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lunes, 15 de diciembre de 2025

2012 - FA-TAL - GAL A TODO VAPOR

 


2012
Revista Brasileiros
Edição 54
Janeiro de 2012
Brasileiros Editora Ltda.

Foto da capa: Gilda Midani


O grito de resistência de Gal Costa e Waly Salomão

Dirigido pelo poeta baiano, o espetáculo "Fa-Tal: Gal a Todo Vapor" tornou-se um símbolo dos dias amargos do AI-5 e da era Médici, além de ter motivado o lançamento do histórico LP duplo

Por Marcelo Pinheiro

Brasileiros com um mínimo de consciência política e senso de respeito ao livre arbítrio dedicaram a última terça-feira* (31.3.2014) para, exatos 50 anos depois, reverenciar a memória das vítimas do golpe civil-militar de 1964 e repudiar o legado sombrio dos 21 anos de ditadura. Pesquisa anunciada hoje pelo R-18, maior banco de dados sociais da América Latina, revelou: entre 31 de março e 1 de abril, 46 milhões de usuários trataram do assunto nas redes sociais. Nada mais justo, e oxalá esse número cresça, ano após ano. Afinal, a ditadura deflagrada com o golpe que depôs o presidente João Goulart foi o capítulo mais sombrio da história recente do País. Sob a égide de cinco marechais e generais não só os opositores políticos do regime sofreram tortura, foram mortos, exilados ou submetidos à clandestinidade, mas também os protagonistas de diversas expressões culturais do País, que procuravam manifestar, em suas obras e em seu ativismo cidadão, resistência e repúdio ao regime. 

Nesses 21 anos de obscurantismo seria indigno minimizar o impacto nefasto da ditadura na vida dos brasileiros, mas houve nos dias derradeiros de 1968 – ano em que boa parte da juventude do mundo se insurgiu contra a opressão de valores comportamentais e políticos – um ponto divisor, que elevou as arbitrariedades dos militares ao ápice da barbárie. Com o decreto do Ato Institucional n° 5, em 13 de dezembro daquele ano, os militares fecharam o Congresso, caçaram mandatos, suspenderam direitos políticos e recrudesceram a censura vigente e a prática da tortura, instaurando um crescente ambiente de terror no País. 

Foi nesse contexto nefasto que, dois dias após o Natal de 1968, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos, em Salvador. Encarcerados por dois meses, os compositores, que havia pouco tinham enterrado simbolicamente a Tropicália no programa televisivo Divino, Maravilhoso, justamente pela consciência de estarem flertando com o perigo, foram obrigados a sair do País e partir, em julho daquele ano, para um exílio em Londres, onde viveram por dois anos. 

Mas não foram só eles que partiram. Entre milhares de brasileiros comuns, outras estrelas da nascente MPB também tiveram que botar o pé na estrada. Pouco depois, entre outros, Chico Buarque foi para a Itália, Nara Leão para a França e Edu Lobo para os Estados Unidos. Quem por aqui ficou, para poder lidar com a censura sem correr o risco de ser o próximo exilado ou cobaia de toda sorte de torturas, teve de se reinventar. 

Especulações sobre as atrocidades do período diziam, por exemplo, que Geraldo Vandré sofreu lavagem cerebral e foi emasculado (teve os testículos retirados), mas ele próprio nega a suposição grotesca e até mesmo a hipótese de que tenha sido torturado. Verdade ou não, depois de sua prisão e exílio, em 1968, inquestionável mesmo foi a total reclusão e hiato produtivo do compositor do hino de protesto Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores. 

Nesse contexto de guerra declarada, em que todos tinham um inimigo comum, a ditadura, então dotada dos superpoderes do AI-5, houve também quem contasse com a notória estupidez dos censores. Chico, por exemplo, que escreveu letras contundentes, como Apesar de Você e Vai Passar, chegou ao cúmulo de criar uma personagem, o sambista Julinho da Adelaide, e, camuflado em seu pseudônimo, registrar a pérola Jorge Maravilha, cujo refrão mandava recado sonoro e dos mais insolentes para o general Ernesto Geisel: “Você não gosta de mim / Mas sua filha gosta”. No mesmo contexto, Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós compuseram Pesadelo, gravada pelo MPB-4 no álbum de 1972 do sugestivo título Cicatrizes, que continha, entre outras afrontas, frases como: “Você corta um verso / Eu escrevo outro / Você me prende vivo / Eu escapo morto”.


Capa do LP “Fa-tal – Gal a Todo Vapor” - Foto: Divulgação / Philips


Arte original do miolo interno de "Fa-Tal: Gal a Todo Vapor"

Foto: Divulgação / Philips




Mas houve também quem criasse e defendesse obras de extremo lirismo a partir de mensagens cifradas e subjetivas, especialmente jovens compositores e letristas que começavam a defender seus repertórios, como Luiz Melodia, o conterrâneo Jards Macalé e Waly Salomão, poeta baiano ligado a trupe tropicalista. Nesse período sombrio, em que dar continuidade a trajetória artística demandava abrir verdadeiras trincheiras, Waly (então sob o codinome Waly Sailormoon) dirigiu um dos espetáculos de maior simbolismo para dimensionarmos hoje o terror da era Médici. 

Em novembro de 1971, sob a batuta de Waly, Gal Costa subiu ao palco do Teatro Teresa Raquel para dar início ao espetáculo Fa-Tal: Gal a Todo Vapor. Composto de 19 canções, o show foi dividido em duas partes; uma acústica, com Gal e o violão em primeiro plano; outra, bem mais energética, conduzida pelo Lanny Trio, uma usina de som formada pelo guitar hero tropicalista Lanny Gordin, o baterista Jorginho Gomes, irmão de Pepeu, Baixinho, também do Novos Baianos, na tuba, além do contrabaixista Novelli. 

O título de uma reportagem de Teresa Gomes publicada na revista InTerValo quando da estreia do espetáculo sintetiza a experiência: “Gal Dá Um Show a Todo Vapor”. O conteúdo do texto, no entanto, é visivelmente comprometido para evitar a mordaça da censura. O que era um grito urgente contra o ambiente de terror instaurado no País foi tratado por Teresa como um lamento pelo fim da contracultura – que até definhava, mas, como veremos, o alvo de Gal era outro. 

“Gal Costa está no Teatro Teresa Raquel, no Rio, num espetáculo onde ela canta, meio amarga, que o sonho hippie acabou, que a cultura underground faliu”, diz o olho da reportagem, que logo após traça um perfil do público: “Grande massa da plateia era formada pelos jovens louquíssimos, com suas roupas exóticas, cabelos enormes, colares, anéis…”. 

No camarim de Gal, Teresa tentou aprofundar a pauta “declínio da era udigrudi”, mas não obteve sucesso: “Não sou cantora underground. Sou uma cantora e nada mais… O que eu sou é aquilo que se absorve da vida. Não sou nem do underground nem do establishment!”, afirmou Gal, que ainda deu à repórter da InTerValo uma pista profética “A orientação desse show é a renovação do repertório”. 

Um dos trunfos do espetáculo, a seleção de canções de Fa-tal reunia pérolas da velha guarda, como Falsa Baiana, de Geraldo Pereira, Antonico, de Ismael Silva, e Fruta Gogóia, tradicional tema do folclore baiano, ao lado de clássicos inistantâneos de amigos de Gal, como Dê Um Rolê, de Moraes Moreira e Luiz Galvão, dos Novos Baianos, Como 2 e 2, de Caetano, e Charles Anjo 45, de Jorge Ben. 

A histórica série de shows também carrega o mérito de ter sido determinante para consolidar os nomes de Luiz Melodia, ao revelar a primorosa Pérola Negra, Jards Macalé, Duda Machado e Waly Salomão, que escreveram dois retratos pungentes daquele início de década, Hotel das Estrelas (letra de Duda) e Vapor Barato (letra de Waly). Os versos reproduzidos abaixo escancaram que o alvo de Gal não era exatamente o ocaso da contracultura.

 

“Sobre um pátio abandonado / Profetas nos corredores / Mortos embaixo da Escada / No fundo do peito, esse fruto apodrecendo a cada dentada”
Excerto de Hotel das Estrelas

 

“Oh sim, eu estou tão cansado / Mas não pra dizer que eu estou indo embora / Talvez eu volte, um dia eu volto / Mas eu quero esquecê-la, eu preciso / Oh, minha grande, ah minha pequena, oh minha grande obsessão”
Excerto de Vapor Barato

 

Com esse lirismo combativo, que versava sobre as dores da permanência e do exílio como impossibilidades temporárias de uma subjetiva relação amorosa, o amor a nosso País, pouco depois, não por acaso, Waly, foi preso por portar um cigarro de maconha e amargou meses de cárcere no extinto complexo penitenciário do Carandirú, em São Paulo. Experiência que só tornou sua poética ainda mais incisiva e madura. Na solidão de sua cela, Waly escreveu, ainda sob a corruptela Sailormoon, o clásico Me Segura Qu’eu Vou Dar um Troço, publicado em 1972 pela José Álvaro Editor. 

Em maio de 1972, meses depois de encerrar a temporada de Fa-Tal, Gal concedeu extensa entrevista à revista O Bondinho, em um bate-papo informal com o repórter Myltinho Severiano. O plá, para usar aqui uma gíria da época, tratava da infância na Bahia, da enorme vontade de ser mãe (desejo jamais concretizado por ela), do reencontro com seu guru João Gilberto e do significado de sua permanência no Brasil, quando podia se dar ao luxo de viver dias bem mais amenos em outro país ou continente. A argumentação vem como um quebra-cabeça cronológico, a partir de um episódio-chave para a Tropicália, ocorrido em 13 de novembro de 1968, exatamente um mês antes de ser decretado o AI-5. 

“Cantei Divino Maravilhoso no Festival da Record. Anunciaram Caetano Veloso e Gilberto Gil e começaram as vaias. Entrei eu e a vaia dobrou. Vi a raiva e consegui entender. Quando passei pra frente do palco, as pessoas que estavam vaiando acabaram aplaudindo. Lembro que tinha uma menina me vaiando e eu fiquei com tanta raiva que olhei para ela e cantei: ‘É, é, é, é preciso estar atento e forte!’. Fui direto no olho dela, com uma violência tão grande que a menina parou e se sentou na cadeira. Era um acontecimento muito forte para mim. Uma coisa verdadeira. Depois, aconteceu a prisão de Caetano e Gil (seis meses depois, o exílio) e eu fazia o meu show pensando neles. Eu não podia fazer nada. O que eu podia fazer era gritar e cantar. Então, eu cantava por eles. Cantava pensando neles, cantava de uma maneira muito violenta. Era como se eu estivesse lutando por eles. Eu estava lá, junto com eles. Era o que eu podia fazer: cantar, cantar, cantar.” 

Em decorrência do sucesso de Fatal: Gal a Todo Vapor, em dezembro de 1971, a toque de caixa, a Philips decidiu transformar os registros do show em um álbum duplo. Com projeto gráfico ousado, de Luciano Figueiredo e Oscar Ramos a partir de fotos de Edison Santos e do cineasta Ivan Cardoso, claro, os dois LP’s tem precariedades técnicas. Problema característico de um período em que a indústria fonográfica do País ainda não dispunha de experiência e tecnologia para realizar gravações ao vivo com alta fidelidade. 

Mas esse demérito não faz a menor diferença. Quarenta e dois anos depois, as duas bolachas ainda fazem o coração bater forte, a voz embargar e as lágrimas caírem. É como um improvável túnel do tempo, que nos reporta, por meio dos músicos e da voz de Gal, ao passado de profundo torpor que adoraríamos poder reescrever. 

Como disse a mãe de Gal à Teresa, a repórter que foi abordar a cantora em seu camarim na estreia de Fa-Tal: “Gracinha dá vida às músicas que canta! Não é minha filha?!”. 

Verdade sem mentira, certo muito verdadeiro, diria o amigo Jorge Ben, Dona Mariá.

 


 

1971 - Revista Fatos e Fotos
Reportagem: Teresa Cristina





lunes, 17 de noviembre de 2025

2025 - MORRE JARDS MACALÉ

 

Jards Anet da Silva (Rio de Janeiro, 3 de março de 1943 — Rio de Janeiro, 17 de novembro de 2025 ), mais conhecido por seu nome artístico Jards Macalé.

“Sem Macalé não haveria Transa. Estou chorando porque ele morreu hoje. Foi meu primeiro amigo carioca da música. Antes de Bethânia imaginar que seria chamada para o Opinião, Alvaro Guimarães, diretor teatral baiano, me trouxe ao Rio para montar e mixar o curta para o qual eu tinha feito a trilha. Fui parar na casa de Macalé. E ele tocou violão. Me encantei. Ele tocou com Beta, lançou composições, chamei-o para Londres e: Transa. Na volta, ele e eu seguimos na música. Que a música siga mantendo a essência desse ipanemense amado. Beijo carinhoso para Rejane.”

Caetano Veloso







1965


1966


1969 - IV Festival Internacional da Canção [FIC]

GOTHAM CITY (Jards Macalé/José Carlos Capinam)
Jards Macalé e 
Os Brazões




1971 - Londres - Foto: Pedro Paulo Koellreutter




Jards Macalé atua (cego Firmino) e assina a Trilha Sonora de 

“O Amuleto de Ogum”  (1974),  filme dirigido por Nélson Pereira dos Santos.







20/9/2025 - Maria Bethânia e Jards Macalé - VIVO RIO





18 de novembro de 2025


Caetano Veloso no velório de Jards Macalé


18/11/2025


Familiares e amigos se despediram do cantor e compositor Jards Macalé em velório no Palácio Gustavo Capanema, no Centro do Rio, na Sala Sidney Miller, nesta terça-feira (18/11/2025).

A cerimônia de despedida foi aberta ao público e realizada das 10h às 15h.  

Viúva do músico, Rejane Zilles foi uma das primeiras pessoas a chegarem ao velório e recebeu o apoio dos amigos, como do ator Luis Miranda. Ela estava bastante emocionada. As atrizes Elisa Lucinda, Bete Mendes e Emanuelle Araujo, que estava acompanhada do marido, Fernando Dinz, também compareceram à cerimônia de despedida, assim como Paulinho da Viola, Paula Lavigne e Caetano Veloso.














martes, 3 de noviembre de 2015

2003 - XI BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DO RIO DE JANEIRO



19/5/2003

“A palavra poética” homenageia Waly Salomão, que faria parte da mesa. Caetano Veloso se junta a Antônio Cícero, Armando Freitas Filho e Claudia Roquette-Pinto, lendo trechos de poemas de Waly. No Café Literário.
 

19/05/2003
Caetano Veloso homenageia Waly Salomão na Bienal

GIOVANA MOLLONA
free-lance para a Folha Online, no Rio

Com a morte do poeta e letrista da música popular brasileira Waly Salomão, no último dia 5, o Café Literário "A palavra poética", realizado hoje no Pavilhão Verde do Riocentro, transformou-se numa grande homenagem a ele.

Secretário Nacional do Livro e Leitura, Waly participaria da mesa que, mesmo com sua ausência, seguiu a programação, mas com uma presença a mais: a do cantor e compositor Caetano Veloso, amigo do poeta havia 40 anos.

"Até na hora de morrer Waly foi muito pessoal: foi embora de forma surpreendente e intensa. Falo aqui de forma alegre sobre ele, mas ainda não me acostumei com sua partida", disse Caetano, visivelmente emocionado.

Na platéia, estavam os filhos de Waly, Kalid e Omar, as irmãs de Caetano Veloso, Mabel e Clara Maria, e sua sobrinha, a cantora Belô Veloso. O café ficou lotado.

O evento, cujo nome foi escolhido pelo próprio Waly, contou também com as participações dos poetas Antonio Cícero e Cláudia Roquette-Pinto, além do presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Pedro Corrêa do Lago, que assumiu interinamente a direção da Secretaria Nacional do Livro e da Leitura.

"Minha amizade com Waly foi de apenas quatro meses, mas sinto que neste pouco tempo fizemos uma longa caminhada", comentou Corrêa do Lago que, em seguida, leu um poema em sua homenagem.

"Acho que eu não o agradei de início", disse Caetano, lembrando do momento em que conheceu o poeta. Em seguida, leu um trecho de seu livro, "Verdade Tropical", relembrando passagens da amizade com o poeta, e cantou um trecho de "Mel", cuja letra é de Waly Salomão.

Ao contar passagens de sua amizade com Salomão, Caetano Veloso fez o público rir. "Ele me falava: 'dizem que Deus não dá asas às cobras, mas para esta [Caetano], ele deu", contou o cantor, que disse considerar a frase que o poeta repetia como um elogio. "Ele também costumava me chamar de 'Soninha, toda pura', por causa desse meu jeito, mais calmo, apaziguador."

Outro que também provocou risos na platéia ao lembrar do poeta foi Antonio Cícero. Os dois se conheceram nos anos 70 e, para Cícero, o que mais lhe chamava a atenção em Salomão era seu espírito anárquico.

"Nos conhecemos na casa de d. Mariá, mãe de Gal Costa. Naquela ocasião, lembro-me que ele entrou na sala e começou a declamar uns poemas horrorosos. Todos já estavam se entreolhando quando a mãe de Gal Costa, furiosa, começou a esbravejar: 'Ladrão! Ladrão!'. O Waly teve a capacidade de decorar os poemas de d. Mariá para nos pregar uma peça."

No encontro, Caetano Veloso e Antonio Cícero também frisaram a importância de Hélio Oiticica na carreira do poeta. "Hélio foi o primeiro a ver o Waly como escritor", disse Caetano.

Durante o bate-papo, os convidados leram poesias, inclusive as de autoria do homenageado. Questionado sobre o que ela achava ter mudado em Waly desde a época em que se conheceram, Caetano, em tom de brincadeira, resumiu: "Ele era mais magro".

Waly Salomão morreu no último dia 5, na Clínica São Vicente, na Gávea (zona sul do Rio), onde estava internado para tratamento de um câncer no fígado.




 



















Agencia Estado
05 Maio 2003

Amigos dão adeus a Waly Salomão

O velório do poeta e compositor Waly Salomão, no sagüão nobre da Biblioteca
Nacional, na Cinelândia, é acompanhado por amigos de uma vida inteira, como acolega de tropicalismo Gal Costa. Ela lembrou a irreverência de Waly e se
mostrou chocada com a morte rápida - ele descobrira o câncer no intestino haviaapenas duas semanas. Gal disse que a morte do compositor - autor de seu grande sucesso Vapor Barato, em parceria com Jards Macalé - foi uma supresa para ela.
 
"Para mim foi uma surpresa, a pior possível. Estou chocada, angustiada, triste esaudosa. É horrível ver morrer um cara tão jovem e num momento legal da vidadele", disse, em referência ao cargo de Secretário Nacional do Livro e da
Leitura, que lhe foi dado pelo amigo Gilberto Gil, ministro da Cultura, e lhe
deixara empolgado. Gal lembrou da convivência com Waly, baiano como ela e
natural de Jequié, na época do movimento tropicalista. "Ele cresceu com a gente.

Foi um cara importantíssimo na minha vida. Era um amigo presente, que me davaforça e me incentivava, um cara catalizador, que foi um nome importante namúsica, na literatura e nas artes plásticas." A cantora destacou ainda a maniade Waly de fazer piadas sobre tudo, o que também foi lembrado pela cantora Preta Gil, que foi ao velório com a mãe, Sandra Gadelha. "Ele era a pessoa maisescrachada que eu conheci, depois de mim. Grande parte da minha personalidadefoi influenciada por ele, já que cresci com sua presença. 

Ele era como um tio, irmão da minha mãe. São todos da mesma geração, vieram juntos da Bahia", disse Preta. O velório estava marcado para as 16 horas, mas o corpo só chegou às 17h30, quando já era aguardado por amigos como Jards Macalé, Antônio Cícero,Scarlet Moon e André Midani. Também Caetano Veloso e Adriana Calcanhotoatenderam ao velório do amigo. O ministro Gilberto Gil, pai de Preta, é esperado na Biblioteca Nacional à noite, já que esteve reunido com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tratar da polêmica envolvendo as novas diretrizes deconcessão de patrocínios pelas empresas estatais, rechaçadas por cineastas e produtores. Jorge Salomão, irmão do poeta, contou que esteve com ele pela última vez há uma semana. "Foi tudo muito rápido. Da última vez que o vi, ele percebeu que eu estava choramingando e, daquele jeito dele, me mandou cuidar da minha vida." Salomão contou que ele e o irmão tiveram contato com os livros desde crianças. "Waly foi estudar em Salvador e me estimulou a ir também. Em Salvador, ele e os outros baianos fizeram uma verdadeira revolução." O produtor cultural Ricardo Cravo Albim disse que Waly "era muito mais do que um poeta, do que um extradionário agitador cultural, do que um estupendo diretor de shows - os mais lindos que a MPB já teve. Waly era múltiplo, poliforme, quase tanto quanto Mário de Andrade. Ele ele era uma centena." Albim disse que "todos nós ficamos desoladamente mais pobres." Trinta músicos do Grupo Cultural Afroreggae, formadopor jovens da Favela Vigário Geral e apoiado por Waly, também prestaram homenagem.




6/5/2003


Waly Salomão fará falta no Ministério da Cultura, diz Gil

RIO DE JANEIRO (Reuters) - O Ministro da Cultura Gilberto Gil admitiu que terá dificuldades em substituir Waly Salomão na Secretaria Nacional do Livro e da Leitura. A declaração foi feita durante o velório do poeta que acontece até as oito da manhã desta terça-feira na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

"Não há indicação ainda para o cargo. Vai ser uma tarefa difícil. Waly vai fazer muita falta na equipe do ministério. Ele era a pessoa certa para o cargo que ocupava", comentou.

Gil ressaltou a importância de Waly para a cultura nacional. "Ele fazia parte de um grupo de artistas baianos que movimentou a cultura do país, entre eles, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia".

O ministro chegou no final da noite de segunda-feira ao velório depois de uma reunião em Brasília com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A pedido do escritor não haverá enterro. O corpo vai ser cremado às 9h desta terça-feira no Cemitério do Caju, na zona portuária do Rio.

Waly, de 59 anos, morreu às 7h40m, na Clínica São Vicente, no bairro Gávea, no Rio de Janeiro, onde estava internado há duas semanas para tratamento de um câncer.

A produção do programa "Comentário Geral", veiculado pela Rede Brasil de emissoras educativas, no qual Salomão era um dos comentaristas, disse à Reuters que estão sendo estudadas formas para homenagear o poeta.

A equipe realizou uma reunião na segunda-feira para discutir formas de abordar a morte do poeta na próxima edição do programa, na quarta-feira. Uma das possibilidade é reprisar antigas participações de Waly. Outra proposta é a de realizar um programa inteiro sobre ele com os demais comentaristas falando da importância de Waly para a cultura nacional.

Em nota oficial, o Ministério da Cultura lamentou a morte do poeta. "A tristeza tomou conta do Ministério da Cultura e de toda a inteligência brasileira", diz a nota.

"A morte do poeta, um apaixonado pelos livros, pelas bibliotecas, pelo prazer da leitura, pelo texto bem construído e pela poesia ousada, musical, deixa um vácuo imensurável na cultura brasileira", destacou. Nascido em Jequié, na Bahia, Waly já trabalhara na esfera política com Gil na administração municipal de Salvador nos anos 80, junto com outros atuais homens de confiança do ministro da Cultura, como Antonio Rizério e Roberto Pinho.

Além de poeta premiado, Waly é letrista de diversos clássicos da canção brasileira, em parcerias com Macalé, Caetano Veloso e com o próprio Gilberto Gil.

Waly também escreveu letras para músicas gravadas por Gal Costa, Maria Bethânia, Cazuza, Lulu Santos e João Bosco, entre outros.

Ele participou do movimento cultural Tropicália, na década de 60, que misturou temas e palavras americanas aos utilizados pela popular Bossa Nova.

Em abril de 1998, dois meses depois de sofrer um infarto Waly Salomão escreveu um poema intitulado "Post-mortem", incluído no livro "Lábia":



Waly Dias Salomão (Jequié, 3/9/1943 — Rio de Janeiro, 5/5/2003 


Jorge Mautner e Jards Macalé

Velório do poeta Waly Salomão na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro. 




Segunda-Feira, 5 de Maio de 2003  

Corpo de Waly Salomão será cremado no Rio

(Por Luiz André Ferreira, especial para Reuters)

RIO DE JANEIRO (Reuters) - O corpo do poeta Waly Salomão estava sendo velado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro na tarde de segunda-feira, enquanto família e amigos se reuniam para prestar uma última homenagem ao também secretário nacional do Livro e da Leitura do Ministério da Cultura.

A pedido do escritor não haverá enterro. O corpo será cremado às 9h de terça-feira no Cemitério do Caju, na zona portuária do Rio.

Waly morreu aos 59 anos na manhã desta segunda-feira na Clínica São Vicente, onde estava internado há duas semanas para tratamento de um câncer.

A produção do programa "Comentário Geral", da Rede Brasil, do qual Salomão participava, revelou à Reuters que também pretende fazer um preito ao artista baiano em sua próxima exibição na quarta-feira.

Algumas das opções de homenagem discutidas pela equipe de produção seriam reprisar antigas participações de Waly ou realizar um programa inteiro sobre ele com todos os demais comentaristas falando de sua importância.

Em nota oficial, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, lamentou a morte do poeta. "A tristeza tomou conta do Ministério da Cultura e de toda a inteligência brasileira. A morte do poeta, um apaixonado pelos livros, pelas bibliotecas, pelo prazer da leitura, pelo texto bem construído e pela poesia ousada, musical, deixa um vácuo imensurável na cultura brasileira".

Nascido em Jequié, na Bahia, Salomão foi parceiro de Gil na administração municipal de Salvador nos anos 1980, juntamente com outros homens de confiança do ministro como Antonio Rizério e Roberto Pinho.

Além de poeta premiado, ele foi letrista de diversos clássicos da canção brasileira, em parcerias com Jards Macalé, Caetano Veloso e com o próprio Gil.

Salomão também escreveu letras para músicas gravadas por Gal Costa, Maria Bethânia, Cazuza, Lulu Santos e João Bosco. Ele participou da Tropicália, na década de 1960.

Em abril de 1998, dois meses depois de sofrer um infarto, Waly Salomão escreveu um poema intitulado "Post-mortem", incluído no livro "Lábia".

Seu primeiro livro, "Me Segura que Eu Vou Dar um Troço", de 1971, foi diagramado pelo artista plástico Hélio Oiticica, amigo íntimo e de quem escreveu a biografia "Qual É o Parangolé".

Publicou também "Gigolô de Bibelôs", "Surrupiador de Souvenirs", "Algaravias", "Tarifa de Embarque" e "O Mel do Melhor", lançado em 2001.