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miércoles, 4 de marzo de 2020

1977 - PRIMEIRA FEIRA DE BALANÇO


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ÉPOCA - Em 1965, você escreveu o artigo 'Primeira feira de balanço', contra os ataques do crítico José Ramos Tinhorão à bossa nova no livro Música Popular: um tema em debate. Ali já havia um gérmen da Tropicália?

Caetano Veloso - Eu já tinha um lance pop tropicalista no próprio título, inspirado no anúncio de numa grande loja de departamentos em Salvador que liquidava para balanço. Foi uma utilização ready-made. Eu estudava na Faculdade de Filosofia quando alguém me pediu um artigo para a revista Ângulos, da Faculdade de Direito. A esquerda estava entusiasmada com o Tinhorão, que apoiava a xenofobia. Embora eu falasse naquele tempo mal do rock e da Jovem Guarda, o gérmen tropicalista estava ali.
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Fonte:
GIRON, Luís Antônio. A vocação de criticar. Entrevista com Caetano Veloso. Revista Época, n° 390, 7 de novembro de 2005. 





Primeira feira de balanço

Caetano Veloso
1965

I – Parêntesis

    (A julgar pelos artigos histéricos reunidos em livro pelo senhor José Ramos Tinhorão - infelizmente o único a colocar o assunto música popular brasileira em discussão - somente a preservação do analfabetismo asseguraria a possibilidade de se fazer música no Brasil. Embora assim não esteja explícito em palavras no livro, a atuação dos artistas da classe média é (se levarmos até o fim esse raciocínio) apenas um acidente nefasto: não houvesse ocorrido isso e o futuro nos asseguraria pobres autênticos cantando sambas autênticos, enquanto classe-médias estudiosos, como o senhor Tinhorão, aprenderiam os nomes das notas. Restando apenas saber para que aprendê-los.

    Quanto a nós, resta esclarecer por que nos demorarmos no comentário de um livro tão apaixonado, superficial quanto pretenciosos de ser lúcido e profundo: esta comentário parece-nos ter sua oportunidade justificada não apenas no fato de ser o livro do senhor José Ramos Tinhorão o único que toca o assunto agora, mas principalmente, na certeza de que ele representa a sistematização de uma tendência equívoca da inteligência brasileira com relação à música popular. Sem dúvida, por amor à beleza do samba, muitos salvadores têm conduzido seu pensamento de reação à inautenticidade por um caminho enviesado: ao fim de um artigo em que proíbe orquestração, nega Villa-Lobos, desanca as "tentativas nacionalistas" de Carlos Lyra, o senhor José Ramos Tinhorão pára diante do fato absurdo e inexplicável de que João Gilberto é um artista "realmente original")

II – Exposição

    (Qualquer um pode ver claro que os problemas culturais do Brasil estão bem longe de serem resolvidos. Depois da elforia desenvolvimentista (quando todos os mitos do nacionalismo nos habitaram) e das esperanças reformistas (quando chegamos a acreditar que realizaríamos a libertação do Brasil na calma e na paz), vemo-nos acamados numa viela: fala por nós, no mundo, um país que escolheu ser dominado e, ao mesmo tempo, arauto-guardião-mor da dominação da América Latina. Se se fechou o círculo vicioso da economia e da política abjetas, isto é, se os problemas básicos estão distantes da solução a ponto de permitirem soluções às avessas, não será no campo da cultura que nos teremos aproximado de uma autonomia definitiva.

    Não se pense que estas palavras demonstram a tendência simplista de estebelecer uma relação causal entre cada evento político-econômico particular e os fatos culturais: sabemos a que proximidade do ridículo tem-se chegado no afã de fazer uma ligação direta entre a construção de Brasília, a pretensa indústria automobilística e a bossa nova. Entretanto é necessário compreender a impossibilidade de a realidade cultural extrapolar a totalidade que ela compõe).

    A discussão sobre a música popular brasileira - raramente organizada em artigos, uma só vez em livro, mas sempre sugerida em shows e na seleção de repertórios - essa discussão difusa tem-se lançado na direção de algumas conclusões a respeito da validez cultural do movimento que se caracterizou por uma conscientização mais amadurecida da influência do jazz e que veio a se chamar, carioquissimamente, de bossa nova. Os menos ingênuos não esqueceram que há muito os elementos jazzísticos habitam os nossos gostos e os nossos ouvidos: o cinema falado é o grande culpado da deformação de excelentes vocações musicais; isto é, do desenvolvimento técnico malbaratado de artistas como Johnny Alf, Dick Farney: a produção desses rapazes corresponde a uma alienação da classe média subdesenvolvida cuja meta é assemelhar-se à sua correspondente no país desenvolvido dominante, tal como lhe é apresentada pelas cores de sonho do cinema que é produzido para isso. 

    Certo. Entretanto é necessário ir além - compreender esse processo mas sob outro enfoque: tratando-se de arte é sempre perigoso fugir à perspectiva estética. Ora. Depois das invenções impressionistas de Debussy, o jazz foi a maior contribuição para a música erudita contemporânea; como enriquecimento técnico e inovação formal, como nova visão criativa-interpretativa-crítica, enfim, como revolução cultural no seio da música, o jazz no processo alienatório que nos levou a tentar dançar, cantar e mesmo namorar, viver como nos filmes americanos, não teremos entendido corretamente esse processo se não atentarmos para o fato de que o conhecimento do jazz pode representar de qualquer modo, uma necessidade verdadeira de todos os estudantes de música, no mundo: o resultado do trabalho de Carlos Gonzaga e Celly Campello não tem o mesmo sentido do de Luís Eça. Isto é, claramente se diversificam os que querem a todo preço representar diante de si mesmos e dos outros brasileiros a "grandeza" de se parecerem com os americanos porque são americanos, dos que ouviram mais do que tudo, por todos os motivos e mais um que é o fato de eles serem dotados do mistério da musicalidade, o jazz. Sem dúvida, a imitação grosseira da pior música americana e a busca de igualar-se tecnicamente aos melhores jazzmen não são senão dois aspectos do mesmo processo de alienação. Mas quando se começou a falar em bossa nova, outra coisa tinha acontecido: o surgimento do cantor João Gilberto em discos orquestrados por Jobim - lançando os sambas do próprio Jobim - Carlos Lyra - Vinícius de Moraes, revivendo Caymmi & Ary e citando Orlando Silva - o surgimento de João Gilberto tem, musicalmente , um novo significado cuja importância independe do fato de ele ter, por motivos de conforto profissional, transferido residência para New York. Porque em João Gilberto (isto é, nos arranjos de Jobim, na composição de Lyra, de Gilberto Gil, Chico Buarque de Hollanda, no canto de Maria da Graça, enfim, em todos que aprenderam tanto com João Gilberto) o jazz não é senão um enriquecimento da sua formação musical, um ensinamento de outras possibilidades sonoras, com as quais se está mais armado para compor, cantar e mesmo interpretar, criticar, redescobrir a tradição legada por Assis Valente, Ary Barroso, Orlando Silva, Vadico, Noel Rosa, Ismael Silva, Ciro Monteiro, e o grande Caymmi. Quer dizer, o disco chamado "Chega de Saudade" - e tudo o que veio depois com força bastante para ser fiel às suas maiores conquistas (malgrado o inevitável degringolamento publicitário circundante) - esse disco superou a alienação que o antecedeu exatamente por não ter fugido ao reconhecimento dos elementos que enriqueceram inutilmente a técnica dos seus antecessores. E nos armou para revê-los: eles tiveram a importância histórica de, seja por que caminhos que tenha sido, nos colocar na possibilidade do domínio de uma técnica musical resultante de um dos mais importantes movimentos surgidos em nosso século, no seio da música, e que se tornou conhecido pelo nome de jazz.

    Resta saber se tudo isso tem alguma coisa a ver com o samba, essa forma que, levada pelos negros da Bahia, evoluiu no Rio e de lá ganhou o Brasil através do rádio e do disco. Se acompanharmos a evolução do samba até onde nos agrada ou interessa e o cristalizarmos num momento que nos parece definitivo, poderemos nos ater ao samba de roda da Bahia e renegar até o mais primitivo partido alto carioca reagindo contra a possível inauteração do samba, muitos se voltaram para o morro e alguns acreditaram que somente lá ele existe realmente: Carlos Lyra fez um samba sobre esse assunto e foi compor com Zé Kéti e Cartola. Entretanto o samba há muito deixou de se restringir ao morro como houvera deixado de se restringir à Bahia. E ninguém pode de boa-fé, acusar Ary Barroso de uma apropriação indébita por expressar-se em samba sem ter vivido no morro e sem ser semi-analfebeto. De resto, a parceria de Carlos Lyra com o pessoal do morro não resolveu os seus problemas de composição que só vieram a ter sugerida a sua resolução quando ele compreendeu que é nessa tradição, representada por Ary, Caymmi, Orlando, Leo Peracchi, que se inserem os nomes de João, Jobim e o seu próprio - artistas não primitivos cujo trabalho está além do conceito pejorativo, de estilização.
(Ter atingido a consciência de que se pode saber os nomes das notas e estar a par do que vem acontecendo com elas no mundo, sem deixar de ser brasileiro, não é tudo. O problema do músico brasileiro é o problema da libertação do Brasil. Depois de Jobim apareceram, com um atraso de decênios, novos jazzmen subdesenvolvidos, toda a onda publicitária que se fez (na imprensa como nas próprias produções musicais) em torno da obra de João Gilberto; a reação contra isso (da parte dos que admitem que os letrados façam samba), a princípio inspirada com equívocos e acertos nos acertos e erros da protest song, terminou por gerar uma nova onda publicitária, dessa vez fundada em demagogias esquerdizantes; tornou-se, então, comum a combinação ostensivamente ridícula das duas coisas: mocinhas alegres por todo Brasil repetiam os passos inventados por Lennie Dale enquanto, sorriso de Doris Day nos lábios sustentando uma vocalização "just jazzy", discorriam sobre os privilégios ou incitavam os pescadores à luta. Hoje (da parte dos que não admitem samba a não ser primitivo) diz-se que a volta de Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Cartola é a prova definitiva de que a bossa nova, mera onda superficial, dá-se por finda. No entanto essa "volta" não parece passar de uma necessidade da própria bossa nova, um elemento exigido pela sua própria discussão interna. Não há nenhuma volta, eles sempre estiveram lá: até hoje o samba de roda da Bahia permanece a despeito de Pixinguinha. De resto, discos como "Roda de Samba" e "Rosa de Ouro" têm seu sucesso restrito aos universitários. Enquanto o povo (e aqui podemos dar à palavra povo o seu sentido mais irrestrito, isto é, a reunião das gentes) desmaia aos pés do jovem industrial Roberto Carlos.

    Pelo menos por intuição, concluímos que, agora a grande guinada a dar na nossa discussão, é voltar ao ponto nevrálgico que a gerou: rever o legado de João Gilberto. Os grandes sambistas tradicionais continuam produzindo, mais que isso, sambistas novos surgem nos morros cariocas a despeito da corrupção das escolas de samba (os "tradicionalistas" argumentariam melhor se se apegassem à demonstração de sambas como "CoraçãoVulgar" ou "Conversa de Malandro" de Paulinho da Viola, compositor da Portela, de 23 anos). Se quisermos ser fiéis a Paulinho sem deixar de fazer samba, temos de tomar com João Gilberto a melhor lição - a que nos dá sua extraordinária intuição seletiva. 

    Quanto aos grandes problemas, o da verdadeira popularização do samba, da sua volta como linguagem entendida e forma amada de todo o povo brasileiro, o da desalienação das massas oprimidas em miséria, slogans políticos e esquemas publicitários; esses, não os resolveremos jamais com violões).

III – Interpretação

Os sons que Antônio Carlos Jobim organizou com flauta, violinos, bateria, contrabaixo, madeiras, metais e João Gilberto (canto e violão), isto é, a organização sonora que lhe foi sugerida pelo entendimento do violão e do canto de João Gilberto é, ao mesmo tempo, samba popular e música de câmara, com muitos ensinamentos colhidos no jazz. Mas não é jazz. Basta ouvir "Rosa Morena" de Caymmi: um assobio malandro, uma flauta lírica parecem nascer do violão que, por sua vez, resulta das notas e das palavras da melodia; tudo compondo uma peça de forma redonda e acabada. Não se trata de uma superposição de formas nem de uma (como muitas) tentativa (desde a premissa, frustrada) de resolver uma forma pela outra: aqui não se aprimoram as fórmulas conhecidas para dar uma aparência de "jazz" ou de "clássico" ao samba que se interpreta, nem se considera o samba um mero tema a partir do qual se pode realizar uma peça "erudita" ou "jazzística". Todo o conhecimento técnico, adquirido onde quer que seja, está a serviço da recriação da forma samba, do jogo rico que se faz com seus elementos, os sons distribuem-se ritmicamente para reencontrar o gosto pelo gingado, o domínio do ritmo complexo do samba, para, daí, atingir (como poucas vezes se conseguiu) seus conteúdos: a malícia, uma certa nostalgia, o dengo.

    É que João Gilberto é, de todos os tempos, o intérprete brasileiro que melhor compreende a bossa, esse mistério que habita o sambista, e melhor pode jogar com ela. Apenas Orlando Silva houvera intuído de forma tão completa, nuance por nuance, a musicalidade brasileira, sua filigrana. Sendo que João tem a vantagem de ser um músico mais formado: seu violão, sua capacidade harmônica lhe possibilitam estar presente em todo o instrumental que o acompanha, expandir seu canto até a brisa dos violinos, até o gemido do trombone, o ornamento da flauta. Como disse Jobim: "quando Joãozinho se acompanha, a orquestra também é ele".

    Fora da história do jazz, que é principalmente uma arte de intérpretes, raramente um cantor ou um instrumentista chegou a reformular tão profundamente toda uma cultura musical, sugerindo, inclusive, caminhos para os compositores: dos sambas que João Gilberto lançou ("Chega de Saudade", "Saudade fez um Samba", "Insensatez", "Outra Vez", "Coisa mais Linda") podemos dizer, parodiando Jobim, que também são João Gilberto. Porque através dele é que os compositores descobriram, com mais segurança, como organizar seus conhecimentos no sentido de expressar-se com fidelidade à sua sensibilidade de brasileiros.

    Sem dúvida, alguns aspectos da sua maneira peculiar de ver e cantar as coisas foram, de boa ou má-fé, distorcidos pela confusão que se faz entre o que um artista pode dar aos outros em abertura de visão e o que de mais exterior pode ser reconhecido no que há de pessoal em seu trabalho. Equívoco que é a descoberta do tesouro para os que têm o olho fixo nas facilidades comerciais proporcionadas pela redução publicitária: a atitude poética impotente e fresca, a pirotécnica musical, os mil barquinhos e florezinhas e marzinhos azuisinhos tão odiados por Narinha são o resultado final disso.

    Mas os verdadeiros frutos da obra de João Gilberto não são as deformações publicitárias e sua maior conquista não é ter gravado um disco nos Estados Unidos, no qual o esforço simpático de Stan Gets em tocar música brasileira não é bastante para criar interesse por nada além do próprio João cantando "Pra machucar meu coração" ou "O grande amor": os grandes frutos de sua obra são a "Marcha da quarta-feira de cinzas", a briga de Nara que possibilitou o surgimento de Maria Bethânia, as buscas de Edu, Chico Buarque de Holanda, a necessidade de reestudar a música brasileira, o show "Rosa de Ouro"; o fruto de seu trabalho é o trabalho daqueles que souberam discernir entre ensinamento e o estilo. (No fundo o que gerou muita confusão foi o fato de o gosto poético musical de João ser aquele que só vamos encontrar realizado em Caymmi, compositor. Isto é, uma forma muito mais próxima dos sambas da Bahia do que do sambão. Muitos acreditaram que o negócio era basear-se nessa diferença e alguns - porque, de resto, o grande sambista Dorival Caymmi nunca foi devidamente reconhecido em sua grandeza - acusaram Joãozinho de assassino do sambão, pra eles o único verdadeiro samba).

    O fruto do trabalho de João Gilberto é o trabalho daqueles que aprenderam com ele apenas porque uma canção só tem razão se se cantar.

IV – Depoimento

    O que chamamos, hoje, de música popular não passa de uma forma vulgar de expressão poético-musical. Na medida em que se tornou um jogo inculto e semi-erudito de formas várias, de elementos colhidos em diversas tradições, tendendo a quedar desligado de qualquer tradição e, sendo vinculável a cultura nenhuma impotente de impor-se, ele próprio, como tal. Isto é: o samba, passando a ser divulgado pelo rádio e pelo disco, (vale dizer - por e para a classe média), mostra uma linha de evolução clássica (no sentido de coerente com a organicidade evolutiva de uma cultura) bastante tênue e interrompida, perdida no emaranhado flutuante da mediocridade. Ou ainda: os sambas primitivos da Bahia, os partidos-altos e sambas-de-morro cariocas, etc. são uma cultura; mas o resultado global do que sai em disco e se ouve no rádio não significa absolutamente nada. Mais: é diluída na incultura apátrida que o artista que necessite vai buscar a possível continuidade evolutiva de uma forma de expressão das mais importantes na sugestão de uma cultura brasileira; e através do mecanismo comercial que exige essa diluição é que ele leva à feira os seus trabalhos.

    É a duras penas que o samba aflora com espontaneidade em Ary possivelmente ninguém perfez uma obra como a de Caymmi: a tendência de ampliar os meios expressivos esteve sempre a serviço da vulgarização.
Penso que este ainda é o nosso problema, ou melhor, que o movimento que surgiu com o nome de bossa nova valeu principalmente por nos exigir a colocação desse problema. Vejo que é a muito duras penas que se conseguem alguns momentos de organicidade em nosso trabalho; que raramente alguma coisa reconhecível se adensa para logo depois se perder na confusão: a gente faz um samba quase sem querer de tão bonitinho, exulta por acreditar ter realizado um bom momento na trajetória dessa linguagem - eis que são tão poucos os músicos ainda capazes de ouvi-lo, enriquecê-lo, compreender o que ele pode significar, aprender com ele ou, no correr dahistória, reensiná-lo; e mesmo esses têm poucas oportunidades de se responderem uns aos outros. É simples: se eu componho porque gosto do samba e tento - tendo aprendido a cantar com Ciro, Noel, Lyra, Caymmi - voltar ao lirismo simples do samba de roda e lançar o resultado disso para o futuro, isto é, para Gracinha, Chiquinho, Edu, Berré, aí eu me concedo pensar que estou fazendo alguma coisa e creio na validez de continuar fazendo, mas se a tentativa que exigia ser entendida e complementada termina por trasmitir-se numa linguagem fragmentada ou, mesmo quando se insinua uma unidade semântica, por vender-se na feira de retalho onde suing, cool, renascença, poesia brasileira moderna, blue, esquerdismo, bop e até samba são comprados em quantidade de liquidação, aí tem-se que reconhecer que não se está dizendo nada.

    Com os meios de divulgação (servindo-se da) mediocrização das massas, o samba e sua discussão interna são do interesse de uma elite. Os grandes sambas tradicionais do Rio de Janeiro cada vez se afastam mais do carnaval. Sem demagogia, temos de reconhecer que mantemos acesa a brasa do samba graças ao interesse de uma facção da juventude universitária pelo futuro da cultura no Brasil. E isso diz respeito a todos nós - de Edu a Batatinha. Quando João Gilberto, de volta aos Estados Unidos, recusou-se a cumprir um contrato em São Paulo, um jornalista afoito acusou-o de temer a concorrência com a "nova fase" da música brasileira, e de estar desatualizado em relação a ela. Eu acho que a gente não se deve deixar enganar: estamos ainda na primeira etapa; a inevitável eclosão da bossa nova é, comercialmente, natimorta e, culturalmente, vive safando-se do comércio, tanto quanto precisa dele, o que lhe possibilita apenas andar bem devagar. Estamos tentando a linha perdida. Há uma facção da juventude brasileira que não aceita com facilidade a aplicação que se faz - na interpretação de fenômenos publicitários que sustentam algumas mocinhas tão suburbanas quanto Emilinha Borba e rapazes a meio caminho entre beatle e Francisco Carlos como ídolos - de frases (mais ou menos inteligentes) ditas na Europa a respeito de juventude e "ritmos alucinantes" porque, encontrando-se bem mais diante de uma realidade difícil mas palpável do que do caos, não as pode considerar aplicáveis a ela própria. Bem mais preocupados em assumir e resolver essa realidade, os jovens brasileiros exigiram-se rever suas tradições e criar uma cultura verdadeira que os sedimente como brasileiros. No seio da música, esta é a primeira investida: as primeiras discussões que foram postas ainda não foram ultrapassadas. Esta terminou sendo, também, a primeira investida publicitária, em grande escala, da música brasileira: na feira onde balanço, bostela e monkey se equivalem, é que tentarmos vender a nossa busca do samba em paz.



































2005


miércoles, 7 de febrero de 2018

2011 - “NINGUÉM DE BOA-FÉ PODE SER CONTRA OS DIREITOS AUTORAIS”



Os bastidores da conversa com Caetano Veloso no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro.

Leia a entrevista “Ninguém de boa-fé pode ser contra os direitos autorais” na edição de Época desta semana

Atrasado
Caetano chega adiantado para a entrevista. Mas seu relógio está uma hora atrasado. Durante esta época do ano (fevereiro) ele costuma estar na Bahia e o relógio marca a hora de lá. “Assim não preciso mudar quando volto.”

Clássico como um índio
É um relógio de modelo clássico, todo em metal prateado, com caixa retangular e muitos tracinhos pretos por onde se vê a hora com dificuldade. “Eu gosto de relógio feito índio gosta”, diz Caetano. “Acho bonito, divertido ter um relógio.”

O Santo Expedito de Gisele Bündchen
Ele também acha bonito usar uma corrente fina e dourada com as imagens de Nossa Senhora das Graças e de Santo Expedito. “Eu nunca tinha ouvido falar no Santo Expedito. Uso porque ganhei de presente. E também porque a Gisele Bündchen usava uma igual.”

Disfarce na foto
Já nos óculos redondos ele não vê graça nenhuma. Diz que são um sinal dos tempos, da velhice. Mesmo assim, reclama quando o fotógrafo de Época pede que ele os tire para a câmera. “Agora eles deram de me pedir isso”

Em cima da hora
Ao se despedir da reportagem, um assessor fica satisfeito por não ter ocorrido nenhum atraso. “Estamos britânicos”, diz ele. Poucas horas depois, Caetano quase perde a hora. Na sala de embarque do aeroporto Santos Dumont, ele se anima: “Pensei que ia perder o avião para São Paulo, mas quando cheguei aqui o vôo estava atrasado.”

“Olha lá, amor, o Caetano está aqui.”

Sentado na primeira fileira da aeronave, ele é um dos primeiros a levantar depois da aterrissagem. Lá atrás, uma senhora – que até então havia passado o vôo todo visivelmente em pânico e agarrada ao marido – sorri. “Olha lá, amor, o Caetano está aqui.”


Foto: Daryan Dornelles


2011
Revista ÉPOCA
Edição nº 667 – 25 de fevereiro de 2011


Caetano Veloso: “Ninguém de boa-fé pode ser contra os direitos autorais”

O autor de “É proibido proibir” assume, pela primeira vez, uma posição conservadora: a defesa da propriedade intelectual

Mariana Shirai


QUEM É
Caetano Emanuel Viana Teles Velloso nasceu em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em 1942

O QUE FEZ
Um dos mais cultuados compositores brasileiros, liderou a Tropicália, que alinhou o pop internacional à música brasileira e a transformou

O QUE PUBLICOU
Além dos mais de 40 discos, é autor do ensaio Verdade tropical (1997)



Eu vi muitos cabelos brancos na fonte do artista/O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece. É com versos de “Força estranha” que Caetano Veloso encerra seu novo disco, MTV ao vivo – Caetano zii e zie (Universal). A cada refrão da música o cantor baiano de 68 anos omite o trecho “no ar”. Assim era a versão original da canção, composta em 1978 por Caetano. Em seu registro mais popular, ela foi modificada por Roberto Carlos, que introduziu o “no ar” após o verso “por isso essa força estranha” – uma maneira de tirar a carga negativa do trecho sentida por Roberto. Essa pode ser uma questão ultrapassada, mas Caetano não parece disposto a renunciar a seus princípios, mesmo que para isso seja necessário deixar a plateia cantando sozinha o “no ar” no Vivo Rio, onde ocorreu, em outubro de 2010, a gravação do CD.

Um das convicções das quais Caetano não abdica é “organizar o Carnaval”. Leia-se: fazer polêmica. Ele lançou uma há poucas semanas, em sua coluna no jornal O Globo, com a seguinte declaração: “Ninguém toca em nem 1 centavo dos meus direitos autorais”. A tentativa de “puxar a discussão”, como diz, causou surpresa.

Nesta entrevista, ele recua ante a repercussão: diz confessar sua “ignorância no assunto”. O assunto é a preservação da propriedade do autor, defendida pela nova ministra da Cultura, Ana de Hollanda, posição contrária à da gestão anterior, dos ex-ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira. Pela primeira vez em sua longa carreira, Caetano foi criticado por assumir uma atitude considerada conservadora. Seria a idade?

Caetano recebe a reportagem com o rosto cansado, tosse e andar lento. “Tô velho, tô velho”, diz, com um sorriso melancólico. A frase contrasta com suas roupas modernas: camisa estampada e tênis de skatista. O visual tem a ver com a convivência com os jovens de sua banda, encabeçada pelo guitarrista Pedro Sá, amigo de seu filho, Moreno. Foi com eles que Caetano fez a mais recente transformação em sua carreira, iniciada com o disco Ce, de 2006. Ali, usou rock indie em letras despojadas. Com a mesma banda lançou, em 2009, Zii e zie (Tios e tias, na tradução do italiano), a partir de uma série de shows experimentais e do blog Obra em Progresso. Em Zii e zie, Caetano e sua banda de garotos antenados fazem rock com base no samba, criando o que ele chama de “transamba” e “transrock”. O CD e o DVD que saem agora são os registros da nova sonoridade.

Parte da melancolia de Caetano pode ter um fundo artístico. Embora continue experimentando – com uma coragem incomum entre os artistas de sua geração –, seus novos trabalhos não têm o mesmo impacto que as revoluções que provocou na juventude.

É difícil encontrar quem discorde da influência de Caetano na nova geração musical brasileira. A não ser ele próprio. “Não sou (mentor dos jovens), isso é um erro.” Em breve, Caetano lançará outro DVD, acompanhado da jovem e popular cantora paulistana Maria Gadú, de 24 anos. Mas diz que é ele quem pega carona com Gadú, e não o contrário.

Isso não quer dizer que Caetano tenha largado os velhos companheiros, como sua correligionária tropicalista Gal Costa. Os dois estarão juntos no próximo disco. “Estou compondo todas as canções, que terão uma tônica eletrônica.” Caetano não sabe criar essa tônica no computador, mas diz conhecer quem saiba, como o produtor carioca Kassin. “Quero explorar estruturas que não consigo fazer com a minha voz, mas, com a da Gal, sim”, diz. A voz é uma preocupação atual de Caetano, sobretudo depois de uma gripe contraída em novembro. “Fico achando que minha voz não voltou a ser o que era e talvez nunca volte mais a ser”, diz. “Mas, se não voltar, mesmo assim eu canto.” Ao fim da entrevista, uma equipe de vídeo é chamada para gravar algumas perguntas para o site de ÉPOCA. Diante da câmera, ele passa por uma metamorfose.

Abre aquele sorriso superbacana e relaxa. Com a pose, parece mostrar que, polêmicas à parte, essa “força estranha” não o abandona.

ÉPOCA – Sua banda atual, a Banda Cê, é composta de três músicos jovens. Essa união com artistas mais novos é um modo de rejuvenescer?
Caetano Veloso – É muito bom estar com pessoas jovens. Eu gosto, mas me dou bem também com pessoas da minha idade e com pessoas mais velhas que eu. Esse encontro foi muito natural. Eu conhecia o Pedro Sá (guitarrista) desde menino, ele é amigo de Moreno, meu filho. Ele já tocava comigo em shows e, como conhece muita coisa de música, a gente conversava muito. Nós planejamos fazer uma brincadeira, um disco de rock sem o meu nome, paralelo, escondido. Eu ia cantar de um modo diferente e deformar a minha voz para parecer um disco de um artista desconhecido. Mas depois decidimos fazer um disco meu mesmo. Se eu tivesse levado a cabo essa história de enganar todo mundo, seria um negócio com coisas mais malucas.


Todos nós somos bissexuais. Sexo é a coisa mais importante da vida, é a realidade central


ÉPOCA - Zii e zie é um disco carioca, mas você diz que o título, em italiano, é uma maneira de aproximá-lo de São Paulo. Como assim?
Caetano –
Eu tenho uma ligação muito forte com São Paulo. Moro no Rio de Janeiro, mas não fiz uma escolha muito nítida dentro de mim sobre a cidade. A primeira casa que eu tive na vida foi em São Paulo. Sinto uma saudade danada daquele apartamento lindo no centro e daquele período. O Tropicalismo foi todo feito em São Paulo, a cidade era mais interessante culturalmente que o Rio, com uma sensação cosmopolita. Morei dois anos em São Paulo, até que fui preso e exilado. Quando voltei de Londres fui para a Bahia. Eu queria voltar para São Paulo depois de alguns anos. Eu tinha feito psicanálise em Londres e queria continuar. Procurei analista em São Paulo, mas a Dedé, minha mulher então, achava pesado ir para São Paulo, o Rio ainda tinha praia. Então fomos para o Rio. Gosto de ir sempre que posso a São Paulo, para conversar com umas pessoas, ver umas coisas, sentir a onda. Tem todo um modo de ser de São Paulo que sem ele não dá.




ÉPOCA - Desde então você sempre fez psicanálise?
Caetano – Eu tinha uma atração intelectual com a psicanálise. Mesmo criança, pré-adolescente, eu sonhava com um médico que fosse para conversar. Não sabia que isso já existia. Depois da prisão, no exílio, eu fiquei com uns problemas emocionais esquisitos. Aí fui procurar um psicanalista. Depois fiquei uns dez anos sem fazer, mas há alguns anos voltei.

ÉPOCA - A velhice é um problema?
Caetano – A velhice é um dos problemas, claro. Nunca tive de usar óculos como hoje, eu tinha uma visão excelente. Isso já é uma coisa, e não é pouco. Você fica muito menos resistente, não aguenta correr tanto, fica arfando. Quase que só há desvantagens em envelhecer.

ÉPOCA - Você acha que apoiar e incentivar novos artistas, como fez com Maria Gadú, tem benefícios para sua própria carreira?
Caetano – Maria Gadú não tem nada a me agradecer. Ela já era um fenômeno da geração dela. Na verdade, fui eu quem pegou carona no fenômeno Maria Gadú. Foi muito bom para mim. Ela é uma pessoa agradável, muito musical, boa de trabalhar. E ela conhecia as minhas músicas, sabia as letras de algumas que eu já não lembrava.

ÉPOCA - Como vê a criatividade musical das novas gerações? Acha muito distante em intensidade do que viveu em sua juventude?
Caetano – São Paulo e Rio estão muito animados. O Rio tem muitos grupos que fazem colaborações. A atividade em São Paulo está muito revitalizada. Tem Tiê, Tulipa (Ruiz), Thiago (Pethit), Leo Cavalcanti. É a chegada de uma geração, mas não configura um movimento, com um estilo predominante. Isso tem a ver com o modo como as coisas ficaram, mais diversificadas. Aliás, a Tropicália desejava que acontecesse isso. Ela queria diluir. De fato, cada um de nós, tropicalistas, virou uma figura ao lado das outras no pop brasileiro. Muita gente reclamou disso como se a gente devesse manter uma postura de vanguarda distante ou ser internacional. Eu não dou muita importância a nenhuma dessas duas coisas.

ÉPOCA - E a música da Bahia?
Caetano – Eu participei de um momento em que a vida da Bahia era voltada para a universidade, para a vanguarda. Depois essa energia migrou para as áreas de baixa renda. Então surgiu Ilê Aiê, o Olodum. Os trios elétricos, que já dominavam o Carnaval da cidade, terminaram, através de Moraes Moreira, atraindo os temas e os ritmos dos blocos afro. Isso virou uma onda forte de música com grande potência comercial e alto nível de execução. É a axé-music, algo de grande vitalidade e que eu amo muito. É um orgulho ter Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Luiz Caldas, Chiclete com Banana, um mundo que gera negócio, emprego, dinheiro, sucesso e adestramento de instrumentistas. Ficou tão rico e tão forte que ninguém tem medo de xingar tudo isso como xingavam as multinacionais nos anos 60. E agora tem o neopagode, que é meio parecido com o tecnobrega e o funk carioca em termos de negócio. A indústria está se transformando, por causa desse negócio de internet.

ÉPOCA - E esse negócio de internet? O que faz você fincar o pé na preservação dos direitos autorais?
Caetano –
Acho que não tem ninguém que de boa-fé venha dizer em público que é contra os direitos autorais e sua preservação.

ÉPOCA - Gilberto Gil fez um ministério todo buscando flexibilizar as regras da propriedade intelectual e colocou à disposição de qualquer um todas as suas composições.
Caetano – Acho muito moderno e saudável que o Ministério da Cultura de um país como o Brasil tenha sido pioneiro em acolher esse tema. O problema maior não é tanto de baixar, e sim o upload. Alguém ganha dinheiro com esse negócio. Por que o autor não vai ganhar? Isso tem de ser estudado direito. A internet não é o ar que nós respiramos. É um negócio que começou no Pentágono. Há companhias que têm grande poder e que significam grande dinheiro pela sua atuação na internet. Aos poucos, vamos vendo como os autores vão receber e como vai se legislar diante disso. É um assunto que tem de ser analisado com responsabilidade. Eu, pessoalmente, tenho uma reação instintiva contra o lado muito deslumbrado, a coletivização da criação, a morte do autor. É um democratismo meio suspeito aos meus olhos. Quando entrou a ministra Ana (de Hollanda), os que já se opunham a essa tentativa de flexibilização se animaram a pedir a ela ou a induzi-la a fazer uma defesa dos direitos autorais tais como eles já existem. Então, na minha coluna do jornal O Globo, quis fazer uma mediação para esse diálogo se dar no mais alto nível possível. Mas confesso as minhas ignorâncias.

ÉPOCA - Você acha que há uma onda de conservadorismo no Brasil?
Caetano – Há, sim. Mas me lembro uma vez de dizer, quando não conseguiam juntar nem 250 pessoas para uma parada gay, que eu não dava dez anos para o Brasil ter a maior passeata gay do mundo. E hoje tenho orgulho que a de São Paulo seja a maior.

ÉPOCA - Você é bissexual?
Caetano – Claro, todos somos. Somos sexuais, nem homo, nem hétero, nem bi. Sexo é a coisa mais importante da vida. Mas não quero falar de sexo, não.

ÉPOCA - Parece que você está tremendo...
Caetano – Eu tremo, sempre tremi. Com a idade um pouco mais. E com essa conversa, mais ainda.



jueves, 31 de marzo de 2016

2004 - UM MICO PLANETÁRIO




 
VELOSO, Caetano. Um mico planetário. Revista Época, São Paulo, n. 314, 24 maio 2004. Entrevista concedida a Luís Antônio Giron.

Fotos: Mirian Fichtner/ÉPOCA

Um mico planetário


LUÍS ANTÔNIO GIRON



Caetano acha que Lula deu vexame, aceita pirataria pela internet e conta como será sua turnê

Aos 61 anos, Caetano Veloso diz não sentir necessidade de se impor ao mercado nem de atuar na política. De ótimo humor, recebeu ÉPOCA em sua gravadora, Natasha Records, no bairro da Gávea, Rio de Janeiro. Em duas horas de conversa, Caetano falou de tudo.
Criticou o governo Lula, analisou o mercado de entretenimento e questionou a noção de identidade brasileira que seu amigo Gilberto Gil tem estimulado à frente do Ministério da Cultura. E, claro, abordou seu tema favorito: a música e a nova turnê que faz pelo Brasil a partir da quinta-feira 27, em São Paulo. Revelou que acha a canção americana melhor que a brasileira e confessou limitações musicais. A nova excursão tem uma peculiaridade na carreira de 38 anos do compositor: quase todo o repertório é de músicas em inglês, incluídas no recém-lançado CD A Foreign Sound. A pré-estréia do show, em 16 de abril, no Carnegie Hall de Nova York, foi um triunfo. Resta saber a reação da platéia brasileira. O compositor e seis músicos vão percorrer nove capitais. Em cada cidade, juntam-se ao grupo orquestras de cordas locais. Caetano e banda ensaiaram na semana passada no estúdio de Gil, no sopé da Favela da Rocinha. Introduziram no espetáculo títulos como os sambas 'Não Tem Tradução' (Noel Rosa) e 'Manhã de Carnaval' (Luís Bonfá), mais a inédita 'Diferentemente'. Em outubro, a turnê corre México, Estados Unidos e Europa. 





ÉPOCA - Pelos ataques à crítica durante sua carreira, parece que você não é um crítico frustrado.
Caetano Veloso - Não sou, porque dialogo e entro em competição com a
crítica. Sempre atuei criticamente, desde os tempos da revista que o Glauber Rocha editava. Isso não é desprezo pelos jornalistas, como alguns pensam. Ao contrário, respeito a boa crítica. Gosto de propor discussão de idéias, cada vez mais difícil nos jornais. O problema é que, para vocês, jornalistas, o pior é sempre o melhor. Trabalho com atitude explícita. Nada fica sem resposta.

ÉPOCA - Você adora dizer frases bombásticas para horrorizar os jornalistas e criar polêmica...
Caetano - Diga aí alguma para eu me defender.

ÉPOCA - Em 1998, por exemplo, você ganhou o título de doutor honoris causa pela Universidade da Bahia, fez questão de receber a honraria no Carnaval, em cima de um trio elétrico. E declarou: 'A partir de agora, quando eu rebolar, é um doutor que estará rebolando!'. Não é uma provocação à universidade?
Caetano - Essa frase não passou de uma auto-ironia porque achei engraçado virar doutor. Dizem que faço tudo para aparecer. Não é isso. Gosto de contrariar ondas de opinião que ocorrem vez ou outra. Lembro de jornalistas de São Paulo mancomunados com intelectuais da USP querendo impor opinião. Aí respondo com agressividade, mas não é nada ofensivo. É picada de quem está de bom humor. Vejo os jornalistas no Brasil defendendo o rock contra a axé music, e aí vou contra. No cinema também: os velhos críticos atuam como porta-vozes de filmes tipo Cronicamente Inviável, do Sérgio Bianchi, que achei muito ruim. Tudo isso é provinciano. É coisa de um Brasil subordinado culturalmente.

ÉPOCA - Desde a tropicália, você distribui opiniões. Você se considera
intelectual?
Caetano - Concordo com o que dizia o José Guilherme Merquior, que sou um subintelectual de miolo mole. Atuo e adoro expor meu pensamento, mas talvez seja um vício geracional. Pertenço a uma geração que fazia isso, se
manifestando no teatro, na música, na TV. Era uma obrigação e um direito ter postura sobre a realidade política. Agora, as mesmas pessoas que inventaram esse hábito o ridicularizam. Nos anos de censura os artistas e os
jornalistas agiram em bloco em nome da luta política. Era às vezes ridículo,
porque todo o mundo tinha de 'se posicionar'. Até mesmo aquelas atrizes
iniciantes, que não sabiam nada, precisavam falar alguma coisa. Aí
começou-se a ficar cético a respeito disso. Sou uma pessoa da área de
entretenimento que dá suas opiniões.




'O Brasil foi salvo pelo gongo. O pessoal do Lula tem de pensar melhor. Tem coisa que não se faz. Já mandei embora jornalista da minha sala. Mas querer expulsar o sujeito do país pega mal!'



ÉPOCA - Você é um animal político?
Caetano - Não gosto de política, ela não me atrai. Não sei por que, mas
gosto de arte, música, poesia, cinema. Adoro frescura e vivo no mundo das
idéias. Política é um negócio chato, de uma gente que não tem a ver com meu temperamento. Não sou preparado, acho difícil entender de política. Leio dedicadamente artigos de jornal, exceto os do José Sarney.

ÉPOCA - Como você viu a crise provocada pelo artigo de Larry Rohter, do New York Times - jornal que você já atacou?
Caetano - Sou colega do Lula nesse assunto. Com o NYT, aconteceu comigo anos atrás uma coisa parecida com o que fizeram com o presidente. O
correspondente agiu de forma irresponsável, pensando que podia falar
qualquer coisa porque o Brasil é um país do Terceiro Mundo. Sou contra os
correspondentes do NYT no Brasil que faltem com o respeito. Um deles
escreveu que eu e o Gil íamos a festas vestidos de mulher porque queríamos alardear nossa bissexualidade. Mandei uma carta ao jornal, que não foi publicada. Aí fui danado da vida ao programa do Jô para chiar. Aquilo foi uma leviandade. Nunca fui presidente da República. O Lula nunca apareceu bêbado em público e o álcool jamais prejudicou sua atuação. Mas acho inadmissível o que o Lula e o núcleo duro do governo tentaram fazer com Rohter. Lula criou com o episódio um mico planetário para o Brasil. Ainda bem que Márcio Thomaz Bastos achou uma saída para a situação. O pessoal do Lula tem de pensar melhor. Desta vez o Brasil foi salvo pelo gongo. Tem coisa que não se faz. Já mandei embora jornalista da minha sala. Mas querer expulsar o sujeito do país pega mal!

ÉPOCA - Como você analisa o governo Lula?
Caetano - Vi muita gente se decepcionar, mas não é o meu caso. Eu não tinha esperanças de que o governo do PT viesse a ser firme. Quase não votei no Lula. Meu candidato era o Ciro Gomes. Mas aí o Ciro se retirou e fiquei sem candidato, e resolvi votar no Lula porque pensei assim: Lula tem de chegar à Presidência, a gente tem de conhecer essa experiência, ele merece por tudo o que fez. Espero que ele consiga passar os quatro anos à frente do governo e passe a faixa de presidente ao sucessor no melhor rito democrático.

ÉPOCA - Você teme que ele não consiga passar a faixa?
Caetano - O PT não é a salvação. Há uma esquizofrenia neste governo: o
Delfim apóia os economistas do PT e criticava os inventores do Plano Real. O Palocci vem com uma conversa que não tem nada a ver com as promessas de campanha do PT. Quando assumiu o governo, o partido quis se apossar de todas as áreas da máquina estatal. O PT não é republicano nem democrático e confunde Estado com partido. A esquizofrenia do governo se expressa em certas atitudes. O Ministério da Economia compõe com o mercado, enquanto o da Reforma Agrária se alinha com o MST. Tudo para que o PT não saia nunca mais do poder.


'Com a internet, perdemos o controle sobre a veiculação de música. Não sou empresário, não sou nem mesmo capitalista. Só não posso cuspir no prato em que comi. Existe uma crise, mas eu não estou nem aí'



ÉPOCA - Como você viu o expurgo dos membros rebeldes do PT?
Caetano - Um exagero. É outra prova da esquizofrenia do governo. Essa
atitude dura não é sintoma de capacidade política. É preciso desconfiar de
um partido que praticamente expulsa o Fernando Gabeira poucos meses depois de subir ao poder.

ÉPOCA - Você disse que falta experimentalismo no Executivo. Existe algum
pensamento politicamente arrojado para o país?
Caetano - Mangabeira Unger apresenta uma alternativa crítica, uma sugestão concreta do caminho a trilhar. Diz que o Brasil tem todos os recursos materiais e espirituais para ser mais inventivo. Ensina que existe um caminho alternativo para inserir o Brasil na economia mundial sem a política petista de se curvar às exigências do FMI. O pensamento do Mangabeira faz eco àquilo que penso sobre como resolver os problemas sociais internos, como o salário mínimo e o abismo social, e a política externa. Mangabeira é um dos raros pensadores do Brasil.

ÉPOCA - Como você vê a política educacional de Lula?
Caetano - Sou a favor da compensação dos negros. É preciso confrontar a
questão de raça com a social, porque a gente observa que a maioria dos
negros pertence às classes mais baixas. É positivo dar acesso a eles à
educação, e agora aos alunos da rede pública ao terceiro grau. Tenho lido só
críticas tecnicistas sobre o assunto. É preciso criar um sistema de
acompanhamento para verificar se as medidas compensatórias serão
implementadas corretamente.

ÉPOCA - Monitorar não é difícil?
Caetano - Graças a Deus, no Brasil todo o mundo tem sangue negro ou, pelo menos, aprendeu a valorizar isso. Esse é um tesouro do Brasil.

ÉPOCA - Você tem gostado de Gilberto Gil no Ministério da Cultura?
Caetano - Gil trouxe visibilidade a um ministério que nunca teve importância. Quando ele ia assumir, eu lhe disse: você corre o risco de ser
o Lula do Lula. Gil tem um imenso valor simbólico no mundo.

ÉPOCA - O Ministério da Cultura criou uma secretaria para promoção da
identidade nacional. Não é curioso isso acontecer sob a gestão de um antigo
tropicalista?
Caetano - Pois é, a tropicália enfrentou a questão da identidade e tratou de
superá-la. Desde então, mudaram os pontos de referência. Parece difícil um
ministério que tem Gil no comando sair por aí em busca de identidade. Hoje
esse tipo de idéia só tem dois defensores de plantão: o José Ramos Tinhorão e o Ariano Suassuna. O Tinhorão criou argumentos sofisticados sobre o tema, mas é medíocre em suas sugestões artísticas. O Suassuna é o gênio que escreveu O Auto da Compadecida e A Pedra do Reino, mas assume o papel de um palhaço pela obrigação de manter uma posição que acha sagrada. Ele promove a xenofobia fazendo a gente rir. O MinC não deveria defender essas posições pró-xenófobas.

ÉPOCA - Seu novo CD é um dos campeões mundiais de download ilegal. Como você encara o problema?
Caetano - Claro que isso é lesivo aos direitos autorais do artista. O fato é
que perdemos o controle sobre a veiculação de música. Não sou empresário,
não sou nem mesmo capitalista. Mas não posso cuspir no prato em que comi.
Existe uma crise na indústria da música, mas eu não estou nem aí. Houve uma hipertrofia do mercado musical desde a explosão do sucesso dos Beatles nos anos 60. Desde então, a indústria musical moveu fábulas de dinheiro, produziu muita música ruim e muito crítico de música escrevendo nos jornais.
Talvez haja razão para haver a retração no mercado. Só não posso deixar de reparar que coisas boas surgiram do comercialismo, como o rock e a axé
music. O rock mudou o mundo. A axé music nasceu da ambição descarada, e hoje virou força popular. Não tenho por que chorar.

ÉPOCA - A música popular ainda é uma missão ou virou business?
Caetano - Quando entrei nesse negócio, pensava em ser 100% puro e que sairia dele com as mãos limpas. Minha turma - Dori Caymmi, Edu Lobo, Chico Buarque e Paulinho da Viola - foi abençoada por pertencer à segunda geração da bossa nova. João Gilberto, o fundador da BN, nos legou a dignidade, colocando a música num patamar artístico muito alto. A gente nunca pensou nessa história de jabá. Quando ele apareceu, a gente se sentiu regredir aos anos 50. Não posso mudar na minha idade. Continuo vendo a música do ponto de vista artístico. A música do Brasil é forte. E continua sendo importante para mim e para o mundo, não importando a reprodutibilidade técnica.

ÉPOCA - Por que você cultua João Gilberto, sem cantar e tocar como ele?
Caetano - João é o maior artista da música popular, caso extremo de
comprometimento com a perfeição. Ele é mais e menos que uma influência. Ele me influenciou de uma forma definitiva e seria assim se eu tivesse virado professor de Filosofia. Desde que ouvi suas gravações lá em Santo Amaro, João me deu um norte estético. Depois me levou a escutar Chet Baker. Tentei imitá-lo na formulação de acordes e no canto. Mas parou aí. Eu dizer que João é uma influência musical minha seria como um escritor que lança um romance e declara que suas influências são Kafka, Proust e Dostoiévski. Não tenho competência para ser influenciado por João Gilberto.



'Eu sei que arrisco a respeitabilidade com o novo disco. Ele depõe contra mim. É um trabalho esquisito e apareceu com atraso. Eu deveria tê-lo gravado há dez anos, antes de Rod Stewart ter feito os dois dele'

 
ÉPOCA - Você diferencia sua música da dos 'bregas' que você grava. Não é
excesso de modéstia?
Caetano - Minha competência musical é limitada. Não posso ser comparado com a musicalidade de Djavan, Edu, Paulinho da Viola e até de Chico. Sou um compositor que canta às vezes. Meu violão não tem nível profissional. Isso não impediu que eu compusesse algumas canções relevantes que viraram standards. Algumas saíram boas, melhores do que eu imaginava. No início da carreira, as gravadoras não aceitavam gravar o meu violão, considerado amador. Aí fui para Londres, lá eles gostaram do meu jeito, e quando voltei ao Brasil os produtores já aceitavam que eu gravasse. Quando comecei, eu atuava na periferia da música e contribuía com idéias sonoras. Eu queria ser pintor. Depois, fazer cinema. Não é preciso ter talento para ser cineasta, apenas vocação.

ÉPOCA - Você se sentiu feliz ao dirigir Cinema Falado?
Caetano - Adorei me envolver com as filmagens e com a equipe. Mas me
apavorei com os problemas extrafílmicos, como distribuição e contratos. O
filme foi bem recebido pela crítica em 1986, ao contrário do que escrevem
hoje. Falaram mal só três diretoras mulheres, o Arthur Omar - gostei do
livro de fotografias dele - e o Caio Túlio Costa, que escreveu algo terrível
no caderno de variedades da Folha de S.Paulo, num tempo em que o jornal
ainda agitava a cultura. Os críticos adoraram o filme porque ele traz cenas
de pura crítica. Tem uma seqüência amorosa em que o rapaz fala uma crítica completa para a parceira.

ÉPOCA - E projetos de longas-metragens?
Caetano - Quero voltar a filmar quando for possível. Queria fazer um filme
que se passasse em Salvador e mostrasse a vida lá.

ÉPOCA - Não está na hora de voltar a fazer música?
Caetano - Estou compondo. Na temporada no Baretto em São Paulo fiz uma música - 'Diferentemente'. Pensei nela correndo, minutos antes do show. Os músicos aprovaram a estrutura. Vou cantá-la na turnê.

ÉPOCA - Você foi bem recebido pelo público americano na estréia do show.
Mas, para o público brasileiro, não é estranho um ídolo nacional apresentar
repertório americano?
Caetano - No Brasil é mais fácil. Vendi aqui 1,2 milhão de discos com Prenda Minha - porque tinha a música do Peninha e canções conhecidas. Não tenho feito esse sucesso todo cantando em outras línguas. Fina Estampa foi recebido sem entusiasmo pelo público mais caloroso do mundo - o portenho.
Não parei o trânsito no México nem em Miami. A Foreign Sound não vai fazer sucesso nos países de língua inglesa, nem tenho intenção de impor meu nome nos Estados Unidos.




ÉPOCA - Como você define o CD e o show A Foreign Sound?
Caetano - Eu sei que estou arriscando minha respeitabilidade com ele. De
certa maneira, o disco depõe contra mim. Eu o chamo de a difficult easy
listening (música comercial difícil). É um trabalho esquisito e apareceu com
atraso. Eu deveria tê-lo gravado dez anos atrás, ou, pelo menos, antes dos
dois CDs do Rod Stewart com standards. Mas, enfim, decidi lançá-lo porque
era uma coisa que eu queria fazer.

ÉPOCA - Você acha que a música americana é melhor que a brasileira?
Caetano - É, sim. Com o jazz, Cole Porter, Irving Berlinn e Gershwin; com a soul music e o rock; a música americana tem enorme riqueza, apesar de
Caymmi, Tom Jobim, Chico e Gil.
E os americanos têm James Brown. A
influência dele é tamanha que hoje todo o mundo no Brasil se chama Brown: Mano Brown, Charlie Brown Jr., Carlinhos Brown!





 
Turnê A Foreign Sound
São Paulo, 27 a 30/5 e 3 a 6/6; Salvador, 18 a 20/6; Curitiba, 23/6; Porto Alegre, 26 e 27/6; Belo Horizonte, 2 a 4/7; Rio, 15 a 17/7; Brasília, 23 e 24/7; Goiânia, 25/7; Recife, 30 e 31/7