Caetano
Veloso chegou do Rio ontem de madrugada e encontrou São
Paulo fría. Vestiu calça de veludo, casaco de couro e cachecol para enfrentar
o clima, mas mesmo assim está um pouco preocupado com a possibilidade de um
resfriado atrapalhar sua voz. Afinal, é só dela e de seu violão que depende o
show que fará a partir de amanha no Palace.
Em
“Caetano Veloso e Violão”, que fica em cartaz três semanas, ele está só em um
banquinho, interpretando varias antigas canções brasileiras.
“São
as músicas que eu canto em casa . Mais que saudosismo, é um show intimista”,
diz ele. “O que eu mais gosto no mundo é cantar, muito mais que compor”.
Para
ese tipo de espetáculo, diz Caetano, o mais importante é estar cantando sempre.
Confessa que não vinha fazendo isso, ocupado com as filmagens recém-encerradas
de “O Cinema Falado”, seu primeiro trabalho como director. “Nos últimos días cantei
bastante para reaquecer, músicas bem velhas como “Chuá, Chuá”.
O
show repete a idéia daquele que apresentou há alguns meses no Rio de Janeiro e
que se transformou no disco “Totalmente Demais”, a ser lançado
esta semana pela WEA junto com outro gravado em Nova York também apenas com
violão, “Caetano Veloso”. Mas será diferente: o roteiro
do espetáculo carioca nem existe mais (“Perdi o papel”) e o disco, diz Caetano,
não serve como guía.
Melhor assim, porque ele espera que a temporada
paulista seja melhor. “O de lá eu não gostei muito, eu não estaba inspirado, não
me sentí à vontade. As pessoas disseram que foi genial, mas não foi. As pessoas
estavam enganadas.”
Difícil de cantar
Até o final da tarde de ontem, quando recebeu a
imprensa para uma entrevista coletiva no hotel Maksoud Plaza, na Bela Vista
(região central de São Paulo), Caetano ainda não tinha a relação completa do
que irá cantar. “O problema é que conheço muitas músicas e fica difícil
escolher.” Ainda não deberá ser dessa vez que tornará pública sua interpretação
para canções como “A Felicidade” e “Chega de Saudade”, que coloca entre suas
preferidas, daquelas que canta dezenas de vezes seguidas em casa. “São muito
difíceis de cantar”, afirma.
O show terá “Kalu”, de Humberto Teixeira, “Pra que
mentir”, de Noel Rosa, “Eu sei que vou te amar” de Tom Jobim e Vinícius de
Moraes, “Oba-lá-lá/Bim-bom”, de João Gilberto. Poucas composições suas (“Vaca
Profana”, “Coração Vagabundo”), porque “gosto mais de cantar músicas dos outros”.
Caetano também incluirá “Billie Jean”, sucesso de
Michael Jakcson que acha “uma coisa linda” desde a primeira vez que ouviu no
rádio do carro, em Salvador, e que o faz lembrar de “Eleanor Rigby” dos
Beatles.
Do filme que acaba de fazer Caetano não fala muito.
“Ficou do tamanho de um show”, o que quer dizer cerca de uma hora e meia. É um
filme de idéias, que quería fazer desde os 15 anos de idade e poderia se chamar
“Ensaios”. O nome acabou sendo “O Cinema Falado”, um trabalho que levou 21 dias
para ser filmado e mais alguns para a montagem. Na segunda e terça-feira
próximas Caetano vai ao Rio para a edição de som. Caetano aparece pouco como
ator.
Também não se preocupa com as críticas que recebeu
seu programa com Chico Buarque na TV. Diz que as exigências são falsas –“Chico
Buarque não é um performer, mas um compositor que dá a colher de chá de cantar
para vocês”-, que os ataques só vieram depois que foram divulgados os índices
de audiencia – “Entao é o Ibope que importa?”
“Confesso que ese não é um trabalho muito autoral,
é apenas uma produção de TV.”
Sobre a censura à música “Merda”, que seria
incluída no primeiro programa, Caetano Veloso continua condescendente. Afirma
que se deve exigir menos da “Nova República”, debe-se “fazer menos greves”. Seu
raciocínio: “Por que aguentamos tantas coisas horríveis, tantões caminhões,
caladinhos e agora vamos fazer barulho?” Mas com o veto presidencial ao filme
de Godard continua intransigente e responde a Roberto Carlos, que considerou
indelicadas suas declarações a respeito do apoio que o “rei” deu ao presidente
Sarney no episódio.