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martes, 24 de julio de 2018

2006 - EL SOL RUBIO



EICHBAUER, Helio. Helio Eichbauer: 40 anos de cenografia 1966/2006. Rio de Janeiro: Centro Cultural dos Correios, 2006. 40 p.
Catálogo de exposição, 6 set. 2006 - 22 out. 2006, Centro Cultural dos Correios do Rio de Janeiro.




De 5/9/2006 até 22/10/2006



Texto escrito por José Celso Martinez Corrêa na ocasião da exposição retrospectiva dos trabalhos de cenografia de Hélio Eichbauer.



Dois Sóis iluminaram o Tropicalismo,
dois Helios Cosme & Damião:
o Oiticica,
que libertou as artes plásticas do quadro,
trouxe pro corpo dançante no parangolé
e pro espaço todo,
na instalação ambiental,
tropical;
e
o Eichbauer = agricultor de carvalhos [1],
EL HELIO, Éliogabalo [2] 
que de uma velinha de sebo,
acesa no Rei da vela,
na escuridão da ditadura militar,
acendeu o SOL no Teatro
Oficina, brasileiro e mundial.
Como o outro Hélio nas artes plásticas,
no Teatro, esse Helio,
trouxe, pro corpo do ator, a pintura modernista,
conseqüentemente pro corpo do mundo,
aquilo que somente os quadros coloridamente pintavam.
O corpo: quatro baldes de água,
um pacote de sal (Bertolt Brecht),
Helio trans - humanizou,
fez virar entidade,
médium
de tudo,
antena-carne de arte
e antropofagiou a Cenografia mundial,
pendurada como carne,
num açougue de urdimentos,
para ser comida
e se expandir não somente pelo Teatro,
mas pela cidade,
pelas extensões corporais em todas as mídias.
Sua “Cenografia” e seus “Figurinos” antropofagiaram todos os teatros e modas,
do mundo: dos construtivistas rusos
ao teatro de revista da Praça Tiradentes,
até o da Sociedade de Espetáculos,
(para ser prático: para ser mais específico,
o próprio vestido negro de noiva de Heloísa de Lesbos, Helio tirou do baú de sua tia, esposa do embaixador brasileiro em Praga – um vestido pretinho, da pompa dos grandes rituais oficiais.)
revolucionaram todo visual brazyleiro,
descolonizaram totalmente a imagem cega
que tínhamos de nós mesmos,
e contagiaram:
o Cinema – vide “Macunaíma” de Joaquim Pedro, e muitos outros filmes;
a Moda – vide o desfile da Rhodia em 1968, lançando a Linha Internacional Tropicalista;
a Arquitetura – vide o Novo Teatro Oficina, terreiro eletrônico de Lina Bardi e Edson Elito;
o comportamento – a religação teatro-arte popular orgyástica brazyleira
and pop global e
muito mais.
O Teatro Oficina, incendiado por um terrorista de direita em 1966, em 1967, ressurgia das cinzas como o Novo Teatro Oficina, o número II, dos grandes cenógrafos arquitetos artistas, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre.
Eu havia pedido um teatro brechtiano (estava totalmente colonizado pelo Berliner Ensemble) a Flávio Império, contra a vontade dele, que tinha se encantado com teatro incendiado, sem teto,
e nos escombros berrava feliz:
“Acabou a casinha dos pequeno-burgueses, olhem o céu!”
O palco que o artista Flávio fez para Helio fazer O rei da vela, sim, um palco onde somente foi feita esta peça, porque, depois de tudo, aquele palco não tinha mais sentido, a ação precisou se expandir pelo espaço todo, como o próprio Flávio sacou, quando fizemos juntos o filho do Rei, Roda viva, expandindo a cena por todo o espaço do teatro e fora dele.
O teatro de O rei da vela tinha o, muito em moda, palco giratório elétrico,
uma arquibancada frontal de cimento,
tudo à mostra,
refletores, urdimentos, araras…
Helio pendurou os cenários dos 4 atos
em cordas, aparecendo todos, de cara.
No chão, criou ribalta de teatro bem antigo, muitas latas de óleo da Shell, vermelhinhas
com sua conchinha amarela.
Tudo contrastava escandalosamente com aquele teatro sóbrio, de tijolinhos expostos, poltronas azuis de couro.
Helio criou o Tarô do Brasil rodando em falso no mesmo mecanismo,
toda metáfora que Oswald-Poeta viu.
Todas as máscaras do jogo do mecanismo da “Sociedade de Espetáculo” do poder brasileiro, exposto na sua antigüidade e pretensão à modernidade progressista.
No primeiro ato, Abelardo I.
Barriga postiça, criada por Helio, de um delirante Ademar de Barros-Ubu Rei, sobrancelhas em triângulo preto e bigodes pintados de carvão,
rosto rosadinho de palhaço,
batom vermelho-sangue nos lábios,
tudo em cima de uma máscara riscada, enquadrando o rosto,
vazando os traços de jogo da velha,
para fora, no pescoço e na testa,
charuto na mão,
girava no palco abrindo os janelões
do escritório de usura de Abelardo & Abelardo para a paulicéia desvairada e financista.
No seu terno, fantasia de executivo de ponte aérea, como em todos os trajes da peça, de homens ou mulheres,
uma seta de pano,
apontando o sexo.
Chamava por um botão sonoro seu secretário Abelardo II, vestido de fantasia de guerrilheiro
com farda de domador,
trazendo também uma máscara, dividida esquizofrenicamente ao meio.
O primeiro socialista do Teatro Brasileiro
tinha um rosto riscado pela metade:
Uma, já de Rei da vela,
outra, levando, em torno do olho, uma ferida de porrada,
sangue em forma de rosácea,
como todas as personagens do Teatro do Oprimido da jaula de devedores também tinham levado.
Ao mesmo tempo, essa mesma máscara em torno de um dos olhos, estava enorme, num tapete, enorme gota de sangue pingado espalhando em sol vermelho purgando amarelo(?).
Ao lado direito da boca de cena, um bonecão tomando todo pé direito do teatro,
tendo escondido debaixo das calças um Abelardão,
canhão caralho que somente se revelava quando tesudo, ereto,
esporreando luzes de fogo e
fuzilando os Clientes Devedores Inadimplentes.
Os Devedores vinham de uma jaula,
abrindo-se para os fundos do Teatro Oficina II, em que o palco ocupava somente meia área da que ocupa agora a pista do terreiro eletrônico.
Os objetos eram todos fálicos:
castiçais, imenso lápis de ponta em cúpula russa, por exemplo, da Secretária,
uma espécie de Emília do Monteiro Lobato, tranças louras artificiais, bundona aplicada, tendo em torno dos olhos a mesma rosácea de sangue de Abelardo II e do tapete,
na máscara branca de faces rosadinhas de boneca cabaço.
Heloísa de Lesbos
entrava de Marlene, terno branco, chapéu panamá, bengala,
um V branco de linho,
superpondo-se ao seu terno masculino
no lugar do sexo.
A entidade (sim porque Helio criou, repito, entidades do tarô da corte brazyleira)
tinha no rosto a mesma máscara de jogo da velha,
toda branca, lábios rubros de Kabuki,
na testa o V negro belíssimo de vampira
máscara de Tarsila do Amaral.
Fumava uma cigarrilha imensa, apitando fumaça em seus deslocamentos de diva, pela cena.
Esses figurinos e maquiagem foram criados, todos, com os atores.
Helio pedia a todos que se desenhassem e imaginassem suas meias, roupas de baixo, de cima, adereços das personagens e lhe encaminhassem.
No trabalho de Heloísa,
Ítala Nandi e Helio construíram uma obra prima. Dina Sfatt e Estér Goes fizeram o mesmo papel, mas a máscara era tão forte, que, muitas vezes, não é possível distinguir as atrizes nas fotos.
Máscaras obras-primas de criação do Teatro Brazyleiro,
Teatro de Entidades,
irmãs do Kabuki, do Nô, da Comeddia dell’arte.
Criação vinda do Modernismo, da Antropofagia de 1967,
no fim dos 1960,
quando as últimas tribos
dos antropófagos da Amazônia
desapareciam
e retornavam a sampa.
O Intelectual
portava a farda da Academia Brasileira de Letras e uma faca de madeira com sangue respingando seco.
No final do ato,
o Americano era anunciado por Abelardo II, que estirava um tapete de curvas de Copacabana.
Detalhes, “pequena maravilha”, como dizia Eugenio Kusnet,
o que mais interessa na nossa arte,
necessários para perceber a riqueza de sinais que a arte de Helio espalha por tudo,
vírus de peste nova, contagiando todos.
O segundo esplendoroso ato coroava o teatro de revista da Praça Tiradentes, com um telão tarsilamente pintado da Baía de Guanabara,
que depois Caetano Veloso internacionalizou na capa do disco Estrangeiro,
e que hoje é capa de um livro escrito pelo professor de literatura americano Cristopher Dunn: Brutality Garden,
o melhor estudo sobre o Tropicalismo já escrito no mundo.
As personagens que, na rubrica, Oswald-Poeta pedia vestidas “na mais furiosa fantasia tropical” estão materializadas,
no tarô da oligarquia brazyleira em iconografia exaltação & esculhambação.
Toda a corte da Família da Burguesia Rural Brasileira, coroada com ramos e frutos rubros de sua exploração mono-máxima: o café.
Dona Cesarina, a matriarca,
inspirada em uma dama socialite paulista de 400 anos de criação de porcos, como Oswald dizia.
A metade do corpo com o jabot rendado, rolos altos no cabelo, a maquiagem de perua, corpete de fino veludo, luvas verdes em renda, com os dedos de fora. Isso da cintura pra cima. Da cintura pra baixo:
pernas à mostra das vedetes,
meias verde arrastão e coturnos dourados com salto da Praça Tiradentes,
bunda realçada caprichosamente com duas chamadas de cortinas esvoaçantes,
em que Cesarina esbaldava-se
no balanço romântico campestre,
todo enfeitado de cobras e flores,
no limite da plataforma do palco,
lançando foguetes com os muitos quilos da atriz,
em cima dos espectadores.
Um enorme leque de plumas de Lady Windermere e um sorvete banana-split na vertical, derramando “leje de pica” do seu cume,
sorvido com voracidade,
no passeio nobre, sobre o palco girótorio ao som de "Casinha pequenina" arranjado por Rogerio Duprat.
Totó Fruta do Conde,
“O Pederasta” da FamILHA Papai Mamãe, vestido de odalisca, de tamanquinho português com meias brancas curtas.
Helio revelava, aí, a origem dos brilhos dos concursos de fantasia do carnaval e das escolas de samba do Rio:
a famosa temporada dos Ballets Russes,
com Nijinski, no Municipal do Rio,
que apaixonaria sobretudo os viados cultos da época, que legaram a grandiosidade dos brilhos ao carnaval brazyleiro. Os tamanquinhos com meias brancas geraram muita polêmica. Clodovil clamava :“Jamais uma bicha brasileira, por mais pobre que seja, usaria tamancos com meias brancas!!!!!!!!!”
João dos Divãs,
a sandalhona, a bolacha da FamILha,
se vestia como uma menininha de Renoir,
de organdi rosa, sapatinhos de verniz,
meias brancas 3/4, mas bigodes de Samurai
e luvas de boxe, trazendo na calcinha um coração vagina vermelho bem almofadado.
Dona Poloca,
a Rainha Mãe, trazia trajes de veludo negro até os pés, botinhas do império, chapeuzinho-coroa de flores de café, um chicote fálico escravagista e um enorme terço de Marchadeira de 64.
Coronel Belarmino,
o Rei Caído do Café,
paletó escocês, chapéu de palha, fumando um mata-rato apoiado numa bengala com um único fio de barba branca do império, lembrando cacos de Clark Gable.
Perdigoto,
o filho fascista, fantasiado de verde-milico, condecorado com as insígnias dos ramos do café.
O Índio das Bolachas Aimoré,
tênis branco, cocar de vassoura, e saiote de penas de galinha, como os do “Guarany” do velho Municipal da infância de Hélio.
O Americano,
dourado: The golden man,
capacete safari, bermudas, meias 3/4, maquiadíssimo, galã de Hollywood da cena muda, de batom.
Walkíria Heloísa no segundo ato.
Trajava biquíni de metal, capa de plástico cinza longuíssima, uma mitra interplanetária e bélica na cabeça, lembrando já a Mulher Futurista de Maikovski do Percevejo, óculos escuros gigantes, vestida para os conchavos com o Americano e toda a Frente Sexual Agrária e Banqueira, no banho de mar,
seguida logo por:
Dona Poloca
com um maiô centenário de listras paulistas rubro-negras, sapatilhas, touquinha de banho, e um enorme xale negro espanhol: pronta para o banho.
Mas era a grande virada do segundo ato: encontrava um Abelardo I –
camisa verde de cetim, um lenço amarelo esvoaçante no pescoço, um bonezinho de plástico verde claro
comprado em quiosque de praia, calças de veludo creme –
absolutamente desesperado depois de tanto ser sugado pela FamILHA toda,
do dinheiro arrancado por Perdigoto para criar uma Milícia Rural Fascista para atacar os colonos do latifúndio,
aproximando-se da capitulação absoluta diante do “Nosso Senhor do Arame”:
o Americano Banqueiro Imperialista.
Via-se, de repente, diante de Dona Poloca (ou Piroca) praieira e, num ímpeto, prometia-lhe suicidar-se,
testando o moralismo da Rainha, o CERNE da Tradição, FamILHA, Propriedade,
deixando um milhão de dólares,
se ela lhe revelasse seu maior desejo secreto de vida.
Poloca confessa:
“Ir para Petrópolis.”
Abelardo I a seduz, comovido. Uma noite de amor para a primeira da anciã cabaço. Poloca cede. Um beijo sela o compromisso. Helio faz baixar, neste instante, um telão ao som do "Descobrimento do Brasil", de Villa-Lobos, com os versos pintados de Olavo Bilac – Criança, nunca verás um país igual a este –, concluindo o 2º ato num patético tragicomicorgyástico.
Para o terceiro ato,
Helio recriou as cortinas de correr da boca de cena, de Ópera Mambembe, com as máscaras douradas da Tragédia e da Comédia. A cena se abre solenemente, com a "Alvorada", de Carlos Gomes, com as luzes das Alvoradas das encenações, mais uma vez do Municipal de sua infância. Abelardo I veste um imenso robe rubro, um Ivã o Terrível, que agigantava o corpo de Renato Borghi, com uma enorme cauda de grande divo.
Heloísa era, agora, a do mito medieval,
trazia um traje branco com cintura logo abaixo do peito e um veludo vermelho de corrimento vaginal, cabelos soltos de diva wagneriana. Abelardo I foi golpeado por Abelardo II e escolhe o suicídio para passar o poder ao ex-socialista.
Despede-se da noiva, com:
“Dê-me o último beijo, meu cravo de defunto!”. As cortinas se fecham ao som-clímax da "Alvorada" e o Abelardão, Bonecão, torna ereto seu cacete canhão e atira ejaculando tchaikoviskianamente.
O pano se reabre e Abelardo I, sentado na cadeira de rodas, tem no peito a rosácea de sangue em cetim vermelho do tapete do chão, e dos devedores, seu “útero coração de homem”. Abelardo II entra todo transmutado em executivo, de colete prateado, óculos, e máscara completa de burguês, sem divisões socialistas, e presenteia Abelardo I com seu último lenço vermelho, que traz no bolsinho do paletó.
Disputam com o palco e a cadeira de rodas girando, numa alucinação cênica cinética.
A disputa termina com Abelardo II oferecendo, depois de muita onda, a vela da agonia do castiçal de Madame Lanale, instalada no altar de Getúlio Vargas = Mona Lisa, “o primeiro sorriso burguês”, pedida por Abelardo I. Enquanto Abelardo I reza de quatro no chão com a vela, Abelardo II arranca-a nas mãos e penetra Abelardo I, enfiando a vela em seu rabo.
O ato se encerra com caveiras em tule negro, que baixam dos urdimentos, para o epílogo da peça: a missa negra trazida pela marcha nupcial do casamento de Abelardo II, ex-socialista, com a Burguesia Rural sobre o cadáver de Abelardo I.
Heloísa, de noiva de preto, com o famoso vestido pretinho oficial da tia de Helio, buquê de rosas negras nas mãos. A famILHA toda coberta de tules negros, tendo como padre, padrinho, o Americano, com os “braços abertos sobre a Guanabara”
como o Corcovado,
encerrando a peça com seu good business. O palco roda tocando a gravação original de Francisco Alves para "Aquarela do Brasil'
e um telão marginado por um friso negro de cartão de luto se desenrola de baixo para cima, ao som de percussão solene, tomando toda a boca de cena, com as falas do Hiorofante de A morta, de Oswald de Andrade:
Respeitável Público!
Não vos pedimos palmas.
Pedimos bombeiros!
Se quizerdes salvar as vossas tradições e a vossa moral,
ide chamar os bombeiros ou se preferirdes, a polícia!
Somos como vós mesmos, um imenso cadáver gangrenado!
Salvae vossas podridões e talvez vos salvareis da fogueira acesa do mundo!
O elenco não voltava para agradecer, o público ficava perplexo e as mais inesperadas reações aconteciam, como um espectador chamando Oswald de Andrade para a porrada, ou enfurecidos que atiravam coisas no telão.
O elenco ficava atrás, protegido pelas paredes, apavorado, mas se deliciando com a reações. Helio quis completar soltando enxofre, ou algum cheiro que trouxesse a sensação do cadáver gangrenado, podre, brazyleiro. O elenco o convenceu a desistir da idéia.
26 anos depois fizemos juntos Ham-let.
O elenco havia treinado, com roupas de ensaios, as 6 horas do texto integral de Shakepeare e, mais uma vez, inaugurávamos, em 1993, um novo teatro: o terreiro eletrônico de Lina Bardi e Edson Elito, o atual Teatro Oficina.
Helio resolveu usar como base os figurinos dos ensaios, depurando-os com roupas-base: moletons negros, capas de veludo, coturnos de militares. Moletons brancos para a cena do duelo final. Depois, cada ator e atriz tinha uma consulta particular com ele, e com cordões coloridos de coringa, de jogral, ia criando um laço, um nó, uma maneira de uso para cada ator. Todos saíam exultantes das consultas. O cenário era o próprio Globe Theatre do Oficina, inaugurado com o teto móvel se abrindo para o céu poluído da Dinamarca, o subterrâneo como túmulo de Ofélia, e carrinhos que entravam e saíam como carros alegóricos pelados: um palquinho de rodas somente com chão e um alçapão, como um buraco de ponto. Uma enorme cortina transversal varando a pista do Oficina, coroas de papel dourado para os reis, e só. Ah! Um enorme caralho ejaculando confete na cena da entrada dos atores. Os figurinos da rainha foram feitos por Caio Rocha, estilista de São Paulo. Beleza Pura.
Duas experiências juntos e dezenas de peças de que fui espectador, como os inúmeros trabalhos com Luís Antonio, meu irmão, principalmente o extraordinário Percevejo de Maiakovski.
Tudo que pude ver com todas as companhias do Brasil, que criaram o melhor do teatro nesses últimos anos, até chegarem os shows com Caetano Veloso. Começando no Estrangeiro, para o qual reconstruiu o cenário do segundo ato do Rei da vela, numa parte do show e, em outra, um friso pintado de material luminoso que, do fundo do palco, acendia uma luz divina no espaço, censora, sensitiva, cybernética. Genial!
Felizmente, filmei a peça toda – que agora vai sair em DVD produzido pela Dueto Filmes, tanto a Versão-Cinema como a Versão-Teatro: 1º, 2º, 3º atos na ordem do espetáculo.
Em 1974, no sufoco dos 10 anos de ditadura militar, no dia 31 de março para o 1º de abril saímos pelas ruas de São Paulo, com os maravilhosos cenários de Helio. Era uma manhã chuvosa. Fomos, nós do Oficina Samba (assim nos chamávamos: o grupo que então vivia em comunidade no Teatro Oficina e não tinha mais condições, pela repressão militar, de fazer nada que desejava), até o cemitério da Consolação, procuramos o mausoléu de Oswald de Andrade, não encontramos. Topamos com o de Mário de Andrade e resolvemos rodar lá mesmo as cenas finais do filme Rei da vela, que estávamos montando.
Instalamos os cenários entre túmulos e os queimamos. Para nós, era como se precisássemos queimar aquele Brasil que o Rei da vela revelava, para nos libertarmos do jogo imutável dos dois Abelardos: I e II, sucedendo-se em aliança com as cortes oligárquicas, apadrinhados por Mr. Jones, torturando a JAULA. Era um ato de feitiçaria, de vodu, que tínhamamos que fazer. Filmamos, levamos as cinzas para a Praia da Boracéia, então deserta, e nós, os então ENJAULADOS no Teatro Oficina, saímos por aquela praia deserta, trocamos alianças com cinzas do cenário no corpo, e entramos no mar.
Saímos de lá outros, com o compromisso de expulsar de dentro de nós o jogo repetitivo ao infinito dos Abelardos que, até os dias hoje, domina o Brasil.
Fomos presos, exilados. Em Portugal, veio morar em nossa comunidade internacional o francês Gill de Stall, da nobreza de São Petersburgo, tornado um revolucionário dos anos 70, com quem me reencontrei em Paris, tornando-se um dos meus melhores amigos. Gill vendia, saindo das horas de aperto financeiro, desenhos de figurinos, pedaços de cenários dos Ballets Russes de um parente seu, que trabalhava na direção de arte com Diaghilev.
Além do valor inestimável da obra genial de Helio, aquele cenário queimado acabaria tendo, hoje, o valor dos quadros de Tarsila.
Tive fases de vergonha, de arrependimento, hoje assumo este ato necessário, que não se pode apagar, por amor aos fatos, sem culpa, mesmo porque Helio reconstruirá quase tudo e, no ano que vem, vamos tirá-los das cinzas e Fênix vai aparecer numa mega exposição que vamos fazer no SESC Pompéia, na qual estes cenários estarão reconstruídos.
Devo ter magoado Helio – que adoro – profundamente num primeiro momento. Mas ele sabe, óbvio, que fizemos esse ato exatamente porque queimávamos alguma coisa de valor incontabilizável, de grandeza estética trans-humana, que sacrificávamos aquilo pela vida do Brasil que temos que, mais que nunca, transformar, e nós, brazyleiros, estamos conseguindo.
Principalmente todos que fazemos arte no Brasil, porque a arte é a única a poder nos colocar no estado de criação, a única aliada da fatalidade da transformação, da morte e da vida, única “verdade”, única certeza que temos. “Oh Tudo Cria! Oh Tudo Destrói!”
O rei da vela, no momento em que aconteceu, levou o Brasil a libertar-se do catecismo de Padre Anchieta e reencontrar-se no eterno retorno dos Caetés (tribo de Lula), devorando o Bispo Sardinha nos recifes do Nordeste. A peça de Oswald, enjeitada por anos, encontrou Helio Eichbauer, chegado de Praga, onde tive a felicidade imensa de conhecê-lo, formado por Svoboda, grande criador da Laterna Mágica de Luz, da Projeção Cinematográfica no Teatro.
Helio fez, então, um “trabalho” – uma feitiçaria, absolutamente inesperada para quem chegava com sua formação.
Trazia a luz teatral elétrica mais sofisticada, mas nos trópicos encontrou o destino que seu nome traz: o de ser o SOL da cultura brazyleira.
Da velinha de sebo,
acendeu um Sol que nos escancarou
o velhíssimo e belo Brasil
enforcado nos urdimentos,
ao mesmo tempo nos revelou
o Teatro Novo da Terra do Sol.
Tudo que o Modernismo, a Antropofagia, tinha anunciado, virou corpo,
no corpo transfigurinado dos atores,
na ação revolucionária das cores da cultura popular orgyástica do carnaval brazyleiro de 365 dias, numa peça que denunciava
a ação emperrada
por um Teatro do Mundo preso a velhas figuras de tarô.
Nunca mais poderemos ver o Brasil da mesma maneira.
O Sol deste agricultor de carvalhos,
vence as queimadas,
e está eternamente presente no país
que está renascendo no eterno retorno do mundo descatequizado.
Acho que Helio não foi ainda suficientemente reconhecido e exaltado como o grande artista que reinventou Teatro Brasileiro fora dos padrões coloniais.
E como não falar de sua dupla fértil com Martim Gonçalves,
reinventando o Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, na Venezuela!
De sua amizade (via Martim) criadora com Lina Bardi, que o venerava,
e da musa das musas, Dedé Veloso.
Eu poderia nunca mais sair desta batucada no computador exaltando este milagre de pessoa, vida-arte com quem tive, e ainda sonho ter, o prazer de criar e conviver.
Esta amizade dourada, adorada,
queria eu ter o poder de Walt Whitman
pra cantar, em letra, música e dança.
Helio, além de tudo, é um dançarino.
O Dançarino.
Vamos dançar neste Parangolé humano e vivo de Eichbauer, Apolo-Dionísio do irmão Apolo- Dionísio Oiticica.
Os gêmeos sagrados Cosme & Damião
Sem esquecer que Dedé é o terceiro: o Doum
Do nosso Olimpo Teatral Brazyleiro:
A multidão que nos insPIRA!
Paixão ETHERNURA.

José Celso Martinez Corrêa
M E R D A




Fonte: Jornalismo Cultural






[1] “Agricultor de carvalhos” é a tradução para o nome Eichbauer.
[2] Referência ao imperador romano da dinastia Severiana Marco Aurelio Antonino, conhecido como Eliogabalo (forma de Deus, ou deus da forma), que reinou entre os anos de 218 e 222.






1967 - O Rei da Vela - Foto: Arquivo Oficina / Divulgação 
[Oswald de Andrade, A morta, III, 1937]







Corrêa, José Celso Martinez. Primeiro Ato: Cadernos, Depoimentos, Entrevistas, (1958-1974). São Paulo: Editora 34, 1998.

Seleção, organização e notas
Ana Helena Camargo de Staal





2006. “El sol rubio” in Catálogo da exposição Helio Eichbauer: 40 anos de cenografia (1966/2006). Rio de Janeiro: Centro Cultural dos Correios, 2006.





domingo, 16 de julio de 2017

1968 - GELÉIA GERAL // BRUTALIDADE JARDIM


Capa da  ed., de Tarsila do Amaral (1924)

MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE JOÃO MIRAMAR

Fragmento n° 52

INDIFERENÇA

Montmartre
E os moinhos do frio
As escadas atiram almas ao jazz de pernas nuas

Meus olhos vão buscando lembranças
Como gravatas achadas

Nostalgias brasileiras
São moscas na sopa de meus itinerários
São Paulo de bondes amarelos
E romantismos sob árvores noctâmbulas

Os portos de meu país são bananas negras
Sob palmeiras
Os poetas de meu país são negros
Sob bananeiras
As bananeiras de meu país
São palmas claras
Braços de abraços desterrados que assobiam
E saias engomadas
O ring das riquezas

Brutalidade jardim
Aclimatação

Rue de La Paix
Meus olhos vão buscando gravatas
Como lembranças achadas.




DUNN, Christopher. Brutality Garden - Tropicália and the emergence of a brazilian counterculture. 1st edition. The University of North Carolina Press, Chapel Hill & London, 2001. 256 p.

Cover illustration: Gilberto Gil (photograph by Christopher Dunn)


DUNN, Christopher. Brutality Garden - Tropicália and the emergence of a brazilian countercultureCountry Chapel Hill, United States. University of North Carolina Press; New edition (Oct. 15 2001). 276 p.

Cover illustrations: (front) Hélio Eichbauer's scenography for O rei da vela (courtesy Hélio Eichbauer, (back) Gilberto Gil (photograph by Christopher Dunn)


C O N T E N T S

Acknowledgments     ix
Abbreviations     xiii
Introduction     I

CHAPTER 1
Poetry for Export: Modernity, Nacionality, and
Internationalism in Brazilian Culture     12

CHAPTER 2
Participation, Pop Music, and the Universal Sound     37

CHAPTER 3
The Tropicalist Moment     73

CHAPTER 4
In the Adverse Hour: Tropicália Performed and Proscribed     122

CHAPTER 5
Tropicália, Counterculture, and Afro-Diasporic Connections     160

CHAPTER 6
Traces of Tropicália     188

Notes    215
Bibliography     235
Discography     247
Index     249



Page 48 - Gilberto Gil (top) and Caetano Veloso, 1968 (Paulo Salomão/Abril Imagens)

Page 49 - Tom Zé, 1968. (J. Ferreira da Silva/Abril Imagens)

Page 76 - Still from Glauber Rocha’s film Terra em transe, 1967.

Page 80 - A scene from the second act of Oswald de Andrade’s O rei da vela, produced by Teatro Oficina, 1967 (Fredi Kleeman/Multimedios-PMSO)

Page 91 - Gilberto Gil and Caetano Veloso, 1968

Page 110 - Art and commerce. Caetano Veloso exhibits a toy stove in 1968.
Foto: J. Ferreira da Silva/Abril Imagens


Page 126 - Caetano Veloso performs on the popular variety show Discoteca do Chacrinha, 1968 (Agência JB, Jornal do Brasil)


Page 132 - Gilberto Gil performs at the International Song Festival, 1968 (Cristiano Mascaro/Abril Imagens)


Page 139 - Gal Costa at TV Record Festival, 1968 (Paulo Salomão/Abril Imagens)


Page 192 - Caetano Veloso (left) and Gilberto Gil perform in New York City during their Tropicália Duo tour, 1994. (Claudia Thompson)


1968 - Caetano Veloso



1968 - Caetano Veloso (Courtesy of Universal Records)

1968 - Tropicália, ou Panis et Circensis (Courtesy of Universal Records)

1968 - Tom Zé (Courtesy of Tom Zé)

1969 - Jorge Ben (Courtesy of Universal Records)






DUNN, Christopher. Brutalidade jardim - A Tropicália e o surgimento da contracultura brasileira. Tradução: Cristina Yamagami. Edição. Editora UNESP, São Paulo, 2009. 280 p.



No final da década de 1960, artistas brasileiros consolidaram um movimento cultural divisor de águas conhecido como Tropicália. Atualmente, a música inspirada por esse movimento tem recebido considerável atenção tanto no Brasil quanto no exterior.

Poucos novos ouvintes, contudo, conhecem a relação entre essa música e as circunstâncias por trás de sua criação, a fase mais violenta e repressiva do regime militar que governou o Brasil de 1964 a 1985. Com importantes manifestações no teatro, cinema, artes visuais, literatura e especialmente na música popular, a Tropicália articulou com dinamismo os conflitos e aspirações de uma geração de jovens brasileiros urbanos.

Concentrando-se em um grupo de músicos da Bahia, o brasilianista norte-americano Christopher Dunn revela como artistas brasileiros incluindo Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé criaram esse movimento em sintonia com a vanguarda musical e poética de São Paulo, a cidade mais moderna e industrializada do Brasil.

O autor mostra como os tropicalistas se apropriaram seletivamente das práticas culturais do Brasil e do exterior e as parodiaram para expor a fissura entre a imagem idealizada do Brasil como um tranquilo "jardim" tropical e a brutalidade vivenciada diariamente por seus cidadãos.

Prefácio assinado pelo diretor do Teatro Oficina Zé Celso.





GELÉIA GERAL

Letra: Torquato Neto
Música: Gilberto Gil

Um poeta desfolha a bandeira
E a manhã tropical se inicia
Resplandente, cadente, fagueira
Num calor girassol com alegria
Na geléia geral brasileira
Que o Jornal do Brasil anuncia

Ê, bumba-yê-yê-boi
Ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê
É a mesma dança, meu boi

A alegria é a prova dos nove
E a tristeza é teu porto seguro
Minha terra é onde o Sol é mais limpo
E Mangueira é onde o samba é mais puro
Tumbadora na selva-selvagem
Pindorama, país do futuro

Ê, bumba-yê-yê-boi
Ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê
É a mesma dança, meu boi

É a mesma dança na sala
No Canecão, na TV
E quem não dança não fala
Assiste a tudo e se cala
Não vê no meio da sala
As relíquias do Brasil:
Doce mulata malvada
Um LP de Sinatra
Maracujá, mês de abril
Santo barroco baiano
Superpoder de paisano
Formiplac e céu de anil
Três destaques da Portela
Carne-seca na janela
Alguém que chora por mim
Um carnaval de verdade
Hospitaleira amizade
Brutalidade jardim

Ê, bumba-yê-yê-boi
Ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê
É a mesma dança, meu boi

Plurialva, contente e brejeira
Miss linda Brasil diz "bom dia"
E outra moça também, Carolina
Da janela examina a folia
Salve o lindo pendão dos seus olhos
E a saúde que o olhar irradia

Ê, bumba-yê-yê-boi
Ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê
É a mesma dança, meu boi

Um poeta desfolha a bandeira
E eu me sinto melhor colorido
Pego um jato, viajo, arrebento
Com o roteiro do sexto sentido
Voz do morro, pilão de concreto
Tropicália, bananas ao vento

Ê, bumba-yê-yê-boi
Ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê
É a mesma dança, meu boi




Brutalidade jardim
A Tropicália e o surgimento da contracultura brasileira
Christopher Dunn
São Paulo: UNESP, 2009.

Tradução de Cristina Yamagami.

por Leon Kaminski 
[Mestrando em História pela Universidade Federal de Ouro Preto]


Publicado em 2001, nos Estados Unidos, Brutalidade jardim: a Tropicália e o surgimento da contracultura brasileira é fruto da descoberta da música tropicalista pelos norte-americanos na década de 1990. Partindo do seu encantamento pelas canções e da perspectiva dos estudos culturais, o brasilianista Christopher Dunn escreveu uma história da Tropicália a partir de um recorte temporal amplo, mesmo admitindo que o movimento tropicalista foi atuante somente entre os anos de 1967 e 1969. A cronologia proposta por Dunn para tratar da Tropicália tem início na Semana de Arte Moderna de 1922 e alonga-se até o ano 2000.

O título do livro destaca a ligação do movimento tropicalista com o modernismo; a expressão “brutalidade jardim” foi retirada de um romance de Oswald de Andrade, “padrinho literário e espiritual da Tropicália”, e utilizada na letra de Torquato Neto para a música “Geleia geral”. O autor utiliza a expressão para se referir, também, à realidade brasileira após o golpe militar, que exploraría a imagem do paraíso tropical – e as premissas ideológicas embutidos em seu uso – e a violência imposta pela ditadura. Jardim e brutalidade coexistem, então, em uma aproximação contraditória.

O movimento tropicalista ficou famoso por suas polêmicas, por sua presença nos festivais de canção, pelas vaias e por seus happenings. A maior controvérsia, talvez, girou em torno do uso da guitarra elétrica na música popular pelo grupo baiano e da reação da cultura engajada de esquerda, que criticava a Tropicália por se posicionar contra a cultura popular nacional. Com o intuito de reconstituir o contexto cultural da década de 1960, Christopher Dunn amplia seu recorte, estendendo-o até os anos 1920. Partindo das análises de Alfredo Bosi em relação ao modernismo, o autor traça duas importantes vertentes antagônicas no pensamento brasileiro oriundas da Semana de 1922 e que estariam envolvidas diretamente nas polêmicas em torno da música
popular na segunda metade dos anos 1960. Nelas, Dunn se fixa nos três primeiros capítulos do livro, realizando sua análise sobre a evolução histórica da Tropicália. A dicotomia presente entre as duas orientações é trabalhada a partir da tensão entre o local e o cosmopolita no interior do pensamento brasileiro.

O primeiro capítulo explora principalmente o modernismo no Brasil, que se dividiria em duas vertentes principais. A primeira, “primitivista”, teria como referência a figura de Mário de Andrade e conferia ênfase à busca das manifestações populares da cultura, principalmente a rural, mais pura, pois a urbana era percebida como contaminada pelas modas internacionais. Segundo a perspectiva de Mario de Andrade, seria necessário valer-se dos elementos da cultura popular para criar uma música nacional distinta; para efetivação de tal projeto, a definição do que era e do que não era autenticamente brasileiro fazia-se mister, já que, para o escritor, a música estrangeira ou “universal” era “antinacional”. A outra vertente, a “futurista”, valorizaria a experimentação formal e tenderia a celebrar a tecnologia e o urbano; sua principal referencia era Oswald de Andrade e seus manifestos, o da “Poesia Pau-Brasil” e o
“Antropófago”. Este segundo defendia a devoração do elemento estrangeiro a fim de criar-se algo novo, autêntico, não simplesmente o acolhimento passivo, como um bom selvagem, da cultura metropolitana. Já o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” clamava por uma “poesia de exportação”, ao mesmo tempo enraizada nas culturas populares locais e engajada nas tendências internacionais modernas, de forma que o Brasil passaria também a exportar e não somente consumir cultura. Para Dunn, essa “poesia de exportação” revelar-se-ia nas figuras de Carmen Miranda, da bossa-nova, dos poetas concretistas e, mais recentemente, da Tropicália. Em relação ao modernismo, o autor ressalta rapidamente, fora dessas duas vertentes, o lançamento, progressista para a
época, de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e a difusão da ideia de “democracia racial” que se tornaria corrente mais tarde.

Do choque entre essas duas vertentes do pensamento cultural nasceria a famosa rivalidade entre os nacionalistas e os tropicalistas. Apesar desta contenda já ter sido amplamente explorada pela historiografia nacional, Christopher Dunn, ao situar o início de sua narrativa na década de 1920, deixa mais explícitas as raízes do conflito e amplia seu foco para outras questões que são exploradas mais à frente, como a temática racial. E se lembrarmos que o livro inicialmente foi escrito para o público norte-americano, essa abordagem adotada pelo autor adquire maior relevo.

No segundo capítulo, o autor aborda o contexto cultural da década de 1960 e o surgimento do momento tropicalista. Os desdobramentos do pensamento modernista “primitivista” teriam continuidade e esta vertente se tornaria hegemônica no interior da esquerda, nesse período, pautándose na defesa de uma estética nacional-popular centrada na figura do povo enquanto conteúdo artístico e revolucionário. Dunn explora, como exemplos, a experiência dos Centros Populares de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), antes do golpe de 1964, e as bases da resistência cultural ao regime militar presentes nas peças de Augusto Boal e na música de protesto. O autor buscou evidenciar que a Tropicália surgiu na esteira de um processo de modernização do país, demonstrando que a base de formação do grupo baiano deu-se como fruto, de certa forma, da experiência arrojada da Universidade da Bahia sob a direção do reitor Edgard Santos, que visaria uma “desprovincialização cultural” do estado e investiria fortemente na área das ciências humanas e nas artes, promovendo a “avant-garde na Bahia”. Ainda nesse capítulo, é abordada a tese, proposta e defendida por Caetano Veloso, da retomada da “linha evolutiva da música popular brasileira”. Segundo o compositor, a música brasileira experimentara uma crescente evolução que teria sido interrompida, após a bossa-nova, pela estética nacional-popular que, debido aos seus purismos, não permitiria a continuidade dessa evolução, estando a MPB estagnada na segunda metade da década de 1960. Desta forma, a Tropicália visaria a retomada dessa “linha evolutiva” por meio da experimentação e da modernização da música brasileira.

No terceiro capítulo, denominado “Momento Tropicalista”, o autor ressalta que a Tropicália não se restringiu somente à música, seu foco principal, mas estimulou uma convergência de manifestações em diversas áreas artísticas, que possuíam afinidades estéticas e valorizavam a experimentação e que vinham se formando autonomamente até este momento de convergência, como o teatro Oficina, de José Celso Martinez Correia, e a montagem de “O Rei da Vela” (peça de Oswald de Andrade) e “Roda Viva” (de Chico Buarque); o cinema da Glauber Rocha, em “Terra em Transe” e “Câncer”; e nas artes plásticas, com as obras de Rubens Gerchman e Hélio Oiticica. Ao enfatizar esse movimento, o autor vai ao encontro das análises mais contemporâneas sobre a Tropicália; entretanto, ele restringe seu foco especificamente à música, privilegiando as figuras de Gilberto Gil, de Caetano Veloso, e, em menor grau, de Tom Zé. No mesmo capítulo, Dunn retoma o debate inaugurado por Roberto Schwarz sobre o caráter alegórico da arte tropicalista, que a avaliava de forma negativa, considerando-a como uma expressão artística da modernização conservadora do regime militar, pois, por ela, os arcaísmos e anacronismos eram apreendidos pela “luz branca do ultramoderno” e pelo uso da alegoria, sem avançar para uma resolução dialética dessas contradições históricas. Abstendo-se de criticar diretamente essa perspectiva, Dunn demonstra que apesar da alegoria estar presente em músicas emblemáticas, ela não era predominante nas composições tropicalistas. Haveria também a presença do pastiche que, diferentemente da alegoria – que pressupõe a crítica –, é uma colagem que permanece neutra.

Assim, nem todas as canções que possuíam justaposições de elementos arcaicos
e modernos tinham a intenção de denunciar a realidade brasileira; muitas vezes
elas simplesmente expressariam estratagemas estéticos que afirmavam essa
coexistência.

No capítulo quarto, o autor explora a radicalização da Tropicália que resultou na prisão e no exílio de Gilberto Gil e de Caetano Veloso. A “cruzada tropicalista” – que no primeiro momento seria caracterizada pela exploração de uma estética kitsch, valorizando o cafona e o “mau gosto” com o intuito de chocar e de satirizar os valores sociais e políticos retrógrados, assim como o “bom gosto” e a seriedade da MPB – teria incorporado, aos poucos, elementos da contracultura internacional que a levaria a uma crescente radicalização. As apresentações musicais dos tropicalistas, inicialmente mais contidas e ainda pautadas pela busca de reconhecimento, a exemplo das que integraram o Festival da Record de 1967, que levaram Gil e Caetano ao estrelato, se tornariam estrondosos happenings como a apresentação de “É Proibido Proibir” no Festival Internacional da Canção de 1968. Para o autor, nos últimos momentos do movimento, a arte tropicalista, inspirando-se nos movimentos internacionais da contracultura, buscava a afirmação da marginalidade e da negritude – como se podia perceber pela cada vez mais explícita influência de Jimi Hendrix e pelas vestimentas utilizadas por Gilberto Gil.

No quinto capítulo do livro, “Tropicália, contracultura e vínculos afrodiaspóricos”, é abordado um dos principais temas motivadores da pesquisa do autor sobre a Tropicália: a questão racial. Para Dunn, a grande importancia do movimento deriva do fato de ele abordar temáticas afro-brasileiras em suas músicas e de apoiar grupos que valorizavam a negritude. Essa temática, raramente abordada nos estudos brasileiros sobre o tropicalismo ou a contracultura, compõe as preocupações que permeiam o campo de conhecimento em que o autor está inserido, no caso, os Cultural Studies norteamericanos.

Em sua leitura, Dunn ressalta a contracultura como um ponto chave para a valorização da cultura e da identidade negra no país. Caetano e Gil, exilados em Londres, de 1969 até 1972, teriam entrado em contato com a música afro-caribenha, especialmente o reggae, com o rock and roll e com a cena contracultural da swinging London, movimentos que influenciariam de forma significativa a música de Gil. Na Bahia, o contato entre as práticas e os discursos da contracultura dos jovens da classe média com a juventude negra da classe baixa colaboraria para o surgimento e revitalização de grupos de música afro e para o crescimento do carnaval de Salvador. Nos grandes centros urbanos, da exploração comercial de ícones da música negra norte-americana surgiria, como o autor denominou, as “contraculturas afrobrasileiras”, como o movimento cultural Black Soul, inspiradas diretamente  os movimentos de consciência negra dos Estados Unidos, apropriando-se do seu estilo visual e musical. Nesse sentido, a juventude afro-brasileira teria passado a acolher produtos e ícones estrangeiros para contestar a inclinação nacionalista da brasilidade que, por meio da ideologia da “democracia racial”, tendia a minimizar a discriminação e a desigualdade racial e a exaltar a mestiçagem. Desta forma, em sintonia com os movimentos culturais afro-diaspóricos e da contracultura, teriam surgido diversos trabalhos dos remanescentes do tropicalismo que valorizavam a cultura negra, como, por exemplo, o álbum “Doces Bárbaros”, que reunia Gil, Caetano, Gal Costa e Maria Bethânia, e o disco “Refavela”, de Gilberto Gil.

O sexto e último capítulo é dedicado à herança tropicalista e sua redescoberta nos Estados Unidos. Dentre seus legados, o autor ressalta a contribuição para uma significativa dissolução das hierarquias culturais no Brasil, por meio da aproximação da cultura de massa e da arte erudita no interior de uma produção cultural híbrida. Christopher Dunn mostra também a recepção da música tropicalista pelos norte-americanos na década de 1990 e como essa “redescoberta” serviu de inspiração para vários artistas. Um fruto importante dessa nova onda tropicalista seria o “resgate” de Tom Zé, não somente de sua obra, mas do próprio artista, que, por sua persistência no experimentalismo musical, teria ficado, por muitos anos, relegado ao esquecimento, à margem da indústria da MPB, como uma espécie de “lado B” da Tropicália.

A grande contribuição do livro é lançar um novo olhar – um olhar que parte de um novo ponto de observação – sobre o movimento tropicalista.

Para o músico David Byrne, conforme texto apresentado na contracapa do livro, essa obra pode ser vista como “uma janela que se abre para uma versão alternativa do próprio passado norte-americano”; fica claro, portanto, que o livro foi pensado a partir de preocupações diferentes das do público brasileiro.

Para este, a obra apresenta um lado da história do tropicalismo que não costuma ser lembrado: a valorização e a construção da identidade afro-brasileira na segunda metade do século XX.







Edição 380 | 14 Novembro 2011

Fazer música: uma prática de cidadania

Graziela Wolfart

Na visão do professor norte-americano Christopher Dunn, a canção brasileira é uma boa indicação da diversidade do povo brasileiro
Estudioso da música e da cultura brasileira, o professor Christopher Dunn percebe que “além de tratar de temas políticos e sociais que têm a ver com a temática da cidadania, a própria prática de fazer música, muitas vezes, sobretudo no Brasil contemporâneo, é uma prática de cidadania”. Na entrevista que concedeu por telefone para a IHU On-Line, ele afirma que “há uma tradição muito forte na música popular brasileira de se apropriar de estilos e gêneros do exterior e fazer com eles música nova. Podemos remeter isso à tradição antropofágica do Brasil, de deglutir o que vem de fora e fazer algo novo”. E completa: “o Brasil é um país completamente integrado na economia mundial e está muito ligado à internet, sobretudo a classe média. Então não há dúvidas de que tais tendências culturais globalizadas irão exercer uma influência muito forte sobre a cultura brasileira”.
Christopher Dunn é professor de literatura e estudos culturais brasileiros na Tulane University, de Nova Orleans, Estados Unidos. É autor do livro Brutality Garden: Tropicália and the emergence of a Brazilian Counterculture (University of North Carolina Press, 2001) e coorganizador de Brazilian popular music and globalization (Routledge, 2001). Atualmente trabalha com a questão da contracultura dos anos 1970.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – O que a canção brasileira revela sobre as características de seu povo?
Christopher Dunn – Há tantas dimensões na música popular brasileira que é difícil resumir, mas acho que podemos dizer que a canção brasileira é uma boa indicação da diversidade do povo brasileiro, porque é muito variada. Eu acabo de terminar um livro sobre a música popular e a cidadania, que tem vinte artigos, tanto de pesquisadores brasileiros como de americanos, e nossa pesquisa revelou que há uma tradição na canção moderna brasileira de refletir profundamente sobre a condição de cidadania no Brasil. Além de canções de amor, que são muitas, há canções satíricas, humorísticas, e há também uma tradição de fazer música sobre a sociedade e sobre a situação social do brasileiro. Mas isso não é somente no Brasil, então se torna difícil distinguir precisamente uma característica brasileira. É melhor ver simplesmente as tendências.

IHU On-Line – Em que sentido a canção é uma forma de exercer a cidadania?
Christopher Dunn – Além de tratar de temas políticos e sociais que têm a ver com a temática da cidadania, a própria prática de fazer música, muitas vezes, sobretudo no Brasil contemporâneo, é uma prática de cidadania. Como, por exemplo, o movimento hip hop, em São Paulo, que é um verdadeiro movimento social, que envolve a comunidade, que busca trabalhar com jovens que estão em risco. O mesmo se pode dizer sobre o grupo Afro Reggae , do Rio de Janeiro, que é um grupo cultural, mas também tem um papel social muito importante na comunidade das favelas do Rio de Janeiro. A mesma coisa pode ser dita sobre o movimento dos blocos afro, que desde os anos 1970, na Bahia, em Salvador, funcionam como uma espécie de movimento social muito voltado para questões de cidadania e acabam envolvendo pessoas que não têm nada a ver com música em si, mas que têm mais a ver com outras atividades, sempre voltadas para questões de consciência social, política e racial. Com isso procuramos ver a música popular como uma espécie de exercício de cidadania, tanto do ponto de vista de canções e músicas que tematizam essa questão como de movimentos ou grupos culturais que funcionam com essa prática.

IHU On-Line – O que caracteriza a canção durante o movimento Tropicália?
Christopher Dunn – Com a Tropicália  há uma tentativa de redimensionar a canção brasileira de forma totalmente híbrida e, por que não, pós-moderna, no sentido de que, em vez de desenvolver um estilo próprio, como a Bossa Nova , produziu um som muito baseado na estética do pastiche. A estética do pastiche é justamente citar, sem necessariamente parodiar, uma variedade muito grande de sons. Existem aí citações de rock, de músicas latino-hispano-americana, de música nordestina, a bossa nova, o samba. A característica fundamental da Tropicália é justamente essa flexibilidade, esse trânsito entre vários sons e vários estilos, sem propor um estilo próprio e novo. É justamente essa multiplicidade da Tropicália à justa posição de sons, estilos e referências que é a característica principal do movimento.

IHU On-Line – Que relação pode ser estabelecida entre a música popular brasileira e a globalização?
Christopher Dunn – Há uma tradição muito forte na música popular brasileira de se apropriar de estilos e gêneros do exterior e fazer com eles música nova. Podemos remeter isso à tradição antropofágica do Brasil, de deglutir o que vem de fora e fazer algo novo. Vemos isso desde o samba, no início dos anos 1920, apesar de ser totalmente enraizado nas tradições brasileiras, até a bossa nova, que foi uma maneira de trabalhar com alguns aspectos do jazz norte-americano. A Tropicália é um exemplo disso. Podemos ver também o rock brasileiro dos anos 1980, o movimento Mangue Beat, que está totalmente inserido dentro de um contexto internacional de música popular, e o movimento rap. O Brasil é um país completamente integrado na economia mundial e está muito ligado à internet, sobretudo a classe média. Então, não há dúvidas de que tais tendências culturais globalizadas irão exercer uma influência muito forte sobre a cultura brasileira.

IHU On-Line – Qual a principal contribuição da canção para as transformações culturais de um país? Qual a especificidade brasileira nesse caso?
Christopher Dunn – Não sei se a canção é o motor transformador de uma cultura, ou se é um reflexo de transformações culturais que estão em curso, ou ainda se se trata de uma relação dialética, com movimentos pelos dois lados. Os tropicalistas encararam as transformações do Brasil que decorreram da ditadura e da implantação e instauração de um regime de modelo de modernização autoritária e que produziu ou exacerbou algumas contradições dentro da sociedade. Mas, ao captar, também conseguiram de alguma forma transformar a cultura brasileira e propor novos modelos de entender a sociedade. O mesmo ocorre em relação a esses grupos mais contemporâneos que, respondendo ao recuo do Estado em relação à participação social, as comunidades muito marginalizadas, praticamente excluídas do Estado, começaram a trabalhar a cultura como uma forma de exercer a cidadania. Essa foi uma resposta às condições materiais, sociais da sociedade durante a época posterior à ditadura, depois dos anos 1980. Esses grupos acabaram tendo uma influência muito grande sobre a forma como os brasileiros entendem sua condição social. É um reflexo que acaba também captando um processo, dessa forma transformando a sociedade ou, pelo menos, transformando nossa percepção da sociedade.

IHU On-Line – Como a música brasileira é vista no exterior?
Christopher Dunn – Com muito interesse, muita fascinação, muita alegria. A música brasileira sempre terá um público no exterior muito grande. Não posso falar muito de outros países. Sei que em quase todos os outros países há pessoas que apreciam a música brasileira, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. Aqui nos Estados Unidos, já há uma tradição bem estabelecida, desde a bossa nova. Depois tem o caso de Milton Nascimento , que foi muito apreciado. Já no final dos anos 1980, o surgimento de um fenômeno muito curioso aqui no EUA, chamado de World Music, mostra um interesse em música popular de outros países. E o Brasil estava envolvido com isso. Quase todas as cidades grandes aqui no país têm suas próprias escolas de samba, todas as cidades grandes ou mesmo as medianas, têm escolas de capoeira, em que se canta música popular brasileira. Meu filho, que tem 6 anos, está fazendo capoeira com um grupo do Paraná e estão aprendendo a cantar as cantigas de capoeira. É mais uma forma de a música popular brasileira circular nos Estados Unidos.




DIARIO DO NORDESTE
10/06/2017 
Um olhar gringo sobre a Tropicália
O pesquisador norte-americano Christopher Dunn faz uma análise crítica do movimiento

por Iracema Sales - Repórter 



Capa do disco ou "Tropicália Panis et Circencis", ícone do movimento que transformou não apenas a música, mas a cultura brasileira em diferentes aspectos 




O dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, criador do Teatro Oficina e que dirigiu a peça "O rei da vela" - espetáculo considerado importante por ter inspirado tropicalistas.




Glauber Rocha, cujo "Terra em transe" também inspirou transformações.

Um olhar gringo sobre a Tropicália. Grosso modo, assim pode ser definido o estudo do pesquisador norte-americano Christopher Dunn, condensado no livro "Brutalidade Jardim - A Tropicália e o surgimento da contracultura brasileira" (tradução de Cristina Yamagami).

A capa da edição brasileira traduz visualmente o título da obra, ao fazer referência ao psicodelismo, aparecendo em primeiro plano uma tarja simulando alto relevo, em papel-lixa, de cor sombria, retratando plasticamente o cenário brasileiro da época, no qual a juventude dividia-se entre a luta armada e o desbunde.
A frase-título "Brutalidade jardim", foi tirada da música "Geleia Geral" - hino-manifesto do movimento, de autoria do poeta Torquato Neto. Nos versos, o compositor desfaz a ideia de "paraíso tropical", denunciando, de maneira subliminar, a repressão que passou a fazer parte do dia a dia da população, naquele então Brasil embalado pelo ufanismo dos anos 1950, e a ideologia do nacional-popular defendida pelos jovens utópicos do Centro Popular de Cultura (CPC).
Entidade de uma organização cultural de esquerda, de abrangência nacional, foi fundada em 1962, tendo à frente a União Nacional dos Estudantes (Une), durante o governo João Goulart (1918-1976), cujo mandato vigorou de setembro de 1961 a março de 1964.
"O golpe levou a um regime militar autoritário e pró-capitalista, marcando o fim do experimento democrático do Brasil entre 1945 e 1964", revela o autor, completando que "as energias utópicas do experimento do CPC foram transferidas para novas arenas". Uma delas, a Tropicália, que prometia ter a senha de entrada em um mundo sem patrulhas ideológicas, capaz de unir luta e prazer, numa verdadeira catarse.
Dividida em seis capítulos, a obra mostra que a coragem foi o principal elemento a impulsionar a criação de um dos mais significativos coletivos artísticos do País, forma de organização ressurgida no século XXI. A interação de linguagens propostas pelo movimento, que pregava "um som universal", cujo nome é tirado da canção "Tropicália", de Caetano Veloso, buscou inspiração em uma instalação do artista visual carioca, Hélio Oiticica.
Esse espírito de abertura e liberdade marcou o movimento, que, apesar de reciclar valores da cultura nacional, não era purista. Ou seja, estava aberto a manifestações consideradas alienígenas, como a contracultura, acolhendo desde o som refinado da bossa nova aos acordes dissonantes dos Mutante e às guitarras que chegavam tocadas pelas mãos de garotos que diziam "amar os Beatles e os Rolling Stones", representando a Jovem Guarda.
E foi em meio a essa "geleia geral" que vigorou, por menos de três anos, a Tropicália, esbanjando coragem e ousadia. Carnavalizou a cultura brasileira e mostrou possibilidades de misturar a "linha evolutiva da música popular brasileira" com outros sons, a exemplo do reggae, rock, soul e outros hibridismos.
Conforme o pesquisador, mais tarde, Caetano diria que a Tropicália promovia um "nacionalismo agressivo" em oposição ao "nacionalismo defensivo" da esquerda anti-imperialista. O movimento também serviu para mostrar a face contestadora do Nordeste, jogando por terra o estereótipo de lugar do atraso. Foi da região que saíram os idealizadores da Tropicália.
"Na década de 1930, vários escritores modernistas com interesses regionalistas e social-realistas representaram o Nordeste rural como um local de nostalgia por um mundo patrimonial perdido para a modernização e urbanização, ou como um local de abjeta pobreza e injustiça levando à revolta social".
Depois, o CPC veio ajudar a desconstruir essa faceta, cabendo então aos tropicalistas completarem o novo retrato da região, que é também moderna e urbana.
Meio século
O equilíbrio crítico marca o estudo, que passa em revista o que o autor denomina "movimento de renovação estética da música e da cultura brasileiras liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil" que, neste ano, completa meio século de criação. O distanciamento histórico-temporal possibilita a percepção do legado do movimento até hoje para a cultura brasileira.
"O projeto tropicalista manifestou-se durante um período de intensos conflitos políticos e culturais no Brasil, criticando simultaneamente o governo militar e o projeto nacional-popular da esquerda brasileira", analisa Dunn, que aponta duas obras importantes que encorajaram os tropicalistas a lançar os cânones do movimento: "Terra em transe", de Glauber Rocha, e a produção de "O rei da vela", no teatro Oficina, dirigido por José Celso Martinez Corrêa.
As obras denunciam os paradoxos do movimento, uma vez que Glauber Rocha se identificava com o trabalho realizado pelo CPC; enquanto José Celso era menos ortodoxo quanto ao posicionamento político da esquerda da época.