domingo, 22 de febrero de 2026

2026 - MARIA BETHÂNIA - Buenos Aires - Teatro Ópera 1984

 

g1

BLOG DO MAURO FERREIRA

 

Por Mauro Ferreira

Jornalista carioca que escreve sobre música desde 1987, com passagens em 'O Globo' e 'Bizz'. Faz um guia para todas as tribos


21 de fevereiro de 2026

Grande momento de Maria Bethânia em show de 1982 volta à cena em registro audiovisual feito na Argentina em 1984


Maria Bethânia no palco do Teatro Ópera, em Buenos Aires, em maio de 1984
Foto: Reprodução vídeo / Acervo Evangelina Maffei

ANÁLISE

♬ Em setembro de 1982, um ano antes de romper com a então já exaurida fórmula de bem-sucedidos álbuns como “Álibi” (1978) e se desviar da estética sonora da década de 1980 com o interiorizado e acústico álbum “Ciclo” (1983), Maria Bethânia rodou a saia e comandou os ventos em show orquestrado pela diretora Bibi Ferreira (1922 – 2019) – sob direção musical de Gilberto Gil – e intitulado “Nossos momentos”. 

Ainda em 1982, esse show gerou álbum com o áudio de 50 minutos do espetáculo e que se impôs como um dos mais calorosos títulos da discografia ao vivo da intérprete. Contudo, como a música brasileira ainda não vivia a era do audiovisual, o show “Nossos momentos” somente pôde ser ouvido por gerações posteriores de admiradores de Bethânia. 

Daí a grande importância documental do registro audiovisual disponibilizado pela pesquisadora musical argentina Evangelina Maffei neste mês de fevereiro de 2026. 

Incansável na difusão extraoficial de informações e gravações raras de Caetano Veloso, Gal Costa (1945 – 2022) e Maria Bethânia, Maffei traz à cena vídeo com a gravação ao vivo do show “Nossos momentos”, captado em 24 de maio de 1984 no Teatro Ópera, em Buenos Aires, para exibição em TV argentina. 

Em Buenos Aires, o show “Nossos momentos” foi apresentado em temporada intitulada “Maria Bethânia en concierto – La máxima do Brasil”. Bethânia foi para a Argentina com a banda do show, formada por Djalma Corrêa (percussão), Fernando Costa (baixo), José Maria Rocha (piano), Juarez Araújo (sopros), Juarez Moreira (violão), Ricardo Costa (bateria) e Túlio Mourão (teclados). Somente as vocalistas não viajaram para a Argentina. 

Durante quase 64 minutos, o registro audiovisual desta versão quase completa do show “Nossos momentos” mostra uma Bethânia elétrica e eletrizante, se movimentando com vivacidade pelo palco do Teatro Ópera. 

A intensidade do canto de “Carolina” (Chico Buarque, 1967) é uma das preciosidades ausentes no álbum ao vivo de 1982 que emergem no vídeo. Outras músicas presentes no registro audiovisual e limadas do LP, por falta de espaço, são “Bodas de prata” (Roberto Martins e Mario Rossi, 1945), “The archaic lonely star blues” (Jards Macalé e Duda Machado, 1970) – registrada por Bethânia em single de 1974 – e “Valsinha” (Chico Buarque e Vinicius de Moraes, 1971). 

Para além da notória força da intérprete em cena, como atestam o canto dramático de “Atiraste uma pedra” (Herivelto Martins, 1958) e a abordagem potente de “Rosa dos ventos” (Chico Buarque, 1970), o show tinha vigor musical. O som dos atabaques em “Iansã” (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1972) resulta inebriante, assim como soa vibrante o arranjo do samba “A Bahia te espera” (Herivelto Martins e Chianca de Garcia, 1950). 

É um privilégio poder ver Bethânia sentada no meio do palco fazendo “Oração de Mãe Menininha” (Dorival Caymmi, 1972) ou, sentada na beira de uma escada, amansando o canto feroz para entrar no clima zen de “Baila comigo” (Rita Lee, 1980). 

Como provam as imagens do exuberante medley com marchas e sambas carnavalescos, número (não por acaso) aplaudido com entusiasmo pela plateia argentina, a cantora estava radiante nessa apresentação argentina de 24 de maio de 1984 e quem conhece Maria Bethânia sabe que mera mudança de humor no dia do show pode alterar a performance da artista no palco. 

Detalhe: foi no show “Nossos momentos” que o samba “O que é o que é” – apresentado pelo compositor Gonzaguinha (1945 – 1991) em álbum lançado naquele ano de 1982 – entrou nos roteiros de Maria Bethânia para quase nunca mais sair (do bis). 

E cabe lembrar que, no show “Nossos momentos”, Bethânia ofereceu uma das maiores e mais pungentes interpretações dos 60 anos de carreira ao dar voz a “Vida” (1980), música que Chico Buarque lançara dois anos antes. E, no que diz respeito aos textos, a récita do poema “Cântico negro” (José Régio, 1926), logo após “Vida”, também é digna de antologia. Esses momentos já tinham sido preservados no álbum ao vivo de 1982, mas nem por isso é menos prazeroso ver as imagens dos dois números. 

Enfim, ao longo de carreira que já completa 62 anos em 2026 (se posto na conta o início em 1964 com dois shows coletivos e um show solo em Salvador), Maria Bethânia vivenciou em cena “momentos de luz, de voz e de sonho”, como poetizou Caetano Veloso em versos de “Nossos momentos”, música que compôs para a irmã apresentar no show de 1982. 

Contudo, a imensidão e a intensidade do show dirigido por Bibi Ferreira ainda se agigantam na retrospectiva da carreira da intérprete no palco. Daí o imensurável valor documental do registro audiovisual desse show luminoso, ora disponível para o séquito de Maria Bethânia.

 

sábado, 21 de febrero de 2026

2006 - WAGNER TISO - 60 Anos - Um Som Imaginário




Making Off do DVD Wagner Tiso, 60 Anos - Um Som Imaginário





























Wagner Tiso lança o DVD "Um Som Imaginário", que comemora seus 60 anos de idade. 

O trabalho é o registro do show realizado no Theatro Municipal e contou com a participação de Milton Nascimento, Gal Costa, Cauby Peixoto, Paulo Moura e muito outros artistas. 

Aqui, Wagner e seus convidados apresentam pérolas da música popular brasileira.




2 CD's




DVD






martes, 17 de febrero de 2026

2026 - ACERVO EVANGELINA MAFFEI - YouTube

 



















Sérgio Martins

Coluna quinzenal do jornalista e crítico Sérgio Martins com histórias da música 

Opinião 

Estes admiradores da música resgatam raridades da MPB - e as compartilham com o mundo

 

Sérgio Martins

Feb 16, 2026

 

Sempre fui um rato de biblioteca. Nos tempos em que cursei o primeiro grau no Auxiliadora da Instrução, colégio de Santos, minha cidade natal, meu passatempo era me enfurnar naquele universo de livros pelo menos três vezes por semana e retornar com uma preciosidade. Roseli, a responsável pelo lugar, me sugeria obras que, ao lado dos lançamentos da Editora Ática (Cabra das Rocas, O Caso da Borboleta Atíria, O Escaravelho do Diabo, as crônicas da série Para Gostar de Ler etc), me ajudaram a desenvolver o amor pela leitura e pela escrita. Suas indicações eram as obras-primas da literatura mundial e autores nacionais como José Mauro de Vasconcelos, Viriato Corrêa e Luís Jardim. 

Minha relação atual com as plataformas de streaming –em especial o YouTube– lembram muito as do meu tempo de frequentador de biblioteca. Por mais que conheça diferentes gêneros, grupos e intérpretes, há sempre uma Roseli a me apresentar um novo mundo. No caso, raridades que dificilmente poderia conhecer por conta própria (ou, se conhecesse, demoraria muito mais tempo do que deveria). A última Roseli que conheci foi a argentina Evangelina Maffei, admiradora de MPB, com foco para os artistas baianos. Ela, aliás, é conhecida dos leitores desse jornal. O repórter Danilo Casaletti publicou em novembro de 2023 uma matéria sobre Corta Essa, parceria de Caetano Veloso e Jards Macalé,que jamais foi gravada. Evangelina foi citada por ter feito menção à música pouco tempo antes da descoberta da letra.


Canais no YouTube têm recuperado materiais raros de artistas 

como Maria Bethânia - Foto: Júlia Pereira/Estadão



Acervo Evangelina Maffei, página da pesquisadora no YouTube, é uma pequena história da relação entre a nobreza da MPB (Música Popular Baiana) e o público argentino. Tem performances arrebatadoras de Maria Bethânia, Gal Costa, Simone e Caetano Veloso nos palcos do país na década de 1980. E que espetáculos: Bethânia se faz presente no show Meus Momentos, que traz a direção de Bibi Ferreira e músicos do calibre do tecladista e pianista Túlio Mourão e do percussionista Djalma Corrêa. Nos momentos finais, ressurge com o figurino e o cabelo que usava em 1965 e entrega uma versão estupenda de Carcará, lançada naquele ano. 

Gal Costa, estalando de beleza e técnica vocal, renasce numa performance de 1984, período em que administrou sucesso popular (era a época de Festa do Interior e Açaí) com standards do nosso cancioneiro – as versões de Dindi e Samba do Avião, presentes aqui, são magistrais. Bethânia ressurge ainda em outro momento lindo: assiste, embevecida, a homenagens feitas a ela por intérpretes do país de Astor Piazzolla. 

O canal Tonico Manoel traz à tona as pesquisas do carioca Manoel Filho. São 739 vídeos, de comerciais de rádios e TV a momentos raros protagonizados por João Gilberto (caso de um registro de Quem Dera, de Sidney Miller, datado de 1968), um show de Nana Caymmi de 1972 e trechos da derradeira apresentação de Elizeth Cardoso. Entre curiosidades e raridades (por exemplo, Emilinha Borba e Nora Ney cantando um jingle contra o Parlamentarismo, em 1962), há entrevistas feitas pelo próprio Manoel. A mais recente foi com o produtor e radialista Adelzon Alves, que impulsionou nada menos que as carreiras de Clara Nunes e do trio vocal Os Tincoãs (de onde saiu Mateus Aleluia, que recentemente foi redescoberto por músicos e jornalistas). 

O universo de Roselis traz, inclusive, especialistas num único assunto. Esqueleto Lavrador foi criado pelo DJ e pesquisador Pedro Fontes e tem como objetivo trazer à tona raridades de João Gilberto. Uma de suas descobertas são os áudios de duas apresentações do cantor e violonista baiano em San Francisco, no ano de 2003, e gravações de um especial na TV Tupi, em 1971, onde João canta ao lado de Caetano Veloso e Gal Costa. 

Hermeto Pascoal é o tema de bigfootpegrande (assim mesmo, tudo junto e em letras minúsculas) e coloca, para admiração geral de todos, discos dados como perdidos, trilhas sonoras e uma exibição de 2001, onde o “bruxo” é ancorado por uma das melhores formações de sua banda. 

Nunca estive a par do salário de Roseli, mas penso que o empenho em me apresentar ao mundo da literatura tenha mais a ver com o amor pela profissão do que por motivos financeiros. Os Roselis da música também o fazem pela alegria do compartilhamento. Evangelina diz não ganhar um tostão pelo material que publica, Manoel também não. Ele só mantém um grupo de whatsapp, onde cobra uma taxa irrisória para compartilhar pérolas de seu acervo e dar dicas musicais. O YouTube, ressalte-se, tem uma atitude impoluta no que se refere à proteção dos direitos de autores e intérpretes: tem uma ferramenta que identifica automaticamente músicas e vídeos protegidos, repassa os direitos autorais a artistas e herdeiros e pode bloquear o conteúdo caso um deles se sinta prejudicado. 

Eu com certeza encontraria meu caminho profissional sem Roseli. Mas a importância daquela bibliotecária foi muito além de apontar este ou aquele livro para a minha próxima leitura. Ela foi uma aula de amor pela profissão e de muita, muita paciência. Porque conseguem imaginar um adolescente “perguntão” três vezes por semana, pedindo dicas e soltando opiniões por algumas horas? Foi esse Sérgio que ela enfrentou. As Roselis da música, por sua vez, se tornam necessárias na formação de novos acólitos da arte e contribuem para nos lembrar o quão rico e diversificado somos musicalmente. Por mais pessoas assim em nossas vidas.


https://www.youtube.com/watch?v=t_YK7lYIh-I&t=209s