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jueves, 30 de mayo de 2024

2001 - BISCOITO FINO - Maria Bethânia

 























21/09/2001

 

Maria Bethânia troca BMG por gravadora brasileira

 JOÃO BERNARDO CALDEIRA

JB Online 

"É uma revolução no mercado fonográfico brasileiro". Parece exagero, mas não é. Com essa afirmação, a empresária da cantora Maria Bethânia, Maria Luisa Jucá, resume a transferência da baiana, que deixou a multinacional BMG e assinou um contrato de cinco anos com a gravadora brasileira Biscoito Fino, com apenas um ano de existência. 

A notícia seria divulgada na próxima semana, mas o colunista Ricardo Boechat adiantou hoje aos leitores do JORNAL DO BRASIL.

 Disputada por duas grandes gravadoras multinacionais, por quê Maria Bethânia, com 35 anos de carreira, decidiu escolher a desconhecida e recém criada Biscoito Fino? Maria Luisa esclarece:"A Kati deixou a Bethânia à vontade, porque pensa a longo prazo e questiona o imediatismo do mercado brasileiro". 

À frente do Grupo Icatu, sócia da Conspiração Filmes e do novo selo, entre outros empreendimentos, a empresária Kati Almeida Braga apostou na qualidade, sem abusar da usual pressão que se faz sobre os artistas, para conquistar a cantora. "A Bethânia gostou do conceito. Decidimos investir em poucos talentos, mas no melhor da MPB. 

Daremos dedicação total e um contrato de longo prazo", explica. 

Além disso, os três discos previstos pelo contrato com a BMG já foram lançados (A Força que Nunca Seca, Diamante Verdadeiro e Maricotinha, este último nas lojas a partir deste mês), o que acabou liberando a baiana para decidir seu futuro. 

Com o mercado vendendo 50% a menos do que no ano passado, segundo dados da Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD), a mudança pode significar uma nova maneira de equilibrar interesses mercadológicos e liberdade artística. "Para uma multinacional não importa se trata-se de É o Tchan ou Maria Bethânia", diz a empresária da cantora. "O que importa é vender. E é por conta dessa nova proposta da Kati que a Bethânia se sentiu à vontade para ingressar na Biscoito Fino". O primeiro disco da nova parceria deve chegar às lojas no primeiro semestre do próximo ano.

 

Rio, 21 de setembro de 2001 

Bethânia troca multinacional por pequeno selo 

João Pimentel

Não durou nem um dia o propalado desemprego de Maria Bethânia. O fim  do contrato com a BMG e a não-renovação com a multinacional, mais do que o simples rompimento de uma parceria de anos, representou mais uma guinada na carreira da cantora, agora contratada da pequena  gravadora Biscoito Fino. 

Segundo a empresária de Bethânia, Maria Jucá, a cantora fez uma  opção por um outro tipo de relação artística. 

— Bethânia tinha propostas de multinacionais e também da Biscoito Fino, através da Kati Almeida Braga, sócia de Olívia Hime. Foi uma questão conceitual — diz a empresária.

— Depois de 35 anos de uma carreira marcada pela autenticidade, ela continuará realizando seu trabalho sem as pressões de mercado. 

Olívia Hime acredita em um casamento perfeito. 

— Bethânia quer mudar sua forma de trabalhar e vamos oferecer tudo o que ela precisar. Ela vai ter tempo para elaborar seus projetos. Bethânia é uma figura emblemática e estamos muito honrados. 


 

Maria Bethânia



Bethânia foi a primeira cantora brasileira a atingir a marca de 1 milhão de discos vendidos, com Álibi, em 1978. Nada mal para quem, quando menina em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, sonhava em ser atriz. Sua estréia nos palcos aconteceu em 1963, em Salvador, cantando um samba de Ataulfo Alves na peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues.

Em 1964, Maria Bethânia e músicos iniciantes como seu irmão Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé montaram o espetáculo Nós Por Exemplo, em Salvador. Bethânia tinha apenas 19 anos quando recebeu de Augusto Boal um convite para substituir Nara Leão no antológico espetáculo Opinião, no Rio de Janeiro. Logo na primeira apresentação, a baiana arrebatou a platéia carioca interpretando Carcará, de João do Vale e José Cândido. No mesmo ano gravou seus primeiros discos e pouco depois estaria sendo chamada de Abelha Rainha da MPB.

Maria Bethânia já lançou mais de 30 discos, tendo dividido alguns com grandes nomes da MPB, como Edu Lobo, Chico Buarque e os Doces Bárbaros (Caetano, Gil e Gal Costa). Em 2002, ela lançou em CD o tão aguardado Maricotinha Ao Vivo, pela Biscoito Fino. Em 2003, foram lançados o DVD de Maricotinha Ao Vivo e o CD Cânticos Preces Súplicas à Senhora dos Jardins do Céu.

Ainda em 2003, Bethânia cria o selo Quitanda, em parceria com Kati Almeida Braga, pelo qual lançou o CD Brasileirinho e Namorando a Rosa, homenagem à Rosinha de Valença, onde vários intérpretes lembram a violonista, inclusive Bethânia, que canta quatro músicas, duas delas dividindo o microfone com Joanna e Caetano Veloso. Em 2005, a BF lançou Que Falta Você me Faz, uma homenagem de Bethânia ao poetinha Vinicius de Moraes.

 


Maria Bethânia

Entrevista



1) Sua mudança para uma gravadora independente depois de 35 anos em multinacionais constitui uma atitude sem precedentes na indústria fonográfica brasileira. O que motivou você a tomar esta decisão?

Tenho muito orgulho de estar na Biscoito Fino, porque é uma gravadora que tem como principal artista a música popular brasileira. Isso me interessa e sempre me interessou. A convite de Kati Almeida Braga e Olivia Hime eu acabei aqui, o que acho muito bom, um luxo, muito sofisticado. E passei por todas as gravadoras multinacionais que existem no Brasil. Fui e voltei várias vezes. Estava na BMG e no final do contrato a gravadora não me procurou pra renovar porque meu contrato era muito caro. Então fiz um acerto com a Kati para fazer projetos especiais na Biscoito Fino. Logo depois ela me procurou para dizer que queria a cantora. Um contrato normal, três discos de carreira e mais os projetos especiais que eu fizesse durante cinco anos. Eu achei aquilo ótimo, uma boa idéia, porque senti, além do amor à música popular brasileira, uma qualidade administrativa diferente, apaixonada, encantada pelo trabalho, um lastro firme, seguro, sem precisar ameaçar o artista. Me senti bem como nunca me senti na vida.

2) Maricotinha ao Vivo pode ser considerado tecnicamente um dos discos ao vivo mais bem realizados na história da MPB. O palco é mais quente do que o estúdio?

A qualidade sonora do Maricotinha ao Vivo realmente é extraordinária, porque eu convidei o Moogie para fazer a produção, a gravação, todo o trabalho sonoro do disco. E ele é um excelente técnico, reconhecido mundialmente e se apaixonou pelo show. Eu conheço o Moogie há muitos anos, tenho vários discos feitos com ele, mas ele ficou louco pelo Maricotinha. Gravou as quatro noites com muita paixão, se divertindo muito. Acho que isso trouxe para o disco um calor do show ao vivo. E acho que ele merece todas as reverências, porque é um trabalho realmente espetacular, fora do normal num show gravado ao vivo, no Brasil ou no exterior. O palco tem uma diferença natural do estúdio. Porque o estúdio é de uma solidão! Você fica ali sozinha resolvendo, intuindo, enquanto o palco é o contrário. São milhares de pessoas esperando para compreender, sentir ou gostar. E aquilo já estimula você a mexer com o seu calor, com a sua energia, com tudo. Eu amo as duas coisas, tanto o palco quanto o estúdio, com as suas diferenças. O palco prá mim é o lugar sagrado, onde eu me sinto melhor na vida, acho bonita aquela coisa, tudo ali é fascinante.




3) Você costuma dizer que Caetano Veloso e Chico Buarque são os compositores cujas canções melhor se adaptam às suas interpretações. Que nomes da nova geração da MPB você considera complementares aos de sua geração e por que?

Eu na verdade, quando falo de Chico e Caetano - e quem sou eu para dizer que suas canções se adaptam à minha voz? - é porque os dois foram os que mais confiaram canções à minha voz. Eu me sinto comovida e adoro cantá-los. Eles são extraordinários. Não precisa eu lhe dizer, todo mundo sabe. É isso. Eles são os mais importantes da minha vida profissional porque foram os que mais me deram canções. Isso foi fazendo a minha história. Sou uma intérprete que aprendi a cantá-los, a interpretá-los e talvez eu me sinta mais em casa nas suas canções. Eu acho assim: tem uma coisa meio errada no Brasil que é “quem substitui ou quem corresponde a Chico e Caetano na geração nova?”. Eu acho que por aí a pergunta fica errada. Existe renovação na música popular brasileira? Eu acho que existe e existe da melhor qualidade. Agora, fica parecendo que a nova geração está devendo porque quer se comparar. Seria a mesma coisa dizer de Caetano, Chico, Gil, Milton quando apareceram, esta geração deslumbrante, “não é igual a Caymmi, a Noel Rosa, a Ary Barroso”. E não são mesmo. São diferentes. O mundo é outro hoje. Então a nova geração tem que cantar o que o mundo lhe oferece. É muito mais duro do que era na nossa época, muito mais frio, mais neutro. Na nossa época era muito envolvimento, muita paixão, sonho, quer dizer, a nossa geração viveu muito isso. Mas acho que na nova geração de compositores e cantores no Brasil temos o Lenine, extraordinário, Adriana Calcanhoto, Chico César, Vanessa da Mata. São artistas muito fortes. Ana Carolina, a Cássia Eller, prá mim a maior expressão, mas era mais uma intérprete do que uma compositora, talvez por isso ela tenha me tocado tanto sempre. Mas acho que todos estão fazendo de maneira tão própria, tão firme e tão expressiva na sua maneira de ser. Mas se ficar esperando que o Chico César componha igual ao Chico Buarque vai dar confusão.

4) A sua seleção de poesias é tão rigorosa quanto a das músicas? Você lê muito, costuma descobrir novos autores tanto na literatura quanto na música?

Eu ouço os discos quando chegam: dos colegas, dos principiantes, dos anônimos, dos famosíssimos. Faço a minha seleção ali. Gosto de música negra americana, gosto da nossa música. E leio. Ultimamente não tenho lido muito não. Quando eu viajo eu leio um pouco mais. Me estimulam as livrarias fora do Brasil. São lindas e fico fascinada com os espaços, a facilidade que você encontra. Vou comprando e lendo. Mas o meu rigor tanto para música quanto para poesia é a emoção. Se emocionar, eu falo ou canto.




Bethânia espanta a crise, abre selo e grava terceiro disco em menos de três anos


                                                                    Arquivo U.M

Alheia à crise do mercado fonográfico, Maria Bethânia 
está lançando o selo Quitanda, através do qual coloca 
nas lojas seu terceiro CD em menos de três anos, Brasileirinho


Que crise que nada. Depois de surpreender o mercado fonográfico, em 2001, ao trocar a multinacional BMG pela então recém-criada gravadora Biscoito Fino, de Olivia Hime e Kati Almeida Braga, e de lançar dois trabalhos por ela (Maricotinha Ao Vivo e Cânticos, Preces E Súplicas À Senhora dos Jardins dos Céus), Maria Bethânia caminha contra a tão propalada crise do mundo do disco e lança seu próprio selo, Quitanda, que é distribuído pela Biscoito Fino e tem como sócia ninguém menos senão Kati Braga. A proposta, segundo Bethânia, é que o selo seja completamente diferente do que se vê por aí no “mercadão”, misturando música, teatro e literatura, em prosa e poesia.

E o primeiro trabalho de Bethânia por seu selo é um CD autoral: Brasileirinho, o terceiro disco dela em menos de três anos (Maricotinha Ao Vivo foi lançado no final de 2001 e ganhou recentemente o disco de ouro; e Cânticos... foi lançado em 2002). Como o nome já indica, o CD tem como mote o Brasil, mas do ponto de vista do sincretismo religioso. Bethânia também explora ao máximo a leitura de poemas, apenas exacerbando o que é uma tradição em sua carreira.

A cantora aborda em diversos momentos a relação entre os santos católicos e os orixás da umbanda, como em São João Xangô Menino (clássico de Caetano e Gil que a própria Bethânia gravara, com a dupla de compositores e Gal Costa, no grupo Doces Bárbaros), e até mesmo o universo indígena é representado na faixa Senhor da Floresta (René Bittencourt e Augusto Calheiros).

A primeira faixa de trabalho, que já está tocando bem nas rádios, é Santo Antônio, de J. Velloso. Ainda na linha do catolicismo há Padroeiro do Brasil, que fala de São Jorge e tem a participação do grupo de choro Tira Poeira), e Sussurana (Heckel Tavares e Luiz Peixoto), com Nana Caymmi.

No lado da umbanda, as referências mais claras são em Salve As Folhas (Gerônimo e Ildásio Tavares), com a participação do grupo Uakiti e a leitura, feita por Ferreira Gullar, do poema O Descobrimento, de Mário de Andrade; Cabocla Jurema (domínio público), com citação de Ponto de Janaína (D.P. ) e participação de Miúcha, além da leitura do poema O Poeta Come Amendoim, também de Mário de Andrade, por Denise Stoklos; e Purificar O Subaé (Caetano Veloso), com um trecho de Cantiga para Janaína (2) (D.P.) e leitura de Poema Pátria Minha, de Vinicius de Moraes. Também é possível ver ecos da religião em Yáyá Massemba e Ele É O Meu Capitão.
O disco acaba com a bela Melodia Sentimental, de Villa-Lobos e Dora Vasconcellos. Nada comercial, como quer Bethânia.

 

Samba de roda na voz de Dona Edith



                                                Reprodução

Outro lançamento do selo Quitanda é 
Vozes da Purificação,
de Dona Edith do Prato.
Ela esbanja suingue raspando a faca no prato,
em músicas na maioria de domínio público



O segundo trabalho do selo Quintanda traz o samba de roda de Dona Edith da Purificação, 72 anos, conterrânea de Bethânia e Caetano da cidade baiana de Santo Amaro da Purificação, no CD Vozes da Purificação. Ambos, aliás, participam intensamente do disco. Bethânia – que gravara com Dona Edith em seu disco Ciclo, na faixa Filosofia Pura – canta no pot-pourri Quem Pode Mais, Dona de Casa e Eu Vim Aqui. O mano Caetano – responsável pelo “surgimento” musical de Dona Edith, ao lançá-la em seu LP Araçá Azul – participa diretamente, cantando, e indiretamente de Minha Senhora, pois a faixa traz como música incidental How Beautiful, do filho Moreno Veloso.

Outro ponto em comum entre Brasileirinho e Vozes da Purificação é a presença de J. Velloso, que, além de produzir este último, assina Raiz, música incidental que aparece em Casa Nova, que ainda tem a participação de Mariene de Castro. À exceção de Hino de Nossa Senhora da Purificação, de Carlos Sepúlveda, que aparece de forma incidental em Viola Meu Bem, todas as demais canções são de domínio público. Entre elas, Marinheiro Só, Tombo do Pau, Senimbu E Calolé, Ai Dindinha (com Mené Barreto) e Santo Amaro Ê Ê (com Erlon Portugal).

Em todas as 13 faixas do disco – que foi lançado inicialmente em 2002, numa tiragem limitada – Dona Edith aparece tocando de forma bem suingada seu tradicional prato e cantando acompanhada do grupo Vozes da Purificação, formado por sete septuagenárias vozes femininas.





domingo, 8 de noviembre de 2015

2002 - MINHA SENHORA, HOW BEAUTIFUL




Caetano Veloso é outro a purificar as vozes do Recôncavo de Edith. Ele participa de Minha Senhora, música que inspirou a composição tropicalista homônima de Gilberto Gil e Torquato Neto. Apontando para diversas gerações dos Velloso (assim mesmo, com L dobrado, como aparece no encarte do CD), Caetano une o samba de Santo Amaro a How Beautiful Could a Being Be, de autoria de seu filho Moreno.





 

 
2002 - DONA EDITH DO PRATO
Com: CAETANO VELOSO
BR-QUI-03-00023 / 3:01
Álbum “Vozes da Purificação” [Dona Edith do Prato]
Independente CD MR0577
Biscoito Fino / Quitanda CD qui 002, Track 10. (2003)




(Domínio Público/Moreno Veloso)
 
Minha senhora onde é que você mora
Vou fazer minha morada
Por cima do morro é lá
É lá é lá minha morada é lá
Torne a repetir meu amor
Sereiá sereiá sereiá sereiá
Ô sereiá ô sereiá
Eu nunca vi tanta areia no mar
A menina foi embora
Foi embora e me deixou
Nas asas do passarinho
Ela voou voou
How beautiful could a being be




2005 - Dona Edith e Jota Velloso


Claro que você já ouviu falar em Dona Edith do Prato, forte tocadora de prato. Presença nos shows de Bethânia, Caetano e Mariene de Castro, Edith está na raiz do samba-de-roda e da chula. Vozes da Purificação é seu novo trabalho, que reúne os sons da festiva Santo Amaro, terra de artistas. São quatorze cantigas do cancioneiro baiano, que a gente ouve desde de criança, mas que, nas vozes de alegres senhoras da Purificação, soam mais festivas e sonoras.
 

“Ariri vaqueiro”, “Samba numerado”, “Senimbú” e “Calolé” são preciosidades gravadas em CD para a eternidade, algumas cantadas com a participação de Maria Bethânia, Caetano Veloso, Mariene de Castro, Roque Ferreira, Mané Barreto. É um disco dedicado ao Recôncavo da Bahia, um celeiro de sambistas. O CD tem dedo do animadíssimo J. Veloso na produção artística, claro








Sábado, 14 de Setembro de 2002
 
Prato cheio

Giovanna Castro





Aos 86 anos e tocando desde a adolescência, dona Edith do Prato lança seu primeiro CD, hoje, em show na cidade de Santo Amaro da Purificação


Quase 30 anos após estrear em disco participando de Araçá azul, de Caetano Veloso, dona Edith do Prato lança o próprio CD com show hoje, às 21h, no Teatro Dona Canô, em Santo Amaro da Purificação. A apresentação, que também marca a abertura da segunda edição do projeto Dona Canô Chamou, contará com Mariene de Castro, sambistas da região e o Coral Vozes da Purificação. As chulas, sambas-de-roda e lundus típicos do recôncavo baiano subirão ao palco pontuadas pelo toque do prato de dona Edith, que nunca imaginou fazer carreira artística. Nem mesmo há uns 70 anos quando, ainda adolescente, começava a tirar os primeiros sons de uma metade de cuia de queijo no quintal de casa.


"Nunca sonhei em ser artista. Foi Caetano quem me deu esse caminho", conta a senhora de 86 anos. Produzido por J. Velloso, com patrocínio do governo do estado da Bahia, O CD Dona Edith do Prato - Vozes da Purificação tem encarte assinado por Herminio Bello de Carvalho e participações afetivas de Maria Bethânia, Coral Vozes da Purificação, Mariene de Castro, Cortejo Afro, Roque Ferreira, Nenê Barreto, Erlon Portugal e Caetano Veloso, de quem Edith foi mãe de leite. "Caetano nasceu cinco dias antes do meu filho e como Canô pegou uma gripe muito forte, todo dia traziam o menino para ser amamentado", lembra. As duas famílias são muito próximas porque a irmã caçula de Edith, Nicinha, foi criada por dona Canô e seu Zeca.


Dona Edith lembra que desde a escolha de repertório, feita com J. Velloso, até os arranjos e a gravação das faixas em si, tudo foi muito prazeroso. "Os músicos são muito bons e alegres, me diverti muito. Eu também fiquei muito feliz com o resultado do CD, os sambas estão muito gostosos", avalia. E ela não exagera porque, ao ouvir o CD, têm-se a sensação de estar no meio de uma das festas de largo da cidade de Santo Amaro. Entre as canções registradas estão Marinheiro só, Tombo do pau, Samba numerado, Minha senhora, How beautiful, Santo Amaro ê ê, e Viola meu bem. "Ficou mais ou menos como as festas que eu ia naquele tempo", diz, referindo-se aos anos 30 e 40.


Nessa carreira artística que segue impulsionada por Caetano Veloso e Maria Bethânia, Edith Oliveira Nogueira já conheceu vários lugares e pegou gosto pelo meio artístico. Mas não sabe dizer se aceitará outros convites para shows e gravações. "Estou cansada", justifica, sendo logo desmentida pela irmã Elza, 73 anos, integrante do Coral Vozes da Purificação. "Não acredito muito nessa história, não. Se Caetano telefonar e insistir um pouco, ela logo se anima", entrega.


Segundo conta o produtor Ninho Nascimento, neto de criação de dona Edith e que a acompanha em todos os lugares, há dois meses ela participou das gravações para a MTV brasileira do clipe de India.Arie, que concorreu ao Grammy este ano e, até ser superada por Alicia Keys, era cotada como uma das favoritas. "A gravação aconteceu no distrito de Santiago do Iguape, um quilombo entre Santo Amaro e Cachoeira, e ficou muito bonito o blues de India.Arie acompanhado pelo prato", opina.


O toque do prato, técnica inventada pela própria Edith, tem alguns segredos. Os pratos finos não servem, melhores são os mais antigos de porcelana grossa. A posição do prato, que deve ser pousado bem na palma da mão, também é muito importante para a perfeição do som. O transporte é sempre feito numa sacola acolchoada. Mas, apesar dos cuidados, dona Edith não coleciona pratos e só os troca quando o som começa a ficar rouco, como ela diz. Os únicos riscos são o prato ou a faca caírem da mão, coisa que ela garante nunca ter acontecido. "Se tiver necessidade, dá para tirar qualquer som do prato. Eu até consigo tocar com garfo e com colher, mas com a faca o som fica bem melhor", ensina.


Na companhia de Herminio

O produtor, escritor e pesquisador carioca Herminio Bello de Carvalho escreveu o texto do encarte de Dona Edith do Prato - Vozes da Purificação e estará presente à festa de lançamento hoje à noite. "O disco de dona Edith me remete ao belo Araçá azul, de Caetano, que a apresentou a todos nós. Passou a ser lenda viva, uma espécie de cartão-postal sonoro da Bahia. Dona Edith, friccionando o prato com uma faca nos transporta ao recôncavo para com ela bailar as chulas, os sambas-de-roda e os lundus que, sem esse nome, andaram vulgarizando por aí, sem o devido respeito à sua imagem", assinou.


Na ocasião, quando também se comemora o primeiro aniversário do Teatro Dona Canô, além de assistir o show de dona Edith, Herminio lança seus dois livros mais recentes publicados pela editora Folha Seca: Cartas cariocas para Mário de Andrade, com capa de Oscar Niemeyer, e a antologia poética Contradigo. A biografia de Clementina de Jesus, Rainha Quelé (Secretaria Municipal de Valença/Sesc), feita por Carvalho em parceria com Nei Lopes, Lena Frias, Paulo Cesar de Andrade e Heron Iamaguchi, será doada para as casas de cultura da cidade. O livro narra o encontro de Herminio com Clementina que resultou no espetáculo Rosa de ouro, que revelou Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Nelson Sargento.


FICHA
Disco: Dona Edith do Prato - Vozes da Purificação
Artista: Edith do Prato
Produção artística: J. Velloso
Gravadora: Independente

















João Francisco Velloso





Folha de S.Paulo

17/12/2002

Edith do Prato revela origens da música de S. Amaro da Purificação

ISRAEL DO VALE
free-lance para a Folha

A longa fila de cadeiras no corredor de entrada já deixa entrever: aquele é lugar de gente festeira. Sentada na mesa da sala de jantar, na contraluz do sol de fim de tarde trazido pela porta que leva ao quintal, dona Edith desfia lembranças dos 76 anos que a separam da "casinha de samba" erguida nos fundos do terreno estreito e comprido, que atravessa um quarteirão de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, a hora e meia de Salvador.

Naquele pedaço de terra, a cem metros do que anos depois seria a morada de comadre Canô (cujos filhos Caetano Veloso e Maria Bethânia inscreveriam a cidade no mapa cultural do país), a menina de dez anos começou a exercitar com uma cuia de queijo o estilo que seria aperfeiçoado num prato de cerâmica e a conduz agora ao primeiro disco, aos 86 de vida.

Costureira ocasional e festeira inveterada, Edith Oliveira Nogueira, mais conhecida como Dona Edith do Prato, tem história entrelaçada à do clã Veloso. Basta dizer que chegou a ser mãe de leite do quinto filho de Canô, Caetano, apresentado ao mundo cinco dias antes de seu primogênito.


A retribuição viria pela via artística. Edith faria sua estréia nos palcos, no teatro Castro Alves, dividindo os holofotes com Caetano, Chico Buarque e MP4. "Quando vi aquela multidão fiquei assombrada... Mas depois deu tudo certo", lembra. "Eles me abraçaram tanto, agradeceram, que eu me animei a continuar."

Do filho de leite viria também a primeira chance de gravar. Trinta anos atrás, o disco "Araçá Azul", de Caetano, já registraria, sob o codinome Edith Oliveira, a voz sibilante de dona Edith na faixa de abertura, "Viola, Meu Bem", e em "Sugar Cane Fields Forever".

A técnica do prato-e-faca, item básico nos sambas-de-roda e nas chulas, vem sendo exercitada desde muito antes, ainda na meninice, na tal casinha de samba (uma lona estendida sobre quatro estacas). "Eu viajava muito para tocar, mesmo ainda menina", diz. "Me convidavam para tocar em aniversário, nos carurus. Meu pai via que eu gostava e deixava." Foi nas festas que surgiram os dois maridos de Dona Edith, ambos já mortos. "Namorei muito, meu filho."

As paredes da casa desfilam imagens de Caetano e Bethânia, em fotos ou desenhos. Só perdem na devoção para o pequeno quarto em que Dona Edith guarda imagens de entidades do candomblé, num altar principal. A surpresa, quando se cruza a soleira de mármore da sala envolta em meia-luz, só aumenta quando se percebe atrás da porta uma razoável confraria de santos católicos. Filha de Oxum Maré, Dona Edith não se furta ao sincretismo explícito. Questionada se é católica, diz sem titubear: "Graças a Deus".

O CD "Dona Edith do Prato - Vozes da Purificação" foi lançado em setembro com show em Santo Amaro e só chegou a Salvador há duas semanas, em apresentação fechada para convidados, na abertura do 4º Mercado Cultural. Vozes da Purificação é o nome do coro das oito cantoras septuagenárias que a acompanham no disco e nos shows.

Até agora, foi tudo -bem pouco para o que é. Produzido por J. Velloso (filho de Clara Maria, filha mais velha de Dona Canô), o disco remete, via samba-de-roda, aos primeiros passos do gênero-símbolo tupiniquim, antes mesmo de ser lavrada sua certidão de nascimento.

Anos antes daquele que entraria para a história como o primeiro samba gravado ("Pelo Telefone", em 1917), João da Bahiana (filho de uma santamarense, Tia Preciliana, como informa o produtor e pesquisador Hermínio Bello de Carvalho no encarte do disco) já exercitava o prato-e-faca nos terreiros das tias baianas radicadas no Rio. É creditada a ele, diga-se, a introdução no samba de outro instrumento comum ao samba-de-roda, o pandeiro.

De aparência frágil, mas sempre implacável nas idéias, Dona Canô, hoje com 95 anos, conta que teria sido sondada pelo neto J. Velloso para gravar o disco que ganhou corpo pela voz de Dona Edith -com participações de Caetano Veloso, Maria Bethânia e outros.

"Pastoril, roda de samba, igreja: em tudo eu já cantei", conta Dona Canô. "Hoje já não estou com muita voz e não tenho mais fôlego", diz. "Mesmo no coral da igreja, só vou para fazer número." Este mesmo coral, com integrantes dos 18 aos 95 anos, abastece parte do coro das Vozes da Purificação.

"O disco ficou muito bonito", exalta Dona Canô. "Todos esses sambas eu sei", diz ela, citada na letra de "Santo Amaro Ê Ê", uma das 14 faixas do disco. Reza a letra: "Eu trabalho o ano inteiro/ na estiva de São Paulo/ só pra passar fevereiro em Santo Amaro". "Aqui nasci, aqui me criei, aqui estou. Não tem lugar melhor", diz Dona Edith. As visitas que se cheguem. O prato e a faca guardados numa bolsinha acolchoada sobre o guarda-roupa estão sempre à espera, assim como as cadeiras. Para começar a festa, é o bastante.


2002 - Dona Edith do Prato, J. Velloso e Hermínio Bello de Carvalho no lançamento do disco de D. Edith - Fonte: Site Oficial J. Velloso