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viernes, 31 de julio de 2026

2026 - CAETANO VELOSO: TRANSA

 

4/8/2026 - Mateus Baldi e Evangelina Maffei - Manouche (RJ)






Caetano Veloso: Transa

Mateus Baldi

Cobogó

200 páginas





Capa do livro “Transa: um disco-mapa do Brasil”, por Mateus Baldi

Foto: Editora Cobogó/Divulgação


P. 112



Caetano Veloso: Transa

A escritora Mateus Baldi faz uma análise musical e histórica de “Transa”, álbum gravado durante o exílio e um “disco-mapa” para o Brasil de Caetano

 

Leonardo Neiva 

31 de Julho de 2026


Mais de 50 anos após seu lançamento original, em 1972, o álbum “Transa” é hoje amplamente reconhecido como um dos melhores trabalhos de Caetano Veloso. Por trás de suas sete músicas, a maioria delas com nomes e letras parcialmente em inglês, há também muita história. Apenas o quarto disco solo do artista baiano, foi também o segundo gravado durante o exílio em Londres, em tempos de perseguição pela ditadura militar. A escritora carioca Mateus Baldi destrincha muito dessa riqueza musical e histórica que mora no álbum em “Caetano Veloso: Transa” (Cobogó, 2026), novo volume da coleção O Livro do Disco, que aborda algumas das principais obras de artistas como Gilberto Gil, Racionais MC’s, David Bowie, entre vários outros. 


Um dos principais pontos que a autora levanta nesta espécie de biografia do disco é a mistura: não só do português com o inglês, mas também do samba com o rock, do reggae com referências ao cancioneiro nordestino — um eco da própria condição do artista exilado entre dois países e duas culturas. Gravado ao longo de quatro sessões no segundo semestre de 1971, com acompanhamento de músicos como Jards Macalé, Tutty Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Souza, aqui nasce um Caetano mais acústico e intimista, que se despe dos arroubos tropicalistas.

Autora dos livros de contos “Os Anos de Vidro” (Nós, 2025) — leia um trecho aqui —, vencedor do Prêmio APCA 2025, e “Formigas no Paraíso” (Faria e Silva, 2022), Baldi traça em detalhe momentos-chave para a criação de “Transa”, como a partida para o exílio e os bastidores das gravação, além da recepção do disco pela imprensa da época. Mestra em literatura, cultura e contemporaneidade pela PUC-Rio, a escritora havia iniciado o mergulho no álbum ainda no mestrado, quando pesquisou arquivos musicais, vídeos de bastidores e fez entrevistas com Macalé, diretor musical do disco, e Moreno, baterista e arranjador. O resultado é uma história profunda sobre aquele que Baldi considera o “disco-mapa” do Brasil que Caetano trazia dentro de si.


Gravar em inglês era um ponto importante para Caetano desde o final da década de 1960, quando compôs as primeiras músicas no idioma, que acabariam entrando no disco de 1969. Conta ele que era bombardeado pela língua inglesa o tempo todo: o rádio tocava mais músicas em inglês do que em português, os produtos, os anúncios, as casas comerciais usavam o inglês em todos os seus materiais. Era justo que pudesse usá-lo como bem quisesse, devolvendo ao mundo “esse inglês mal aprendido, fazendo-o veículo de um protesto contra a própria opressão que o impunha a nós”. Em resumo, uma tentativa de abrir “um respiradouro nesse universo fechado que é o Brasil”. A canção que compôs então, “Lost in the paradise”, era “um grito de socorro às avessas”. Havia ali uma ruptura, uma rasura na escrita artística. Para usar o verbo empregado pelo próprio Caetano, há um novo design nessa devolução — décadas depois, na conferência “Diferentemente dos americanos do Norte”, ele escreveu: “devemos estar à vontade na versão de Ocidente que veio do Norte. E superá-la.”

Para todos os efeitos, Transa é um disco-mapa.

Era justo que pudesse usá-lo como bem quisesse, devolvendo ao mundo ‘esse inglês mal aprendido, fazendo-o veículo de um protesto contra a própria opressão que o impunha a nós’

O geógrafo, cartógrafo e historiador de mapas John Brian Harley classifica mapa como “tanto um inventário, um ato de posse que propicia a vigilância e o controle jurídico do território, quanto um panorama que permite a atuação sobre o mesmo”. O disco de Caetano é exatamente isso. Vejamos: através das múltiplas incorporações do cancioneiro brasileiro às faixas em inglês, justapondo-as e chegando a uma terceira obra, temos um inventário e um ato de posse em relação ao país. O controle do território — um Brasil íntimo de seus afetos —, se não é jurídico é sentimental, e para um homem escorraçado de sua terra pelo Estado há poucas coisas tão jurídicas quanto esse domínio. Por fim, o panorama se insere na mesma chave do inventário, e é aqui um panorama afetivo, que recupera, entre outras músicas, a “Reza” de Edu Lobo, membro da turma que “reagira mal” ao que vinha sendo feito no Tropicalismo, nas palavras de Caetano, talvez por não vê-lo como uma tentativa de ser o mais fiel possível à essência revolucionária, violenta, da Bossa Nova.

Falamos sobretudo de Transa como mapa no sentido de que entrega ao ouvinte um país de possibilidades, em oposição à costura de morte e sangue que a ditadura militar forjava nos porões. Há aqui algo de genuíno na tessitura de um disco cuja organicidade soa como uma bússola para se orientar em meio à devastação.

Falamos sobretudo de Transa como mapa no sentido de que entrega ao ouvinte um país de possibilidades, em oposição à costura de morte e sangue que a ditadura militar forjava nos porões

Se a rodovia Transamazônica que os militares queriam ouvir era a estrada que simbolizava o Brasil Grande, Transa é, ao contrário, um Brasil Grande em espírito, sem brutalismos, um caminho aberto no terreno esturricado do morticínio promovido pelo Estado. O país promessa-de-futuro-do-mundo que Caetano tanto manifesta em sua obra.

Em oposição frontal ao clima do disco anterior, Caetano instaura um álbum de aparência preto-cinza-vermelho, cujo som é essencialmente solar.

Imaginemos um incêndio em que nos é dada a possibilidade de resgatar pequenas peças do imóvel para que a vida seja reconstruída em outro lugar. Caetano vai embora do Brasil incendiado e leva consigo as imagens-guia. Os sons. As palavras que lhe permitem montar um totem que servirá de condução na nova terra — o exílio, “um período de fraqueza total”. Portanto, surgida sob a forma de um trabalho que consistia na primeira tentativa de criar um som a partir das ideias de Caetano, a reconstrução se funda na inadequação, no sentimento torto que perpassa cada faixa de um vinil: os sulcos rangem um desconforto por coisas díspares sendo unidas, e a cada troca de faixa tem-se um mistério, um inesperado, como quando o que era samba pra cima ressurge num lamento pulsado pelo ataque do rock.

Os sulcos rangem um desconforto por coisas díspares sendo unidas, e a cada troca de faixa tem-se um mistério, um inesperado

O que se tem antes do retorno ao Brasil é a fúria e a anti-inércia de quem precisa se afirmar vivo para não mais ser o camarada de Portobello que Gilberto Gil viu cair.

 



“Transa”, o clássico disco de Caetano Veloso, ganha livro pela Editora Cobogó

Mateus Baldi revisita os bastidores de um dos álbuns mais marcantes da carreira de Caetano Veloso


Fabiane Pereira

14 de julho de 2026

Considerado um dos grandes discos da carreira de Caetano Veloso, Transa — quarto álbum solo do músico e o segundo gravado durante seu exílio londrino — transforma a experiência do desenraizamento em linguagem musical. Em meio a uma Londres cosmopolita, num momento em que transitava entre novas sonoridades e culturas sem perder a conexão com a terra natal, o artista mistura português e inglês, samba, reggae, rock e referências ao cancioneiro nordestino, criando uma sonoridade híbrida que reflete sua própria condição de expatriado.

O disco foi gravado em quatro sessões no segundo semestre de 1971. Acompanhado pelos músicos Jards Macalé, Tutty Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Souza. Caetano construiu um universo musical mais acústico, intimista, despido dos arroubos tropicalistas, mas sem perder a sofisticação e o experimentalismo.

Neste livro, que faz parte da coleção O Livro do Disco, da Editora Cobogó, a autora Mateus Baldi vai da partida para o exílio aos bastidores de gravação e à recepção na imprensa, apresentando uma profunda pesquisa de arquivos aliada a entrevistas inéditas feitas com os principais personagens da história do álbum.

Para Baldi, Transa é um “disco-mapa” do Brasil que Caetano trazia dentro de si. Das múltiplas incorporações do cancioneiro brasileiro às faixas em inglês, o cantor recria “um Brasil íntimo de seus afetos” — e é a partir dessa chave de leitura que as páginas dissecam o disco.

Em meio à violência da ditadura militar, Transa surge como bússola afetiva e artística “para se orientar em meio à devastação”, afirmando a música brasileira como espaço de resistência, memória e reinvenção. Como definiu Jards Macalé em entrevista à autora, o disco é “um alimento fundamental para a música brasileira, para a cultura brasileira, para tudo e para a satisfação da gente. Foi e é muito grande”.

 

Sobre a autora:

Mateus Baldi nasceu no Rio de Janeiro, em 1994. Mestra em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), é autora dos livros de contos “Os anos de vidro” (2024), que recebeu o prêmio APCA 2025, e “Formigas no paraíso” (2022), além de organizadora da antologia “Vivo muito vivo — 15 contos inspirados nas canções de Caetano Veloso” (2022).

 






















Livro enxerga 'Transa', cultuado álbum de Caetano Veloso, sob a ótica do afeto

17/08/2026 


Por Mauro Ferreira




Caetano Veloso sorri no show de 2023 em que reviveu o álbum 'Transa' (1972), cultuado disco do artista ora analisado em livro

Foto: Alex Woloch / Divulgação festival 'Doce maravilha'
 


Título: O livro do disco – Transa – Caetano Veloso

Autor: Mateus Baldi

Cotação: 1/2

 

Muito já foi escrito e falado sobre “Transa” (1972), álbum gravado por Caetano Veloso durante o exílio em Londres, em quatro sessões de estúdio que deram forma a um disco que se tornou cultuado nos últimos 20 anos, especialmente a partir da recepção calorosa do álbum “Cê” (2006), feito pelo cantor, compositor e músico baiano com atmosfera roqueira evocativa da vibe do LP londrino lançado no Brasil pela gravadora Philips em abril de 1972.

Em bom título da coleção “O livro do disco”, da editora Cobogó, a escritora carioca Mateus Baldi tenta ir além do discurso recorrente sobre “Transa” com narrativa que abarca inclusive o revival do álbum por Caetano em show de 2023.

Baldi enxerga “Transa” como um “disco-mapa” do Brasil, um mapa desenhado a partir dos afetos do artista. É a partir dessa ótica que a escritora – nutrida por alentada pesquisa para tese de mestrado defendida em 2023 – disseca “Transa”, diluindo na narrativa o faixa-a-faixa recorrente em títulos da coleção “O livro do disco”.

A narrativa começa com Caetano ainda no Brasil, antes de partir em 1969 para o exílio europeu forçado pela ditadura. A rigor, o fugaz ponto de partida é 1958, ano em que João Gilberto (1931 – 2019) detonou a revolução sonora que ecoou na interiorana cidade baiana de Santo Amaro da Purificação (BA), terra natal de Caetano e bússola que ainda hoje parece orientar o baiano já octogenário.

Sem acesso a Caetano Veloso, a escritora recorreu à pesquisa em jornais e revistas da época – e também a entrevistas com personagens relevantes no álbum, como Jards Macalé (1943 – 2025), o baterista Tutty Moreno e a cantora Angela Ro Ro (1949 – 2025) – para traçar a rota que levou Caetano à gênese de “Transa”.

Sem os rebuscamentos das dissertações acadêmicas, o texto de Mateus Baldi é fluente e organiza as informações e as ideias da autora com objetividade jornalística. Sob o prisma da narrativa, “O livro do disco – Transa – Caetano Veloso” soa como robusta reportagem sobre os meandros de um álbum que, como reforça Baldi, sempre esteve presente na trajetória de Caetano desde antes do culto gerado a partir da fase do cantor com a BandaCê.

Baldi caracteriza “Transa” como “amuleto” concebido por Caetano no exílio após uma visita ao Brasil. “(É um disco) feito com uma banda extraordinária, em interação total, (que) capturava a atmosfera londrina enquanto recuperava um Brasil, construindo para si um mapa acústico”.

“Transa”, cabe lembrar, foi orquestrado sob direção musical de Jards Macalé. O fato de ter entrevistado Macalé para o livro permite a Mateus Baldi reconstituir passos fundamentais na relação do artista com Caetano. Da mesma forma, o contato com Péricles Cavalcanti forneceu outras pistas para a escritora discorrer sobre o cotidiano de Caetano em Londres, já que Péricles viveu um tempo na capital da Inglaterra em exílio voluntário.

Teria sido de Péricles inclusive a sugestão para que o arranjo da música “Nine out of ten” incorporasse o reggae, ritmo jamaicano que começava a ganhar o mundo naquele início dos anos 1970, mas ainda não chegara ao Brasil.

O livro prende a atenção do leitor, entre detalhes da gravação no estúdio Chapell's Recording Studios, descrições das faixas (às vezes sob ótica pessoal) e informações sobre as referências embutidas por Caetano nas músicas do álbum, sobretudo em “Triste Bahia”, música feita sobre poema barroco de Gregório de Mattos (1636 – 1696), além do relato de dissonâncias posteriores do artista com o baterista Áureo de Souza já em shows no Brasil.

Em essência, o livro sobre o disco “Transa” oferece bom painel sobre momento efervescente da discografia de Caetano Veloso em narrativa afetuosa sem, a rigor, acrescentar muito sobre um álbum já exaustivamente dissecado. Que venham livros sobre outros discos de Caetano Veloso!...




lunes, 18 de mayo de 2026

2026 - BATUKE DO PRETINHO - Participação de MARIA BETHÂNIA












17 de maio de 2026


VIVO RIO - Rio de Janeiro

BATUKE DO PRETINHO

Participação de Maria Bethânia

Intro: ALGUÉM ME AVISOU
1. SONHO MEU
2. SAMBA DO GRANDE AMOR
3. Pot-pourri: SAMBA DE DOIS / COSME E DAMIÃO / LINDOMAR
4. RECONVEXO
5. O QUE É, O QUE É?
6. NEGUE





"Maria Bethânia reina majestosa na roda do samba de Pretinho da Serrinha, 'movimento que representa o Brasil real'"

Mauro Ferreira


muito feliz de estar aqui. Esse rapaz é um músico extraordinário” e 

“Esse movimento que o Pretinho faz me representa e representa o Brasil real” 



Maria Bethânia é recepcionada por Pretinho da Serrinha na apresentação do 'Batuke do Pretinho' na casa Vivo Rio na noite de domingo, 17 de maio de 2026

Foto: Ricardo Nunes / Divulgação Vivo Rio


"Maria Bethânia! Maria Bethânia!”, saudou em coro o público que lotou a pista da casa Vivo Rio na noite de domingo, 17 de maio. Feita diante da própria cantora, presente no palco, a saudação sublinhou o fato de Maria Bethânia ter reinado ao entrar na roda de samba de Pretinho da Serrinha com o habitual porte majestoso.

A artista foi a convidada da apresentação de ontem do “Batuke do Pretinho”, roda de samba em formato de show que o cantor e percussionista carioca vem apresentando aos domingos na casa Vivo Rio, na cidade natal do Rio de Janeiro (RJ).

A diamantina presença de Bethânia alterou o ambiente da roda. Até porque a cantora levou dois músicos da própria banda, o baixista Jorge Helder (excepcionalmente no violão) e o violeiro Paulo Dafilin, alocados ao lado de um dos naipes de percussionistas arregimentados por Pretinho para o show.

Depois de o dono da roda entreter o público com o canto de sambas dos repertórios de Roberto Ribeiro (1940 – 1996), Jorge Aragão e Arlindo Cruz (1958 – 2025), entre outros bambas, a cena foi preparada para a entrada de Bethânia. Quando a voz grave da cantora foi ouvida da coxia, entoando breves versos do samba “Alguém me avisou” (Ivone Lara, 1980), o público vibrou e a energia mudou.

Quando efetivamente pisou no palco da casa Vivo Rio, cantando “Sonho meu” (Ivone Lara e Delcio Carvalho, 1978), samba que lançou há 48 anos em um dos álbuns mais bem-sucedidos dos 60 e poucos anos de carreira, Bethânia se mostrou feliz, com a voz potente, quente.

A cantora não fez uma participação burocrática, como em outras intervenções em shows alheios. Ficou nítido que a artista queria estar ali na roda de Pretinho da Serrinha, saudado por Bethânia como “garoto lindo”.

Na sequência, a cantora caiu bem no “Samba do grande amor” (Chico Buarque, 1983) – com Pretinho no tamborim – e celebrou o samba da Bahia natal em pot-pourri que aglutinou “Lindomar”, “Samba de dois” e “Cosme e Damião”, preparando o terreiro para o canto de “Reconvexo” (Caetano Veloso, 1989).

As falas de Bethânia antes e depois do canto do samba “O que o que é” (Gonzaguinha, 1982) – muito feliz de estar aqui. Esse rapaz é um músico extraordinário” e “Esse movimento que o Pretinho faz me representa e representa o Brasil real” – reforçaram a energia boa que envolveu a generosa participação da cantora no “Batuke do Pretinho”.

Ovacionada pelo público, por Pretinho da Serrinha e pela big banda, Bethânia saiu da roda após cantar o samba-canção “Negue” (Adelino Moreira e Enzo Almeida Passos, 1960) a “pedido dele”, como ressaltou Bethânia. Ele, claro, é Pretinho, menino da Serrinha que é o rei da roda, mas ontem se portou como súdito diante de sua majestade, a Abelha Rainha.


Maria Bethânia leva o baixista Jorge Helder (ao fundo, ao violão) para a roda de samba de Pretinho da Serrinha — Foto: Ricardo Nunes / Divulgação Vivo Rio



Foto: Anderson Bordê/AgNews



Foto: Anderson Bordê/AgNews





domingo, 22 de febrero de 2026

2026 - MARIA BETHÂNIA - Buenos Aires - Teatro Ópera 1984

 

g1

BLOG DO MAURO FERREIRA

 

Por Mauro Ferreira

Jornalista carioca que escreve sobre música desde 1987, com passagens em 'O Globo' e 'Bizz'. Faz um guia para todas as tribos


21 de fevereiro de 2026

Grande momento de Maria Bethânia em show de 1982 volta à cena em registro audiovisual feito na Argentina em 1984


Maria Bethânia no palco do Teatro Ópera, em Buenos Aires, em maio de 1984
Foto: Reprodução vídeo / Acervo Evangelina Maffei

ANÁLISE

♬ Em setembro de 1982, um ano antes de romper com a então já exaurida fórmula de bem-sucedidos álbuns como “Álibi” (1978) e se desviar da estética sonora da década de 1980 com o interiorizado e acústico álbum “Ciclo” (1983), Maria Bethânia rodou a saia e comandou os ventos em show orquestrado pela diretora Bibi Ferreira (1922 – 2019) – sob direção musical de Gilberto Gil – e intitulado “Nossos momentos”. 

Ainda em 1982, esse show gerou álbum com o áudio de 50 minutos do espetáculo e que se impôs como um dos mais calorosos títulos da discografia ao vivo da intérprete. Contudo, como a música brasileira ainda não vivia a era do audiovisual, o show “Nossos momentos” somente pôde ser ouvido por gerações posteriores de admiradores de Bethânia. 

Daí a grande importância documental do registro audiovisual disponibilizado pela pesquisadora musical argentina Evangelina Maffei neste mês de fevereiro de 2026. 

Incansável na difusão extraoficial de informações e gravações raras de Caetano Veloso, Gal Costa (1945 – 2022) e Maria Bethânia, Maffei traz à cena vídeo com a gravação ao vivo do show “Nossos momentos”, captado em 24 de maio de 1984 no Teatro Ópera, em Buenos Aires, para exibição em TV argentina. 

Em Buenos Aires, o show “Nossos momentos” foi apresentado em temporada intitulada “Maria Bethânia en concierto – La máxima do Brasil”. Bethânia foi para a Argentina com a banda do show, formada por Djalma Corrêa (percussão), Fernando Costa (baixo), José Maria Rocha (piano), Juarez Araújo (sopros), Juarez Moreira (violão), Ricardo Costa (bateria) e Túlio Mourão (teclados). Somente as vocalistas não viajaram para a Argentina. 

Durante quase 64 minutos, o registro audiovisual desta versão quase completa do show “Nossos momentos” mostra uma Bethânia elétrica e eletrizante, se movimentando com vivacidade pelo palco do Teatro Ópera. 

A intensidade do canto de “Carolina” (Chico Buarque, 1967) é uma das preciosidades ausentes no álbum ao vivo de 1982 que emergem no vídeo. Outras músicas presentes no registro audiovisual e limadas do LP, por falta de espaço, são “Bodas de prata” (Roberto Martins e Mario Rossi, 1945), “The archaic lonely star blues” (Jards Macalé e Duda Machado, 1970) – registrada por Bethânia em single de 1974 – e “Valsinha” (Chico Buarque e Vinicius de Moraes, 1971). 

Para além da notória força da intérprete em cena, como atestam o canto dramático de “Atiraste uma pedra” (Herivelto Martins, 1958) e a abordagem potente de “Rosa dos ventos” (Chico Buarque, 1970), o show tinha vigor musical. O som dos atabaques em “Iansã” (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1972) resulta inebriante, assim como soa vibrante o arranjo do samba “A Bahia te espera” (Herivelto Martins e Chianca de Garcia, 1950). 

É um privilégio poder ver Bethânia sentada no meio do palco fazendo “Oração de Mãe Menininha” (Dorival Caymmi, 1972) ou, sentada na beira de uma escada, amansando o canto feroz para entrar no clima zen de “Baila comigo” (Rita Lee, 1980). 

Como provam as imagens do exuberante medley com marchas e sambas carnavalescos, número (não por acaso) aplaudido com entusiasmo pela plateia argentina, a cantora estava radiante nessa apresentação argentina de 24 de maio de 1984 e quem conhece Maria Bethânia sabe que mera mudança de humor no dia do show pode alterar a performance da artista no palco. 

Detalhe: foi no show “Nossos momentos” que o samba “O que é o que é” – apresentado pelo compositor Gonzaguinha (1945 – 1991) em álbum lançado naquele ano de 1982 – entrou nos roteiros de Maria Bethânia para quase nunca mais sair (do bis). 

E cabe lembrar que, no show “Nossos momentos”, Bethânia ofereceu uma das maiores e mais pungentes interpretações dos 60 anos de carreira ao dar voz a “Vida” (1980), música que Chico Buarque lançara dois anos antes. E, no que diz respeito aos textos, a récita do poema “Cântico negro” (José Régio, 1926), logo após “Vida”, também é digna de antologia. Esses momentos já tinham sido preservados no álbum ao vivo de 1982, mas nem por isso é menos prazeroso ver as imagens dos dois números. 

Enfim, ao longo de carreira que já completa 62 anos em 2026 (se posto na conta o início em 1964 com dois shows coletivos e um show solo em Salvador), Maria Bethânia vivenciou em cena “momentos de luz, de voz e de sonho”, como poetizou Caetano Veloso em versos de “Nossos momentos”, música que compôs para a irmã apresentar no show de 1982. 

Contudo, a imensidão e a intensidade do show dirigido por Bibi Ferreira ainda se agigantam na retrospectiva da carreira da intérprete no palco. Daí o imensurável valor documental do registro audiovisual desse show luminoso, ora disponível para o séquito de Maria Bethânia.

 

lunes, 5 de enero de 2026

2026 - GAL COSTA - Buenos Aires - Teatro Ópera 1985

 

g1

BLOG DO MAURO FERREIRA


Por Mauro Ferreira

Jornalista carioca que escreve sobre música desde 1987, com passagens em 'O Globo' e 'Bizz'. Faz um guia para todas as tribos

 

Gal Costa reverbera fase tropical entre rumbas e marchas de raro registro de show feito em Buenos Aires em 1985

Sucesso de Carmen Miranda, inédito na voz da cantora baiana, é o maior destaque do roteiro argentino.

04/01/2026


Gal Costa (1945 – 2022) em número de show apresentado em maio de 1985 no Teatro Ópera, em Buenos Aires — Foto: Reprodução


 - ANÁLISE 

O acervo da pesquisadora argentina Evangelina Maffei tem sido um bálsamo para seguidores de Caetano Veloso, Gal Costa (1945 – 2022) e Maria Bethânia pela difusão de informações e gravações raras desses artistas.

Organizadora do referencial blog “Caetano Veloso ...en detalle”, Maffei presenteou os admiradores de Gal no fim de 2025 com a publicação no YouTube, em caráter extraoficial, do registro integral do show apresentado pela cantora em 16 de maio de 1985, no Teatro Ópera, em Buenos Aires, capital da Argentina.

Na ocasião, Gal já encerrara a fase Tropical com a edição em 1984 do álbum “Profana”, o primeiro da artista na gravadora então denominada RCA – companhia na qual, cabe lembrar, Gal debutara no mercado fonográfico com single editado em 1965. No entanto, ecos dos repertórios dos álbuns “Gal tropical” (1979), “Fantasia” (1981) e “Minha voz” (1982) ecoam no roteiro do show da artista no Teatro Ópera entre marchas, sambas e rumbas.

Esse roteiro traz três músicas pouco ou nunca associadas a Gal. Pela ordem, a primeira é “Escandalosa” (Moacyr Silva e Djalma Esteves, 1947), rumba com a qual a cantora Emilinha Borba (1923 – 2005) animou muitos Carnavais na era do rádio. Gal nunca gravou “Escandalosa”, mas cantou a rumba no especial de TV “Baby Gal” (1983), possivelmente motivada pela gravação da “Rumba louca” (Moacyr Albuquerque e Tavinho Paes) no álbum também intitulado “Baby Gal”.

A segunda música, presumivelmente inédita na voz de Gal até esse show de 1985, é marcha “I, yi, yi, yi, yi (I like you very much)” (Harry Warren / Mack Gordon, 1941), sucesso da cantora Carmen Miranda (1909 – 1955) na fase vivida nos Estados Unidos.

Por fim, há o samba-enredo “O amanhã”, composto em 1977 por João Sérgio para a escola de samba União da Ilha do Governador desfilar no Carnaval de 1978. Hoje todo mundo pensa que foi Simone quem deu projeção ao samba-enredo fora da temporada carnavalesca, ao gravá-lo no álbum “Delírios, delícias...” (1983), mas, a rigor, Gal foi a primeira intérprete a cantar o samba com certa repercussão fora do universo da folia. “O amanhã” encerrava o roteiro do controvertido show “Fantasia”, apresentado por Gal em 1981 antes do lançamento do álbum homônimo. De todo modo, cabe registrar o pioneirismo de Elizeth Cardoso (1920 – 1990), cantora que registrou o samba-enredo “O amanhã” ainda em 1978 no álbum “A cantadeira do amor”.

No show em Buenos Aires, o encerramento foi com o samba “Meu nome é Gal”, ouvido em duelo da voz da cantora com a guitarra de Piska (1951 – 2011), em número que refez os embates musicais da cantora com os guitarristas Robertinho de Recife (no show “Gal tropical”, de 1979) e Victor Biglione (no dueto de especial de TV exibido em 1981). E que voz! O cristal de Gal estava tinindo nos anos 1980, década do auge vocal da cantora.

Enfim, enquanto o público espera (em vão?) pelas edições de álbuns com os áudios dos shows “Índia” (1973), “Cantar” (1974) e “Gal canta Caymmi” (1976), encontrados pelo pesquisador Rodrigo Faour em 2010 no acervo da gravadora Universal Music, o registro extraoficial dessa apresentação argentina da cantora em 1985, disponibilizado pela pesquisadora Evangelina Maffei, atenua a saudade de Gal Costa.