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sábado, 7 de abril de 2018

2006 - "FEVEREIRO EM SANTO AMARO"


Enviado por Jorge Bastos Moreno - 9/2/2006 - 17:18

A irritação do artista

Querem ver o Caetano Veloso irritado? Chamem a sua sunga de jérsei de cueca.
Parece que isso irritou mais o nosso gênio do que toda a reportagem da "IstoÉ Gente" sobre sua temporada na Bahia que, para o artista, é totalmente fantasiosa.

Vejam a carta que Caetano mandou para a revista:

Senhores editores,
Vi no ultimo número de IstoÉGente uma reportagem de capa sobre mim. Fiquei chocado com a falsidade das informações. Ali é dito que apareci de mãos dadas com uma nova namorada no ensaio do Cortejo Afro, em Salvador, que tomei banho de mar de cueca e que fui levar presente para Iemanjá. Não cheguei de mãos dadas com ninguém àquele local. Não entrei ali com a moça que aparece na foto comigo. A enganosa impressão de que poderíamos estar de mãos dadas quando pisávamos degraus diferentes da escada de entrada (eu nem sabia que nesse momento ela estava justo atrás de mim) e um único flagrante de breve diálogo num momento posterior tudo o que a revista tem. Para uma publicação que mostra tanta vontade de fazer uma matéria daquela natureza, essa escassez de material é prova de que tudo o que é dito no texto não corresponde à verdade.

Se eu tivesse uma nova namorada e fosse com ela a um lugar público, vocês teriam oportunidade de reunir evidências. Mas não. A moça, conhecida minha de há muitos anos, não é minha namorada e não entrou ali comigo ou ficou a meu lado durante o ensaio. Fui com outras duas amigas e, entre muitas outras pessoas, encontrei-a lá. No dia seguinte, fui a uma praia distante, com um grupo de amigos que não incluía a moça em questão, usando uma sunga de jersey azul-rei, de marca Blue Man, com etiqueta na parte interna e um bordado da marca no lado esquerdo da parte da frente.

É um sungão, não é uma cueca. Já fui à praia de cueca centenas de vezes, nos anos 70. Iria de novo se quisesse. Mas não o fiz em Salvador agora e detesto ler que fiz o que não fiz. Na verdade fiquei desagradavelmente surpreso ao ver que os fotógrafos nos tinham seguido até ali. Pois, além de termos parado o carro a mais de um quilômetro do lugar anode íamos, ficamos num recanto escondido entre árvores. Tudo bem, eu sei que vocês vivem de entreter seus leitores com histórias sobre pessoas famosas. E eu sou famoso (e estava com alguns amigos célebres naquela praia). Mas ao menos esperem histórias acontecerem.

Se eu não fiz nada que significasse a apresentação de uma nova namorada à sociedade, não tomei banho de mar de cueca, nem levei presente a Iemanjá, por que mentir a seus leitores afirmando que fiz as três coisas?

Tenham respeito por mim. Tenho 63 anos e uma longa vida de trabalho com música popular. Estou na Bahia, levando uma vida o mais quieta possível. Não desci do meu quarto de hotel nem um só segundo no dia 2 de fevereiro. Só compareci a dois eventos em Salvador todo este verão: a festa da Beleza Negra do Ilê e o ensaio do Cortejo Afro. Ambos a que assisto tradicionalmente e, dada a ligação pessoal que tenho com os dois blocos e os seus dirigentes, a que não podia faltar. Deixei de ir a todos os outros muitos ensaios (de Margareth, do Olodum, do Muzenza, do Malê de Balê etc.), assim como a toda a série de shows do Festival de Verão. São coisas que, em outros anos, não perco. Seria o caso de fazer-se uma reportagem sobre minha atitude reclusa, em comparação. Mas não. Vocês queriam dizer que estou me esbaldando, e, com as migalhas de duas saídas discretas, fizeram uma material afirmando isso. Eu acho que eu mereço ser tratado com mais cuidado.

Caetano Veloso.



JORNAL A TARDE
BAHIA| Salvador

Segunda-feira, 06/02/2006
Padre Pinto rouba a cena
Marcos Casé
Colaboraram Regina Bochicchio e Ceci Alves


Sábado (4/2) era a Noite da Beleza Negra no palco Guetho Square, do Festival de Verão, mas quem chamou a atenção, mesmo, foi o padre José Pinto, o muso do verão brasileiro. Mestre em roubar a cena e criar factóides desde que virou celebridade instantânea ao dançar maquiado e paramentado de Oxum e de outras personificações durante a Festa de Reis da Lapinha, em janeiro deste ano - o padre foi convidado pela segunda vez para ser um dos jurados do concurso.


Mas, irrequieto, apareceu por lá de chapéu de cowboy, blazer branco, calça com a bandeira do Brasil e camisa com motivos do Ilê por baixo e detalhe: com um clergyman, peça de uso eclesiástico, que fecha a gola das camisas dos padres. Para arrematar, sua indefectível maquiagem, composta por gloss na boca e olhos pintados a lápis. E agitou o quanto pôde no evento.

Entre as folias do padre, a que mais teve repercussão foi o beijo rasgado que tascou em outra celebridade baiana, Caetano Veloso, para a surpresa do acompanhante de Caê, o músico Arto Lindsay, que ficou siderado com o carinho explícito. Mas esta foi apenas uma das várias demonstrações de afeto que Pinto distribuiu. Aos 58 anos e cheio de disposição, ele -que ainda é artista plástico, bailarino e estilista- abraçou Brown (não, não teve beijo) e muitos outros, nunca desgrudando do copo de cerveja.

Com estas atitudes e outras semelhantes às que o fizeram ser substituído da paróquia da Lapinha pelo arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, cardeal dom Geraldo Majella Agnelo, padre Pinto conseguiu ser o destaque da noite. Chamou mais a atenção do que outras personalidades como o ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner, e até a atriz Mariana Ximenes, que também prestigiaram o concurso do Ilê Aiyê.

Mais do que à vontade, ele foi o mais animado da festa e, inclusive, serviu de referência a Carlinhos Brown, anfitrião do palco Festival Gueto Square, na hora da coreografia. “Vamos lá pessoal, mão pra cima que nem o padre Pinto”, incentivou o artista.

No final, quase com o dia claro, além de dançar, beber e sacudir a platéia, padre Pinto ainda teve pique para subir ao palco principal junto com os pagodeiros da Psirico e passar uma mensagem religiosa e de paz. Ele fez muita gente parar para rezar em plena arena do Parque de Exposições.

Beleza negra hype -A grande sacada de Carlinhos Brown - que comandou o palco Guetho Square, todos os dias - de levar a eleição para a noite de sábado do Festival de Verão, conseguiu atrair não só um grande e eclético público, como muitos jornalistas e famosos como, além de Caetano Veloso e Mariana Ximenes, Wladimir Gasper (cantor participante do Festival e marido de Marisa Monte) e o famigerado padre Pinto. Resultado: a 27ª Noite da Beleza Negra bombou.

A nova Deusa do Ébano se chama Kátia Alves de Jesus. Ela emocionou os jurados com suas evoluções perfeitas e graciosidade. O segundo lugar ficou com a negra Samonair dos Santos da Costa e em terceiro, Edimeire Cerqueira Rosário. A Deusa do Ébano, além de acompanhar o Ilê dentro e fora do País, leva para casa R$ 2 mil e um final de semana no Hotel Pestana.

As outras vencedoras recebem R$ 1,5 mil e R$ 1 mil, mais um troféu. Todas as 15 candidatas ganharam a fantasia do Ilê que usaram no desfile coletivo, feita artesanalmente por Dete Lima.




Padre Pinto beija Caetano na boca e 'arrepia' em festival baiano

Do Correio Braziliense

07/02/2006

Foto: Lucio Tavora/Coperphoto/AE

O padre José Pinto, punido com afastamento da sua paróquia da Lapinha, em Salvador, após ter se fantasiado de orixá na Festa de Reis, voltou a se comportar de forma desafiadora. Ele participou do Festival de Verão e, entre outras coisas, beijou Caetano Veloso na boca. Pela primeira vez desde o início do problema, criticou diretamente seu superior hierárquico na Igreja Católica, o cardeal-arcebispo de Salvador, Dom Geraldo Majella Agnelo, a quem acusou de ser um despreparado artisticamente. Para completar, organizou uma passeata para pedir seu retorno à paróquia da Lapinha.

A agenda nada pia de padre Pinto começou no sábado à noite quando ele participou do júri que escolheu a Rainha do Carnaval do bloco afro Ilê-Ayiê. Com um chapéu de caubói, maquiado, de blazer branco e por baixo vestindo uma camiseta do Ilê, o que mais chamava a atenção no padre era o comportamento: mesmo sentado ele levantava os braços dançando e movimentava estranhamente a língua.

Às vezes bebericava cerveja de um copo que raramente largava. Depois do concurso, atendeu ao pedido de um grupo de pagode chamado Psirico e subiu ao palco para abençoar o público: Pai, filho e Espírito Santo desçam sobre vós e permaneçam para sempreeee. Amém, gritou em tom de ladainha.

Antes de deixar o local do festival fez várias críticas à cúpula do clero baiano pelo afastamento da Lapinha e por ter sugerido que ele fosse fazer tratamento em Roma. Segundo ele, o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Geraldo Majella Agnelo, teria errado duas vezes por acusá-lo de ser louco e querer interná-lo num sanatório na Itália.

O padre chegou a ameaçar acionar, em juízo, o cardeal por isso. Também classificou Dom Geraldo de pessoa despreparada artisticamente e de ter uma cultura castrada e castradora. O belo trabalho que diz desenvolver na Lapinha não é visto pelo cardeal, segundo padre Pinto.

No domingo, o religioso organizou uma passeada com cerca de 150 paroquianos nas ruas da Lapinha. Vestia, desta vez, a batina preta dos padres seculares, estava sem maquiagem, mas admitiu a pintura do cabelo. Vários moradores portavam faixas e cartazes no mesmo tom desafiador do padre: Alô. Alô cardeal, inquisição foi na Idade Média. Não deu certo, imagine agora e Perdão, humildade e fraternidade: base do Cristianismo.

Padre Pinto quer retomar suas atividades na paróquia que comandou por 33 anos, mas não parece fazer um gesto de recuo em relação aos seus superiores. Ele argumentou que pessoas como ele que estão na Igreja e são chamadas a um outro tipo de missão profética, precisam ser valorizadas até mesmo para chamar a atenção da própria instituição que muitas vezes fica numa posição de muita aparência, muita casca, mas não percebe, como a própria Bíblia diz, que dentro está a podridão. Ninguém da Arquidiocese de Salvador quis comentar as declarações a atitudes de padre Pinto, confirmando apenas que ele está afastado definitivamente da Paróquia da Lapinha.



O FUXICO

05/02/2006
Publicado por: Josemar Arlego Jr, Salvador


CAETANO ENCONTRA O POLÊMICO PADRE PINTO, NO FESTIVAL DE SALVADOR


Caetano Veloso não se importou com a multidão que compareceu ao Festival de Verão, no sábado, dia 4/2. O cantor, acompanhado da atriz Mariana Ximenes, tratou logo de conseguir uma cadeira em meio aos bares do local, sem direito à área vip, para não perder um só minuto da apresentação do Ilê Ayê. 

Caetano Veloso não costuma perder a passagem do mais famoso bloco afro do Carnaval de Salvador, na Bahia, em que só é permitida a entrada de negros. Caê vibrou com a escolha da Deusa do Ébano, uma espécie de rainha da bateria se fosse numa escola de samba. No concurso, meninas negras precisam mostrar todo seu conhecimento da dança afro-baiana, para vencer a disputa. 

A certa altura da noite, o cantor avistou o Padre Pinto, religioso que ficou conhecido em todo o país após ter sido filmado realizando missas em uma Igreja Católica, de Salvador, vestido e dançando como um orixá do Candomblé. 

O polêmico Padre Pinto foi afastado e estava em retiro forçado pela Igreja Católica, na Ilha de Itaparica. É sua primeira aparição pública após o escândalo. 

Eles conversaram durante algum tempo, se abraçaram e ficaram assistindo ao Ilê Ayê. Como Caetano é muito ligado ao Candomblé, debe ter se solidarizado ao religioso.



09/02/2006
Publicado por: Josemar Arlego Jr., Salvador | Foto: Josemar Arlego Jr.

SELINHO EM CAETANO FAZ IGREJA EXPULSAR PADRE PINTO 


Selinho em Caetano faz igreja expulsar Padre Pinto - Foto: Josemar Arlego Jr. 

Um selinho na boca, trocado entre Caetano Veloso e o Padre Pinto, no último sábado, dia 3, durante o Festival de Verão Salvador, serviu para colocar mais lenha na fogueira e gerar revolta na Igreja Católica contra o polêmico religioso. A cena foi flagrada por um fotógrafo do Jornal A Tarde, da Bahia, que publicou a foto em uma de suas edições. Diante disso, a Congregação da Igreja da Lapinha, de Salvador, deu três dias para o padre deixar o local.

No entanto, em coletiva de imprensa, em Salvador, Padre Pinto avisou que só vai sair quando Ludovico Caputto, um superior de Roma, desembarcar na capital baiana especialmente para resolver o problema. Em um dos trechos da carta, Caputto afirma:

"Os últimos acontecimentos servem apenas para complicar sua situação como cidadão, religioso e presbítero. Pense nisto, pelo amor de Deus. Faça memória de sua história. Ainda é tempo: basta um gesto de humildade da parte do senhor: sair de cena, pois quem deve sempre brilhar é o Senhor nosso Deus e não nós. Venha! Estaremos lhe esperando com todo carinho. Vamos refazer esta história. Somente com sua saída da Lapinha, teremos condições de tentar convencer o cardeal de sua decisão".

Padre Pinto ficou bastante indignado e reagiu:"Eles querem me levar, para me dopar, me encher de medicação, como fizeram depois da Festa de Reis. Assim, vão tentar provar que estou louco. Vendi meus bens e entreguei a essa congregação. Eles roubaram minha juventude, minha vida. Agora querem me jogar na rua", disse Padre Pinto, que ganhou fama após celebrar missas vestido de mulher e com roupas de Orixás do Candomblé.

Um novo padre já foi enviado para celebrar as missas, batizados e casamentos. O assunto foi tema de destaque em jornais de Salvador, como o Correio da Bahia, bem como dos noticiários da Band Bahia.



2006
Revista ISTOÉ Gente
n° 338
13 de fevereiro



O desbunde de Caetano

Um ano após se separar de Paula Lavigne e menos de um mês depois de virar avô, o cantor circula por Salvador com uma musa negra, vai de cueca à praia e beija o folclórico padre Pinto

texto: Flávia de Leon, de Salvador
fotos: fred pontes / fotoagencia



Axé total: Caetano Veloso e Denise Assis apareceram de mãos dadas no ensaio do bloco Cortejo Afro, em Salvador, na segunda-feira 30. “Eles nunca trocaram um beijo em público, mas a família toda a tem como namorada dele. É uma negra belíssima”, conta uma amiga da família dele

Caetano Veloso tem aproveitado – e muito bem – a nova vida de solteiro em pleno alto verão baiano. Um ano depois de se separar de Paula Lavigne, com quem foi casado por 19 anos, o cantor e compositor apareceu em público com Denise Assis dos Santos, uma mulata de corpo escultural, no ensaio do Cortejo Afro, em Salvador, na segunda-feira 30. De mãos dadas, o casal foi a sensação da noite. Em aparições mais discretas e longe dos fotógrafos, os dois já foram vistos juntos na praia do Porto da Barra, apreciando o pôr-do-sol com amigos, e em barzinhos do Rio Vermelho, bairro boêmio de Salvador onde o cantor tem uma casa.

Quem conhece a discreta musa do cantor diz que ela freqüenta a família Veloso há cerca de um ano. Denise, no entanto, não assume o romance, mas confirma que a amizade é antiga. “Tem um tempo que saio com ele, não é de agora”, diz ela. “Só agora a mídia viu e fica especulando. Isso já está me prejudicando, porque não posso mais ir aos lugares que gosto de ir, nem posso mais sair com ele que fica todo mundo falando.” Caetano também não assume nem desmente o affair. “Eles nunca trocaram um beijo em público, mas a família toda a tem como namorada dele. É uma negra belíssima”, conta uma amiga da família Veloso que prefere o anonimato para evitar a ira de Caetano, que estaria “furioso” com a exploração do fato. Denise explica as razões para não comentar sobre o relacionamento. “Tem um momento pra tudo e nesse momento pode ser ruim pra ele e ruim pra mim.”

Apesar de formalmente separados desde dezembro de 2004, quando Caetano deixou o apartamento que dividia com Paula Lavigne e os filhos, Tom e Zeca, no Rio, nenhum dos dois assumiu novos relacionamentos. O antigo casal mantém uma civilizada proximidade. Os dois passaram inclusive o Réveillon juntos e Paula permanece como empresária do ex-marido. Mas com a chegada do verão, Caetano rumou sozinho para a Bahia. Em território baiano, Denise, moradora do bairro da Liberdade, berço da cultura afro em Salvador, começa a ganhar espaço. Um sinal de intimidade é a presença dela em eventos promovidos por dona Canô, a matriarca dos Veloso, em Santo Amaro da Purificação. “Ela tem sido mais uma companhia pra Caetano neste período. Ela é ligada ao pessoal de dança afro e circula com os amigos de Bethânia”, afirma um colunista de Salvador. Depois da repercussão da primeira aparição pública, Denise não foi mais vista com o cantor, que continuou curtindo seu verão livre, leve e solto.

Ainda que aos 63 anos esteja comemorando a chegada da primeira neta, Rosa, filha do seu primogênito Moreno, nascida em 12 de janeiro, Caetano tem emendado um festejo no outro, demostrando um fôlego de garoto. Depois de se esbaldar no Cortejo Afro ao lado de Denise, o cantor prestigiou o dia de Iemanjá, acompanhando os festejos do dia 2 de fevereiro, quando presenteou a rainha do mar
com uma rosa e um perfume. Sozinho, levou os mimos de manhã cedo, na praia do Rio Vermelho, onde os pescadores homenageiam sua protetora.

No sábado 4, Caetano passou o dia badalando. Pela manhã, foi curtir a praia de Aleluia, acompanhado do ator Wagner Moura, da atriz Mariana Ximenes e do marido dela, Pedro Buarque de Holanda. O grupo instalou-se na Barraca do Lôro, uma das mais movimentadas de Salvador, freqüentada por surfistas, celebridades e aspirantes a holofotes. Ele até tentou ser discreto, buscando a proteção de arbustos, enquanto batia papo em uma mesinha da barraca de praia. Mas quando foi ao mar, a cueca azul usada para o banho chamou a atenção dos paparazzi de plantão. Deu um mergulho refrescante e voltou a curtir o dolce far niente ao lado dos amigos. Digna de nota é a boa forma do cantor, que exibe as mesmas medidas da juventude.

No mesmo sábado, ainda com Mariana Ximenes e sua turma, Caetano foi para o Gheto Square. Prestigiou a tenda comandada por Carlinhos Brown no Festival de Verão, palco do concurso da Beleza Negra do Ilê Aye, o bloco afro mais famoso de Salvador. Enquanto acompanhava a escolha da Deusa do Ébano, título conferido à rainha do bloco que deverá acompanhar todos os eventos nacionais e internacionais do Ilê, Caetano foi surpreendido com a tietagem de padre Pinto, o folclórico sacerdote que era um dos jurados do concurso de beleza. O ex-pároco da Lapinha – que se fantasiou de índio e escandalizou a Igreja ao comandar celebrações religiosas vestido de Oxum, a orixá da água doce – tascou beijos estalados em Caetano, diante do olhar divertido do músico Arto Lindsay. Conversaram animadamente, até que padre Pinto foi tietar Carlinhos Brown. Desta vez, sem beijos. Tanta badalação é só o prenúncio de um Carnaval com muito axé para Caetano Veloso.







De cueca, Caetano dá um mergulho na praia de Aleluia, no sábado 4, quando curtiu sol e mar na companhia de amigos como Mariana Ximenes e a promoter Mônica Assis, a Nega


Tem um tempo que saio com ele, não é de agora. Não posso mais sair com ele que fica todo mundo falando’’, diz Denise Assis dos Santos, sobre Caetano Veloso


O folclórico padre Pinto tascou beijos na bochecha de Caetano, quando se encontraram na noite de sábado durante o concurso Beleza Negra do Ilê Aye, o bloco afro mais famoso de Salvador - Foto: Lucio Tavora/Coperphoto/AE






2006
Revista ISTOÉ Gente
N° 339
20 de fevereiro


Caetano diz que não está namorando

O cantor e compositor afirma que Denise Assis dos Santos é sua conhecida há muitos anos, mas não é namorada

Desde o fim de tarde em que assistiu ao pôr-do-sol na praia do Porto da Barra, em Salvador, na segunda-feira 6, o cantor e compositor Caetano Veloso passou seus dias de verão baiano mais recluso. Hospedado no hotel Pestana, ele optou por não ficar nesta temporada em sua casa no bairro do Rio Vermelho. Caetano afirmou que não está namorando a baiana Denise Assis dos Santos. Apontada por Gente como sua musa negra, o cantor e compositor disse que a moça é sua conhecida há anos e que não chegaram juntos ao ensaio do Cortejo Afro em Salvador, onde foram fotografados.

Procurada novamente, Denise Assis dos Santos não atende mais às ligações em seu celular e, em sua casa, uma irmã informa que ela está viajando. Ela declarou na edição anterior de Gente que saía com ele havia algum tempo. “Não é de agora. Só agora a mídia viu e fica especulando”, disse ela.

No último dia em que foi visto na praia, Caetano usava o mesmo traje de banho com o qual circulara um dia antes e que foi confundido com cueca pelos paparazzi. O cantor veio a público também para informar que a peça era uma sunga de jérsei azul-rei da marca Blue Man. “Fui eu que comprei para ele”, confirmou sua empresária e ex-mulher Paula Lavigne, também empenhada em esclarecer que Caetano não namora com Denise Assis e que permanece solteiro, dedicado a compor novas canções.


‘‘Não é uma cueca’’



Com a sunga de jérsei azul-rei, da Blue Man, no sábado 4/2, na praia de Aleluia


Caetano Veloso pouco antes de assistir ao pôr-do-sol na praia do Porto da Barra, em Salvador, na segunda-feira 6/2




miércoles, 6 de diciembre de 2017

2007 - OS 100 ANOS DE DONA CANÔ [1]







Dona Canô, mãe de Caetano e Bethânia, recebe comenda em Salvador

Plantão | Publicada em 11/08/2007




SALVADOR -Prestes a completar 100 anos de vida, dona Canô não poupa simpatia e disposição para viver novas emoções. Cercada por familiares, amigos e muitos admiradores, a matriarca da família Veloso, foi homenageada ontem com a Comenda Maria Quitéria, durante solenidade na Câmara de Vereadores. O evento integra uma das homenagens pelo centenário de dona Canô, que será comemorado no dia 16 de setembro.

Acompanhada de quatro dos oito filhos - Mabel, Rodrigo, Clara e Irene - além de netos e bisnetos, dona Canô foi recebida com honras de uma heroína. Logo na entrada da Câmara foi saudada pela percussão da banda Didá. Uma das maiores emoções, no entanto, foi a homenagem inédita do neto, o cantor e compositor J. Veloso, que cantou a música Mãe Canô, composta especialmente para a festa de centenário da avó.

Embora seja reconhecida como exemplo de mulher por defender a cultura e os interesses de Santa Amaro, sua cidade natal, e por ser acolhedora, dona Canô foi modesta ao dizer que não entendia o motivo da homenagem. "Eu já fui chamada até para entrevistas em São Paulo. Eu nunca fiz nada, não sei porque estou recebendo essa homenagem", disse.

Em seus quase 100 anos, todos muito bem vividos, como ela própria destacou, dona Canô disse que o melhor presente que poderá receber no dia de seu aniversário é a presença de todos os seus familiares e amigos. Como lição de vida, ela destacou "seguir a linha do reconhecimento do amor e da igualdade".

A solenidade contou ainda com a participação da cantora Márcia Short, que interpretou o Hino Nacional e do coral Vozes de Santo Amaro, um dos preferidos da homenageada.

"Estou muito feliz de poder estar aqui. Esta é uma homenagem mais do que merecida para minha mãe. Fazer 100 anos é uma raridade. Espero que ela tenha muitos anos de vida pela frente", destacou o neto J. Veloso.

A força e a vitalidade da quase centenária é motivo de orgulho para a filha e escritora Mabel Veloso. "Minha mãe é um exemplo de coragem e determinação. Eu endeuso ela", disse emocionada.

A aparente fragilidade da matriarca da família mais famosa de Santo Amaro, muitas vezes oculta a personalidade de uma mulher forte que é tida como exemplo para os amigos. "A Comenda Maria Quitéria simboliza uma homenagem a um dos maiores símbolos políticos e sociais da história da Bahia que está sendo concedido a um dos maiores vultos do contexto cultural e social da Bahia. É uma homenagem ajustável", destacou o professor, poeta e compositor Jorge Portugal, que também é compadre da homenageada.

A filha Clara Veloso destacou que Santo Amaro está mobilizada para os preparativos para a festa de aniversário de dona Canô. A data será marcada com uma série de eventos, entre eles, uma missa, um café da manhã e um almoço.





2007
Revista Contigo!
Copyright © 2007
Editora Abril S.A.


Dona Canô
Centenário de vida e alegria

Por Manuela Martinez
Fotos: Marcelo Tabach



TRICÔ. Na sala de sua casa, dona Canô observa Daniela Mercury e Bethânia 
Foto: Marcelo Tabach


A poucos meses de completar 100 anos, dona Canô fala dos filhos ilustres, Caetano e Bethânia, de sua história e da vida em Santo Amaro (BA)

Em qualquer lugar do Brasil onde estão, Caetano Veloso e Maria Bethânia são as estrelas. Menos em uma casa de dez quartos localizada no centro de Santo Amaro (a 71 quilômetros de Salvador), mais precisamente na avenida Ferreira Bandeira, 179. Neste endereço, desde 1951, mora Claudionor Vianna Telles Velloso, que o Brasil inteiro conhece como dona Canô. Perto de completar 100 anos (seu aniversário é no dia 16 de setembro), a matriarca da família Velloso reina absoluta no amplo sobrado e em toda a cidade. Disposição é o que não falta para essa mãe de oito filhos, que vive cercada por nove netos e cinco bisnetos.

O quarto de dona Canô é uma extensão de sua religiosidade e do amor à família. Em todas as estantes, há imagens religiosas, terços, livros com orações. Nas paredes, fotos de todos os filhos desde a infância, réplicas de discos de Caetano Veloso e Maria Bethânia.

Mesmo "aposentada" da cozinha, dona Canô dita para as duas cozinheiras todo o cardápio que será servido no almoço e no jantar. Após o almoço, outro ritual é cumprido por ela: repouso de três horas.

Em uma entrevista exclusiva a Contigo!, ela lembra com detalhes a criação dos filhos, momentos de sua vida e conta como é a sua rotina em Santo Amaro, cidade onde nasceu, se casou e se criou.

O que a senhora mais gosta de fazer agora que está perto de completar um século de vida?
Hoje, praticamente, não faço mais nada, estou aposentada, e os meus filhos não me deixam mais trabalhar. Há uns meses, sofri uma queda e o médico me proibiu de fazer certos movimentos, mas já disse para eles (os filhos) que não gosto de ficar parada. A que hora a senhora costuma acordar? Todos os dias eu me levanto às 5h30 para fazer o café, regar as plantas, caminhar pelo jardim, observar com detalhes o que será feito na casa. Nada aqui acontece sem que eu dê a palavra final, absolutamente nada.

A senhora percebe muita diferença entre a criação de seus netos e a criação que a senhora recebeu de seus pais?
A diferença é muito grande, hoje ninguém cria os filhos como antigamente. A liberdade que eles têm é muito grande, com 11, 12 anos, querem mandar em tudo. Hoje, sou dependente deles (filhos e netos), às vezes eles falam alguma coisa para mim, mas sei que é para o meu bem. Mas, quando o meu marido estava vivo, a coisa era bem diferente.

Quando os seus filhos eram mais jovens, a senhora implicava muito com eles, dava bronca?
Eu e o Zeca (José Telles Velloso, que foi casado com dona Canô por 53 anos) nunca brigamos, batemos, xingamos ou falamos mal de nossos filhos. Zeca não suportava qualquer tipo de agressão aos filhos, mesmo que não fossem dele. Uma vez, uma empregada que trabalhava para a gente bateu no filho dela e ele a demitiu. Ele só disse uma frase para ela: "Para fora, não quero você mais aqui, eu nunca bati em uma criança e não aceito isso". Não digo que o meu marido era uma pessoa excepcional, porque ninguém é excepcional, mas ele era maravilhoso.

A senhora costuma dar conselhos para os filhos, netos e bisnetos?
Dou conselho para todos, até para meus bisnetos. Tenho um bisneto de 23 anos e ele me ouve atentamente, estou velha demais (sorri ao completar a frase).

O que a senhora mais gosta de comer?
Sempre comi pouco, mas adoro uma feijoada, moqueca de arraia, feijão de leite. Nunca comi muito, a minha alimentação é apenas o suficiente para ter uma vida regrada.

A senhora ainda vai para a cozinha preparar algum prato especial?
Não, mas já cozinhei por quase 80 anos. Todo o trabalho que você imaginar relacionado a uma casa, já fiz. Criei oito filhos, lavei muita roupa, cozinhei, fazia as compras de casa, inspecionava tudo o que era relacionado a eles (os filhos).

A senhora sente orgulho de seus filhos?
Tenho felicidade porque todos, sem exceção, são muito felizes. Agora, tenho orgulho do que eu deixei para todos, porque eu os ensinei que a humildade e a simplicidade devem ser as principais características da vida. E isso todos aprenderam muito bem.

Eu sei que a senhora não gosta de falar, mas dois de seus filhos (Caetano e Maria Bethânia) são mais famosos do que os outros seis. Há alguma diferença de tratamento para eles?
(Sorrindo.) Não, claro que não, o tratamento é sempre igual. E eles (Caetano e Bethânia) são loucos por mim. Há 25 anos, Caetano não vinha à Lavagem de Santo Amaro (festa religiosa realizada no fim de janeiro). Agora, ele veio apenas para me ver.

Caetano Veloso e Maria Bethânia telefonam sempre para a senhora?
Caetano não telefona muito pra mim; não quero mentir por ele, coitado. Caetano não tem tempo, trabalha muito. Agora, Maria Bethânia liga duas vezes por dia, todos os dias, chova ou faça sol. E, quando viaja para o exterior, ela é capaz de gastar todo o dinheiro telefonando para mim. De onde estiver, eu sei que ela vai me telefonar.

A senhora acompanha a carreira deles?
Sempre acompanhei, mas hoje, com a idade, observo mais à distância. Mas, quando podia, viajava com eles. Eu conheço vários países porque Caetano e Maria Bethânia sempre fizeram questão de me levar com eles.

A senhora ouviu o último trabalho do Caetano?
Ouvi, está aqui (aponta para uma gaveta da escrivaninha), é o .

A senhora gostou?
Não faz o meu gênero, porque eu não gosto de batuques. Mas, para quem gosta, para quem entende, para quem compreende o que ele quer dizer, está muito bonito. Porque, quando ele canta, ela fala, ele diz. Quero deixar claro que o trabalho não me desagradou, mas, repito, gosto de uma coisa mais melodiosa.

De qual música do Caetano a senhora mais gosta?
Não identificado. E explico o motivo: ele era tão novo, ainda não se falava em disco voador, e ele já cantava o disco voador.

De qual música dele a senhora não gosta?
Cá Já. Não gosto mesmo.

A senhora gosta de London, London?
Amo esta música, quando a ouvi pela primeira vez, chorei muito. Ele estava exilado (fim da década de 60). Aí, passei por uma casa de discos e perguntei se havia a música. A música era cantada por Gal Costa. Eu pedi para ele colocar o disco e a emoção foi grande, saí chorando da loja (fica emocionada ao lembrar desse fato).

Qual a música que a senhora mais gosta de ver Maria Bethânia interpretar?
Para mim, Bethânia dá vida a tudo o que canta. Eu não entendo de música, apenas ouço. Agora, para mim, Brasileirinho é o melhor trabalho dela, o melhor show depois de A Rosa dos Ventos.

A senhora tem uma memória fantástica, lembra de tudo.
(Sorrindo.) Claro, eu ainda não morri.

A senhora tem o hábito de ver novelas, acompanhar o noticiário pela televisão?
Não, o noticiário hoje só tem infelicidade, perversidade, maldade e o coração de velho não agüenta essas coisas. Pela manhã, vejo programas culinários. Novela não acompanho porque todas são completamente iguais.

Qual o santo de sua devoção?
Veja aí (aponta para o santuário colocado em uma estante). Os meus santos de devoção são Nossa Senhora da Purificação e Santo Antônio. O Banco do Brasil me deu um Santo Antônio do século 18, veja como é lindo (mostra novamente). Nunca comprei santos, sempre ganhei de presente.

E nas orações que a senhora faz, o que pede para o Brasil e para os seus filhos?
Peço paz para o Brasil, as coisas estão muito embaralhadas no país. E, se houver compreensão, já é um avanço.

Além da senhora, duas personalidades brasileiras fazem 100 anos em 2007: o arquiteto Oscar Niemeyer e a atriz Dercy Gonçalves. A senhora os conhece?
Pessoalmente, não. Conheço pela obras, Niemeyer fez muita coisa bonita. E sempre achei Dercy Gonçalves muito engraçada, apesar das maluquices que fala.

Que conselhos a senhora dá àqueles que querem chegar aos 100 anos?
Saber viver.

E o que é saber viver?
Não levar tudo à ponta de faca. Muitas vezes, as pessoas se exaltam e terminam amizades por causa de uma simples troca de palavras.

Há quanto tempo a senhora está viúva? A senhora sente muita saudade do Zeca?
Faz quase 24 anos que ele morreu. Claro que sinto muita saudade, porque ele era uma pessoa maravilhosa, trabalhou 40 anos nos Correios, sem criar uma inimizade.

Caetano herdou mais a personalidade da senhora ou do pai?
Nem a minha, nem a dele. Caetano tem uma personalidade diferente, ele é mais fechado.

Que presente a senhora gostaria de ganhar nos 100 anos?
Para mim, para que mais? Cem anos é uma vida.

A senhora gosta de dar palpites nas coisas da casa?
Claro. Dou ordens a todos os meus funcionários. Dou ordens para todos porque não morri (sorri). 


''Hoje ninguém cria os filhos como antigamente. A liberdade é muito grande''

DEVOÇÃO
No quarto, simplicidade, imagens e objetos religiosos

LEMBRANÇA
As fotos de dona Canô e do marido, Zeca, com quem foi casada durante 53 anos

RELIGIOSIDADE
Um altar improvisado com dezenas de santos, na frente do qual ela reza todos os días

HOMENAGEM
A agência do Banco do Brasil faz referência à filha mais querida de Santo Amaro









15/09/2007

Dona Canô faz 100 anos neste domingo

Elói Corrêa | Agência A Tarde


Em clima de preparativos para sua festa de aniversário, Dona Canô esbanja vitalidade e alegria

Mary Weinstein, do A Tarde

Neste domingo será comemorado o centenário de nascimento de Dona Canô, na prática, já vem acontecendo o ano inteiro. “Todo 16 de cada mês”, diz Mabel, filha da aniversariante. A cidade onde ela nasceu e cresceu está pronta e se duvidar tem até alvorada com foguetes.

“Aqui é a terra dos cem”, contabiliza Neide Cerqueira, 77, que costurou muito tempo para a aniversariante. Atualmente, é a filha dela quem está bordando um vestido, que Rodrigo, outro filho de Canô, disse que era para botar mais contas. O pano é um brocado. Então, “tem Dona Chica com 102; Dona Domingas, que mora no Trapiche, também com 102; Zezinho Belmont é 103 ou 104; a avó de Rose, que todo mundo conhece por Voinha, também tem 100; Luizinha Pedrosa, que também fez 100 anos, no dia 16 de agosto".

Em meio a muita gente e muitos carros nas ruas de Santo Amaro, a 72 quilômetros de Salvador, os paralelepípedos da frente da morada dos Velloso foram consertados essa semana pela prefeitura porque estavam empoçando muita água.

"A cômoda foi de mamãe. Essa peça foi de meu irmão. Tem a mesa que foi de minha madrinha. É que a pessoa morre, não tem parente, eu sobrei, então eles me dão", explica, sentada no quarto cheio de santos e santas, que ninguém nunca contou quantos são. ”Quem sabe?” diz Rodrigo. "Aqui a decoração é a devoção", diz Mabel.

Na sala, tem uma cristaleira recheada de copos bonitos e uma peça onde botaram os doces que sobraram da festa que a comissão da Igreja fez de surpresa, terça-feira.


Foto: Maria Sampaio


Dona Canô conta: "Eu vinha chegando e vi a rua cheia de gente, fiquei até preocupada. Era uma seresta e foi bonito, mesmo. Paizinho é um senhor que toca sax, mas um sax do tempo que era muito bom. Ele toca cada valsa, cada bolero, e depois eu pedi samba".

A dança foi para dentro de casa até às 10h30 e foi com Roberto, outro filho, que aconteceu um diálogo ótimo: ”Ela dançou com os filhos e quando chegou a minha vez, lá pelas tantas, ouço um ‘você está parado’. Eu, tendo cuidado, e ela diz isso...(gargalhadas)“.

Os doces caseiros à base de ovos que os amigos trouxeram eram realmente deliciosos, isso deu para constatar. Agora, o bolo branco com um coreto em cima ela não deixou cortar porque se não Caetano e Bethânia não iam ver. 

Coreto era uma coisa que Dona Canô gostava muito e tinha recebido a promessa de ACM, que quando ela chegasse aos 100 anos, estaria refeito na Praça da Purificação que ela freqüentou muito com a família toda. Isso não pôde acontecer.

Sobre o patrimônio de Santo Amaro, ela diz que os poucos sobrados que restaram estão acabados. ”Prédios enormes, com três andares, com gradis na janela. Hoje tem grade por causa de ladrão. Antes era para enfeitar“, indigna-se, sem impaciência.

"Quando eu era moço, não havia esse interesse (de cuidar): em Salvador e nas cidades do Recôncavo o desejo era de se livrar da velharia dos sobrados e coretos. Santo Amaro foi quase totalmente desfigurada pela vitalidade cafona dos novos operários da Petrobras, no início dos anos 60. E pela estupidez de alguns prefeitos", disse Caetano Veloso que deve ter puxado a Dona Canô nesse jeito de dizer as coisas sem subterfúgios. Ela diz, mesmo.

”Qual é o meu valor para estar recebendo essas homenagens? Lá na Câmara de Vereadores (de Salvador) eu perguntei isso“, conta Dona Canô, sentada em uma cadeira no seu quarto. Ela mostra os suportes onde faz fisioterapia e se queixa que não está com mobilidade e que fica dependendo da ajuda das pessoas. ”Hoje, eu sou dependente. Eu, que fiz tudo na minha vida, todo trabalho de casa. Não faço mais crochê. Doce, ninguém fazia para mim. Eu fazia paneladas de doce de laranja. Hoje, não descasco nem uma“, chateia-se. Mas ninguém acredita quando ela faz uma rotação do próprio corpo em torno do seu eixo para atender ao telefone que está no criado mudo, logo atrás. E a conversa se desenvolve com animação e códigos particulares. A interlocutora é tratada de Iáiá com reciprocidade.

Isso sem falar na memória de Dona Canô que a faz lembrar com detalhes de vários episódios. ”Aquela foto (do disco Muito, de Caetano, de 1978) foi em um show de Bethânia, no Rio. Eu fui para o camarim e ele entrou, se ajoelhou, e botou a cabeça no meu colo. O fotógrafo tirou o retrato. Até hoje, ele chega e bota a cabeça no meu colo“, conta. Segundo Dona Canô, ele nem viu a hora em que o fotógrafo mirou. Quando o rapaz ligou para ele, acho que ele achou bonito”, conta ela.

“A união é a coisa que mais me agrada. Ainda respeitam a família“, fala Dona Canô sobre todos os filhos, que são apaixonadas e obedientes a ela.

A figura mais importante no aniversário de Dona Canô é a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que foi trazida de São Paulo, especialmente pelo padre Josafá Morais: ”ah, minha filha, são as amizades“. Dona Canô ficou amiga do padre quando Bethânia cantou lá em Aparecida. E fala, também, da fidelidade que tem com os amigos.

A imagem vai ficar exposta para visitação até as 17 horas deste domingo, quando haverá a Missa das Crianças. Dona Canô quer toda a família entrando junto na Igreja.

”Eu já disse: quem disser, ah, tô mudando a roupa, vai ficar aí (rs)“. O roteiro da missa está todo na cabeça. Caetano vai repetir o ofertório que ele fez para ela aos 90 anos, porque dessa vez não deu para compor - ela mesmo explica. Bethânia vai cantar a Ave Maria que Caetano fez.

MÃE
(Caetano Veloso)

Palavras, calas, nada fiz
Estou tão infeliz
Falasses, desses, visses não
Imensa solidão
Eu sou um Rei que não tem fim
E brilhas dentro aqui
Guitarras, salas, vento, chão
Que dor no coração
Cidades, mares, povo, Rio
Ninguém me tem amor
Cigarras, camas, colos, ninhos
Um pouco de calor
Eu sou um homem tão sozinho
Mas brilhas no que sou
E o teu caminho e o meu caminho
É um nem vais nem vou
Meninos, ondas, becos, mãe
E só porque não estais
És para mim e nada mais
Na boca das manhãs
Sou triste, quase um bicho triste
E brilhas mesmo assim
Eu canto, grito, corro, rio
E nunca chego a ti







2007
Revista Tpm # 69

Setembro




Retratos: Christian Cravo








Cem anos sem solidão
Patrimônio histórico da Bahia, ela garante que não sabe por que é tão querida e respeitada. Na entrevista que você lê a seguir, descobre o que Claudionor Viana Telles Velloso tem de tão encantador


por Renata Leão
10/09/2007
Tpm #69

Em setembro, a mãe de Caetano e de Maria Bethânia faz 100 anos. Chega ao centenário não só com saúde, mas cheia de bom humor e leveza. Além dos filhos famosos, ela é mãe de muita gente: outros seis rebentos, nove netos e cinco bisnetos, além de amigos e vizinhos que não dão um passo sem a bênção de dona Canô. Patrimônio histórico da Bahia, ela garante que não sabe por que é tão querida e respeitada. Na entrevista que você lê a seguir, descobre o que Claudionor Viana Telles Velloso tem de tão encantador.




São oito da manhã de uma quinta-feira de agosto e dona Canô, como faz todos os dias, está concentrada em seu quarto. Assiste à missa de Nossa Senhora e nada tira seus pequenos olhos da direção da TV. Um oratório com santos que vão além da Bahia de todos eles e uma prateleira cheia de anjos de porcelana decoram o ambiente. Não se pode atrapalhar dona Canô na hora de sua sagrada cerimônia, tampouco seria educado.

Enquanto espero na sala, acompanho a movimentação de seu filho Rodrigo, 72, no telefone sem fio. “Sim, estou falando da Bahia, a encomenda é para cá.” Ele produz a festa de 100 anos de sua mãe, que acontece dia 16 de setembro.“Será um grande dia. Começa com uma missa, depois um café-da-manhã na praça e o caruru no hotel da cidade”, explica o tecelão, quarto filho de dona Canô – antes dele vieram Nicinha, Clara Maria e Maria Isabel; depois, Roberto José, Caetano Emanuel, Maria Bethânia e Irene. Oito ao todo. A primeira e a última, adotadas. 

Os outros, nascidos do ventre, em casa, de parto normal. “E sem parteira. Pari os seis sozinha, com a ajuda de minha mãe e de minha sogra”, revelaria mais tarde a matriarca.


Foto: Christian Cravo

Vestido, brincos e água-de-colônia
Na cozinha da casa, panelas bem velhinhas no fogão, daquelas que fazem comida da melhor qualidade. São manuseadas por Isaura, 69 anos, 50 deles com dona Canô, e Odília, 62, há 24 empregada da família. Me oferecem suco de cajá e café, enquanto preparam a moqueca de arraia do almoço. “Dona Canô mais Bethânia são umas jóias, sempre alegres, sem estresse”, conta Isaura. “A família toda é assim, tudo gente boa.” A casa, de portas abertas, é um entra-e-sai constante. Vizinhos e amigos que vêm para assuntar e ver o tempo passar são sempre bem-vindos.
Dona Canô mandou chamar. Na hora das fotos, faz questão de escolher o vestido e os brincos – “Quero os dourados, de anjos!” – que vai usar. Antes do primeiro clique, um detalhe fundamental: água-de-colônia.“ Mas das fracas, para não aperrear o bebê da repórter, que está grávida”, pede.
Devidamente fotografada, ela toma seu café e se acomoda na sala para falar das coisas felizes e tristes dos seus 100 anos de vida sem se exaltar. Mostra que, justamente por não se exaltar, chegou aonde chegou com tamanha saúde e bom humor.
A conversa, permeada por causos e piadas, é interrompida várias vezes pelo movimento das visitas e pelo telefone que toca. Ela atende. “Vou querer três ônibus. O povo aqui de Santo Amaro quer ir para prestigiar”, diz, em conversa com a organizadora do prêmio que receberia no dia seguinte, a Comenda Maria Quitéria, a maior honraria que o governo baiano concede a alguém. “Por que a senhora é tão querida?”, pergunto. “Não sei, minha filha. O que eu fiz da vida? Criei meus filhos e cuidei da minha família.”Com vocês, a sabedoria e a simplicidade de dona Canô.


Tpm. Todo dia é esse movimento aqui na sua casa? Dona Canô. Sim. Tenho muitos amigos, nasci e me criei aqui. Mas essa bagunça é só até meio-dia. Depois encerro, vou almoçar e descansar. Senão, não agüento.


Eu não acho que exista amor. Há compreensão e amizade.”
Dona Canô

Como é sua rotina? Acordava cedo por causa dos meninos e até hoje, às 5h estou acordada. Fico deitada um bocadinho, aí me levanto pra fazer nada [risos].Vejo a missa de Nossa Senhora até umas 9h, tomo meu café. Aí começa a aparecer visita de todo lado. Converso com todo mundo e, ao meio-dia, almoço. Depois cochilo. À tarde tomo banho, café, faço minhas orações e assisto TV.
A senhora é muito religiosa, né? Rezo todos os dias. Você já viu meus santos?
Tenho muitas imagens, mas não rezo para cada uma. Agora, para Nossa
Senhora da Purificação, minha mãe, rezo quase toda hora, pedindo por meus filhos.

Com esse movimento em sua casa dá pra ver que a senhora tem muitos filhos além dos seus. Ah, tenho. Faço o que posso pelo povo daqui.

E como a senhora virou essa pessoa tão influente, tão amada aqui na Bahia? Não sei. Sempre que recebo uma homenagem me pergunto: “Por que, meu Deus, o que foi que eu fiz?”. Muito disso acontece por causa de Bethânia e de Caetano. Se eles não existissem eu estava existindo? Não. Eles que levaram meu nome porque não negam que nasceram em Santo Amaro da Purificação.

E o que a senhora fez? Criei meus filhos e vivi cuidando da minha família.

As meninas da cozinha me contaram que foi a senhora quem ensinou tudo a elas. Verdade? Sim. Isaura trabalha aqui há 50 anos. Quando chegou, não sabia nada, eu que ensinei porque sempre soube cozinhar, minha mãe me ensinou desde menina.

Sua mãe não só te ensinou a cozinhar, mas criou a senhora e seus dois irmãos sozinha? Foi. Conheci meu pai já velho, perto de morrer. Quando ele ficou doente, mandou chamar e fui vê-lo em Salvador. Mas era pequena e tive medo, porque ele era muito barbudo. Logo depois morreu. Minha mãe morreu com 82 anos, aqui nesta casa.

E seus irmãos, ainda estão vivos? Tudo já morreu. Almir com 98 anos e Geni com 91.

Vocês foram educados num colégio de freiras? Na Sacramentinas, aqui em Santo Amaro. Tinha que aprender francês, tinha aula de piano com uma professora alemã, e também aula de costura. Escola rígida, tinha fardamento completo, hora de chegar, hora de sair. Nessa época a gente se educava.

A senhora ainda tem amigas dessa época? A vizinha aqui, que vai fazer 100 para o ano. Tem outra em Salvador com 99 anos. Marieta já morreu [diz, apontando para um retrato na parede], Cininha também. Muitas já morreram.

A senhora sente tristeza quando vê que a maioria das suas amigas já morreu? Não entendo em que sentido você fala dessa tristeza. Não sinto, não. É a vida. Zeca [seu marido], por exemplo, nunca pensou em velhice, não. Mesmo quando ficou doente, nunca se entregou.

“Viver é muito bom, mas saber viver é melhor ainda”
Dona Canô

Com quantos anos ele ficou doente? Teve um câncer com 73 anos. Levou dez se tratando e morreu com 83. Ficamos casados por 53 anos.
53 é tempo. E hoje é raríssimo um casal passar a vida junto. Por quê? Porque cada um quer ser de um jeito. Eu fiquei com o Zé tanto tempo porque era muito bom e porque eu me habituei a ser como ele e pronto. Vivemos todos esses anos muito bem.

Como é que namorava nessa época? Normal. Hoje o namoro é tão... tão rápido. Eu levei um ano e meio namorando. Depois a gente apressou o casamento porque Zé tinha que viajar pois foi transferido. O irmão mais velho dele preparou os papéis e a gente casou na igreja lá de baixo, de Nossa Senhora do Rosário. Eu tinha 23 anos e ele, 29.

E a senhora foi morar na casa da família dele? Sim, com 24 pessoas [risos].

Como fez para conviver com 24 pessoas? Morei lá durante anos sem o menor problema. Sabe, minha filha, quem quer viver procura viver. Foi o que me aconteceu. Eu queria viver com o meu marido, passando o que ele passava de bom e de ruim. Zeca não podia se afastar da família porque ele e a irmã sustentavam todo mundo. Até hoje o que resta da família de Zeca é amigo. Depois ele alugou um sobrado e a gente mudou.

Quando se mudaram, já tinham filhos? Ainda não.

Quem é a sua primeira filha? Clara Maria.

E depois de Clara? Mabel, depois Rodrigo, Roberto, Caetano e Maria Bethânia.

E depois? É, peraí... Rodrigo, Roberto, Caetano, Maria Bethânia, Clara, Mabel, quem falta?

Irene? Irene é depois. Irene chegou depois, quando já estavam todos crescidos.

Nicinha? Nicinha é a mais velha de todos, tem 77 anos.

Nicinha é filha de criação? Sim, é adotiva.

Como é a história de Nicinha? Aconteceu que ela nasceu de um susto que a mãe dela tomou quando estava grávida. A parede da casa caiu e a menina nasceu com sete meses, pequetitica, uma coisinha de nada. Marininha, uma das sobrinhas de Zeca, trazia a criança pra casa, levava toda noite pra dormir, tornava a trazer de manhã. Ficamos apegados a ela. Ainda não tínhamos filhos. Foi Nicinha que levou nossas alianças no casamento. Hoje ela é a camareira de Bethânia.
E a mais nova, Irene, também é adotada? A Irene também é adotada. E foi uma coisa pior. A mãe dela morreu de parto, com tétano, sete dias depois de dar à luz. O pai, de uma família daqui de Santo Amaro, enlouqueceu, e a gente ficou com a criança.

No filme do Andrucha [Pedrinha de Aruanda, sobre Bethânia, que será lançado este mês], a senhora diz que gosta dos seus filhos porque simplesmente são bons filhos. Ah, minha filha, eles são filhos bons mesmo. A outra [Bethânia] já telefonou, telefona duas vezes por dia. Caetano, não. Não tem tempo, passa viajando e não é de telefone. Falei com ele esta semana, no seu aniversário [dia 07/o8]. Disse que mandei celebrar missa e ele ficou muito contente, disse: “Ah, minha mãe, que bom”. Ele não pôde vir porque estava no Peru.


Cortando o bolo de seus 99 anos - Crédito: Acervo pessoal

Bethânia é muito apegada à senhora? Muito. Apesar de morar longe, se eu disser que meu pé doeu, ela fica doida.

Nenhum dos seus outros filhos é artista. De onde surgiram os dons do Caetano e da Bethânia? Eu representei muito quando era moça. Muitas peças, tudo de Oduvaldo Vianna, o pai. Maria Stuart, a vida de Maria Stuart, o nascimento de Jesus. Fora os bailados, os reis, as cantorias de presépio. Baile pastoril a gente fazia todo ano.

E a senhora gostava? Oxe, a vida da gente era uma alegria! Todo mundo ficava unido pra fazer essas artes, não tinha briga, nada.


E, quando Bethânia começou a dizer que queria ser artista, o que a senhora falava? Dizia: “Minha filha, não queira não. Porque, quando começarem as exigências pra você repetir, você não vai gostar”. Ela cantava o dia inteiro, tudo o que ouvia. Caetano e ela. Caetano tinha uma facilidade incrível pra aprender as músicas.

A senhora que cantava pra eles? Cantava. Cantei tudo. Um dia, na televisão, na época dos festivais, perguntaram como é que ele sabia tanta música velha. “Minha mãe que me ensinou”, disse. Eles sentavam no meu colo, pequenininhos, e eu ficava cantando pra eles. É... foi uma vida boa.

Como foi a saída da Bethânia de Santo Amaro para o Rio? Aquela menina, a Nara Leão, adoeceu da garganta e alguém perguntou quem ela queria pra substituí-la. Ela mandou buscar Bethânia na Bahia. Aí [a atriz baiana] Nilda Spencer telefonou em casa pra fazer o convite e eu disse: “O que é isso? Bethânia tem 17 anos, não vai sair daqui, não vou deixar”. Zeca achou que era trote. Outro telefonema e Nilda diz: “Não é trote, não, é pra Maria Bethânia substituir Nara”. Eu digo: “Mas, Zeca, com que competência Bethânia pode substituir Nara?”. Nara era uma cantora famosa, de fato uma cantora boa. E minha filha ia pra lá, uma menina do interior. Zeca e eu não podíamos acompanhá-la. Aí Caetano, que já conhecia o Rio, disse: “Eu levo Bethânia, meu pai. Deixe comigo, não tem nada, não”. Aí, depois de um tempo nós fomos assistir [ao espetáculo Opinião, em 1965].

Foram até o Rio? Fomos. Rodrigo, Zeca e eu. Foi a primeira vez que saímos da Bahia e viajamos de ônibus. O show foi aquela coisa de loucura, quando ela entrou no palco o público se pôs a gritar – é assim até hoje. Foi assim que ela se foi. Nara Leão se lembrou que uma vez tinha ouvido uma menina em Salvador.

Como foi quando a senhora viu que ela tinha talento e que ia dar certo? Talento? Nunca pensei nisso, não. Achei que ela fazia com a maior naturalidade do mundo, não se esforçava pra fazer. Então vi que ela tinha o dom e uma voz que até hoje não teve igual.Até hoje tem tido muitas cantoras, mas nunca vi nenhuma cantar como a Bethânia. A voz grave que, no colégio, a impedia de participar do coral porque diziam que ela tinha voz feia, grossa.

Quais cantoras a senhora gosta de ouvir? Gosto de Alcione, ela tem uma capacidade muito grande de cantar. Gosto muito de Gal, que cresceu com Gil, Caetano e Bethânia, tem uma voz linda a Gal.

E Caetano, quando a senhora percebeu que seu filho era um artista? Caetano começou com essa coisa de tomar parte naqueles festivais. Em todos ele ganhava. Mas não esperava que ele fosse chegar ao que é, não. Aí é o dom dele também, a inteligência. Ele tinha uma facilidade grande de aprender música, de tocar piano. Menino de tudo, chegava da aula de piano e, o que aprendia lá, transformava em bolero e em samba aqui em casa. Até música clássica ele transformava em bolero.

Isso menino? Pequeno, meu Deus. Com 8 anos de idade. Todos os meus filhos começaram a aprender música pequenos, só quem não aprendeu foi Rodrigo e Mabel. Nicinha toca até hoje.

A senhora sofreu muito quando Caetano foi preso na época da ditadura e teve que se exilar em Londres? Ave-Maria, não gosto nem de lembrar. Foram dois anos e meio de sofrimento. Primeiro, os 55 dias que ele ficou preso no Rio, sem eu poder visitar. Depois o tempo em Londres.


Como a senhora ficou sabendo que ele foi preso? Dona Vangri, sogra de Caetano, mãe de Dedé, telefonou no dia 31 de dezembro de 1968. A gente em casa, assim alegre, e ela dizendo que Caetano e Gil tinham sido presos. Depois soubemos que ele tinha cantado em palavras obscenas o hino nacional. Olha a cabeça de Caetano pra fazer uma coisa dessa... Veja, esse foi o crime que ele cometeu. E depois resolveram incriminá-lo por “Alegria, Alegria”, que ninguém se conformou. Aí ele foi para Londres e ficou compondo, fez muita amizade. Roberto Carlos foi visitar ele, outros cantores também, ele não se sentiu muito só.

E a senhora aqui no Brasil, com saudades dele... Aqui eu só fazia rezar. Também o que pude fazer pra ele voltar eu fiz. Teve uma cartomante que me disse: “Olha, dona Canô, ele está preso, mas vai voltar. E eu vou dizer uma coisa à senhora, grave bem: as televisões que foram contra Caetano vão tocar fogo. Então um dia soubemos que uma emissora grande tinha pegado fogo e outra menor também... [em 1969, houve incêndios em quatro emissoras: a Record, a Excelsior, a Globo e a Bandeirantes].

E Zeca, como ele lidava com Caetano exilado? Sofria. Um dia Chico Anysio telefonou dizendo que dava uma passagem pra Zeca ir ver Caetano em Londres. Ele disse: “Não vou, não posso ver meu filho exilado”. Aí mandou Rodrigo. Por isso gosto tanto de Chico Anysio. Caetano pediu que Rodrigo levasse tudo aqui de Santo Amaro, farinha, feijão... Depois que ele voltou, eu fazia os pacotes e mandava por correio. A mãe de Dedé mandava também.

Vocês são amigas até hoje? Muito, dona Vangri tem muita coisa comigo e eu com ela. O pai de Dedé era muito amigo de Zeca também.

A senhora disse, em uma entrevista na Folha de S.Paulo, que Caetano não sabe nada de mulher. Como é que é isso? Ah, ele teve uma mulher maravilhosa, Dedé. Agora Paulinha não posso dizer, não posso julgar. Não me meto nem nunca me meti na vida deles. Nem procurei saber o porquê da separação. Eles decidiram, não dei opinião, porque não podia fazer nada. E continuo assim. Ela vem aqui, eu trato ela muito bem. Hoje as pessoas com um mês de casado já estão se desentendendo. Não agüentam mais elas mesmas e começam a implicar com o outro. Eu não tive nada disso.

E como é que faz pra ser casada durante tanto tempo e ser feliz? A pessoa tem que se empenhar em conviver com o outro. Eu não acho que exista amor. Há compreensão e amizade. Aí, sim, perdura. A pessoa tem que se submeter e aceitar às vezes.

Qual seu segredo para chegar aos 100 anos assim, tão inteira, consciente e bem-humorada? Dentro do possível eu estou muito bem de saúde, mas infelizmente perdi o equilíbrio há dois anos, quando levei uma queda que tirou uma vértebra do lugar. Mas minha cabeça ainda está cheia de miolos. Aprendi a viver sem procurar sair dessa linha que fiz pra mim mesma. Viver é muito bom, mas saber viver é melhor ainda.


Foto: Christian Cravo













2007
Revista ISTOÉ Gente


100 anos de dona Canô

Mais de 12 mil pessoas comemoram centenário da matriarca do clã Veloso, que recebe homenagem da família, de políticos e artistas em Santo Amaro da purificação, na Bahia

TEXTO BIANCA ZARAMELLA

A pequena Santo Amaro da Purificação parou no domingo 16 para comemorar os 100 anos de Dona Canô. Mais de 12 mil pessoas se reuniram na cidade, a 71 km de Salvador, para festejar o aniversário da mãe dos cantores Caetano Veloso e Maria Bethânia. Como ocorre todos os anos, a família fez uma grande festa. Um farto café da manhã foi oferecido em barracas improvisadas na praça principal da cidade e também na residência da matriarca.


As filhas Mabel e Bethânia amparam Dona Canô: “O segredo para chegar aos 100 anos é procurar ser feliz”, diz ela

Segredo
A aniversariante deixou o quarto antes das 8h, acompanhada das filhas Mabel Veloso e Clara Maria e de uma neta. Na sala, amigos e familiares receberam a matriarca com aplausos. Feliz e bem disposta, Dona Canô agradeceu a presença de todos e brindou com uma xícara de café preto. “O segredo para chegar aos 100 anos é procurar ser feliz”, afirmou. Na grande mesa, repleta de quitutes baianos, estavam reunidos os filhos Mabel, Irene, Clara Maria, Roberto, Nicinha, netos, sobrinhos e algumas amigas como Lucya Adães, que recitou um poema para homenagear a data. Caetano e Bethânia não conseguiram chegar a tempo para o café da manhã e seguiram direto para a Igreja Nossa Senhora da Purificação, onde aconteceu a missa celebrada pelo cardeal Geraldo Majella.


Dona Canô acordou antes das 8h para celebrar o aniversario

Emoção
Na companhia dos filhos Zeca, Tom e Moreno, Caetano segurou a mão de Dona Canô na entrada na igreja. “Bênção, minha mãe”, pediu o cantor. A cerimônia contou com a imagem de Nossa Senhora Aparecida – vinda especialmente do interior de São Paulo para a festa – e com uma apresentação de Maria Bethânia. A cantora se emocionou ao interpretar “Maria”, canção criada em homenagem a Dona Canô pelo neto Jota Veloso. Apontada por várias conterrâneas como exemplo de dignidade e bem-viver.


Dona Canô permaneceu firme e forte numa tenda armada em frente à igreja para receber os cumprimentos da população até as 13h30. “Para chegar aos cem anos é preciso ter paciência”, brincou a anfitriã, sempre sorridente. Após a missa todos os convidados seguiram para o Hotel Fazenda do Caeiro, onde foi servido um almoço com o melhor da comida típica baiana. Entre os convidados estavam o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), o ministro da Cultura, Gilberto Gil, o deputado ACM Neto, a cantora Margareth Menezes e a atriz Regina Casé.

Caetano, o filho Tom e o governador Jaques Wagner