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martes, 16 de noviembre de 2021

2021 - "OS BRASIS DE CAETANO VELOSO: UM ENSAIO SOBRE MEU COCO"

 


Escuta. Revista de política e cultura é um espaço voltado para a reflexão em tempos de gritaria. Em uma época onde a escuta é atividade secundária e apenas se quer berrar, aqui se pretende conversar, dialogar e ecoar – sem quaisquer pretensões de verdades absolutas – temas, debates e questões públicas candentes relacionadas à cultura e à política do Brasil e do mundo.



A revista é atualizada sempre às quintas, contando com a colaboração dos seus editores e de convidados.

Projeto Gráfico e Arte: Júlia Boaventura



*Jorge Chaloub é um dos editores da Escuta.


Os Brasis de Caetano Veloso: um ensaio sobre Meu Coco

Jorge Chaloub



Nove anos depois do fim da trilogia com a Banda Cê, em meio a um cenário de profunda crise política, Caetano Veloso lança um novo disco. Desde 2012, ano de Abraçaço, a sociedade brasileira rompeu com muitos dos aparentes consensos do mundo construído sobre os escombros da ditadura e viu a emergência de uma ultradireita, consagrada pela vitória eleitoral do atual presidente, disposta a destruir não apenas a ordem da Nova República brasileira, mas qualquer esboço das transformações políticas, estéticas e morais produzidas a partir dos anos 1960. Meu Coco é atravessado pelo desejo de intervir criticamente nessa nova conjuntura. 

O novo álbum retoma um esforço central na obra de Caetano: a construção de uma interpretação do Brasil. Este projeto diz muito do compositor baiano, mas também revela um traço geracional. Muitos dos compositores dos anos 1960 propuseram grandes narrativas sobre o país, desejosos não apenas de retomar questões do passado, mas sobretudo de imaginar futuros possíveis a partir do seu olhar para a tradição. Parte da sensibilidade e dos projetos intelectuais dos modernistas e dos intérpretes do país da década 1930 ressurge, sob outras formas, nos compositores identificados à sigla MPB, em movimento que atribui à música popular um novo lugar no cenário intelectual brasileiro. Os protagonistas dos dois momentos partem em busca das particularidades do país em meio a um cenário de fortes transformações sociais, sem deixar de lado o diálogo com as vanguardas internacionais. Há também uma explícita intenção de intervir na sociedade, de modo a modificar o próprio objeto de reflexão, ou seja, o Brasil. 

A busca por interpretar o país nos anos 1920 e 1930 não se reduz aos nomes mais citados – como Sérgio Buarque, Gilberto Freyre ou Caio Prado Junior –, mas diz algo do clima da época e alcança uma série de autores menos conhecidos, mas igualmente influenciados pelo estilo intelectual daquele momento. Algo semelhante se pode dizer em relação ao cenário musical dos anos 1960 e 1970. Se continuavam a surgir clássicos de interpretação sobre a formação social brasileira às vésperas dos anos 1960 – como é o caso dos livros de Antônio Cândido, Guerreiro Ramos, Celso Furtado e Raymundo Faoro – eles ganhavam um caráter mais disciplinar e dialogavam de forma mais direta com o mundo universitário, então em processo de estruturação. A geração da MPB, por outro lado, retomou de outro modo alguns dos motes das gerações de 1920 e 1930, mas com formulações diversas e aspirações, em certo sentido, até mesmo maiores. 

Parte das diferenças se deve à especificidade da produção musical. Se é inegável a promiscuidade entre literatura e ciências sociais nas reflexões dos autores dos anos 1920 e 1930, há nos principais clássicos do período certos compromissos com uma ideia de ciência, mesmo no campo das humanidades, e algumas marcas de estilo que os afastam do registro da arte, enquanto as reflexões a partir da produção musical cultivavam outros modos de produção do sentido. As maiores ambições dos compositores decorrem, por sua vez, das possibilidades de repercussão pública da música, que já acumulava um amplo público desde a popularização do rádio, na década de 1930. Personagens como Caetano, Chico Buarque, Gilberto Gil, Edu Lobo, Nara Leão e Paulinho da Viola tinham a possibilidade de expor suas visões de Brasil para um público muito mais amplo que os autores de décadas atrás, pelo momento do país e por seus meios de expressão, jamais imaginaram. Se a desigualdade social permanecia um limite para construção de um debate público, a linguagem musical, mesmo quando atravessada pelas marcas das vanguardas, falava para as massas de um modo cada vez mais influente na cena pública brasileira. As possibilidades de acesso às expressões musicais distinguiam, por exemplo, os horizontes de expectativa da MPB em relação aos do Cinema Novo, também animado por projetos semelhantes de interpretação do país. 

Dentre os compositores mencionados, Caetano Veloso foi o que expôs de forma mais explícita esse desejo de fazer da música um meio de interpretar o país não apenas por meio de uma teoria, mas através de uma prática. Ótimos analistas da obra do baiano, como Guilherme Wisnik, Daniela Vieira e Fernando Perlatto[1], chamam a atenção, de modos diversos, para essa dimensão da sua obra. No seu caso, esse esforço é inseparável do seu diálogo com os debates da arte contemporânea, como a crítica à separação entre arte e vida e a consequente intenção de romper com a autonomia formal da obra artística, com a  inclusão de elementos supostamente exógenos em suas músicas. Os discursos de Caetano sobre as canções são alguns desses novos artefatos, intervenções constantes que a elas atribuem novos sentidos, do mesmo modo que as narrativas do autor são relevantes nas artes plásticas das últimas décadas[2]. A interpretação do país, nesse sentido, está tanto nas canções quanto na construção da sua persona a partir dessas narrativas públicas. 

Ao mesmo tempo em que questiona os limites da canção, Caetano reivindica pertencer à sua tradição e se coloca como alguém disposto a inventariá-la e renová-la. Em suas falas, João Gilberto surge constantemente como perfeita representação dessa composição entre vanguarda e tradição, que não apenas apontaria caminhos para o futuro, mas modificaria o modo de lermos o próprio passado. 

Seria possível organizar esse texto a partir das diversas ideias de Brasil de Caetano, que poderiam sugerir, até mesmo, um critério de periodização da sua obra. Não seguirei por aí. É importante, contudo, apontar como o momento entre 1989 e 2002 intensifica o esforço de interpretação do Brasil que, desde os primeiros discos, marcava a obra do compositor. De Estrangeiro, primeira faixa do disco homônimo, ao álbum com Jorge Mautner, destaca-se um Caetano em explícito diálogo com leituras sobre o país e desejoso de sugerir, de formas diversas, sua própria, que delineava um lugar atravessado tanto por transformações em sua história recente, com o fim da ditadura militar e a Constituição de 1988, quanto por sua relação com os novos tempos do mundo, marcados pela queda do Muro de Berlim e pelo novo lugar do imaginário comunista. Nesse momento, as citações se tornam mais explícitas em suas letras que, por vezes, até mesmo musicam clássicos da literatura nacional, como Joaquim Nabuco e Castro Alves. O compositor, em certas ocasiões, cede a vez para o escritor, que inicialmente intervém com ensaios, como Carmem Miranda da da e sua famosa Conferência no MAM[3], e depois escreve Verdade Tropical, um livro entre o estilo memorialístico e a biografia de um movimento musical, o tropicalismo, que constrói uma interpretação do Brasil a partir da primeira pessoa. As duas personas de Caetano estão, contudo, preocupadas com as mesmas questões, como fica claro no evidente diálogo do livro com três dos discos que o antecedem, Estrangeiro, Circulado e Tropicália 2, e dois que o sucedem, Livro e Noites do Norte. 

Em meio ao grande número de temas abordados, três estão fortemente presentes nos discos, nos ensaios e no livro: o lugar da cultura nacional no mundo, a questão racial no Brasil e o lugar da música na formação da brasilidade. Os dois primeiros são elementos quase obrigatórios das mais clássicas interpretações do Brasil, enquanto o terceiro diz algo da própria construção do lugar do discurso de Caetano. 

Foreign Sound, o álbum sobre o cancioneiro norte-americano, funciona como transição entre esse momento e o organizado em torno da Banda Cê, quando as reflexões sobre o Brasil passam ao fundo da cena. As interpretações personalíssimas de standards amplamente reinterpretados buscavam sugerir modos de contribuição da música brasileira para aquela que seria a mais pujante tradição de canção popular no mundo. Como bem sugerido na estrutura do show, que começava com Não tem tradução, de Noel Rosa, a pretensão estava mais próxima de expor as tensões, os desencontros potencialmente produtivos, do que da ideia de “versões” de standards já amplamente conhecidos. 

Inaugura-se um momento no qual Caetano dá centralidade ao projeto de fazer uma música com sotaque global a partir do Brasil, retomando uma linha que remete aos discos londrinos, como Transa, e continuaria com os alguns da trilogia da Cê. Se sua obra sempre se construiu como um diálogo entre a tradição da música brasileira e as vanguardas musicais globais, é possível apontar acentos diversos na composição entre essas inspirações, o que constituiu momentos com ênfases e aspectos diferentes. 

Com o trio de guitarra, baixo e bateria da Banda, os três albuns (Cê, Zii e Zie, Abraçaço) são marcados por traços do indie rock, com marcas de experimentalismo na guitarra de Pedro Sá, e expõem apenas pontualmente alguns sinais de pertencimento à tradição da canção popular brasileira. Mesmo na releitura de clássicos da MPB, como Incompatibilidade de Gênios, os arranjos remetem a um estilo em marcas da tradição surgem particularmente sutis, como nos acentos do bumbo da bateria de Marcello Callado ou na rítmica da já mencionada guitarra de Pedro Sá. 

Depois de reler a tradição musical norte-americana de um modo que ressaltava as afinidades e distinções entre as culturas, ressaltava suas formas de influência na música brasileira e sugeria possíveis contribuições brasileiras a essa tradição, o compositor baiano produzia uma série de discos que se colocavam como contemporâneos da mais contemporânea produção musical do centro, o que não deixava de ser um tipo de afirmação sobre o momento social brasileiro. Sem sugerir uma relação direta entre contexto político e obra, é possível pensar que o imaginário de estabilidade que cercava a ordem política e social brasileira, sobretudo após 1994, talvez lhe tenha sugerido um país que perdia parte de seus tempos e lugares mais característicos, que, nas reflexões de Caetano, muitas vezes decorriam da grandeza entrevista em meio a crise e dos aspectos terríveis da nossa nacionalidade[4]. 

Meu Coco retoma a linha de Estrangeiro a Não Peço Desculpas, e tem em Noites do Norte seu exemplo mais explícito. Talvez Ofertório, disco no qual o Recôncavo é tema central, ocupe um papel de transição semelhante ao de Foreign Sound, dessa vez ao trazer a obra de Caetano de volta ao tom da década de 1990. A reflexão sobre o Brasil e suas expressões contemporâneas está no centro do novo álbum. A primeira faixa, de mesmo nome do disco, logo fala do “português dos Brasis”, que seria representado pela palavra “bunda”, afirma na primeira pessoa do plural a identidade étnica do brasileiro – “Somos mulatos híbridos e mamelucos e muito mais cafuzos do que tudo mais” – e traz, próximo a mote corrente em muitas das interpretações do Brasil, uma reflexão sobre as especificidades da própria cultura portuguesa e suas tensões com certa identidade europeia. Portugal é, aliás, tema do fado Você – Você, cantado por Caetano com sotaque lusitano ao lado de Carminho, no qual a reflexão sobre as afinidades e distâncias entre as culturas e imaginários nacionais atravessa a letra e a música; nesta por meio do bandolim de Hamilton de Holanda, que retoma o jogo de proximidade e distâncias do álbum a partir de uma interpretação que explora os terrenos comuns entre o instrumento e a guitarra portuguesa. 

As duas letras expõem uma marca dos discursos sobre o Brasil de Caetano: sua formulação a partir de uma marcada primeira pessoa. Ele não busca o lugar do narrador imparcial, que vê melhor pela distância, mas constrói o Brasil a partir das suas memórias e experiências, ou, o que é particularmente presente nesse disco, a partir da emulação de outras primeiras pessoas, que Caetano assume como intérprete e compositor. No caso de Meu Coco, o ponto é explicitamente sugerido pelo próprio título do disco e por suas imagens de ilustração e divulgação. A ideia de interpretação do Brasil não importa, aqui, a construção de um único projeto nacional, mas aponta para uma miríade de imagens de país, formadas a partir de colagens de diversos fragmentos de narrativas particulares. 

As primeiras pessoas são construídas a partir de certa imitação de posições sociais e culturais, mas nunca deixam de expor ao ouvinte o seu deslocamento. Não penso que sejam bem interpretadas como “alegorias”, que no clássico ensaio de Roberto Schwarz[5], na parte dedicada ao Tropicalismo, seriam opostas aos “símbolos” por seu caráter explicitamente desnaturalizado, já que se situam em uma região de penumbra entre o farsesco e o natural. As primeiras pessoas não são delineadas apenas pelo “conteúdo” das letras, mas também pelas performances do cantor e mesmo pela emulação de estilos musicais e formas de composição. Em Você-Você, Caetano canta como um fadista, com todas as marcas do gênero, mas o próprio contexto da composição já denuncia ao ouvinte uma estranheza, algo de deslocado. Do mesmo modo, Não Vou Deixar não apenas se apropria do funk melódico, já presente nos discos anteriores, como um ritmo, mas aponta para o vocabulário e as marcas de linguagem da composição na letra e no uso do falsete na interpretação de Caetano, típico do estilo. Aspectos semelhantes poderiam ser apontados na interpretação de Sem Samba não dá, que remete a um estilo algo próximo do Grupo Molejo, ou em outros momentos do disco. 

Além da própria justaposição de canções no álbum, que por si só sugerem o deslocamento, há momentos de súbita quebra rítmica e estilística dentro das próprias músicas, o que reforça a heterogeneidade do material e do discurso. O solo de violoncelo em Não Vou Deixar, o arranjo de metais próximo dos discos de Guinga, feito por Thiago Amud em Meu Coco, e o forró em Anjos Tronchos são bons exemplos dessas súbitas quebras, que expõem o caráter acidentado da obra. 

Não estamos diante do projeto moderno, presente em Mário de Andrade e Villas Lobos, de tomar o popular como tema a ser desenvolvida pela forma erudita, mas da reconstrução de expressões e lugares que, pelo próprio modo como são retomados justapostos a outras construções, ganham novos sentidos. Trata-se de um recurso recorrente no compositor que já afirmou, em título de música, “Eu sou neguinha”, mas que em Meu Coco serve a construção de um amplo painel do Brasil contemporâneo. 

Como em outros momentos da obra de Caetano, esse painel concilia pessimismo e potência, em um nacionalismo particular, que vê o país como “cú do mundo” e nele vislumbra, todavia, não apenas um futuro repleto de grandezas, mas também um passado rico que ainda não se esgotou. Compostas em meio ao claro movimento de avanço autoritário no Brasil, que já mereceu duras críticas públicas de Caetano[6], as músicas apontam mais para as possíveis saídas, que se fazem a partir do retorno de mitos atualizados sobre o país, do que para o diagnóstico sobre os contornos da crise, mais presentes em outras obras do compositor. Mesmo as canções com tom mais crítico, como Anjos Tronchos, Não Vou Deixar e Enzo Gabriel, deixam entrevistos horizontes de resistência. 

Tais perspectivas passam, como em outros momentos, pela reivindicação de certa tradição da música popular, argumento que remete às reflexões sobre a “linha evolutiva”[7] da canção brasileira que o acompanham desde a década de 1960. O grande número de menções a artistas, de distintas épocas, no disco é um modo de explicitar sua interpretação dessa tradição. Há a referência já corriqueira a João Gilberto e Carmem Miranda, essa por meio da menção a sua cidade natal, Canavese, a aposta na felicidade do mundo a partir das “Naras, Bethânias e Elis”, e mesmo uma canção, GilGal, que reconstrói a tradição da música brasileira a partir de nomes como Pixinguinha, Jorge Ben, Djavan, Os Tincoãs e Milton Nascimento. O sugestivo título, com a justaposição do nome dos seus dois mais próximos parceiros musicais, e o uso da primeira pessoa do plural, em “Nossas almas irmãs”, sugere o próprio Caetano como parte dessa trajetória. 

A superação das crises em Caetano não passa, entretanto, pela negação do conflito, mas pela sua afirmação. A ideia dos contrastes constitutivos como marca da brasilidade é mais uma das continuidades do seu discurso público desde a década de 1960, por mais que, ao longo do tempo, esses contrastes tenham sido retomados de formas diversas em sua obra. O pessimismo impede, contudo, que haja uma saída conformista ante esses conflitos. Há uma tensão constitutiva em sua obra que passa por um aspecto destacado por Nuno Ramos[8] em Verifique se o mesmo: Caetano seria atravessado por movimentos contraditórios entre a busca de uma repercussão pública da arte e um certo movimento de interiorização, que aponta para a lógica interna da obra, não para seus desdobramentos no mundo[9]. Em nota crítica a Schwarz, Nuno Ramos também sugere que essa interiorização teria despontado, em parte, como uma reação a prisão pela Ditadura Militar, a qual teria mudado o sentido de parte do seu projeto anterior. A tese parece explicitar aspectos relevantes da produção de Caetano no período, mas ao enfatizar o ponto perde um aspecto interessante: a capacidade de compreender a obra em análise como atravessada por esse constante conflito, que muda a partir de ênfases diversas, mas não se apaga. Haveria no compositor baiano uma relação mimética entre sua leitura do país, como terra de contrastes, e os tipos de registro e expressão presentes em sua obra. 

O modo pelo qual Caetano trata a questão da desigualdade racial é exemplar nesse sentido. Tema de enorme espaço em seus discos da década de 1990, com destaque para canções como Haiti e para o álbum Noites do Norte, esse é um ótimo exemplo do modo como o compositor aborda o conflito em sua obra. Caetano não compartilha das críticas ao conceito de miscigenação construídas a partir de importantes intelectuais do movimento negro, como Lélia Gonzalez e Abdias do Nascimento, e hegemônicas após a redemocratização. Aliás, em chave diversa, ele frequentemente mobiliza o conceito de mulato e constrói elogios ao potencial cultural da mestiçagem, que, na própria canção Meu Coco, ele afirma como parte central de quem somos, da nossa identidade: “Somos mulatos, híbridos e mamelucos e muito mais cafuzos do que tudo o mais”. 

Essa questão, aliás, foi um dos temas clássicos de interpretação do país que também se fez presente na trilogia da Banda Cê, por meio da canção O Herói, na qual o eu lírico inicialmente afirma querer fomentar o “ódio racial”, integrar uma “legião de ex-mulatos” e “ser negro 100%, americano sul-africano, tudo menos o santo que a brisa do Brasil, briga e balança”; mas ao fim da canção abraça, em meio a dança, o personagem que olhava com “desdém” e assume sua vocação para “homem cordial” e para a “democracia racial”. O tom da letra sugere, todavia, mais uma perspectiva crítica de duas posições tomadas como extremas e com pouco nuances, do que uma adesão a tal imaginário. 

Entre Sérgio Buarque e Gilberto Freyre, Caetano Veloso se aproxima mais do olhar para os contrários do pai de Chico do que para o “equilíbrio de antagonismos”, para citar a bela interpretação de Ricardo Benzaquen, do pernambucano. Os antagonismos em sua obra não possuem um equilíbrio, mesmo que instável, mas se constroem a partir de conflitos que transformam as partes envolvidas em sua existência. O “mulato”, nesse sentido, não aparece como síntese, como em algumas formulações de Freyre, mas como uma identidade que carrega em si a diversidade. Alguns versos da canção Pardo são bons exemplos: “Sou pardo e não tardo a sentir-me crescer o pretume”. 

Quando o conflito se aproxima da atual conjuntura, Caetano assume um lado em diversos momentos do disco. Seja ao retratar os líderes globais da ultradireita como “palhaços líderes”, ou ao afirmar “não vou deixar”, o compositor baiano volta seus ataques de forma explícita contra os protagonistas da ultradireita que hoje grassa “no império e nos seus vastos quintais”. Sem reduzir a importância desse grito em tempos tão duros, arrisco dizer que a maior contribuição de Meu Coco talvez não esteja aí, mas na sua capacidade de mostrar horizontes, retomando passados que podem produzir outros futuros, em meio a um cenário tão trágico.


Notas

[1] WISNIK, Guilherme. Caetano Veloso. Publifolha, 2005. SANTOS, Daniela Vieira. A formalização da derrota: sobre “Eles” e “A voz do morto”, de Caetano Veloso. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 61, p. 56-81, ago. 2015. “Uma trilha moderna para o Brasil: a vertigem visionária de Caetano Veloso” In Maro Lara Martins; Marcelo Fetz; Davidson Diniz. (Org.). Sociedade & cultura: experiências intelectuais na modernidade.

[2] O famoso ensaio de Silviano Santiago sobre Caetano sugere caminhos semelhantes: SANTIAGO, Silviano. Caetano Veloso como superastro. In Uma literatura nos trópicos. Companhia das Letras, 2019

[3] Ambos disponíveis no livro O Mundo não é chato, organizado por Eucanaã Ferraz.

[4] Em alguns momentos Caetano apontou a existência de uma profunda semelhança entre o PSDB e o PT, como em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0709200607.htm

[5] SCHWARZ, Roberto. Cultura e Política (1964-1969): alguns esquemas. In O Pai de Família. Paz e Terra, 1978. João Camillo Penna faz ótima análise da leitura de Schwarz sobre o Tropicalismo em “O Tropo Tropicalista”.

[6] Um bom exemplo de manifestação pública nesse sentido está no texto “Um Voto”, publicado na Revista Fevereiro em 2016 e disponível neste link: http://www.revistafevereiro.com/pag.php?r=09&t=11

[7] NAPOLITANO, Marcos. A sincope das ideias: a questão da tradição na música popular brasileira. Fundação Perseu Abramo, 2007.

[8] Fernando Perlatto fez uma ótima resenha do livro nessa mesma revista: https://revistaescuta.wordpress.com/2018/02/08/a-literatura-de-esquerda-de-nuno-ramos/

[9] Segundo o ensaísta, essa segunda cara marcaria não apenas sua Caetano, mas constituiria um traço do mundo artístico brasileiro entre o final do século 19 e o século 20, em lógica que o autor, inspirado em considerações de Rodrigo Naves sobre a forma nas artes plásticas brasileiras, chama de “Palácio de Moebius”.

 


lunes, 22 de agosto de 2016

2009 - O SOM E A PALAVRA



Caetano e Chico expressam as dualidades que fizeram a música brasileira avançar. Pode-se dizer, por conta disso, que as fotos que ilustram tanto a capa de Bravo! como as da reportagem são históricas. De acordo com o empresário de Chico Buarque, Vinicius França, tal reunião devidamente documentada não ocorria desde os anos 80, quando os dois artistas comandavam o programa ‘Chico & Caetano’.

[João Gabriel de Lima, Diretor de Redação de BRAVO!]




2009

Revista BRAVO!

O melhor da cultura em abril de 2009
Nº 140
Editora Abril





O som

   e a palavra

          O novo romance de Chico Buarque,

o novo CD de Caetano Veloso e as

trajetórias paralelas dos dois grandes

artistas brasileiros
 


 

João Gabriel de Lima



Chico Buarque e Caetano Veloso. Todo momento cultural tem um par que o resume. É o caso de Truffaut e Godard no cinema francês dos anos 60. Mozart e Beethoven no classicismo musical vienense. Hemingway e Scott Fitzgerald na “geração perdida” da literatura americana. Bandeira e Drummond na poesia modernista brasileira. Caetano e Chico resumem uma geração especialmente talentosa da MPB. A que sucedeu o trio da bossa nova – Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto – e teve também Gilberto Gil, Milton Nascimento, Tom Zé, Edu Lobo e vários outros. Dizer que Chico e Caetano resumem o período não diminui seus companheiros de geração, da mesma maneira que enaltecer Mozart e Beethoven não desmerece Haydn. A principal característica dos ares que sintetizam épocas é o fato de seus integrantes possuírem, simultaneamente, sintonia e divergência, resumindo as questões que marcaram o período. Tradição ou inovação? Pop ou MPB? Foco na linguagem ou engajamento? Caetano e Chico expressam as dualidades que fizeram a música brasileira avançar.
Pode-se dizer, por conta disso, que as fotos que ilustram tanto a capa de BRAVO! deste mês como a reportagem que começa na página 24 são históricas. Nelas, temos a imagem que resume todo um período da cultura brasileira. Uma imagem rara: sempre com agendas lotadas, Chico Buarque e Caetano Veloso raramente aparecem juntos na mesma foto. De acordo com o empresário de Chico Buarque, Vinicius França, tal reunião devidamente documentada não ocorria desde os anos 80, quando os dois artistas comandavam o programa Chico e Caetano. BRAVO! tinha bons motivos para promover o encontro. Numa dessas coincidências raras, Caetano e Chico resolveram lançar, respectivamente, novo CD e novo romance no mês de abril. Na avaliação da revista, um ótimo romance e um disco que merece entrar no top 10 dos melhores álbuns de Caetano. BRAVO! agradece aos dois artistas a oportunidade do clique histórico, realizado pelo fotógrafo Murillo Meirelles no escritório do assessor de imprensa Mario Canivello.
 



João Gabriel de Lima

O novo romance de Chico Buarque, o novo CD de Caetano Veloso e as trajetórias paralelas dos dois grandes artistas brasileiros


Numa cena do filme Invasões Bárbaras, um dos clássicos da primeira década do século 21, um grupo de professores de história elabora a teoria da "quantidade de inteligência". Segundo eles, por razões aleatórias, existem determinados momentos e lugares com alta concentração de gente talentosa, e essas pessoas fazem a diferença em suas épocas. São citadas no filme a Florença de Dante e Boccaccio e a Filadélfia dos "pais fundadores" da revolução americana. Aplicando a teoria à vida cultural brasileira, pode-se dizer que o país viveu uma espécie de auge nos anos 60 e 70, explosão criativa da música popular (e, por mais que se cunhem teorias pretensamente sociológicas — a mais famosa e absurda diz que a arte floresce em períodos de ditadura —, nada explica isso além da sorte). Primeiro veio a bossa nova de Tom Jobim e João Gilberto. Depois, a MPB surgida nos festivais, com Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Tom Zé e Gilberto Gil. Esses músicos têm em comum, além do talento, a carreira extremamente longa, que dura até os dias de hoje. Numa coincidência digna da teoria da inteligência aleatória de Invasões Bárbaras, dois desses artistas darão à luz novas criações neste mês de abril. Saem o novo CD de Caetano Veloso, Zii e Zie, e o novo romance de Chico Buarque, Leite Derramado. Disco e livro são pontos de chegada de trajetórias paralelas — e o lançamento simultâneo provoca reflexões sobre a cultura brasileira e sobre o caminho que ambos percorreram para chegar até aqui.

Não existem mais artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso — os ícones de geração, os compositores que são chamados a opinar sobre todos os assuntos. Nos anos 90, o poeta carioca Bruno Tolentino (1940-2007) observou, numa entrevista famosa, que no Brasil eram os cantores populares, e não os escritores ou intelectuais da academia, que pautavam o debate cultural. Tolentino emitiu sua observação em tom de crítica — ele via isso como um sintoma de decadência. O que faltou em seu raciocínio foi observar que acontecia o mesmo no resto do mundo. Se os anos 40 e 50 foram dos escritores e filósofos, em que nomes como Norman Mailer e Jean-Paul Sartre pontificavam sobre todos os assuntos, os 60 e 70 foram dos astros da música pop. Artistas como John Lennon, Paul McCartney, Bob Dylan e David Bowie, entre outros, eram considerados as "antenas" de um período de intensa mudança cultural e de costumes. É um pouco espírito de época, mas também mérito de uma geração excepcionalmente talentosa — é só pensar que apenas no ano de 1966 foram lançados pelo menos três álbuns clássicos da música de todos os tempos, Blonde on Blonde (Bob Dylan), Pet Sounds (Beach Boys) e Revolver (Beatles). Cantores como Chico Buarque e Caetano Veloso eram as versões brasileiras desse fenômeno. É uma simplificação, no entanto, entender tudo isso apenas como marca de um tempo, ignorando as peculiaridades e contribuições particulares de cada artista.

Numa comparação redutora porém ilustrativa, Chico e Caetano estão para a MPB assim como Bob Dylan e David Bowie para o pop internacional. Dylan e Chico se destacam mais pela qualidade de suas letras do que por suas performances, em geral discretas, em shows. Mais do que bons compositores, letristas e intérpretes fulgurantes, Bowie e Caetano são famosos pelas diversas reviravoltas que deram em suas carreiras, captando diferentes espíritos de época. Bowie usou sintetizadores para falar de viagens espaciais nos anos 60, foi andrógino nos 70 (era o principal nome do glitter, o velho e colorido rock-lantejoula) e voltou a ser roqueiro nos 80. Caetano surgiu no tropicalismo dos anos 60, escreveu o "hino do desbunde" nos anos 70 (a música Odara), foi pioneiro na utilização de sonoridades do pop na MPB da década de 1980 (o marco é o memorável álbum Velô) e ainda promoveu o relançamento de clássicos da música latina nos 90. Tudo isso enquanto Chico Buarque lapidava seu estilo de composição calcado nas raízes da MPB — e Bob Dylan se aprimorava cada vez mais em sua peculiar fusão de blues e música country engajada.

Neste mês em que Caetano e Chico lançam seus novos CD e romance, é interessante comparar os pontos de chegada das duas trajetórias. Chico, o compositor que fazia incursões no teatro e criava personagens em suas letras (Pedro Pedreiro, Ana de Amsterdam, Bárbara), se tornou escritor. Continuou fazendo música embora tenha declarado, em entrevistas, que considerava a canção uma "arte de juventude", em contraposição à literatura, que seria uma forma de criação mais madura (leia texto ao lado). Enquanto isso, Caetano dava nova reviravolta em sua carreira ao se aproximar de músicos jovens e lançar um álbum antológico, Cê. Não parou por aí: criou um blog, lançou músicas na internet, testou-as no show e as reuniu no novo álbum, Zii e Zie, tornando-se talvez o artista brasileiro da área musical que melhor entendeu a interatividade dos novos tempos (leia texto a partir da página 32). Tempos estes em que a multiplicidade de criadores de todas as áreas explode na internet. Em que não existe mais o que se chamava antigamente de mainstream. Em que, no Brasil ou lá fora, se observa o fim dos ícones de geração — e não se espera mais que cantores sejam "antenas da raça" ou falem sobre todos os assuntos. Nestes tempos de cauda longa, Caetano Veloso e Chico Buarque encontraram, cada um a seu modo, suas vozes. Chico na literatura. Caetano nos sites de música, no blog, no show, no CD...






Ensaio fotográfico para a revista Bravo!, realizado em abril de 2009, por ocasião do lançamento do álbum Zie e Zii (de Caetano Veloso) e do livro Leite Derramado (de Chico Buarque)
Fotos: Murillo Meirelles / Revista Bravo!












CHEGA DE VERDADE

Caetano Veloso fala de suas letras cheias de nomes, do futuro de seu “boteco virtual”, o blog obraemprogresso, pagode baiano, Lobão e seu gosto por shows. Confira a íntegra da entrevista que o artista, que lança Zii e Zie, concedeu a BRAVO! por e-mail ao editor de música José Flávio Junior

José Flávio Junior

Bravo! - Por que você decidiu mudar o nome do disco de Transamba para Zii e Zie (ainda que o primeiro estivesse mais para um nome de trabalho provisório)?
Caetano - O título nunca foi Transamba. Lancei a palavra como uma sugestão de definição do que estávamos fazendo. Descobri depois que havia o disco de Marcos Moran e Samba Som Sete chamado Transamba. Achei legal. Mas sempre pensei em pôr um título em italiano, possivelmente com uma expressão em que um som se repetisse em duas palavras. Lembrei de "pian, piano", coisas assim, embora soubesse que não seria uma dessas. Fiquei maravilhado ao ler "zii e zie" em meio a uma frase de Istambul, de Orhan Pamuk, na tradução italiana (uma moça me deu o livro na Itália). Não tem nada a ver com Pamuk ou com Istambul. Era a língua italiana. A repetição do som "zi" condizia com o que eu buscava - e ser "tios e tias" tornava ainda mais profundo o sentido íntimo de saudade de São Paulo que venho sentindo na feitura de disco tão carioca.

Bravo! - Tenho notado que você se dedica bastante ao blog ordemeprogresso, a ponto de ler todos os muitos comentários que cada novo post seu desperta. Mas a experiência fascinante de ter um canto seu na web não pode se tornar prejudicial, principalmente agora que você lançará um disco? Se alguns jornais falarem mal do trabalho (como Folha e Estado falaram do show com o Roberto, iniciando uma das primeiras polêmicas do blog) você usará o espaço para se defender e/ou analisar as críticas?
Caetano - Como assim prejudicial? Não entendi. O show com Roberto não precisava de defesa. Eu, tendo um blog dedicado a este outro disco, não ia deixar de fazer o que sempre fiz. Antigamente eu comentava as críticas no palco do show. Era superengraçado. Mas o obraemprogresso foi criado para acabar quando o disco saísse. E assim será. Pode virar outra coisa ou simplesmente sumir. Depende do que Hermano combinar comigo. Continuar sendo o boteco virtual onde a gente conversa e discute é que não vai.

Bravo! - Você ficou intrigado quando um crítico americano disse que as letras de Cê eram as melhores que você havia concebido em muito tempo (opinião que compartilho). Em , apesar da música para Wally Salomão, você não citava outros artistas nem soava como se estivesse mandando recados para outras pessoas públicas. Por que abandonar tão rápido esse estilo de composição, uma vez que Zii e Zie traz referências a Kassin, Lobão, Madonna, Guinga, Pedro Sá, Seu Jorge, Los Hermanos, Condoleezza Rice e tantos outros? Você chegou a declarar que havia se esforçado muito para alcançar a simplicidade lírica de Cê. Não quis se esforçar de novo?
Caetano - Tenho até um disco chamado Cores, Nomes. De Clever Boy Samba a Lapa, passando por Alegria, Alegria, Ele me Deu um Beijo na Boca, A Voz do Morto ou Fora da Ordem, minhas canções estão sempre cheias de nomes de pessoas (célebres ou não), de cidades, de países, de ruas, de filmes, de personagens. O importante na nova safra de canções era ter matéria prima para desenvolver levadas de samba com timbre elétrico forte. Em havia a necessidade de soar urgente, sem referências, direto ao ponto. Fiz um esforço e consegui algo nesse sentido. Mas minha inclinação natural é assim: se eu não me proíbo de antemão, as letras vêm naturalmente cheias de nomes. Isso não quer dizer que eu desdenhe de Peter Gast ou de Lobão Tem Razão. Achei curioso que Ben Ratliff, o crítico no New York Times, tenha percebido a diferença mesmo sem saber português. Ressaltei essa ignorância dele, brincando, quando nos falamos em Nova Iorque. Mas sei que, de um certo ponto de vista, ele está certo. Mas Zii e Zie não precisa dessa característica.

Bravo! - Para Pedro Sá, Zii e Zie talvez seja até superior a por ter um lado experimental mais nítido. Como você enxerga esse disco na sua discografia e no momento artístico que você está atravessando?
Caetano - foi concebido quase como um disco de heterônimo. Foi pensado e realizado com o fito de criar uma banda de rock com som e repertório originais. É um lance só, de ponta a ponta. Agora o que aconteceu foi que fizemos um disco com essa banda já existente e amadurecida. Aí a banda vem com mais inventividade e soltura. A nova abordagem de aspectos do samba é sempre em torno do óbvio mas é radical. Experimento. Mas não tenho uma visão de conjunto tão nítida, já que fui escrevendo as canções e mostrando-as em shows semanais e pela internet.

Bravo! - Você escreveu, até como forma de provocação, que não há nada melhor do que pagode baiano. Ver o Psirico em cena reforça sua vontade de tirar do campo das idéias a tal antologia da axé music? Esse pode ser seu próximo álbum? Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado, que passeiam pelos ritmos urbanos da Bahia no Do Amor, estariam dentro do projeto?
Caetano - Tenho esse sonho. Mas não sei se chegou o tempo. Sim, eu tocaria com Ricardo e Marcelo. E com Pedro Sá, Moreno (Veloso) e Davi Moraes. Além de Du e Jó, os irmãos gêmeos percussionistas geniais de Salvador. Talvez também fizesse sozinho com meu violão.

Bravo! - Esse encontro com Chico para a capa de Bravo! levou você a pensar de alguma forma nos caminhos distintos que ambos seguiram? Por que o seu interesse na canção não morre, sua vontade de ir a shows não diminui e seu prazer por tocar com músicos novos não acaba, enquanto muitos artistas chegam aos sessenta desestimulados com a música pop ou mais empolgados com outras formas de arte?
Caetano - A tendência a ouvir menos música na velhice eu já registrei em texto. Mas gosto de canção sempre. E de ir a shows. Shows me deixam excitado e sempre idéias vêm à minha cabeça quando estou na platéia de um show de Bethânia, dos Racionais ou do Radiohead. Não sei se Frank Sinatra ou Louis Armstrong, Roberto Silva ou Riachão tinham menos prazer em tocar quando chegaram aos 60: todos esses passaram dos 70 tocando com entusiasmo. Mesmo em minha geração há muitos. Gosto de tocar com esses músicos com quem toco porque todo o projeto nasceu de minhas conversas com Pedro Sá quando fazíamos (os discos) Noites do Norte e A Foreign Sound. Nossas inteligências convergem. Ele sugeriu Ricardo e Marcelo. Vi que não podia ter feito escolha melhor.

Bravo! - Após Lobão lançar Para o Mano Caetano, sua obra coincidentemente passou a ficar mais interessante para muita gente. Você gravou o disco com Jorge Mautner, soltou o quase unânime e mostrou as canções de Zii e Zie antes que elas ficassem prontas na turnê Obra em Progresso, premiada por Bravo!. Exercitou até seu lado stand-up comedy (ou sit-down comedy) nessa temporada de shows, inclusive comentando uma entrevista de Lobão para o Jornal do Brasil. Você acha que deu um tempo com as verdades e viveu alguns enganos nesse período, como diz a música de Lobão?
Caetano - Amo a frase de Lobão para mim: "Chega de verdade". Toda hora me vejo precisando repeti-la para mim mesmo. Em Jeito de Corpo (do álbum Outras Palavras, que, aliás tem os nomes de todos os Trapalhões) eu digo: "Falta aprender a mentir/ Entro até numas por ti". Continuo tentando.





Porto Alegre, 2016
A Personalização da Música na Capa de Bravo!: 
Espaço de Construção e Legitimação de Peritos (1997/2013)

Anna CAVALCANTI

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS


 
                           As duas capas referentes à edição 140 de BRAVO!


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Nessas capas, são retratados os cantores e compositores da MPB, Caetano Veloso e
Chico Buarque, dois entre os nomes mais citados pela revista, conforme vimos acima. As fotografias escolhidas são parte de um ensaio realizado pela própria revista, clicado pelo fotógrafo Murillo Meirelles. Na primeira foto de capa, à esquerda, Chico e Caetano aparecem em um plano médio largo, sentados bem proximamente, com as mãos sobre as pernas e sorriso no rosto. Ambos estão dispostos no centro da imagem, em altura semelhante, o que dá margem a inferir que nenhum é maior que o outro, no sentido metafórico artístico, proposto por Bravo!. O logotipo da revista, sempre em caixa-alta, aparece combinando com a chamada principal, em branco, destacado pelo contraste com as roupas dos músicos.

O fato de ambos terem sido escolhidos para configurar a primeira e única capa dupla da revista já reflete um posicionamento de Bravo! frente ao peso que se infere sobre os dois artistas. Caetano e Chico mereceram essa distinção porque representam, segundo explicita a capa, “o som e a palavra”. Percebe-se que a primeira palavra está sobre Caetano e a segunda sobre Chico. O primeiro está lançando um CD, “Zii e Zie”, enquanto o segundo lança seu quarto romance, “Leite Derramado”. Aproveitou-se, a partir disso, a lógica de eventos importantes na carreira dos dois para motivar uma capa que envolvesse ambos. Bravo!, assim, personalizou dois eventos culturais de peso daquele mês ao convidar os dois artistas para o ensaio.

Na segunda capa, vemos Caetano e Chico sobre o mesmo cenário, mas em uma composição diferente. Dessa vez, eles aparecem em um plano de conjunto, sentados de forma despojada em um sofá branco. O logotipo da revista segue combinando com a chamada principal e o lead, dessa vez na cor magenta, à semelhança da camiseta de Caetano. Na foto, os músicos parecem bem à vontade, com sorriso mais largo do que o da primeira foto, sugerindo visualmente uma atmosfera de leveza. Caetano olha para lente enquanto Chico mantém o olhar voltado para outro ponto, aparentando uma dispersão descontraída.

Neste caso, em que um dos retratados não aparece com o olhar voltado diretamente para a câmera, o leitor é levado a imaginar para onde ele estaria olhando. Rostos e olhares desviados da lente e dos leitores criam uma tensão de “espaços fora do plano”, que representa o interesse por um lugar inexistente além dos limites cênicos, um espaço abstrato. Essa capa dá a sensação de estarmos invadindo um momento de intimidade dos músicos, enquanto Caetano olha pra câmera – para o leitor –, e Chico parece falar algo que diverte e descontrai. Essa situação desperta curiosidade de quem vê a cena para saber sobre o que ambos podem estar falando.

Em ambas as capas, a chamada principal é a mesma: “O som e a palavra”. Essas palavras funcionam como uma metonímia para simbolizar as celebridades que, segundo Bravo!, representam, de fato, “o” som e “a” palavra. Os artigos definidos representam o tom absolutista típico das chamadas de capa da revista, sempre retratando os superlativos de forma personalizada, reiterando-os por meio da chamada principal. Na primeira capa, a chamada diz: “O novo romance de Chico Buarque, o novo CD de Caetano Veloso e as trajetórias paralelas dos dois grandes artistas brasileiros”. A ideia de novidade é trazida repetidamente, reforçando a relação com o evento e a permanente atualização da revista sobre o que é feito a cada mês. A revista mantém o uso do definitivo quando conclui se referindo aos músicos como “os dois grandes artistas brasileiros”. Não existe uma abertura nessa referência como “dois dos grandes” ou “dois entre os melhores” – Caetano e Chico são os dois grandes artistas brasileiros, segundo a revista.

A chamada principal da segunda capa vem apenas reiterar essa ideia: “O novo romance de Chico Buarque, o novo CD de Caetano Veloso e os caminhos dos dois artistas que pautam o debate cultural do país”. Neste caso, a chamada se repete em seu princípio, tendo em vista que “trajetórias paralelas” e “caminhos dos dois” carregam o mesmo sentido, dando proximidade à carreira dos músicos. Contudo, ao final, Bravo! dá um novo epíteto aos dois: “os dois artistas que pautam o debate cultural do país”. Dessa forma, além de serem os dois grandes artistas brasileiros, Chico e Caetano são os artistas que pautam o debate cultural do país.

Nas palavras do então diretor de redação, João Gabriel de Lima (2009), à época da publicação desse número,

Caetano e Chico expressam as dualidades que fizeram a música brasileira avançar. Pode-se dizer, por conta disso, que as fotos que ilustram tanto a capa de Bravo! como as da reportagem são históricas. De acordo com o empresário de Chico Buarque, Vinicius França, tal reunião devidamente documentada não ocorria desde os anos 80, quando os dois artistas comandavam o programa ‘Chico & Caetano’.

Com isso, o diretor reforça o que as capas expressam e traz um novo sentido às fotos e ao encontro de ambos, declarando o momento como “histórico”. Armando Antenore (2013), jornalista de Bravo! nesse período, reitera a importância dessa capa e ainda revela detalhes de bastidores: “Quem trabalhava para a publicação raramente ouvia um ‘não’ quando fazia pedidos de entrevista. Até Chico Buarque, famoso por se expor pouquíssimo na mídia, topou protagonizar uma capa junto de Caetano Veloso (deixou-se fotografar, mas não abriu a boca, convém lembrar)”. Apesar de ser consagrado como “a palavra”, Chico não deu nenhuma palavra para a publicação, manteve sigilo e deixou que sua obra, exclusivamente, falasse por si, consagrando-o.

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