Bethânia, uma luz sobre as canções
Dirceu Soares
Se não bastasse o tanto que Bethânia anda cantando bem ultimamente e a limpeza
de sua apresentação no Anhembi, o show valeria pelos belos gestos que faz
enquanto vai interpretando as canções de seu repertório bem escolhido.
Naturais, envolventes, bem dosados. E não é à toa que ela seja hoje a única
cantora que consegue prender não só a atenção mas até a respiração de uma
platéia durante o tempo que quiser cantar. Desta vez, inclusive, Bethânia até
"judia" deste público, mantendo-o sem fôlego uma hora seguida, sem
tempo ao menos para se refazer da emoção que lhe foi passada em uma música e já
lhe manda uma nova carga em cima. De fato, ela vai num pique musical enorme,
cantando 25 canções uma atrás da outra de maneira tão segura e linda que faria
inveja a qualquer competidora de uma Olimpíada, se existisse esse tipo de competição
maratona–musical. E aí é que está mais um grande valor nessa Bethânia de hoje:
um show com esse pique poderia cansar o espectador, massacrado com tanta música
sem intervalos. Muito ao contrário, ela consegue que, ao final, esse mesmo
público queira ainda ouvi-la mais e mais.
A anunciada novidade deste show Mel, com carreira prorrogada em São
Paulo devido à grande procura dos ingressos, é a grande orquestra que acompanha
a cantora, regida por Perinho Albuquerque, autor de todos os arranjos, num
trabalho muito bom. Mas tamanha é a presença de Bethânia que – aposto – houve
gente que nem notou os violinos e os metais no fundo do palco, além do grupo
formado por Túlio (piano), Luizão (baixo), Cláudio (guitarra), Bira (percussão)
e Eneas (bateria).
A razão é muito simples. Neste show acontece uma coisa rara em espetáculos
brasileiros: o som da orquestra fica no seu devido lugar, isto é, faz o segundo
plano. Com isso, o artista, emoldurado por ela, pode se soltar à vontade sem
ser ofuscado. Coisa que, parece óbvia, mas que pouca gente põe em prática,
resultando num som chapado, onde não se distingue a voz do cantor, perdida no
som dos instrumentos. Isso, infelizmente, aconteceu recentemente em vários
momentos do show de Roberto Carlos, também no Anhembi. Com esses cuidados,
Bethânia e orquestra regida por Perinho formam uma dupla em perfeita sintonia.
Tudo isso colabora para que Mel seja um espetáculo limpo, satisfazendo
plenamente a quem vai ao Anhembi com o propósito único de ver e ouvir Maria
Bethânia cantar. As já famosas, longas e cansativas declamações da
cantora-atriz foram esquecidas ou reduzidas a pequenas falas aqui e ali. Nenhum
cenário. Roupa simples, mas rica e prateada, mil pulseiras no braço esquerdo e
nenhuma no direito, uma pequenina lua também prateada no cabelo. Eis Bethânia
por inteiro. Desnecessários os focos de luz colorida sobre ela de vez em
quando, para realçar o clima de determinadas canções. Funcionam como chover no
molhado, porque Bethânia, por si só, colorida ou em preto e branco, já é o
próprio foco de luz e sua interpretação dada a cada música, nos conduz ao clima
que ela deseja.
O repertório é, basicamente, o de seus dois últimos LPs, Álibi e Mel: Ronda,
de Vanzolini; Gota de Sangue, de Angela Ro Ro; Mel, de Caetano Veloso e
Wally Salomão; Loucura, de Lupicínio Rodrigues; Amando Sobre Jornais, De Todas As
Maneiras, e O Meu Amor, de Chico Buarque; Lábios de Mel, de Waldir
Rocha; Infinito Desejo, Grito de Alerta e Explode Coração,
de Gonzagulnha; Nenhum Verão, de Túlio Mourão; e Negue, de Adelino Moreira
e Enzo Passos, entre outras. Há também Cavalgada, e Café da Manhã, de
Roberto e Erasmo Carlos e Olhos Nos Olhos, de Chico Buarque, a
música que, segundo ela, fez com que também as rádios AM passassem a tocar suas
gravações, já que, antes, só era ouvida em FM.
Traduzindo: deixou de ser vista como uma cantora de elite para ser entendida
como popular, o que, aliás, sempre foi. Deliciosa também é a sua interpretação
de Sábado
em Copacabana, de Dorival Caymmi, e Jorge Guinle. A grande qualidade de
Bethânia, além do charme que possui, é saber, como quase ninguém, ser tão
coloquial ao cantar qualquer canção. Juntam-se voz, expressões do rosto, corpo
e gestos das mãos. Olhos nos olhos da platéia. Perfeita.
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Os discos de ouro do período
[Certificados pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD)] |
Primer disco de ouro: PÁSSARO PROIBIDO [1976]
Compacto simples [Portugal]
Segundo disco de ouro: PÁSSARO DA MANHÃ [1977]
Compacto duplo
Terceiro disco de ouro: ÁLIBI [1978]