porto Alegre (Arena do Grêmio)

25 e 26 de outubro: Recife (Classic Hall)

9 de novembro: Brasília (Arena BRB Mané Garrincha)

16 de novembro: Fortaleza (Arena Castelão)

30 de novembro: Salvador (Itaipava Arena Fonte Nova)

14, 15 e 18 de dezembro: São Paulo (Allianz Parque)






Terça-feira, 06 de Agosto de 2024

 

DIARIO DE CUIABÁ

MÚSICA

Carreiras de Caetano Veloso e Maria Bethânia convergem na turnê juntos após 46 anos

Mesmo com obras autônomas, cantor fez mais de 30 músicas para a irmã, que inseriu a Jovem Guarda na tropicália

 

LUCAS BRÊDA

Da Folhapress - São Paulo


Com exceção de uma série de shows há 46 anos, e um disco extraído deles, Caetano Veloso e Maria Bethânia nunca se apresentaram como uma dupla. Os irmãos, que dão início neste fim de semana, no Rio de Janeiro, a uma turnê conjunta por arenas, tiveram trajetórias artísticas independentes e autônomas, mas cheias de momentos de intersecção e de inspiração mútua. 

Eles carregam a herança cultural da família e do Recôncavo Baiano, mas enveredaram por caminhos diferentes na música. Ele arquitetou a tropicália, movimento de que ela não quis fazer parte —mas mesmo assim foi determinante para que acontecesse. Ela entrou no panteão dos maiores cantores do Brasil —mas não sem a ajuda da caneta dele. 

Jards Macalé, que os hospedou ainda jovens e desconhecidos no Rio, nos anos 1960, e com quem eles trabalharam ao longo da carreira, brinca com as palavras para dizer o que os irmãos têm de semelhanças e diferenças. "Olha, Caetano é Caetano, e Bethânia é Bethânia. E eles têm muita coisa incomum —mas é in-com-um, com ‘in’." 

Há pouco de ordinário na arte dos dois. Este ano eles se tornaram um dos assuntos mais comentados no X (antigo Twitter) com postagens de jovens fãs surpresos ao descobrirem que, sim, Caetano e Bethânia são irmãos. No Caldeirão com Mion, da Globo, a apresentadora Sandra Annenberg confessou que demorou para descobrir o parentesco dos artistas. 

A nível pessoal, é uma relação que vem —no caso dela— desde antes do berço. Foi Caetano, quatro anos mais velho, quem deu o nome à irmã, a partir de uma canção de Capiba, famosa na voz de Nelson Gonçalves. Nos shows de 1978, ele cantou a música, seguida no roteiro por outra "Maria Bethânia" —a que o artista compôs durante o exílio em Londres, transformando a palavra "better" (melhor, em inglês) no nome da cantora. 

É uma dica do repertório que eles devem apresentar na nova turnê, guardado a sete chaves antes do primeiro show. Mas é possível encontrar outras pistas na história. Não devem faltar, por exemplo, "De Manhã", "Reconvexo" e "Um Índio", que eles já cantaram juntos e marcam diferentes momentos de suas carreiras. 

A primeira, feita por Caetano para a irmã, e lançada em 1965, marca a chegada deles ao Rio. No ano anterior, eles já tinham se apresentado juntos no Teatro Vila Velha, em Salvador, no hoje lendário show "Nós, Por Exemplo", do qual participaram também Gal Costa, Gilberto Gil e Tom Zé, e que rendeu a Bethânia o convite para substituir Nara Leão no espetáculo "Opinião". 

"Caetano era magérrimo, falante, inteligente e bem sensível, não só com música. Bethânia, com a gente, falava, mas era mais tímida, tinha só uns 18 anos", diz Macalé sobre essa época. "Frequentavam muito minha casa. Passávamos a noite conversando, tocando, bebendo. Ficávamos numa espécie de ensaio eterno. Bethânia já cantava grave, você nota em ‘Carcará’, a música que ela estourou no 'Opinião'." 

A canção, que Caetano interpretou no show de 1978, rendeu a Bethânia um disco só para ela —com "De Manhã" e "Sol Negro", músicas assinadas pelo tropicalista que podem aparecer nos novos shows. Àquela altura, ele sequer sabia se queria ou se teria uma carreira sua na música. 

"Ela conseguiu trabalhar com música antes, mas ele ficava ali, meio de compositor, diretor", diz Macalé. "Eles sempre estiveram juntos, porque seu Zezinho, pai deles, deu a Caetano a missão de vir com ela para protegê-la. Mas mesmo naquela época Bethânia já era muito independente." 

Em 1966, Macalé tocou violão no show "Pois É", que juntou Bethânia, Gil e Vinicius de Moraes no Teatro Opinião, sob direção de Caetano. O coautor de "Vapor Barato" ainda tocou violão e fez a direção musical da estreia solo da baiana, na boate Cangaceiro, em Copacabana. "O lugar era pequeno, mas estava totalmente esgotado", diz. "Ela já era muito conhecida." 

Bethânia assegurava sua independência enquanto Caetano maquinava com Gil e Gal, entre outros, a tropicália. Mas ela também mudou os rumos do movimento do irmão ao sugerir que eles deveriam dar atenção à Jovem Guarda de Roberto e Erasmo Carlos, que passou a integrar o imaginário tropicalista. 

"Intelectualmente, não se aceitava muito a Jovem Guarda, parecia uma coisa menor", diz Macalé. "Foi Bethânia quem disse, ‘ouçam bem a música desse pessoal, vejam para onde eles estão dirigindo o trabalho deles, que é popular’. Mas era popular sem ser de má qualidade, muito pelo contrário." 

Vieram a tropicália e o exílio de Caetano na Europa, mas já no retorno, em 1972, ele produziu o álbum "Drama", de Bethânia. Além do trabalho em estúdio, compôs a faixa-título e assinou, ao lado de Gil, a música "Iansã", que os irmãos cantaram no disco de 1978, outra que pode reaparecer na nova turnê. 

Em 1976, Caetano e Bethânia se reuniram com Gil e Gal para formar o grupo Doces Bárbaros e sair em turnê. Jom Tob Azulay, então um cineasta iniciante, acompanhou o encontro e fez o filme que sobre aquela reunião, um registro de performances, ensaios, entrevistas e da convivência entre os baianos. 

"Caetano e Gil criaram um repertório novo em poucos meses, e aquelas músicas são todas absurdamente clássicas", diz Azulay. "É curioso observar que, àquela altura, dos quatro, quem tinha grandes vendagens, um acesso ao grande público, era Bethânia. Ela vendia acima de 200 mil cópias, enquanto os outros eram mais na faixa de 30 ou 40 mil. Só que tocavam num nicho importantíssimo de formação da opinião pública, com muitos intelectuais." 

Foi nos Doces Bárbaros que Bethânia se apossou de "Um Índio", escrita por Caetano, que depois a interpretou no disco "Bicho", de 1977, e entrou no repertório de shows dela. Essa canção é quase uma certeza na turnê atual, que também pode contar com "Os Mais Doces Bárbaros" ou "Pássaro Proibido", esta última de composição assinada pelos dois irmãos. 

O filme de Azulay retrata a detenção de Gil pela polícia da ditadura militar, que encontrou um baseado de maconha com ele em Florianópolis. Nesse episódio, a equipe e os músicos ficaram preocupados depois que as autoridades encontraram um saco de pó branco com Bethânia —na visão deles, era cocaína. "Era pó de pemba, o preconceito corria solto", diz o diretor, referindo-se ao pó usado em rituais de religiões de matriz africana. 

Ele se lembra que o filme fez sucesso, mas enfrentou problemas para se manter em cartaz. "A garotada acendia baseado dentro do cinema", diz. "Naquela época, essas plateia mais jovem destruía as salas, quebravam cadeiras —isso quando gostavam muito do filme. E fizeram com o ‘Doces Bárbaros’." 

Para o pianista Tomás Improta, os irmãos tinham comportamentos diferentes do estúdio. Ele tocou nos Doces Bárbaros, no show conjunto de Caetano e Bethânia há 46 anos e em diversos discos individuais deles nos anos 1970 e 1980. 

"São duas pessoas muito parecidas, mas muito diferentes também. É difícil explicar isso", diz. "Com Caetano, era liberdade total, não tinha direção musical, ele que mandava e a gente podia fazer qualquer coisa, era mais autoral. Com Bethânia, sempre tinha um arranjador. Havia certa liberdade, mas preso ao arranjo e à levada." 

Assim como neste ano, a turnê de 1978 foi aumentado o número de datas conforme a procura do público. Só no Canecão, no Rio, onde o álbum foi gravado, eles ficaram em cartaz durante um mês inteiro. Na época, Bethânia disse que queria há anos fazer a apresentação com Caetano, que "me conhece bem e tem algo de ator, que me estimula". 

"Para mim é difícil dividir o palco com alguém. Em todos os espetáculos que fiz com outros artistas, sempre me reprimi. Fico pensando 'calma, o show não é só seu' e acabo não me soltando. Com Caetano é diferente. Temos um jeito parecido. No palco, como eu, ele se transforma, há um vigor em cena nesse espetáculo que me empolga." 

Esta semana, em entrevista ao Jornal Hoje, da Globo, Bethânia disse que era "metida", e atuou como diretora no espetáculo —"ele me obedeceu mais do que eu o obedeço normalmente". Além de Improta, a banda tinha o guitarrista e produtor Perinho Albuquerque, colaborador frequente dos irmãos, e a violonista ícone da MPB, Rosinha de Valença. 

O repertório abria com "Tudo de Novo", composição de Caetano que pode figurar na nova turnê. É também o caso de "Fé Cega, Faca Amolada", de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, que foi cantada nos Doces Bárbaros e também esteve nos shows de 1978 —que ainda podem render "Muito Romântico", "O Leãozinho", esta na voz de Bethânia, "Triste Bahia" ou "Adeus Meu Santo Amaro", referência à cidade natal. 

O Recôncavo Baiano é marca também de "Reconvexo", uma das mais de 30 canções que o tropicalista fez para a cantora, lançada em 1989 e figurinha carimbada nos shows de ambos. Os irmãos ainda se conectam através de Waly Salomão, um dos poetas favoritos de Bethânia, de quem Caetano colocou melodia em algumas letras, como "Na Gema" e "Mel". 

Ao longo dos anos, Caetano e Bethânia se encontraram em duetos nos álbuns de um ou do outro, e também no palco. Fizeram um show inteiro juntos em 1999, na celebração dos 450 anos de Salvador. Há dois anos, ela se juntou a ele numa live de aniversário. 

Hoje, os irmãos lotam estádios às voltas das oito décadas de vida, feito pouco comum na história da música brasileira. E mesmo depois de tanto, diz Macalé, eles ainda têm muito dos meninos que cresceram sob as bênçãos de Dona Canô, experimentaram a arte e o palco com os amigos em Salvador e foram ao Rio para transformar a cultura e o comportamento a nível nacional. 

"Na minha cabeça, esses novos shows remetem a uns 60 anos atrás, vendo os dois cantarem juntos", afirma o músico. "É como se Caetano estivesse de novo tomando conta de Bethânia —o que no fim das contas significa deixá-la solta. É muito bonito e especial. São duas histórias maravilhosas. Cada um na sua, mas juntos também." 

A turnê "Caetano e Bethânia" começou neste sábado (3/8), no Rio de Janeiro, na Farmasi Arena, e segue até o dia 14, 15 e 18 de dezembro, encerrando com três shows em São Paulo, no Allianz Parque. No Rio serão quatro apresentações, nos dias 3, 4, 10 e 11 de agosto. 

A dupla vai se apresentar também em Belo Horizonte, no dia 7 de setembro, no Mineirão; em Curitiba, na Pedreira Paulo Leminski, no dia 21 de setembro; em Belém, no dia 29 de setembro, no estádio Mangueirão; em Porto Alegre, no dia 12 de outubro, na Arena do Grêmio; em Recife, no Classic Hall, nos dias 25 e 26 de outubro; em Brasília, no dia 9 de novembro, no Mané Garrincha; em Fortaleza, no estádio Castelão, no dia 16 de novembro; e em Salvador, no dia 30 de novembro, na Fonte Nova.