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miércoles, 18 de junio de 2025

1997 - PEQUENO ORATÓRIO DO POETA PARA O ANJO - Neide Archanjo

 




ARCHANJO, Neide. Pequeno Oratório do Poeta para o Anjo, 1ª edição. Rio de Janeiro: N. Archanjo, 1997; 60p.

Acompanha o CD da Blue Studios com quatro poemas do livro gravados por Maria Bethânia.

Capa e imagens: Lucia Sartori




31 de março de 1997

Quatro poemas do livro Pequeno Oratório do Poeta para o Anjo

de Neide Archanjo

 

Meu nome é Maria Bethânia

 

 

Era o mar

E parecia ser o mar.

Era o mar.

 

Dois mil anos

Esperei por aquele

que febre alguma

ou olhar

moedas escárnios

anseios desejos

amores confessos

puderam tocar.

À minha frente

ei-lo intato

suspenso sobre meus lábios

aureolado suplicando

o nome do seu nome.

 

 

Era quimera

e parecia ser o amor.

Era quimera.

 

Graça flutuante

figurava estar sentado.

A cabeça era magra

coberta de cachos

junquilhos

de onde o sol jorrava.

As asas

mantidas fechadas

tocavam o chão

longas emplumadas

o corpo intangível.

Seus olhos

Castanhoverdecinzadourados

escarlates me olhavam

como se fossem

desde sempre

a límpida palavra.

Era belo e assim se apresentava.

 

 

Era o caule

e parecia ser a flor.

Era o caule.

 

Veste-se de blue

e um fio transparente

costura-lhe

asas e costas.

 

Os pés

traz escondidos

calçando botas.

Não voa

Não cumpre seu nome.

 

Quer ser apenas

azul e belo

como é a paixão.

 

 

Era a Beleza

e parecia ser a Beleza.

Era a Beleza.

 

Filho pródigo

abandonou a casa.

De seus vestígios de musa

de seus lampejos de Anjo

brotaram todas as lágrimas.

A dor

incrustada na curva da porta

esperou por muito tempo

a volta.

Depois no rubi deste coração

escreveu seu nome.

 























São Paulo, quinta-feira, 22 de maio de 1997


Bethânia lê obra de Neide Archanjo

ALVARO MACHADO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Portugueses de fino trato já afirmaram que Maria Bethânia lhes revelou o espírito mais genuíno de Fernando Pessoa -como nos poemas ditos em seu último álbum, "Imitação da Vida".

Porém há um outro lado desse interesse da intérprete por poesia que poderá ser melhor conhecido hoje, quando Bethânia comparece à Biblioteca Nacional, no Rio, para interpretar o "Pequeno Oratório do Poeta para o Anjo", mais recente produção da poeta paulistana Neide Archanjo.

Esse recital, sob a batuta da diretora teatral Bia Lessa, marca o lançamento nacional do livro, que chega ao leitor em embalagem requintada: acompanhado de CD no qual Bethânia lê poemas e ilustrado pela pintora paulista Lucila Sartori.

Em São Paulo o lançamento será no dia 17 de junho, no teatro Maria Della Costa, com outras afinidades eletivas da autora: Regina Duarte será a intérprete, sob direção da artista plástica Denise Millan.

Em ambos os eventos estarão expostos os quatro dípticos em óleo sobre tela de Sartori, que acompanham a temática do livro com "anunciações angélicas" em cores rebaixadas e folhas de ouro.

Atualmente radicada no Rio, Neide Archanjo estreou em poesia em 1964, com "Primeiros Ofícios da Memória". Tem outros sete livros publicados em várias editoras, premiação da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) em 80 e indicação para o prêmio Jabuti em 95 ("Tudo é Sempre Agora", ed. Maltese).

Assessora do Departamento Nacional do Livro, Neide Archanjo é bastante atuante em mesas-redondas e apresentações de poesia em todo o Brasil, dentro de um panorama recente que se configura quase como um movimento informal de revitalização da produção e amostragem poéticas.

Entusiasta do contato direto com o público, que ela se refere como "opção política", criou nos anos 69/70 os "Varais de Poesia" e o movimento "Poesia na Praça", com os poetas Ilka Brunhilde, José Luís Archanjo, Álvaro de Farias e outros.
Na feira hippie da Praça da República e em cafés do centro de São Paulo pendurava-se e declamava poemas sobre fatos acontecidos na véspera.

Drummond
Archanjo pertence à vigorosa família poética feminina de Hilda Hilst, Renata Pallotini, Mariajosé de Carvalho, Dora Ferreira da Silva e outras autoras paulistas.

Carlos Drummond de Andrade, que tinha por elas grande admiração, escreveu para Archanjo: "Você alcança a justa e vibrante expressão que deixa marca no leitor".
"Pequeno Oratório..." tem influência explícita de Rilke, que com Jorge de Lima e Saint-John Perse está entre os autores preferidos da poeta.

Conforme o plano original da autora, o livro chega com o encarte de CD, papel e ilustrações especiais, e por isso foi produzido de forma independente.

"Pequeno Oratório..." terá uma tiragem de 3.000 exemplares e distribuição comercial pela Tempo (tel. 011/240-1027).

Os 16 poemas falam, segundo Archanjo, sobre "a visitação, a presença da musa, ou da beleza, que é sempre 'pré-ante-perdida'. O que fica é a poesia que relata essa aparição e o clamor da perda".

Os títulos dos poemas são haicais que, em sua sequência, configuram um poema em movimento.

Compõem-se de afirmações que vão se metamorfoseando por meio de seus contrários: 

"Era quimera/ e parecia ser o amor./ Era quimera."

Para a autora, "o êxtase da visitação é como um diamante bruto que deve ser lapidado, ou revelado, em seus diversos prismas, até a catarse do poema, da obra".


Livro: Pequeno Oratório do Poeta para o Anjo, de Neide Archanjo (60 págs.) Lançamento: hoje, às 18h, na Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro (av. Rio Branco, 219, tel. 021/262-8255)
Quanto: R$ 25, incluindo encarte com CD
Distribuição: Tempo (tel. 011/240-1027)










































Revista Manchete - 26/7/1997










Foto: Lívio Campos























martes, 25 de febrero de 2025

2024 - OCUPAÇÃO MARIA BETHÂNIA

 


abertura quarta 13 de março de 2024, 20h

visitação de quinta 14 de março de 2024

a domingo 9 de junho de 2014



“O sagrado, a natureza e a palavra

são nossos guias nesse percurso,

que evoca muitos sons em silêncio,

onde se ouve só o mar

e onde estou presente.

Santo Amaro, procissões, 

festas, amigos, familia,

constelações que iluminam o meu céu.

O chão refletindo tudo

Evoca a água que nos é essencial.

Percorre ríos, mares, chuvas

e abriga as sereias.

É para você me conhecer melhor

que ese espaço foi criado.”



Imagem: André Seiti


A homenagem a Bethânia é a 62ª edição do projeto que homenageia grandes personalidades da cultura nacional. Desde 2009, somente da música, o espaço criou instalações dedicadas a Inezita Barroso, Dona Onete, Lia de Itamaracá, Alceu Valença, Dona Ivone Lara, Chico Science, entre outros.

Maria Bethânia celebra 60 anos de carreira com mostra no Itaú Cultural, em São Paulo. A “Ocupação Maria Bethânia” se divide em dois andares, e reúne 100 fotos, além de vídeos, bordados da cantora e depoimentos de artistas influenciados por sua obra. 

A exposição destaca a relação da cantora com a literatura, e com autores como Vinicius de Moraes, Clarice Lispector e Fernando Pessoa. “Quando falo em palavra, falo de palavra e linguagem – no sentido de que a palavra é uma coisa que caminha pela criação de Bethânia, desde o início, através do pai, da mãe, da riqueza do Recôncavo Baiano, e que se transformou na coisa mais importante da vida dela”, explica a curadora Bia Lessa.




Ocupação Maria Bethânia reflete a grandeza da artista baiana 

A exposição, em cartaz em São Paulo até junho, homenageia os 60 anos de carreira da cantora com concepção singular criada por Bia Lessa

 

Por Tomás Novaes

22 março de 2024

 

“É para você me conhecer melhor que esse espaço foi criado”, diz Maria Bethânia, 77, ao final do vídeo que apresenta a exposição que leva seu nome, em cartaz no Itaú Cultural. 

A cantora baiana, que completa seis décadas de carreira, é a grande homenageada da 62ª edição da mostra Ocupação — projeto criado em 2009 para revisitar o legado de grandes nomes da cultura brasileira —, exibida em dois andares do edifício na Avenida Paulista. 

Assinada pelo Núcleo de Curadorias e Programação Artística, liderado por Galiana Brasil, e pela diretora Bia Lessa, essa é, talvez, a mais distinta mostra da série. 

“Essa exposição traz uma transformação no sentido e na forma de fazer, o que tem muito a ver com a própria poética da Bia. A curadoria andou junto com a nossa equipe, mas ela foi a guia”, explica Galiana, 48. 

Desta vez, o esperado percurso cronológico de fotos e textos nas paredes dá lugar a imagens suspensas em posição horizontal por contrapesos de sacos plásticos com água e terra. 

No chão, são refletidas frases escritas detrás das fotografias, estas que passeiam pela vida de Bethânia, sem o compromisso de seguir uma linha do tempo. 

“Guimarães Rosa fala uma coisa que é linda: a cronologia não importa, o que importa é o que está atrás das coisas. Com a cronologia, você vai entender tudo, mas não vai estar próximo da coisa. Nós somos múltiplos, um pedaço de mim que está falando com você agora tem 5 anos de idade e 90 ao mesmo tempo. Eu realmente acredito muito mais no que está por trás das datas”, diz Bia, 65. 

A exposição também marca o vigésimo ano de parceria entre a diretora e o ícone da MPB. Bia assina a cenografia dos shows de Bethânia desde a turnê Brasileirinho, de 2004 — e também vai colaborar no aguardado show Caetano & Bethânia, que estreia no segundo semestre no Rio de Janeiro e passará por cinco capitais antes de chegar a São Paulo, em dezembro. 

“Quem nos apresentou foi Violeta Arraes, nos conhecemos há muito tempo. O que faço não é uma direção, é uma colaboração de trabalhos e da própria vida. Algo que leio e mando para ela, outra coisa que estou fazendo e ela dá um palpite… Temos algumas pessoas que são pilares das nossas vidas, com quem você estabelece uma conexão, e entre nós existe essa troca”, conta a paulistana. 

Diferentemente do trabalho de palco, a mostra é sobretudo um olhar da diretora sobre a cantora, e, por isso, a homenageada não participou ativamente da concepção, nem acompanhou o processo de montagem. 

“O Itaú Cultural tinha o desejo de fazer essa ocupação. Entraram em contato com Bethânia e ela pediu para que eu estivesse à frente, do ponto de vista curatorial e artístico. Temos muita confiança. Eu falei para ela mais ou menos o que havia pensado, e ela disse: ‘Confio em você, faça!’”. 


A primeira sala: frases e fotografias suspensas por sacos de água e terra

 Leo Martins/Veja SP



A primeira sala, no térreo, reúne 98 fotografias, cada uma com uma frase refletida no piso, da própria cantora ou de autores presentes em sua carreira, como Waly Salomão e Fernando Pessoa. O público pode transitar como quiser, cortando caminhos e andando entre os cabos de aço. Os sacos plásticos que sustentam as fotografias representam a água e a terra de Santo Amaro, cidade natal da artista. 

“O que eu mais gosto é que ali você tem uma noção da importância da coletividade na educação do Caetano e da Bethânia. A casa é aberta, as festas são para todo mundo, e, com as fotos horizontais e penduradas, a plateia precisa dialogar, senão um bate no outro. Dentro daquele espaço, que inverte um pouco o céu e a terra com as palavras no chão, você entende o coletivo”, esclarece a diretora. 

Uma das efemérides que acompanham a exposição são os 60 anos do espetáculo Nós, por Exemplo, um dos primeiros passos da carreira da baiana, que ganhou projeção nacional ao substituir Nara Leão no show Opinião, em fevereiro de 1965. 

O ambiente sociocultural no qual surgiu Maria Bethânia é o foco da primeira sala da exposição. “Em Santo Amaro, você está na igreja com música em latim, órgão, e, quando sai, encontra luzes de show, todo mundo dançando funk, beijando na boca, tudo junto e misturado. Não é um sagrado autoritário, é um sagrado que dialoga com o mistério da vida. O espaço do térreo (do Itaú Cultural) é difícil para caramba. Tem a recepção, o bar, a entrada para o auditório… Mas, quando criei, pensei que é um pouco a praça de Santo Amaro”, completa a diretora. 

Ao subir a escada, o público se depara com dois bordados expostos na parede e uma lista de nomes iluminados no teto, que abrem o caminho para mais uma parte imersiva da exposição. O ambiente escuro, rodeado por água no chão e telas nas paredes, exibe, em looping, uma série de vídeos de acervo, depoimentos e outros registros, com duração total de oitenta minutos.

 

A segunda sala, no 1º andar: instalação audiovisual

Leo Martins/Veja SP



“A sala é tecnológica e, ao mesmo tempo, o conteúdo é tabaroa, popular, samba de roda. É uma das características de Caetano e Bethânia: ter um pé muito profundo na tradição e uma antena para o futuro”, diz Bia. 

Com possibilidade de assistir à instalação sentado ou em pé, os vídeos incluem falas de poetas, escritores e compositores com quem Bethânia possui profunda conexão, como Sophia de Mello Breyner, Mia Couto, Ferreira Gullar e Clarice Lispector. 

Um dos momentos mais bonitos é o registro da artista cantando Um Índio, música de Caetano Veloso, envolta por imagens da Via Láctea. Na escada que conecta os dois ambientes, outros elementos integram a expografia. 

“Coloquei um vento para que as pessoas, ao subirem a escada, sintam como se o prédio fosse derrubado e a vida natural entrasse naquele lugar. É como se, de alguma forma, o espectador passasse a ser também objeto da exposição”, explica Bia. 

Sem apresentar respostas ou definições, a mostra está à altura da grandeza da figura de Bethânia, ao iluminar sua vida e obra com a subjetividade inerente à artista. 

“Espero que as pessoas sejam tocadas ou pelo discurso, ou pela intensidade, ou pelo entendimento de como a tradição e o futuro são duas coisas interligadas”, resume Bia. 

Segundo ela, sua concepção passa longe de simplesmente encapsular Bethânia em dois andares de uma exposição. “É impossível. O intuito é exatamente o oposto: fazer ela babar, sair dali, e não conter. O volume alto, os fragmentos, as músicas interrompidas, você não dá conta do todo. É como se você sugerisse algo, mas não completasse”, explica. 

“Gosto muito da ideia de ser uma ocupação, porque eu acho que, de fato, a Bethânia ocupa. Ela ocupa as palavras. Não há como você passar por ela sem se sentir ocupada, quer você goste, quer não”, completa a diretora e parceira artística. 

 

 

Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, 2168-1777. Ter. a sáb., 11h/20h; dom., 11h/19h. Até 9/6. Grátis. itaucultural.org.br.



Imagem: André Seiti



1947 - Roberto, Clara e Bethânia


Maria Bethânia no Rio de Janeiro - Foto: Joel Maia




Fevereiro de 1981 - Santo Amaro 






Leticia Vieira




2015 - Maria Bethânia nos preparativos para a procissão de 2 de fevereiro, em Santo Amaro (BA) - Imagem (autoria e acervo): Mendão Santos





Foto: Mendão Santos



Foto: Ana Basbaum





Maria Bethânia na Casa das Canoas (RJ)