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domingo, 23 de julio de 2017

1983 - MELANCTHA - Revista CÓDIGO 8


Poema “Código”
Adotado por Erthos Albino de Souza como logotipo para a Revista Código [Salvador, Bahia]





1980
Revista Código 8
Erthos Albino de Souza [editor]
Salvador, Bahia




Caetano Veloso traduziu fragmentos de “Melanctha”, uma das histórias de Três Vidas (Gertrude Stein].                
                                                              



Gertrude Stein retratada por Pablo Picasso - Foto: The Metropolitan Museum of Art/Reuters


Caetano Veloso, ready-made de André Luyz Santos, poeta e programador visual












Republicado como apêndice a Três Vidas [Three Lives (1904-5)], na edição da Cosac Naify.



STEIN, Gertrude. Três vidas. Tradução Vanessa Barbara. Posfácio Flora Süssekind. Apêndice Caetano Veloso. São Paulo: Cosac Naify, 2008.



1975 - WILLIAM BLAKE - Revista CÓDIGO 2



1975
Revista Código 2
Erthos Albino de Souza [editor]
Salvador, Bahia


alguns provérbios do inferno de william blake
(de the marriage of heaven and hell)

tradução de antonio risério e caetano veloso






sábado, 22 de julio de 2017

1980 - A MULHER É O POETA - Revista CÓDIGO 4



1980
Revista Código 4
Agosto
Erthos Albino de Souza [editor]
Salvador, Bahia











A MULHER É O POETA

Entrevista de Caetano Veloso a Régis Bonvicino

Régis - John Lennon afirma, em “Lennon Remembers/The Rolling Stone Interviews”, que suas lyrics preferidas são as que “ficam em pé” sem melodia, as que funcionam, em última análise, como poemas no papel. Isso me lembra os trovadores galego-portugueses. Desconhecemos suas melodias e conhecemos apenas suas lyrics, que, mesmo sem som, funcionam à maravilha como poemas no papel. Você toparia usar esse critério em relação às suas letras? Quais as suas preferidas? Por quê?
Caetano - Não, esse critério, na verdade, é praticamente o oposto do meu, porque o que me interessa é a palavra cantada.
Talvez tenha sido esse o caminho que levou os trovadores provençais, os galego-portugueses, a fazerem poemas que terminaram sendo bonitos mesmo sem as melodias. Talvez, tenha sido esse o caminho, esse lance de ter a palavra já com o som musical.
Acho que o critério de John Lennon pode ser mais ou menos esse, mas não sei se, de fato, é esse, se corresponde à própria realidade poética dele.
Não sei, pode ser que, a posteriori, depois de muito tempo, a gente possa ler uma letra sem música e achar um barato.
Penso que Lennon, quando fez aquela afirmação, queria dizer que ele estava mais vinculado ao texto, entendeu? Ele cita, se não me engano, “Across the Universe”, que considera um poema lindíssimo mesmo sem a música, mas quando fala do que acha ser a grande poesia do rock and roll, lembra imediatamente de Chuck Berry e de algumas coisas de Little Richard. Ele fala de coisas que você sabe que são maravilhosas porque são aqueles rocks e ele achou tudo incrível, importantíssimo sem ter lido antes no papel.
Sobre as minhas letras, não sei dizer as de que mais gosto, depende da época. Por exemplo, tomei um susto outro dia porque ultimamente não tenho escrito minhas letras. Das do LP CINEMA TRANSCENDENTAL apenas uma escrevi parcialmente no papel antes da música, foi “Oração ao Tempo”. Escrevi umas estrofes e bolei, em seguida, uma melodia para a primeira estrofe. Depois, resolvi repetir essa melodia para o resto do texto, queria tudo com a mesma métrica, o mesmo ritmo. Foi a única, portanto, que eu escrevi no papel.
O jornal ENFIM, do Tarso de Castro, pediu pra eu mandar letras inéditas, antes do disco sair, pra publicar. Entreguei “Lua de São Jorge”, “Oração ao tempo” e “Menino do rio”. A que mais curtia era “Lua de São Jorge”. Bati à máquina e não prestei muita atenção. Mandei pro jornal, que editou só as duas últimas.
Acho a letra de “Menino do Rio”, quando canto, deslumbrante, adoro aquele verso “O Havaí seja aqui”, que tem um som afro. Agora, quando eu vi no jornal, escrita, achei uma coisa débil mental, tola. E ela não é tola, pelo contrário, é muito bonita quando cantada! “Oração ao Tempo”, por outro lado, segurava mais, podia ser lida.
A palavra cantada é, em suma, outro tipo de matéria-prima, que tem a ver com a palavra escrita e com a falada, mas que não se reduz a nenhuma delas. A palavra cantada funciona, talvez, como síntese das outras duas, tem desempenhado, pelo menos, essa função, porque toda a curtição da palavra em estado de poesia tem sido muito mais intensa na área de música popular do que nas demais.
Talvez, esse fenômeno decorra, um pouco, do cansaço do visual, da comunicação visual, da leitura. O fim dos anos 1960, os papos de McLuhan talvez tenham sido uma notícia desse cansaço. O olho dançou. O ouvido é uma coisa mais envolvente, mais participante. O som chega de todos os lados, entra em todos os poros.
Pode ser que esse cansaço seja apenas passageiro. As coisas vão e vêm. Não creio nessa caminhada para a frente, como se pudesse haver um progresso. Não compartilho dessa ideia ocidental de progresso linear.

Régis - Embora os circuitos de produção da poesia-música e da poesia-papel sejam diversos, e até mesmo antagônicos (a primeira está vinculada às relações de troca, de compra e venda, e a segunda não), você me disse pouco tempo atrás que não distinguia entre uma canção de Jorge Ben e um poema de Augusto de Campos, que ambos eram biscoitos finos para o seu paladar. Gostaria que falasse um pouco mais sobre isso.
Caetano - Há uma coisa na pergunta que está um pouco em falso, isso de que a poesia-música está vinculada às relações de troca e a poesia-papel não. Não é verdade. Acho que ambas são produtos, sendo que, no momento, como produto de venda, a poesia-canção está muito mais bem-sucedida. A questão é de mercado. A diferença entre uma e outra não é de circuito, mas de nível de intensidade na produção e no consumo. Não há diversidade e antagonismo. Na verdade, ambas são iguais, estão no mesmo planeta. Os livros podem ser vendidos, poesia é pra vender, como o disco. Só que a poesia escrita não está fazendo sucesso, dos anos 1950 para cá, não só no Brasil como no mundo todo.
Você diz que a poesia-papel não tem existência real, certo? Não, ela tem. Sejamos modernos, o que ocorre é que ela está em crise de mercado.
Não sei por que isso acontece, talvez seja uma questão da história das línguas ocidentais, um momento no swing interno dessas línguas. O fenômeno, como eu disse, é planetário, não existe mais o interesse que havia em termos de consumo e em termos de feitura. Há pouca gente fazendo uma poesia responsavelmente poética, com uma vinculação ao que há de grandioso na história da poesia e, por outro lado, pouca gente compra qualquer poesia escrita, entendeu?
Ultimamente, há bastante gente fazendo muita poesia, mas sem força, com uma animação vazia, ninguém sabe se desse contexto pode sair um lance quente.
Acho que a diferença que você coloca na pergunta não é precisa. Agora, pessoalmente, não costumo distinguir as coisas, não separo música popular de música erudita etc. Não carrego comigo a ideia de nobreza do material, detesto isso. Cientificamente, você pode isolar as diversas manifestações artísticas, mas creio que esse tipo de olho dançou, não corresponde mais à realidade viva.

Régis - Queria que você falasse sobre música popular. Por que ela é tão forte no Brasil?
Caetano - A música popular brasileira é, em todos os sentidos, abundante. É a única manifestação, no Brasil, que não é carente. Na verdade, é uma aberração dentro da sociedade brasileira, é diferente, em nenhum país do mundo ela tem a importância que tem aqui.
A música popular sempre se mantém, sempre consegue agenciar recursos pra ficar forte, o que não ocorre com a poesia escrita, com o cinema, com o teatro. Ela une o pique nacional, tem a vocação de expressar o país.
Só pintou uma geração como a minha, com Jorge Ben, Gil, Chico, Paulinho da Viola, porque já havia outras pessoas fortes.
Nem nos Estados Unidos a música popular é tão forte como aqui porque lá as outras coisas são, também, fortes. Lá eles têm grana, comida, carro, a grama, como diz Leminski, é bacana. O brasileiro é muito pobre, não consegue fazer nada, não consegue se ajuntar pra fazer nada, mas, dentro desse caos, a música popular funciona. Ela é a expressão filosófica do país. É muito mais importante que todos os universitários de todas as épocas que já escreveram todas as coisas complicadas. Ela é uma expressão mais totalizante do Brasil, mais direta, não transa com materiais nobres porque o Brasil não é um país nobre.
Creio que os poetas-papel estão, de modo geral, mais vinculados a uma tradição europeia, e a música popular é uma coisa mais vinculada à América; quando ela pintou, já existia a América. Ela é meio parecida, nesse sentido, com o cinema e, ao mesmo tempo, é música porque é uma coisa antiquíssima.

Régis - Seria o cinema transcendental…
Caetano - Claro, exatamente isso…

Régis - Aproveitando o pique, gostaria que você falasse sobre o lendário ARAÇÁ AZUL.
Caetano - ARAÇÁ AZUL não é classe A, “xingu chic”, como por exemplo as coisas que Egberto Gismonti vem fazendo. É outra coisa, não é “xingu chic”. Eu sou mais Oswald de Andrade que Mário de Andrade ou Academia Brasileira de Bossas.
Acho, até hoje, o ARAÇÁ AZUL maravilhoso, faço, inclusive, uma referência a ele na canção “Aracaju”, que está em meu último LP.
Quis fazer esse disco sozinho para poder desinibir no estúdio, pois, pra mim, estúdio de gravação é uma coisa muito inibidora.
Ficamos eu e o técnico de som, Marcus Vinícius, trabalhando. Depois, chamei várias pessoas, como Duprat, Perna, Lanny, para complementarem em cima do que eu havia feito. Adoro o resultado, principalmente aquele lance de conversa, de vozes superpostas com percussão corporal, com percussão na pele.
Mas o som ficou chapado, eu não manjava de estúdio. Hoje, se eu tivesse de fazer de novo, faria com mais profundidade e nuance no colorido dos sons. Mas não tenho, agora, vontade de fazer mais aquilo. Mesmo porque, naquela altura, quando acabei de lançar o ARAÇÁ, saiu o disco BEN, de Jorge Ben, também de 1972, com “As Rosas Eram Todas Amarelas”, “Quem Cochicha o Rabo Espicha”, “Taj Mahal”, “Fio Maravilha”, um trabalho monumentalmente genial.
Então, eu pensava comigo, puxa, fiz o ARAÇÁ e parece que sou um ARTISTA. Fiquei com raiva, meu Deus, eu fiz essa coisa tão louca e todo mundo vai achar que é um disco intelectualmente elevado, importante, enquanto, na verdade, o grande disco é o de Jorge Ben, incomparavelmente superior. O meu era uma brincadeira, fiquei com raiva do tipo de respeito que ele causou. O ARAÇÁ eu fiz em uma semana, não era o meu trabalho mais elaborado, como dizia parte da crítica. Fiquei com raiva, pois o grande lance era e é Jorge Ben.

Régis - Para a minha geração, “a fala”, o fascínio pelo coloquial, pelo oral, pelas possibilidades de comunicação que existem no oral, têm a mesma importância que a incorporação do visual tinha para os poetas aglutinados em torno da Poesia Concreta. Nesse sentido, sua poesia, a de Gil, são tão ou mais importantes pra gente do que a de Drummond, Cabral, Augusto, Décio. Como você vê isso?
Caetano -  E Chico Buarque?

Régis - Antes de você responder, quero explicar por que não citei Chico. Acho a poesia dele, com exceção do lado mulher, tipo “Folhetim”, velha, um lirismo dos anos 1950, picadinho de Vinicius, Drummond, Bandeira. Penso que lhe falta um lado mais elétrico. Ele tem muito essa coisa do bom brasileiro, que é chatíssima.
Caetano - Acho natural sua geração gostar mais da gente do que dos poetas-papel, para usar essa expressão que você inventou. É um lance bem da nossa época. Isso faz de vocês pessoas iguais a todo mundo, o que é ótimo.
Acho também fascinante que o pessoal da poesia escrita fique ligado nos músicos populares.
Agora, voltando àquela primeira pergunta, quando você cita a frase do Lennon, você vê bem ali que existe uma inter-relação entre a gente e os poetas. No fundo, somos iguais. Por acaso, por sorte descambamos para a música popular. Mas veja, nós também somos ligados ao mundo das letras escritas, das ideias.
Todo esse pessoal estudou, Dylan só fala em William Blake, Lennon em Lewis Carroll, dizendo, inclusive, que quando leu Joyce se identificou bastante.
Quero dizer que não concordo com o que você falou sobre Chico Buarque. Ele tem tudo o que você falou, mas é maravilhoso. Ele anda para a frente arrastando a tradição, isso é bem do signo dele, que é Gêmeos.
Chico escreve de um jeito maravilhoso, o lance da palavra cantada atinge, no trabalho dele, os pontos mais altos, chega à perfeição, entendeu? Mas, de fato, ele tem mesmo essa coisa do bom brasileiro. Eu, por exemplo, me sinto um sueco no Brasil.
Mas acho Chico deslumbrante, ele é o supervinicius, o superdrummond, o superbandeira com a espontaneidade de Dorival Caymmi. A palavra cantada, nele, tem uma fluidez incrível.
E você sabe que considero Caymmi o maior, a mãe da palavra cantada, um gênio.

Régis - Você, um poeta-músico, próximo dos pretos, próximo da poesia-papel, acredita no futuro desta última ou pensa que se Maiakovski, por exemplo, estivesse vivo trocaria o papel pela guitarra, mudaria de Moscou para Londres ou Nova York ou Salvador e cantaria: “Well, I’m gonna China to see for myself/ Gonna China, gonna China/ Just got to give me some rock and roll”?
Caetano - Acho que tem futuro. A própria coisa de a poesia escrita deixar de ser cursiva e entrar para um outro nível de informação é um fato que aponta para certas necessidades do homem que, a qualquer momento, podem explodir de novo. Como eu disse, tudo é cíclico, a respiração não para, de repente pode voltar a haver procura genuína de poesia-papel. Repito, o que acontece é que ela hoje está em crise de mercado. No futuro, sei lá, pode ser que as pessoas voltem a sentir necessidade de ler, de pegar um lápis e papel e escrever.
A poesia escrita que se faz hoje pode estar apontando para rumos que, embora desconhecidos, poderão vingar, explodir. Ninguém sabe ao certo.
Agora, essa imagem que você montou do Maiakovski cantando “I’m gonna China” é perfeita.

Régis - Não sei, sempre imaginei o John Lennon como uma reencarnação pop do Maiakovski, ambos são, para mim, poetas guerreiros, impetuosos, bardos, não sei, pode ser um delírio…
Caetano - Não, essa história é linda, Maiakovski era bastante pop mesmo. Agora, Lennon é o de quem mais gosto do pessoal do rock. É o meu favorito porque eu adoro os Beatles. Eu gosto mais dos Beatles juntos. Depois de separados, o único disco que eu acho genial é o DREAM IS OVER do John, adoro as letras e as músicas.

Régis - Esse disco que você acabou de citar, de 1970, foi acusado, na época em que saiu, do mesmo modo que MUITO e CINEMA TRANSCENDENTAL agora, de ser musicalmente ralo, de ter arranjos pobres, de ser uma coisa de fundo de quintal.
Caetano - Pra você ver, e é um clássico, né? Mas voltando, Paul McCartney também é legal, ele é geminiano, como o Chico Buarque. Ele carrega também a tradição, une o habitual ao que está sendo proposto. John, às vezes, fica chato, quando começa a inventar muito, como, por exemplo, naquela canção que fez pra Yoko, “I want you (She’s so heavy)”. Mas Lennon é o meu favorito.
Por exemplo, Bob Dylan, eu demorei muito para gostar, eu achava aquilo tudo muito comprido, retórico, prolixo, metafórico. A coisa dele é difícil de entender e eu preferia letras sintéticas, não curtia letra longa, mas fiquei gostando muito, hoje em dia eu gosto muito. Ele é um cantor maravilhoso, parece o Pato Donald com consciência social, como disse Paulo Francis, citando um americano. Dylan, sim, faz uma poesia meio declamada porque ele vem dessa linha do canto falado do folk blues.

Régis - E Jimi Hendrix?
Caetano - Eu estava em Londres quando ele morreu. Ele morreu até perto da casa onde a gente morava. Até hoje, acho ele maravilhoso. No Festival Pop da Ilha de Wight, eu estava próximo do palco e Hendrix tocou uma série de números novos, não causou aquele frisson esperado, embora ele tenha sido bem recebido. Aí, de repente, ele parou e falou: “Vocês querem todas aquelas coisas velhas?”. Eu, que estava perto, gritei: - “Todas elas”. Ele virou e piscou o olho pra mim.

Régis - Então você foi abençoado por um dos deuses de lá…
Caetano - Hendrix era lindo, sexy, parecia um garotinho da Balua. Era sorridente, tinha a cara leve, não tinha aquele aspecto barra-pesada de capa de disco, aquilo era marketing errado.

São Paulo, 5 de dez de 79




martes, 17 de enero de 2017

1982 - TABU

































Data de lançamento: 10/3/1983


Ficha Técnica:

DIREÇÃO, ROTEIRO E PRODUÇÃO

JÚLIO BRESSANE

FOTOGRAFIA

MURILO SALLES

THANK TO WALY SALOMÃO

FIGURINOS

VERA BARRETO LEITE

MAQUIAGEM

JACQUES MONTEIRO

PROPS POÉTICOS

LUCIANO FIGUEIREDO

ASSISTENCIA DE DIREÇÃO

            LUCIANO FIGUEIREDO

GUARACI RODRIGUES

ASSISTENCIA DE FOTOGRAFIA

            CESAR ELIAS

LUIS CARLOS VELHO

MONTAGEM

            LEOVIGILDO CORDEIRO [Radar]

PRODUÇÃO

            SILVIO LANNA

            ADRIANA COSTA SANTOS

DORA AZEVEDO MARQUES

SOM

GUARACI RODRIGUES [Guará] E DUDI GUPPER

FOTOS DE CENA

            LITA CERQUEIRA

ANA LUCIA SETTE

APRESENTAÇÃO LETREIROS, PIPA

            OSCAR RAMOS

FOTOGRAFIA DA APRESENTAÇÃO

         CESAR ELIAS

COMPANHIA PRODUTORA

            JÚLIO BRESSANE PRODUÇÕES CINEMATOGRÁFICAS




CAETANO VELOSO / Lamartine Babo

JOSÉ LEWGOY / João do Rio

COLÉ SANTANA / Oswald de Andrade



COM

NORMA BENGELL / Madame Xavier

CLÁUDIA O'REILLY / Isadora Duncan

DEDÉ VELOSO / Colombina

MÁRIO GOMES / Francisco Alves

SÔNIA DIAS

ARNALDO BRANDÃO / Mario Reis

DANIELA MONTEIRO

SANDRO SOLVIATI SIQUEIRA / Ator

GEORGIANA DE MORAIS

SUZANA DE MORAIS

LUCIANA DE MORAIS

TANDE BRESSANE

MARCO BRESSANE

MARCOS SOARES 

ROSA DIAS

ALDIRA ALVES DOS SANTOS

ARMANDINHO MACEDO

MARIANA DE MORAIS

ANTÔNIO CICERO

MARIA MONTEIRO

URSULA WESTMACOTT

CHRISTOPHER CROCKER

SHIRLEY ALVES / Marlene

LIGIA DURAND / Pirata

ETHEL ALVARENGA

GUILHERME ARAÚJO






Com caráter experimental, o filme propõe uma abordagem original do encontro poético e imaginário de Oswald de Andrade e Lamartine Babo, promovido pelo cronista João do Rio. De quebra, a presença de Isadora Duncan, Jacob do Bandolim, Manuel Bandeira, Chico Alves, Mário Reis.

Na pauta, os encontros da poesia, o carnaval, as charadas. Conversas, músicas e passeios pelo Rio, intercaladas à cenas do “Tabu” original (Murnau, 1930) e de antigos filmes pornográficos.

Como princípio narrativo, o longa dirigido por Julio Bressane parte da junção de três elementos: imagem, fala e música. No elenco, a trama reúne nome como Jose Lewgoy e Caetano Veloso. O cantor vive o compositor Lamartine Babo.

O drama conquistou os prêmios de Melhor filme, Melhor fotografia (Murilo Salles) e Melhor técnico de som (Guaracy Rodrigues e Dudi Gupper) no 15° Festival de Brasília. O diretor Julio Bressane recebeu o Prêmio APCA de Melhor argumento.

A Associação Mineira dos Críticos Cinematográficos concedeu ao filme o Prêmio Especial da Crítica, Prêmio de Melhor Fotografia (Murilo Salles), Prêmio de Melhor Trilha Sonora e Prêmio de Melhor Montagem (Leovigildo Cordeiro).






 






Arnaldo Brandão




Caetano Veloso e Antônio Cícero - Foto: Marta Braga


Foto: Lita Cerqueira



Dedé Veloso









 













Contracampo
revista de cinema

[Edição 45 da revista eletrônica de cinema]

Tabu, um disco de vinil visual


Estevão Garcia






Um índio anuncia com uma trombeta mágica (no Tabu de Murnau) o caos que tomará conta da Terra, ou da tela. Árvores balançam solenemente ao som de canários. Sentimos a união do movimento com o cantar dos pássaros até que da banda sonora surge a música de Lamartine Babo simultaneamente com o aumento da velocidade das imagens. A imagem torna-se irreconhecível, as árvores se fundiram em uma coisa só, o começo do começo foi implantado através da vertigem do mundo. O mundo está confuso e desconexo, percebemos o ritmo da tontura e do desequilíbrio. Tudo está torto e prestes a cair. Um céu abstrato rodopia entre copas de árvores e depois se dirige ao caule e à um emaranhado de pontos assanhados, uma imagem que lembra os mitos de origem, a origem de tudo, o começo dos tempos e assim se inicia Tabu. 

Todo começo é absoluto e pode ocorrer arbitrariamente. O começo é como um parto, involuntário.Tabu investiga, examina e especula a luz. A luz poética e criadora. A luz, tida como fundamento do cinema, coexiste com a luz como princípio da vida. Aliás, vida e cinema são para Bressane indissociáveis pois como ele mesmo afirma, o cinema é uma potente ferramenta para a busca da autotransformação. Ele é um precioso instrumento que o possibilita se afastar da tendência natural à mediocridade.Não que o homem carregue em seu código genético o gérmen da mediocridade mas sim que o sistema onde ele está inserido faz de tudo através de seus terríveis mecanismos para que ele seja medíocre.

Assim como a luz, a sombra também é importante e fundamental. As primeiras imagens do filme são sombras de um par de mãos. Uma delas aponta para a sombra de uma bananeira. Vemos a atuação dessas sombras ouvindo um barulho semelhante ao som emitido por um projetor antigo.O cinema também é um jogo de sombras. A última sombra-mão acaricia um chão-penumbra ambíguo, que pode ser um corpo nu de uma mulher. A luz seria o sublime êxtase e a sombra,os seres que estão aqui para desfruta-lo.

A última sombra da entrada do filme reproduz decorações de Carnaval, o que anuncia a temática da obra: as manifestações culturais e as raízes brasileiras. Como um químico, Bressane selecionou substâncias distintas e agrupou-as em um mesmo tubo de ensaio para transformá-las em uma só. Ao mesclar imagens cinematografadas pelo Major Reis com imagens do Tabu de Murnau, o autor proporcionou uma só idéia, uma só construção e conseqüentemente uma só imagem.Os índios pulam, dançam, tocam percussão, tomam banho de cachoeira e promovem um carnaval antropofágico. Sentimos o embalo do rebolar das lindas índias ouvindo as alegres canções de Lamartine Babo.

O autor além de ser um cine-químico também se revelou ser um cine-cicerone ao promover o encontro imaginário de dois signos da cultura brasileira. O encontro de Oswald de Andrade com Lamartine Babo promovido por João do Rio. A mistura sensorial do imaginário desses dois símbolos provoca a atmosfera desse filme- album. Outras figuras da época são também reunidas para formar o grupo de andarilhos que circulam pelas escadarias da Lapa. São chamados Chico Alves e Mário Reis. Manuel Bandeira é citado por João do Rio quando este declama: " Meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá" e aparece depois na cena do botequim. Ouvindo chorinho e tomando cerveja ele expõe a sua teoria do poeta sórdido. João do Rio também conta para Oswald a trajetória de Lima Barreto (alusão a Lima Barreto,uma trajetória, primeiro filme de Bressane).

Essas figuras estão entrelaçadas porque fazem parte do mesmo album : a cultura brasileira. A nossa cultura se relaciona com as outras, Oswald compara o nosso carnaval com a Grécia e cita o nome de alguns poetas na conversa com Lamartine."Lamartine, você é melhor que o Breton e muito melhor que o Aragon, você é mais experimental que Apollinaire".Nota-se que o popular Larmatine é comparado à autores de vanguarda. Em uma outra situação, Oswald diz "você é o James Joyce brasileiro, que tal, achas pouco?" e Larmatine numa atitude de escracho se auto esculacha respondendo"James joça".

A resposta do cantor apresenta um procedimento similar aos das chanchadas quando essas se relacionavam com a cultura do chamado primeiro mundo através de parodias. Se o nosso cinema nunca poderá se igualar ao norte-americano em níveis técnicos econômicos só nos resta utilizar essa "inferioridade" a nosso favor pela via da avacalhação. Pegando exemplares norte-americanos e passando-os pelo filtro do escracho a chanchada carioca produziu filmes que ressaltaram essa diferença. A diferença econômica que os colocam na condição de colonizadores culturais e nós na de colonizados. Se lá o protagonista de Sanssão e Dalila transita por um suntuoso cenário Hollywoodiano, aqui Oscarito em Nem Sanssão nem Dalila faz a festa em um castelo de papelão em Jacarepaguá.

Bressane penetra nesse universo metacriticamente como fez em O rei do baralho utilizando o próprio Grande Otelo como protagonista e filmando nos mesmos estúdios da cinédia. Otelo contracenava com Marta Anderson que encarnava um outro símbolo do período: a vedete. Para completar surgia de dentro dos toscos cenários o memorável Wilson Gray. Aqui outros dois grandes ícones da chanchada são utilizados, Jose Lewgoy e Cole nos papeis de João do Rio e Oswald de Andrade respectivamente. Pecas-chaves juntamente com Caetano Veloso que significa Larmatine Babo nesse álbum, nesse grande disco de vinil visual que é Tabu. 

Disco de vinil visual porque aqui musica vira imagem e imagem vira música. A musica não é mais um elemento decorativo que floreia e ornamenta a cena, ela é a cena. Ela é o fio narrativo condutor. A musica ultrapassa o seu limite e se entranha na imagem tornando-se imagem. A escolha das musicas-faixas requer uma percepção sensível do tempo musical. Da mesma forma que o olho da câmera executa notas visuais, recortando diferentes detalhes em uma mesma tomada, o evento musical é retomado ao longo do filme em tamanhos diferentes. Existe o plano detalhe e o plano geral musical, ou seja, a musica que focaliza a partícula e o cosmos. A câmera é um instrumento musical.Notas são planos. Escalas são seqüências. A melodia é película. E toda vez que colocamos esse filme-album na vitrola-tela participamos de uma agradável experiência.







LAMARTINE de AZEREDO BABO 
Nasceu no dia 10 de janeiro de 1904, na cidade do Rio de Janeiro e faleceu em 16 de junho de 1963




CAETANO VELOSO CANTA 
MARCHINHAS DE CARNAVAL




 
AURORA 
Compositores: Roberto Roberti e Mário Lago
1940 - Editorial Mangione 
Marcha 

Se você fosse sincera
Ô - ô - ô - ô
Aurora
Veja só que bom que era
Ô - ô - ô - ô
Aurora

Um lindo apartamento
Com porteiro e elevador
E ar refrigerado
Para os dias de calor
Madame antes do nome
Você teria agora

Ô - ô - ô - ô
Aurora






 
MEU BROTINHO 
Compositores: Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira 
Marcha 
1950 

Ai, ai, brotinho
Não cresça meu brotinho
E nem murche como a flor
Ai, ai, brotinho
Que eu sou um galho velho
Mas quero o teu amor

Meu brotinho
Por favor, não cresça
Por favor, não cresça
Já é grande o cipoal
Veja só que galharia seca
Ta pegando fogo neste carnaval
Ai, ai, brotinho

Não cresça meu brotinho
E nem murche como a flor
Ai, ai, brotinho
Que eu sou um galho velho
Mas quero o teu amor








 
LINDA MORENA 
Compositor: Lamartine Babo
1933 

Linda morena, morena
Morena que me faz penar
A lua cheia que tanto brilha
Não brilha tanto quanto o teu olhar

Tu és morena uma ótima pequena
Não há branco que não perca até o juízo
Onde tu passas
Sai às vezes bofetão
Toda gente faz questão
Do teu sorriso

Teu coração é uma espécie de pensão
De pensão familiar à beira-mar
Oh! Moreninha, não alugues tudo não
Deixe ao menos o porão pra eu morar

Por tua causa já se faz revolução
Vai haver transformação na cor da lua
Antigamente a mulata era a rainha
Desta vez, ó moreninha, a taça é tua






UMA ANDORINHA SÓ NÃO FAZ VERÃO
Compositor: João De Barro (Braguinha) e Lamartine Babo

Intérprete: Lamartine Babo

Vem moreninha
Vem tentação
Não andes assim tão sozinha
Que uma andorinha não faz verão

Dizem morena
Que teu olhar
Tem correntes de luz que faz secar
O povo anda dizendo
Que essa luz do teu olhar
A Light vai mandar cortar

Vem moreninha
Vem tentação
Não andes assim tão sozinha
Que uma andorinha não faz verão

Vem, meu amor, deixa de medo
O amor é una espécie de brinquedo
Se acaso terminar o nosso sonho
À luz do dia
Eu rasgo a mina fantasia






ISTO É LÁ COM SANTO ANTÔNIO
Compositor: Lamartine Babo
Marcha
1934

Eu pedi numa oração / Ao querido São João
Que me desse um matrimônio / São João disse que não!
São João disse que não! / Isto é lá com Santo Antônio!
Eu pedi numa oração / Ao querido São João
Que me desse um matrimônio / Matrimônio! Matrimônio!
Isto é lá com Santo Antônio!

Implorei a São João / Desse ao menos um cartão
Que eu levava a Santo Antônio / São João ficou zangado
São João só dá cartão / Com direito a batizado
Implorei a São João / Desse ao menos um cartão
Que eu levava a Santo Antônio / Matrimônio! Matrimônio!
Isso é lá com Santo Antônio!

São João não me atendendo / A São Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso / Disse o velho num sorriso:
Minha gente, eu sou chaveiro! / Nunca fui casamenteiro!
São João não me atendendo / A São Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso / Matrimônio! Matrimônio!
Isso é lá com Santo Antônio








O FIM DO FILME



 



 

O TEU CABELO NÃO NEGA

Compositores: Raul Valença, João Valença e Lamartine Babo

Marchinha
1931

Intérprete: CASTRO BARBOSA (Joaquim Silvério de Castro Barbosa, 1905/1975)

 O teu cabelo não nega mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega mulata
Mulata eu quero o teu amor

Tens um sabor bem do Brasil
Tens a alma cor de anil
Mulata mulatinha meu amor
Fui nomeado teu tenente interventor

Quem te inventou meu pancadão
Teve uma consagração
A lua te invejando faz careta
Porque mulata tu não és deste planeta

Quando meu bem vieste à terra
Portugal declarou guerra
A concorrência então foi colossal
Vasco da Gama contra o batalhão naval






1983
Revista CÓDIGO 8
Erthos Albino de Souza [Editor]

Salvador, Bahia
 



Fotos LITA CERQUEIRA