
Setembro de 2005
O renascimento de Gal
Ao comemorar 60 anos, a cantora lança disco
com músicas de novos compositores e dá mostras de que recuperou o vigor
criativo
Por
Marcus Preto
No
fim da década de 90, o poeta Waly Salomão, um dos ícones da contracultura dos
anos 70 e o maior mentor que Gal Costa já teve, passou a se referir à sua
antiga musa como “ex-Gal”. Ele, que participara explosivamente de
momentos-chave na carreira da cantora, não aprovava os rumos que ela vinha
dando à sua música.
O
apelido fazia sentido. Desde pelo menos 1997, ainda que afinação e timbre
continuassem intactos, algo no canto de Gal se mostrava esfriado, opaco,
distante do ímpeto de outros tempos. Seus discos não traziam mais novidade. Hoje — álbum que a Trama está
lançando agora, em setembro de 2005, justamente no mês em que a baiana completa
60 anos — parece encerrar a longa escassez criativa: recupera muito da Gal
antiga e retoma em grau considerável o diálogo com a grande artista que ela foi
por três décadas.
Se
sua estréia em LP (dividido com Caetano Veloso, há 38 anos) refletia influência
maciça de João Gilberto, não haveria termo de comparação para o passo seguinte,
quando a cantora se tornou a figura feminina mais representativa do
Tropicalismo (Rita Lee ainda compartilhava palco e atenções com os outros dois
meninos-mutantes). A atitude visceral da baiana, seu vestuário e seu canto
gritado/gemido deixaram o público confuso. Aquilo era sexo, e um jeito de sexo
que nem a direita nem a esquerda tinham experimentado.
Foi
exatamente a falta de enquadramento político que a salvou do exílio, em 1969.
Sem Caetano e Gilberto Gil, converteu-se em porta-voz das idéias tropicalistas
por aqui. Nesses anos, produziu dois LPs furiosos, os mais profundamente
psicodélicos já gravados por uma mulher no país: Gal (1969) e Legal
(1970).
Waly
Salomão chegou em 1971 para dirigir o show A Todo Vapor. Cerebral e
intuitivo ao mesmo tempo, o poeta ressaltou a sensualidade da cantora no palco,
colocando coxas à mostra, fazendo marcações provocativas. Em três tempos, ela
passou a ocupar o posto de musa da contracultura e atraiu toda a turma do
desbunde para sua praia. Nas dunas da Gal (o ponto de Ipanema que a cantora
freqüentava), sexo, drogas e cabelões estavam liberados. Sônia Braga, Júlio
Bressane, Rogério Sganzerla, Leila Diniz e o adolescente Cazuza eram figurinhas
fáceis naquelas areias. “Gal simbolizava a gostosura dos anos 70”, sintetiza o humorista José
Simão, que também batia ponto nas dunas.
E
a gostosura acabou virando uma marca. No LP Índia, de 1973, quando
apareceu seminua na capa, a cantora assumiu de vez que sua música estava
diretamente ligada a sexo (o que a aproximava de uma “atitude rock’n’roll”).
O
ápice artístico veio em meados dos 70. Fazendo dobradinha com Sônia Braga no
imaginário coletivo, a cantora simbolizava na música o que a atriz representava
nas telas. As duas, inclusive, deram vida à fogosa Gabriela de Jorge Amado na
antológica novela da Globo: Sônia interpretava a personagem que subia no
telhado e deixava o país louco de desejo; Gal entoava a música-tema da morena.
Em 1978, a
baiana colocou mais lenha na fogueira gravando Folhetim, de Chico
Buarque, e alardeando ser “dessas mulheres que só dizem sim”. Não à toa, chegou
a seus primeiros Discos de Ouro.
Com
a morte de Elis Regina, em 1982,
Gal ficou com o título de “maior cantora do Brasil” só
para ela. Embora musicalmente limitada por ter aderido à diluição sonora que
contaminou a MPB dos 80, conseguiu atravessar aquela década em plena forma —
inclusive física. Sua última grande explosão aconteceu em 1993, durante a turnê
de O Sorriso do Gato de Alice, dirigida por Gerald Thomas. O espetáculo
abusou da sensualidade da jovem senhora, então com 48 anos, expondo seu seio no
palco. “Brasil, mostra a tua cara! Quero ver quem paga pra gente ficar assim”,
afrontava uma Gal enérgica. A cena, rica em significados, marcou o fim de um
ciclo na carreira e na vida da cantora.
Era
até natural que seus estímulos não se mantivessem os mesmos depois dos 50 anos.
Ela, que sempre tivera a libido como matéria-prima, estava envelhecendo. Ainda
sem saber como lidar com a nova fase, começou a investir na memória. Em 1997,
partiu para o projeto revisionista Acústico MTV — que vendeu 600 mil
cópias e revelou ao Brasil que “Gal estava diferente”. Seguiu-se uma sucessão
de discos sem novidade, que apontavam sempre para trás: releitura da obra de Tom
Jobim, revisão de clássicos do cancioneiro brasileiro, retrospectiva dos seus
próprios sucessos.
Algo
parecia fora de lugar — e Gal devia saber disso. Pois no meio desse processo
ela própria cutucou a ferida e abriu seu disco de 2002 pedindo: “Socorro, não
estou sentindo nada/ Nem medo, nem calor, nem fogo/ Nem vontade de chorar, nem
de rir/ (...)/ Socorro, alguém me dê um coração/ Que esse já não bate nem
apanha/ Por favor, uma emoção pequena/ Qualquer coisa que se sinta”. Tudo
estava dito. Era preciso esperar.
Eis
que 2005 chegou. Em Hoje, a impressão é de que Gal acertou o passo com
seu tempo. Entendeu que deixou de ser a garota sensual dos primeiros anos e que
não precisa dela para cantar divinamente. Também parece ter percebido que sua
voz é linda, sim, mas que isso não é tudo o que se espera de uma artista de seu
porte. Os bons arranjos ficaram a cargo de Cesar Camargo Mariano — ex-marido e
parceiro musical de Elis Regina, a maior “rival” que Gal encontrou na vida.
No
álbum da Trama, a cantora volta a apresentar autores novos (80% do CD),
desencadeando diálogos entre o consagrado e o desconhecido. Se o veterano
Caetano cede uma música para o disco, seu equivalente jovem, Moreno Veloso,
também comparece — e com mais importância que o pai. É de Moreno a canção que
batiza o CD: “Eu posso esquecer pra ser mais feliz/ Mas não vou mudar nada de
tudo que eu fiz/ (...) Eu quero chegar a um dia dizer: de tanto ficar só, vivo
bem sem você”.
Equilibrada
entre a nostalgia da menina que subia nos telhados do Brasil e a vontade de
viver bem sem ela, Gal dá sinais claros de que reaprendeu a fazer a festa.

CORREIO BRAZILIENSE
23/9/2005

Melhores de 2005 – Perfil
O renascimento de Gal Costa
Aos 60 anos, a cantora lança o álbum Hoje,
em que grava compositores da novíssima geração, faz seu melhor trabalho em mais
de uma década e será tema de uma série de DVDs
Em um final de tarde do outono paulista, Gal Costa
estava na gravadora Trama, em São Paulo, para registrar “Luto”, melancólica composição
de Caetano Veloso.
Ao lado do produtor César Camargo Mariano, a cantora
repassou a letra daquela que seria uma das faixas incluídas no CD Hoje,
aqueceu a garganta e, depois de pedir bênção aos orixás, entrou no estúdio.
Autorizada a soltar a voz, Gal travou, não passava
da primeira estrofe. Emocionada com os versos confessionais escritos
especialmente para ela, buscava em vão segurar o choro e, depois de três
tentativas, jogou a toalha. “Ela disse que não conseguiria cantar chorando. Parou
40 minutos, tomou um café e voltou. Gravou a música direto”, lembra Mariano.
A entrega de Gal à concepção de Hoje durou
mais de seis meses e se fazia necessária. Em nome do projeto, a baiana passou
longe das festas carnavalescas de Salvador. Ficou os quatro dias trancada em
sua casa, no bairro do Rio Vermelho, com 200 fitas para escolher o repertório
do seu primeiro CD totalmente inédito desde 1993, e conheceu a frustração.
“Gostei de poucas coisas. Fiquei preocupada e pedi ajuda ao compositor Carlos
Rennó”, diz ela. Como “mentor intelectual” de Hoje, Rennó reconhece que
assumiu papel semelhante ao do falecido poeta Waly Salomão em momentos
transformadores da carreira da artista. “Gal estava muito angustiada. Ela
queria fazer um CD diferenciado, mas não tinha segurança de que havia um bom
material de gente desconhecida. E eu apresentei a ela esses compositores, mostrei
que o CD era possível”, afirma Rennó.
Mesmo negando que sua criatividade estivesse
adormecida na última década, quando praticamente se limitou a dar voz a
clássicos, algumas vezes com sabor frugal, a eterna musa tropicalista ansiava
pela virada. “Faz parte de mim romper com o esperado. E nada melhor que provar
isso aos 60 anos”, diz ela, que garante ter recebido a nova idade, em 26 de
setembro passado, sem sobressaltos. “Penso que devo ter, no máximo, uns 47
anos. Eu me sinto nova, principalmente de cabeça, ando mais tranqüila. Só
queria estar um pouco mais magra, com uns 7 quilos a menos.”
A inquietação atinge a vida pessoal. Gal procura
casa em São Paulo para ficar mais perto do circuito profissional. “Não posso ir
e voltar de Salvador toda hora e passar dois meses sem dormir na minha cama.
Não posso mais abrir mão do meu colchão, de sentir a delícia que é o meu
travesseiro. Mas estou procurando com calma. Odeio que me cobrem”, diz ela, que
também sofre com a saudade dos três cachorros, os rottweilers Aruã, Porã
e Cunhã. “Eram seis, mas perdi três neste ano. Um por erro médico. Outros dois
acidentalmente. Ainda estou abalada”, afirma ela, com o olhar triste.
Se a ousadia de gravar um CD apenas com autores da
novíssima geração, com exceção de duas faixas – “Luto”, de Caetano, e
“Embebedado”, de Chico Buarque e Zé Miguel Wisnik –, foi o presente de Gal aos
fãs, a festa dos 60 anos será comemorada com o show que estréia em São Paulo no
final de janeiro. “A Gal me pediu a adaptação de uma música do congolês Lokua
Kanza e verti para o português com referências a ‘Sem Você’, do Tom. Ela quer
mexer com as pessoas no show, quer fazer o público chorar”, revela Rennó. Sua
carreira ainda será tema de uma série de DVDs produzida pela DirecTV em formato
semelhante àquela que homenageou Chico Buarque, e um CD em que interpreta Chet
Baker já começa a ser discutido na Trama. Despida do luto criativo, Gal investe
em seu potencial e prova que ainda hoje conserva a alma transgressora que
parecia lembrança dos saudosistas.











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| 30/3/2006 |
 |
Milton Nascimento, Gal
Costa e Gilberto Braga - Foto: Cristina Granato |
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| Foto: Cristina Granato |
O segundo trabalho de Gal Costa na gravadora Trama vai ser um registro ao vivo do
show "Hoje", filmado em
maio, no Citibank Hall (SP).
CD
Direção de arte, capa e multimídia design: ABIURO
DVD
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Gal Costa Ao Vivo - CD e DVD
Trama - 21/02/2007
Costa
faz a música brasileira pulsar com seus novos CD e DVD, que têm como base o
show do disco Hoje, lançado pela Trama em 2005.
Enquanto
no trabalho de estúdio a artista privilegiou novos compositores e canções
inéditas em seu repertório, neste Ao Vivo ela resgata obras primas de sua
carreira e, ao mescla-las às novas, mostra que continua sendo a talentosa e
única cantora de sempre. Realizado no Citibank Hall, em São Paulo, com direção
de Bernardo Vilhena, o show, e gravado para o especial “Do Tropicalismo aos
Dias de Hoje”, exibido pela Directv, prima pela simplicidade e pelo bom gosto,
terreno que permite a Gal Costa e aos músicos – Marcelo Mariano (baixo e
vocal), Marcus Teixeira (violões e guitarra), Keko Brandão (piano, teclados e
vocal), Jurim Moreira (bateria e percussão), Jakaré (percussão), Julio Borges,
Ricardo Villas e Ed Flash (vocais) – brilharem por excelência. Meticulosamente
contida nos movimentos, forte como nunca nas interpretações e segura
musicalmente, Gal arranca aplausos de uma platéia extasiada. Das 20
músicas apresentadas no DVD, 14 estão no CD Ao Vivo.
Nos
extras, Gal Costa conta em “Curiosidades Pessoais” histórias do início de sua
carreira, inclusive a origem do apelido Gal. Em “Recados Para Gal”, uma
infinidade de artistas e personalidades ligadas à música e à carreira dela
mandam seus recados, de Gilberto Gil e Jorge Mautner a Chico César e Arnaldo
Antunes, com direito a Rita Lee fazendo um pedido público para dirigir um show
da amiga, Chico Buarque implorando para sua intérprete gravar mais suas músicas
e Maria Bethânia aconselhando a “irmã” a nunca parar de cantar. E que ela não
pare nunca mesmo, a música brasileira precisa da presença de Gal Costa.
RELEASE
Gal
Costa faz a música brasileira pulsar com seus novos CD e DVD, que têm como base
o show do disco Hoje, lançado pela Trama em 2005. Enquanto no trabalho de
estúdio a artista privilegiou novos compositores e canções inéditas em seu
repertório, neste Ao Vivo ela resgata obras primas de sua carreira e, ao mescla-las
às novas, mostra que continua sendo a talentosa e única cantora de sempre.
Realizado no Citibank Hall, em São Paulo, com direção de Bernardo Vilhena, o
show, e gravado para o especial “Do Tropicalismo aos Dias de Hoje”, exibido
pela Directv, prima pela simplicidade e pelo bom gosto, terreno que permite a
Gal Costa e aos músicos – Marcelo Mariano (baixo e vocal), Marcus Teixeira
(violões e guitarra), Keko Brandão (piano, teclados e vocal), Jurim Moreira
(bateria e percussão), Jakaré (percussão), Julio Borges, Ricardo Villas e Ed
Flash (vocais) – brilharem por excelência. Meticulosamente contida nos
movimentos, forte como nunca nas interpretações e segura musicalmente, Gal
arranca aplausos de uma platéia extasiada.
O show começa com uma surpresa: uma releitura de “Fruta Gogóia”, música do
folclore baiano que Gal Costa havia gravado em outra apresentação antológica,
no disco Fa-Tal – Gal a Todo Vapor, de 1971. Desse mesmo disco, ela também
resgatou “Antonico”, de Ismael Silva, reforçando sua característica de misturar
o tradicional e o antigo ao ousado e ao novo, invariavelmente numa embalagem
musical de qualidade.
Nesse trabalho de pinçar canções de outros tempos para se harmonizarem com as
inéditas do disco Hoje, Gal Costa também oferece ao seu público novas
interpretações de “Todo Amor que Houver Nessa Vida”, de Cazuza e Frejat,
“Juventude Transviada”, de Luiz Melodia, um pout-pourri com “Coisa Mais
Bonita”, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, e a cinematográfica “As Time Goes
By”, de Herman Hupfeld, além de “Feitio de Oração”, de Noel Rosa e Vadico, e a
sua nova assinatura com “Meu Nome É Gal”, a clássica homenagem de Roberto e
Erasmo Carlos, aqui também com direito a diálogo com a guitarra de Marcus
Teixeira que nos remete ao duelo de Gal e do guitarrista Lanny Gordin na
antológica gravação dos anos 70.
A cantora madura que varou décadas defendendo a música brasileira com sua voz
ímpar traz aqui novos ares com a nova geração de compositores, entre eles Junio
Barreto (“Santana”, parceria com João Carlos), Nuno Ramos (“Jurei”, parceria
com Clima, e “Pra Que Cantar”) e Moreno Veloso (“Hoje”). Dos velhos
companheiros, Gal apresenta as novas de Caetano Veloso (“Luto”) e de Chico
Buarque (“Embebedado”, em parceria com José Miguel Wisnik).
Das
20 músicas apresentadas no DVD, 14 estão no CD Ao Vivo. Nos extras, Gal Costa
conta em “Curiosidades Pessoais” histórias do início de sua carreira, inclusive
a origem do apelido Gal. Em “Recados Para Gal”, uma infinidade de artistas e
personalidades ligadas à música e à carreira dela mandam seus recados, de
Gilberto Gil e Jorge Mautner a Chico César e Arnaldo Antunes, com direito a
Rita Lee fazendo um pedido público para dirigir um show da amiga, Chico Buarque
implorando para sua intérprete gravar mais suas músicas e Maria Bethânia
aconselhando a “irmã” a nunca parar de cantar. E que ela não pare nunca mesmo,
a música brasileira precisa da presença de Gal Costa.
RECADOS PARA GAL
"Gal... Você sabe que eu te amo. Aquela bobagem que eu disse, você
me perdoe. Eu peço desculpas a você publicamente... Você é a maior voz deste
Brasil", retrata-se Jards Macalé por ter chamado Gal de
"burrinha" na imprensa. "Gal,
onde você mora? Se pudesse, todo dia passava na sua porta", derrete-se
Tom Zé. "Gal, grave minhas
músicas", faz charme Chico Buarque. "Fiquei muito emocionado quando ouvi você cantar Socorro",
revela Arnaldo Antunes, referindo-se à boa gravação de sua música incluída por
Gal no disco Bossa Tropical, editado em 2002, pela MZA Music.
Estes depoimentos - 22, ao todo - feitos por nomes
como Maria Bethânia ("Cante, não
pare, você sabe...") e Gilberto Gil estão em Recados para Gal, boa
sacada dos extras do DVD Gal Costa ao Vivo, que traz o registro do show Hoje,
baseado no renovador repertório do CD lançado em 2005 pela Trama. A gravação -
feita em São Paulo, em maio, e editada simultaneamente no formato de CD -
reafirma o grande tempo atual da cantora. E merece respeito.