Mostrando entradas con la etiqueta Tom Cardoso. Mostrar todas las entradas
Mostrando entradas con la etiqueta Tom Cardoso. Mostrar todas las entradas

sábado, 5 de noviembre de 2022

2022 - "CAETANO VELOSO CHEGA AOS 80 TRANSFORMADO PELO SÉCULO 21"

 

Uma bateria de livros, lançada às vésperas do aniversário do compositor, revisa e vasculha sua obra.


Por Pedro Alexandre Sanches

5 de agosto de 2022

 

O que parecia impossível está prestes a acontecer: neste domingo, 7 de agosto, o artista mais jovial e sedutor do Brasil completa 80 anos. Caetano Veloso comemorará a data redonda endereçando um presente para o exército admirador de sua eterna juventude, uma apresentação ao vivo via internet (na plataforma de streaming Globoplay) e televisão (no canal Multishow e com trecho exibido pelo Fantástico), às 20h30, ao lado dos filhos, Moreno, Zeca e Tom, e da irmã mais nova, Maria Bethânia. 

Aparentemente inesgotável, a fonte da juventude mantém-se viva e vivaz, não apenas em Caetano, mas em uma série de oitentões e pré-oitentões (majoritariamente do sexo masculino) que segue ativa nos palcos da MPB, a exemplo de Chico Buarque, Erasmo Carlos, Gal Costa, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor, Marcos Valle, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Paulinho da Viola, Roberto Carlos, Tom Zé e Wanderléa, entre outros. 

Sendo o aniversariante da vez também o mais cerebral entre todos eles, é natural que um dos modos de homenageá-lo seja por meio do lançamento de uma bateria de livros que revisam e vasculham sua obra, a começar por um assinado por Caetano em pessoa. 

Letras (Companhia das Letras), organizado pelo poeta Eucanaã Ferraz, cumpre o desafio de reunir pela primeira vez a totalidade dos textos musicais compostos pelo autor, contabilizados em 390 canções desde 1965 até o momento presente. Não estão incluídas composições de que o autor participou criando apenas a melodia nem interpretações de temas de outros autores, também numerosas em 57 anos de obra gravada.





Mas a homenagem literária mais afetuosa e generosa se chama Lado C – A trajetória Musical de Caetano Veloso até a reinvenção com a bandaCê (Máquina de Livros), assinada pelo jornalista Luiz Felipe Carneiro e pelo pesquisador Tito Guedes, autor de Querem acabar comigo – Da jovem guarda ao trono, a trajetória de Roberto Carlos na visão da crítica musical. Como numa homenagem ao mito de jovialidade do muso, os dois autores fogem do lugar-comum e se dedicam a mergulhar na produção mais recente de Caetano, já no século 21. Munido de farta contextualização histórica e visitas a diversas outras fases musicais do artista, Lado C centra fogo particularmente na trilogia dita roqueira de Caetano, desenvolvida nos álbuns (2006), Zii e Zie (2009) e Abraçaço (2012), todos sob direção musical do filho Moreno e de Pedro Sá e com acompanhamento do power trio formado por Sá, na guitarra, Ricardo Dias Gomes, no baixo e nos teclados, e Marcelo Callado, na bateria. Afinal batizado de bandaCê (com essa grafia), o trio conduziu Caetano à elaboração de “transrocks” influenciados por Lou Reed, Black Sabbath, The Clash, Pixies e The Strokes, dos “transambas” de Zii e Zie e de funks cariocas, raps paulistas e pagodes baianos, igualmente trans, em Abraçaço. 

Com depoimentos dos músicos e do próprio Caetano, o livro destrincha a produção do artista em seus últimos cinco álbuns de material inédito, desde Noites do Norte (2000) até o recente Meu coco (2021), coproduzido pelo ainda mais jovem Lucas Nunes, integrante das bandas Dônica e Bala Desejo. Lado C desnuda, mais que uma nova reinvenção de Caetano junto a um público igualmente rejuvenescido, uma revolução individual vivida pelo artista que entrava na casa dos 60 anos no início da fase . 

As rupturas desse período foram musicais, mas não apenas. Em 2004, Caetano separou-se de Paula Lavigne, com quem foi casado desde 1986. Simultaneamente, o músico interrompia a ligação com o maestro, violoncelista, produtor musical e arranjador Jaques Morelenbaum, que vinha de trabalhos ao lado do mestre bossa-novista Tom Jobim e passou a acompanhar Caetano em 1992, após tocar violoncelo em algumas faixas do disco Circuladô (1991). A erudição de Morelenbaum compôs uma fase mais solene e sisuda do artista, marcada pelos projetos Fina estampa (1994), de cancioneiro latino-americano em espanhol, e A foreign sound (2004), em inglês.

 





Sobre , disse Caetano, em 2006, no material de divulgação do álbum: “Ele me livra um pouco de mim mesmo para que eu me aproxime mais de ser quem sou”. Dono de depoimentos saborosos em Lado C, Jaques Morelenbaum interpreta no livro a separação musical: “O Caetano se separou da Paula e do seu diretor musical ao mesmo tempo, e foi viver uma segunda juventude ao lado de namoradas, de argentinas e de uma banda de garagem formada por meninos bonitos”. 

Mesmo envolta em atmosfera frequentemente depressiva (em faixas como “Minhas lágrimas”, no primeiro volume, ou “Estou triste”, no terceiro), a trilogia veio ao mundo grávida de sexo e de ira, o que certamente ajuda a explicar seu impacto junto a gerações bem mais novas, à medida que as ondas de raiva e ódio se avolumavam pela internet dos anos 2000, 2010 e 2020. 

Adentrando na terceira idade em , Caetano espalhou erotismo em “Outro” (“Feliz e mau como um pau duro”), “Deusa urbana” (“Mucosa roxa, peito cor de rola”), “Musa híbrida” (“Teu buço louro/ Meu canto mestiçoso”) e “Porquê?” (“Estou-me a vir”, anunciando a chegada de um orgasmo). Em sentido diverso e complementar, exorcizou rancores em “Rocks” (“Você foi mor rata comigo”), “Odeio” (“Odeio você”, repete um refrão favorito das plateias renovadas) e outras. Na confluência das vertentes erótica e mórbida, “Homem” (“Eu sou homem/ Pele solta sobre o músculo/ Eu sou homem/ Pelo grosso no nariz”) explicitou um subtexto latente em , o da investigação temerosa sobre o processo de envelhecimento: “Não tenho inveja da adiposidade/ Nem da menstruação/ Só tenho inveja da longevidade/ E dos orgasmos múltiplos”. A experimentação se expandiu nos dois álbuns seguintes, com novas explorações sexuais e/ou provocadoras, por exemplo em “Amor mais que discreto” (2007), de pendor gay, “Tarado ni você” (2009), ou “A bossa nova é foda” (2012). 


Caetano Veloso – Homem

Em 2011, o elixir rejuvenescedor da trilogia expandiu-se para um quarto elemento, o álbum Recanto, de Gal Costa, composto e produzido por Caetano com outro power trio (guitarra e violão de Pedro Baby, baixo de Bruno di Lullo, bateria e programações eletrônicas de Domenico Lancellotti), com canções experimentais como “Autotune autoerótico” e “Sexo e dinheiro” e mais um tratado sincero sobre o envelhecimento, “Tudo dói”. “Esse disco me gera até uma ansiedade. É quase como se ele estivesse me dizendo: ‘Acorda, mulher!’”, descreveu Gal, segundo os autores de Lado C. 

Outro traço forte de transformação do Caetano do século 21 aparece em “Um comunista”, canção de Abraçaço inspirada na saga do guerrilheiro Carlos Marighella. Esse é decifrado em outro livro recém-lançado, Lançar mundos no mundo: Caetano Veloso e o Brasil (Fósforo), assinado pelo arquiteto e ensaísta Guilherme Wisnik. Reedição ampliada de um trabalho originalmente lançado na série Folha Explica (Publifolha, 2005), o livro agora rebatizado percorre habilidosamente toda a produção musical de Caetano, e também avança com apetite especial na produção recente do compositor, em especial no capítulo final, “Careta, quem é você? – A potência do Brasil, 2006-22”.

Wisnik destaca a afinidade de Caetano com o ideário neoliberal dos anos 1990, sob Fernando Henrique Cardoso (“o compositor era visto por muitos como um ideólogo do governo no mundo artístico”). E retorna à reação da mãe do artista, em 2009, a declarações do filho sobre o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em termos como “analfabeto”, “cafona” e “grosseiro”. “Dona Canô prontamente respondeu na imprensa, como quem passa um pito no filho falastrão: ‘Vou me desculpar (…) não é possível que ele chamasse Lula de analfabeto, aliás, ele nem teria o direito de falar assim. Ele é apenas um cantor’”, documenta Wisnik. Por fim, retrata a perda relativa do medo do comunismo, presente não só na canção “Um comunista”, mas também em entrevista de Caetano a Pedro Bial na Globo, já em 2020. “Afastando-se elegante e incisivamente de Bial, referiu-se autocriticamente à própria posição anterior, dizendo não ser mais ‘liberaloide’ como era”, escreve Wisnik, não sem aventar a hipótese de “uma certa malandragem (…) de quem quer estar atualizado e afinado à opinião dos jovens” por trás da guiñada.




O inimaginável aconteceu, e o Peter Pan da MPB já é nosso avô.

 

Um quarto livro a comemorar os 80 anos de Caetano percorre caminhos mais leves e despretensiosos. 

Outras palavras – Seis vezes Caetano (Record), do jornalista Tom Cardoso, coleta frases, depoimentos e escritos do (e sobre o) compositor ao longo das décadas, estabelecendo nexos por vezes pitorescos. Retoma, por exemplo, os contatos desencontrados de Caetano, desde antes de se tornar celebridade, com um de seus ídolos literários, a escritora Clarice Lispector. “Assombra-me que ela tenha tido uma reação de starlet mídia-freak: atribui a Dedé, minha namorada na época, um ataque de ciúme que não se deu absolutamente”, escreveria Caetano muitos anos depois da morte de Clarice. 

Outras Palavras se desenrola entre episódios divertidos e semifofoqueiros, envolvendo João Gilberto, Bethânia, Waly Salomão, Chico Buarque, Fagner, Fernando Collor, Marcelo D2, Luana Piovani, Elis Regina, Roberto Carlos, Fidel Castro, Roberto Marinho… 

Em comparação com os outros livros, Outras Palavras serve por vezes como alívio cômico, em geral alimentando o folclore já vasto em torno do mais novo oitentão brasileiro. Em parte desprezando o mito cruel de uma juventude que nunca terminasse, Caetano Veloso responde aos novos tempos cantando “Não vou deixar” para o neto: “Eu grito e repito, eu não vou!/ o menino me ouviu e já comentou/ o vovô tá nervoso, o vovô/ nervoso, teimoso, manhoso”. O inimaginável aconteceu, e o Peter Pan da MPB já é nosso avô.






Caetano Veloso é capa da Elle Brasil de setembro 2021





redacao@aloalobahia.com

 

O cantor baiano Caetano Veloso estampa uma das capas da revista Elle Brasil, edição de setembro/2021 , que chega às bancas nesta semana. Os cliques da fotógrafa Cecília Duarte foram feitos no alto de uma das falésias de Bonifácio, um vilarejo no sul da Córsega, na França.

A alegria está nítida no artista: após nove anos sem entrar em um estúdio para lançar um disco de inéditas, Caetano quebrou o jejum de quase uma década, botou a mão na massa e gravou "Meu Coco".

Em entrevista à Elle, ele revelou os detalhes do novo álbum. “A canção que dá título ao álbum diz tudo: Meu Coco. Ou seja, é tudo o que passa na minha cabeça. É uma mirada atual sobre temas recorrentes em meu trabalho: nomes, fantasias que esboçam uma decifração do Brasil, homenagens a meus amores”, explica.

Há ainda opções de capas da mesma edição da revista com Pabllo Vittar, MJ Rodriguez e Shirley Mallmann.























sábado, 16 de julio de 2022

2022 - OUTRAS PALAVRAS: SEIS VEZES CAETANO

 






CARDOSO, Tom. “Outras palavras: Seis vezes Caetano”.  1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Record, 2022. Páginas: 308. 

Lançamento: 25 de julho de 2022.


SINOPSE

"Irreverente e provocadora como seu biografado, Outras palavras reconstrói a vida e a obra de um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Caetano Veloso é um dos símbolos maiores da música popular e da cultura brasileiras. Multifacetado, transgressor e engajado, reuniu ao longo de décadas de carreira uma legião de fãs ávidos por sua produção, prolífica e espetacular, liderou movimentos e jamais deixou de se posicionar politicamente.A juventude em Santo Amaro embalada pelos filmes de Federico Fellini, os contos de Clarice Lispector e o LP Chega de saudade, de João Gilberto; o falso antagonismo com Chico Buarque, uma rivalidade musical fabricada pela imprensa, e os embates com a militância; a nova poética musical da Tropicália; a estética vanguardista e suas experimentações; os envolvimentos e decepções com projetos políticos; e os muitos envolvimentos amorosos que inspiraram ­― declaradamente ou não ― algumas das mais belas composições da música brasileira: em Outras palavras, o jornalista Tom Cardoso invoca o espírito de liderança de Caetano em nossa música, sua independência intelectual e sua impressionante capacidade de manter-se em evidência por décadas a fio.

Em seis capítulos temáticos ­― o homem de Santo Amaro, o polêmico, o líder, o vanguardista, o amante e o político ―, o autor reúne depoimentos, entrevistas e uma extensa pesquisa bibliográfica para apresentar ao leitor o retrato múltiplo de um camaleão da cultura popular brasileira. 

Na orelha deste livro, Rodrigo Faour (pesquisador e autor de História da música popular brasileira sem preconceitos), define assim o artista: 'Um Narciso advogando para o diabo, em meio a extremismo de direita e de esquerda, de caretas e desbundados, com seu modo ‘de ser e estar’ no palco e na vida, quebrando convenções e caretices de diversos níveis, inclusive a mais cruel de todas: o discurso padronizado.'"

















O GLOBO 

'o avesso do avesso do avesso. ou não': livro expõe as contradições de Caetano Veloso


Silvio Essinger

12 de julho de 2022


Autor das biografias de indomáveis figuras como o craque Sócrates, o jornalista Tarso de Castro e a cantora Nara Leão, o paulistano Tom Cardoso se viu na obrigação, na proximidade dos 80 anos de Caetano Veloso (que se completam em 7 de agosto), de escrever um livro sobre ele. Uma obra que, enfim, desse conta do artista “contraditório, tão importante e onipresente na cultura nacional”.

É assim que, dia 25, chega às mãos e olhos dos leitores “Outras palavras: Seis vezes Caetano” (Record), livro que ora o escritor define como “uma biografia pouco convencional”, ora como um “ensaio jornalístico”. E que, por todas as dificuldades em enquadrar o biografado — mas também a fim de parafrasear um dos motes que é humoristicamente atribuído ao artista —, quase se chamou “Caetano ou não”. 

— O tempo inteiro Caetano se contradiz. Mas, ao mesmo tempo, ele é um cara muito corajoso, que comprou brigas por pessoas que tinham tendência a contemporizar. Talvez o Tropicalismo não tivesse existido se fosse só por Gilberto Gil ou Tom Zé — defende Tom, um jornalista de 49 anos. — Caetano expõe muito bem as suas teses, e elas têm uma coerência, um embasamento, mesmo que depois ele mesmo se arrependa delas. Caetano leu muito, tem uma formação teórica forte, e chegou a bater de frente com pensadores tanto de direita quando de esquerda. 


TABARÉU MUSICAL

Iniciado com uma epígrafe de um conterrâneo ilustre (e por vezes antípoda) do artista, Raul Seixas (“É pena eu não ser burro. Não sofria tanto.”), “Outras palavras” se divide em seis vezes/capítulos: O santo-amarense, O polêmico, O líder, O vanguardista, O amante e O político. O primeiro, claro, para falar da infância e adolescência em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano.

Uma vez que Caetano ganha mundo e palco, em meados dos anos 60 (inicialmente em Salvador, depois no Rio e em São Paulo), os outros capítulos transcorrem paralelos até perto dos seus 80 anos. 

— Caetano fala sobre absolutamente tudo, desde que chegou ao Rio para acompanhar [a irmã Maria] Bethânia no “Opinião” [espetáculo do diretor Augusto Boal, no qual ela substituiu Nara Leão, a convite da própria]. Quando ela foi vaiada numa sessão do filme do [diretor Júlio] Bressane [“Bethânia bem de perto – a propósito de um show”, de 1966], Caetano se levantou da cadeira e deu uma declaração de que todos eram imbecis. Ele foi muito veemente ali e não parou mais. 

Uma das primeiras contradições de Caetano é que, apesar de ter tido sua vida mudada pelo “Chega de saudade” de João Gilberto, o tímido rapaz não pensava muito em ser músico (mudou de ideia em Salvador, pressionado pelo amigo Álvaro Guimarães). E uma vez tendo estreado em um LP influenciado pela bossa (“Domingo”, de 1967, com uma também iniciante Gal Costa), poucos meses depois estaria liderando (por falta de outro líder) o elétrico e esteticamente agressivo Tropicalismo. 

— Caetano se sentia meio tabaréu musicalmente. E aí ele tem contato com pessoas fundamentais na trajetória, que são o [artista gráfico] Rogério Duarte, o Zé Agrippino [de Paula, escritor], o [cineasta] Glauber Rocha, o Zé Celso [Martinez Corrêa, diretor teatral]... — conta Tom Cardoso. — Se não fosse por elas, talvez Caetano ainda estivesse pensando em ser professor ou pintor. Ele só se solta mesmo depois de conhecer esses caras desbundados. 

Tom é filho de Jary Cardoso, jornalista que trabalhou na equipe do Guilherme Araújo (empresário de Caetano nos anos 1970) e que depois entrevistou o artista algumas vezes para diversos jornais.

— Meu pai encontrava com o Caetano no Porto da Barra e eles se cumprimentavam com um selinho. Teve até uma época em que eu achei que “Leãozinho” era feita para o meu pai! — diverte-se o escritor, que também entrevistou o artista algumas vezes, mas preferiu não fazê-lo para esse livro em que “o personagem principal é o mais suspeito para falar de si próprio” (embora tenha conversado com muitas pessoas próximas ao cantor). — Caetano sempre falou muito no calor da hora, achei muito mais importante do que entrevistá-lo, resgatar entrevistas de que as pessoas nem lembram mais, declarações que se perderam no tempo. 


NADA A TEMER

Tom Cardoso relembra os muitos embates de Caetano com a imprensa. Nos anos 1970, o ex-exilado foi criticado pela guinada “Odara” de sua música (que supostamente desbundara-se e fechara os olhos à brutalidade do regime militar) e respondeu a acusação dizendo-se patrulhado por um grupo de jornalistas que “obedeciam ao chefe do partido”. Ao mesmo tempo, ele reagia aos ataques de Millôr Fernandes e Paulo Francis, do jornal “Pasquim”, que denominavam o seu grupo de artistas como os “baihunos” (ao que ele, Bethânia, Gil e Gal responderam criando o grupo Doces Bárbaros). 

— Você tinha ali pessoas que se consideravam intelectuais, que faziam um jornal revolucionário, mas que tinham posturas muito conservadoras e preconceituosas. O Caetano é o primeiro a apontar o dedo para eles — observa Tom, reconhecendo que artista certas vezes perdeu a mão em suas respostas ao recorrer a termos homofóbicos (chamou Francis de “bicha amarga”) ou machistas (sobre a cineasta Suzana Amaral, que criticara seu filme “Cinema falado”, Caetano disse que ela não passava “de uma dona de casa que deveria ficar em casa passando óleo de peroba nos móveis”).

Em “Outras palavras”, Tom não se esquiva da tarefa de trazer detalhes sobre a sexualidade de um Caetano que não se considera nem gay e nem bissexual, apesar de ter admitido experiências com homens (de uma transa não concretizada com um amigo, por exemplo, nasceu a música “Eclipse oculto). E também lembra que o artista elogiou os presidentes João Batista Figueiredo e Fernando Collor de Melo, além de ter chegado a considerar Olavo de Carvalho (a quem processaria depois, com sucesso, quando este o acusou de pedofilia) “um importante contraponto ao pensamento de esquerda”. 

— Depois, quando Caetano teve contato com o Jones Manoel, esse professor e historiador marxista pernambucano, ele passou a se considerar menos liberalóide — diz o escritor, para quem definitivamente este “não é um livro contra Caetano”. — Ele é um personagem acima de qualquer suspeita. O que eu vou encontrar que possa desabonar a sua figura? Ele é um homem contraditório, mas não se deve esperar do livro grandes revelações éticas e morais, assim como não se deve esperar de nenhum livro sobre Chico Buarque ou mesmo Roberto Carlos. Eles não têm o que temer.

 

 






















































































Paulo Ricardo









Foto: Reprodução



Luana Piovani - Foto: Divulgação

Sonia Braga - Foto: Divulgação




FOLHA ILUSTRADA









Trecho da capa da Ilustrada que assino hoje, com três livros sobre Caetano Veloso lançados na esteira dos 80 anos do artista. São eles: "Outras palavras: seis vezes Caetano", de Tom Cardoso; "Letras", organizado por Eucanaã Ferraz; e "Lançar mundos no mundo: Caetano Veloso e o Brasil", de Guilherme Wisnik








Caetano Veloso surge 'contraditório' e 'leonino' em livro sobre sua trajetória


LEONARDO LICHOTE 

25 de julho de 2022


BRASÍLIA, DF, 09.03.2022 - O cantor Caetano Veloso

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress



RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O personagem retratado em "Outras Palavras: Seis Vezes Caetano" (Editora Record), de Tom Cardoso, não se deixa capturar facilmente. Num momento, por exemplo, ele assume uma postura sexual avessa a binarismos, décadas antes de isso ser uma pauta banal. "Tendo a rejeitar o conceito [de bissexualidade]. Eu quero mesmo é experimentar sempre, de tudo. Ser capaz de entrar e sair de todas as estruturas". 

Noutro, lança um olhar terno --mesmo que não se descarte a ironia-- sobre o general João Figueiredo, então presidente do Brasil durante a ditadura militar. "Acho que ele tem uma cara de homem que ainda é um pouco menino, que faz uma cara de sério para você achar que ele é sério. Uma seriedade máscula, meio infantil. Eu não antipatizo com ele não." 

Mais do que a manifestação do livre pensar de Caetano, exposto nessas duas aspas, o livro --a partir de declarações do compositor e de pessoas próximas a ele recolhidas ao longo das últimas seis décadas em jornais, revistas, filmes e livros-- documenta o baiano não enquanto personagem acabado, coerente, definido, mas em processo de construção e pleno de contradições. Ou seja, "obra em progresso", para fazer referência ao blog e à série de shows que ele capitaneou em 2008. 

Condensada em pouco mais de 200 páginas --que se somam a anexos como notas, discografia e bibliografia--, sua vida ecoa quase parágrafo a parágrafo os versos que ele mesmo canta em primeira pessoa em "O Quereres". "Onde queres família, sou maluco/ E onde queres romântico, burguês/ Onde queres Leblon, sou Pernambuco/ E onde queres eunuco, garanhão." 

"Entendi que muito mais importante do que eu ouvir Caetano agora sobre todos esses acontecimentos desde a década de 1960 seria ouvi-lo falando de tudo isso no calor da hora, ou seja, suas declarações no momento em que esses fatos se davam", explica o autor, que não entrevistou o baiano ao longo dos dois anos de apuração para fazer o livro. 

"Conversei com algumas pessoas próximas a ele, mas a pesquisa deu preferência aos arquivos de grandes jornais e mesmo da mídia independente. Porque não deixam de ser inéditas e reveladoras falas dele que nunca mais foram lembradas, que não são encontradas no Google." 

O livro, que Cardoso prefere classificar como ensaio em vez de biografia, se divide em seis capítulos, cada um dando conta de um aspecto da personalidade de Caetano --as "seis vezes Caetano" a que se refere o título. Estão lá "o santo-amarense", "o polêmico", "o líder", "o vanguardista", "o amante" e "o político". 

A estrutura, explica Cardoso, foi inspirada na maneira como Paulo Cesar de Araújo organizou seu "Roberto Carlos em Detalhes", biografia proibida pelo Rei e recolhida das livrarias. "De certa forma, foi uma provocação com a campanha que Caetano e todos do movimento Procure Saber fizeram contra as biografias não autorizadas. O que se pode descobrir de comprometedor na vida de artistas como eles? Um envolvimento com o PCC? Não faz sentido essa preocupação", diz o autor.

Não há realmente nada de especialmente comprometedor nas páginas de "Outras Palavras". Há curiosidades como a revelação de quem foi a inspiração para a canção "Eclipse Oculto", relato de uma transa malsucedida --em versos como "mas na hora da cama nada pintou direito"--, o tradutor Paulo César Souza, amigo de Caetano. 

"O próprio Paulo César falou disso numa entrevista de 2008 do jornal baiano 'A Tarde'", explica o autor, desdenhando do teor escandaloso da informação e novamente, por tabela, da resistência às biografias. "Não chega a ser uma grande revelação uma transa de Caetano com um homem hoje em dia, não é?" 

Outras musas de canções aparecem em "O Amante" --das "tigresas" Zezé Motta e Sônia Braga à Gal Costa de "Da Maior Importância", outra letra escrita para um desencaixe amoroso. Nesse mesmo capítulo, são lembrados também o casamento aberto de Caetano e Dedé Gadelha e o início do relacionamento do cantor com Paula Lavigne quando ela era ainda uma adolescente --fatos que nunca foram tratados como segredo, como as muitas declarações dadas ao longo do tempo presentes no livro comprovam. 

Os aspectos mais delicados se mostram não ali, mas na tensa relação de Caetano com a imprensa e a crítica, sobretudo na década de 1970. Numa entrevista em 1978, ele se refere a críticos musicais como obedientes a dois senhores --"um é o dono da empresa, o outro é o chefe do partido." 

Cardoso pondera que o teor das "policialescas críticas" era muitas vezes de patrulha descabida sobre a produção do artista considerada "alienada". Cita como exemplo alguns textos escritos sobre o disco "Bicho", de 1977, que tinha como canção-símbolo a dançante "Odara": "Dançar, nesses tempos sombrios?", reprovava um jornalista. Mas o autor ressalta que "dizer que jornalistas estavam a mando do PCB em plena ditadura era algo sério e perigoso". 

"Vladimir Herzog havia sido assassinado em 1975, não muito tempo antes. Em 1981, houve o atentado no Riocentro. Ou seja, o ambiente ainda era tenso. Algum tempo depois, Caetano deu uma entrevista amistosa ao jornal comunista 'Voz da Unidade' e fez uma espécie de retratação." Ao jornal, o baiano disse: "Profissionalmente eu tive muitos problemas com a crítica, mas não especificamente com os comunistas. Embora tenham dito que eu dedurei algumas pessoas, nunca soube quem é do Partido e quem não é". 

"Ele é muito leonino. É um personagem que lança suas opiniões não como estratégia para chamar a atenção, como marketing, mas por impulsividade. E, nessas horas, é capaz de falas muito coléricas, que se contrapõem a essa coisa meio leãozinho, mais doce, hedonista, odara", diz Cardoso, comparando-o com a personagem de outro livro seu, a biografia "Ninguém Pode com Nara Leão", lançada em 2021. "Nara é o oposto disso, ela tinha preguiça dessa hiperexposição, apesar de ter dado entrevistas muito impactantes." 

Entre as muitas polêmicas do livro, há desde as mais explícitas --como a com Paulo Francis, que o inspirou em certa medida a compor "Reconvexo"-- às mais veladas --como a com Chico Buarque, alimentada sobretudo pela imprensa no período da Tropicália. Se o lança em embates, o caráter "leonino" de Caetano, como identifica Cardoso, também permitiu que se desenvolvesse a figura que aparece no capítulo "O líder". 

"Sem essa personalidade de Caetano, sem sua liderança, não haveria Tropicália, o próprio Gil reconhece isso. Há entrevistas de Gil pouco antes da Tropicália, que mostro no livro, na qual ele falava da 'defesa da pureza da música brasileira'. Ainda havia certa dúvida nele. Em Caetano não. Ele mete o pé na porta e sai abrindo. É ele quem briga com a plateia do Teatro Tuca [no famoso discurso 'vocês não estão entendendo nada']. Ele foi peitando, sempre com um posicionamento corajoso." 

Coragem que aparece em episódios como a bronca que Caetano dá no todo-poderoso Antônio Carlos Magalhães quando este vem lhe cobrar por estar apoiando Collor. "Como você pode falar assim comigo?", disse o músico na ocasião. "Vocês da direita sustentaram esse cara que nós fizemos tudo para derrotar e agora você vem me tratar como se estivéssemos juntos?", continua Caetano, antes de concluir contando que "Toninho Malvadeza ficou ralo". 

ACM como oposição a Collor e Caetano visto como simpático ao ex-presidente --há várias declarações no livro que apontam nesse sentido-- mostra a complexidade não só do cenário político brasileiro, mas do próprio comportamento do músico nesse cenário. O último capítulo de "Outras Palavras", "O político", aparece, portanto, como o mais rico da obra, ao acompanhar o pensamento do artista em movimento incessante. 

Ele sempre declarou desinteresse em participar de organizações políticas ("Nunca pertenci, sequer, ao diretório acadêmico da minha universidade"), o que não o impediu de escrever canções que tocavam em feridas políticas do país e de ser preso e exilado. E menos ainda de participar ativamente da política do país, nunca se furtando a manifestar sua posição.


Divulgação - Caetano Veloso e Maria Bethânia em foto presente no livro 'Outras Palavras: Seis Vezes Caetano", da editora Record 




Divulgação - Caetano Veloso em foto presente no livro 'Outras Palavras: Seis Vezes Caetano", da editora Record - Fotógrafo não identificado/FMIS, Coleção Nelson Motta


"É minha parte favorita do livro", diz Cardoso. "Me surpreendeu muito a maneira como ele vai mudando. Elogia o Lula, dá a entender que o vê como um estadista, e pouco depois sugere que o governo do PT é corrupto. Apoiou Fernando Henrique, mas quando o tucano o citou na cerimônia de posse, Caetano já achou aquilo oportunista. Defendeu Collor quando ninguém mais o defendia, elogiou Olavo de Carvalho. Mais recentemente se aproximou do [jovem historiador marxista] Jones Manoel, dizendo que não é mais o liberalóide que foi. Agora, já declara voto em Lula." 

Na visão do autor, esse comportamento --de constante e desavergonhado autoquestionamento-- se reflete em outros aspectos de sua trajetória, como os que aparecem nos capítulos "o vanguardista" e "o polêmico". "Mas é na política que ele se mostra mais evidente." 

Portanto, ao compilar, como mosaico ordenado, episódios e declarações de Caetano "no calor da hora", o livro mostra que às vésperas dos 80 anos o artista ainda é capaz de driblar expectativas. Seja a de quem espera o lar ou a revolução, o bandido ou o herói, o caubói ou o chinês, o revólver ou o coqueiro.

 

OUTRAS PALAVRAS: SEIS VEZES CAETANO

Quando: Lançamento em 8 de agosto

Preço: R$ 69,90 (308 páginas)

Autor: Tom Cardoso

Editora: Record