Quem
não viu a pérola negra de Gal?
De JOMARD
MUNIZ DE BRITTO
Gal:
Menina
perigosa,
mulher
dengosa,
anjoserpente
 |
| Foto: Thereza Eugênia |
Não
tenham medo de ouvir um grito (há muito tempo preso na garganta...), grito
primal, grito liberado nestas águas de setembro que agora derramarei. Pela
necessária impureza do terror lírico. Amor/terror. Nem se sufoquem com este
incenso abençoando a filha sagradamente incestuosa de João Gilberto, alma gêmea
de Caetano Veloso: Maria da Graça, Gracinha, Gau, Gal Costa. Porque seu nome é
Gal igual a Gau. Gal sete vezes Gau. “GAUprimalGAL”.
As
sete portas de sua dengosa sensualidade transbaiana.
Os
sete minimistério de sua ambivalência: pelo menos gestual.
Os
sete encontros com a tristreza forte de Roberto Carlos e com a saúde tão
contagiante de Jorge Ben.
As
sete “javenturas” (venturas, juventudes, aven.
As
sete barriguinhas de sua ver-sa-ti-li-da-de em processo “dailove”.
Os
sete mil olhares ou setecentos mil (perdi a conta, descontei) para os rostos
ávidos, emilianos, ofelianos vidrados por tudo.
Numa
só noite, em menos de duas horas, Gal reviveu sete vezes sete seu itinerário
como cantora mais que cantora. Como intérprete, como gracinha, como pessoa que
não se assusta consigo própria. Como alguém que vem assumindo uma posição
dentro da existência e da criação cultural brasileira.
UM:
Ela começou (para nós, é cla-ro/escuro, porque para Roberto Pinho o encontro
foi muito anterior) numa das faixas do primeiro LP de Maria Bethania. Em SOL
NEGRO, precisamente, onde Bethania toda “animus” revelava sua face de “anima”
através de Maria da Graça. Duas marias. Mil marias: uma faca, outra flor; uma
terra, outro sonho; uma lâmina, outra língua; uma se lançando, outa bem íntima;
uma guerrilhando a partir da nordestinidade, outra chorando pelos espaços
infinitos; uma diferente da outra; uma sendo o SOL NEGRO da outra. Ambas
demonstrando a permanência de Jung, assim como as pinturas do indócil Chico da
Silva comprovam a realidade intempestiva do "inconsciente coletivo".
O Sol Negro faz parte desse "inconsciente" que raramente suportamos e
que tão facilmente nos derruba.
DOIS:
Sua flor continuou adquirindo ou desenvolvendo mais carnalidade no primeiro LP
de Caetano Veloso: DOMINGO — “nova, perdida, calada/ não há madrugada/
esperando por mim”… Neste domingo suas relações incestuosas com João Gilberto
principiaram a correr mundo sem o mínimo perigo. Ela incorporou (literal e
figuradamente: trouxe para dentro de seu “corpoflor”) a poética
joãogilbertiana: não um possível "maneirismo" ou a fixação de um
estilo. É bim-bom repetir: não havia nas límpidas interpretações de Gal nenhum
“bossanovismo”. Ela se identificou com João Gilberto, porque se deixou possuir
pelo núcleo mais profundamente terreno de sua mensagem: a modernidade para além
de um delimitado tempo cronológico. A modernidade como exatidão. A modernidade
tranquila: um novo modo de ser/estar presente e perene. A modernidade capaz de
fazer um círculo com uma régua e um esquadro. Modernidade como "tour de
force". Modernidade eterna no seu desafio. Viva, sempreviva, como a “florgalmulher”.
TRÊS:
Na terceira hora — muito mais aflitiva do que a 25ª, e muito mais brincalhona
do que as horas zero da Central 2222 — foi quando Caetano, Gil e Duprat
decidiram “ferrar” os donos da música populante brasiloide. Gal: musa do
tropicalismo? Mas que gracinha é essa de “musismo”? Foi Gal quem colocou nos
ouvidos primeiramente e logo em seguida na boca de uma extensa classe média,
bem geleia geral brasileira. O “hino” intimista do tropicalismo: BABY. E este
público inconscientemente cruel e estúpido e inocente e atrasado, que não podia
ouvir Caetano sem resmungar, que não podia mesmo por fatalidade “histórica”,
este público se deixou envolver por “GaubabyGal”. Então se deu a primeira
aproximação entre o "espírito" de vanguarda pop-musical e o gosto que
sempre se enrosca do grande público, que ouve rádio e sobretudo adora televisão,
salve, salve! Assim, por Gal Costa o tropicalismo se transformou em força de
comunicação: além das bananas e bacalhaus do precursor genial Chacrinha.
QUATRO:
Um espaço vivo de serenidade dentro da parafernália tropicalista, Gal começou a
soltar os cães adormecidos ou bem guardados em seu baú de prata. Tempo do
DIVINO-MARAVILHOSO. Um rompimento a partir de seus olhos acesos: “é preciso
estar atento e forte!”
Continuou
sendo a mais fiel intérprete da mensagem dupla de Caetano e Gil. Dupla múltipla
e cúmplice. Tempo de abertura e de sufocações. Tempo mais vivido do que
escrito.
CINCO:
Dizer que Gal Costa se inspirou demais em Janis Joplin é uma besteira tão
redondamente fechada quanto afirmar que a nossa Anah Lúcia Leão imitou o estilo
da primeira. O que houve foi demasiada “transpiração”, como naquela famosa
frase sobre criatividade: um por centro de inspiração para noventa e nove por
cento de transpiração, de esforço concentrado, de tenacidade redobrada. Gal
transpirou no TUAREG para transpirar ainda mais na CULTURA E CIVILIZAÇÃO. E sua
transpiração foi tão contundente que chegou a perder o seu público inicial: o
das carolinas muito mais margarinas do que indocilmente babys. Para
reconquistá-lo logo mais expondo/explodindo Roberto Carlos como compositor
forte, fazendo de sua tristeza maior uma arma aguçada: eu sou terrível, não
duvidem. Tempo de transpiração: Caetano falara antes em explosão e
experimentalismo. Prefiro a primeira boa palavra — transpiração — com muito
mais cheiro de suor sofrido no corpo de Gal: menina perigosa, mulher perigosa,
mulher dengosa, “anjoserpente”. “Gautuaregal”.
SEIS:
Introversão e extroversão do gemido, em ACAUÃ e VAPOR BARATO. Ela já está
fazendo de tudo e simultaneamente: de João Gilberto a ela mesma, passando pelo
pelito caudaloso e gostoso de seu mano Caetano. De Gal tudo se pode esperar,
desde que possuída pelas suas próprias vibrações. Cultivando seu múltiplo
olhar, entre expectante e provocativo e etc. Alisando sua barriguinha como se
fosse um brinquedo consciente e concretíssimo. Seu canto sensual só encontra um
correspondente único em termos de desempenho corporal: no “transbunde” de
Caetano Veloso.
SETE:
Gal em nosso Ginásio dos Esportes esteve sete vezes sete: seu “demonismo” se
soltou como não poderia mais. Na ponta dos pés deu mais de um rolê… Com gestos
tão leves no começo/meio de cada interpretação. Com um violento levantar de
João Gilberto, Caetano, Flaviola. Diva e Cosma Cósmica, uma natalense/londrina
que um dia ela conhecerá e reconhecerá. Mais do que ninguém, Gal continua
sabendo através do corpo, de seus olhos, de seu ventre, de sua língua. Sabendo
sete vezes sete, devorou sua plateia, que nem ao menos desconfiava que estava
sendo comida, num dos maiores banquetes da música viva popular livre
brasileira.