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jueves, 8 de septiembre de 2016

2002 - NINO ROTA: Imagens melódicas


22/1/2002


Caetano Veloso escreveu o texto abaixo com exclusividade para BRAVO! On Line, a propósito da celebração dos 90 anos de nascimento do compositor e maestro italiano Nino Rota (1911/1979), autor de trilhas para filmes como Amarcord, Noites de Cabíria, A Estrada da Vida (todos de Federico Fellini), O Poderoso Chefão (Francis Ford Copolla) e Rocco e Seus Irmãos (Visconti).

No dia 29 de setembro de 2001, Caetano recebeu em Assis, na Itália, o Prêmio Michelangelo Antonioni para as Artes. O prêmio é dado anualmente pelo cineasta italiano a um artista internacional cujo trabalho ele considere particularmente significativo e premonitório dos futuros caminhos das artes. O músico brasileiro retribuiu o prêmio com um show-homenagem a Antonioni que, naquele mesmo dia, fazia 89 anos. Na ocasião, ele cantou também uma canção novinha, feita em italiano para Antonioni. Os ecos de Nino Rota que tive a impressao de ouvir na canção me encorajaram a pedir-lhe uma reflexão sobre o autor-símbolo do cinema italiano. Como sempre, Caetano superou as melhores expectativas, como se pode ver a seguir.Elisa Byington, de Roma

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Por Caetano Veloso

Amo de modo especial a música que Nino Rota escreveu para cinema. Há muitas coisas bonitas escritas para servir como trilhas sonoras de filmes. Mas, embora eu aprecie um trabalho rico em textura e atmosfera como o de Bernard Herman, ou cheio de inspiração e sentimento como o de Victor Young, nunca música nenhuma ouvida na sala de projeção me comoveu tão fundamente quanto a que comenta as imagens de As Noites de Cabíria (de Fellini), a que faz andar o drama de Rocco e seus Irmãos (de Visconti) ou a que dá sentido à fábula de A Estrada da Vida (Fellini outra vez). Talvez isso se deva à proximidade que a música de Rota mantém da música popular. De fato, ele arrisca vincular o andamento das cenas a melodias, a motivos melódicos, em vez de concentrar-se em criar climas sonoros apoiados em harmonia e timbre. Ele não é o único a fazer isso. Os outros que o fazem, no entanto, freqüentemente recorrem aos efeitos sinfônicos nos momentos críticos dos filmes. Rota, evidentemente encorajado por Fellini (mas levando isso para outras filmografias), expõe a melodia nua nas cenas cruciais. Sente-se naturalmente a presença da ópera como forma, mas é o que há de mais próximo do canto popular nas árias que ele elege como referência.

Assim, pode ser que eu ame tanto Rota apenas porque sou popular e amo a música popular. Seria bastante. Mas tudo é mais complexo do que isso. O fato é que muitos músicos que trabalham convencionalmente para filmes de baixa qualidade são levados a apoiar-se na melodia. Acima, comparei Rota a alguns grandes compositores do cinema. Mas toda noite pode-se ver na televisão um filme ruim com um tema chato a repetir-se em som de flauta sobre piano. Nada mais longe de Nino Rota. Os motivos melódicos que este cria têm a misteriosa qualidade de parecerem lembranças. Na verdade, estão sempre sobre uma tênue linha que (não) separa o que é nostálgico do que é paródico: a gente nunca sabe se se trata de plágio ou de inspiração mística. E é com os elementos que resultam dessas sutis diferenças que ele compõe sua renda de fragmentos melódicos que ecoam, esvaem-se, reaparecem no tempo criado do filme.

O músico com quem, afinal, Rota mais se parece é alguém cujo temperamento supõe-se que seja muito diferente do seu: Kurt Weil. Tendo também trabalhado sobretudo para as artes cênicas, sempre perto da ópera e da canção popular, do cabaré, do circo, da retreta; e igualmente instigado por um autor e diretor de dramas e comédias a comentar em música a própria música que produzia, Weil achou um tom que fascina e alerta ao mesmo tempo, mantendo-se assim entre a paródia e o envolvimento. Nenhuma novidade aqui: já se relacionou Rota a Weil e, o que traz outras conseqüências, é notável e notório que o alemão influenciou e inspirou o italiano. Embora seja claro que este último tenha trabalhado para a criação de uma poética do sentimento (sentimental) enquanto o outro, cerebral, tenha trabalhado contra a sentimentalidade. Mas o que conta é que ambos construíram peças complexas usando material e técnica de aparência simples — e que ambos chegaram a zonas que se tocam ou se fundem.

Para minha formação, Rota foi um artista fundamental. Um dia, nos anos 1970, eu disse a um amigo compositor italiano: Fellini não seria metade do que é, não fosse por Nino Rota. Ele me respondeu: Nino Rota tampouco seria quem é, não fosse por Fellini. Não discordei. Não conheço a obra de Rota fora do que ele fez para o cinema. Aqui, o que ele fez me foi essencial.

Quando compus Giulietta Masina, procurei — com muito esforço — evitar qualquer parecença com a música de Rota. Fui para o Nordeste, citei minha própria Cajuína, porque eu queria dizer que eu, brasileiro, esta pessoa do interior da Bahia, este músico popular que fez músicas desse jeito que faço, eu é que queria falar de Giulietta. E dela. Não do cinema de Fellini ou da música que Rota fez para ele. Um crítico inglês da revista Wire (eu acho) falou muito mal do meu disco Omaggio a Federico e Giulietta, dizendo que este quase nada tinha a ver com os filmes de Fellini, que soava simplesmente como mais um disco de música brasileira. É isso aí. O imbecil queria algo que soasse como Nino Rota. Ignorante das coisas brasileiras (mas também do cinema italiano), portanto incapaz de entender onde Fellini/Rota/Masina entra na Ave Maria de Augusto Calheiros, no fado Coimbra e em Chega de Saudade, concluiu que o disco era uma “sopa de marshmallow” (a doçura e o sentimentalismo — neste caso, obrigatórios — tinham que levar essa porrada neo-punk). Mas Rota está em Luz do Sol. E sobretudo está dentro de mim. As músicas que não parecem com as dele estão cheias de sua presença.

Recentemente fiz uma canção a que dei o título de Michelangelo Antonioni. Não é uma canção ninorotiana. Está calcada na atmosfera dos filmes de Antonioni. As referências minimalistas do arranjo são homenagem ao minimalismo formal pioneiro desse cineasta. Mas é uma canção que ecoa a música italiana. Muitos esquecem de que Antonioni é italiano. E ele o é muito intensa e profundamente. A introdução dessa canção que fiz sobre/para ele, cantada em falsete, com uns cromatismos melódicos e harmônicos, levam a pensar em Nino Rota. É que aqui, diferentemente do caso de Giulietta Masina, eu não fiz nenhum esforço para afastar-me de Rota: com Antonioni eu já estava suficientemente longe. O compositor italiano Aldo Brizzi me disse que eu cheguei a Antonioni “via Marguta”, que é a rua onde Fellini morou. Essa é a Itália para mim.

Também para O Quatrilho compus um tema que ecoava o canto de Rocco no filme de Visconti. Rota fez a música desse filme. Mas a música do filme de Fábio Barreto não é ninorotiana. A introdução de Michelangelo Antonioni o é consideravelmente mais. Antonioni, que sabe tudo, aprovou.

O tema de Os Boas-Vidas, o de Noites de Cabíria, o de Rocco e Seus Irmãos, o de O Poderoso Chefão; a melodia do trompete de Na Estrada da Vida, a do acordeão de Amarcord — toda essa música é parte do que há de mais belo entre as coisas que se fizeram no século passado. (© Bravo Online)




© ItaliaOggi

viernes, 17 de agosto de 2012

1997 - QUE NÃO SE VÊ [Come tu mi vuoi]


Una de las melodías de Nino Rota elegidas por Caetano para interpretar en el homenaje a Federico Fellini y Giulietta Masina.

De la película La Dolce Vita, la versión fue especialmente dedicada a Marcello Mastroiani.





Música: Nino Rota
Letra: T. Amurri
Letra en portugués: Caetano Veloso


Uma intensa luz
Que não se vê
Passa pela voz
Ao se calar
É a vez de uma estrela
Guarda o nome dela
Nosso coração é o seu lugar

Somos sempre sós
E ainda assim
Ela brilha em nós
Em ti, em mim
Nem bruta nem bela
O silêncio é tê-la
A voz dessa luz, sem fim, sem fim

Come tu mi vuoi. Sarò, sarò
Quello che tu vuoi. Farò, farò
Non ti lascierò mai
Ma non ti amerò mai
Questo tu lo sai, sì lo sai

Uma intensa luz que não se vê
Passa pela voz ao se calar




1999 - CAETANO VELOSO
6909 0105 / 4:14
Álbum "Omaggio a Federico e Giulietta"
Gravado ao vivo em Teatro Nuevo, Dogana -  RSM (República de San Marino)
nos dias 28, 29 e 30 de outubro de 1997
Universal Music CD 7314546638-2, Track 1.