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jueves, 29 de junio de 2023

2003 - IV FESTIVAL LATINO INTERNACIONAL "PARA VIGO ME VOY" - Caetano Veloso


28 de julho - 1 de agosto de 2003

Auditório de Castrelos, Vigo, Espanha



2 de julho de 2003  

CAETANO VELOSO

(Apresentação do festival)



2003 - Bibiano Morón (promotor del evento), com Caetano Veloso em Vigo
Foto: Faro de Vigo








miércoles, 10 de julio de 2019

2019 - PORTUGAL / "SOU SEBASTIANISTA"




Concertos:
Coliseu do Porto. 1 de julho, segunda 22h.
Centro de Artes e Espetáculos, Figueira da Foz. 3 de julho, quarta 20h.
Coliseu dos Recreios, Lisboa. 5 de julho, sexta 22h.
Teatro Micaelense, Ponta Delgada. 7 e 8 de julho, domingo e segunda 21h30.
Teatro das Figuras, Faro. 10 de julho, quarta 21h30.




OBSERVADOR







Gonçalo Correia


Caetano Veloso: “Estive sempre certo que não teria filhos. Para ser sincero, nem gostava de crianças” / premium

29 Junho 2019

Mudou de opinião e após ser pai sentiu “que tinha vivido até ali sem saber de verdade o que era existir”. Volta agora a Portugal com os filhos para mais espetáculos. E quer gravar com Júlio Resende.

Como diriam os brasileiros, “demorou” até que Caetano Veloso sequer pensasse em cantar com os filhos em palco — como tem vindo a fazer desde outubro de 2017 e fará novamente na próxima semana, em cinco cidades portuguesas: Porto, Figueira da Foz, Lisboa, Ponta Delgada e Faro. Não foi só a relutância dos mais novos, Zeca (27 anos) e Tom (22 anos), que até há pouco tempo nem queriam ouvir falar na ideia. Foi também a relutância inicial de Caetano em ter filhos: durante muito tempo, um dos grandes mestres da canção brasileira, para alguns o mestre (Chico que nos perdoe), nem quis ouvir falar de crianças.

A confissão foi agora feita ao Observador, por e-mail, a propósito de um “pretenso desejo” de ser pai. “Sempre tive certo que nunca os teria”, começou por escrever, logo acrescentando: “E nisso tinha a total concordância de Dedé [Andréa Gadelha]”, sua primeira mulher e futura mãe do seu primeiro filho, Moreno Veloso (nascido em 1972, quando Caetano tinha 30 anos). Os dois eram, como o próprio músico e cantor brasileiro agora recorda, “um casal existencialista de Salvador”, que na “adolescência” decidiu, “como Sartre e Simone”, nunca ter filhos.


Caetano, Moreno, Tom e Zeca Veloso vão voltar a apresentar o espetáculo "Ofertório" em Portugal. 

Os anos anteriores a Caetano Veloso ser pai pela primeira vez também não andavam a ser propícios à paternidade. Em julho de 1969, quase a fazer 27 anos e já depois de ter ficado quase dois meses preso (com Gilberto Gil) por ordem da ditadura militar brasileira, Caetano partiu rumo a Londres, onde começou um exílio político.

O primeiro ano no Reino Unido (esteve lá dois anos e meio) não foi meigo para o músico, que se sentia “algo depressivo”. No ano seguinte, “as coisas melhoraram”: Caetano recebeu a visita de alguns compatriotas artistas, como Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Sousa, que o ajudaram a gravar um dos seus álbuns mais emblemáticos em toda a carreira.

Intitulado Transa, o grande álbum do exílio britânico de Caetano Veloso foi editado logo no primeiro mês do ano que o músico considera hoje como um dos mais importantes da sua vida. Afinal, foi aquele em que viu nascer o primeiro filho. Enquanto gravava o disco, ainda no ano anterior, 1971 — já depois de ter tido autorização do regime brasileiro para uma visita breve ao país, para assistir à comemoração dos 40 anos de casamento dos pais, José Teles Veloso e Claudionor “Dona Canô” Veloso — o músico estava com outro estado de espírito. “Fiquei mais alegre, menos desgostoso com Londres” — começou até “a amar mais os bancos dos parques, a grama [relva], a calma…”, recorda agora ao Observador.


Caetano, que “para ser sincero, nem gostava de crianças”, de repente começou a ter vontade de ter um filho. “Dizem que esse sinal do relógio biológico só acontece com mulheres, mas foi exatamente assim que aconteceu comigo”, lembra, dizendo que passou “a amar até anúncios da Johnson&Johnson na TV"

Caetano, que “para ser sincero, nem gostava de crianças”, de repente começou a ter vontade de ter um filho. “Dizem que esse sinal do relógio biológico só acontece com mulheres, mas foi exatamente assim que aconteceu comigo”, lembra, dizendo que passou “a amar até anúncios da Johnson&Johnson [multinacional dona da linha de produtos Johnson’s Baby] na TV”.

Foi preciso convencer a mulher “Dedé” de que abandonar o modelo de relação inspirado em Sartre e Simone de Beauvoir era uma boa ideia, admite Caetano Veloso.
Conseguiu, porém, levar a sua avante — e quando Moreno Veloso nasceu, Caetano sentiu “que tinha vivido até ali sem saber de verdade o que era existir”. O filho mais velho, aponta, foi “o maior acontecimento de minha vida adulta”. Passados 20 anos, nascidos já não nos anos 70 mas nos anos 90 — e filhos já não de Dedé, mas da atriz, produtora e empresária Paula Lavigne — Tom e Zeca Veloso “vieram para confirmar” que afinal ser pai até é bom, pelo menos para ele. “À medida que eles crescem e amadurecem, fico mais certo que é assim”, refere.

Como Caetano convenceu os filhos a ir para os palcos com ele

Mais velho, Moreno Veloso é o único dos três filhos de Caetano com uma carreira consolidada na música, como compositor e cantor — já deu concertos em Portugal e lançou discos, o mais imprescindível dos quais Coisa Boa, de 2014 — e como produtor. É, também, o filho de Caetano com uma relação mais estreita com a obra do pai, para quem já compôs, com quem já cantou e com quem já trabalhou também enquanto produtor musical. Pelo filho mais velho, talvez o espetáculo “Ofertório” já tivesse acontecido há mais anos. Foram os seus irmãos mais novos, Zeca e Tom, que levaram mais tempo a aderir com entusiasmo à ideia de uma digressão familiar e íntima, que entretanto já deu origem a um disco ao vivo e a concertos esgotados no Brasil e em Portugal.

A experiência musical menos acentuada dos filhos mais novos não foi motivo único para que a ideia de Caetano ficasse algum tempo a marinar. Tom Veloso, por exemplo, não se juntou logo até por intervenção da mãe e ex-mulher de Caetano, Paula Lavigne: “Ela recusou a ideia por o nosso filho Tom estar, àquela altura, começando os trabalhos com a banda Dônica”, que o “caçula” da família formou com “um grupo talentosíssimo de colegas dele”, refere Caetano Veloso, acrescentando que a ex-mulher “viu que não deveríamos atrapalhar o começo da vida dessa nova banda”. O pai percebeu a mensagem, “não voltei a falar no assunto”, mas a banda do filho mais novo lançou depois um recomendável primeiro álbum ainda (Continuidade dos Parques), apresentou-o ao vivo e Paula Lavigne disse ao antigo marido “que talvez já fosse possível tratar do assunto”.

Se dois terços dos “colaboradores” até poderiam estar já quase convencidos, faltava aferir da disponibilidade do terceiro, Zeca Veloso, mais velho que Tom (tem 27 anos) mas sem qualquer disco ou canção publicamente revelada — e por isso o convidado mais “sensível”. Tudo se complicou: “Ele recusou. Desisti. Nem falei com os outros dois”. Zeca levou “um bom tempo” a mudar a resposta de “não quero” para “admitia tentar fazer” — e só depois disso é que Caetano falou com os outros dois filhos, que “não apresentaram nenhum entrave” e “aceitaram com naturalidade”.

Finalmente, os três filhos estavam sintonizados com a vontade do pai em fazer uma digressão de concertos em família. Estava convencido Tom, que em criança “só se interessava por futebol” (jogou federado no Fluminense, embora “fosse e seja Flamengo doente”) e não gostava sequer que o pai cantasse para o por a dormir — mais tarde aprendeu guitarra com o músico brasileiro César Mendes e é hoje o que melhor a toca dos quatro, garante o pai. Estava convencido também Moreno, cuja relação com a música começou mais cedo mas que não a teve nunca como paixão única: “Gostava de matemática e é formado em física”, tendo inclusive participado “na elaboração do laboratório de pequenas partículas que existe hoje na Universidade Federal do Rio de Janeiro”. Estava também finalmente convencido Zeca, que “quis aproximar-se da música eletrónica na adolescência” e “antes de fazer 18 tocava em lugares, em mini raves, até em clubes noturnos, mentindo a idade” — mas que “só depois de adulto é que começou a fazer essas canções dele que vão direto ao coração da gente”, aponta Caetano.

"Quando ensaiávamos (e não ensaiámos muito), eu achava o show muito vulnerável e talvez incapaz de ter uma carreira profissional de fôlego médio, muito menos de longo alcance. Temi mesmo que pudesse causar estranhamento e talvez até alguma hostilidade", admite Caetano, sobre o espetáculo familiar

Os três começaram os ensaios, o que deliciou Caetano. “É algo muito físico e muito espiritual. Que eles tenham chegado perto de mim na música, é uma glória para minha alma”, diz Caetano Veloso. Durante algum tempo, porém, Caetano Veloso não imaginou que a digressão pudesse durar dois anos e resultasse em mais do que um concerto dado na mesma sala, como admite por e-mail: “Quando ensaiávamos (e não ensaiámos muito), eu achava o show muito vulnerável e talvez incapaz de ter uma carreira profissional de fôlego médio, muito menos de longo alcance. Temi mesmo que pudesse causar estranhamento e talvez até alguma hostilidade”.



O sucesso dos concertos em família e a revelação Zeca Veloso

O sucesso do espetáculo, mais simples que espetacular, mais íntimo que com grandes efeitos e artifícios, foi tão inesperado para Caetano Veloso quanto retumbante, como se percebe pelas reações aos espetáculos em Portugal no verão passado. “Para nossa surpresa, desde a noite de estreia, nosso espetáculo ganhou as plateias pelo que tem de sincero e particular. Vemos as cidades por onde já passámos a convidar-nos de volta e milhares de pessoas” a relatar a sua “emoção diante de nosso timbre e nosso repertório”, aponta Caetano Veloso.


Moreno, Zeca e Tom fizeram Caetano Veloso feliz

Depois do Porto, o músico brasileiro esteve no Coliseu de Lisboa com os três filhos. Sambaram, festejaram e ainda se ouviu "Amar pelos dois" e "Noite de Santo António" de Amália Rodrigues.

Por Catarina Gonçalves Pereira

O repertório inclui clássicos como “Leãozinho” — “os filhos de tanta gente pedem, os meus não deixaram de pedir”, disse Caetano Veloso logo na apresentação oficial da digressão —, canções como “Reconvexo”, que Caetano Veloso escreveu para a irmã Maria Bethânia e temas originais de cada um dos quatro elementos do clã Veloso, alguns dos quais nunca antes mostrados (inclusive composições inéditas de Caetano).

Curiosamente, talvez o maior êxito entre as canções novas apresentadas nesta digressão até se deve sobretudo àquele que até aqui não tinha nunca revelado uma canção sua publicamente: Zeca Veloso. “Todo Homem”, que Zeca canta com delicadeza, voz aguda e falsetto de rapaz sensível, tornou-se sucesso do Youtube (foi parar às “tendências”, em linguagem técnica, e lá ficou muito tempo), nas plataformas de streaming, nos concertos, no Brasil, em todo o lado. Caetano ficou surpreendido e não foi por duvidar da qualidade da canção, que lhe causou “forte impressão e emoção profunda” logo na primeira vez que a ouviu, “só com ele ao violão, em casa”.

Ao Observador, o pai explica a surpresa com o sucesso de “Todo Homem”: “Fico maravilhado ao ver que milhões de pessoas que não conheciam o Zeca tenham captado o essencial do que ele é. A canção é tão ele, que pensei que só alguém que o conhecia tão bem como eu a poderia entender. Tom foi a primeira pessoa a ouvi-la: eu estava dormindo e Zeca, tendo acabado de a compor, sentiu necessidade de mostrar e foi à praia, onde sabia que Tom estaria, e finalmente a cantou para o irmão. Este ouviu calado e disse: meu pai vai gostar. Acho que Tom tampouco sabia que as pessoas que não conheciam Zeca como eu iriam ficar tomadas por essa composição e pelo jeito como Zeca a canta”.

Com Resende e Sobral na Eurovisão: “Fiquei nervoso e não creio ter ajudado muito”

Caetano Veloso está habituado “à doçura do público português” — diz o próprio —, Moreno também porque “já fez espetáculos em Portugal”, Zeca e Tom poderão ter ficado mais surpreendidos com as palmas nos concertos e com a receção fora das salas de espetáculo. Num voo de Barcelona para o Porto, por exemplo, um grupo de portugueses decidiu homenagear Caetano — que estava sentado com os filhos no avião — cantando um tema seu. “Pessoalmente, fiquei surpreso. Nem imaginava que aquelas pessoas que estavam voltando de um casamento me tivessem visto ou lembrado de me haver visto [antes de embarcar] no aeroporto de Barcelona”, diz agora.

Uma prova maior da ligação de Caetano Veloso e do seu filho mais velho, Moreno Veloso, a Portugal foi a interpretação deste último do tema “Noite de Santo António”, nos concertos do último verão em Lisboa e Porto. Perguntámos a Caetano Veloso de onde veio a ideia e se é para repetir, ele respondeu: “Acho irresistível ouvir Moreno cantar ‘Noites de Santo António’. Há outras marchinhas que ele e eu conhecemos e que talvez ele prefira cantar, para variar. Mas, por meu gosto, ele repetiria aquela, que tanto me comove. Ele aliás passou a noite de Santo António em Alfama, este ano”. Já o pai estava “na Bahia, cantando os cânticos tradicionais da Trezena, junto a nossos familiares”.

"Amo o piano de Júlio [Resende]. Ainda hei-de gravar alguma(s) coisa(s) com ele", diz Caetano. Também gosta de Carminho, Mariza, António Zambujo, Salvador Sobral, Sérgio Godinho, Rui Veloso, Maria da Fé, Capicua e "muito do que há de angolano e cabo-verdiano desenvolvendo-se em Portugal”

No verão passado, na única vez que vieram a Portugal para espetáculos familiares, os elementos do clã Veloso conviveram com alguns músicos portugueses como Carminho, António Zambujo, Salvador Sobral e Júlio Resende. Caetano diz que gostou “sempre” de música portuguesa e foi “amante do fado na infância e adolescência”, continuando “a sê-lo” hoje. Por causa disso, ouve “Marizas e Carminhos — além de Camanés e Zambujos — há décadas. Maria da Fé é citada em minha ‘Língua’, coisa de que muito me orgulho”. O gosto pela música portuguesa, contudo, não se restringe ou fado: Caetano cita Sérgio Godinho e Rui Veloso, “o rap de Capicua”, o “caso único que é Salvador Sobral” e “muito do que há de angolano e cabo-verdiano desenvolvendo-se em Portugal” como alvo de apreço.

Quem também mereceu palavras elogiosas do autor de discos como Bicho (1977), Cinema Transcendetal (1979) e Circuladô (1991) foi Júlio Resende. O cantor e compositor brasileiro partilhou palco com o pianista português e com Salvador Sobral na final do Festival Eurovisão da Canção de 2018, em Lisboa, dando origem a um dos momentos mais marcantes da noite e dos últimos anos de festival. Garantindo ter ficado “honrado com o convite” e ter adorado ouvir Sobral “cantando aquela música singela e forte, em meio dos fogos de artifício da Eurovisão”, revelou vontade de gravar com Júlio Resende: “Amo o piano de Júlio. Ainda hei-de gravar alguma(s) coisa(s) com ele”. Modesto, diz que o seu contributo para aquela versão de “Amar Pelos Dois” foi parco: “Fiquei nervoso e não creio ter ajudado muito meus admirados colegas. Mas foi uma realização de monta para mim estar ali”.

Também parco é o comentário que faz ao estado atual da política brasileira, que descreve apenas como “lastimável”, contrariamente ao esforço coletivo que diz ver no “povo” brasileiro para “crescer — não crescer como a China ou os Estados Unidos, mas crescer em humanidade, enfrentar o desafio que é ser o único país de língua portuguesa das Américas, altamente miscigenerado e com dimensões continentais”.

Sem um álbum a solo de originais desde que editou o bem-recebido Abraçaço, em 2012, Caetano Veloso não está com pressa para editar um novo disco, mas já tem na mira o momento de se dedicar a compô-lo. Ao Observador, revela que tem andado “mergulhado e apaixonadamente envolvido” nesta digressão familiar, tendo apenas feito recentemente canções para a irmã Maria Bethânia (“De Santo Amaro a Xerém”, um “samba-de-roda bem simples” que esta canta com Zeca Pagodinho) e para a cantora e compositora, também brasileira, Céu (“Pardo”). Mas um novo álbum virá mesmo: “Depois de quase dois anos de ‘Ofertório’, comecei a desejar compor e a ser assediado por ideias de letras, melodias, sons. Suponho que, se o tempo der, farei algumas canções e gravações até ao fim deste ano. Se não, [será] no começo do [ano] que vem”.

Até pelo menos à ponta final de 2019, Caetano só pensará em estar e tocar com os filhos. Se as bandas tantas vezes se dissolvem porque o baixista se farta do vocalista, o teclista embirra com o guitarrista, o baterista não suporta ninguém, neste agrupamento familiar também poderá haver discórdias (alguma família é imune?) mas a longevidade é prova de boa saúde. “Fiquei perto dos meus filhos tanto quanto pude, desde que cada um nasceu minha vontade era estar todo o tempo com eles”, diz Caetano, que admite que esta digressão também existe devido ao desejo “de tê-los por perto”, porque “os meninos crescem e não querem ficar tanto tempo assim com os pais”. Com “Ofertório”, pelo menos “durante hora e meia de show, mais meia hora de soundcheck, alguma mais em aeroportos e em transportes, posso os estar vendo e ouvindo”. Felizmente, não é o único.





Caetano Veloso: "Sou sebastianista"

O músico brasileiro que hoje tem concerto marcado com os filhos no Coliseu de Lisboa esteve num debate sobre o documentário Netflix Democracia em Vertigem, de Petra Costa. Caetano Veloso revelou ao DN a sua vertigem cinéfila...

Rui Pedro Tendinha

05 Julho 2019

Caetano Veloso - © Pedro Granadeiro / Global Imagens

"O cinema foi a minha primeira paixão", conta ao DN Caetano Veloso, convidado de uma sessão especial de Democracia em Vertigem, um filme de Petra Costa, num Cinema Ideal a abarrotar. O filme que está em streaming na Netflix passou em Lisboa numa iniciativa do centro comunitário Casa Mídia Ninja Lisboa, site criado para dar voz ao povo brasileiro.


Um documentário que narra o historial da queda de Dilma Rousseff até à chegada de Bolsonaro. Cinema de denúncia com uma ideia marcante de narração na primeira pessoa - o efeito da crise democrática do Brasil é como um trauma pessoal para Petra Costa, filha de pais revolucionários nos tempos da ditadura militar.

O debate em torno do filme colocou lado a lado a realizadora e Caetano, fã do filme que começou a sua intervenção no palco do Ideal a dizer que já o viu duas vezes e que ainda vai ver uma outra. Uma hora depois, numa mesa do bar do cinema garante ao microfone do Diário de Notícias que acredita realmente em Democracia em Vertigem: "O cinema ainda pode ser uma arma. O filme de Petra é uma prova disso. Este filme está a causar um grande impacto! É um filme forte, capaz de ensinar o Brasil aos brasileiros e a quem não é brasileiro. Quem não está por dentro do problema atual que veja este filme!"

Caetano está também convencido de que se trata de uma obra que incomoda: "O problema é que poderia incomodar muito mais a opinião pública no Brasil se a grande imprensa não olhasse de lado, mas claro que depende... Quando os filmes têm uma presença grande internacionalmente não há como não noticiar... Neste momento, a imprensa no Brasil está a ter que enfrentar a inimizade que o governo está a criar depois das eleições, mesmo os grandes jornais e a emissora que pertence às grandes famílias ou, mais recentemente, a uma igreja evangélica".

E é de cinema que Caetano fala com um sorriso que traz ternura. "Sabe que eu nos anos 1960 escrevi crítica de cinema?", pergunta a rir. Vem também à conversa Cinema Falado, filme-ensaio que realizou em 1986: "nossa! Isso já foi há tanto tempo! Continuo a gostar muito de ver cinema! E o cinema brasileiro está a reagir muito bem a este período negro. Democracia em Vertigem já bastaria, mas a Petra não é a única cineasta a fazer este tipo de cinema. Diria que Democracia em Vertigem é quase um complemento a O Processo, de Maria Augusta Ramos, embora o da Petra seja um processo mais íntimo e detalhado".

Uns minutos antes, na sala e para o público, Caetano falava de como a influência da colonização portuguesa formava vícios anti-democráticos nas famílias que mandam no Brasil e lembrava que os seus apelidos são portugueses... Sobre este tema é o próprio músico que admite a possibilidade dos recorrentes equívocos: "Quando se fala da colonização portuguesa no Brasil há sempre mal-entendidos e esses mal-entendidos são normais num país tão mal resolvido como o nosso. Mas o que incomoda? Gosto muito do livro da Alexandra Lucas Coelho, Deus-dará. Ali está tudo o que acho ser importante saber desse tema. Seja como for, sou suspeito: de certa maneira sou sebastianista... De uma certa mirada, é uma benção termos sido colonizados pelos portugueses. A expansão da Europa com as colonizações é brutal! E o facto de termos herdado a língua portuguesa é óptimo para nós. Dou graças ao facto de o português não ter tanta expressão na América".

Apesar de ter admitido que chorou a ver Democracia em Vertigem, Caetano contou ao público do Ideal que sentiu que é possível ainda ter esperança numa utopia de mudança: "Temos que olhar para a eleição de Bolsonaro como um percalço de um caminho. Se não aparecem percalços, não há caminho. Enfim, um percalço tão evidente é mesmo prova de caminho e exigência de ação! Mas a ação tem de ser feita de uma maneira muito cuidadosa". E também a realizadora Petra acredita que é preciso acreditar numa mudança: "sei que a História tem sempre mais imaginação do que nós. O Chris Marker já dizia isso num filme seu. É claro que estou surpreendida de forma traumática com a realidade mas tenho mesmo essa fé que a História tenha imaginação para dar a volta".

Os aplausos comovidos foram de uma plateia maioritariamente brasileira mas também foram notadas presenças de figuras das artes portuguesas como Maria de Medeiros; Tomás Wallestein, dos Capitão Fausto; Sérgio Godinho; Carminho ou o produtor Luís Urbano.




martes, 11 de diciembre de 2018

2000 - PRENDA MINHA - Turnê européia


Paris, 13/6/2000 - Foto: Frederic Reglain


4/6/2000 - Basel - Suisse - Stadt Casino
5/6/2000 - Zurich - Suisse - Kongress Saal


7/6/2000 - Koln - Germany - Philarmonic Hall

9/6/2000 - Telaviv - Israel - Perf Arts Center
10/6/2000 - Telaviv - Israel - Perf Arts Center


13/6/2000 - Paris - France - Teatre Grand Rex

15/6/2000 - Londres - England Barbican
16/6/2000 - Londres - England Barbican


17/6/2000 - Bruxelles - Belgique - Palais des Beaux Arts

19/6/2000 - Milano - Italia - Teatro Smeraldo
20/6/2000 - Milano - Italia - Teatro Smeraldo


22/6/2000 - Lisboa – Portugal - Coliseu
23/6/2000 - Lisboa - Portugal - Coliseu
24/6/2000 - Espinho - Portugal - Cassino
26/6/2000 - Porto - Portugal - Coliseu
27/7/2000 - Porto - Portugal - Coliseu


29/6/2000 - Barcelona - Espanha - Pueblo Espanhol-OA
1/7/2000 - Malaga - Espanha - Teatro Cervantes
3/7/2000 - Madrid - Espanha - Cuartel Don Duque
 
5/7/2000 - Roma – Italia - Piaza Navone








 
 











Alemanha - Catedral de Colônia





13/6/2000 - Paris - Henri Salvador, Caetano e Georges Moustaki

13/6/2000 - Paris - Paula Lavigne, Caetano e Pina Bausch









 



FOLHA DE S.PAULO
16/6/2000


 






FOLHA DE S.PAULO      


São Paulo, domingo, 27 de agosto de 2000





Pina Bausch

Aquela coisa toda


"Encontrei uma força viva que
funcionava como se estivesse
recebendo o "Sgt. Pepper's" e os
contos de Clarice"


por Caetano Veloso

Ensaio todos os meus shows sentado de frente para os músicos. Os movimentos de corpo que vou adicionando, depois subtraindo, substituindo -mas que, ao longo das temporadas, vão se multiplicando- , começam a se formar quando o show já está diante do público. Isso é o que me permite uma atitude desabusada com respeito às quase-danças que acompanham minhas apresentações de canções no palco. Não sou dançarino. Já na estréia de "Livro Vivo", em São Paulo, eu deliberadamente fazia, num determinado momento, gestos repetitivos, maquinais-obsessivos, num estilo que muitos associam ao trabalho de Pina Bausch: era um aceno a essa artista que me apaixona.

Na canção "Jorge de Capadócia", quando na letra se diz "cordas e correntes arrebentem/ sem o meu corpo amarrar", eu repetia diversas vezes (e independentemente do ritmo em que estava cantando) o gesto de desatar amarras, passando um pulso pelo outro com rispidez e abrindo os braços até meio-caminho, onde o movimento se interrompia e recomeçava. Era uma referência, parente dos flashes de Carmem Miranda ou de Mick Jagger que brilhavam por alguns segundos no show de "Transa", em Londres, 1971. Fora essa citação, não há nada da dança de Pina Bausch nas minhas dancinhas de "Livro Vivo". Embora hoje haja muito de Pina Bausch em mim.

Pina estava em Paris na platéia de "Livro Vivo", no mês passado. Lá também estava Betty Milan, que escreveu um texto muito terno sobre o show. Nesse texto, Betty conta ter percebido a presença constante da dança de Pina na minha dança. Mas a verdade é que a grande influência no desenvolvimento do meu gestual cênico vem de outra dançarina: Maria Esther Stockler, sobre quem escrevi palavras entusiásticas no livro "Verdade Tropical" (e de cuja arte se podem ver exemplos no filme "O Cinema Falado"), mas cuja contribuição propriamente artística não encontrou, no referido livro, o espaço de comentário que mereceria. Curiosamente, foi Betty Milan quem me chamou a atenção para o fato de ser esse meu tão extenso livro uma conversa entre homens, em que as mulheres não parecem ter presença de criadoras ou pensadoras.

De fato, por mais impactante que tenha me parecido o estilo pessoal (e literário) de José Agrippino de Paula, Maria Esther Stockler não poderia estar no livro apenas como sua namorada, quando, no fim das contas, há mais influência direta da arte dela sobre a minha do que poderia haver da dele. "Clube do Bolinha". (Tampouco aparece no livro referência ao trabalho de Eveline Hoisel sobre "Panamérica", trabalho que li antes mesmo de ser publicado e que desmente minha afirmação de que a "epopéia" de Agrippino não teve acompanhamento crítico significativo.) Maria Esther, com sua independência, sua feroz radicalidade, resguarda do lixo vulgar do mundo publicitário em que atuamos os passos sagrados, os acenos a um tempo viscerais e etéreos, os meneios cultos e orgânicos que ela tem sabido desenvolver. É o que vejo nela que, quase sem pensar, busco nos esforços de purificação corporal libertadora com que, entre outras coisas, tento salvar-me de mim mesmo. Maria Esther Stockler, uma bailarina brasileira.

Conquista pela surpresa
Pina Bausch é outra coisa para mim. Chegou muito depois e me conquistou pela surpresa. O importantíssimo acontecimento que foi a volta ao Brasil de Gerald Thomas como diretor de teatro trouxe às conversas que ouvi -e aos artigos que li- dois nomes: Bob Wilson e Pina Bausch. Ligavam sempre ambos a uma estética de alta formalização e a uma temática do desespero expresso em movimentos obsessivos. Nunca vi nada de Wilson. Vi as encenações de Thomas e, embora me impressionasse a adequação da produção aos efeitos almejados -e ele me parecesse, ao menos quanto a isso, deixar o resto do teatro brasileiro na pré-história-, nada chegou a me encher as medidas como o tinham feito o "Zumbi" de Boal e "O Rei da Vela" de Zé Celso -e como veio a fazê-lo o recente "Ventriloquist" do próprio Gerald.

As primeiras peças dele a que assisti me sugeriam vitrines bem-arrumadas em que se expunha, não sem uma certa ironia, a estetização de um pessimismo de convenção. Quando vi o grupo de Pina pela primeira vez, no Municipal do Rio, com um espetáculo em que se dizia que os bailarinos dançavam sobre lama e uma mulher chorava por 15 minutos, com grito e montanha no título, fiquei estarrecido. Em vez da butique do desespero que seus supostos admiradores brasileiros anunciavam, encontrei uma força viva, uma inspiração genuína que funcionava em mim como se eu estivesse recebendo pela primeira vez (e ao mesmo tempo) os contos de Clarice Lispector e o "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band".

As roupas ocidentais modernas nunca foram comentadas pela dança com tanta profundidade. A lama era um desafio cenográfico que, por se lograr do modo como se lograva, perdia o caráter de notícia e, ainda assim, não se gastava como efeito, sempre oferecendo grandes oportunidades de experiências tenras, novas -isso ao longo de horas. A mulher que chorava no intervalo trazia um tal sinal de frescor do ânimo do grupo, era um tal testemunho da realidade do teatro e da teatralidade do real, que a gente não tinha como reagir com uma resposta pronta: a gente tinha que se demorar, conviver, pensar, parar de pensar, parar para pensar. Um uivo de lobo com lua de papel colada no fundo do palco; uma mulher que andava sobre um imaginário chão vertical na linha da cortina lateral do palco, repetidamente carregada por um grupo de homens desde o chão até o mais alto que desse; um torneio de natação (a lama sobre o palco). Em suma, eu me comovia e me esquecia de mim e reencontrava lugares do espírito que aos poucos reconhecia e era levado a outros lugares que desconhecia até então e que me faziam entender melhor os antigos lugares. Tinham me anunciado um show de idéias cromadas e eu encontrava a vida. Me falavam de Gerald e de Antunes e de Bia Lessa e de Bob Wilson e eu só me lembrava de "Aquela Coisa Toda" do Asdrúbal Trouxe o Trombone.

Instância precária
Isso aqui é uma confissão algo acrítica de um espectador que se sente artista enquanto assiste. "Aquela Coisa Toda" foi uma das minhas mais intensas experiências como espectador de teatro. Não poderia talvez criticamente comparar-se ao "Zumbi", ao "Rei da Vela", ao "Macunaíma". Contemporâneo deste último, o espetáculo do Asdrúbal era-me, então, grandemente preferível. É que a instância crítica é uma instância precária.

Os atores do Asdrúbal tinham necessariamente que ser aquelas pessoas. O palco de repente ficava nu, enquanto eles surgiam em pontos dispersos da platéia para lançar perguntas aos integrantes do grupo. Essas perguntas eram cômicas, tocantes, embaraçosas: e o palco vazio e silente deixava-nos com um espaço aberto na mente, um pouco assustados, um pouco melancólicos, como na experiência de certos poemas. Quando a situação de repente se invertia e os atores se amontoavam no palco e respondiam perguntas que não se ouviam, o silêncio da platéia saía de cada espectador como se fosse uma exposição de suas responsabilidades. De repente, Dionisos em pessoa fazia uma aparição. Quando, ao final, depois de os atores quase-dançarem um périplo pelos Estados do Brasil, eles aderiam, com palavras justas e passo marcado, às greves então arriscadas e pioneiras dos operários paulistas, a dimensão política se nos revelava como uma questão moral íntima, como um movimento do afeto.

Isso tudo era considerado pela crítica profissional como "narcisismo", um "olhar para o próprio umbigo". E, como o público convencional de teatro acompanhava a crítica no entusiasmo pelo "Macunaíma" de Antunes, e o público especial que o Asdrúbal tinha criado para si com "Trate-Me Leão" não reencontrava o costumismo dessa peça em "Aquela Coisa Toda", assisti a esta última muitas vezes quase sozinho no teatro. O que me deixou na memória um segredo estético que não compartilho bem nem com os responsáveis pelo espetáculo. De fato, foi essa qualidade de alma que reencontrei na primeira visão do teatro de Pina -mas Hamilton Vaz Pereira, o diretor de "Aquela Coisa Toda", na platéia do Municipal naquela noite, me confessou não ter percebido o encanto do Tanztheater de Wuppertal.

Eu, porém, entre Rio e Nova York -e depois em Wuppertal, na celebração dos 25 anos da companhia- , vi tudo o que pude de Pina: quase todo o repertório. E sempre a renovação e o aprofundamento da esplendorosa impressão inicial. E sempre a surpresa.

Propus-me a saudar Pina Bausch quando aceitei escrever aqui sobre sua arte. E, no fim, me entreguei a digressões que são retalhos de autobiografia (e reparos à quase-autobiografia que já publiquei em livro). E o que sinto que falta dizer não é de outra natureza.

Devo aqui saldar uma dívida enviesada com o teatro-dança de Tom Zé. O momento em que ele tirava partido do fato de estar sentado numa cadeira diante de um microfone, com minuciosa inventividade, foi um dos mais entusiasmantes para mim do show que ele apresentou, faz poucos anos, no teatro Vila Velha, na Bahia. Paula Lavigne, que estava comigo, me disse depois do espetáculo: "Você é legal, tudo o que você faz pode ser interessante, mas isso aí é diferente: isso aí é um gênio". Foi no "Circuladô" que eu fiz, pela primeira vez, um número de cantar meio-dançando sentado na cadeira: era o tango "Mano a Mano" e eu contracenava com o violão.

Depois, no show "Fina Estampa", criei variações para isso em "Lamento Borincano".

O que vi de Tom Zé no Vila Velha era tão diferente do que faço que eu nunca pensei em relacionar as duas coisas. Muito menos em considerar precedências. Mas é certo que Tom Zé estava ali repetindo -ele o disse- um número que ele tinha feito na TV anos antes. Ao me ver recentemente no show "Livro Vivo", fazendo um número assim, Tom Zé sentiu-se mal. E me disse isso. Como muita gente viu "Livro Vivo", e muito pouca gente viu Tom Zé fazendo aquele número, preciso dizer de público que, em matéria de cantor cantar dançando-representando sentado na cadeira, o número de Tom Zé não é apenas diferente do meu, mas muito melhor. E talvez anterior. Além de não ser seguro que eu não tenha, inconscientemente, pegado algum detalhe exterior daquilo que ele fazia. Muita dor atravessa esses anos todos em que fui famoso e Tom Zé não.

Antes disso, ele e eu aprendemos muito com Boal. O "Arena Canta Bahia" era sobretudo teatro-dança. Chico Buarque acha que, no meu livro, fui injusto com Boal. Não fui. É injusto deixar parecer que, no livro, não traço, ao falar dele, o retrato de alguém grandioso artisticamente. Pediria a quem pensou como Chico que reconsiderasse o teor dos elogios ali contidos à personalidade artística de Boal. Que houve, no momento do tropicalismo, um antagonismo explícito entre nós e ele, não quis (nem deveria) negar. Narrei-o. Qualquer leitor pode decidir que Boal, e não os tropicalistas, é que tinha razão.

Deveria falar também da angústia de ter demorado tantos anos para ver Denise Stoklos no palco. Se este fosse um artigo crítico, eu não poderia deixar de medir a importância que ela tem para mim. E os que fazem dança propriamente, no Brasil: o grupo Corpo, Débora Colker, tantos. Mas a dança, em estado puro, tinha que ficar aqui representada por Maria Esther Stockler.

E Pina Bausch? Lá vai Caetano, dirão, olhando para o próprio umbigo, escrevendo sobre si e sobre o que vai escrevendo sobre si. Mas não é. É que entrar em contato com uma artista grande como Pina é arriscar-se a passar por mudanças que requerem auto-reexame. Em outras palavras: a quem me dá a vida não posso oferecer nada menos do que isto: a minha vida.


Caetano Veloso é compositor e cantor, autor do livro "Verdade Tropical" (Companhia das Letras).