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martes, 1 de octubre de 2024

sábado, 3 de febrero de 2024

1962 - TEATRO DOS NOVOS

 










1962 - Na primeira fila, Dona Canô, Minha Daia e Maria Bethânia


No ano de 1961, o governo da Bahia cede um terreno no Passeio Público e é iniciada a construção do Teatro Vila Velha com projeto arquitetônico de Alberto Fiúza e Silvio Robatto.

Enquanto isso, os ensaios e reuniões da companhia aconteciam na Galeria Oxumaré, vizinha ao terreno e nova sede da Sociedade Teatro dos Novos, onde estrearam as leituras de três textos de Bertold Brecht, OS FUZIS DA SENHORA CARRAR, TERROR E MISÉRIA DO TERCEIRO REICH e CABEÇAS REDONDAS E CABEÇAS PONTUDAS. A primeira delas estreou em 20 de dezembro e as duas últimas, em 17 de maio de 1962.

As leituras também aconteceram na Faculdade de Arquitetura, Faculdade de Direito e no Clube Filhos de Apolo em Santo Amaro.

Adson Lemos, Antonio Carlos Martins, Carlos Petrovich, Carmem Bittencourt, Échio Reis, João Augusto, Maria Francisca, Martha Overbeck, Olga Maimone, Othon Bastos, Sonia Robatto, Maria Manuela, Waldemar Nobre e Wilson Mello interpretavam os papéis sob direção de João Augusto e sonoplastia de Carmem Bittencourt.



1964 - Caetano Veloso e os atores Wilson Melo, Echio Reis e Carlos Petrovich




1964 - Inauguração do Teatro Vila Velha

O primeiro espetáculo estreado na casa foi ELES NÃO USAM BLAQUETAI, texto de Gianfrancesco Guarnieri, direção de João Augusto, cenografia de Calazans Neto e figurino de Maria Francisca. A peça ainda contou com a participação da Batucada da Escola de Samba Juventude do Garcia.

Integravam o elenco: Adson Lemos, Carmem Bittencourt, Échio Reis, Fernando Barros, Fernando Lona, Iacina Oliveira, Lourival Paris, Maria Adélia, Maria Manuela, Mário Gadelha, Mário Gusmão, Martha Overbeck, Olga Maimone, Othon Bastos, Passos Neto, Robernival Ribeiro (Pitti), Roberto Santana, Rodrigo Veloso, Sonia Robatto, Waldemar Nobre e Wilson Melo.







jueves, 24 de octubre de 2019

1964 - MORA NA FILOSOFIA







Show MARIA BETHÂNIA
1964 – dezembro

MORA NA FILOSOFIA

Teatro Vila Velha, Salvador

Direção: Caetano Veloso
Produção: Orlando Senna


Cenário de Calazans Neto, emprestado da montagem de "Eles não usam black-tie" onde simulava uma favela de um morro do Rio de Janeiro, Bethânia exibiu seu potencial de atriz e canções como "O Morro" de Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri e "Favela" de Heckel Tavares viraram quase textos teatrais.

Marca o primeiro show individual de Maria Bethânia.










MORA NA FILOSOFIA

Participação: Perinho Albuquerque

PRA SEU GOVERNO (Haroldo Lobo)
CANÇÃO ESPONTÂNEA (Caetano Veloso)
DE MANHÃ (Caetano Veloso)
FAVELA (Hekel Tavares)
MEU BARRACÃO (Noel Rosa)
A FELICIDADE (Tom Jobim/Vinícius de Moraes)
CHÃO DE ESTRELAS (Sílvio Caldas/Orestes Barbosa)
O MORRO [Feio não é bonito] (Carlos Lyra/João Francisco Guarnieri)
AVE MARIA NO MORRO [Barracão de zinco] (Herivelto Martins)
ACENDER AS VELAS (Zé Keti)
ENQUANTO A TRISTEZA NÃO VEM (Sérgio Ricardo)
AO VOLTAR DO SAMBA (Sinval Silva)
ONDE ESTÃO OS TAMBORINS (Pedro Caetano/Claudionor Cruz) 
FOI ELA (Ary Barroso)
LATA D’ÁGUA (Luiz Antônio)
MORA NA FILOSOFIA (Monsueto Menezes/Arnaldo Passos)


Fonte: Hineni Gomes Ferreira





21/2/1965 - O JORNAL








martes, 26 de marzo de 2019

2019 - GRAVAÇÕES INÉDITAS [de 1964]



“Eu sou Djalma Corrêa, eu sou Alcyvando Luz, eu sou Antônio Renato, eu sou Maria da Graça, eu sou Gilberto Gil, eu sou Caetano Veloso, sou Maria Bethânia, sou Antônio José”.

[22 de agosto de 1964, Teatro Vila Velha, Salvador]



O Estado de S. Paulo

Cultura

Djalma Corrêa tem gravação inédita do 1º show de Gal, Gil, Caetano, Bethânia e Tom Zé juntos em 1964
Ouça um trecho do registro histórico feito pelo músico no Teatro Vila Velha, em Salvador; músico e seus filhos estão em busca de parcerias para realizar documentário a partir do áudio
Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo
24 de março de 2019

O show Nós, Por Exemplo, que inaugurou o Teatro Vila Velha, em Salvador, em 22 de agosto de 1964, já seria histórico só pelo fato de reunir pela primeira vez, no mesmo palco, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia e Tom Zé – numa época em que Tropicália e Doces Bárbaros não faziam parte de seus sonhos mais delirantes.

Mas a reação inesperadamente acalorada da plateia àquela primeira apresentação desencadeou um efeito potente na trajetória de todos aqueles jovens estudantes. “Sem dúvida, foi uma alavancada para todos nós. A aceitação do público foi incrível. Até para nós foi surpresa, isso ajudou muito a gente a continuar, tanto que cada um seguiu seu caminho”, relembra o músico Djalma Corrêa, então baterista da trupe – e outra peça importante naquele show.

Muito já se leu e se ouviu falar sobre Nós, Por Exemplo (título esse dado por Caetano), mas só Djalma tem uma verdadeira preciosidade daquele show em mãos: o registro em áudio do espetáculo, que pertence ao acervo que ele mantém em seu sítio, na Pedra de Guaratiba, no Rio. De maneira geral, seu arquivo concentra áudios de shows, gravações em Super 8, fotos, slides e fotogramas preto e branco, e “muitos registros da cultura popular brasileira”, conta o músico, hoje com 76 anos.

A gravação da estreia de Nós, Por Exemplo– e dos outros shows que vieram na esteira de seu sucesso – permanece inédita há mais de 50 anos. Mas Djalma e seus filhos, Caetano e Shanti, têm planos para mudar isso. A proposta é fazer um documentário a partir desse áudio. “Nunca mostrei (o áudio) para eles (Gil, Gal, Bethânia, Caetano, Tom, entre outros), então minha ideia sempre foi fazer um documentário com eles ouvindo esse show pela primeira vez. Ver a reação de cada um, lembrando de detalhes com cada um separadamente, e depois algo com todo mundo junto”, diz Djalma.

Djalma Corrêa com o contrabaixo da família que foi usado no show em 1964.
Foto: Aline Massuca/Estadão


Na realidade, o projeto existe há cerca de 15 anos, conta sua filha, a produtora Shanti C. Corrêa, que vive nos EUA. Mas alguns empecilhos, como a dificuldade de encontrar parceiros para viabilizá-lo, paralisaram sua realização. “Engavetamos para um próximo momento, mas nunca aconteceu”, lamenta ela. Naquela época, Shanti chegou a fazer muitas pesquisas na Bahia – inclusive, constatou que quase não há registros fotográficos daquele momento. Além disso, duas faixas que estão na gravação foram masterizadas em Los Angeles. Tudo foi uma iniciativa bancada por ela.

Passados todos esses anos, parece existir agora um movimento natural de se organizar o rico acervo de Djalma, que inclui os registros da cultura popular brasileira (leia abaixo) e a retomada do documentário. “A demanda maior que a gente tem é de parceria de produção, de financiamento, e diretores que tenham prática de documentário na área de música”, afirma Caetano Correa, filho de Djalma.

Para não tirar o ineditismo desse material, Djalma conta que nunca pensou em lançá-lo em disco. “A ideia primeira sempre foi essa história de eles ouvirem pela primeira vez e a reação de cada um, então nunca pensei em transformar isso em disco. Gravei quase todos os shows que rolaram na Bahia. Um dos que gravei e cedi para Polygram foi a despedida de Gil e Caetano antes do exílio, em 69, e foi feito esse disco”, diz o prestigiado músico.


O percussionista Djalma Corrêa no acervo que mantém em seu sítio, no Rio.
Foto: Aline Massuca/Estadão

O gravador. No início do show no Teatro Vila Velha – ouça o áudio abaixo –, ouvem-se vocais em sintonia, seguidos por aplausos da plateia, e, então, os protagonistas de Nós, Por Exemplo se apresentam um a um: “Eu sou Djalma Corrêa, eu sou Alcyvando Luz, eu sou Antônio Renato, eu sou Maria da Graça, eu sou Gilberto Gil, eu sou Caetano Veloso, sou Maria Bethânia, sou Antônio José”. Caetano emenda os primeiros versos de Quarta-Feira de Cinzas. “É maravilhoso, porque tem uma carga de veracidade muito grande. Você reconhece as vozes. Há pouca mudança vocal de cada um”, analisa Djalma.

Na época, o percussionista – nascido em Minas – morava em Salvador, e lá estudava música na Universidade Federal da Bahia e também já era técnico de som do câmpus. Todos eles se conheciam por causa da música. “Substituímos uma peça (Eles Não Usam Black Tie), que não ficou pronta para a inauguração do teatro, então foi proposto fazer um show.” Os ensaios se dividiam entre a casa da amiga Maria Moniz, onde tinha a famosa sopa, e da mãe de Caetano e Bethânia, Dona Canô. “Houve tempo para ensaiar, fazer repertório, tem músicas já conhecidas, mas com arranjos bem ousados para época”, detalha. Ele conta que o grupo se surpreendeu com a euforia da plateia lotada. “Foi cobrado ingresso, preço barato”, diz. “Não ganhamos cachê, era uma coisa amadora.”

E o que fez Djalma levar o gravador para o show? “Tinha uma música minha, Bossa 2000 D.C, que estava no show. Na fita, tinha a parte eletrônica dessa música e eu precisava do gravador do meu lado para poder soltar e parar na hora certa. Aí eu disse: o gravador está aqui e vou gravar. Não foi algo premeditado.” Quem não gostou da presença do gravador no palco foi o diretor Roberto Sant’Ana. A ponto de os dois brigarem – e Djalma diverte-se com a lembrança.

Orlando Senna, que se ocupou da produção do show, confirma o episódio. “Roberto Sant’Ana era muito minucioso com relação à iluminação e ao cenário, e achou que um gravador, por menor que fosse, iria interferir na luz e no espaço”, conta. “Lembro-me que Djalma me chamou para ajudá-lo a convencer Roberto, que foi convencido. Graças a esse gravador no meio do palco, temos hoje uma preciosidade histórica e musical que Djalma pretende mostrar ao mundo.”

Djalma revela outras curiosidades, como o fato de o teatro estar localizado no jardim do Palácio do Governo. Em tempos de ditadura, não era um mero detalhe. “O que acontecia já nos ensaios é que a gente estava no meio de uma música e entrava a interferência do telégrafo do governo, e isso aconteceu até no show, no meio de uma música. Isso minha gravação capta. Tanto que uma das coisas que acho legal é a tradução desse código Morse e ver o que eles estão dizendo.”

Uma das estrelas que emergiram naquele show, Gal ficou feliz em saber sobre o documentário. “(O show) foi importante, porque eu queria ser cantora, sempre quis isso. Então, foi o começo da minha carreira, foi a primeira experiência no palco, primeiro enfrentamento com uma plateia. Foi mais do que especial.”

Depoimento de Tom Zé, cantor e compositor

“Intervalo de ensaio. Lembrei-me de perguntar a alguém que estava mais próximo de mim: “Este show tem nome?”
‘Nós, por exemplo.’
!!!?

Pelo hábito e pelo tipo de comentário que fazia sobre os artistas que estavam em cena na época, não havia dúvida: aquele título que agora me dava um choque era de Caetano. Meu sentimento estremeceu em vários raios e direções.

‘NÓS, POR EXEMPLO.’

‘Então nós estamos incluídos no elenco nacional brasileiro?’

Uma ‘responsabilidade...’ Responsabilidade graúda me atingiu em cheio. Nós, por exemplo. Aquela simples e inevitável vírgula no interior do título ganhava um respeito nunca antes atribuído a um sinal de pontuação. Ora, veja! Nós, por exemplo. Onde foi que eu fui me meter! Eram o Brasil e a história da canção popular sobre nós, quer dizer, NÓS.

Que ousadia! Num relâmpago, me lembrei de ‘É de manhã’, que Caetano já havia composto naquele tempo.

Nós.
Como Caetano era altivo!”


No ensaio do espetáculo: Djalma, Gal, Caetano, Gil e cia. Foto: Reprodução


Acervo de Djalma Corrêa voltado à cultura popular passará por restauro

Uma parte do vasto acervo de Djalma Corrêa – que tem como recorte os registros da cultura popular feitos pelo músico em suas andanças pelo Brasil – passará por um importante processo de restauro, digitalização e conservação. O projeto Acervo Djalma Corrêa: Música e Cultura Afro-brasileira, de autoria de Cecília de Mendonça – cujo doutorado tem como tema o acervo de Djalma –, foi contemplado pelo Rumos Itaú Cultural 2017-2018 e terá início em abril. Entre o material que passará por esse processo, estão 60 fitas de áudio (rolo 7”), 500 imagens e 30 rolos de Super 8, que fazem parte do acervo de Djalma voltado para o estudo das culturas populares brasileiras, incluindo registros de pessoas, grupos, terreiros, festas populares, festivais e encontros culturais.

“Djalma Corrêa reuniu em sua trajetória um acervo muito extenso e muito rico. As primeiros gravações já têm mais de 50 anos. A maior riqueza desse projeto é a possibilidade de fazer esse trabalho de preservação do acervo na presença de Djalma, buscando qualificar cada registro sonoro, cada fotografia, cada filme através da memória do seu criador”, ressalta Cecília, que sempre se dedicou aos estudos na área de culturas populares, do patrimônio imaterial e da música popular.

“Quando soube da existência desse acervo, com uma diversidade enorme de registro pelo Brasil, logo vi a possibilidade de desenvolver um trabalho de pesquisa mais intensiva sobre esse acervo ligado aos registros da pesquisa de Djalma das culturas populares, da percussão afro-brasileira e do universo dos terreiros”, ela conta. “Mas acaba que o trabalho tem seu lado biográfico e é impossível dissociar da sua atuação da chamada MPB. E consequentemente do seu acervo dos registro da música popular e da música erudita também.”




domingo, 3 de marzo de 2019

2019 - GRAVAÇÕES INÉDITAS [de 1964]


1964 - Gilberto Gil, Maria Bethânia, Djalma Corrêa, Caetano Veloso, Perna Fróes e Maria da Graça [Gal Costa] dirigidos por Roberto Sant'Ana

1964 - Djalma Corrêa, Maria da Graça [Gal Costa], Fernando Lona, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Perna Fróes









03/03/2019

Gravação inédita revela show que lançou Gil, Caetano, Bethânia e Gal em 1964.

O baterista Djalma Corrêa conseguiu registrar três apresentações dos futuros tropicalistas em gravador caseiro de dois canais, apesar dos protestos de colegas de palco.

Lucas Fróes
De Salvador para a BBC News Brasil



Em um dos ensaios, da esquerda para a direita Djalma Corrêa, Gal Costa, Fernando Lona, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Perna Fróes — Foto: Orlando Senna/BBC



Quando subiram juntos num palco pela primeira vez, para apresentar o show "Nós, por exemplo…", no Teatro Vila Velha, em 1964, o formando em Administração e fiscal da Alfândega Gilberto Gil, o segundanista de Filosofia Caetano Veloso, a secundarista Maria Bethânia, a balconista Gal Costa e o bolsista da Escola de Música Tom Zé estavam atando para sempre o destino de suas carreiras musicais.

Antes de virarem tropicalistas e doces bárbaros, os jovens baianos pisaram primeiro no palco do Vila Velha, para em seguida ganharem o mundo a partir do que fizeram no teatro que Gilberto Gil chamou de "pia batismal dos artistas baianos".

Os detalhes desse espetáculo são pouco conhecidos, mas estão surpreendentemente preservados por uma gravação em áudio ainda inédita, guardada há mais de meio século por Djalma Corrêa, baterista da trupe, que prepara um documentário com o material.

A oportunidade de fazerem o show surgiu quando o diretor João Augusto (1928-1979) disse ao produtor Roberto Sant'Ana, seu aluno na Companhia Teatro dos Novos, que a peça Eles não usam Black Tie, um dos espetáculos programados para a inauguração do Teatro Vila Velha, não ficaria pronta a tempo. Ele sugeriu que, para substituir a peça, Roberto montasse um show com sua turma de música.

Roberto contou a novidade na varanda de azulejos marrons da casa da atriz Maria Moniz, onde costumavam se reunir com Gil, Caetano, Bethânia, Gal, Tom Zé, Djalma, Perna Fróes, Orlando Senna, Emanoel Araújo, Fernando Lona e Alcyvando Luz.


Cartaz de Emanoel Araujo (*) para os shows do grupo no Teatro Castro Alves, em dezembro de 1964 — Foto: BBC/Reprodução

Foi de Caetano a ideia de chamar o grupo e o show de "Nós, por exemplo…", mas os primos Roberto e Tom Zé acharam o nome uma tremenda ousadia, com Roberto argumentando que ainda não eram exemplos de nada, apenas simples estudantes fazendo música. A ideia de Caetano prevaleceu: "O 'por exemplo' aí queria dizer não que nós éramos um modelo a ser seguido, um exemplo, mas que tínhamos a certeza de que havia muitos outros, toda uma geração a que nós, 'por exemplo', pertencíamos, e que devia sua existência ao aparecimento da Bossa Nova", explicou Caetano em seu livro Verdade Tropical.


Para formar o repertório, Roberto Sant'Ana pediu uma cota de músicas autorais aos compositores do grupo, mesclando com os clássicos da Bossa Nova e do cancioneiro popular sugeridas por cada um dos participantes. A turma ensaiava e também dava uma ajudinha para que o Teatro Vila Velha, no Passeio Público, próximo ao Palácio da Aclamação e ao Hotel da Bahia, ficasse pronto.

Perna teve que se virar para arranjar um piano de armário que a Companhia Teatro dos Novos tivesse condições de comprar, enquanto as cadeiras do teatro foram adquiridas de um cinema em Santo Amaro, que estava fechando as portas, graças à indicação de Rodrigo Velloso, irmão de Caetano e Bethânia. Ativo jornalista cultural, Orlando Senna cuidou da divulgação publicando pequenas entrevistas, reportagens e fotos com a turma, preparando o clima para o grande dia.

Memórias

"Tenho muita saudade, era muito melhor viver naquela época", emociona-se Roberto Sant'Ana. "Éramos jovens, todos, impetuosos, sonhadores, felizes e cheios de energia, então é uma época que me traz recordações maravilhosas", diverte-se Gilberto Gil.

Alguns ensaios da turma aconteciam na casa do pianista Perna Fróes. Em texto de 2017, o flautista Tuzé de Abreu recordou de quando conheceu Bethânia na festa de aniversário de Perna, dois dias antes da irmã de Caetano completar 18 anos. "Perna comandava a sua própria festa ao piano, na casa grande da sua família, no Largo dos Aflitos. (...) De repente, vi sentar próximo ao piano uma garota um pouco mais velha que eu, muito magra, com um vestido preto, cabelos muito pretos e presos em cima da cabeça, morena, com um nariz interessante e uma expressão de pessoa muito determinada. Tinha aparência de indiana. Começou a cantar, acompanhada por Perna, uma canção que considerei a mais bonita que jamais ouvira. Dizia: 'Na minha voz, trago a noite e o mar....'. Falava de um Sol Negro e de Iemanjá. Fiquei muitíssimo impressionado. Tão impressionado que consegui vencer a timidez e falar com aquela pessoa que parecia ao mesmo tempo muito interessante e muito distante de mim. Perguntei de quem era aquela canção. Ela respondeu com alguma rispidez que era do irmão dela, e que eu não o conhecia".

Na contracapa de seu LP de 1968, Caetano deixou um post scriptum dizendo a Gil que "hoje não tem sopa na varanda de Maria". O ponto de encontro era lá, mas a sopa nem sempre. "O lugar básico era na casa de Maria Moniz, de lá íamos tomar uma sopa na casa de tia Canô", esclarece Djalma, com o carinho de quem chama a mãe dos amigos de tia.



1960's - A atriz Maria Moniz - Foto: Bob Velloso

"Sempre me vêm à cabeça Gil, Bethânia e Gal, além, é claro, da anfitrioa, cuja conversa era sempre muito engraçada e inteligente. Não tenho certeza de ter visto Tom Zé ou Alcyvando lá, embora seja possível que eles e outros participantes dos shows do Vila Velha tenha frequentado a varanda de Maria", reconstitui Caetano à BBC News Brasil, por email. "(...) Maria tinha tiradas geniais. Ela é dona de um estilo único de pensar, agir e expressar-se. Acho que a sopa era sempre boa, mas as cantorias e as conversas eram ainda melhores. Eu morava perto. (...) Posso me imaginar cantando Não posso me esquecer do adeus lá. E ouvir Gil cantando Serenata de teleco-teco ou uma canção lenta, como Maria. Bethânia cantando Noel, Gal cantando Meditação e Vagamente", continua. "O namorado de Maria me propôs fazer um pocket-show na boate Anjo Azul, que nunca se realizou, mas para o qual escrevi Clever boy samba, que era meio crônica, meio sátira (mas diferente das de Tom Zé) e que serviu de sugestão para Alegria, alegria, que compus anos depois. O 'eu' que anda pela rua da cidade era mais satirizado do que o que anda em Alegria, alegria, mas pensei naquele quando retratei este", completa Caetano.

Noite de estreia


Programa do show - 22/8/1964

Às 21 horas do sábado, 22 de agosto de 1964, no Teatro Vila Velha, com produção e iluminação de Roberto Sant'Ana (21), subiram ao palco Caetano Veloso (22), Gal Costa (18), Gilberto Gil (22), Maria Bethânia (18), Fernando Lona (27), Perna Fróes (20), Djalma Corrêa (21) e Alcyvando Luz (26). Caetano, Gil e Roberto assinaram a direção. Tom Zé (27) só participaria no mês seguinte. "Estávamos nervosíssimos", confessa Roberto.

"Foi a primeira vez que eu pisei num palco na minha vida, assim com público na minha frente, e eu cantei Se é tarde me perdoa e outras músicas mais. Foi maravilhoso, inacreditável", contou Gal Costa, três décadas depois, no programa Ensaio. Presente ao espetáculo, o jurista e músico Carlos Coqueijo (1924-1988) foi um entusiasta do grupo. Uma crítica sua publicada no Jornal da Bahia foi o mais completo relato sobre o "Nós, por exemplo…" a sair na imprensa. "Haverá voz de menina moça mais afinada, mais maviosa, mais meiga, mais instrumental do que a de Maria da Graça? Essa, pra mim, foi a novidade-revelação do grupo", escreveu.

Gilberto Gil interpretou O menino das laranjas, famosa na voz de Geraldo Vandré, além das suas Maria e Samba ainda sem nome, indo às lágrimas. "É verdade que Gilberto Gil comprovou suas excepcionais qualidades de músico, compositor e futuroso diretor musical. E ele, que tantas e tantas vezes já se exibiu em público, principalmente na Televisão, emocionou-se às lágrimas — que foram gerais e compunham o rio da felicidade do exemplo de vocês — porque sabia que aquele fora o seu grande momento musical", desmanchou-se Coqueijo. Gil não se recorda, mas não duvida do choro: "Eu não me lembro, gozado. É possível, primeiro porque Carlos Coqueijo não ia inventar isso da cabeça dele, segundo porque eu sou chorão mesmo", admite.

Caetano Veloso cantou É de manhã e Não posso mais dizer adeus. Trouxe também Vai pra frente, parceria com Bethânia, cantada por Gal Costa. "Lendo o título, me lembrei confusamente de Não posso mais dizer adeus, mas até agora nada me veio de Vai pra frente. Em menos de uma tarde, recordei grande parte da primeira. É uma valsa lenta com melodia sentimental, mas tem parentesco com a canção moderna pré-bossa nova e também com a bossa nova já dominante. Ou é — se eu ou alguém lembrar sua letra, sua melodia e sua harmonia. Acho que era bonita. Quanto a Vai pra frente, não me lembro sequer desse título", escreve Caetano, por email.

O grande momento do show foi em Sol Negro. "É certo que Caetano se consagrou, naquela noite memorável, um dos melhores compositores brasileiros populares contemporâneos — assim, na galeria de Jobim e Vinicius, sem exagero. Suas composições são fabulosas. Aquela do duo feminino, então, não se fala", decretou Coqueijo. Com Bethânia numa ponta do palco, de vestido branco, e Gal na outra, de vestido preto, Caetano tocava violão no centro. Primeiro, Bethânia começava a cantar, para depois dar a vez a Gal, e no fim as duas cantavam ao mesmo tempo. "Bethânia e Gal cantando Sol Negro, a canção que escrevi para as duas cantarem juntas, em contraponto, foram ovacionadas como se fossem divas consagradas", disse Caetano à Revista Muito, em 2014.

Outros números incluíram a instrumental Tema de Candomblé, de Perna Fróes, a futurista Bossa 2000 D.C., de Djalma Corrêa, misturando solo de bateria com música eletrônica, as canções de protesto com temáticas nordestinas de Fernando Lona (1937-1977) e o virtuosismo de Alcyvando Luz (1937-1998), que tocava violão com afinação particularíssima. Roberto Sant'Ana quebrou vários galhos, fazendo um pouco de tudo, desde cenário e figurino até a iluminação. "Sempre tinha aprovação de Caetano e de Gil", observa.

O show terminou ao som de Samba da bênção, com a turma dando a bênção a grandes compositores da música brasileira e a amigos como o "irmão ausente e querido" Tom Zé, Maria Moniz, Orlando Senna e Carlos Coqueijo. Após o show, Coqueijo foi ao palco e pediu a bênção a Caetano.

Um público de 461 pessoas comprou ingresso e assistiu ao show ao lado de 52 convidados. A renda de Cr$ 138.400 — cerca de R$ 4 mil atuais — foi toda doada para a Companhia Teatro dos Novos. Presente ao Vila Velha naquela noite, o cineasta José Walter Lima, então um estudante de Belas Artes de 18 anos, lembra da sua reação: "Adorei, achei uma coisa diferente, fiquei fascinado".


Ensaio do "Nós, por exemplo...": Gil, Bethânia, Djalma, Caetano, Perna e Gal sendo dirigidos por Roberto Sant'Ana (de costas)


Tom Zé e novos shows

Programa do show - 7/9/1964

O sucesso do "Nós, por exemplo…" proporcionou novas apresentações nos dias 7 e 8 de setembro, agora com Tom Zé no lugar de Fernando Lona. "E era lindo a gente cantar naquele Teatro Vila Velha, nós todos jovens, e a gente descobrindo que a gente podia falar com as pessoas, que as pessoas reagiam com alegria ao que a gente dizia. Era uma verdadeira descoberta, assim, gostosa", encantou-se Tom Zé, no programa Ensaio, em 1991.

Se a maioria da turma do "Nós, por exemplo…" ainda iria encontrar sua melhor assinatura musical, Tom Zé já tinha estilo próprio, desenvolvido desde os tempos de Irará, enquanto Bethânia arrebatava de primeira quem a ouvisse. Em texto de 2009, o poeta Ildásio Tavares (1940-2010) ressaltou a originalidade dos dois: "No grupo de jovens que estreou no Vila, todo mundo começou imitando João Gilberto; menos Tom Zé e Maria Bethânia, que se afirmou desde cedo por uma voz pessoal, inconfundível e carregada de emoção".

Programa do show "Nova Bossa Velha & Velha Bossa Nova", em novembro de 1964

No fim de novembro, também no Vila Velha, a turma emplacou o "Nova Bossa Velha & Velha Bossa Nova". Nos dias 12 e 13 de dezembro, dessa vez no Teatro Castro Alves, em reconstrução após o incêndio que impediu sua inauguração oficial, apresentaram os dois espetáculos. "O que aconteceu foi uma propaganda espontânea, as pessoas falando sobre o assunto, os estudantes falando sobre os shows em seus colégios e faculdades. Ainda não existia o termo, mas podemos utilizá-lo em retrospectiva: viralizou", sintetiza o cineasta Orlando Senna, produtor desses shows.




Gravações inéditas

As fotos que sobraram da turma no palco do Teatro Vila Velha são escassas, mas Djalma Corrêa tem as gravações dos três dias de shows do "Nós, por exemplo…", remasterizadas em Los Angeles por iniciativa própria e jamais tornadas públicas. Ele pretende gravar um documentário com a presença dos participantes que, a exceção dele, nunca ouviram o registro do que protagonizaram naquelas noites inesquecíveis em 1964. Trata-se de um dos maiores tesouros não revelados da história da música brasileira. "Eu tô cuidando disso com muito carinho", enternece Djalma.


O baterista Djalma Corrêa (**) na orquestra do maestro Carlos Lacerda
Foto: Acervo Família Lacerda

Mas se estava no palco tocando bateria e percussão, como Djalma conseguiu gravar o espetáculo? "É uma história interessante", sorri. Como teria que usar uma parafernália para apresentar sua música Bossa 2000 D.C., ele teve a ideia de colocar um gravador ao lado da bateria para gravar sua performance. "Já que o gravador estava no palco, por que não gravar o show todo?", questionou-se. Roberto Sant'Ana não gostou da ideia, causando uma discussão que transformou-se em briga. "Fomos para o jardim, e foi um puxa daqui, puxa dali. Caetano segura um, Gil segura outro", conta Djalma. Como num paradoxo temporal, os dois brigavam pela relíquia de um momento marcante que sequer havia acontecido.

Passado o entrevero, eles são amigos até hoje. Seja pela razão ou pela força, Djalma ganhou a disputa e levou ao palco seu gravador caseiro de dois canais de ¼ de pista da marca Philips.

Do "Nós, por exemplo…" em diante, passando pelos outros shows no Vila Velha, no TCA incendiado, Bethânia no Opinião, Arena Canta Bahia, os Festivais, a Tropicália, o exílio, Gal a todo vapor, os Doces Bárbaros, Tom Zé redescoberto por David Byrne, Caetano e Gil juntos no Tropicália 2 e no Dois Amigos, Um Século de Música, o big bang sonoro que há 55 anos explodiu numa Salvador vanguardista, em plena velha Bahia, continua a se expandir até hoje.

"Foi um tiro certo, um tiro na mosca", dispara Roberto Sant'Ana. 





(*) Emanoel Araujo























(**) Djalma Novaes Corrêa [Ouro Preto, 18/11/1942]. Instrumentista (contrabaixo, bateria e tambor) e compositor brasileiro.