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domingo, 13 de septiembre de 2020

1971 - PRONTUÁRIO DE MARIA BETHÂNIA VIANNA TELLES VELOSO


"Está relacionada entre os elementos veiculadores de propaganda de caráter subversivo nos meios artísticos"


[27 de dezembro de 1968]


Pesquisa: Evangelina Maffei


“O período da Ditadura Militar foi terrível. Duas horas da manhã, eles invadiram minha casa. Me levaram para um quartel, depois de rodarem por muitas horas. Fui interrogada até amanhecer. Já tinham presos Caetano e Gil, em São Paulo. Achavam que eu sabia do Vandré. Me prenderam por conta de um livro, escrito em minha homenagem, por Reynaldo Jardim. Eles queriam saber por que este cara escreveu este livro para mim. O livro é um poema lindo. Um gesto de amor. E Reynaldo já tinha sido preso. Eles me mostraram o depoimento dele. Que coincidia com o que eu dizia. Sou uma mulher de palco. Ele, um intelectual, poeta. Quis escrever um poema. E foi publicado. Depois, proibido”.

 


“Aquele foi um período horrível. Caetano e meus amigos, exilados. E, pela dificuldade de ele sobreviver ao exílio, por causa de sua sensibilidade diante da maneira grosseira como isto tudo aconteceu, eu sentia uma dor muito grande. Sofri demais. Meu pai se acabou, neste período. Eu fiquei no Brasil. E a maneira que eu tinha de manter o meu trabalho era receber as canções que eles faziam no exílio. Não só Caetano, mas também os amigos. Aqui, eu cantava para dar alguma notícia deles, mantendo um sentimento por eles. Mas foi o período mais triste que passei em minha vida. Foi horrível. Caetano sofreu demais também”

 [14/6/1992, Maria Bethânia, em entrevista a Marília Gabriela]







14/5/1971 - Pedido de antecedentes

18/5/1971 - Cópia de prontuário

1965/66 - Histórico I

1966/68 - Histórico II

27-12-1968 - Histórico III

Trecho de Programa 

26/7/1971
"c) A marginada é irmã do cantor CAETANO VELOSO"







Programa do show “É um tempo de guerra”

















jueves, 10 de septiembre de 2020

2020 - NARCISO EM FÉRIAS

















HISTORIADOR QUE LOCALIZOU DOSSIÊ CONTRA CAETANO ALERTA QUE HÁ MUITO A SER DESCOBERTO
Lucas Pedretti ressalta que documentos da ditadura estão na internet e aponta 'Narciso em férias' como resultado de conjunção de fatores

Luiz Fernando Vianna
10/09/2020


O historiador Lucas Pedretti, que localizou o dossiê que a ditadura militar usou para prender Caetano Veloso - Foto: Bira Soares / Divulgação

Foi o historiador Lucas Pedretti quem localizou o dossiê que a ditadura militar utilizou para prender Caetano Veloso, em dezembro de 1968. A documentação funcionou como ponto de partida para o filme “Narciso em férias”, disponível no Globoplay. O compositor recorda, aos diretores Renato Terra e Ricardo Calil, os 54 dias que passou em diferentes quartéis do Rio de Janeiro.

Embora reconheça a importância histórica de seu achado, Pedretti credita a descoberta e o alcance que ele tomou a um conjunto de fatores, a começar pelo acaso.

Ele pesquisava no acervo digital do Arquivo Nacional (no site Memórias Reveladas) para sua dissertação de mestrado na PUC-Rio, sobre a perseguição promovida pela ditadura aos bailes de música soul. Encontrou citações a Gilberto Gil e acabou chegando, em abril de 2018, à prisão dos dois artistas baianos. Gil e Caetano foram detidos juntos em São Paulo, em 27 de dezembro, e libertados na quarta-feira de cinzas de 1969.

A companheira de Pedretti, Virna Plastino, fez doutorado em antropologia, no Museu Nacional (UFRJ), com Clara Flaksman, mulher de Moreno Veloso, filho de Caetano. Foi graças a essas relações que o dossiê de cerca de 180 páginas chegou até o compositor.

“Quando eu me deparei com o material, percebi que era algo quente. Mas achava possível que Caetano conhecesse”, conta o historiador, de 27 anos. “Virou um fator em meio a uma convergência de coisas que levaram ao filme. Caetano já pretendia publicar o capítulo ‘Narciso em férias’, do ‘Verdade tropical’, em separado. E Paula Lavigne [mulher e empresária do artista] tem dito que o contexto eleitoral de 2018 pesou na decisão.”


O historiador Lucas Pedretti, de 27 anos - Foto: Bira Soares / Divulgação

O favoritismo de Jair Bolsonaro, um apologista da ditadura, sua vitória em outubro e, de lá para cá, seus atos como presidente tornam fundamental a revisão daquele período, exaltado por parte da população. O “processo” – como se costuma dizer – que levou Caetano à prisão é, na verdade, uma reunião de informações esparsas, boa parte tiradas de notícias de jornal. Órgãos da repressão como o SNI (Serviço Nacional de Informações) interpretavam as notícias de modo a “incriminar” o compositor.


“Na lógica dos regimes autoritários, primeiro vai-se contra o alvo, depois buscam-se as provas”, afirma Pedretti. Ele assessorou a Comissão Estadual da Verdade, que investigou, entre 2013 e 2015, violações de direitos humanos ocorridas no Rio durante o regime militar.

Numa página do prontuário de Caetano, ele é “relacionado entre os elementos divulgadores de propaganda de caráter subversivo” por causa, especialmente, da música “Che”. O detalhe é que ele nunca compôs nada com esse título. Pode ter sido uma alusão a “Soy loco por ti, América”, que Caetano gravou, mas cujos autores são Gilberto Gil e Capinan.

“Na melhor das hipóteses, foi burrice. Na pior, foi mentira mesmo”, diz Pedretti.

Ele afirma ser um engano fazer, em regimes autoritários, uma separação entre repressão política e censura moral, dando a esta certo tom anedótico, por causa dos lances de estupidez.

“O projeto moral é tão ou mais importante do que o político e o econômico. Bolsonaro pode abraçar qualquer agenda econômica, mas não vai mudar uma linha da sua visão moral.”


Parte do dossiê que a ditadura militar usou para prender Caetano Veloso
Foto: Reprodução

No filme, Caetano relata conversa com um capitão do Exército que o apontava como mais perigoso do que os autores de canções de protesto. O cantor pretenderia mudar a situação do país “por dentro”, pelos costumes, não pelo confronto político explícito. O capitão estava preocupado com o que hoje a direita chama de “marxismo cultural”.

Pedretti desmistifica a ideia de “documentos secretos”. O que os órgãos estatais produziram durante a ditadura vem sendo digitalizado e está disponível no Sistema de Informações do Arquivo Nacional. O historiador pesquisava no fundo documental do Conselho de Segurança Nacional quando encontrou o dossiê de Caetano. Em 2011, com a Lei de Acesso à Informação, ficou mais viável ter acesso a documentos.

“Quantas reportagens e quantos filmes não estão à espera de serem feitos a partir de documentos que podem ser pesquisados pela internet?”, diz Pedretti, que agora cursa doutorado em sociologia na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

Desconhecidos são, sim, os materiais do CIE (Centro de Informações do Exército), do Cenimar (Centro de Informações da Marinha) e do Cisa (Centro de Informações da Aeronática). As Forças Armadas alegam que tudo foi destruído, mas, por vezes, aparecem pedaços dessas documentações decisivas para se saber mais sobre prisões, torturas, desaparecimentos e assassinados perpetrados pela ditadura.


PROCESSO DE
CAETANO EMANOEL VIANA TELES VELOSO
N8. PRO.CSS. 56 1











© 2020 Deutsche Welle


ENTREVISTA


"Temos um governo inimigo das liberdades", diz Caetano Veloso

Em entrevista à DW Brasil, artista fala sobre os 54 dias que passou na prisão durante a ditadura militar, tema do documentário "Narciso em férias", e diz ver uma perspectiva "sombria" para o Brasil sob Bolsonaro.


10/09/2020
Meyre Brito


"Não podemos esquecer que o golpe militar de 1964 foi apoiado por grande parte da população", diz Caetano

Aos 78 anos, Caetano Veloso convida espectadores a mergulharem em algumas de suas mais profundas e dolorosas memórias. Ao assistir ao documentário Narciso em Férias, que estreou na última segunda-feira (07/09) na 77ª edição do Festival de Veneza, experimenta-se a força da narrativa, mas também da linguagem corporal e simbólica do cantor e compositor baiano.

Tudo começou quando Paulinha, como Caetano se refere carinhosamente à companheira Paula Lavigne, teve a ideia de recontar o capítulo Narciso em Férias, do livro de memorias Verdade Tropical, com imagens em movimento. Nesse capítulo, o baiano descreve a temporada que passou no cárcere durante a ditadura militar.

A produtora e empresária Lavigne idealizou o documentário e, para dirigi-lo, convidou Renato Terra, que repetiu a parceria com Ricardo Calil, iniciada no longa Uma Noite em 67. "Nesse momento do país, sinto que o filme entra como um sopro de afeto, de esperança, de força e de clareza", diz Terra à DW Brasil.

Os dois diretores optaram por um formato minimalista, no qual cada detalhe ganha relevância: os silêncios, as pausas, as inflexões de Caetano. "Tiramos imagens de arquivo, tiramos entrevistas, tiramos trilha sonora, tiramos qualquer efeito de câmera", explica Terra.

No longa, com 83 minutos de duração e também disponibilizado no Globoplay, Caetano aparece numa sala cinza vazia da Cidade das Artes, espaço cultural inacabado no Rio de Janeiro. Ele está sentado em uma cadeira e algumas vezes, poucas, pega o violão e canta.

"O Antônio Prata me disse que, ao ver o filme, a experiência dele foi muito melhor assim, porque foi completando o que Caetano estava dizendo com as imagens da cabeça dele. É como um filme de terror, por exemplo, que fica muito mais interessante quando você não mostra o monstro. Você só sugere o monstro", diz Terra.

Os 54 dias de encarceramento de Caetano tiveram início em dezembro de 1968, apenas 14 dias depois da emissão do AI-5. Ele e Gilberto Gil fora retirados de suas casas em São Paulo e levados para o Rio de Janeiro por policiais à paisana. Em entrevista à DW Brasil, Caetano relembra os horrores do cárcere: "Eu tinha uma alucinação de que a minha vida era só aquilo. Eu me lembrava das coisas como se elas fossem apenas sonhos."

Sobre o atual momento vivido pelo Brasil, sob o governo do presidente Jair Bolsonaro, Caetano diz que a perspectiva para o país é "sombria". "Temos um governo inimigo das liberdades [...] No médio prazo, a gente olha para frente e não vê uma coisa muito boa."
  

DW Brasil: Como era sua rotina durante os 54 dias em que ficou encarcerado?
Caetano Veloso: Gil e eu fomos levados para o 1º Batalhão de Polícia do Exército, na Tijuca. Na primeira semana, eu fiquei numa solitária. Foi terrível. Dormia no chão, tinha uma privada perto da minha cabeça, um chuveiro por cima da privada e nada mais. Depois de alguns dias, eu estava muito mal da cabeça. Achava que nunca tinha vivido outra coisa, senão aquilo. No fim dessa primeira semana, fomos transferidos, Gil e eu, para um outro quartel (da Polícia do Exército da Vila Militar, no subúrbio de Deodoro), onde eu dividi o xadrez com outros rapazes. Eu num xadrez, e Gil no outro. Só por não estar mais na solitária já era melhor, mas continuava ruim. Não tinha onde dormir, tinha mais gente do que a cela podia comportar, tínhamos que dividir um chuveiro para todos. Por fim, me transferiram para o quartel dos paraquedistas do Exército. Desta vez, eu tinha cama, travesseiro, lençol. Tinha até um banheiro separado.

Você dividia a cela com outros artistas e intelectuais?
Eu não. No xadrez de Gil estavam alguns nomes da cultura brasileira, como o poeta Ferreira Gular, o escritor Antônio Calado, o jornalista e romancista Paulo Francis. Geraldo Vandré era procurado. Os militares tinham um ódio violento dele por causa daquela canção Pra não dizer que não falei das flores, que falava de "soldados armados, amados ou não". Eu estava com líderes estudantis, rapazes vinculados à Igreja Católica, mas de esquerda. O Gil estava numa cela melhor porque tinha diploma, ele podia até ter violão. O sofrimento era grande. A minha mulher [Dedé Gadelha] não sabia onde eu estava. Ninguém da minha família sabia. Eu fui sequestrado, estava desaparecido. E já fazia um mês.



Foto do corte de cabelo feito na prisão foi parar no cartaz do filme "Narciso em férias"

Foi nesse momento que você achou que poderia ser assassinado?
Eu vivi muitos momentos terríveis. No período final da primeira semana nessa solitária que eu descrevi, fiquei muito mal da cabeça. Achei que a vida tinha sido sempre aquilo. Porque eu dormia e acordava, e estava sempre ali. Não via ninguém, não via nem a mim mesmo. O carcereiro colocava café e um pedaço de pão através de uma portinhola. Eu tinha uma alucinação de que a minha vida era só aquilo. Eu me lembrava das coisas como se elas fossem apenas sonhos.

Um dia, quando eu estava no segundo quartel, o tenente chegou com um soldado. Eu me lembro que o soldado me olhava chorando. Ele balançava a cabeça, como se reprovasse aquela situação. Eu pensei: "O que será que vai acontecer?" Lembro-me de meus companheiros de cela assustados. Eles me olhavam com uma cara como se também estivessem se perguntando: "O que será que vai acontecer?" Esse tenente e outros dois outros militares me tiraram da cela. Eles me mandaram andar na frente deles. Eu saí da minha cela bastante tenso. Estávamos em uma vila militar. Quando eu estava andando na frente, eles armados atrás de mim disseram para eu não olhar para trás, e eu pensei: "Vão atirar, vão atirar."
Então um deles me disse: "Vire à direita."Eu fui por um corredor, era o barbeiro. Eles cortaram o meu cabelo, e embora eles estivessem simbolicamente tirando mais um pedaço da minha liberdade, fiquei feliz. Eles tosaram meu cabelo num estilo militar, bem batidinho dos lados [A foto do corte foi parar no cartaz do filme].

Você só compôs uma música na prisão. Em qual momento isso aconteceu?
Foi no terceiro quartel, o dos paraquedistas do Exército. A minha mulher [Dedé], enfim, me encontrou. Ela ficava do lado de fora da grade e, assim, podíamos nos ver. Aí minha cabeça melhorou e fiz uma canção meio de vontade de estar fora, de ser solto para eu ver minha irmã mais nova de novo, que era adolescente e tinha uma risada linda, a Irene. Eu fiz essa música sem violão, sem nada.


"Nesse momento do país, sinto que o filme entra como um sopro de afeto, de esperança", diz o diretor Renato Terra

Este é o momento em que você chora no filme, quando a Dedé vai te visitar?
Eu me emocionei por não lembrar o nome do sargento baiano que facilitou meu encontro com Dedé. Depois, ele acabou sendo preso. Não gosto de falar disso. A gente teve que parar a gravação. Mas é preciso ter coragem de enfrentar o tema.

E como foi quando a Dedé te mostrou a foto do planeta Terra pela primeira vez na cadeia?
Foi estimulante. Dedé foi me visitar e levou a revista Manchete. E tinha as primeiras fotos da Terra tiradas do espaço sideral. Era a primeira vez que a gente via a Terra. Claro, estudávamos na escola que "a Terra é redonda", tinha o globo para olharmos, mas ver uma fotografia da Terra tirada do espaço sideral foi a primeira vez. Aquilo me entusiasmou, fiquei pensando... Isso não está em lugar nenhum, estou contando a você. Eu pensei assim: "Mas a Terra aqui aparece toda redondinha, a gente estudou que ela é achatada nos polos, mas nas fotografias nunca aparece achatada. Mais ou menos dez anos depois fiz uma canção chamada Terra, que começa justamente por causa do fato de eu ter visto as primeiras fotos da Terra, tiradas de fora, de dentro de uma cela: "Quando eu me encontrava preso, na cela de uma cadeia, foi que vi pela primeira vez, as tais fotografias…"

O governo Bolsonaro pode ser comparado ao período da ditadura militar?
Nós temos agora um governo de extrema direita, mas que foi eleito democraticamente. Oficialmente, não temos um governo autoritário. Temos um governo inimigo das liberdades. Eles aparelharam as áreas de cultura, de educação. Eles estão fazendo uma corrosão da situação democrática. Isso é perigoso. Sem falar no total desrespeito pelos cuidados ambientais. É duro, porque estão fazendo uma onda populista para se reelegerem em 2022. A perspectiva é sombria. No médio prazo, a gente olha para frente e não vê uma coisa muito boa, não. Eles ficam lutando contra os princípios da democracia, mas dentro das formalidades da democracia. É tenso.

No golpe militar, não houve opção. Foi um golpe. Agora, os brasileiros escolheram este governo...
Olha, não podemos esquecer que o golpe militar de 1964 foi apoiado por grande parte da população e por toda a imprensa. Por toda a imprensa. Ele foi pedido, rogado, pelo Globo, pela Folha de S.Paulo, pelo Estadão, todo mundo. E teve uma passeata que era "Família com Deus pela liberdade", algo assim, que defendia que estávamos sendo ameaçados pelo comunismo, por causa do governo de João Goulart, que, na prática, era de centro-esquerda. Até alguns intelectuais respeitáveis e adoráveis, como Carlos Drummond de Andrade, chegaram a achar razoável que houvesse um golpe.








1969
Revista Manchete
Rio de Janeiro – 11 de janeiro de 1969
Ano 16 – n° 873













OPINIÃO

Alberto Villas: As seis canções do cárcere de um ‘Narciso em férias’

ALBERTO VILLAS
11 DE SETEMBRO DE 2020


Caetano tocando no documentário "Narciso em Férias" - Créditos: Divulgação


Histórias e lembranças por trás das canções compostas por Caetano em 1969

Caetano Veloso cita seis músicas no seu depoimento a Renato Terra e Ricardo Calil, sobre sua prisão em 1969, duas semanas depois do Ato Institucional número 5. No documentário Narciso em Férias, que foi aplaudido em Veneza no dia 7 de setembro, ele canta três canções e, com dor no coração e uma certa angústia, silencia sobre as outras três.

Canta Irene, a única que fez atrás das grades, quando apertou a saudade da irmã, com então 14 anos de idade. Na gravação original, que abre o disco de capa branca e que leva apenas sua assinatura, Caetano erra no início e deixa o erro no vinil: esqueci. Eu vi que você não estava com cara de quem ia cantar. Eu estava esquecido, quando me lembrei já foi em cima da hora. Ah, meu Deus… ah! Na letra, uma única vontade, a de ir embora daquele lugar: eu quero ir minha gente, eu não sou daqui, eu não tenho nada, quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada.

Canta Terra, a canção que fez, alguns anos depois, e que sua memória o remeteu ao quartel do Exército. Compôs a lembrança de Dedé que levou para ele ver a revista Manchete com as fotos da Terra vista do espaço. Na verdade, um hino ao Planeta Terra: quando eu estava preso na cela de uma cadeia, foi que vi pela primeira vez as tais fotografias, em que apareceres inteira, porém não estava nua e sim coberta de nuvens. É em Terra que ele reconstrói os versos de Paraíba, de Luiz Gonzaga, aquela Paraíba masculino mulher macho sim senhor! Mando um abraço pra ti pequenina como se eu fosse o saudoso poeta e fosses a Paraíba.

Canta Hey Jude, a canção que ouvia na prisão e que lhe dava a sensação de que dias melhores viriam: Ei, Jude, não fique mal, pegue uma canção triste e torne-a melhor. Lembre-se de deixá-la entrar em seu coração, então você pode começar a melhorar as coisas e sempre que você sentir dor. Ei, Jude, vá com calma, não carregue o mundo nos seus ombros.

Caetano não tocou Súplica, sucesso no vozeirão de Orlando Silva, a canção que um velho comunista, companheiro de prisão pedia que ele cantasse: Aço frio de um punhal / Foi o seu adeus para mim / Não crendo na verdade, implorei, pedi / As súplicas morreram num eco em vão / Sofrendo nas paredes frias de um apartamento.

Não cantou também Onde o céu azul é mais azul, uma aquarela brasileira na voz de Francisco Alves, a canção que Caetano tem medo, medo de chorar ao ouvi-la: Eu já encontrei um dia alguém / Que me perguntou assim, iá, iá / O seu Brasil o que é que tem / O seu Brasil onde é que está? / Onde o céu azul é mais azul / E uma cruz de estrelas mostra o sul / Aí, se encontra o meu país / O meu Brasil grande, e tão feliz.

E Caetano não cantou Assum Preto, de Luiz Gonzaga, recuperada pela fatal Gal Costa, outra música que lhe causava uma tristeza profunda; Tudo em vorta é só beleza / Sol de abril e a mata em frô / Mas Assum Preto, cego dos óio / Num vendo a luz, aí, canta de dor / Mas Assum Preto, cego dos óio / Num vendo a luz, aí, canta de dor / Tarvez por ignorança / Ou mardade das pió / Furaro os óio do Assum Preto / Pra ele assim, aí, cantá mió.

Sim, as histórias voltam junto com as canções.




O GLOBO

'Narciso em férias': Caetano foi preso por 'crime' que Noel Rosa cometeu
Grande revelação do filme é que músico foi parar na cadeia pelo simples fato de ser cantor e compositor popular

Hugo Sukman
12/09/2020


Caetano Veloso durante entrevista coletiva sobre seu afastamento
do Festival da Canção em 1968 - Foto: Arquivo / O GLOBO


Caetano Veloso foi preso por um crime que Noel Rosa cometeu. Ou seja, um crime praticado pela música brasileira, que pelo visto ainda não prescrevera em 1969, embora ocorrido em 1929.

“— Noel, há umas coisas aqui que não estão me agradando: ‘Agora vou mudar minha conduta...’ Repete isso.

Noel obedece.

— Essa música não pode ser publicada — interrompe Homero.

— Por que não?

— Porque isso não é samba, é o Hino Nacional Brasileiro. Os homens da censura não vão deixar. Além de proibir, podem até te prender. Não é permitido fazer brincadeiras com o Hino Nacional.

Depois de breve silêncio, Noel indaga, meio assustado:

— E agora?”


O flagrante do “crime” é reproduzido com detalhes por Carlos Didier e João Máximo em “Noel Rosa, uma biografia” a partir de descrições das testemunhas que estavam na casa da Rua Torres Homem, em Vila Isabel, naquela tarde do fim de 1929 — os compositores Braguinha e Almirante e o próprio maestro Homero Dornellas, que passava para a pauta o samba “Com que roupa?”, que Noel queria gravar para o carnaval de 30. Ajudado pelo maestro, depois do susto Noel alterou as notas iniciais do samba, que só seria gravado no ano seguinte, com imenso sucesso no carnaval de 31 e o crime de subverter o Hino devidamente ocultado (na prática, não no espírito).


O músico Noel Rosa, que costumava parodirar o Hino Nacional
Foto: Arquivo / O GLOBO

Quarenta anos depois, também na Zona Norte, no batalhão de paraquedistas em Deodoro, quando se encontrava preso na cela de uma cadeia sem saber bem por quê, como se fosse Noel num flagrante tardio, Caetano é submetido ao interrogatório por um tal major Hilton: “Perguntado se sabe cantar o Hino Nacional responde que sim (...). Perguntado se sabe cantar ‘Tropicália’, responde que ‘sei’ porque é o autor e cantor dessa música. Perguntado se sabe cantar o Hino Nacional com a melodia da Tropicália responde ‘é impossível porque os versos do Hino Nacional são decassílabos e os versos de ‘Tropicália’ têm oito sílabas poéticas’.”

Noel nunca teria esse álibi: basta cantar a letra do “Com que roupa?” na melodia do Hino Nacional que se vê como cabe perfeitamente. Além disso, todos que conheciam Noel sabiam que ele costumava fazer paródias até pornográficas do Hino desde os tempos do Colégio São Bento, e solava sua melodia ao violão.

Essa fenda no espaço-tempo se abriu devido à talvez mais importante revelação histórica de “Narciso em férias”, documentário de Renato Terra e Ricardo Calil em cartaz no Globoplay, sobre o capítulo do livro de Caetano “Verdade tropical”, no qual o compositor destrincha as memórias do tempo em que ficou preso logo após o AI-5, entre dezembro de 68 e fevereiro de 69.

A partir do conteúdo do interrogatório, revelado pelo filme e lido pelo próprio Caetano entre risos nervosos e engasgos de engolir lágrimas, é comprovado que ele e Gilberto Gil de fato foram presos pela acusação de profanarem o Hino Nacional no show que fizeram em setembro de 1968 na boate Sucata. Só por isso, por cantar. O que nem cantaram.

No filme, Caetano revela que a prisão o fez um pouco mais supersticioso, ou pelo menos mais atento às coincidências, muitas delas musicais — como a de um vizinho de cela, que pediu que ele cantasse “Súplica”, a valsa que ele cantava em casa, horas antes de ser preso.


A coincidência em responder pelo “crime” de Noel talvez seja das mais impressionantes. Afinal, “Narciso em férias” é baseado na fala de Caetano, é literalmente “cinema falado”. “O cinema falado” é o nome do único filme dirigido por Caetano, com título tirado de um samba de... Noel, “Não tem tradução”.


Caetano Veloso em cena do documentário "Narciso em férias"
Foto: VideoFilmes/divulgação / O GLOBO


Mas tudo transcende às coincidências. E talvez reflita o caráter profundamente subversivo da música brasileira, sempre perseguida e vigiada pelos reacionários de plantão. A denúncia que levou à prisão de Caetano e Gil partiu, por exemplo, de Randal Juliano, apresentador da TV Record, que exortou militares a tomarem providências quanto ao Hino supostamente cantado como paródia na Sucata. O mesmo Randal que no Festival da Record do ano anterior — retratado, ai as coincidências, no filme “Uma noite em 67”, dos mesmos diretores de “Narciso em férias” — perguntava a Caetano nos bastidores, com visível má vontade, o sentido que ele não via na letra de “Alegria alegria”, sendo humilhado por Caetano nas respostas.

Na verdade, os reacionários estavam certos. “Com que roupa?” era mais que uma subversão do Hino Nacional — Noel teria dito a um tio que queria retratar “o Brasil de tanga”, por causa da Crise de 29 e de sua pobreza estrutural —, mas o início da incorporação da arte dos negros e marginalizados à cultura oficial brasileira através do samba que havia acabado de conquistar o compositor branco. Naquela mesma tarde de 29, aliás, Almirante e o maestro Homero Dornellas (escondido sob o pseudônimo Candoca da Anunciação) fizeram o samba “Na Pavuna”, que seria a primeira gravação da história a ter percussão de samba, pura subversão.

“Tropicália”, por sua vez, com seu ritmo marcheado também era um hino brasileiro vocacional, querendo organizar movimentos, orientar o carnaval, inaugurar monumentos no Planalto Central dando vivas à Banda (do Chico Buarque, não a militar) e a uma “Carmen Miranda dada”, dadaísta, rebelde, sem sentido convencional. Subversivo, pois, coisa que foi percebida melhor pelo segundo oficial a interrogar Caetano, um capitão um pouco mais informado, que ao ouvir o compositor negar o “crime” da Sucata respondeu algo como: “Mas você é ingênuo ou acha que pode nos fazer de bobos?”

No futuro, o pai espiritual de Caetano, João Gilberto, cantaria de fato o Hino nos seus shows, todo editado, com nova harmonia, ainda mais bonito, com ênfase em alguns trechos — “Se o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhou no céu da pátria neste instante” — subversivo.

A única canção composta por Caetano na prisão, “Irene”, sobre a saudade do riso da irmã mais nova, seria também no futuro incorporada a outro hino informal, “Meninas do Brasil”, de Moraes Moreira e Fausto Nilo: “Quando o povo brasileiro viu Irene dar risada...”. O que leva a crer que Caetano foi preso, sim, no lugar de Noel e de todos os subversivos da música brasileira pelo simples fato de ser cantor e compositor popular. Crime perigoso sempre que ressentidos e reacionários chegam ao poder. Afinal, “tudo aquilo que o malandro pronuncia, com voz macia, é brasileiro”. Como aliás cantou Noel (e Caetano citou).


viernes, 4 de octubre de 2019

2014 - GOLPE MILITAR - 50 anos




















 

















 


 









Extrato do prontuário de CAETANO VELOSO

VLADIMIR CARVALHO



MARIA BETHÂNIA / GERALDO VANDRÉ / NARA LEÃO /
FERREIRA GULLAR / GILBERTO GIL / NELSON PEREIRA DOS SANTOS / CHICO BUARQUE





Exposição: "AI-5 50 ANOS – Ainda não terminou de acabar", exposição coletiva com curadoria de Paulo Miyada.
Datas e horários: De 4 de setembro a 4 de novembro de 2018. 
De terça a domingo, das 11h às 20h.
Local: Instituto Tomie Ohtake


Resenha por Tatiane de Assis


O Instituto Tomie Ohtake mergulha na história brasileira ao apresentar AI-5 50 ANOS — Ainda Não Terminou de Acabar. A mostra, com a participação de mais de setenta artistas, examina o aniversário e os efeitos da mais dura norma decretada durante a ditadura militar brasileira. O percurso dá igual importância a fotos, pinturas, vídeos, instalações e documentos de época. Dessa forma, a poucos passos da pintura A Prisão (1968), de autoria de Claudio Tozzi, que foi censurada na 10ª Bienal de São Paulo, está a capa do disco Barra 69, de Gilberto Gil e Caetano Veloso, gravado às vésperas da partida dos cantores para o exílio.


A Prisão (1968), de Claudio Tozzi


1973 - Caetano Veloso - Loucura & Cultura (Craziness & Culture)
9-minute 35mm Super 8 film. 


Hélio Oiticica [1937/1980] - Seja marginal seja herói [1968] 




A Delegacia de Ordem Política e Social, no caso de São Paulo, foi criada em 1924 e extinta em 1983. No geral, as várias DOPS estaduais foram criadas na década de 1920 e extintas ao longo da década de 80. Durante o regime militar a DOPS era apenas uma das instituições ligadas à "comunidade de informações", que era composta por inúmeros serviços de espionagem e repressão política, tais como os serviços de informação das três armas (CENIMAR, CIE, CISA), as Divisões e Assessorias de Segurança Interna dos órgãos públicos, a Polícia Federal, as chamadas "segundas seções" das polícias militares e das forças de segurança e o Serviço Nacional de Informações – SNI. Com a criação do sistema CODI/DOI – Centro de Operações de Defesa Interna / Destacamentos de Operações de Informações, em 1970, os agentes desses vários órgãos foram submetidos ao comando unificado do Exército.






 









 
 
 












FOLHA DE S.PAULO

São Paulo, domingo, 2 de novembro de 1997

O regime contra os 'bossa-nova'

ARMANDO ANTENORE
DA REPORTAGEM LOCAL

Tempos depois, um capitão convocou Caetano para um rápido encontro que, sob o olhar do compositor, consistia numa "versão refinada" do papo com o sargento.

Acompanhe a narrativa do livro: "(O capitão) referiu-se a algumas declarações minhas à imprensa em que a palavra 'desestruturar' aparecia e, usando-a como palavra-chave, ele denunciava o poder subversivo do nosso trabalho. Dizia entender que o que Gil e eu fazíamos era muito mais perigoso do que o que faziam os artistas de protesto explícito e engajamento ostensivo. Ambos (o capitão e o sargento) confirmaram uma tese que eu teria usado para valorizar politicamente meu trabalho perante meus opositores da esquerda".

Os bossa-nova

O primeiro documento do Deops que sugere outro raciocínio por parte do governo é de junho de 1965 (leia quadro à pág. 5-9).

Revela que os agentes da repressão investigavam Caetano desde aquele mês -portanto dois anos antes de o tropicalismo nascer.

Em 18 de maio de 1965, de acordo com o relatório, o cantor integrara o show "Evolução" no badalado teatro paulistano Paramount.

Reuniram-se lá, entre outros, os protagonistas de dois musicais célebres, o "Opinião" e o "Arena Conta Zumbi", que se converteram em marcos dos espetáculos de participação política.

O Departamento Federal de Segurança Pública, responsável pelo documento, classificava o "Evolução" como "mais um show dos chamados bossa nova".

Alertava que servia de "estímulo aos movimentos estudantis, de caráter nitidamente esquerdista". Também considerava que, das canções e diálogos do espetáculo, extravasava "um nítido sentido subversivo".

Apontava, em especial, a música "Carcará" -que, interpretada por Maria Bethânia e composta pela dupla João do Vale/José Cândido, insinuava "uma aberta luta de classes".

Recomendava, assim, que o "Centro de Operações" passasse a investigar o "comportamento político" de todos os que entraram em cena naquele 18 de maio.

A lista incluía, além de Caetano, nomes que, já em 1965, se ligavam diretamente à "arte engajada" (ou iriam se ligar logo a seguir): Chico Buarque, Edu Lobo, Dina Sfat, Lima Duarte, Gianfrancesco Guarnieri e Marília Medalha.

Como os futuros tropicalistas ainda estavam próximos dos "artistas de protesto explícito", os militares tendiam a jogar gregos e troianos no mesmo saco -o dos "bossa-nova". Uma postura generalizante que se repetiu três anos depois, conforme deixa claro outro documento.

A Mercedes azul

Produzido pelo serviço secreto do Deops, o relatório de 4 de março de 1968 começa tratando Caetano, Gil, Maria Bethânia e Nana Caymmi como "o grupo baiano".

Informa que, "de há muito", tais artistas "vêm cantando 'músicas de protesto', subliminarmente atacando o regime vigente e exaltando os regimes socialistas".
Os termos, como se vê, poderiam se aplicar perfeitamente a cantores da esquerda militante.

Ocorre que, a essa altura, Gil e Caetano já estavam à frente do tropicalismo. Tinham lançado, respectivamente, "Domingo no Parque" e "Alegria, Alegria". Mais: acabavam de gravar "Tropicália ou Panis et Circensis", o disco-manifesto do movimento que chegaria às lojas por volta de julho.

O mesmo documento aponta um fato também revelador do olhar pequeno que o governo reservava para os tropicalistas.

Conta que, no dia 1º de março, o então repórter Silvio Luiz, da rádio paulistana Jovem Pan, entrevistou Gilberto Gil. E fez perguntas sobre uma Mercedes azul que o cantor acabara de comprar (na realidade, o carro, modelo 1959, era verde).

Gil respondeu com ironia. Disse que a compra não deveria causar surpresa porque "na Rússia e em Cuba todo mundo pode ter Mercedes azul". O comentário irritou o serviço secreto e lhe deu margens para julgar o compositor como "homem de parcos ou nenhum conhecimento filosófico", que demonstrou "uma pretensão de erudição ou simplesmente ser adepto da doutrina esquerdista".

Por causa das palavras do cantor, o relatório recomendava "maior observação" sobre todo o "grupo baiano" -que tinha "à sua disposição a Televisão Record e a Rádio Pan-Americana, dois poderosos veículos de penetração".

Randal Juliano

O relatório informa que, em um programa de 4 de março de 1968, o radialista de São Paulo noticiou as declarações que o cantor dera para Silvio Luiz. Criticando-as, afirmou: "Em Cuba e na Rússia, há falta de alimento quanto mais de Mercedes e da cor azul".

"Não me lembro se fiz tal comentário", disse Juliano, 72, à Folha. "Devo ter feito, porque aquela frase representa o que penso."

O nome do radialista surge duas vezes em "Verdade Tropical". O autor do livro o menciona quando conta que, depois de estar preso há semanas, um major finalmente decidiu interrogá-lo.

Numa das sessões de perguntas, o militar abordou o "episódio da boate Sucata".

Falava de uma série de espetáculos que Gil, Caetano e os Mutantes protagonizaram em uma casa noturna do Rio quase três meses antes da prisão.

"O show foi possivelmente a mais bem-sucedida peça do tropicalismo. Pelo menos, a que melhor expunha nossos interesses estéticos e nossa capacidade de realização", escreve Caetano.

"Eu (...) levava às últimas consequências o comportamento de palco esboçado desde 'Alegria, Alegria', estirando-me no chão, plantando bananeira e enriquecendo o rebolado cubano-baiano do 'É Proibido Proibir'."

"(O artista plástico) Hélio Oiticica, que involuntariamente dera nome ao nosso movimento, estava presente naquele próprio evento, com uma obra exposta perto do palco (...): sua homenagem ao bandido Cara de Cavalo, na forma de um estandarte em que se lia, sob a reprodução da fotografia do corpo do personagem, a inscrição 'Seja Marginal, Seja Herói'."

"Uma noite, um juiz de direito, que não sei por que cargas-d'água foi à Sucata ver o nosso show, indignou-se com o estandarte. (...) Sem embargo, conseguiu não apenas suspender o show como fechar a boate."

"A história da interdição da Sucata por causa da bandeira de Hélio correu de boca em boca e, possivelmente agarrado a essa palavra, 'bandeira', um apresentador de São Paulo, Randal Juliano, resolveu criar uma versão fantasiosa em que nós aparecíamos enrolados na bandeira nacional e cantávamos o Hino Nacional enxertado de palavrões."

"Esse sujeito era um demagogo de estilo fascista que cortejava a ditadura agredindo os artistas."

"Agora o major me informava que esse locutor tinha se dirigido explicitamente aos militares pedindo punição para nós, e que essa arenga havia surtido efeito sobretudo na Academia das Agulhas Negras. De lá teria saído a exigência de que nos prendessem."

Desde 1992, quando Caetano relatou a mesma história durante o programa "Jô Soares Onze e Meia", Juliano vem confirmando que criticou, sim, os tropicalistas na TV Record.

Mas que não inventou nada. Fez os comentários com base em informações da imprensa. "Não lembro onde li. Sei apenas que minhas críticas diziam algo como 'Gil e Caetano podiam gozar de tanta coisa e escolheram justamente o Hino do Brasil'. Sou nacionalista, sempre fui. E achei que tinha o dever de protestar."

O radialista afirma que, por causa dos comentários, recebeu uma convocação para comparecer à sede do Segundo Exército, em São Paulo. "Um coronel me perguntou: 'Você confirma o que falou na televisão?' Respondi que sim porque não costumo negar minhas opiniões. Foi só."

Papéis do Deops mostram que a voz de Juliano não ecoava sozinha -e que o coro que a engrossava também repercutia no governo.

Um relatório do Serviço Nacional de Informações, com data de 11 de outubro de 1968, alertava que Caetano quase sofrera uma "ação" de militares quando cantou "o Hino Nacional em ritmo tropicália".

O documento indica que o SNI soube do "incidente" pelo jornal paulistano "Folha da Tarde" que circulara em 10 de outubro. Quem consultar o diário encontrará, na página dois, uma pequena notícia com o título "Radicalização":

"Ontem, generais procuraram conter um grupo (de oficiais) mais exaltado que pretendia fazer uma expedição punitiva à boate Sucata a fim de 'justiçar' o cantor Caetano Veloso. Este, anteontem à noite, cantara o Hino Nacional em ritmo tropicalista com versos que constituem, para os militares, 'um atentado ao governo, às Forças Armadas e à nação'".

Outro relatório, de 26 de novembro de 1968, elaborado pelo Segundo Exército, registra os ataques que um radialista de São Paulo lançara sobre Caetano por força de "seu comportamento numa boate do Rio, cantando o Hino Nacional em ritmo de bossa".

Qual o nome do locutor? Moraes Sarmento, hoje com 74 anos. Na semana passada, ele declarou à Folha: "Não me recordo especificamente daquela crítica. Mas nunca gostei do tropicalismo. Era um movimento oportunista".

O último relatório que a Folha localizou também faz alusão às "provocações" na Sucata. O Deops o redigiu em 11 de fevereiro de 1969, quando os baianos ainda estavam presos.

É, talvez, o que melhor exprime as dificuldades do governo para diferenciar as diversas correntes culturais do país. Ora diz que Caetano cantou o Hino Nacional em ritmo tropicalista, ORA EM RITMO DE BOSSA NOVA. NO CABEÇALHO, CLASSIFICA O ARTISTA COMO "COMPOSITOR E CANTOR DE MÚSICAS FOLCLÓRICAS".





FOLHA DE S.PAULO

São Paulo, domingo, 2 de novembro de 1997

O TROPICALISMO NO CÁRCERE

ARMANDO ANTENORE
DA REPORTAGEM LOCAL

Hoje pode soar ingênuo, quase improvável, mas na manhã do dia 27 de dezembro de 1968, quando agentes da Polícia Federal o levaram preso, Caetano Veloso não entendeu por quê.

Foi só durante o cárcere que encontrou a resposta, como demonstra em "Verdade Tropical".

E a resposta lhe chegou sob a roupagem de uma tese que, no final das contas (e sempre de acordo com a ótica muito pessoal de Caetano), tende a diferenciar e engrandecer o tropicalismo. Coloca-o um patamar acima das outras correntes culturais que sacudiram o Brasil dos anos 60.

Para o cantor, setores do governo militar nutriam um juízo específico (e sofisticado) do movimento que os baianos capitanearam. Tomavam-no como mais ameaçador à ordem instituída do que, por exemplo, as canções engajadas de Geraldo Vandré ou as peças politizadas de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal.

Cinco relatórios que a Folha descobriu nos arquivos do extinto Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social), em São Paulo, apontam para um caminho diferente.

Permitem inferir que os militares não distinguiam o tropicalismo entre as tantas manifestações culturais ditas de oposição. Confundiam umas com outras e reuniam, todas, sob os rótulos de "subversivas" ou "esquerdistas".

A palavra "tropicalismo" não aparece em nenhum documento. Somente dois trazem a expressão "tropicália" ou "tropicalista".

Convém ressalvar que os cinco relatórios são apenas a parte visível de milhares de outros papéis que se perderam ou que a própria máquina da repressão destruiu -e que poderiam eventualmente corroborar a tese de Caetano.

Cheios de erros gramaticais e redigidos por informantes anônimos dos serviços de espionagem, os documentos localizados pela Folha ostentam as inscrições "reservado", "secreto" ou "confidencial".

Em 1992, durante uma entrevista para Jô Soares, o autor de "Verdade Tropical" mencionou o assunto pela primeira vez e abriu uma discussão sobre a figura do "dedo-duro" no meio artístico.

Agora, o livro -que não se preocupa em disfarçar o tom passional quando descreve as angústias do cárcere- volta a investir contra Juliano.

Narciso e as baratas

Duas semanas antes da prisão de Gil e Caetano, o presidente Costa e Silva colocou o Congresso em recesso e assinou o AI-5 (Ato Institucional nº 5), que cassava o mandato de parlamentares e inaugurava a etapa mais dura do governo militar.
Naquele período, os tropicalistas comandavam o "Divino Maravilhoso", programa semanal da TV Tupi que surpreendia pelo espírito anárquico.

Já na estréia, em 28 de outubro, Gil entoava "Bat Macumba" entre gargalhadas e rodopios.

Caetano -então cultivando uma cabeleira selvagem- se atirava, trôpego, de um lado para o outro e plantava bananeira diante de um cenário incomum: quatro painéis em alto relevo e cores berrantes, que exibiam seios, uma boca enorme e dentaduras.

Fechou o programa de maneira emblemática -com a música "É Proibido Proibir", que começou a cantar deitado no chão.

As semanas seguintes revelaram peripécias ainda maiores. Dentro de uma jaula, o elenco do "Divino Maravilhoso" chegou a simular um banquete de mendigos.

Cartas iradas do público mais conservador não paravam de pedir explicações à Tupi e de condenar as "ofensas" dos tropicalistas.

Nessa fase conturbada, a polícia bateu à porta do apartamento de Caetano, na avenida São Luís, centro de São Paulo.

"Nem eu nem Gil imaginávamos que seríamos presos. Não havia expectativa de que nada de grave pudesse acontecer conosco", escreve em "Verdade Tropical".

Toda a terceira parte do livro se dedica à anatomia do cárcere. São 62 páginas que levam o título de "Narciso em Férias".

Mesclam reminiscências dos quase dois meses que Caetano passou entre grades (sua libertação e a de Gil só ocorreram no dia 19 de fevereiro de 1969, uma Quarta-Feira de Cinzas) com a tentativa de desvendar a razão de tudo aquilo.

O leitor acompanha a busca como quem vê um filme labiríntico, protagonizado por um jovem bem distinto daquele que despejava irreverência sobre o palco.

Mais magro do que o habitual, confuso e frágil, o cantor caçava respostas não apenas nas raras conversas com militares, mas também em estranhos sinais metafísicos que, acreditava, poderia extrair de baratas e músicas do rádio.

Num trecho desconcertante, Caetano esmiúça tais rituais premonitórios -um sistema que usava menos para adivinhar as causas da prisão e mais para tentar antever quando o suplício terminaria.

"Se eu lançar o jato de Baygon nessa barata e ela conseguir fugir, haverá um atraso de três dias na ordem de liberação", raciocinava.

Foi assim, na solidão do cárcere, num ambiente que lhe estimulava tanto a superstição quanto o exercício da lógica, que Caetano concluiu por que o prenderam.

O compositor destrincha a tese contando, primeiro, que teve medo quando a polícia chegou a seu apartamento -mas "não era, de modo nenhum, um medo que correspondesse ao tamanho do que de fato" iria acontecer.

E explica: "Estávamos tão habituados a hostilizações por parte da esquerda, éramos tantas vezes acusados de alienados e americanizados, que, quando me vi diante daqueles policiais, imaginei que me estavam levando para uma conversa com algum oficial de São Paulo, o qual nos trataria como rapazes interessados apenas em divertir o público".

A realidade se mostrou menos otimista. Os dois baianos seguiram, juntos, para prisões cariocas e iniciaram um penoso caminho que culminaria com o exílio.

Certo dia, na cela da Vila Militar, em Deodoro, subúrbio do Rio, um sargento chamou Caetano e se pôs a atacar a peça "Roda Viva".

O espetáculo -escrito por Chico Buarque, que José Celso Martinez Corrêa montou em 1968 e cujo elenco sofreu agressões de militantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas)- lançava mão de uma linguagem cênica chocante. Ora sugeria ações canibais e expunha a nudez dos atores, ora estilizava símbolos religiosos.

"Em suma", resume Caetano, "era tudo com que nosso trabalho, meu e de Gil -dos tropicalistas-, se identificava."