17/10/2005
Eles partiram para outros assuntos
A amizade entre os dois cantores nasceu há 40 anos, quando Milton
Nascimento se apaixonou por Dedé Gadelha sem saber que ela já vivia com Caetano
Veloso e, como no canto estarão sempre juntos, fazem a trilha de O Coronel e
o Lobisomem e um DVD do show que os reuniu pela primeira vez
texto: Dirceu Alves
Jr. e Gisele Vitória
fotos: Murillo
Constantino
De
encontros singulares e outros extraordinários nasceu a amizade entre Caetano
Veloso e Milton Nascimento. Quando eram músicos iniciantes na batalha por um
palco, uma simpatia mútua tomou conta dos dois desde que foram apresentados, em
1966. A conversa que os aproximou passou longe da música e era regida pelo
verbo reclamar. Mais precisamente da gelada e difícil São Paulo, cidade que
desvendavam aos 24 anos e onde esbarravam em inúmeras dificuldades. Daquela
fase, brotam lembranças parecidas. Milton fala do horror de ter passado uma
semana sem comer por falta de dinheiro. Caetano diz que, muito antes de amar a
metrópole que traduziu em “Sampa”, ele “não morava, simplesmente estava” por
ali.
As
afinidades da dupla não se esgotam no talento ou nas desventuras de início de
carreira. Ambos nasceram em 1942. O baiano de Santo Amaro da Purificação
completou 63 anos no último 7 de agosto. Milton veio ao mundo no Rio, em 26 de
outubro, e se tornou um mineiro de Três Pontas logo depois de fechar 2 anos de
vida. Maduros e reconhecidos, os dois rompem a fronteira dos 60 anos com a
mesma febre de vida que, hoje, aquece o encontro numa breve turnê de shows, a
pretexto das três novas parcerias para o filme O Coronel e o Lobisomem. Da encomenda do
diretor Maurício Farias nasceram em 2005 “ Sereia”, “Perigo” e “Senhor do
Tempo”, que já ganham os ouvidos do público nos cinemas e no show Caetano e
Milton, que se transformará em um DVD antes do Natal. As três músicas foram
compostas num único ano, depois de apenas três parcerias em três décadas.
Os
laços entre os dois se estreitaram, surpreendentemente, a partir de uma paixão
de Milton por Dedé Veloso, a primeira mulher de Caetano. Foi ela quem tornou-se
amiga primeiro, ainda na década de 60. E começou uma convivência mágica, a
ponto de Milton virar especialista em ninar o primeiro filho de Caetano,
preparar almoços para o casal e, da intimidade, surgir “Paula e Bebeto” em
1975. Os versos eternizados pelo próprio Milton e por Gal Costa, apenas neste
show ganham a voz de Caetano. “Durante tempos pensei que Caetano nem gostasse
da música. Eu canto ‘Paula e Bebeto’ em todos os meus shows e ele sequer pensou
em gravá-la”, diz Milton. O parceiro dá risadas: “O Milton tem cada uma. Adoro
a música”.
Apesar
do sucesso de “Paula e Bebeto”, a dupla só se encontrou profissionalmente sete
anos depois com “As Várias Pontas de uma Estrela”. Um Caetano emocionado com a
magnitude do amigo criou uma letra que dizia que seu caminho era guiado pelo
parceiro. Foram necessários mais 9 anos para que a dupla voltasse a se reunir.
“A Terceira Margem do Rio” surgiu de experiências de Milton na Amazônia entre
1989 e 1990. “Fiz a música inspirado no conto de Guimarães Rosa e só via duas
pessoas para escrever a letra: o próprio Rosa ou Caetano”, diz Milton, que
precisou controlar a ansiedade por seis meses até receber os versos. “O conto é
lindo. E fiz uma letra que é quase um comentário do conto”, analisa Caetano.
Apesar
da identidade, a dupla exercita a atração dos opostos. Milton é dia, Caetano
noite. Para ensaiarem o show na casa de Milton no Itanhangá, no Rio, houve um
acordo. Os trabalhos começariam após as 18h, porque Caetano acorda tarde, e se
encerrariam às 23h30, porque Milton dorme cedo. Milton deu esta entrevista em
sua suíte no Hotel Fasano, em São Paulo, indiferente à cama ligeiramente
desfeita, às duas malas e duas sacolas dispostas no chão e ao inalador
imprescindível em São Paulo para controlar a garganta seca acentuada pela
diabetes. Caetano preferiu resguardar a intimidade e falou numa sala mais
impessoal do mesmo hotel. Milton não dá entrevistas ou faz fotos antes do show.
Caetano, por sua vez, não se importa em marcar a conversa para duas horas antes de pisar no palco.
O
processo de criação também é antagônico. Caetano jamais enfrentou uma crise de
criatividade. “Só tem esse tipo de crise quem pode se dar ao luxo de ter. Não
encaro essa questão de cria coisas. Talvez eu nunca tenho feito nada que
prestasse ou seja uma defesa para continuar fazendo. Não sou modesto. Sou
melhor que Chico, Milton, Gil, mas acho que não faço música direito”, diz o
baiano. “Chico, Gil, Milton, todos eles têm seriedade. Eu escrevo muito matado.
Jamais Chico faria uma música dessa forma. Todas as suas rimas esclarecem o
enunciado. Minha obra é muito suja.” Milton, por sua vez, assume que, no fim
dos anos 70, passou seis meses sem conseguir tocar no violão. Embalado por
lembranças, voltou a viver em Belo Horizonte e, lá, se deparou com uma cidade
diferente. “Meus amigos sugeriram que eu procurasse um psiquiatra. Não queria
mexer com isso. Procurei um médico amigo”, conta o compositor. “Conversamos um
dia inteiro e ele, mesmo lamentando a perda do cliente, me aconselhou a voltar
para o Rio.”
A
obra de Milton recuperou o vigor. O divisor da retomada foi a gravação de
“Caçador de Mim”, que mesmo não sendo dele, traduzia o sentimento daquela fase.
Indagado se o Milton sexagenário é mais talentoso que o jovem dos tempos de
“Travessia”, ele faz ar de mineiro. “Sinto que sou melhor cantor, mas como
compositor devo estar bom também”, afirma. Caetano garante que produz com a
mesma agilidade, mas sente saudade de sua imagem aos 20 ou 30. “Eu era mais
bonitinho. Não gosto de ver minhas fotos de hoje, mas as antigas eu acho sempre
lindas. Não sei como tem gente que pode me achar mais bonito hoje.”
10 segredos de uma amizade
Milton achava que Caetano seria o único capaz de transformar a história
de “Paula e Bebeto” em versos
“Tinha
dias em que eu estava em casa, na Barra da Tijuca, e Dedé ligava: ‘Moreno não
quer dormir enquanto não te ver. Quer que você faça ele dormir.’ Eu ia
correndo”, conta Milton
1 - Eles
se conheceram em 1966
O Bar Redondo, perto do Teatro de Arena, era o ponto das cabeças pensantes de
São Paulo. Numa madrugada de 1966, entre uma e outra cerveja, Caetano avistou
Milton. “Ele era muito bonito, seu rosto parecia uma máscara africana. E
misterioso, calado, quieto. Ainda hoje, Milton é profundamente misterioso”,
lembra o baiano, na época, dividido entre Rio e São Paulo para acompanhar a
irmã Maria Bethânia. “Conhecia uma música de Caetano, ‘Sol Negro’, gravada
por Gal e Bethânia. A gente se cruzava nos bares perto da Galeria Metrópole”
, diz Milton. Encasacados por obrigação, eles viviam a se queixar. “A gente
saía xingando São Paulo por causa do frio que fazia. Caetano depois compôs
‘Sampa’, falando que Narciso acha feio o que não é espelho, mas naquela época
ele não achava nada disso.”
2 -
Caetano não se interessava pela música de Milton
Gilberto Gil o achava genial, mas Milton não despertava Caetano musicalmente.
“Eu, com minha limitada capacidade musical não tinha percebido nada de
especial. Demorei a gostar artisticamente. Eu achava as músicas dele bonitas
mas não me interessava”, diz Caetano. Ele conta que ouviu a “Canção do Sal”
numa gravação mostrada por Gil, e observou que Milton desenvolvia muito bem a
levada harmônica.“Eu estava com todas as idéias tropicalistas e queria jogar
para fora. Logo, não estava interessado em canções harmônicas. Embora
percebesse a originalidade de Milton não tinha vocação para perceber sua
genialidade.”
3 - Milton
se apaixonou pela primeira mulher de Caetano
No fim dos anos 60, logo que chegou ao Rio, Milton foi entrevistado pela baiana
Dedé Gadelha (depois Dedé Veloso), sem saber que se tratava da primeira mulher
de Caetano. Eles não eram casados oficialmente mas já estavam juntos havia
tempo. “Fiquei louco por ela. Precisava namorar aquela menina. Comentei com
uns amigos e eles falaram: ‘É a noiva do Caetano’”, conta Milton. “Ele ficou
apaixonado, propôs casamento a Dedé. Aí ela disse que já era comprometida. Foi
engraçado, ela chegou em casa contando: ‘O Milton me paquerou...’ E ele não
tinha idéia de quem ela fosse”, confirma Caetano.
4 -
Recém-chegado do exílio, Caetano foi convidado por Milton para dividir o palco
Em 1972, Caetano pôs um ponto final nos três anos de exílio em Londres e
retornou ao Brasil. Buscou na hospitalidade da Bahia a energia para voltar a
enfrentar a oposição dos militares. Milton já era cultuado. O Weather Report o
elogiou e Milton ganhou renome no jazz americano e no rock progressivo. “Mas
eu não gostava de nada disso. Gostava de reggae, Steve Wonder e de punk”,
relembra. Em uma visita ao Rio, Caetano e Dedé ficaram na casa de Bethânia, em
Ipanema, e Gal Costa comentou que o show de Milton no Teatro da Lagoa era
deslumbrante. “Fiquei maravilhado. Tudo se revelou. Compreendi a genialidade
da criação dele. Me deu vontade de ficar debruçado”, sorri Caetano. Poucos
meses depois, já fã confesso, o baiano voltou a aplaudir o amigo, desta vez no
MAM. Diante de uma platéia abarrotada, Milton avistou Caetano na primeira
fileira, olhar paralisado em sua direção. “Eu o chamei para subir ao palco.
Foi a primeira vez que cantamos juntos. Tenho certeza que se estivesse em um
show dele também seria chamado”, diz Milton. “Não teve ensaio e saiu
lindo. O engraçado é que, apesar da força, não lembro qual música cantamos”,
afirma, desapontado, Caetano.
5 - Moreno
Veloso só dormia se Milton cantasse para ele
Depois de 1972, ano do nascimento de Moreno Veloso, viraram amigos. Quando
Caetano e Dedé se mudaram para o apartamento da Delfim Moreira, no Leblon, em
1974, Milton morava na Barra e eles se freqüentavam. Muitos almoços, com Milton
cozinhando. “Moreno me adorava. Ele era bem pequeno. Tinha dias em que eu
estava em casa, na Barra da Tijuca, e Dedé ligava: “Moreno não quer dormir
enquanto não te ver. Quer que você faça ele dormir. Eu ia correndo. Às vezes
falava: não dá para vocês virem com o Moreno aqui pra casa?”, lembra
Milton. Hoje, Moreno diz a Milton que lembra de tudo, mas Milton duvida. “Ele
ficava um ou dois dias lá em casa. Cantava para Moreno e no outro dia o Moreno
acordava e Milton ainda estava lá”, conta Caetano. Milton dormia no quarto
do som, onde havia a vitrola, os discos, um gravador, seus violões e muitas
almofadas. Eram os anos hippies. Não havia cama nem sofá. “Ali Milton ouvia
as próprias gravações. Isso é curioso. Não é freqüente que um cantor ouça
seus próprios discos. Ele ouvia tudo e muito na nossa casa”,
conta Caetano.
6 - A
história real de “Paula e Bebeto”
Precisou um amor se dissolver para que a dupla consumasse uma parceria. Em
1975, no início de uma noite, Milton bateu à porta de Caetano às lágrimas.
“Ele me contava a história de Paula e Bebeto e chorava muito”, lembra
Caetano. Milton conheceu Paula e Bebeto em Três Pontas no início da década de
70. Ela era uma linda garota de 15 anos e Bebeto tinha pouco mais de 17. Em uma
roda de violão na praça, o casal se aproximou e amanheceu ouvindo o compositor.
“Virei uma espécie de padrinho deles. Foi a história romântica mais linda, mais
completa que já vi”, afirma Milton. Anos antes, ao lado de Bebeto, Milton
criou a melodia e chegou a esquecê-la.
Um dia, precisou que Bebeto cantarolasse para ele. Quando o casal brigou, veio
o desejo de gravá-la e Milton achava que Caetano seria o único capaz de
transformar aquele amor em versos. Algumas noites mais tarde, Caetano, Dedé e
Moreno foram à casa de Milton. “Eu e ele nos trancamos em outra sala e
sentamos no chão. Milton tocou três vezes a música. As palavras entraram na
minha cabeça e fechei a letra na hora”, revela Caetano. Da sala, ao ouvir
“Paula e Bebeto”, Beth, irmã de Milton, disparou: “Quando eles ouvirem a
música, voltam na mesma hora”. Mas Beth falhou. A dupla nunca reatou. A
música ficou eternizada na voz de Gal Costa pelo refrão “qualquer maneira de
amor vale a pena...”. “Esse refrão diz a coisa mais perfeita para mim”,
diz Milton. Hoje, Bebeto é casado, tem quatro filhos e acaba de vender a
fazenda de seu pai, no interior mineiro, que administrou por duas décadas.
Paula também se casou, teve três filhos e vive em Belo Horizonte, onde produz
artigos de couro. Milton batizou um filho de cada um.
7 -
Caetano faz “declaração de amor” em letra que Milton não teve coragem de
interpretar
Perto de gravar o disco Anima, em 1982, Milton telefonou para Caetano e
propôs aquela que seria a segunda parceria da dupla. “Agora vai ser
diferente. Você manda a letra e eu coloco a música depois”, avisou Milton.
Menos de um mês depois, Caetano entregou os versos de “As Várias Pontas de uma
Estrela”. Sem pestanejar, Milton virou-se para o amigo e perguntou: “Você está
louco? Essa letra é uma declaração de amor. Como é que vou cantar isso a meu
próprio respeito?”. Caetano reforçou o elogio ao amigo: “Você é tudo isso e
muito mais”. Humilde, Milton chamou Caetano para cantar a parceria no disco.
“Caetano chegou ao estúdio e não tinha ainda ouvido o arranjo. Ele começou a
cantar e nos abraçamos. Meu contracanto foi nascendo na hora”, diz Milton.
8 - Mesmo
quando esteve doente, Milton passou recentes verões em Salvador com Caetano e
Paula Lavigne
Até três
verões atrás, Milton passava férias na Bahia junto com Caetano e a empresária
Paula Lavigne, de quem o músico se separou este ano. “Ninguém sabia, mas ele
ia para lá. Na casa de uma amiga. E sempre ele nos visitava na minha casa no
Rio Vermelho. Ele conviveu com Zeca também”, conta Caetano. Mesmo quando
enfrentou a diabetes, Milton descansou vários janeiros e fevereiros em
Salvador. Ele e Caetano cantaram juntos na praça de Santo Amaro num show que
dona Canô, mãe de Caetano, organiza anualmente para arrecadar recursos para a
igreja. “A praça ficou em êxtase. Milton adorou e disse: ‘Quero vir ano que
vem’. Ele participou mais três vezes. Ficou muito emocionado e minha família
também”, conta Caetano. Depois todos iam almoçar na casa de dona Canô.
Também na Bahia, Caetano se emocionou com Milton sobre o primeiro Expresso
2222, trio elétrico de Gilberto Gil. “Tive uma das maiores emoções que o
Carnaval da Bahia já me deu.” O trio elétrico entrou na praça do Farol da
Barra com Milton cantando “Raça”. “A praça inteira pulava com ele. Ninguém
pensa que Milton canta em trio elétrico e arrasa, mas ele cantou horas e
arrebatou uma multidão. Puxou mais gente que a Ivete Sangalo (risos)”, diz
Caetano.
9 -
Caetano criou no carro letra para canção de Milton a caminho do estúdio
Caetano seguia para o estúdio onde gravaria “Senhor do Tempo” para a trilha de O
Coronel e o Lobisomem sem ter cumprido sua missão. “Milton me esperava
no estúdio e eu não havia terminado a letra”, diz Caetano. A caminho da
gravação, Caetano colocou o CD com a melodia para tocar e, acomodado no banco
traseiro, pediu correndo a sua secretaria Giovana um bloco de anotações. Em 15
minutos, completou a letra sem que o parceiro ou os produtores imaginassem que
a gravação poderia ter sido adiada. Mas Milton entenderia. Trinta e cinco anos
antes, em 1970, ele criou uma música sob pressão: encarregado da trilha do
filme Os Deuses e os Mortos, Milton foi intimado pelo diretor Ruy Guerra
a lhe entregar um tema na manhã seguinte. “Filmamos desde as 5h em Ilhéus e
já anoitecia. Disse: ‘Ruy, você acha que eu tenho condição de compor alguma
coisa?’”, lembra Milton. O cineasta, sem dó, retrucou: “Se vira”.
Milton pegou uma garrafa de cachaça e se trancou no quarto. Junto com o efeito
da aguardente, veio a inspiração para criar “A Chamada” e, pouco depois da
meia-noite, Guerra foi acordado para receber a canção.
10 - Em O
Coronel e o Lobisomem, Caetano diz que a produção queria mesmo era Milton
“Eles (a produção de Paula Lavigne e de Guel Arraes) queriam o Milton. Eles
me puseram na história porque sabem que eu sou um bom interlocutor do Milton.
Eu armei o contato”, conta Caetano. A composição da trilha sonora é toda de
Milton Nascimento, Caetano participou com as letras. “Eu não fiz uma nota”,
diz. Milton fez as músicas em três dias: “Fiz tudo num gravador pequeno,
isso tudo por causa do close na Ana Paula Arósio. Passei a fita e Caetano se
encarregou de mostrar para o Guel e a Paula”, conta Milton. Indagado sobre
quem é o coronel e quem é o lobisomem da dupla, Caetano abre um sorriso largo.
“São coisas permutáveis. É fácil identificar Milton como o lobisomem porque ele
é misterioso, mas também posso ser o lobisomem porque sou extrovertido”,
diz Caetano. “Eu poderia ser coronel porque falo demais, parece que chego nos lugares
dando ordens. Porém, quem manda é o Milton. Ele é mais organizado e, de fato,
ordena. Nossa química é complementar.” No camarim, depois do show na breve
turnê em São Paulo, Milton é surpreendido com a mesma pergunta. “É muito
peso para carregar”, afirma, mineiramente, o compositor.

“Milton
ficou apaixonado, propôs casamento a Dedé. Aí ela disse que já era
comprometida. Foi engraçado, ela chegou em casa contando: ‘O Milton me
paquerou...’ E ele não tinha idéia de quem ela fosse”, diz Caetano
“Tinha
dias em que eu estava em casa, na Barra da Tijuca, e Dedé ligava: ‘Moreno não
quer dormir enquanto não te ver. Quer que você faça ele dormir.’ Eu ia
correndo”, conta Milton
6 de Outubro de 2013
Caetano exalta música de Milton Nascimento
Segundo o compositor baiano, "a música de Milton Nascimento é a
maior força de presença da música brasileira no mundo depois da bossa de Tom
Jobim e João Gilberto"
Em sua coluna no jornal O Globo, o compositor Caetano
Veloso exaltou a música de Milton Nascimento e afirmou que ela é a maior
presença da MPB no mundo depois de Tom Jobim e João Gilberto.
Milton: a música - CAETANO VELOSO
A música de
Milton Nascimento é a maior força de presença da música brasileira no mundo
depois da bossa de Tom Jobim e João Gilberto
Recebi um livro que me arrebatou. Trata-se de “A música de Milton Nascimento”,
escrito por Chico Amaral. Muitas das ideias a que, ao longo dos anos, esse
artista excepcional tem me levado aparecem de modo articulado pelo autor, coisa
que a mim mesmo não seria possível. É preciso ser muitíssimo mais músico do que
sou para captar com consciência técnica as peculiaridades harmônicas e rítmicas
que fazem o mundo único de Milton aflorar em timbres e formas. Quando canto que
a bossa nova é foda, estou me referindo à explosão do João Gilberto dos LPs
“Chega de saudade”, “O amor, o sorriso e a flor” e “João Gilberto”, com as
composições de Tom Jobim, Carlos Lyra, Roberto Menescal; as letras de Vinicius,
de Bôscoli, do próprio Lyra ou do próprio Tom; as releituras de sambas de
Caymmi, Ary, Bid & Marçal, Lauro Maia; os arranjos econômicos e
perfeitamente elegantes de Jobim (e os de Walter Wanderley em parte do terceiro
disco): foi o Big Bang. As bandas jazzísticas que apareceram depois, sobretudo
no Beco das Garrafas, sendo, a meus ouvidos, apenas uma pequena regressão
virtuosística. Em suma, a “bossa nova” de que falo no verso desaforado não é um
gênero mas um acontecimento. Respeitei seus desdobramentos mas nunca os pude
pôr no mesmo nível do ápice revolucionário. O aparecimento de Milton,
coincidindo cronologicamente com o do grupo tropicalista, veio a mudar esse
esquema. Ou pelo menos se apresentou como algo mais que relevante (além de
intenso e genuíno) nascido de uma relação diferente com essa história: Milton
desenvolveu uma visão da música que dava mais atenção aos floreios do Tamba
Trio do que ao rigor fundador de João.
Claro que Milton não era o único brasileiro a ser mais atraído por aqueles
desdobramentos. Conheci dezenas de amantes da música que, no início dos anos
60, tendiam mais para o culto dos Zimbos e Tambas, do Donato do “Muito à
vontade” — e das canções de Edu, fundamente informadas pela riqueza harmônica
da bossa nova mas saindo para modos do Nordeste e para paisagens sonoras mais
grandiosas. Mas Milton fez de tudo isso um mundo novo. Eu próprio, admirador de
Edu (apesar de manter fidelidade estética e crítica ao minimalismo do Jobim de
João), compus, em 1964, a canção “Boa palavra”, que o próprio Milton, anos
depois, me disse ter sempre amado. Mas não só eu não tinha adesão estética
total ao que se insinuava nessa segunda fase do momento bossanovista da nossa
canção: faltava-me o talento musical para produzir algo orgânico. Terminei, no
apego à exigência joãogilbertiana, indo para o ruidismo roqueiro e para a
mirada pop da produção cancional.
Muito mais musical do que eu, Gil percebeu a força e o significado de Milton.
Bastou-lhe ouvi-lo cantar a música de Baden no festival da TV Excelsior.
Quando, pouco depois, ele tomou conhecimento das composições do mineiro,
era-lhe evidente que Milton era a coisa mais importante que tinha acontecido à
música brasileira. De minha parte, embora me fosse óbvio que “Canção do sal” e
“Travessia” fossem composições belas, só comecei a perceber algo de especial em
Milton quando o conheci pessoalmente. Desde que o vi algumas vezes no Redondo
(bar que ficava em frente ao Teatro de Arena de São Paulo) tive a sensação de
estar diante de alguém com conteúdos muito densos — e uma forma externa à altura:
a beleza de seu rosto negro valeria por si só, não fosse o sentimento
indescritível sugerido por seu olhar. Mas só vim a combinar essa experiência
com a música que saía dali quando, de volta de Londres, em 72, vi o show do
Teatro da Lagoa. Foi o show que encantou Wayne Shorter. Em Londres, Dubas
chegou com um LP “Courage”. Ouvi, admirei mas não me deixei tomar. Vendo Milton
com a banda no palco, de repente entendi tudo.
A música de Milton é a maior força de presença da música brasileira no mundo
depois da bossa de Tom e João. Isso se deve a sua capacidade intuitiva para com
as relações dos sons — e a forças atávicas, históricas e sociais da feitura de
sua individualidade. (Quando vi, no resultado dos testes de DNA feitos com
celebridades brasileiras, que Milton apresentava a mais alta percentagem de
gens negros, pensei: tinha que ser no mínimo isso!) Primeiro a turma do
jazz-fusion, depois a turma do rock e do pop: o mundo viu algo imenso erguer-se
no Brasil.
E o próprio Brasil passou a gerar talentos grandes que tinham tido em Milton a
inspiração: Ivan Lins, Djavan, Gonzaguinha, João Bosco…
Escrevo isto sob o impacto da leitura do livro de Amaral. E com o “Coração de
estudante” a que o nó dos professores convida. Ainda o estou lendo, já mais
perto do final. Mas não tenho outra coisa na cabeça.