“Hoje Augusto de Campos (@poetamenos) completa 90 anos. Uma glória da
poesia em terras brasileiras. Viva o grupo que revolucionou as letras nos anos
1950. E de que Augusto é o vivo (e intensamente vivo!) representante. Eles
abriram sendas luminosas e deram trabalho a nossas cabeças. Do seio da canção
popular, saúdo esse erudito desbravador e coerente. O Brasil não é essa lixeira
que estamos vendo. Há coisas belas e fortes que aconteceram aqui mesmo, neste
país. Não é só geléia geral, muito menos a sua parte podre, que está super-exposta.
Há osso e medula.”
[Caetano Veloso, 14/2/2021, Facebook]
Augusto de Campos / 90 Anos
Caetano Veloso / Gravado para o catálogo "Poéticas na Quarentena" 6, edição especial em homenagem a Augusto de Campos
Depoimento e leitura do poema-resposta: “a joão/ agrestes” (1985), de Augusto de Campos.
Gravação: Aline Fonseca
Edição: André Vallias
https://erratica.com.br/ac90/
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| do livro "O Anticrítico" (1986) |
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Augusto
de Campos homenageia João Cabral de Melo Neto |
"FOI EM 7 AGOSTO DE
1971.
A TV Tupi estava produzindo um Programa Especial
com João Gilberto, Caetano e Gal. Um Especial muito especial, porque Caetano
ainda estava exilado em Londres e João Gilberto vinha dos EUA. Era um primeiro
passo para o retorno de Caetano e Gil, que a ditadura militar obrigara a sair
do país. Estavam previstos dois dias de gravação, num fim de semana. Foram ao
todo cerca de sete horas de gravação, começando no sábado com João e Gal e se
estendendo pelo domingo, dia em que Caetano chegaria. João era esperado no
sábado, dia 7, para começar a gravar com Gal. Fernando Faro, que organizara o
evento, junto com Alvaro Moya, Cyro del Nero e Otavio III, achou de bom aviso
convidar alguns admiradores de João, entre os quais Walter Silva (Picapau),
Julio Medaglia, Rogerio Duprat, Décio Pignatari e eu. A entrada dele nos
estúdios estava prevista para as 18 h, todos os técnicos a postos. Passou-se o
tempo e João não aparecia. Lá pelas 20 h, os convidados começaram a se
dispersar, agastados, achando que era folga demais do cantor. Do comitê de
recepção ficamos só o radialista Walter (Pica-Pau) Silva e eu. Íamos embora
também, quando Walter me sugeriu que jantássemos num restaurante próximo para
batermos um papo. Terminada a refeição, ele me disse: — Que tal darmos uma
chegada à Tupi para ver como estão as coisas? Já eram perto de 22 hs. Ao nos
encaminharmos para o prédio da TV, vinham chegando João e Gal. Havia um pequeno
palco para onde se dirigiram os dois. Lá estava também o guitarrista Lanny Gordin,
que deveria participar do Especial. Logo de saída, Faro me empurrou para o
palco onde eu, de fato, não tinha nada o que fazer. Não estava nada combinado e
eu fiquei só assistindo. A certa altura, depois de afinar o violão, João
começou a cantar — para minha surpresa e emoção — “Quem há de dizer”, de
Lupicínio. Não era do seu repertório. Teria lhe chegado o meu artigo “Lupicínio
esquecido?”, publicado no “Correio da Manhã” carioca (3-9-67 e 24-9-67)? Nada
me disse. Me lembro de ter dito a ele: — Quem cantava isso era Francisco Alves.
Seu rosto se iluminou: — Chico Alves! E cantou o mais lindo que é possível
cantar a belíssima composição, que tem versos incomuns como o icônico (luz que
reverbera em vogais abertas): “Repare bem, que toda vez que ela fala/ Ilumina
mais a sala/ Do que a luz de um refletor.” No dia seguinte a gravação
continuaria com Caetano. Eu e Lygia estávamos entre os convidados. Quando o
programa foi ao ar, em 20 de setembro, eu estava nos EUA. Só o que se passou no
domingo seria editado, em formato de apenas duas horas e meia. Todo picotado de
anúncios, ficou muito aquém do que deveria ser o registro dos momentos mágicos
que aconteceram naqueles dois dias. Mas ainda assim foi extraordinário. Segundo
consta, o video-tape acabou se perdendo num incêndio ocorrido na TV Tupi em
1978. Fernando Faro salvou o áudio ou parte dele numa fita de rolo. Ganhei dele
um K-7, onde se pode ouvir, além de "Quem há de dizer”, gravação de “Retrato em
Branco e Preto” de Tom Jobim e Chico Buarque(a mais linda e agônica
interpretação de João, subindo e descendo com a voz na mais imprevisível e
impactante subversão intervalar) e algumas outras jóias, como “Odette”. João
nunca gravou em disco “Quem há de dizer”. E o “Retrato em Branco & Preto”
nunca mais foi o mesmo. Ouso pensar que cantou o Lupicínio para mim , que lhe
tinha feito uma longa visita em New Jersey, abril de 1969. Conto um pouco disso
no BALANÇO DA BOSSA E OUTRAS BOSSAS. A foto é de quando ele cantava ”Quem há de
dizer”."
[Augusto de Campos, YouTube, 7/7/2019]
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| Augusto de Campos, João Gilberto, Lanny Gordin e Gal Costa |
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Ideograma-programa
radiopsicografado por Augusto de Campos e Décio Pignatari [Contracapa do livro BALANÇO DA BOSSA e outras bossas] "O que é que vou dizer prá Caetano?" "Diga que eu vou ficar olhando pra ele." João Gilberto, New Jersey 7-5-68
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Fotografias de João Gilberto, Caetano Veloso e Gal Costa (págs. 344, 346, 348 e 351), do
programa realizado na TV-4 em São Paulo, em agosto de 1971.






1. A FELICIDADE (Antonio Carlos Jobim/Vinícius de Moraes) CAETANO VELOSO / GAL COSTA
2. AO VOLTAR DO SAMBA (Synval Silva) JOÃO GILBERTO / GAL COSTA
3. A PRIMEIRA VEZ (Bide/Marçal) 3:10 JOÃO GILBERTO
4. ASA BRANCA (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) CAETANO VELOSO
5. A TUA PRESENÇA MORENA (Caetano Veloso) CAETANO VELOSO
6. BABY (Caetano Veloso) GAL COSTA
7. CHEGA DE SAUDADE (Antonio Carlos Jobim/Vinicius de Moraes) JOÃO GILBERTO
8. CORAÇÃO VAGABUNDO (Caetano Veloso) 4:10 JOÃO GILBERTO / GAL COSTA / CAETANO VELOSO
9. DAMA DO CABARÉ (Noel Rosa) JOÃO GILBERTO
10. DE NOITE NA CAMA (Caetano Veloso) CAETANO VELOSO
11. DESAFINADO (Antonio Carlos Jobim/Newton Mendonça) JOÃO GILBERTO
12. DORALICE (Dorival Caymmi/Antonio Almeida) JOÃO GILBERTO
13. ESTRADA BRANCA (Antonio Carlos Jobim/Vinicius de Moraes) 2:05 JOÃO GILBERTO
14. FALSA BAIANA (Geraldo Pereira) JOÃO GILBERTO / GAL COSTA
15. FRUTA GOGOIA (Folclore Baiano) CAETANO VELOSO
16. LARGO DA LAPA (Marino Pinto/Wilson Batista) 2:15 JOÃO GILBERTO / GAL COSTA
17. MEDITAÇÃO (Antonio Carlos Jobim/Newton Mendonça) GAL COSTA
18. NA ASA DO VENTO (João do Valle/Luiz Vieira) CAETANO VELOSO
19. ODETE (Herivelto Martins/Valdemar de Abreu "Dunga") 3:55 JOÃO GILBERTO
20. O SAPO (João Gilberto) JOÃO GILBERTO
21. QUEM HÁ DE DIZER (Lupicínio Rodrigues/Alcides Gonçalves) 8:26 JOÃO GILBERTO
22. RETRATO EM BRANCO E PRETO (Antonio Carlos Jobim/Chico Buarque) JOÃO GILBERTO
23. ROSA MORENA (Dorival Caymmi) JOÃO GILBERTO
24. SAUDADE DA BAHIA (Dorival Caymmi) 7:45 JOÃO GILBERTO /GAL COSTA / CAETANO VELOSO
25. SAUDOSISMO (Caetano Veloso) GAL COSTA / CAETANO VELOSO
26. TRISTE BAHIA (Caetano Veloso sobre poema de Gregório de Matos) CAETANO VELOSO
27. VOCÊ JÁ FOI À BAHIA? (Dorival Caymmi) JOÃO GILBERTO / CAETANO VELOSO / GAL COSTA
28. RETRATO EM BRANCO E PRETO (Antonio Carlos Jobim/Chico Buarque) 6:15 JOÃO GILBERTO (bonus)
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VIVA
VAIA (págs. 352-353), poema dedicado a/inspirado por
Caetano Veloso, foi
publicado pelas Edições Invenção em 1972.
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BALANÇO DA BOSSA (E OUTRAS BOSSAS)


CAMPOS, Augusto de. Balanço da bossa – antologia crítica da
moderna música popular brasileira. 1.ª edição. São Paulo: Perspectiva,
Coleção Debates, 1968. 195 páginas.



1968
Revista intervalo
Setembro
Ano
VI – n° 299
Capa:
Sérgio Cardoso
Foto
de J. Ferreira da Silva
Editora
Abril






1968
Revista Veja e Leia
Edição
n° 10 - 13 de novembro de 1968
Editôra
Abril
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CAMPOS, Augusto de. Balanço da bossa. 1.ª edição. São Paulo: Perspectiva,
Coleção Debates, 1968.
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CAMPOS, Augusto de. Balanço da bossa e outras bossas. 2.ª
edição revista e ampliada. São Paulo: Perspectiva, Coleção Debates, 1974.
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CAMPOS, Augusto de. Balanço da bossa e outras bossas. 3.ª
edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978. 360 pág.
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Revista
rosa 3
26/2/2021
Série 1 -
Fevereiro
Campos e
espaços
Caetano Veloso
 |
Caetano
Veloso e Augusto de Campos |
Augusto de Campos faz 90 anos. Para mim, isso é
motivo de intensa e profunda celebração. Já contei como sempre me pareceu
intrigante que, dentre os luminosos componentes do grupo de poetas concretos de
São Paulo, Augusto fosse aquele de quem mais me aproximei. Haroldo, com sua
imaginação barroca, exibia exuberância e comunicabilidade, tanto na expressão
poética quanto na procura crítica ou no modo pessoal. Décio Pignatari, que
ensinou na esdi (Escola Superior de Desenho Industrial da Uerj), tinha seu nome
citado em conversas que ouvi, tanto entre os componentes do grupo Teatro de
Arena quanto em particular com meu amigo Rogério Duarte, baiano como eu e criador
do inesquecível cartaz de Deus e o diabo na terra do sol. Os dois, Décio
e Haroldo, figuras abertas e de brilho externo, do tipo que poderia prescindir
de luz íntima. Na gíria, vinda da astrologia, que se instaurou na linguagem da
minha geração quando nós chegávamos aos 20 (e eles já estavam nos 30), os dois
eram “leoninos”. Bem, de fato eram ambos nascidos em datas que são tidas como
postas sob o signo do Leão. O mesmo se dá comigo — e reconheço em mim algumas
dessas características que listei para descrevê-los. Augusto é muito diferente
de nós quanto a tudo isso. Confesso que nunca senti timidez na presença de
Haroldo de Campos ou de Décio Pignatari, mas sinto-me tímido em algum nível
quando estou com Augusto. É como se estivesse sempre em dívida com a atenção
que ele porventura me dê. E foi ele quem mais atentou para mim e para meu
trabalho, mal começamos o esboço do que veio a se chamar tropicalismo. Os dois
leoninos apoiaram a valorização por Augusto daquilo que fazíamos. E chegaram
perto para conversas e algum convívio. Augusto chegou mais perto, manteve-se
mais longe — e foi sempre mais fundo.
Celebrar os 90 anos de Augusto não pode deixar de
ser celebrar o contributo do grupo concretista como um todo para a vida mental
brasileira. Augusto é o representante vivo dessa gigantesca experiência. Mas, a
meu ver, ele a representou de modo mais concentrado nas fases avançadas do seu
processo. Não digo isso sem estar consciente de que, tendo sido ele o que
primeiro e mais diretamente falou sobre o meu trabalho, possa parecer
privilegiá-lo por gratidão. Ou seja: que aqui fale mais Narciso do que Orfeu.
Mas não é simples assim. Augusto é a manutenção radical da forma de apreciar o
fato-poesia que nasceu no movimento concreto. Os ramos frondosos do exuberante
Haroldo ou as inflorescências incomparáveis que Décio produziu podem às vezes
afastar-se da raiz à qual Augusto mantém-se colado. Seria a acolhida dada ao
fenômeno ocorrido na indústria cultural de que fiz parte seu maior e mais
arriscado afastamento? Terá ele, com isso, ido mais longe da raiz do que seus
pares doutorados na usp ou docentes da esdi? Na verdade, os textos sobre
Lupicínio Rodrigues e, mais tarde, sobre a Jovem Guarda, são já gestos nessa
direção. Eu diria que com mais ênfase no aspecto de gosto e exigência formal no
caso de Lupicínio, e, no caso de Roberto e Erasmo, mais estratégia de afirmação
do que é defendido em Ezra, Arnaut, Dante ou e.e. via redimensionamento crítico
das movimentações “middle-brow” na sociedade brasileira. O fato é que sua
poesia e sua crítica seguem igualmente exigentes — talvez mais exigentes do que
as de seus irmãos-companheiros — tendo incorporado essas escapadas. Torna-se o
guardião da mensagem — e a leva mais longe.
Algo disso pode-se explicar pelo fato de Augusto,
do trio, ser o caçula. É como se ele olhasse os outros dois — mormente Décio —
como mestres imediatos. E terminasse por exigir-lhes, com o que faz, limpidez
na coerência com as lições. Torna-se o guardião da mensagem — e a leva mais
longe.
A ênfase que dou à militância de Augusto junto à
canção popular não deve sugerir que os outros tivessem menos apreço por esta. A
felicidade de Haroldo ao me ouvir contar que João Gilberto cantara (e me ensinara
a cantar) o samba “Odete” — e que o fez (quase) gritar “Herivelto Martins!” —
exibia a receptividade desses eruditos para com a música de rádio. A força
quase polêmica com que Décio, no dia em que completava 80 anos, me repetiu, na
Cidade do México, considerar Dorival Caymmi o maior compositor popular
brasileiro é outro exemplo do foco na modinha que os três mantinham firme (e
não só eles: no Rio, José Lino Grünewald, partícipe da empreitada concretista,
derramava amor e conhecimento da canção brasileira dos anos 1920, 1930 e 1940).
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| Caetano Veloso, Tom Zé e Augusto de Campos |
Entendo
que o passageiro ativismo crítico de Augusto nesse campo tenha se dado porque
ele vivencia a eleição da linguagem como força do dito, cantado ou escrito de
modo intransigente. Vive-a como um movimento da alma, uma clareza do espírito —
e uma responsabilidade para com a história. VIVA VAIA, flor céu boca pele, não,
ão, pós-soneto, lula livre, paraulas, fora bolsonaro (1). Augusto salvou a
internet antes de ela ser inventada. Hoje ele louva a capacidade de essa
ferramenta disponibilizar joias culturais “para quem sabe procurar”. Mas ele já
sonhava com o laptop quando compunha seu Poetamenos (2). Agora, como que
ecoando o entusiasmo com que o prestigioso (e polêmico) poeta conceitual
americano Kenneth Goldsmith me falou, em Nova York, da antevisão da internet
por Augusto, este produz um poema gritantemente visual, um poema-cartaz, com
apenas e exatamente as palavras do inciso LVII do artigo 5º da Constituição
Federal (3). Fica cada vez mais claro que a aproximação com os cancionistas foi
parte do aprofundamento da radicalização.
A revista O Cruzeiro, nos anos 1950,
apelidou, num título de reportagem, a produção dos jovens concretistas de “o
rock’n’roll da poesia”. Eles se pareciam mais com a arquitetura de Brasília e
com a bossa nova, mas o rock tinha chegado antes e viria a confirmar, já na
última parte dos anos 1960, algo da piada da manchete. Como os tropicalistas,
Augusto, representando o grupo concreto, acompanhou o interesse pelo tema, da
Jovem Guarda a Jimi Hendrix e Janis Joplin.
Me lembro do apartamento de Augusto, seus filhos
ainda pré-adolescentes, uma reprodução da Grande Jatte de Seurat na
parede em frente ao sofá onde sentávamo-nos, aquela pintura inaugurando
permanentemente a cientificidade na arte (o que, sem dúvida, ajudou a fazer os
filhos virem a ser, um, artista-cientista, e, o outro, cientista-artista), as
conversas estimulantes e cuidadosamente sugestivas com que Augusto encorajava o
que havia de interessante em nós, sem jamais soar pedante, mas nunca retraindo
um milímetro sequer o alcance de sua visada crítica. Lygia, a mulher da sua
vida, que se achegou a ele via poesia (teria de ser assim), com sua presença
doce e firme, mantinha luz serena na sala e nas falas. Os primeiros livros de
Oswald de Andrade da minha vida. O lance de dados. O cummings de que eu ouvira
falar no Diário de Notícias de Salvador, e de quem Glauber tinha
publicado um poema em que a disposição gráfica das letras entrava como
determinante da composição. O Joyce de Ulisses e, principalmente, o de Finnegans
Wake, para além de Um retrato do artista quando jovem, que eu já
tinha lido (com o “perto do coração selvagem da vida” que já havia, como frase
solta, inspirado o título do romance de estreia de Clarice). O texto que
continha a “geleia geral” de Décio, mal-entendida por quem a ouviu via
tropicalismo. Essas coisas são parte da espinha dorsal de minha formação
técnica e emocional.
Como os movimentos vanguardistas do começo do século
XX, o concretismo apresentava obras e propunha uma perspectiva crítica. Poemas
e manifestos eram publicados em páginas culturais de grandes jornais e, depois,
em revistas organizadas pelos próprios poetas. Isso trouxe problemas para a
vida de quem quis escrever poesia depois deles. A decretação da “morte do
verso”, a valorização da forma, a dispensa até mesmo das palavras, tudo
apresentado em “plano piloto”, pode levar quem queira ser poeta à conclusão de
que um grupo de autores construiu uma muralha crítica em defesa do que fazem e
em desqualificação do que quer que outros tentem fazer. Mas ninguém melhor do
que Augusto expôs quão mais complexa do que isto é a questão que com eles
surgiu. Num artigo para a Folha de São Paulo, ele cita um texto da crítica
americana Marjorie Perloff em que se pergunta se se deve falar de uma “era
Pound” ou de uma “era Stevens”. Pound era o poeta da colagem e da precisão das
escolhas vocabulares, pondo o coloquialismo e o eruditismo sob exigência
composicional nítida. Wallace Stevens, um poeta transromântico em cujos poemas
um mistério subjetivo encanta, fascina e faz pensar, sem quebrar-se em citações
em chinês ou em gíria americana. Leio mal poesia em inglês. Embora os chamados
barrocos, mormente John Donne, me entrem em silêncio pelos ouvidos de forma tão
perfeitamente irresistível e próxima quanto as traduções que dele fez Augusto.
Por coisas assim é que sou capaz de entender o que Augusto diz sobre Pound e
Stevens — e de sentir-me imediatamente perto dele e distanciado de Harold
Bloom. Achei perda de tempo a leitura de A angústia da influencia e,
embora ler Gênio tenha sido interessante para mim, não tanto pelo
detalhamento do seu “cânone ocidental”, mas pela demonstração de gosto pela
literatura e alguma curiosidade comovente sobre certos autores, meu
temperamento me afasta do acadêmico americano e me aproxima dos concretos.
Augusto resume a complexidade da questão ao considerar que uma coisa é opor o
colagista Pound ao subjetivista Stevens, “outra coisa é considerar que nenhum
objetivismo estético elimina a inquietação subjetiva do ser humano e que não se
pode, a não ser para efeito de atuação estética episódica e pragmática,
proscrever como coisa do passado o reservatório emocional e a atividade
simbólica do ser humano”. Neste mesmo artigo Augusto frisa que devemos evitar
igualar “a poesia do ‘eu’ subjetivo (intimista e confessional) com a da
consciência subjetiva (impessoal e abstrata), por mais que se comuniquem esses
universos interiores”.
Na canção popular há verso e há romantismo
requentado, mas tudo se dá em outro lugar da paisagem estética. Intuir o que um
disco, um vídeo ou um stream pode fazer na geopolítica da indústria
cultural (inclusive ou mesmo principalmente o que um desses gestos pode fazer
de contracultura industrial), captar o que a história da alta criação pode
adotar desses gestos (ou como algum deles pode arranhar, sacudir ou iluminar um
recanto dessa área nobre) é tarefa crítica que não pode ser ignorada. A geringonça
poética armada por Décio para publicidade de um vermífugo e exibida na revista Invenção
é exemplo gritante. A despropaganda da Coca-Cola de um famoso poema, do
mesmo Décio, outra (e em sentido oposto). Os Popcretos de Augusto, além.
Ter construído junto a Gilberto Gil, Rogério Duprat, Julio Medaglia, Guilherme
Araújo, Torquato Neto, José Carlos Capinam, Tom Zé, Gal Costa, Rita Lee,
Arnaldo Baptista e Sérgio Dias um espaço de instabilidade para o mainstream
da música popular é ter entrado num território já tratado por eles.
O acompanhamento crítico de Augusto trouxe luz
definida sobre o que podíamos fazer. Sua narração de visita feita a João
Gilberto em Nova Jersey é uma obra-prima. E a capa da edição de Balanço da
bossa que a contém (em que apareço sentado no chão e sendo olhado por João
desde o alto, refletindo seu recado — “diga a Caetano que estou olhando pra
ele”), montagem concebida por Augusto e Décio, é imagem que guardo na memória
como um talismã e uma permanente exigência: não seguir a trilha radical
esboçada por “Araçá Azul” é algo que vejo sempre um pouco como não ter atendido
a essa exigência.
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| 17/11/2011 - Caetano Veloso e Augusto de Campos - Foto: Marlene Bergamo |
E, claro, Duprat, Medaglia & Cia. não estariam
perto se não fosse o aviso dado por Augusto. Quando, nos anos 1970, Medaglia (o
do maravilhoso arranjo de “Tropicália”, que deu cara ao movimento) lastimava
nossa “queda” na produção de “boleros” e exaltava concertos de Rick Wakeman (um
remanescente do rock progressivo cujas criações me pareciam vazias), eu quis
comentar esse desequilíbrio com Augusto, que não aderiu a meu esboço de
protesto. Entendi que ele não achava substrato para um julgamento nessa
anedota. E me pus a pensar mais de duas vezes sobre o assunto. No entanto,
depois que saiu Verdade tropical e eu lhe disse que, por reverência e
carinho por Duprat, eu não tinha posto no livro que achava A banda
tropicalista do Duprat um disco fraco, Augusto me disse: “Você devia ter
posto.”
Em Verdade tropical, digo como discordo de
Augusto quanto à maior importância de Mário Reis na formação do estilo de João
Gilberto, em detrimento da influência de Orlando Silva e Caymmi sobre o pai da
bossa nova. Anos depois das conversas sobre Medaglia e Duprat, Augusto escreveu
um artigo em resposta muito completa à minha argumentação. O curioso é que,
embora eu não tivesse mudado de opinião quanto ao caso, passei a considerar
mais a irretocável prosódia de Lupicínio se comparada à de Caymmi — e a pensar
em como era empobrecedor que eu tivesse apagado o lado “exterior”, do canto à
pouca voz, em defesa de áreas “internas” (legati, como sempre em Orlando e
nunca em Mário; canto-como-fala como no Caymmi dos sambas e não como na
fala-como-canto de Mário etc.) da estética musical de João Gilberto. Caymmi e
Orlando, claro, tinham muita ópera em seu canto. E eu vejo Augusto longe, mas
mais perto, ensinando-me com paciência outras maneiras de ir fundo.
No verão de 2019 para 2020, um jovem rapper entrou
em minha casa de Salvador e quis me mostrar no seu smartphone o que ele mais
gostava em música. Era um vídeo de Erikah Badu, gravado ao vivo, numa onda
vocal/instrumental muito jazzística. Fiquei emocionado porque isso era como ter
Augusto ali na sala da casa do Rio Vermelho. Eu nem tinha como dizer ao jovem.
Mas disse. Significa muito para mim tudo o que Augusto ressalta. Adoro Erikah,
mas a visão de Augusto a enaltece a meus ouvidos. Sempre fui louco por Lauryn
Hill e uma das maiores alegrias que Augusto me deu mais recentemente (pouco
antes das publicações da Galileu Edições) foi colocá-la, numa entrevista, ao
lado da Badu. Ontem vi e ouvi, online, Augusto tocando blues numa mini-gaita,
enquanto Cid tocava guitarra e cantava a versão feita por Augusto para “Up From
The Skies” de Jimi Hendrix. Tenho muito orgulho de ter feito versões musicais
para os poemas “Dias Dias Dias” e “O pulsar” — além de uma cinematográfica para
“Flor da pele”. Mas o conjunto do trabalho verbivocovisuomusical feito por Cid,
através de décadas, junto à poesia de seu pai, é a mais consistente comemoração
para a completude dos seus 90 anos (4).
Notas: Marina Bedran
(1). O poema “VIVA VAIA”, de 1972, foi dedicado a
Caetano Veloso e serviu de título ao primeiro volume que reunia os trabalhos de
Augusto entre 1949 e 1979. Nesta coletânea, também está o poema “flor da pele”,
de 1959. Já “Não” é um poema-xerox de 1990, que deu de título a outra coletânea
publicada em 2003, e que traz um CD clip-poemas. Nela também está o poema “ão”
de 1994, que foi musicado por Aldo Brizzi e gravada por Caetano e Augusto.
“Pós-soneto” (1990–91) apareceu em Despoesia (1994). Mais recentemente,
Augusto tem publicado poemas no Instagram em que aborda a situação política
atual, da prisão de Lula à eleição de Jair Bolsonaro. “Paraulas” se refere à
plaquete Paraulas para Palau, publicada em 2020 pela Galileu Edições, em
que Augusto traduziu alguns poemas do poeta catalão Josep Palau i Fabre.
(2). A série de poemas multicoloridos Poetamenos
foi escrita em 1953 e pode ser considerada o primeiro conjunto de poemas
concretos quase três anos antes da fundação do movimento no Brasil.
(3). “Ninguém será considerado culpado até o
trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. O poema “ready made” foi
publicado em 2 de abril de 2018 e intitulado “Cláusula Pétrea”.
(4). Algumas dessas colaborações entre pai e filho
estão disponíveis em sites de streaming e no YouTube. Dentre elas, as
interpretações que Cid faz de dois célebres poemas de Augusto: Luxo e Cidade,
City, Cité. Também destacamos o já clássico show Poesia é risco, que
ambos costumam apresentar juntos no Brasil e no exterior.