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martes, 7 de enero de 2020

2003 - O POETA EM DACAR


2003
Terceira Margem
Revista do Centro de Estudos Brasileiros
(Adolfo Casais Monteiro)
Facultade de Letras da Universidade do Porto
n° 4

Direção
Arnaldo Saraiva

Pág. 47



O Poeta em Dacar

Cabral ombreia o grou coroado:
Sumário confronto sobre a grama
Em frente ao palácio oficial.
Alguns toureiros trazem socorro:
Vêm de seus versos. Muito econômicos,
Nenhum ostenta cores ou cheiros;
Nenhum, sensualidade; embora
Aceso tenham o sexo. Nenhum
Senegaliza. Porém a cola
Que não mascam é como se fosse
A fibra mesma, o osso-poeta
Que sustenta o corpo pequenino
Desse homem desembaraçado
Em sua angústia. Expositivo,
Ele apenas informa é um coan
Sobre a particularidade deles,
Os grous, de, macho ou fêmea, terem
Reações opostas à chegada
De outro animal aqui, este homem
Em seu território: a fêmea avança,
O macho, muito tímido, esquiva-se.
Ou será o contrário, pergunta-nos
O poeta sério e buster keaton.
E conclusivo: um ou outro é
O que ataca; um ou outro, o que foge.
Volta à lajota da varanda sem
Olhar para as aves no gramado
Atrás de si. E muda de assunto



CAETANO VELOSO O POETA

‘O Poeta em Dacar’ é o título do primeiro poema do músico, letrista e intérprete Caetano Veloso, que decidiu privilegiar uma publicação portuguesa para a edição da obra que, assume, ter sido concebida como “não letra de canção”.


27 de Fevereiro de 2004.

O poema em causa figura no número 4, da revista literária ‘Terceira Margem’, e evoca, com uma aura épica, a estada do poeta João Cabral de Melo Neto em Dacar (Senegal), onde desempenhou o cargo de embaixador do Brasil.

Editada pelo Centro de Estudos Brasileiros (Adolfo Casais Monteiro) da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, ‘Terceira Margem’ dá assim continuidade, neste registo com foros de inusitado, à sua aposta de revelar a nova poesia brasileira.

“Os poemas publicados nessa secção são sempre presumidos como inéditos. É o caso dos assinados, neste número, por Tarso de Melo e Ruy Espinheira Filho. Essa condição também teria de ser contemplada, no que se refere ao de Caetano, por ele apresentado como um texto assumidamente de poesia”, explica o Prof. Arnaldo Saraiva, director da revista.

Entre outras colaborações inéditas de autores brasileiros, este número insere textos em prosa de Ignácio de Loyola Brandão e Cláudio Aguiar.

SINTONIAS

Reputado como um dos maiores especialistas portugueses em Literatura Brasileira, Arnaldo Saraiva explica a primazia dada por Caetano à revista, pelas sintonias culturais e intelectuais que os unem, consolidadas em encontros frequentes, ora no Brasil, ora em Portugal. Certa ocasião, professor e artista visitaram precisamente o poeta João Cabral de Melo Neto, vivência que terá estado na origem da poesia e da sua publicação com prioridade em Portugal.

A faceta de poeta é apenas a mais recente desta inquieta e irrequieta figura da cultura contemporânea do Brasil, nascida em Santo Amaro da Purificação, Bahia, em 1942.

Após ter liderado, nos anos 60, a revolução tropicalista na música brasileira, Caetano experimentou os seus dotes de cineasta – em ‘Cinema Falado’, agora reeditado em DVD – e alardeou talentos literários como prosador em ‘Verdade Tropical’, edição da Quasi Edições. Esta mesma editora deu recentemente à estampa ‘Letra Só’, uma antológica recolha das líricas de Veloso nos seus quase 40 anos de canções, seleccionada por Eucanaã Ferraz. Embora seja difícil catalogar como apenas “letra só”, textos plenos de textura e densidade poéticas como ‘Sampa’ ou ‘Terra’.




2001
Revista CULT
n° 49 - Ano V
REVISTA BRASILEIRA DE LITERATURA
Agosto de 2001

Bernardo Vorobow e Carlos Adriano


. . . 
CULT Queríamos partir de João Gilberto e chegar a João Cabral, que parecem ter sido referências centrais para você num dado momento, citando um trecho do texto de música popular e poesia, do Antônio Medina Rodrigues: “O canto a palo seco seria uma espécie de arkhé de todo canto, filosofia vocal ou experiência do canto antes do próprio canto. Com muita distância, a voz de João Gilberto faz algo parecido, mas o faz mais por sua semelhança natural com uma das vertentes da poesia de João Cabral de Melo Neto, dada a maneira com que tanto o poeta quanto o cantor parecem mastigar e remastigar as mesmas palavras, levando-as a uma lisura espectral, a uma quase-neblina geométrica. Ambos estão na corrente que busca idéias puras, um depuramento do concreto que, no fim e ao cabo, acaba dando um certo pitagorismo estético”.

CAETANO VELOSO Eu tenho impressão de que esses dois artistas podem ter me atraído, em grande parte, por características semelhantes a essas escritas pelo Medina. Mas o fato é que são dois artistas que me interessaram muito. E nós não falamos mesmo de João Cabral de Melo Neto, que é o mais importante, porque foi no âmbito da poesia; por um momento ele representou para mim uma verdadeira monomania. Ele pareceu centralizar tudo e resolver todos os problemas. Houve um momento em que ele me pareceu ser o maior poeta vivo do mundo.
João Gilberto adora poesia. No texto “João Gilberto e os jovens baianos” (Balanço da bossa), Augusto conta seu encontro com João em 1968 em Nova Jersey. Ele relata a conversa com João, que falou: “Para mim, é Caetano e Drummond”. E aí o Augusto disse: “O Caetano fala que, para ele, é João e João”. [ri] Porque, para mim, era João Cabral e João Gilberto. Nessa época, quando Augusto me conheceu, em 1967, eu dizia isso todo o tempo: para mim, o negócio era João Gilberto e João Cabral. Mas mais do que procurei - ao fazer O cinema falado - não apresentar sotaques godardianos no ritmo ou na feitura ou no que quer que fosse, eu procurava - na mina lírica [ri] e nas minha letras de música -fugir o mais que pudesse dos cabralismos. Eu me lembro de que, quando ainda estaba no secundário em Salvador, no final do curso clássico, eu fazia uns negócios de brincadeira, escrevendo - imitava a Clarice Lispector, imitava o Guimarães Rosa e imitava o João Cabral. Certa vez, eu fui ver umas meninas lutarem capoeira com aqueles velhos capoeiristas da Bahia. Eram amigas minhas, que estavam na escola de dança e entraram na escola de capoeira. Achei aquilo maravilhoso: elas jogando com os caras e depois entre si. Eu descrevi a cena primeiro como se fosse o Guimarães Rosa, depois como se fosse a Clarice Lispector e depois como se fosse um poema do Cabral, com aquelas rimas toantes, aquele ritmo que é uma métrica às vezes um pouco quebrada, mas uma métrica de versos de oito sílabas, sem as cesuras nos lugares confortáveis, que o Cabral procurava na educação dele pela pedra... Se bem que na Educação pela pedra já não são versos de oito sílabas, e sim versos mais longos. Eu fiz um negócio assim, imitando. Mas eu perdi isso, eu fiz só para brincar e mostrar a elas. Então, nas minhas letras de música, eu procurava não me deixar, de forma nenhuma, parecer com aquilo nem por nada, nem na forma nem nas idéias. No Cinema falado tem um pastiche... Isso eu disse ao João Cabral e ele ficou impassível, olhando para mim, com os olhos duros, como quem diz: “Não vou lhe perguntar nada sobre isso, não quero nem saber.” Eu falei para ele: “João, eu fiz um filme, e no filme eu escrevi um falso poema, um pastiche de poema seu sobre você, sobre a sua poesia.” No início do filme, na hora que alguém assobia O cinema falado, aparece o Luiz Zerbini, sentado, na festa, e diz: “João Cabral de Melo Neto / tentando limpar a poesía / de toda rosa / toda merda / e fazendo-a ainda mais ridícula / mas, não poetizar o poema / sim, mas e quanto a poetizá-lo? / seu fado de magia e música o acossa de todos os lados”. É metacrítico, é Cabral e é uma coisa que põe em dúvida a decisão do Cabral, e de uma certa forma critica a crítica que ele faz... Mas é besteira, porque isso também já está incluído na poesia dele - uma resposta crítica à própria crítica a ele feita. É que o meu é feito de fora, o meu é pastiche, como disse a ele. Ele era muito firme, muito engraçado, um homem fascinante. Eu o vi numa das cenas que eu tenho na cabeça como uma das mais deslumbrantes desse mundo, e tão parecida com os poemas dele! Foi em Dacar, quando ele era embaixador. Eu e Gil estávamos saindo de sua casa, que tinha um jardim grande com um gramado bonito. Estávamos conversando, e ele muito afável, atencioso, simpático, direto. Então ele mostrou dois grous coroados. Aquela ave alta, e ele baixinho. E João disse assim: “É, são muito bonitos. Um é macho e a outra é fêmea. Mas são absolutamente iguais. Sabe como a gente sabe qual é o macho e qual é a fêmea? Se você se aproximar, o macho ataca, e a fêmea não ataca. Ou é ao contrário, não sei... Talvez seja a fêmea que ataca e o macho não ataca. Mas é assim que se descobre qual dos dois é o macho e qual dos dois é a fêmea.” Então ele disse: “Vocês querem ver?” E andou diretamente para o gramado, reto assim. E um dos grous atacou, e o outro saiu timidamente de perto dele. Ele parecia um toureiro, porque ele ficou 100% concentrado nos movimentos do grou e se aproximava até o máximo de risco e logo voltava.
E o grou desarmava, e ele de novo, umas três vezes. Parecia a cena de uma tourada... Estranho, o pássaro quase da altura dele. E daí ele voltou, reto, como quem não tivesse feito nada. E continuou a conversa: “Viu? É assim. Ou é o macho ou é a fêmea, é um dos dois. Mas é assim que se sabe.” E mudou de assunto e falou de outras coisas [ri].
. . .




FOLHA DE S.PAULO


ilusTRÍSSIMA


Leia poema de Caetano Veloso em homenagem a João Cabral


Centenário do poeta pernambucano, morto em 1999, será celebrado no próximo dia 9

4 de janeiro 2020
Caetano Veloso

Na minha juventude, João Cabral foi meu poeta preferido. As rimas toantes, a secura, aquele avesso do surrealismo que era o cerne de seu impulso experimental me arrebataram para além do que me parecia ser o mais elevado estágio de poesia: Drummond.


Ilustração feita por Cássio Loredano (*) sobre João Cabral de Melo Neto


Quando conheci Cabral pessoalmente (no Senegal, onde ele era embaixador e aonde fui com Gil, a caminho do Festac na Nigéria) sua personalidade fascinou-me tanto quanto os seus poemas. Estive com ele mais três vezes depois dessa. Uma no Porto, onde ele servia como cônsul, e duas no Rio: em sua casa e numa leitura/palestra que ele deu ao lado de John Ashbery e Joan Brossa, em evento organizado por Waly Salomão e Antonio Cicero.

A suas casas, do Porto e do Rio, quem me levou foi o professor Arnaldo Saraiva, autoridade em modernismo português e brasileiro. Em todos os encontros, a intensidade de sua presença toda cheia de vida foi sempre uma experiência inesquecível.

Quis anotar o que me marcou no primeiro desses encontros de modo adequado e me vi escrevendo um poema que se esforçava por aproximar-se de sua poesia -sem propriamente imitá-la- e de retratar sua pessoa -sem propriamente descrevê-la.

Quando contei a Arnaldo, nosso amigo comum, este quis publicar minha tentativa na revista portuguesa Terceira Margem. Fiquei orgulhoso. E voltei a orgulhar-me quando Claudio Leal me disse que a Ilustríssima talvez a reproduzisse.

Acho que se Cabral estivesse vivo eu teria vergonha. Faço canções e não poemas -e, se estes são coisas muito diferentes daquelas, meus erros e acertos no presente exemplo serão do tipo que reafirma essa diferença.





JORNAL DO BRASIL - 26/10/1993







































 
 









 
 








 
 
 




3/12/1997 - O poeta João Cabral de Melo Neto (Recife, 9/1/1920 — Rio de Janeiro, 9/10/1999) na sala de seu apartamento, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro (RJ). - Foto: Eder Chiodetto / Folhapress)



_________________________

Cássio Loredano é caricaturista e ilustrador com colaborações em publicações de relevância internacional, como os jornais "The New York Times" e "El País". Seus trabalhos são tema de mostra no Instituto José Resende em São Paulo (somente aos sábados, de 18/1 a 13/2/2020)





sábado, 12 de agosto de 2017

1989 - OUTRO RETRATO


Música y letra: Caetano Veloso
© 1989

Minha música vem da
Música da poesia de um poeta João que
Não gosta de música

Minha poesia vem
Da poesia da música de um João músico que
Não gosta de poesia

O dado de Cabral
A descoberta de Donato

O fato, o sinal
O sal, o ato, o salto:

Meu outro retrato.






1989 - CAETANO VELOSO
6362 7973 / 5:00
Álbum "Estrangeiro"
Philips LP 838.297-1, B-2.
CD 838 297-2, Track 7.







Wolfenson, Bob. Jardim da Luz. Dórea Books and Art / Companhia das Letras. 1996.

Cento e quatro retratos de um dos mais destacados fotógrafos brasileiros, em uma primorosa co-edição da Dórea Books and Art e da Companhia das Letras, dispostos em pares insólitos como FHC e Vera Fischer, Malu Mader e Edmundo.


Assim foram postos, estes dois retratos do poeta João Cabral de Melo Neto (1995) e de Caetano Veloso (1988), no meu livro/exposição "Jardim da Luz", de 1996, no MASP (São Paulo).

Na edição do livro, à época, me ocorreu a canção e os pus lado a lado. [B.W.]




jueves, 7 de julio de 2016

2016 - POESIA E PROSA com MARIA BETHÂNIA





Você vai comandar um programa no Canal Arte 1 chamado Poesia com Maria Bethânia?

Maria Bethânia — Não vou comandar, apenas participar. A Monica Monteiro, do Arte 1, assistiu a uma apresentação que fiz em Braga, Portugal, recentemente e me convidou.

“A marca principal do programa é a descontração”, conta Mônica Monteiro , CEO da Cine Group, a produtora responsável pela série. “Uma estimulante e descontraída conversa entre amigos.”



 


O GLOBO
Bethânia estreia programa ‘Poesia e prosa’ no canal Arte 1
Série tem entre os convidados Chico Buarque e Jorge Mautner

por Leonardo Lichote

24/06/2016  
FOTO: LEO MARTINS

RIO - Na infância em Santo Amaro, Maria Bethânia tinha poesia nas paredes de seu quarto. Eram versos que destacava entre os que ouvia dos poetas amigos de seu pai (“De dez amigos dele, oito eram poetas”, lembra), nos encontros em sua casa. Reuniões que nada tinham de graves, sérias — era a poesia como a vida, grandiosa e cotidiana. É assim que a palavra poética aparece em “Poesia e prosa com Maria Bethânia”, programa que estreia no dia 3 de julho, às 22h, no canal Arte 1 — a série de quatro episódios continua por mais três domingos, no mesmo horário.

— Eles riam muito — conta Bethânia, hoje aos 70 anos, referindo-se a seu pai e seus amigos poetas. — Lembro muito de meu pai falando poesia andando pelo corredor longo lá de casa. A palavra “poesia” rolava muito.

Essa perspectiva de vida e poesia entrelaçadas atravessa o programa, dirigido por Mônica Monteiro (a historiadora Heloisa Starling trabalhou na idealização e coordenação da pesquisa). No primeiro dos quatro episódios, dedicado a Clarice Lispector, Caetano Veloso lembra como chegou à obra da escritora — e como a apresentou à sua irmã. O próprio formato de “Poesia e prosa com Maria Bethânia” aponta nesse sentido, de trazer a palavra poética para perto da vida comum.

Em todos os episódios, há um convidado do universo da canção (mais popular, cotidiana) e um estudioso do personagem-tema do dia. Na estreia, além de Caetano, participa a professora da USP Nádia Gotlib, biógrafa de Clarice. No segundo programa, sobre Guimarães Rosa, estão o historiador Alberto da Costa e Silva e o compositor Paulo César Pinheiro. O terceiro episódio, dedicado a João Cabral de Melo Neto, tem o professor da UFMG Wander Miranda e Chico Buarque. O último da série, sobre Castro Alves, tem novamente Costa e Silva, além da professora Vânia Aparecida e de Jorge Mautner.

— Conheci o professor Alberto pelo livro que fez sobre Castro Alves. Adorei, achei que era um garoto (ele tem 85 anos) — diz a cantora. — Porque ele não só conhece, estudou profundamente, mas fala de um modo fácil, é uma delícia ouvi-lo. Gosto de aprender, todos ali foram chamados por isso. E partindo dessa ideia de que escolho um poema, um texto, não para estudar, mas para me emocionar. É como escolho repertório.

Os convidados ligados à música entraram pela proximidade com a obra do autor em questão — proximidades às vezes que escapam à obviedade. Como a relação entre Chico e João Cabral, que é sempre lembrada pelo fato de o compositor ter musicado os versos de “Morte e vida severina”, mas que tem outros marcos.

— Eu e Chico cantamos “Construção” no programa, uma canção que tem estrutura, ele mesmo diz, completamente cabralina — explica Bethânia. — 

Caetano foi quem me apresentou Clarice (no programa, ele canta com a irmã músicas inspiradas no livro “A hora da estrela”, que Bethânia interpretou no espetáculo de mesmo nome nos anos 1980). Mautner traria um olhar diferente, o olhar de sua geração, sobre Castro Alves (juntos, eles cantam “Negro blues”). 

E Paulinho Pinheiro fez “Sagarana” (com João de Aquino), trabalhou com Tom numa época em que eles estudaram muito Guimarães Rosa, “Matita perê”.


PROJETO DE DISCO COM SAMBAS DA MANGUEIRA

Em meio à música e a declamações de poesia e prosa, o programa se sustenta sobre uma conversa ao mesmo tempo informativa e informal, recheada de curiosidades e histórias divertidas. Bethânia adorou saber, por Costa e Silva, que o apelido de Castro Alves era Cecéu. Pinheiro diz que “Águas de março” é uma canção que só foi possível porque Tom mergulhou no universo de Rosa.

— Chico conta que João Cabral escreveu uma dedicatória para ele: “A Chico Buarque, que não sei quem é” — conta Bethânia, lembrando, entre risos, a personalidade dura do poeta. — Tenho certeza que João Cabral odiava que dissessem os poemas dele. Ele os considerava resolvidos depois que ele terminava de escrever, qualquer coisa que viesse depois era excesso. Tem uma frase dele que o professor Alberto lembra que explica isso: “Saio de meu poema como quem lava as mãos”.
Um programa voltado para a prosa e a poesia, tendo a canção como elemento fundamental, é algo totalmente afinado à obra de Bethânia. Sobretudo a partir do encontro com o autor e diretor Fauzi Arap, no show “Comigo me desavim” (1967).

— Esse cruzamento de poesia e música é criação do Fauzi, sou aluna dele. Ele descobriu a pólvora pra mim. Desde criança, queria o teatro, a poesia, a música. Caetano foi me guiando, ele tinha disciplina. Mas eu sou geminiana, queria tudo ao mesmo tempo. E quero até hoje. Então esse formato do Fauzi me deu isso.

A popularização do texto do livro — prosa ou poesia — pela canção (ou pela TV, como Bethânia procura agora) também fascina a cantora. Ela conta um recente episódio que ilustra exatamente a força da música como veículo.

— Gravei há poucos dias uma participação no DVD “Quintal do Pagodinho”. Zeca sempre se disse fã do “Drama — Luz da noite” (disco de Bethânia de 1973). No dia da gravação, quis homenageá-lo dizendo o texto do Bigode (o diretor Luiz Carlos Lacerda) da introdução de “Essse cara”. No meio, Zeca tirou o microfone de minha mão e seguiu declamando: “Arrasto os móveis, incenso”.

A ideia é que o programa continue no ano que vem (“Temos muitos poetas para fazer, como Manuel Bandeira”, afirma a diretora), mas não há nada confirmado. Entre os projetos de Bethânia, está também a produção de um disco de Arlindo Cruz pelo selo Quitanda, que a cantora tem na Biscoito Fino, e um disco com alguns dos sambas da Mangueira que não ganharam a disputa deste ano, quando a cantora foi o enredo da escola:

— Tem Nelson Sargento, Leci Brandão, Tantinho... E os anônimos, claro, com sambas lindos. É uma forma de agradecer aos compositores.

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O Estado de S.Paulo

Maria Bethânia estreia na TV programa em que fala de literatura

Na série, cantora confessa a dificuldade em declamar verso de João Cabral e relembra encontros faiscantes com Clarice Lispector

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo
26 Junho 2016 

RIO - Quando menina, Maria Bethânia recebeu um conselho que veio quase como uma ordem de seu irmão, Caetano Veloso: “Leia essa escritora, sei que você vai gostar”. Era Clarice Lispector, cuja obra ardente, enigmática e responsável por um movimento ficcional absolutamente novo havia despertado a paixão do jovem compositor baiano. “Caetano me mostrou Clarice quase como um professor, do jeito dele, lendo de forma mágica, me dando uma orientação para eu ler”, conta Bethânia ao Estado, em conversa na quarta-feira, 22, na Villa Riso, um local paradisíaco, cercado de árvores centenárias, em São Conrado, no Rio.

O encontro serviu para Bethânia detalhar seu novo projeto, relacionado com literatura. A partir do dia 3 de julho, às 22 horas, a cantora poderá ser vista como entrevistadora do programa Poesia e Prosa com Maria Bethânia, a ser transmitido pelo canal Arte 1. Inicialmente, serão quatro episódios, um a cada domingo, nos quais Bethânia vai conversar com seus convidados sobre autores que transformaram sua carreira e também sua existência. O primeiro, no dia 3, será justamente sobre Clarice Lispector. Em seguida, os homenageados serão Guimarães Rosa (dia 10), João Cabral de Melo Neto (17) e Castro Alves (24). “A marca principal do programa é a descontração”, conta Mônica Monteiro, CEO da Cine Group, a produtora responsável pela série. “Uma estimulante e descontraída conversa entre amigos.”


E que amigos! Sobre Clarice, Bethânia troca ideias com Caetano e a professora Nádia Gotlib; Guimarães Rosa inspira a conversa com o historiador Alberto da Costa e Silva e o compositor Paulo César Pinheiro; a obra de João Cabral é tema da reunião com Chico Buarque e o professor Wander Miranda; e, finalmente, a poesia de Castro Alves inspira o papo com Costa e Silva e o cantor e compositor Jorge Mautner.

Cantora. Talento para comentar e declamar - Foto: Divulgação

A literatura ganha novos tons e contornos quando interpretada por Maria Bethânia. Desde o já célebre Rosa dos Ventos, espetáculo dirigido por Fauzi Arap em 1971, quando a cantora deu nova vida à linguagem literária, ela criou uma nova gramática para se declamar e cantar a poesia. “Maria Bethânia é hoje a mais requintada intérprete do Brasil, capaz de explorar, por meio da voz e da interpretação, com talento e audácia, as possibilidades de nossa língua poética”, observa a historiadora Heloisa Starling, que trabalhou na idealização e coordenação da pesquisa da série.

Bethânia - Foto: Divulgação


“Isso é o trabalho de interpretação”, diz Bethânia. “Foi o que aprendi nesses anos todos, o tempo de cena, de conhecimentos, a felicidade de conhecer grandes autores, grandes diretores. Fauzi me guiou muito bem, encontrou essa maneira de eu me expressar completa. Ele me fez ver que sou música, que sou teatro, que sou palavra. Ele conseguiu pescar isso em mim - transformou e elaborou a dramaturgia que eu sigo e que realmente me traduz.”

Bethânia. Ela tanto declama como canta “Negro Blues” com Jorge Mautner - Foto: Divulgação

Poesia e Prosa com Maria Bethânia traz o equilíbrio perfeito entre erudição e descontração. Logo no primeiro programa, Bethânia fala de sua relação com Clarice Lispector. A escritora acompanhou os ensaios de Rosa dos Ventos, mas foi na estreia que falou diretamente com a cantora. “Quando terminou o espetáculo, eu estava no camarim, que ficava abaixo do palco. Eu me preparava para subir quando vi Clarice lá em cima, como uma estátua, deslumbrante, rodeada de luz. Ao me ver, gritou assim: ‘Faíscas, faíscas no palco!’. Eu falei: ‘Clarice...’. E ela repetiu: ‘Faíscas, faíscas no palco!’. E foi embora. Essa história me faz lembrar de outra, também linda, de quando conheci Mãe Menininha. Fui levada por Vinicius de Moraes, que me disse: ‘bote sua cabeça no chão’. Eu botei e ela falou: ‘Ave Maria, quanta faísca, meu Deus!’. Não é lindo, as duas falarem de faíscas?”

Outro momento marcante desse primeiro episódio é a canção, inspirada no livro A Hora da Estrela, interpretada por Bethânia e Caetano. Aliás, são de pequenas grandes revelações que se formam todos os programas da série. Quando o homenageado é João Cabral de Melo Neto, Bethânia ouve de Chico Buarque que uma de suas obras-primas, Construção, tem uma estrutura essencialmente cabralina. A dupla, aliás, interpreta justamente essa canção.

Bethânia faz questão de ressaltar que a poesia de Cabral não é apenas seca e cerebral, como habitualmente é tachada, mas também romântica, ainda que de uma forma peculiar. Ela confessa também a dificuldade que ainda encontra para declamar versos do poeta. “A sensação que tenho é que sua escrita é tão forte, tão bonita e completa que qualquer coisa ali sobra. Até a sonoridade das palavras interfere. Imagino o João Cabral reclamando: ‘mas que inferno essa mulher dizendo meus versos. Deixa meu poema! Ele está escrito. Basta!’.”

Com Chico. Ele fala sobre a estrutura de “Construção” - Foto: Divulgação

A cantora também é surpreendida por seus convidados. É o que acontece, por exemplo, quando ouve de Paulo César Pinheiro, no programa sobre Guimarães Rosa, a confissão de que compôs um de seus clássicos, Matita Perê, especialmente para Bethânia interpretar. Mas ela teria recusado, alegando não “cantar música de festival”.

O mal-entendido se desfaz com uma belíssima apresentação.

Aqui, como nos demais episódios, a presença de um acadêmico serve para temperar a discussão, com observações mais profundas. O artista plástico e pesquisador Roberto Corrêa dos Santos, por exemplo, diz que Clarice Lispector buscava chegar ao limite da loucura, mas sem perder a consciência. Mas é de Alberto da Costa e Silva o comentário mais maroto, ao falar sobre o abolicionismo fervoroso que marca os poemas de Castro Alves: “mas ele tinha escravos”.




A TARDE
Cultura
Sáb, 2/7/2016
"Santo Amaro é uma terra de poetas", diz Bethânia
Daniel Oliveira


Bethânia vai estrear um programa de poesia e prosa no Arte1



A literatura ocupa lugar essencial na vida de Maria Bethânia. Não apenas como fruição cotidiana, mas também no trabalho musical. A poesia e a prosa estão constantemente presentes em suas interpretações nos palcos, nos  fonogramas e em outros projetos especiais. A raiz dessa relação é primordial: encontra-se em Santo Amaro, quando ainda garota convivia com os numerosos poetas do Recôncavo.


"Escuto poesia desde menina, meu pai tinha amigos poetas. Quando era criança, brincando, ouvia a palavra em meio àqueles senhores conversando sentados. Gostava muito. Santo Amaro é uma terra de poetas", diz Bethânia.

Um pouco mais tarde, morando em Salvador na adolescência, recebeu preciosa indicação de Caetano Veloso, num tom extremamente afetuoso: Clarice Lispector. A cantora não recorda com exatidão qual era o conto, "talvez Desassossego". "Lembro da força. Ele me falou: 'você vai se identificar, menina'. Na primeira frase, de cara, afirmei: 'Caetano, é isso aqui!'.


Por conta dessa conexão, o irmão é o convidado do primeiro episódio - dedicado à obra literária de Clarice - do programa Poesia e Prosa com Maria Bethânia, que estreia hoje, às 22h, no Arte 1. A atração resulta da parceria do canal com a produtora Cine Group, tem direção geral de Mônica Monteiro e exibe a cantora Bethânia também no papel de entrevistadora.


Temas profundos e eternos, como a emoção, o dito e o não dito e a loucura, a partir do texto e da personalidade de Clarice, fazem parte do enredo do bate-papo entre Caetano, Bethânia e a professora da Universidade de São Paulo, Nádia Gotlib, biógrafa da autora.


O programa tem quatro semanas - sempre aos domingos, no mesmo horário. Além do irmão, Bethânia recebe Paulo César Pinheiro, Chico Buarque e Jorge Mautner. Eles discutem respectivamente Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Castro Alves. Especialistas em literatura brasileira participam das conversas, entremeadas por descontração, declamações e canções. "Pedi para sempre ter alguém de música para mostrar a sonoridade dos autores", explica.


"Na urgência de quatro, fomos fechando. Tinha que ter Guimarães Rosa, João Cabral, Clarice e exigi que tivesse Castro Alves, porque é um poeta que deve ser lido, os jovens devem aprender Castro Alves. Em um mundo tão violento, racista, retrógrado, burro, ele é avançado. Fez aquilo aos 23 anos com tanta clareza", afirma a cantora sobre o poeta baiano abolicionista. Ela, entretanto, faz ressalva sobre o autor: "apesar disso tudo, tinha escravo".


Em um trecho do livro Verdade Tropical, ao falar do período em que viveu com Bethânia em Salvador, Caetano Veloso narra que a irmã "lia Carson McCullers,  Clarice Lispector e  escrevia uns textos bonitos de prosa poética". Bethânia conta que  parte desses escritos se perderam no tempo. Atualmente, a produção literária da cantora é fugaz. Logo após escrever, o que estava fazendo, aliás, em sua casa no Rio de Janeiro  antes de começar a entrevista com reportagem de A TARDE, ela diz que  costuma atear fogo nos papéis.


"Escrevo sempre, mas queimo. É um exercício que sempre me exigiu, me cobrou.  Isso de queimar  deve ter uma relação no nível mais alto do significado. Parece uma coisa melodramática, mas não é. Acho que sacraliza, fica perene e, ao mesmo tempo, transforma. Escrevo para aguentar a vida".

Maria Bethânia também lembra que, na juventude, Caetano sempre estimulava essa atividade. "Em Salvador (anos 1960), ele falava: 'você vai ser escritora'. Eu dizia, 'eu gosto de palco, escritora é dentro de casa'. Como Caetano era muitas coisas, pintor, crítico de cinema, compositor, ele também achava que eu poderia abrir um leque maior. Mas ele gostava do que eu escrevia".


Com Poesia e Prosa, que a priori não terá segunda temporada, Bethânia contribui ainda mais na difusão da literatura brasileira, o que já faz em seus shows. "A poesia nunca se abala. Nem aqui nem em qualquer outro lugar do mundo!", assegura.





3 / 7 / 2016
Poesia & Prosa com Maria Bethânia
Episódio: CLARICE LISPECTOR



A estreia traz o músico Caetano Veloso, irmão de Bethânia, e a professora da USP (Universidade de São Paulo) Nádia Gotlib falando da linguagem, delicadeza e percepção da escritora Clarice Lispector (10/12/1920 - 9/12/1977). Nádia é biógrafa de Clarice Lispector. O programa contará ainda com o depoimento do artista plástico e pesquisador Roberto Corrêa dos Santos. Ele é professor da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e organizador dos livros “As Palavras” e “O Tempo”, baseados na obra de Clarice Lispector. Bethânia interpreta trechos de contos e crônicas da escritora, como “As Três Experiências” e Maio, a Perigosa Yara”. A cantora e Caetano interpretam ainda canções compostas para o espetáculo apresentado por Bethânia nos anos 1980, inspirado no livro “A Hora da Estrela”. Cada programa tem meia hora de duração.

Mônica Monteiro e Caetano Veloso nos bastidores do programa "Prosa e Poesia"



"Esclarecimentos: Explicação de uma vez por todas" (14/11/1970)

"... E a história é a seguinte: eu nasci na Ucrânia, terra de meus pais. Nasci numa aldeia (*), que não figura no mapa de tão pequena e insignificante. Quando minha mãe estava grávida de mim, meus pais já estavam se encaminhando para os Estados Unidos ou Brasil, ainda não haviam decidido: pararam na aldeia para eu nascer, e prosseguiram viagem. Cheguei ao Brasil com apenas dois meses de idade. Eu sou brasileira naturalizada, por uma questão de meses, poderia ser brasileira nata. Fiz da língua portuguesa a minha vida interior, o meu pensamento mais íntimo, usei-a para palavras de amor. Comecei a escrever pequenos contos logo que me alfabetizaram, e escrevi-os em português, é claro..."
"...Se minha família tivesse optado pelos Estados Unidos, eu teria sido escritora? em inglês, naturalmente, se fosse. Teria casado provavelmente com um americano e teria filhos americanos. E minha vida seria inteiramente outra. Escreveria sobre o qué?. O que é que amaría? Seria de que Partido? Que gênero de amigos teria?. Mistério. ..."
 

 (*) Tchechelnik


Capa da primeira edição do livro de contos  
A legião estrangeira (Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964).




A última entrevista de Clarice Lispector foi concedida a TV Cultura em 1977


 

"...

Clarice, a partir de qual momento você efetivamente decidiu assumir a carreira de escritora?
Eu nunca assumi.
 


Por quê?
Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e faço questão de continuar sendo amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever. Ou então com o outro, em relação ao outro. Agora eu, faço questão de não ser uma profissional para manter minha liberdade. 

..." 
[Entrevista concedida ao jornalista Júlio Lerner, em 1 de fevereiro de 1977, para o programa “Panorama”, da TV Cultura, de São Paulo.]






"As Três Experiências" (11/5/1968)



"... Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia. Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera."


"... Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de nos renovar à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever..."


“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. "O amar os outros" é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida . Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca. E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. ..."



A Professora Nádia Gotlib, fala da "dimensão humanística muito grande".

“Caetano Veloso declara que ler Clarice é como conhecer uma pessoa

[MANZO, Lícia. Era uma vez: EU - A não ficção na obra de Clarice Lispector
Juiz de Fora: Editora UFJF, 2002. (p. 54)]




1984 - Programa do espetáculo





 

A HORA DA ESTRELA DE CINEMA
Música y letra: Caetano Veloso
© 1984 Gapa / Saturno


Embora minha pele cáqui

Sem rosa ou verde, sem destaque

E minha condição mofina, jururu, panema

Embora, embora
Há uma certeza em mim, uma indecência

Que toda fêmea é bela

Toda mulher tem sua hora

Tem sua hora da estrela

- Sua hora da estrela de cinema


Capibaribe, Beberibe, Subaé, Francisco

Tudo é um risco só, e o mar é o mar

E eu quase, quase não existo

E sei, eu não sou cega

O mundo me navega

E eu não sei navegar


Existe um homem que há nos homens

Un diamante em minhas fomes

Rosa claríssima na minha prosa

Sem poema e fora e fora

De mim, de dentro afora uma ciência

Que toda fêmea é bela

Toda mulher tem sua hora

Tem sua hora da estrela

- Sua hora da estrela de cinema
 



O NOME DA CIDADE
Música y letra: Caetano Veloso

© 1984 Gapa / Saturno



Onde será que isso começa
A correnteza sem paragem
O viajar de uma viagem
A outra viagem que não cessa

Cheguei ao nome da cidade
Não a cidade mesma espessa
Rio que não e rio: imagens
Essa cidade me atravessa
Ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô, êh, boi!, êh, bus!

Será que todo me interessa
Cada coisa é demais e tantas
Quais eram minhas esperanças
O que é ameaça e o que é promessa

Ruas voando sobre ruas
Letras demais, tudo mentindo
O Redentor que horror! que lindo!
Meninos maus, mulheres nuas
Ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô, êh, boi!, êh, bus!

A gente chega sem chegar
Não há meada, é só o fio
Será que pra o meu própio rio
Este rio é mais mar que o mar
Ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô, êh, boi!, êh, bus!
Sertão...
Sertão, êh, mar!



10 / 7 / 2016
Poesia & Prosa com Maria Bethânia
Episódio: GUIMARÃES ROSA















O segundo programa é sobre a obra de Guimarães Rosa (1908-1976). O escritor revelou um sertão mágico por meio da sua linguagem e realizou uma das obras mais significativas da literatura brasileira: “O Grande Sertão: Veredas”. Embaixador, historiador e membro da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva participa da conversa ao lado do cantor e compositor Paulo César Pinheiro, autor de “Matita Perê”, clássico da música brasileira, inspirado na obra do poeta. O programa contará com depoimentos do escritor moçambicano Mia Couto e da escritora e pesquisadora Ana Maria Machado.



17 / 7 / 2016
Poesia & Prosa com Maria Bethânia 
Episódio: JOÃO CABRAL DE MELO NETO












No terceiro episódio, é a vez de visitar o trabalho de João Cabral de Melo Neto (1920-1999). O poeta não se interessava por uma poesia que expressasse os seus sentimentos, mas que despertassem sentimentos no leitor. O professor Wander Miranda, que dá aulas de teoria literária e literatura comparada na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e o cantor, compositor e escritor Chico Buarque de Hollanda são o convidados da edição. Ainda bem jovem, Chico fez algo impensável na época e musicou trechos do poema “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto.



  
24 / 7 / 2016
Poesia & Prosa com Maria Bethânia
Episódio: CASTRO ALVES








A série é encerrada com Bethânia recebendo Alberto da Costa Silva, a professora de história e filosofia do colégio estadual Vicente Jannuzzi (RJ) Vânia Aparecida e o cantor e compositor Jorge Mautner para falar de Castro Alves (1847-1871), poeta que teve uma vida breve e intensa, morrendo aos 24 anos.“Navio Negreiro”, sua principal obra, descreve os horrores da escravidão. Bethânia recita esse poema e outros da fase romântica do escritor, como “Adormecida”. Ao lado de Mautner, ela entoa “Negro Blues.”