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sábado, 27 de agosto de 2022

2006 - UM SONHO


Letra e música: Caetano Veloso

 © 2006 Uns Produções Artísticas Ltda


Lua na folha molhada

Brilho azul-branco

Olho-água

Vermelho da calha nua

 

Tua ilharga lhana

Mamilos de rosa-fagulha

Fios de ouro velho na nuca

Estrela-boca de milhões de beijos-luz

 

Lua

Fruta flor folhuda

Ah, a trilha de alcançar-te

Galho, mulher, folhos, filhos

Malha de galáxias

Tua pele se espalha

Ao som de minha mão

 

Traçar-lhe rotas

Teu talho, meu malho

Teu talho, meu malho

Teu talho, meu malho

Teu talho, meu malho

 

O ir e vir de tua

O ir e vir de tua ilha

 

Lua

Toda a minha chuva

Todo o meu orvalho

Cai sobre ti

 

Se desabas e espelhas da cama

A maravilha-luz do meu céu

-- Jabuticaba branca








2006 – CAETANO VELOSO
br-um7-06-00696 / 3:17
Álbum “Cê”
Universal Music LP 6251706018, B-5. [Edición limitada 500 copias - 10 tracks]
Universal Music Ltda. CD 60251704945, Track 11.





2007 – CAETANO VELOSO
Álbum “Cê ao vivo”
Gravado em 12 de junho de 2007 na Fundição Progresso, Rio de Janeiro (RJ).
Universal Music DVD 60251737308, Track 15.




 

miércoles, 29 de noviembre de 2017

2006 - MUSA HÍBRIDA


Música e letra: Caetano Veloso
© 2006 Uns Produções Artísticas Ltda.
br-um7-06-00690 / 4:25

para antônio risério

musa híbrida
musa híbrida
de olho verde e carapinha cúprica
cúprica cúprica cúprica
onça, onça

a minha voz tão fosca
brilha por teus lábios bundos
a malha do teu pêlo
dongo, congo, gê, tupi, batavo, luso, hebreu e
mouro
se espalha pelo mundo
vamos refazer o mundo
teu buço louro
meu canto mestiçoso

tu, onça tu
eu, jacaré eu
 





2006 – CAETANO VELOSO
br-um7-06-00690 / 4:25
Álbum “Cê”
Universal Music LP 6251706018, B-2. [Edición limitada 500 copias - 10 tracks]
Universal Music Ltda. CD 60251704945, Track 7.





 
2007 – CAETANO VELOSO
Álbum “Cê ao vivo”
Gravado em 12 de junho de 2007 na Fundição Progresso, Rio de Janeiro (RJ).
Universal Music DVD 60251737308, Track 16.


2006 - MINHAS LÁGRIMAS


Música e letra: Caetano Veloso
© 2006 Uns Produções Artísticas Ltda.
br-um7-06-00689 / 5:22


desolação de Los Angeles,
a Baixa Califórnia e uns desertos ilhados por
um pacífico turvo
a asa do avião
o tapete cor de poeira de dentro do avião
a lembrança do branco de uma página
nada serve de chão
onde caiam minhas lágrimas 







2006 – CAETANO VELOSO
br-um7-06-00689 / 5:22
Álbum “Cê”
Universal Music LP 6251706018, A-2. [Edición limitada 500 copias - 10 tracks]
Universal Music Ltda. CD 60251704945, Track 2.











2007 – CAETANO VELOSO
Álbum “Cê ao vivo”
Gravado em 12 de junho de 2007 na Fundição Progresso, Rio de Janeiro (RJ).
Universal Music CD 60251737304, Track 2. | DVD 60251737308, Track 2. 



martes, 1 de diciembre de 2015

1984 - O HOMEM VELHO



Música y letra: Caetano Veloso 
© 1984

- à memória de meu pai, a Mick Jagger e a Chico Buarque, que agora tem 40 anos, mas aos 20 fez uma canção lindíssima sobre o tema.


O homem velho deixa a vida e morte para trás
Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais

A solidão agora é sólida uma pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock'n'roll
As coisas migram e ele serve de farol

A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fugaz
Do sexo das meninas

Luz fria, seus cabelos têm tristeza de neon
Belezas dores e alegrias passam sem um som
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron
E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom

Os filhos, filmes livros ditos como um vendaval
Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal





1984 - CAETANO VELOSO 
6252 7118 / 4:08
Álbum "Velô"
Philips LP 824.024-1, A-4.
CD 824.024-2, Track 4. 

1986 - CAETANO VELOSO 
6403 1500 / 3:22
Álbum "Caetano Veloso"
Recorded September 1985, at Vanguard Studios, NYC
Elektra/Nonesuch Digital LP 979.127-1 [EE. UU.], A-2.
CD 979.127-2, Track 2.
Philips LP 846.916-1, A-2. [1990, Brasil]
CD 846.916-2, Track 2. 

1989 - CLARA SANDRONI 
/ 4:27
Álbum "Clara Sandroni"
Kuarup Discos KLP-038, A-3.
Kuarup Discos KCD-038, Track 3.
Biscoito Fino CD bf 564, Track 3. [2004]

2001 – LÉA COSTA 
Álbum “Sotaques”
Afrakà Records / Harmony CD PGL-15178 [Italia] 


2007 – CAETANO VELOSO 
Álbum “Cê ao vivo”
Gravado em 12 de junho de 2007 na Fundição Progresso, Rio de Janeiro (RJ).
Universal Music CD 60251737304, Track 6. | DVD 60251737308, Track 6.
































Rodrigo Velloso, Dona Canô, Maria Bethânia e José Telles Velloso









 
 




1987 - Chico Buarque, Caetano e Tarso de Castro (1941/1991)



FOLHA DE S.PAULO
2/8/2012

"O Homem Velho"
Pasquale Cipro Neto


O homem velho da letra de Caetano parece mesmo ser esse nobre ser que fez um pedido ao deus Tempo

PENSEI E repensei se devia escrever "antes da hora" sobre os (quase) 70 anos do amado Caetano Veloso. Abro o site de Caetano e vejo que ele (o site) mudou. Os 70 anos do mestre já estão estampados ("Caetano Veloso 70"), então perco o receio de falar antes do aniversário (no próximo dia 7).
Faz mais de um mês que penso em escrever sobre isso e, quando me imaginava fazendo-o, a primeira coisa que me vinha à mente era a monumental canção "O Homem Velho", que está no não menos monumental disco "Velô", de 1984. Caetano dedica a canção "à memória de meu pai, a Mick Jagger e a Chico Buarque, que agora tem 40 anos, mas aos 20 fez uma canção belíssima sobre o tema".
A canção a que Caetano se refere é a também monumental "O Velho", que está no disco "Chico Buarque Vol. 3", de 1968 (Chico tinha 24 anos): "O velho vai-se agora / Vai-se embora / Sem bagagem / Não sabe pra que veio / Foi passeio / Foi passagem / Então eu lhe pergunto pelo amor / Ele me é franco / Mostra um verso manco / De um caderno em branco / Que já se fechou...".
O homem velho da canção de Caetano é outro. Parece saber pra que veio -e não foi passeio, nem passagem: "Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval / Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal / Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual / Já tem coragem de saber que é imortal".
Caetano já tinha feito um "acordo" com o deus Tempo, na inesquecível "Oração ao Tempo" (do disco "Cinema Transcendental", anterior a "Velô"): "És um senhor tão bonito / Quanto a cara do meu filho / Tempo Tempo Tempo Tempo / Vou te fazer um pedido (...) Peço-te o prazer legítimo / E o movimento preciso (...) Quando o tempo for propício (...) De modo que o meu espírito / Ganhe um brilho definido / (...) E eu espalhe benefícios / (...) O que usaremos pra isso / Fica guardado em sigilo (...) / Apenas contigo e migo (...) / E quando eu tiver saído / Para fora do teu círculo (...) / Não serei nem terás sido (...) / Ainda assim acredito / Ser possível reunirmo-nos (...) / Num outro tipo de vínculo (...) / Portanto peço-te aquilo / E te ofereço elogios (...) / Nas rimas do meu estilo / Tempo Tempo Tempo Tempo".
O homem velho da letra de Caetano parece mesmo ser esse nobre ser que fez um pedido ao deus Tempo (e caminha para ser merecedor da anuência desse deus). Lembra o que diz Drummond em seu antológico poema "Os Ombros Suportam o Mundo": "Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? / Teus ombros suportam o mundo / e ele não pesa mais que a mão de uma criança".
Volto à letra de "O Homem Velho" e a alguns de seus fortes versos: "O homem velho deixa vida e morte para trás / (...) O homem velho é o rei dos animais / A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol / As linhas do destino nas mãos a mão apagou / Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock'n rol / As coisas migram e ele serve de farol...".
Detenho-me neste belíssimo verso: "As linhas do destino nas mãos a mão apagou". Como se não bastassem a beleza e a profundidade do sentido desse verso, há nele a quinta-essência da construção linguístico-literária. Ao inverter a ordem "natural" da frase ("A mão apagou as linhas do destino nas mãos") e, consequentemente, mantê-la na voz ativa (a passiva seria "As linhas do destino nas mãos foram apagadas pela mão"), Caetano é certeiro: mostra com ênfase e sabedoria o que faz a "mão" (que aí é metáfora e metonímia da vida, da passagem do tempo) com as linhas do destino que temos nas mãos.
Um beijo na alma, Caetano. É isso.




PASQUALE CIPRO NETO, professor de português há 40, é idealizador e apresentador dos programas “Nossa Língua Portuguesa” (rádio Cultura AM e TV Cultura) e “Letra e Música” (rádio Cultura AM), autor de várias obras didáticas e paradidáticas e colaborador da Folha de S. Paulo desde 1989.