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jueves, 7 de diciembre de 2017

2007 - OS 100 ANOS DE DONA CANÔ [3]

16/09/2007

Dona Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, faz 100 anos neste domingo, 16

Matriarca que não gosta de novela e assiste a 'Tom & Jerry' é famosa por sua personalidade benevolente

Luciana Tecidio

DO EGO, NO RIO


Claudionor Vianna, ou simplesmente Canô, faz 100 anos

Santo Amaro da Purificação, no interior da Bahia a 71 quilômetros da capital, Salvador, aguarda ansiosa a chegada do domingo, 16. Neste dia, a cidade vai dar uma pausa para comemorar os 100 anos de sua personalidade mais ilustre: Claudionor Vianna, mais conhecida como Dona Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia.

Neste dia, a casa com dez quartos e dois salões na parte de cima, repintada em suas cores orginais, branca e azul, vai abrigar toda a família que vem de longe para o seu aniversário.


MISSA E CAFÉ DA MANHÃ

A comemoração no domingo começa cedo. Após a missa às 9h30 da manhã na Igreja de Nossa Senhora da Purificação com a presença dos filhos ilustres Caetano Veloso e Maria Bethânia, será servido um café da manhã na praça em frente à Igreja para 1 mil 200 pessoas.

A escritora e compositora Mabel Velloso, uma das oito filhas de Dona Canô do casamento de 53 anos dela com o telegrafista-chefe dos Correios e Telégrafos da cidade, José Telles Velloso, conta que não vai faltar xícara de chocolate para ninguém.

“Como dizem... será um brunch. Contratamos um buffet e fizemos questão de explicar como dever ser feito o chocolate quente. Mamãe ficou preocupada achando que a cozinheira não ia dar conta de fazer sozinha o chocolate para todo esse povo. Ela achou que só uma pessoa ia fazer tudo...”, lembra Mabel que é mãe da cantora Belô Velloso. Aliás, o Veloso de Caetano deveria ganhar mais um L. O erro foi cometido e se institucionalizou no registro de seu nascimento.

Após o brunch previsto para terminar às 12h30, a família e os convidados seguem para a Enseada do Caeiro, um resort na praia da Itapema. Lá, os convidados vão saborear as iguarias típicas da Bahia: vatapá, xinxim de galinha, feijão-fradinho, farofa de dendê, acarajé, abará, rapadura. Só para o caruru serão gastos cerca de 10 mil centos de quiabo (na Bahia ele é vendido aos centos). 


SAPATO SOB ENCOMENDA

Sapato de camurça com cristal Swarovski feito para ela usar na festa de 100 anos

A roupa que Dona Canô vai usar no dia é uma surpresa preparada por Maria Bethânia. Bem como a confecção de um sapato tamanho 34 a ser usado pela mãe no dia de seu aniversário. A pedido da matriarca, que quando fez 90 anos usou um modelo de veludo com laço de gorgorão e strass, Bethânia mandou confeccionar um  modelo mais confortável. Também desenhado por César Coelho Gomes, da grife Swains, o sapatinho dos seus 100 anos é feito de camurça de cabra marfim com uma tira de cetim e fivela de cristal Swarovski (veja foto ao lado). 

Uma leitura da vida de dona Canô leva a crer que tanta festa em torno dessa baiana de metro e meio de altura e com uma saúde ótima não é somente porque gerou dois gênios da Música Popular Brasileira. Canô não é o que é por causa de Caetano e Bethânia. Caetano e Bethânia sim, são o que são por causa dela.


"FAZER 100 ANOS É UM SURPRESA QUE DEUS ME FEZ"
Para criar os filhos- Claudionor que ganhou o apelido de Canô de um menino que não conseguiu soletrar seu nome verdadeiro-, ela trabalhou muito. Além dos filhos naturais frutos de seu casamento com Zeca – Roberto José, Maria Isabel, Clara Maria, Rodrigo Antonio, Caetano Emanoel e Maria Bethânia-, a baiana criou mais duas meninas: Nicinha e Irene. Foi em homenagem à irmã de criação, Irene, que Caetano criou a famosa canção quando esteve exilado: “Eu quero ir minha gente, eu não sou daqui/ eu não tenho nada/ quero ver Irene dar sua risada”. Os partos dos filhos foram fáceis e em casa com a ajuda da sogra e da mãe.

Com uma lucidez e memórias impressionantes, Dona Canô falou com a reportagem do EGO pelo telefone como se sente aos 100 anos. “Me sinto da mesma forma. Não mudei nunca. Fazer 100 anos é uma surpresa que Deus me fez e estou aceitando”, disse ela que fez um rápido balanço da vida de um século. “Já realizei tudo. Chegar até aqui é uma realização muito grande”.

 
Dona Canô com o marido Zeca, Caetano e Bethânia
  
MULHER CULTA
Criada numa casa de família rica da região pertencente a Dona Sinhazinha Batista, mulher de um senador, Canô aprendeu lá tudo sobre teatro, música e poesia. A cultura adquirida foi ramificada para os filhos que conheceram tudo sobre arte com a mãe.

Ao circular pelas ruas de Santo Amaro no carro com motorista presenteado por Maria Bethânia, é comum ouvir o povo falar: “Lá vai Dona Canô fazer o bem”. Preocupada com os pobres, seu nome batiza um centro oftamológico para pobres além de um viaduto no aeroporto de Salvador, um teatro e uma biblioteca pública. Nos seus aniversários ela avisa que não quer presente. Em troca, pede donativos para os menos abastados que são distribuídos a eles a mando dela. “Meus filhos serem unidos é meu maior presente”, diz a matriarca.

ELA NÃO VÊ NOVELA
Todo o dia, por volta das 11h da manhã, Canô vai até a cozinha e saboreia num pires o arroz fresco que cozinha na panela. Em seguida, após o lanche frugal, faz um almoço consistente e dorme todas as tardes. O jantar é sempre uma sopa. Na televisão, nada de novelas – ela não gosta. No lugar delas, assiste a desenhos animados e entre seus preferidos estão “Tom e Jerry” e “Pato Donald”.

No domingo, 16, Caetano Veloso que costuma dormir de madrugada e despertar por volta das 17h, terá que acordar mais cedo. Ao EGO, o cantor e compositor disse qual é a maior lição de vida que sua mãe lhe deu: “Foi ter a capacidade de gozar a existência. Aprendi observando ela. Minha mãe é minha voz. Gosto de cantar como se fosse ela (Dona Canô costumava cantar para a família). Acho ela uma pessoa feliz que é um negócio pouco difícil”, analisa ele.







16/9/2007

Multidão participa das homenagens a dona Canô

O clímax dos festejos pelos 100 anos da matriarca dos Vellosos foi a vinda da imagem de Nossa Senhora

Mariana Rios

Acolhida no abraço da filha Maria Bethânia, dona Canô sucumbiu à emoção na Igreja Matriz da Purificação completamente lotada. Foi lá que recepcionou a convidada mais especial da festa – a imagem de Nossa Senhora de Aparecida, vinda do santuário do Alto Vale do Paraíba, interior de São Paulo. Para a anfitriã, a visita foi o clímax do dia de ontem e das comemorações do seu aniversário de 100 anos, que prosseguem hoje. Ao som da voz inconfundível de Bethânia, que cantou a música Romaria, abraçou e beijou com candura a imagem. Antes de devolvê-la ao padre que a conduzia, encostou a cabeça no manto azul. O momento de fé de dona Canô foi visto por todos no templo.

Ela não pôde acompanhar o restante da celebração – a missa programada para 12h. Visivelmente comovida, foi levada pela filha e por familiares para casa situada no centro de Santo Amaro. Precisava se recompor. Aquela visita muito aguardada foi um momento ímpar das celebrações que movimentam desde sexta-feira o município, a 75 km de Salvador. Desde cedo, estava ansiosa, segundo o filho Rodrigo Velloso. “Para ela, a festa maior é essa aqui”, afirmou, momentos antes do encontro na nave da igreja, tendo às mãos uma garrafa térmica, com café com leite, para que a aniversariante bebesse, após a procissão pela cidade.

E a população compareceu às ruas, protagonizando um belo espetáculo de fé. Segundo cálculos da Polícia Militar (PM), mais de seis mil pessoas foram recepcionar a padroeira do Brasil, que seguiu em carro aberto, do Corpo de Bombeiros, atrás da imagem de Santo Amaro. “Não posso descrever este merecimento. Só Deus para me dar, Nossa Senhora abraçando a mim e a minha terra”, declarou dona Canô. Cercada por dezenas de câmeras, reverenciou a santa. Demonstrou força e altivez, mesmo quando o corpo sucumbiu ao cansaço.

“Ela será sempre linda, serena, comovida e mariana. É uma mulher de muita humildade, segura, determinada. Este é o momento mais comovente e ela merece tudo”, elogiou Bethânia. Durante a celebração, Bethânia não desgrudou da mãe, como faz costumeiramente quando vai a Santo Amaro. 
Festividades - Tudo começou por volta das 10h30, com a chegada da imagem de Nossa Senhora de Aparecida. Segundo o padre Josafá Moraes, do santuário situado em Aparecida do Norte, a vinda da santa foi uma retribuição à ida de dona Canô ao santuário em 2004. “Foi uma recepção muito bonita, forte e expressiva. Uma das melhores que participei”, garantiu o padre. Durante o cortejo, todos queriam tocar, ver, tirar uma fotografia, acenar para a imagem. 

Atrás do caminhão dos bombeiros, dona Canô também era saudada. Recebeu abraços, cumprimentos, votos de saúde.

O cortejo seguiu pelas ruas do centro até a Igreja Matriz. No trajeto, a multidão segurava bandeiras e imagens da santa. Nas portas das casas, pequenos altares, lenços brancos nas janelas. A equipe da TV Aparecida também compareceu à homenagem para a gravação de um programa especial. Gente do povo, religiosos, políticos, pescadores e marisqueiras, todos vieram saudar a aniversariante e sua convidada especial. “Trouxemos nosso material de trabalho para que Nossa Senhora abençoe e para que as pessoas conheçam nosso trabalho”, afirmou o presidente da Associação dos Marisqueiros e Pescadores de Caieiras, José Roque Filho. O filho Caetano Veloso participava do seminário na Casa do Samba de Santo Amaro e não acompanhou a celebração. A imagem de Nossa Senhora permanece na igreja até às 18h de hoje.

***
Programação do aniversário

9h30 – Missa em homenagem a dona Canô
10h30 – Café da manhã com a comunidade na Praça da Purificação
13h – almoço com a família e convidados, em um resort de Caieiras




CartaCapital

Um viva à mãe Canô
por Valéria Almeida

Autoridades presentes, missa e inaugurações festejam o aniversário de Dona Canô. Ela diz não merecer. Os filhos dão mostras de mau humor.




Faltam 48 horas para o grande dia. Nas ruas de pedra da pequena Santo Amaro da Purificação o povo se agita, dança. À beira do rio Subaé, a bela Casa do Samba é inaugurada para marcar a data. Políticos, artistas, amigos e admiradores se reúnem no Recôncavo Baiano. Todos querem prestigiar o momento.

É véspera de aniversário de Claudionor Vianna Telles Velloso, ou simplesmente Dona Canô. A senhora de um metro e cinquenta, voz doce e passos firmes está prestes a completar cem anos. É ela quem brilha nesse momento, apesar dos rompantes de estrelismo dos filhos Caetano, que grita afastando a imprensa, e Maria Bethânia, que pede licença batendo com leque e não quer que ninguém a toque.

Faixas espalhadas pela cidade explicitam a importância dada a ela, considerada “o alicerce de Santo Amaro”. No palanque posicionado à frente do Teatro Dona Canô, as autoridades discursam sem parar. Todos querem dizer algo. Quebram o protocolo, fazem política. Lá embaixo, o povo dança. Mas, de repente, chega Canô. Por ela o samba pára. A população ovacionada. “É a grande matriarca”.

Todos querem pegar na senhora que, de mansinho, chega acolhida por filhos e amigos. Lá está no palco. Querem que ela fale. Ela atende o público. Sem se levantar, pede com voz embargada que o povo cuide daquele lugar que “um dia foi nada”. Fala da sua vida, do que viu, mas ninguém escuta. O povo grita declarações de amor.

Faltam 24 horas. Por ela Nossa Senhora Aparecida vai à Bahia. Na praça central, em frente à Igreja Nossa Senhora da Purificação, crianças, adultos e idosos esperam com flores, bandeirinhas e músicas na ponta da língua. Quase meio-dia e uma carreata percorre as ruas do Centro. A santa chega, logo atrás vem dona Canô. Entre o tumulto armado, uns pedem a benção à padroeira, outros a mãe santo-amarense.

A imprensa se amontoa. Fotógrafos e cinegrafistas se aglomeram diante de Canô. Com olhar um tanto assustado ela segue. Que ver Nossa Senhora. Lá na frente, diante do altar, está a filha cantora, Maria Bethânia, que ora em forma de música, consagrando a imagem da santa. A aniversariante se emociona.

Já em sua casa, famosa pela acolhida, dona Canô se recolhe aos aposentos. Precisa descansar, seguindo o ritual de todos os dias. Enquanto isso, amigos e familiares mantêm a tradição de meio século. Com facas a mão e esparadrapos nos dedos, todos se põe a cortar quiabos para o preparo do caruru servido no dia 16 de setembro. Entre lembranças de toda a vida, eles riem e cantam para os erês.

Na rua, todos passam a olhar a simples casa branca de portas e janelas azuis, na avenida Ferreira Bandeira, 179. De bengala na mão, um senhor diz: “quando vier a Santo Amaro cante assim: Se Dona Canô chamar, já não posso resistir, sigo o toque da viola, vou pro samba por aí...”. Chamada de Samba para Canô, a música é a mesma que faz trilha sonora no almoço às margens do rio que cruza a cidade.

Nascida na própria Santo Amaro, Canô viu a construção da primeira praça, a chegada da luz elétrica, os bondes puxados por burros. Aos 23 anos, casou-se com o telegrafista José Telles Velloso, seu Zeca, e teve oito filhos. Sem muito, passou a ser admirada...

Chega então o grande dia. A igreja da Purificação está decorada com flores brancas. Há uma passarela feita a Canô. Na porta está um laço de fita azul, a ser descerrado na entrada triunfal da aniversariante. No chão, um tapete branco conduz ao altar. Está tudo realmente perfeito. Lá dentro está Nossa Senhora Aparecida e os amigos que chegaram cedo para garantir o lugar.

Do lado de fora, uma multidão espera. O sol brilha forte. Chega então a matriarca da família Velloso. De roupa branca bordada, sapatinho dourado e bolsinha, ela está sorridente. Acena. Pega na mão dos amigos. As crianças querem ver Canô. Os adultos e idosos também. Todos querem desejar o que há de melhor.

No pescoço, carrega um colar com pingentes feito com três símbolos: o coração, a espada e a âncora. São seus símbolos de vida, amor, força e alicerce. Sua família também os tem no peito. No altar, feitos com flores, eles também estão presentes.

Dona Canô entra. A imprensa pisoteia o tapete branco, enquanto ela continua a caminhar, agora com um semblante mais fechado. A anfitriã senta ao lado da amiga de 100 anos, dona Luizinha (na cidade há outro centenário, com 104 anos).

Tem início a celebração à vida. O cardeal agradece a presença do governador, do prefeito e demais autoridades políticas, e Canô faz ar de contragosto. A todo instante uma das filhas pede silêncio, assim como licença a repórtes, cinegrafistas, fotógrafos e curiosos que, no altar, não deixam que a mãe assista a missa.

Bethânia se enerva e diz que a cena é “assustadora”. Logo mais canta à matriarca e faz questão de estar junto dela. Dá água. Vê se está tudo bem. No púlpito, amigos declamam poemas, declarações de amor, e um dos bisnetos lê um texto que mostra como a bisa conduz a vida “como a receita do bolo que não sola”.

Chega a hora das ofertas. Em fila, a família leva à Dona Canô oferendas da natureza. Em vasilhas de vidro entregam água do rio, água do mar, terra. Mais uma vez, ela se emociona. Os correios eternizam a chefe Velloso em selo. Sorridente, ela passará a ser vista no mundo em correspondência.

Chega ao fim a cerimônia e os flashes “protocolares”, como ressalta o padre. Lá fora a banca toca, crianças cantam e Canô, em seu dia de rainha, diz com simplicidade e sabedoria: “eu não fiz nada para merecer tudo isso. Famosos são meus filhos”.











17/09/07

Bethânia e Caetano comemoram 100 anos de dona Canô
Festa e missa foram realizadas em Santo Amaro, na Bahia


Do EGO, no Rio



Dona Canô é acordada com festa em sua casa na Bahia

Maria Bethânia e Caetano Veloso comemoram os 100 anos da mãe, Dona Canô, no domingo, 16, em Santo Amaro na Bahia. Os músicos não conseguiram chegar a tempo para o café da manhã com a aniversariante, mas os outros irmãos estavam presentes.

Dona Canô saiu do quarto acompanhada das filhas Mabel Veloso, Clara Maria e da neta Ju. Ela foi aplaudida quando chegou na sala. Em seguida, banhou-se com água da cachoeira, que armazena em uma garrafa, e brindou com a filha Mabel com uma xícara de café preto. "O segredo para chegar aos 100 anos é procurar ser feliz", afirmou Claudionor Vianna, mais conhecida como Dona Canô.


Bethânia, Caetano e Tom na igreja onde foi celebrada a missa de 100 anos de dona Canô



FARTURA

O café da manhã foi servido numa grande mesa. O cardápio variado e apetitoso permitiu a Dona Canô degustar ao lado dos filhos Mabel, Irene, Clara Maria, Rodrigo, Roberto (Bob) e Nicinha e de amigos como Alcina, Leda e Sílvia (sobrinhas), Ana, Mire, Lucya Adães, que a homenageou com um poema. Às 9h30, o grupo seguiu para a Igreja Matriz, onde aconteceu a celebração da missa reunindo políticos, amigos, familiares e populares. Maria Bethânia e Caetano já estavam no local. O cantor levou os filhos Zeca e Tom para a comemoração. "Benção, minha mãe", pediu Caetano à Dona Canô.

Ao término da missa, a festa não terminou. Todos foram para o Hotel Fazenda Enseada do Caeiro, onde foi servida comida típica baiana. Estiveram presentes no evento personalidades como o ministro Gilberto Gil, o governador da Bahia Jacques Wagner, ACM Neto, ACM Filho, Cesar Borges, Regina Casé, Margareth Menezes e Antonio Imabassaí, entre outras. "Ela contribui para que tudo fique legal em volta dela", disse Regina Casé.




























18/9/2007


GENTE

Valdemir Santana


Luxo local
Duas estilistas tradicionais de Santo Amaro se esmeraram em produzir o look de Dona Canô para os dois dias de festas que encerraram a comemoração pelo centenário da matriarca da família Velloso. Maria Bethânia comprou os tecidos, renda e cetim, no Rio de Janeiro, e enviou para o outro filho da matriarca, Rodrigo, artista plástico, que acompanhou tudo.

Tereza Pinto fez o modelo principal, para domingo, bordado com pérolas e barras frisadas sob calor de maçarico. Mas quem surpreendeu pela rapidez na produção foi Ina, que recebeu a encomenda em cima da hora. “O vestido ficou pronto tarde da noite e pela manhã minha mãe vestiu, ficou linda’, comemorou Rodrigo.


Longa amizade
Mais velha do que ela, uma amiga de infância de dona Canô não arredou pé da festa da amiga. Luizinha Pedreira estudou na mesma turma do Colégio Sacramentinas, onde se lia Victor Hugo no original, em francês. Completou 100 anos dia 18 de agosto e dona Canô foi para a festa que ferveu os jardins da residência na Avenida Ferreira Bandeira, no mesmo quarteirão em que mora a família Velloso. As duas não trocaram grandes elogios pelo centenário. “A gente se vê todo dia, conversa o tempo inteiro, como é que vai se preocupar com frases bonitas só porque fez 100 anos?”, perguntou, cheia de sabedoria.

Medida radical
Dona Canô não faltou a um só, de quase oito eventos programados para os dois dias de encerramento da comemoração dos 100 anos. Lá estava ela desde cedo recebendo visitas em casa, na concentração para receber Nossa Senhora de Aparecida, no cortejo, na missa de sábado, missa de domingo, no camarote para os cumprimentos no domingo, no café da manhã na praça e no almoço para celebridades no final.

O perigo foi o entusiasmo dos que queriam ficar à sua volta, incluindo o excesso de profissionais da mídia. A pressão foi tão grande no primeiro dia que precisou sair da Matriz da Purificação sem assistir à missa de recepção à imagem peregrina da padroeira do Brasil. No resort, a aglomeração foi tão absurda em sua volta que tirou o filho Rodrigo do sério. Quando ele viu a sua mãe em perigo, deixou de lado a tradicional elegância e ameaçou com a decisão radical: “Vou chamar Bethânia”, ameaçou. E cumpriu a ameaça.

Barato society
Wangry Gadelha teve participação importante durante a Tropicália. Socialite discreta, não chegou a virar personagem na mídia como os artistas. Era na mansão dela, na Graça, que acontecia o que se pode chamar de parte social do movimento artístico.

As filhas Dedé, que casou com Caetano Veloso, e Sandra, que casou com Gilberto Gil, chamavam os amigos, e ela fazia as festinhas sempre elogiadas. Ficou viúva, mais reservada, e nunca cultuou os holofotes da imprensa.

Estava animadíssima no domingo ao lado da filha e do neto Moreno Veloso, que junto com a mulher Clara Mariani Flaksman paparicava a filha Rosa, de 3 anos, na Praça da Purificação.

Santa mídia
A família Velloso tentou disciplinar o acesso da imprensa na cobertura do evento principal, a missa com dom Geraldo Magela, mas alguns profissionais reagiram e deu no que deu.

No altar-mor, onde estavam o cardeal, mais 15 padres e oito diáconos, havia 34 fotógrafos, repórteres, cinegrafistas e auxiliares. Repito: dentro do altar-mor, a área mais reservada da nave em um templo católico.

Um fotógrafo ficou longo tempo exatamente em frente, ocultando a imagem de Nossa Senhora da Purificação, que é em tamanho natural. Apenas a coroa da santa padroeira da cidade podia ser vista pelos féis.

Sempre em movimento, o fotógrafo cutucou um dos padres perto dele, em plena celebração, e mandou segurar o colete enquanto trocava as lentes da máquina.


Fez pior ainda. Quando os padres desceram um degrau e formaram novo semicírculo mais próximo do cardeal, para a final da concelebração, o fotógrafo instalou uma escada de quatro degraus entre os religiosos, subiu e ficou fotografando.


2007 - OS 100 ANOS DE DONA CANÔ [2]










06/09/2007

Santo Amaro terá casa de cultura dedicada ao samba
Agência A Tarde

O ministro Gilberto Gil e o presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Luiz Fernanda Almeida, inauguram o novo espaço cultural Casa do Samba de Santo Amaro, a 72 km de Salvador, às 17h da próxima sexta-feira, 14.

Grupos de tambor, criola, jongo, partido alto, côco, samba rural paulista e samba de roda se apresentarão durante a solenidade. Casa do Samba funcionará no Solar Subaé, antiga mansão do séc. XIX totalmente restaurada. O local abrigará acervo digital sobre o ritmo e a exposição permanente Samba de Roda: Memória e Vida.

No sábado, 15, o ministro da Cultura abrirá o seminário Os Sambas Brasileiros: Diversidade, Apropriações e Salvaguarda. O evento discutirá a patrimonialização de expressões culturais, origens do samba, batuques, umbigadas e MPB. Uma palestra do cantor Caetano Veloso sobre samba, bossa nova e vanguarda musicais encerra o encontro, que ocorre no Teatro Dona Canô.


13/09/2007

Solar restaurado é reaberto em Santo Amaro

Mary Weinstein, do A Tarde

O Solar Araújo Pinho, construído pelo conde de Subaé, na Rua do Imperador, um dos belos monumentos de Santo Amaro, passou de casa em ruína a imóvel devidamente restaurado em apenas oito meses. Esse tempo poderá servir de parâmetro para outras obras, porque foi considerado recorde para um trabalho de recuperação meticulosa de um patrimônio desse porte e importância: século XIX, feito com materiais importados e com detalhes trabalhados. Isso sem dizer que a degradação do imóvel, vendido pela herdeira Maria de Carvalho de Araújo Pinho à prefeitura há mais de 30 anos, se arrastava sem que providências fossem tomadas. O telhado tinha desabado e a sustentação já tinha esgarçado paredes e pilastras.

A obra duraria mais alguns meses, mas foi apressada para coincidir com as comemorações pelos 100 anos de dona Canô e ter direito à inauguração com presença de ministro e demais autoridades. O solar será reaberto como Casa do Samba, às 17 horas desta sexta. O ministro Gilberto Gil e o governador Jaques Wagner estão sendo esperados. Dona Canô, claro, garante a presença. Caetano Veloso vai participar, como informou a assessoria de imprensa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Ao todo, essa autarquia vinculada ao MinC investiu R$ 2 milhões do próprio bolso para evitar a perda total da edificação e dar a ela um uso, além de reduzir, no que fosse possível, o contraste estabelecido com a instalação do Teatro Dona Canô em 2001, no entorno do monumento tombado, que ocupou o quintal e alterou a tipologia arquitetônica da área. Agora, o Solar Subaé, como também é chamado, passa a ser do samba-de-roda, registrado como patrimônio pelo governo federal em 2004, e também reconhecido pela Unesco, um ano depois.

O arquiteto do Iphan, Francisco Santana, disse que só depende de conservação para que o monumento não volte a ficar arruinado. “Ninguém patrocinou, foi o Iphan mesmo que bancou”, diz Francisco. Segundo informou, foi tudo feito com tinta mineral, própria para contribuir para a absorção e a secagem ideais, sobre argamassa antiga à base de cal. O cuidado no restauro nesses casos é fundamental. “Para manter as características”, diz o arquiteto, que sai explicando cada passo dado. “A frente vai ficar em solo-cimento para o samba-de-roda. Tem esse projeto de iluminação. As árvores (altíssimas) ainda são as que foram plantadas pelo conde”, aponta. No chão, as pedras foram numeradas para poder voltar para o mesmo lugar. O mármore é sempre o original. Nas soleiras, o de Lioz, mesmo rachado, permaneceu.

Restauração – O piso do restaurante é uma tijoleira de barro cozido rústica que preservou a mesma paginação original. Portas de vidro servem como novas divisórias, contrastando com a idade da casa, que ganhou uma primeira reforma em 1859, com a iminência da visita do imperador dom Pedro II, que acabou não dormindo na casa. Foi aí que as abóbadas no térreo e o segundo piso foram feitos.  Todo o projeto, que recompôs, também, a volumetria da antiga senzala destruída, é de Francisco Santana, Etelvina Rebouças, Fernando Magno e Alexandre Prisco.

A equipe optou por conservar os antigos pilares que davam sustentação ao espaço, contrastando com todos os elementos novos que serviram para reerguer a edificação. Da antiga senzala, uma passagem faz a interligação com o Teatro Dona Canô. O prédio anexo acomoda um estúdio de gravação e salas, também, para produção musical, com isolamento acústico e material elétrico modernos.

A preocupação de Francisco era que as paredes remanescentes ficassem evidentes. Ele tratou de guardar um caule retorcido de aroeira que tinha se enraizado e se desenvolvido por entre as paredes do solar. Francisco  acha que algum projeto futuro de memória ou de arte qualquer poderá aproveitá-lo. A pilastra que a aroeira desaprumou foi mantida do mesmo jeito: “A árvore inclinou o maciço de alvenaria que faz a interligação dos edifícios”.

No segundo piso, a inclinação é de uma parede inteira, da fachada frontal, provocada pelo desabamento do telhado. Essa contingência corrigida também ficará registrada, ou seja, a parede continuará torta. Quem olhar com cuidado perceberá. Na pintura, faixas azuis seguiram a moda da época, contornando o alizar (moldura) das portas e os rodapés, também, na cor ocre. A escadaria de madeira com balaustres e frades (espécie de adorno) torneados foi recuperada e poderá ser usada normalmente. Exclusivamente, para os portadores de deficiência física e idosos, foi integrado um elevador.

De todas as paredes com escaiole, que era aquele tipo de pintura que imitava o mármore, sobrou apenas um pedaço de 1,20 por 1 metro. Isso porque as paredes tinham ruído e tiveram que ser recompostas. A técnica usada para recuperação das pinturas artísticas também não estava resistindo à degradação. Há fragmentos dela no segundo piso, com partes quase apagadas ou substituídas por adornos de diversas fases.

Brasão – “A gente poderia recompor, mas o critério foi manter uma restauração, digamos assim, arqueológica, respeitando o que foi encontrado, sem fazer um falso histórico”, frisou Francisco. Prova disso é o brasão da família já meio esmaecido na parte superior da parede. Também a explicação sobre como foi salva a parede com o maior número de adornos pintados é digno de detalhamento: “Foi feito um sanduíche com madeira, formando uma trama de sustentação. Aí, suspendemos essa parede e depois retiramos a madeira original do barroteamento (estrutura de sustentação) e colocamos estruturas metálicas, arriamos a parede em cima e estabilizamos as outras, com estruturas metálicas embutidas”, assinala Francisco.

“Muita dificuldade, o casarão estava muito acabado”, murmura José Carneiro Mehlen, diretor da empreiteira que ganhou a licitação para restaurar o monumento em dezembro do ano passado. “Vencemos pelo menor preço”, disse. “Achei bonito, dá mais um toque na cidade. Estava muito feio”, disse a santamarense Alda Salles, de 55 anos, moradora da Rua João Soldado, que sabe sambar e deverá se aproximar da Casa do Samba no antigo Solar Subaé.








15/9/2007

Santo-amarenses antecipam homenagens a dona Canô

Fanfarras integradas por jovens de programas sociais fazem apresentação na porta da casa dos Vellosos

Flávio Costa

O som da fanfarra toma conta da pacata Avenida Ferreira Bandeira, em Santo Amaro da Purificação – a 75km de Salvador. A banda formada por jovens inscritos em programas sociais pára em frente ao nº 179, ontem pela manhã. “O que é isso, Rodrigo?”, pergunta, surpresa, ao filho, do quarto onde descansa uma senhora quase centenária. Nos últimos dias, todos os caminhos e homenagens convergem ao lar da matriarca Claudionor Viana Telles Velloso. 

Bem mais conhecida como dona Canô, ela completa cem anos de vida amanhã, envolta sob uma aura de fé e tranqüilidade.

Com ajuda dos filhos Mabel e Rodrigo, ela é levada, com cuidado, à porta de casa, cuja entrada está repleta de rosas vermelhas. Ao sentar-se, dona Canô acompanha, com alegria, demonstrada em pequenos risos e palmas, as apresentações de samba-de-roda, capoeira e da ensurdecedora banda de fanfarra dos jovens carentes da cidade. O aluno Isaías, da Associação de Pais e Mestres de Excepcionais (Apae), chega mais perto e lhe dedica versos. Recebe beijos de agradecimento. Depois é a vez dos moradores dos abrigos dos idosos cumprimentarem-na.

Todo mundo quer abraçá-la, beijá-la, tirar fotos, só falta pedir autógrafos. Alguns lhe dão medalhinhas de Nossa Senhora, mandalas, buquês de rosas, pequenos quadros. Mãe dos ícones da MPB, Maria Bethânia e Caetano Veloso, dona Canô é uma espécie de pop star na cidade de 50 mil habitantes, no recôncavo baiano. “É assim a todo momento nos últimos dias: todos os colégios, todas as bandas, todas associações passam por aqui”, diz um dos oito filhos, Rodrigo Veloso. “Quando chegar o domingo, eu nem vou ter coragem de falar nada”, segreda à filha, dona Canô.

Ela não quer presentes. Pede doações que serão remetidas às instituições de caridade de Santo Amaro. No quarto que é tomado por imagens de santos, crucifixos e fotos dos filhos – principalmente Bethânia –, estão guardados ao canto caixas de leite, biscoitos, frutos das doações recebidas. “Ela é uma pessoa muito boa e não faz questão de divulgar o bem que faz. Há pouco tempo ela doou 82 livros de literatura à nossa comunidade”, revela o líder comunitário, Luiz Aurélio Cerqueira.

Nossa Senhora – A chegada da imagem de Nossa de Senhora de Aparecida para sua festa é o que mais emociona a aniversariante. “Este é o maior presente e a maior homenagem que já recebi na vida”, diz a católica fervorosa. Vai todos os domingos à Igreja Matriz de Santo Amaro, onde amanhã será realizada a missa de comemoração ao seu centenário aniversário.

A vinda da imagem da padroeira do Brasil foi o presente dado pelo padre Josafá da Basílica de Nossa Senhora de Aparecida (interior de São Paulo), fã confesso de Maria Bethânia. A santa desfila, às 10h de hoje, em carreata pelas ruas de Santo Amaro. Depois acontece uma missa festiva.

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Entra-e-sai na casa dos Velloso
Na casa dos Velloso, é um entra-e-sai danado. A toda hora chega a algum amigo que quer falar com dona Canô, os filhos e aos poucos, os oito filhos, nove netos e seis bisnetos da matriarca. Bethânia chegou ontem à noite. Caetano é esperado para tarde de hoje. “O que mais a caracteriza é sua alegria que passa para todos em sua volta e nos rejuvenesce”, diz o ex-secretário estadual de Cultura Paulo Gaudenzi, que ontem foi visitá-la.

Quem bate à porta 179 às 5h30 já encontra dona Canô acordada. É assim em todos os dias. Ela dorme cedo, e ao amanhecer a luz do sol já começa a refletir sobre seu quarto. Um despertador natural. Acorda, toma laranjada e já recebe as visitas, que precisam falar em alto e bom som, pois a anfitriã tem dificuldade para ouvir. Mas os contratempos da idade não a abatem. Ontem pela manhã, ao notar que precisava de dinheiro, pediu o talão de cheques a um dos filhos, e preencheu a folha com mãos firmes sem ajuda dos óculos.

Um horário impróprio para falar com dona Canô é o da tarde, quando o soneca é obrigatória e quase sagrada. Este é um de seus segredos de longevidade. O outro? “Não guardo raiva, nem rancor. Outro dia eu li numa revista a declaração de atriz que mágoa dá câncer. Eu sempre soube disso”, ensina. O apelido dona Canô vem de muito tempo, tomado de um garoto que não conseguia pronunciar seu nome.

Após a homenagem matutina dos garotos, dona Canô voltou ao quarto para escolher a roupa que vestiu ontem na inauguração da Casa do Samba, no recém-restaurado Solar Araújo Pinho. Em todo evento em prol do desenvolvimento de Santo Amaro, a matriarca dos Veloso marca presença. 

“Como não haveria de ir?”, indaga.

A filha Mabel diz que o apego à cidade natal é um dos principais ensinamentos da mãe. O amor a Santo Amaro lhe foi ensinado pelo marido, José Telles Velloso, a quem intimamente só chamava de “meu bem”. “Ela nunca foi de dar conselhos ou fazer sermões. Ela fazia o certo e nós seguíamos o exemplo. Foi desta forma que a mãe nos passou o amor a Santo Amaro”.

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MISSA COMEMORATIVA

A festa da véspera do centenário de dona Canô hoje será dedicado a Nossa Senhora de Aparecida. Amanhã, dia do aniversário de 100 anos de idade, será realizada uma missa comemorativa na Igreja Matriz de Santo Amaro, a ser presidida pelo cardeal arcebispo dom Geraldo Majella Agnelo. Santo-amarense, o monsenhor Gaspar Sadoc fará a homilia. Logo depois será oferecida à população da cidade um café da manhã. O almoço para a família e 400 convidados será no Resort do Caieiro.








Segunda-feira, 17 setembro de 2007

Caetano reclama de Gil e critica FHC

No aniversário de 100 anos da mãe, dona Canô, ele cobra do ministro melhor defesa dos direitos autorais

Lauro Lisboa Garcia,
SANTO AMARO DA PURIFICAÇÃO

Era para ser um “anticlímax” a fala de Caetano Veloso, como ele próprio antecipou, no seminário Os Sambas Brasileiros: Diversidade, Apropriações e Salvaguarda, que marcou a inauguração da Casa do Samba, no fim de semana, em Santo Amaro da Purificação (BA), terra natal do compositor. No entanto, rebatendo observações do antropólogo Hermano Vianna, Caetano acabou atraindo maior atenção para sua participação, que encerraria o evento.

O filho de dona Canô, que estava na cidade principalmente para comemorar os 100 anos da matriarca da família Viana Telles Veloso, ocorrido ontem, criticou a pirataria, a entrevista do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso à revista Piauí, a absolvição do presidente do Senado, Renan Calheiros (“uma vergonha”), o projeto de nova reforma ortográfica da língua portuguesa. E terminou cobrando do ministro da Cultura Gilberto Gil, presente ao evento, um maior cuidado em defesa dos direitos autorais.

Caetano elogiou um dos aspectos da gestão do ministro - como o que ele chama de “licença alternativa” diante das propostas novas decorrentes da evolução tecnológica, vista pelo ministro como um “conjunto de benefícios novos para divulgação” de obras artísticas -, mas ressalvou: “É bacana, mas também temerário você afirmar isso como ministro, que é também produtor de cultura. Chega num ponto em que o ministério deveria agir nessa questão com mais cuidado. Porque o estímulo a esse negócio cria uma sensação de vale-tudo.” Gil rebateu dizendo que está preparando “uma discussão profunda com a sociedade” e organizando o Fórum Nacional do Direito Autoral.

Caetano emendou em seu discurso uma crítica a Fernando Henrique, que disse à revista Piauí não gostar de paradas cívicas porque os brasileiros não sabem marchar, sambam. “Achei um lixo essa entrevista, não gostei do tom dele, superior. É um tom chato que vem dessa área de São Paulo de se meter na política via intelectualidade. Na verdade isso ainda vem na eleição de Lula”, prosseguiu.

Criticou também a absolvição de Renan Calheiros. “Eu acho uma vergonha. Sou da classe média, filho de um homem honrado.” Caetano disse que não gosta de dinheiro, mas também é contra os regimes comunistas (“uma porcaria”). “Eles nunca passaram pela experiência que nós temos, que é a glória da liberdade.”

IMPRENSA

Caetano falou que pensa em parar de dar entrevistas, irritado com o fato de ser alvo de sites de fofoca e de insistentes câmeras fotográficas. E mostrou-se indignado com os excessos do batalhão de fotógrafos e câmeras de tevê, que não deram trégua a dona Canô durante a missa realizada ontem de manhã em homenagem a ela na Igreja de Nossa Senhora da Purificação.

Algo semelhante já tinha ocorrido em outra missa no sábado, quando chegou à cidade a imagem de Nossa Senhora Aparecida, presente do padre Josafá Morais à cidade. As duas missas tiveram momentos de grande comoção, com a filha Maria Bethânia cantando Romaria, de Renato Teixeira, no sábado, e Maria, do neto de Canô Jota Velloso, ontem. Sempre sorridente, dona Canô foi homenageada também pelos Correios (numa estranha e inadequada cerimônia dentro da igreja), que vão lançar um selo comemorativo de seu centenário com uma foto dela.

Apontada por várias conterrâneas como exemplo de dignidade e bem-viver, ela permaneceu até perto de 13h30 numa tenda armada na frente da igreja para receber os cumprimentos da população que já vem há meses festejando a data antecipadamente.





Debates marcam inauguração da Casa do Samba

Especialistas trataram da origem do gênero em evento promovido pelo Iphan


O Estadao de S.Paulo
17 Setembro 2007
As comemorações do centenário de Dona Canô coincidiram com a inauguração da Casa do Samba de Santo Amaro. Na sexta, a abertura oficial - com presença do ministro da Cultura Gilberto Gil, do presidente do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), Luiz Fernando de Almeida, do prefeito da cidade, João Melo, e do governador da Bahia Jaques Wagner, Dona Canô, Caetano Veloso e Dona Edith do Prato, entre outros - teve como ponto alto as apresentações de diversos grupos de samba-de-roda do Recôncavo Baiano. No sábado, o seminário Os Sambas Brasileiros: Diversidade, Apropriações e Salvaguarda reuniu nomes de peso como o músico e pesquisador carioca Carlos Sandroni, o jornalista e pesquisador gaúcho Fábio Gomes, o antropólogo paraibano radicado no Rio Hermano Vianna, o ensaísta e compositor paulista José Miguel Wisnik, o pesquisador americano Ralph Waddey, além dos compositores baianos Gil e Caetano. A diversidade deu a tônica não apenas pelas origens dos palestrantes, mas pelo vasto debate que se desenha em torno das raízes do samba e de seus desmembramentos, como sinônimo de vários tipos de batucadas.
Uma das falas mais comentadas e elogiadas foi a de Fábio Gomes acerca das origens indígenas do samba brasileiro. Em duas brilhantes falas, Hermano Vianna e José Miguel Wisnik dissertaram, exemplificando com gravações sonoras, sobre a relação do samba com a construção de uma identidade nacional. De origem africana ou indígena, a expressão do samba também foi apontada como uma ''''coincidência sonora de palavras com diferentes significados''''. Para Gil, a palavra samba, que ele também descobriu existir na Jamaica, com outro significado, é um signo conciliador de diversos batuques. Para abrigar a Casa do Samba, o Solar Araújo Pinho, às margens do Rio Subaé, foi totalmente restaurado, vai abrigar museu e promover eventos relacionados ao samba de roda ou outras manifestações rítmicas relacionadas aos batuques, como se viu na noite de abertura. Uma ala do solar (em cuja reforma o Iphan investiu cerca de R$ 2 milhões) conta até com alojamentos para receber grupos de outras cidades.
No fim, Gil avaliou o encontro como o início promissor de uma série de trabalhos em torno da preservação do samba. ''Toda essa questão, o registro do samba como patrimônio imaterial da humanidade na Unesco e depois a Casa do Samba, tudo isso nasceu de encontros que o Ministério da Cultura promoveu com prefeitos e secretários de Cultura e sambadores há dois anos ou mais em Brasília e a gente espera que esse conjunto de interessados e demandantes do que a gente considere salvaguarda, preservação, fomento, todas essas coisas em relação do samba de roda, que a Casa do Samba seja um pólo, entre outros, de irradiação desses deveres, dessas responsabilidades.''


















CORREIO FILATÉLICO

ANO XXX • Nº 207 • Julho/Agosto/Setembro de 2007

Dona Canô é homenageada

Os Correios lançaram, em 16 de setembro, um carimbo comemorativo e dois selos personalizados em homenagem à dona Canô Velloso, mãe dos artistas Caetano Veloso e Maria Bethânia. A cerimônia de lançamento aconteceu após a missa de aniversario de 100 anos da matriarca, na Igreja de Nossa Senhora da Purificação, em Santo Amaro. Até o final de setembro, todas as correspondências enviadas de Santo Amaro receberam o carimbo em homenagem à dona Canô.

Um dos selos, ilustrado pelo artista plástico baiano Bel Borba, traz a imagem da Igreja de Nossa Senhora da Purificação em segundo plano e do rosto de dona Canô, em primeiro. O outro tem a imagem de uma fotografía de dona Canô.

Homenagear dona Canô é homenajear a própria história de Santo Amaro. Trata-se, portanto, de um tributo a uma vida consagrada à família, especialmente aos filhos e ao companheiro, Zezinho Velloso. Funcionário dedicado da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e pai exemplar, Zezinho residia com a família no sobrado em cima da única agência da cidade, e lá seus filhos nasceram, cresceram, foram educados e se tornaram cidadãos do mundo, projetando não só o nome da família, mas, também, o da cidade de Santo Amaro da Purificação.


Junto ao marido, Canô Telles Velloso se dedicou integralmente à educação dos filhos, sem se descuidar da fé e da sua comunidade. Patrimônio vivo do recôncavo e da própria Bahia, dona Canô é símbolo da mãe brasileira, zelosa e amorosa.


Dona Canô recebe homenagem durante a comemoração pelo seu aniversário de cem anos, na cidade de Santo Amaro (BA)
Foto: Walter de Carvalho/Agência A Tarde




O diretor Regional dos Correios, Cláudio Moras Garcia, e dona Canô

Cláudio Moras e Caetano Veloso