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miércoles, 7 de septiembre de 2022

2022 - EMANOEL ARAÚJO

 

15/11/1940, Santo Amaro da Purificação – 7/9/2022, São Paulo. 

 

“No dia da Independência do Brasil, acordo para uma notícia que me entristece profundamente. Morreu meu amigo, colega do ginásio, companheiro de adolescência, conterrâneo santamarense, xará, mestre e discípulo Emanoel Araújo. A porta da minha casa em Salvador é guardada por um totem dele, abstrato e sagrado. Além da obra pessoal, devemos a Emanoel a revitalização da Pinacoteca e a criação do Museu Afro-Brasil. Esteve e estará sempre vivo em mim meu amor por ele.” 

7/9/2022, Caetano Veloso / Instagram-Facebook





2019 - Emanoel Araújo com Caetano Veloso e Heitor Reis em
sua casa em São Paulo
 - Foto: Acervo Pessoal 




"Emanoel Araújo, um dos meus mais queridos colegas de ginásio, é uma das figuras mais importantes da minha formação pessoal. Da convivência no ginásio, em Santo Amaro ateliê na Ladeira de Santa Tereza, em Salvador, depois a casa do Desterro, também na Bahia, e finalmente, em São Paulo, onde ele, tendo levado o prestígio que suas gravuras e esculturas lhe propiciaram, deu vida à Pinacoteca e, mais tarde, criou o Museu Afro Brasil. Ali, não faz muito tempo, Emanoel me acompanhou na visita a uma exposição apaixonante. Emanoel agora faz 80 anos! Isto significa muito para Santo Amaro, para a cultura brasileira, para a formação negra do Brasil, para o Brasil como um todo”.

 

Caetano Veloso, cantor e compositor (15/11/2020)











1964 - Emanoel Araújo em Salvador



















viernes, 17 de mayo de 2019

2019 - "A CIDADE DA BAHIA, DAS BAIANAS E DOS BAIANOS TAMBÉM"




Mostra: "A cidade da Bahia, das baianas e dos baianos também"
Curadoria: Emanoel Araújo
Abertura: 07 de maio, terça-feira, às 19 horas
Período expositivo: de 08 de maio a 1° de setembro de 2019
Museu Afro Brasil: Av. Pedro Álvares Cabral, s/n, Parque Ibirapuera, São Paulo



Crédito: Roberta Navas



1959 - Caetano Veloso, seus pais e Emanoel Araújo, Santo Amaro


14/5/2919 - Emanoel Araújo e Caetano Veloso, S. Paulo - Crédito: Facebook




Emanoel Alves de Araújo (Santo Amaro da Purificação/BA, 15/11/1940)


Wilton Bernardo: Escultor, desenhista, ilustrador, figurinista, gravador, cenógrafo, pintor, curador e museólogo. Eu pesquisei sobre você e vi todas essas atividades relacionada a sua atuação profissional. Eu queria que você falasse sobre essa versatilidade.

Emanoel Araújo: Eu acho que é uma trajetória de tanto tempo… 50 anos, então você vai experimentando coisas e ai termina sendo designado por tudo isso mas na realidade eu sou mesmo é um escultor e por acaso um gestor cultural. O “por acaso” é porque pintou no meu caminho essa oportunidade de gestão cultural. Eu achei interessante, abracei a possibilidade de fazer esse tipo de trabalho até como compromisso político de contribuição para a sociedade brasileira e para a cultura para o Brasil.

Wilton Bernardo: Sua primeira exposição aconteceu em 1959. Onde aconteceu? Santo Amaro ou Salvador? O que você apresentou?
Emanoel Araújo: Aconteceu em Santo Amaro. Uma delas foi no colégio em que eu estudava, no Centro Educacional Teodoro Sampaio. Outra foi na Biblioteca Pública de Santo Amaro. A exposição no Colégio Teodoro Sampaio, fiz com Caetano Veloso que também naquela época era pintor. Eu apresentei uma série de guaches abstratos e Caetano apresentou paisagens de Santo Amaro. Então.daí, fui pra a segunda exposição na Biblioteca. Mas era uma coisa amadora que não tinha nenhuma relevância a não ser a possibilidade de uma carreira que se apresentava mas estava longe de ser algo significativo.

Wilton Bernardo: Mas já era um norte no sentido de um interesse não é?
Emanoel Araújo: Sim. Era… tanto que Caetano virou músico e eu fui fazer Belas Artes, e portanto, me envolvi na área de artes plásticas até hoje. Mas foi, de qualquer, um começo.
O que ficou e o que mudou do início do trabalho pra hoje. Claro que, no início, como você mesmo falou.
Meu trabalho mudou muito. Foi passando por muitas fases. Foi num desenvolvimento muito rápido porque eu trabalho muito então saiu da figuração para a abstração. Depois foi para a geometria e nela estou até hoje. Então mudou muito. Isso foi um caminho percorrido. Daí depois de todo esse tempo você fico até perplexo de tanto trabalho que foi feito, mas é assim mesmo.
...
[7/2/2012, Emanoel Araújo, entrevista a Wilton Bernardo]














Bahia é homenageada em nova exposição no Museu Afro Brasil

A mostra reúne diversos artistas e, de acordo com o curador Emanoel Araújo, “fala de alguns fatos e pessoas, sobretudo dos artistas, dos homens e das mulheres. Mulheres que fizeram da Bahia essa mágica, inusitada e preciosa cidade, de todos os santos, de muita sensualidade e de pouco pudor, que se esvai pelas ladeiras e ruas sinuosas”

Genaro de Carvalho, tapeçaria, coleção particular. Crédito: Jaílton Leal


O Modernismo Baiano é o grande protagonista da mostra, representado pelas telas de telas de Carlos Bastos (1925 – 2004), as tapeçarias de Genaro Antônio Dantas de Carvalho (Salvador, Bahia, 1926 - 1971), as esculturas em ferro ou “ferramentas de santo”, que discutem a religiosidade afro-brasileira, de José Adário dos Santos (1947), esculturas e gravuras de Rubem Valentim (1922 – 1991), e as jóias de Waldeloir Rego (1930 – 2001).


Genaro de Carvalho, tapeçaria, coleção particular. Crédito: Jaílton Leal


Além disso a representação da baiana está fortemente presente na mostra, seja na escultura de Noêmia Mourão, nos vestidos de renda Richelieu, ou nas dezenas de bonecas de cerâmica, madeira e louça. A própria Carmen Miranda, que levou a figura da baiana mundo afora,também está presente na exposição por meio de fotografias de revistas, iconografia em porcelana esmaltada, além de um vestido original. Outras baianas icônicas como Marta Rocha (1936), Mis Brasil em 1964, e Helena Ignez, musa do Cinema Novo também estão presentes nas fotografias da mostra.

Personalidades baianas da cultura brasileira como o escritor Jorge Amado (1912 – 2001), o compositor Dorival Caymmi, Mãe Menininha do Gantois (1894 – 1986), os alfaiates João de Deus do Nascimento e Luiz Gonzaga das Virgens, e dos soldados Lucas Dantas Amorim Torres e Manoel Faustino dos Santos Lira - heróis da Revolta dos Alfaiates, também conhecida como Conjuração Baiana ou, ainda, Inconfidência Baiana, revolta social de caráter popular ocorrida em 1798, inspirada pelo ideário da Revolução Francesa- são homenageados nas obras de artistas da mostra em linguagens e técnicas diversas.


Carlos Bastos, Festa de N. Sra. da Conceição da Praia, 1968, óleo sobre tela. Coleção particular. Crédito: Jaílton Leal


Além das telas, tapeçarias, objetos e fotografias a mostra exibe filmes ligados ao imaginário baiano como: “Barravento” (1962, 80 min., p&b), dirigido por Glauber Rocha; “Bahia de Todos os Santos” (1960, 101 min.), com direção de Trigueirinho Neto, além da série de documentários do projeto “Centenário de Alexandre Robatto Filho – Pioneiro do Cinema na Bahia”, que conta com os filmes “Entre o Mar e o Tendal” (1952-1953), “Xaréu” (1954), “Vadiação” (1954), Igreja” (1960), “Desfile dos 4 séculos” (1949), “O Regresso de Marta Rocha” (1955), “Um Milhão de KVA” (1949), “A Marcha das Boiadas” (1949), “Ginkana em Salvador” (1952), e “Os Filmes que Eu Não Fiz” (2013).


Fonte: INFOARTsp






Fotos: Facebook














Coluna Boa Terra
Por Valdemir Santana

Emanoel Araujo abre a mansão artsy, de São Paulo, para jantar em homenagem a Caetano Veloso

16/05/2019


Foto: Reprodução

A noite foi especial e chique nesta terça feira, em São Paulo, com o jantar especial preparado pelo artista plástico baiano Emanoel Araujo (na foto com Caetano e Heitor Reis) em homenagem ao cantor Caetano Veloso. Mais do que especial, a casa de dois andares, no bairro italiano Bixiga, do distrito Bela Vista, é coalhada de preciosidades. São mais de trezentas peças incluindo pintura de Di Cavalcanti e coleções raras de arte antiga da Bahia.

Caetano Veloso foi recebido junto com a mulher dele, a atriz e produtora Paula Mafra Lavigne e o museólogo baiano Heitor Reis que é gestor do maior fundo de investimento em arte no país. Antes do jantar, os convidados circularam pelas salas do “Museu Afro Brasil”, no “Parque Ibirapuera”, fundado e dirigido por Emanoel Araujo. “Fomos ver a exposição A cidade da Bahia, das baianas e dos baianos também que fica em cartaz até setembro”, contou Caetano.

Os amigos costumam elogiar o requinte da gastronomia usada por Emanoel Araujo, incluindo pratos exóticos, como sopas de pés de galinha, considerada raridade na China, de onde se origina. Caetano Veloso e Emanoel Araujo nasceram em Santo Amaro da Purificação, a 76 quilômetros de Salvador, e são amigos desde a pré adolescência quando estudaram juntos. Os dois eram pintores na juventude e treinavam a arte num mesmo estúdio improvisado.







domingo, 3 de marzo de 2019

2019 - GRAVAÇÕES INÉDITAS [de 1964]


1964 - Gilberto Gil, Maria Bethânia, Djalma Corrêa, Caetano Veloso, Perna Fróes e Maria da Graça [Gal Costa] dirigidos por Roberto Sant'Ana

1964 - Djalma Corrêa, Maria da Graça [Gal Costa], Fernando Lona, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Perna Fróes









03/03/2019

Gravação inédita revela show que lançou Gil, Caetano, Bethânia e Gal em 1964.

O baterista Djalma Corrêa conseguiu registrar três apresentações dos futuros tropicalistas em gravador caseiro de dois canais, apesar dos protestos de colegas de palco.

Lucas Fróes
De Salvador para a BBC News Brasil



Em um dos ensaios, da esquerda para a direita Djalma Corrêa, Gal Costa, Fernando Lona, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Perna Fróes — Foto: Orlando Senna/BBC



Quando subiram juntos num palco pela primeira vez, para apresentar o show "Nós, por exemplo…", no Teatro Vila Velha, em 1964, o formando em Administração e fiscal da Alfândega Gilberto Gil, o segundanista de Filosofia Caetano Veloso, a secundarista Maria Bethânia, a balconista Gal Costa e o bolsista da Escola de Música Tom Zé estavam atando para sempre o destino de suas carreiras musicais.

Antes de virarem tropicalistas e doces bárbaros, os jovens baianos pisaram primeiro no palco do Vila Velha, para em seguida ganharem o mundo a partir do que fizeram no teatro que Gilberto Gil chamou de "pia batismal dos artistas baianos".

Os detalhes desse espetáculo são pouco conhecidos, mas estão surpreendentemente preservados por uma gravação em áudio ainda inédita, guardada há mais de meio século por Djalma Corrêa, baterista da trupe, que prepara um documentário com o material.

A oportunidade de fazerem o show surgiu quando o diretor João Augusto (1928-1979) disse ao produtor Roberto Sant'Ana, seu aluno na Companhia Teatro dos Novos, que a peça Eles não usam Black Tie, um dos espetáculos programados para a inauguração do Teatro Vila Velha, não ficaria pronta a tempo. Ele sugeriu que, para substituir a peça, Roberto montasse um show com sua turma de música.

Roberto contou a novidade na varanda de azulejos marrons da casa da atriz Maria Moniz, onde costumavam se reunir com Gil, Caetano, Bethânia, Gal, Tom Zé, Djalma, Perna Fróes, Orlando Senna, Emanoel Araújo, Fernando Lona e Alcyvando Luz.


Cartaz de Emanoel Araujo (*) para os shows do grupo no Teatro Castro Alves, em dezembro de 1964 — Foto: BBC/Reprodução

Foi de Caetano a ideia de chamar o grupo e o show de "Nós, por exemplo…", mas os primos Roberto e Tom Zé acharam o nome uma tremenda ousadia, com Roberto argumentando que ainda não eram exemplos de nada, apenas simples estudantes fazendo música. A ideia de Caetano prevaleceu: "O 'por exemplo' aí queria dizer não que nós éramos um modelo a ser seguido, um exemplo, mas que tínhamos a certeza de que havia muitos outros, toda uma geração a que nós, 'por exemplo', pertencíamos, e que devia sua existência ao aparecimento da Bossa Nova", explicou Caetano em seu livro Verdade Tropical.


Para formar o repertório, Roberto Sant'Ana pediu uma cota de músicas autorais aos compositores do grupo, mesclando com os clássicos da Bossa Nova e do cancioneiro popular sugeridas por cada um dos participantes. A turma ensaiava e também dava uma ajudinha para que o Teatro Vila Velha, no Passeio Público, próximo ao Palácio da Aclamação e ao Hotel da Bahia, ficasse pronto.

Perna teve que se virar para arranjar um piano de armário que a Companhia Teatro dos Novos tivesse condições de comprar, enquanto as cadeiras do teatro foram adquiridas de um cinema em Santo Amaro, que estava fechando as portas, graças à indicação de Rodrigo Velloso, irmão de Caetano e Bethânia. Ativo jornalista cultural, Orlando Senna cuidou da divulgação publicando pequenas entrevistas, reportagens e fotos com a turma, preparando o clima para o grande dia.

Memórias

"Tenho muita saudade, era muito melhor viver naquela época", emociona-se Roberto Sant'Ana. "Éramos jovens, todos, impetuosos, sonhadores, felizes e cheios de energia, então é uma época que me traz recordações maravilhosas", diverte-se Gilberto Gil.

Alguns ensaios da turma aconteciam na casa do pianista Perna Fróes. Em texto de 2017, o flautista Tuzé de Abreu recordou de quando conheceu Bethânia na festa de aniversário de Perna, dois dias antes da irmã de Caetano completar 18 anos. "Perna comandava a sua própria festa ao piano, na casa grande da sua família, no Largo dos Aflitos. (...) De repente, vi sentar próximo ao piano uma garota um pouco mais velha que eu, muito magra, com um vestido preto, cabelos muito pretos e presos em cima da cabeça, morena, com um nariz interessante e uma expressão de pessoa muito determinada. Tinha aparência de indiana. Começou a cantar, acompanhada por Perna, uma canção que considerei a mais bonita que jamais ouvira. Dizia: 'Na minha voz, trago a noite e o mar....'. Falava de um Sol Negro e de Iemanjá. Fiquei muitíssimo impressionado. Tão impressionado que consegui vencer a timidez e falar com aquela pessoa que parecia ao mesmo tempo muito interessante e muito distante de mim. Perguntei de quem era aquela canção. Ela respondeu com alguma rispidez que era do irmão dela, e que eu não o conhecia".

Na contracapa de seu LP de 1968, Caetano deixou um post scriptum dizendo a Gil que "hoje não tem sopa na varanda de Maria". O ponto de encontro era lá, mas a sopa nem sempre. "O lugar básico era na casa de Maria Moniz, de lá íamos tomar uma sopa na casa de tia Canô", esclarece Djalma, com o carinho de quem chama a mãe dos amigos de tia.



1960's - A atriz Maria Moniz - Foto: Bob Velloso

"Sempre me vêm à cabeça Gil, Bethânia e Gal, além, é claro, da anfitrioa, cuja conversa era sempre muito engraçada e inteligente. Não tenho certeza de ter visto Tom Zé ou Alcyvando lá, embora seja possível que eles e outros participantes dos shows do Vila Velha tenha frequentado a varanda de Maria", reconstitui Caetano à BBC News Brasil, por email. "(...) Maria tinha tiradas geniais. Ela é dona de um estilo único de pensar, agir e expressar-se. Acho que a sopa era sempre boa, mas as cantorias e as conversas eram ainda melhores. Eu morava perto. (...) Posso me imaginar cantando Não posso me esquecer do adeus lá. E ouvir Gil cantando Serenata de teleco-teco ou uma canção lenta, como Maria. Bethânia cantando Noel, Gal cantando Meditação e Vagamente", continua. "O namorado de Maria me propôs fazer um pocket-show na boate Anjo Azul, que nunca se realizou, mas para o qual escrevi Clever boy samba, que era meio crônica, meio sátira (mas diferente das de Tom Zé) e que serviu de sugestão para Alegria, alegria, que compus anos depois. O 'eu' que anda pela rua da cidade era mais satirizado do que o que anda em Alegria, alegria, mas pensei naquele quando retratei este", completa Caetano.

Noite de estreia


Programa do show - 22/8/1964

Às 21 horas do sábado, 22 de agosto de 1964, no Teatro Vila Velha, com produção e iluminação de Roberto Sant'Ana (21), subiram ao palco Caetano Veloso (22), Gal Costa (18), Gilberto Gil (22), Maria Bethânia (18), Fernando Lona (27), Perna Fróes (20), Djalma Corrêa (21) e Alcyvando Luz (26). Caetano, Gil e Roberto assinaram a direção. Tom Zé (27) só participaria no mês seguinte. "Estávamos nervosíssimos", confessa Roberto.

"Foi a primeira vez que eu pisei num palco na minha vida, assim com público na minha frente, e eu cantei Se é tarde me perdoa e outras músicas mais. Foi maravilhoso, inacreditável", contou Gal Costa, três décadas depois, no programa Ensaio. Presente ao espetáculo, o jurista e músico Carlos Coqueijo (1924-1988) foi um entusiasta do grupo. Uma crítica sua publicada no Jornal da Bahia foi o mais completo relato sobre o "Nós, por exemplo…" a sair na imprensa. "Haverá voz de menina moça mais afinada, mais maviosa, mais meiga, mais instrumental do que a de Maria da Graça? Essa, pra mim, foi a novidade-revelação do grupo", escreveu.

Gilberto Gil interpretou O menino das laranjas, famosa na voz de Geraldo Vandré, além das suas Maria e Samba ainda sem nome, indo às lágrimas. "É verdade que Gilberto Gil comprovou suas excepcionais qualidades de músico, compositor e futuroso diretor musical. E ele, que tantas e tantas vezes já se exibiu em público, principalmente na Televisão, emocionou-se às lágrimas — que foram gerais e compunham o rio da felicidade do exemplo de vocês — porque sabia que aquele fora o seu grande momento musical", desmanchou-se Coqueijo. Gil não se recorda, mas não duvida do choro: "Eu não me lembro, gozado. É possível, primeiro porque Carlos Coqueijo não ia inventar isso da cabeça dele, segundo porque eu sou chorão mesmo", admite.

Caetano Veloso cantou É de manhã e Não posso mais dizer adeus. Trouxe também Vai pra frente, parceria com Bethânia, cantada por Gal Costa. "Lendo o título, me lembrei confusamente de Não posso mais dizer adeus, mas até agora nada me veio de Vai pra frente. Em menos de uma tarde, recordei grande parte da primeira. É uma valsa lenta com melodia sentimental, mas tem parentesco com a canção moderna pré-bossa nova e também com a bossa nova já dominante. Ou é — se eu ou alguém lembrar sua letra, sua melodia e sua harmonia. Acho que era bonita. Quanto a Vai pra frente, não me lembro sequer desse título", escreve Caetano, por email.

O grande momento do show foi em Sol Negro. "É certo que Caetano se consagrou, naquela noite memorável, um dos melhores compositores brasileiros populares contemporâneos — assim, na galeria de Jobim e Vinicius, sem exagero. Suas composições são fabulosas. Aquela do duo feminino, então, não se fala", decretou Coqueijo. Com Bethânia numa ponta do palco, de vestido branco, e Gal na outra, de vestido preto, Caetano tocava violão no centro. Primeiro, Bethânia começava a cantar, para depois dar a vez a Gal, e no fim as duas cantavam ao mesmo tempo. "Bethânia e Gal cantando Sol Negro, a canção que escrevi para as duas cantarem juntas, em contraponto, foram ovacionadas como se fossem divas consagradas", disse Caetano à Revista Muito, em 2014.

Outros números incluíram a instrumental Tema de Candomblé, de Perna Fróes, a futurista Bossa 2000 D.C., de Djalma Corrêa, misturando solo de bateria com música eletrônica, as canções de protesto com temáticas nordestinas de Fernando Lona (1937-1977) e o virtuosismo de Alcyvando Luz (1937-1998), que tocava violão com afinação particularíssima. Roberto Sant'Ana quebrou vários galhos, fazendo um pouco de tudo, desde cenário e figurino até a iluminação. "Sempre tinha aprovação de Caetano e de Gil", observa.

O show terminou ao som de Samba da bênção, com a turma dando a bênção a grandes compositores da música brasileira e a amigos como o "irmão ausente e querido" Tom Zé, Maria Moniz, Orlando Senna e Carlos Coqueijo. Após o show, Coqueijo foi ao palco e pediu a bênção a Caetano.

Um público de 461 pessoas comprou ingresso e assistiu ao show ao lado de 52 convidados. A renda de Cr$ 138.400 — cerca de R$ 4 mil atuais — foi toda doada para a Companhia Teatro dos Novos. Presente ao Vila Velha naquela noite, o cineasta José Walter Lima, então um estudante de Belas Artes de 18 anos, lembra da sua reação: "Adorei, achei uma coisa diferente, fiquei fascinado".


Ensaio do "Nós, por exemplo...": Gil, Bethânia, Djalma, Caetano, Perna e Gal sendo dirigidos por Roberto Sant'Ana (de costas)


Tom Zé e novos shows

Programa do show - 7/9/1964

O sucesso do "Nós, por exemplo…" proporcionou novas apresentações nos dias 7 e 8 de setembro, agora com Tom Zé no lugar de Fernando Lona. "E era lindo a gente cantar naquele Teatro Vila Velha, nós todos jovens, e a gente descobrindo que a gente podia falar com as pessoas, que as pessoas reagiam com alegria ao que a gente dizia. Era uma verdadeira descoberta, assim, gostosa", encantou-se Tom Zé, no programa Ensaio, em 1991.

Se a maioria da turma do "Nós, por exemplo…" ainda iria encontrar sua melhor assinatura musical, Tom Zé já tinha estilo próprio, desenvolvido desde os tempos de Irará, enquanto Bethânia arrebatava de primeira quem a ouvisse. Em texto de 2009, o poeta Ildásio Tavares (1940-2010) ressaltou a originalidade dos dois: "No grupo de jovens que estreou no Vila, todo mundo começou imitando João Gilberto; menos Tom Zé e Maria Bethânia, que se afirmou desde cedo por uma voz pessoal, inconfundível e carregada de emoção".

Programa do show "Nova Bossa Velha & Velha Bossa Nova", em novembro de 1964

No fim de novembro, também no Vila Velha, a turma emplacou o "Nova Bossa Velha & Velha Bossa Nova". Nos dias 12 e 13 de dezembro, dessa vez no Teatro Castro Alves, em reconstrução após o incêndio que impediu sua inauguração oficial, apresentaram os dois espetáculos. "O que aconteceu foi uma propaganda espontânea, as pessoas falando sobre o assunto, os estudantes falando sobre os shows em seus colégios e faculdades. Ainda não existia o termo, mas podemos utilizá-lo em retrospectiva: viralizou", sintetiza o cineasta Orlando Senna, produtor desses shows.




Gravações inéditas

As fotos que sobraram da turma no palco do Teatro Vila Velha são escassas, mas Djalma Corrêa tem as gravações dos três dias de shows do "Nós, por exemplo…", remasterizadas em Los Angeles por iniciativa própria e jamais tornadas públicas. Ele pretende gravar um documentário com a presença dos participantes que, a exceção dele, nunca ouviram o registro do que protagonizaram naquelas noites inesquecíveis em 1964. Trata-se de um dos maiores tesouros não revelados da história da música brasileira. "Eu tô cuidando disso com muito carinho", enternece Djalma.


O baterista Djalma Corrêa (**) na orquestra do maestro Carlos Lacerda
Foto: Acervo Família Lacerda

Mas se estava no palco tocando bateria e percussão, como Djalma conseguiu gravar o espetáculo? "É uma história interessante", sorri. Como teria que usar uma parafernália para apresentar sua música Bossa 2000 D.C., ele teve a ideia de colocar um gravador ao lado da bateria para gravar sua performance. "Já que o gravador estava no palco, por que não gravar o show todo?", questionou-se. Roberto Sant'Ana não gostou da ideia, causando uma discussão que transformou-se em briga. "Fomos para o jardim, e foi um puxa daqui, puxa dali. Caetano segura um, Gil segura outro", conta Djalma. Como num paradoxo temporal, os dois brigavam pela relíquia de um momento marcante que sequer havia acontecido.

Passado o entrevero, eles são amigos até hoje. Seja pela razão ou pela força, Djalma ganhou a disputa e levou ao palco seu gravador caseiro de dois canais de ¼ de pista da marca Philips.

Do "Nós, por exemplo…" em diante, passando pelos outros shows no Vila Velha, no TCA incendiado, Bethânia no Opinião, Arena Canta Bahia, os Festivais, a Tropicália, o exílio, Gal a todo vapor, os Doces Bárbaros, Tom Zé redescoberto por David Byrne, Caetano e Gil juntos no Tropicália 2 e no Dois Amigos, Um Século de Música, o big bang sonoro que há 55 anos explodiu numa Salvador vanguardista, em plena velha Bahia, continua a se expandir até hoje.

"Foi um tiro certo, um tiro na mosca", dispara Roberto Sant'Ana. 





(*) Emanoel Araujo























(**) Djalma Novaes Corrêa [Ouro Preto, 18/11/1942]. Instrumentista (contrabaixo, bateria e tambor) e compositor brasileiro.


sábado, 22 de septiembre de 2018

1997 - SANTO AMARO / JOÃO GILBERTO / SAMPA / TROPICALISMO // VERDADE TROPICAL



















 


                                                              Foto: Paulo Giandalia/Folha Imagem








  
 
 
 
 










                                        2/11/1997 - Foto: Xando Pereira/Folhapress
 




                                                      2/11/1997 - Foto: Xando Pereira/Folhapress





                                                      
2/11/1997 - Foto: Xando Pereira/Folhapress


Minha Daia, Caetano e Maria Bethânia

Caetano e Maria Bethânia


Seu Zeca, Dona Canô, Nicinha, Caetano, Maria Bethânia e Minha Daia


2/11/1997 - Foto: Xando Pereira/Folhapress