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miércoles, 4 de marzo de 2020

1977 - PRIMEIRA FEIRA DE BALANÇO


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ÉPOCA - Em 1965, você escreveu o artigo 'Primeira feira de balanço', contra os ataques do crítico José Ramos Tinhorão à bossa nova no livro Música Popular: um tema em debate. Ali já havia um gérmen da Tropicália?

Caetano Veloso - Eu já tinha um lance pop tropicalista no próprio título, inspirado no anúncio de numa grande loja de departamentos em Salvador que liquidava para balanço. Foi uma utilização ready-made. Eu estudava na Faculdade de Filosofia quando alguém me pediu um artigo para a revista Ângulos, da Faculdade de Direito. A esquerda estava entusiasmada com o Tinhorão, que apoiava a xenofobia. Embora eu falasse naquele tempo mal do rock e da Jovem Guarda, o gérmen tropicalista estava ali.
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Fonte:
GIRON, Luís Antônio. A vocação de criticar. Entrevista com Caetano Veloso. Revista Época, n° 390, 7 de novembro de 2005. 





Primeira feira de balanço

Caetano Veloso
1965

I – Parêntesis

    (A julgar pelos artigos histéricos reunidos em livro pelo senhor José Ramos Tinhorão - infelizmente o único a colocar o assunto música popular brasileira em discussão - somente a preservação do analfabetismo asseguraria a possibilidade de se fazer música no Brasil. Embora assim não esteja explícito em palavras no livro, a atuação dos artistas da classe média é (se levarmos até o fim esse raciocínio) apenas um acidente nefasto: não houvesse ocorrido isso e o futuro nos asseguraria pobres autênticos cantando sambas autênticos, enquanto classe-médias estudiosos, como o senhor Tinhorão, aprenderiam os nomes das notas. Restando apenas saber para que aprendê-los.

    Quanto a nós, resta esclarecer por que nos demorarmos no comentário de um livro tão apaixonado, superficial quanto pretenciosos de ser lúcido e profundo: esta comentário parece-nos ter sua oportunidade justificada não apenas no fato de ser o livro do senhor José Ramos Tinhorão o único que toca o assunto agora, mas principalmente, na certeza de que ele representa a sistematização de uma tendência equívoca da inteligência brasileira com relação à música popular. Sem dúvida, por amor à beleza do samba, muitos salvadores têm conduzido seu pensamento de reação à inautenticidade por um caminho enviesado: ao fim de um artigo em que proíbe orquestração, nega Villa-Lobos, desanca as "tentativas nacionalistas" de Carlos Lyra, o senhor José Ramos Tinhorão pára diante do fato absurdo e inexplicável de que João Gilberto é um artista "realmente original")

II – Exposição

    (Qualquer um pode ver claro que os problemas culturais do Brasil estão bem longe de serem resolvidos. Depois da elforia desenvolvimentista (quando todos os mitos do nacionalismo nos habitaram) e das esperanças reformistas (quando chegamos a acreditar que realizaríamos a libertação do Brasil na calma e na paz), vemo-nos acamados numa viela: fala por nós, no mundo, um país que escolheu ser dominado e, ao mesmo tempo, arauto-guardião-mor da dominação da América Latina. Se se fechou o círculo vicioso da economia e da política abjetas, isto é, se os problemas básicos estão distantes da solução a ponto de permitirem soluções às avessas, não será no campo da cultura que nos teremos aproximado de uma autonomia definitiva.

    Não se pense que estas palavras demonstram a tendência simplista de estebelecer uma relação causal entre cada evento político-econômico particular e os fatos culturais: sabemos a que proximidade do ridículo tem-se chegado no afã de fazer uma ligação direta entre a construção de Brasília, a pretensa indústria automobilística e a bossa nova. Entretanto é necessário compreender a impossibilidade de a realidade cultural extrapolar a totalidade que ela compõe).

    A discussão sobre a música popular brasileira - raramente organizada em artigos, uma só vez em livro, mas sempre sugerida em shows e na seleção de repertórios - essa discussão difusa tem-se lançado na direção de algumas conclusões a respeito da validez cultural do movimento que se caracterizou por uma conscientização mais amadurecida da influência do jazz e que veio a se chamar, carioquissimamente, de bossa nova. Os menos ingênuos não esqueceram que há muito os elementos jazzísticos habitam os nossos gostos e os nossos ouvidos: o cinema falado é o grande culpado da deformação de excelentes vocações musicais; isto é, do desenvolvimento técnico malbaratado de artistas como Johnny Alf, Dick Farney: a produção desses rapazes corresponde a uma alienação da classe média subdesenvolvida cuja meta é assemelhar-se à sua correspondente no país desenvolvido dominante, tal como lhe é apresentada pelas cores de sonho do cinema que é produzido para isso. 

    Certo. Entretanto é necessário ir além - compreender esse processo mas sob outro enfoque: tratando-se de arte é sempre perigoso fugir à perspectiva estética. Ora. Depois das invenções impressionistas de Debussy, o jazz foi a maior contribuição para a música erudita contemporânea; como enriquecimento técnico e inovação formal, como nova visão criativa-interpretativa-crítica, enfim, como revolução cultural no seio da música, o jazz no processo alienatório que nos levou a tentar dançar, cantar e mesmo namorar, viver como nos filmes americanos, não teremos entendido corretamente esse processo se não atentarmos para o fato de que o conhecimento do jazz pode representar de qualquer modo, uma necessidade verdadeira de todos os estudantes de música, no mundo: o resultado do trabalho de Carlos Gonzaga e Celly Campello não tem o mesmo sentido do de Luís Eça. Isto é, claramente se diversificam os que querem a todo preço representar diante de si mesmos e dos outros brasileiros a "grandeza" de se parecerem com os americanos porque são americanos, dos que ouviram mais do que tudo, por todos os motivos e mais um que é o fato de eles serem dotados do mistério da musicalidade, o jazz. Sem dúvida, a imitação grosseira da pior música americana e a busca de igualar-se tecnicamente aos melhores jazzmen não são senão dois aspectos do mesmo processo de alienação. Mas quando se começou a falar em bossa nova, outra coisa tinha acontecido: o surgimento do cantor João Gilberto em discos orquestrados por Jobim - lançando os sambas do próprio Jobim - Carlos Lyra - Vinícius de Moraes, revivendo Caymmi & Ary e citando Orlando Silva - o surgimento de João Gilberto tem, musicalmente , um novo significado cuja importância independe do fato de ele ter, por motivos de conforto profissional, transferido residência para New York. Porque em João Gilberto (isto é, nos arranjos de Jobim, na composição de Lyra, de Gilberto Gil, Chico Buarque de Hollanda, no canto de Maria da Graça, enfim, em todos que aprenderam tanto com João Gilberto) o jazz não é senão um enriquecimento da sua formação musical, um ensinamento de outras possibilidades sonoras, com as quais se está mais armado para compor, cantar e mesmo interpretar, criticar, redescobrir a tradição legada por Assis Valente, Ary Barroso, Orlando Silva, Vadico, Noel Rosa, Ismael Silva, Ciro Monteiro, e o grande Caymmi. Quer dizer, o disco chamado "Chega de Saudade" - e tudo o que veio depois com força bastante para ser fiel às suas maiores conquistas (malgrado o inevitável degringolamento publicitário circundante) - esse disco superou a alienação que o antecedeu exatamente por não ter fugido ao reconhecimento dos elementos que enriqueceram inutilmente a técnica dos seus antecessores. E nos armou para revê-los: eles tiveram a importância histórica de, seja por que caminhos que tenha sido, nos colocar na possibilidade do domínio de uma técnica musical resultante de um dos mais importantes movimentos surgidos em nosso século, no seio da música, e que se tornou conhecido pelo nome de jazz.

    Resta saber se tudo isso tem alguma coisa a ver com o samba, essa forma que, levada pelos negros da Bahia, evoluiu no Rio e de lá ganhou o Brasil através do rádio e do disco. Se acompanharmos a evolução do samba até onde nos agrada ou interessa e o cristalizarmos num momento que nos parece definitivo, poderemos nos ater ao samba de roda da Bahia e renegar até o mais primitivo partido alto carioca reagindo contra a possível inauteração do samba, muitos se voltaram para o morro e alguns acreditaram que somente lá ele existe realmente: Carlos Lyra fez um samba sobre esse assunto e foi compor com Zé Kéti e Cartola. Entretanto o samba há muito deixou de se restringir ao morro como houvera deixado de se restringir à Bahia. E ninguém pode de boa-fé, acusar Ary Barroso de uma apropriação indébita por expressar-se em samba sem ter vivido no morro e sem ser semi-analfebeto. De resto, a parceria de Carlos Lyra com o pessoal do morro não resolveu os seus problemas de composição que só vieram a ter sugerida a sua resolução quando ele compreendeu que é nessa tradição, representada por Ary, Caymmi, Orlando, Leo Peracchi, que se inserem os nomes de João, Jobim e o seu próprio - artistas não primitivos cujo trabalho está além do conceito pejorativo, de estilização.
(Ter atingido a consciência de que se pode saber os nomes das notas e estar a par do que vem acontecendo com elas no mundo, sem deixar de ser brasileiro, não é tudo. O problema do músico brasileiro é o problema da libertação do Brasil. Depois de Jobim apareceram, com um atraso de decênios, novos jazzmen subdesenvolvidos, toda a onda publicitária que se fez (na imprensa como nas próprias produções musicais) em torno da obra de João Gilberto; a reação contra isso (da parte dos que admitem que os letrados façam samba), a princípio inspirada com equívocos e acertos nos acertos e erros da protest song, terminou por gerar uma nova onda publicitária, dessa vez fundada em demagogias esquerdizantes; tornou-se, então, comum a combinação ostensivamente ridícula das duas coisas: mocinhas alegres por todo Brasil repetiam os passos inventados por Lennie Dale enquanto, sorriso de Doris Day nos lábios sustentando uma vocalização "just jazzy", discorriam sobre os privilégios ou incitavam os pescadores à luta. Hoje (da parte dos que não admitem samba a não ser primitivo) diz-se que a volta de Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Cartola é a prova definitiva de que a bossa nova, mera onda superficial, dá-se por finda. No entanto essa "volta" não parece passar de uma necessidade da própria bossa nova, um elemento exigido pela sua própria discussão interna. Não há nenhuma volta, eles sempre estiveram lá: até hoje o samba de roda da Bahia permanece a despeito de Pixinguinha. De resto, discos como "Roda de Samba" e "Rosa de Ouro" têm seu sucesso restrito aos universitários. Enquanto o povo (e aqui podemos dar à palavra povo o seu sentido mais irrestrito, isto é, a reunião das gentes) desmaia aos pés do jovem industrial Roberto Carlos.

    Pelo menos por intuição, concluímos que, agora a grande guinada a dar na nossa discussão, é voltar ao ponto nevrálgico que a gerou: rever o legado de João Gilberto. Os grandes sambistas tradicionais continuam produzindo, mais que isso, sambistas novos surgem nos morros cariocas a despeito da corrupção das escolas de samba (os "tradicionalistas" argumentariam melhor se se apegassem à demonstração de sambas como "CoraçãoVulgar" ou "Conversa de Malandro" de Paulinho da Viola, compositor da Portela, de 23 anos). Se quisermos ser fiéis a Paulinho sem deixar de fazer samba, temos de tomar com João Gilberto a melhor lição - a que nos dá sua extraordinária intuição seletiva. 

    Quanto aos grandes problemas, o da verdadeira popularização do samba, da sua volta como linguagem entendida e forma amada de todo o povo brasileiro, o da desalienação das massas oprimidas em miséria, slogans políticos e esquemas publicitários; esses, não os resolveremos jamais com violões).

III – Interpretação

Os sons que Antônio Carlos Jobim organizou com flauta, violinos, bateria, contrabaixo, madeiras, metais e João Gilberto (canto e violão), isto é, a organização sonora que lhe foi sugerida pelo entendimento do violão e do canto de João Gilberto é, ao mesmo tempo, samba popular e música de câmara, com muitos ensinamentos colhidos no jazz. Mas não é jazz. Basta ouvir "Rosa Morena" de Caymmi: um assobio malandro, uma flauta lírica parecem nascer do violão que, por sua vez, resulta das notas e das palavras da melodia; tudo compondo uma peça de forma redonda e acabada. Não se trata de uma superposição de formas nem de uma (como muitas) tentativa (desde a premissa, frustrada) de resolver uma forma pela outra: aqui não se aprimoram as fórmulas conhecidas para dar uma aparência de "jazz" ou de "clássico" ao samba que se interpreta, nem se considera o samba um mero tema a partir do qual se pode realizar uma peça "erudita" ou "jazzística". Todo o conhecimento técnico, adquirido onde quer que seja, está a serviço da recriação da forma samba, do jogo rico que se faz com seus elementos, os sons distribuem-se ritmicamente para reencontrar o gosto pelo gingado, o domínio do ritmo complexo do samba, para, daí, atingir (como poucas vezes se conseguiu) seus conteúdos: a malícia, uma certa nostalgia, o dengo.

    É que João Gilberto é, de todos os tempos, o intérprete brasileiro que melhor compreende a bossa, esse mistério que habita o sambista, e melhor pode jogar com ela. Apenas Orlando Silva houvera intuído de forma tão completa, nuance por nuance, a musicalidade brasileira, sua filigrana. Sendo que João tem a vantagem de ser um músico mais formado: seu violão, sua capacidade harmônica lhe possibilitam estar presente em todo o instrumental que o acompanha, expandir seu canto até a brisa dos violinos, até o gemido do trombone, o ornamento da flauta. Como disse Jobim: "quando Joãozinho se acompanha, a orquestra também é ele".

    Fora da história do jazz, que é principalmente uma arte de intérpretes, raramente um cantor ou um instrumentista chegou a reformular tão profundamente toda uma cultura musical, sugerindo, inclusive, caminhos para os compositores: dos sambas que João Gilberto lançou ("Chega de Saudade", "Saudade fez um Samba", "Insensatez", "Outra Vez", "Coisa mais Linda") podemos dizer, parodiando Jobim, que também são João Gilberto. Porque através dele é que os compositores descobriram, com mais segurança, como organizar seus conhecimentos no sentido de expressar-se com fidelidade à sua sensibilidade de brasileiros.

    Sem dúvida, alguns aspectos da sua maneira peculiar de ver e cantar as coisas foram, de boa ou má-fé, distorcidos pela confusão que se faz entre o que um artista pode dar aos outros em abertura de visão e o que de mais exterior pode ser reconhecido no que há de pessoal em seu trabalho. Equívoco que é a descoberta do tesouro para os que têm o olho fixo nas facilidades comerciais proporcionadas pela redução publicitária: a atitude poética impotente e fresca, a pirotécnica musical, os mil barquinhos e florezinhas e marzinhos azuisinhos tão odiados por Narinha são o resultado final disso.

    Mas os verdadeiros frutos da obra de João Gilberto não são as deformações publicitárias e sua maior conquista não é ter gravado um disco nos Estados Unidos, no qual o esforço simpático de Stan Gets em tocar música brasileira não é bastante para criar interesse por nada além do próprio João cantando "Pra machucar meu coração" ou "O grande amor": os grandes frutos de sua obra são a "Marcha da quarta-feira de cinzas", a briga de Nara que possibilitou o surgimento de Maria Bethânia, as buscas de Edu, Chico Buarque de Holanda, a necessidade de reestudar a música brasileira, o show "Rosa de Ouro"; o fruto de seu trabalho é o trabalho daqueles que souberam discernir entre ensinamento e o estilo. (No fundo o que gerou muita confusão foi o fato de o gosto poético musical de João ser aquele que só vamos encontrar realizado em Caymmi, compositor. Isto é, uma forma muito mais próxima dos sambas da Bahia do que do sambão. Muitos acreditaram que o negócio era basear-se nessa diferença e alguns - porque, de resto, o grande sambista Dorival Caymmi nunca foi devidamente reconhecido em sua grandeza - acusaram Joãozinho de assassino do sambão, pra eles o único verdadeiro samba).

    O fruto do trabalho de João Gilberto é o trabalho daqueles que aprenderam com ele apenas porque uma canção só tem razão se se cantar.

IV – Depoimento

    O que chamamos, hoje, de música popular não passa de uma forma vulgar de expressão poético-musical. Na medida em que se tornou um jogo inculto e semi-erudito de formas várias, de elementos colhidos em diversas tradições, tendendo a quedar desligado de qualquer tradição e, sendo vinculável a cultura nenhuma impotente de impor-se, ele próprio, como tal. Isto é: o samba, passando a ser divulgado pelo rádio e pelo disco, (vale dizer - por e para a classe média), mostra uma linha de evolução clássica (no sentido de coerente com a organicidade evolutiva de uma cultura) bastante tênue e interrompida, perdida no emaranhado flutuante da mediocridade. Ou ainda: os sambas primitivos da Bahia, os partidos-altos e sambas-de-morro cariocas, etc. são uma cultura; mas o resultado global do que sai em disco e se ouve no rádio não significa absolutamente nada. Mais: é diluída na incultura apátrida que o artista que necessite vai buscar a possível continuidade evolutiva de uma forma de expressão das mais importantes na sugestão de uma cultura brasileira; e através do mecanismo comercial que exige essa diluição é que ele leva à feira os seus trabalhos.

    É a duras penas que o samba aflora com espontaneidade em Ary possivelmente ninguém perfez uma obra como a de Caymmi: a tendência de ampliar os meios expressivos esteve sempre a serviço da vulgarização.
Penso que este ainda é o nosso problema, ou melhor, que o movimento que surgiu com o nome de bossa nova valeu principalmente por nos exigir a colocação desse problema. Vejo que é a muito duras penas que se conseguem alguns momentos de organicidade em nosso trabalho; que raramente alguma coisa reconhecível se adensa para logo depois se perder na confusão: a gente faz um samba quase sem querer de tão bonitinho, exulta por acreditar ter realizado um bom momento na trajetória dessa linguagem - eis que são tão poucos os músicos ainda capazes de ouvi-lo, enriquecê-lo, compreender o que ele pode significar, aprender com ele ou, no correr dahistória, reensiná-lo; e mesmo esses têm poucas oportunidades de se responderem uns aos outros. É simples: se eu componho porque gosto do samba e tento - tendo aprendido a cantar com Ciro, Noel, Lyra, Caymmi - voltar ao lirismo simples do samba de roda e lançar o resultado disso para o futuro, isto é, para Gracinha, Chiquinho, Edu, Berré, aí eu me concedo pensar que estou fazendo alguma coisa e creio na validez de continuar fazendo, mas se a tentativa que exigia ser entendida e complementada termina por trasmitir-se numa linguagem fragmentada ou, mesmo quando se insinua uma unidade semântica, por vender-se na feira de retalho onde suing, cool, renascença, poesia brasileira moderna, blue, esquerdismo, bop e até samba são comprados em quantidade de liquidação, aí tem-se que reconhecer que não se está dizendo nada.

    Com os meios de divulgação (servindo-se da) mediocrização das massas, o samba e sua discussão interna são do interesse de uma elite. Os grandes sambas tradicionais do Rio de Janeiro cada vez se afastam mais do carnaval. Sem demagogia, temos de reconhecer que mantemos acesa a brasa do samba graças ao interesse de uma facção da juventude universitária pelo futuro da cultura no Brasil. E isso diz respeito a todos nós - de Edu a Batatinha. Quando João Gilberto, de volta aos Estados Unidos, recusou-se a cumprir um contrato em São Paulo, um jornalista afoito acusou-o de temer a concorrência com a "nova fase" da música brasileira, e de estar desatualizado em relação a ela. Eu acho que a gente não se deve deixar enganar: estamos ainda na primeira etapa; a inevitável eclosão da bossa nova é, comercialmente, natimorta e, culturalmente, vive safando-se do comércio, tanto quanto precisa dele, o que lhe possibilita apenas andar bem devagar. Estamos tentando a linha perdida. Há uma facção da juventude brasileira que não aceita com facilidade a aplicação que se faz - na interpretação de fenômenos publicitários que sustentam algumas mocinhas tão suburbanas quanto Emilinha Borba e rapazes a meio caminho entre beatle e Francisco Carlos como ídolos - de frases (mais ou menos inteligentes) ditas na Europa a respeito de juventude e "ritmos alucinantes" porque, encontrando-se bem mais diante de uma realidade difícil mas palpável do que do caos, não as pode considerar aplicáveis a ela própria. Bem mais preocupados em assumir e resolver essa realidade, os jovens brasileiros exigiram-se rever suas tradições e criar uma cultura verdadeira que os sedimente como brasileiros. No seio da música, esta é a primeira investida: as primeiras discussões que foram postas ainda não foram ultrapassadas. Esta terminou sendo, também, a primeira investida publicitária, em grande escala, da música brasileira: na feira onde balanço, bostela e monkey se equivalem, é que tentarmos vender a nossa busca do samba em paz.



































2005


jueves, 13 de julio de 2017

2005 - O MUNDO NÃO É CHATO


VELOSO, Caetano. O mundo não é chato. Org. Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das letras, 2005.


VELOSO, Caetano. O mundo não é chato. Organização e prefácio de Eucanaã Ferraz. Quasi Edições, 2007.


VELOSO, Caetano. El mundo no es chato – Antología textual. Org. Eucanaã Ferraz. Marea Editorial, Buenos Aires, 2015. 344 págs.



















1/11/2005 - Caetano Veloso durante entrevista sobre seu novo livro de ensaios "O Mundo Não É Chato" em Studio na Gávea, no Rio de Janeiro (RJ) 
Fotos: Marcos Cruz/Folhapress









3/11/2005

Caetano, que lança livro, critica Lula

LUIZ FERNANDO VIANNA da Folha de S.Paulo, no Rio

Oito anos depois de "Verdade Tropical", o ensaísta Caetano Veloso está de volta. "O Mundo Não É Chato" (Companhia das Letras), que chega às livrarias no fim de semana, é uma reunião de textos produzidos pelo compositor desde 1960 e organizada pelo poeta Eucanaã Ferraz. Também está saindo um volume da coleção Folha Explica (R$ 16,90; 200 págs.) dedicado a Caetano e escrito por Guilherme Wisnik.

Nesta entrevista, ele se diz uma caricatura de intelectual, afirma que o governo Lula é o "campeão da inoportunidade" e chama de "oportunista" o cantor Fagner, que o atacou em entrevista à revista "Veja". Ao saber da declaração, Fagner disse que não procurou a revista, não copiou a palavra "inoportuna" de uma entrevista de Caetano ("Ele quer ser dono do dicionário agora?") e só deu uma opinião sobre o referendo do desarmamento ("Então 70% do povo brasileiro é fascista?"). Mas pede desculpas a Caetano se pareceu que queria associá-lo ao PT e vê o assunto como encerrado. "Continuo gostando dele", diz Fagner.

Folha - Em um texto de 1972, você escreve: "Como Glauber, tornei-me uma caricatura de líder intelectual de uma geração. Nada mais. Um ídolo para o consumo de intelectuais, jornalistas, universitários em transe". Ainda há atualidade nessa afirmação?
Caetano Veloso - Relendo esse texto, eu fico um pouco envergonhado. Acho meio presunçoso. Mas não que seja errado. Acho que é mais caricatura do que de fato um negócio a sério. Continuo achando, como escrevo nesse texto, que nunca houve no Brasil uma figura popular com tanta pinta de intelectual.

Folha - Uma idéia central de seus textos é a da originalidade brasileira. Você continua acreditando nela mesmo quando, no campo da política, a nossa mais original experiência parece não estar sendo tão original assim?
Caetano - Eu penso basicamente da mesma maneira. A nossa obrigação de apresentar alguma coisa relevante ao mundo é inelutável. Porque nós somos esse país gigantesco, no hemisfério Sul, na América, no Terceiro Mundo, falando português e altamente miscigenado racialmente. É muita coisa junta para que você não assuma a responsabilidade de exercer essa originalidade.
O fato de o governo Lula ser mais ou menos decepcionante não é tão relevante para essa questão. E não era desde antes. Votei em Lula, mas não tenho grandes decepções. O meu candidato era Ciro Gomes, que pirou do meio para o fim da campanha e praticamente me pediu para não votar nele, por causa de coisas que fez e disse. Mas eu gostava dele, a quem conhecia desde que fora prefeito de Fortaleza e por causa do livro que assinou com Roberto Mangabeira Unger. Mangabeira é um pensador tão responsável que acho que o Brasil não pode se dar ao luxo de ignorar.

Folha - Você se decepcionou com a entrada dele no partido da Igreja Universal [Partido Republicano Brasileiro]?
Caetano - Nem me surpreendeu. Ele escreveu um livro que se chama "Política", em que, ao estudar de uma maneira pragmática que contribuição podem os grupos religiosos trazer para a solução dos problemas brasileiros, ele destaca as igrejas evangélicas como o que há de melhor nessa questão, acima dos grupos da Teologia da Libertação.
Como eu tenho confiança nele, até segunda ordem, não acho que entraria em um partido que fosse da Igreja Universal. Não é por ser contra ou a favor das igrejas evangélicas. O que eu acharia inaceitável era que ele, pensando o que pensa, integrasse um partido que pertence a uma igreja. Isso é incongruente com a idéia de democracia que ele defende. Seria de uma contradição inaceitável. Estou esperando o desenrolar dos acontecimentos.

Folha - Em um texto do show "Circuladô", usado na abertura do livro da coleção Folha Explica, você falava sobre o conservadorismo que está no ser do Brasil. A vitória do "Não" no referendo sobre armas de fogo é uma demonstração disso?
Caetano - Eu próprio quase votei "Não". Anulei. Acho que essa vitória do "Não" é uma resposta à falta de senso de oportunidade deste governo, que é o campeão da inoportunidade. Se o Lula fosse Lula, o [José] Dirceu tinha que ter saído [do ministério] no caso Waldomiro Diniz [em 2004]. É tudo fora do tempo, meio malfeito. O referendo não devia estar no Estatuto do Desarmamento, porque ele é contraditório com o próprio estatuto. O povo foi sábio, intuiu isso.
Mas o resultado eu acho negativo, porque deu uma impressão de que ter armas é um direito. Ou seja, deu lugar a essa gente fascistóide botar a ideologia deles. O brasileiro não é o americano. Pára de imitar americano! São os pretos, os veados, todo mundo imitando americano, que diabo é isso? Ah, o direito de andar armado para se defender... Mas os brasileiros vivem armados para se defender? Não vejo isso. A questão não estava posta, ganhou uma propaganda que não merecia.
Sou desarmamentista em todos os níveis. Mas não sou burro. Houve burrice. É um momento em que o governo não está podendo fazer campanha de nada, porque ninguém está acreditando neles. Eles estão sob suspeita, em uma grande crise. Deviam fazer o que um governo deve saber fazer: driblar o negócio, passar para adiante, para o próximo governante, que eu espero que seja outro. Espero isso desde o início e disse isso em público.

Folha - Mas como você viu colegas seus da envergadura de Chico Buarque e Fernanda Montenegro participando da campanha do "Sim"?
Caetano - Entendi perfeitamente. Eu quase que faria algo assim, se fosse possível, oportuno e razoável. Mas não me pareceu. Eles estavam atraídos a fazer aquilo porque têm a melhor das intenções. É mais triste ver colegas meus como Fagner festejando com os fascistas, em tom fascista. Isso é tétrico. Denota uma certa burrice na tentativa de ser oportunista para tentar se notabilizar.
Nos anos 70, o Fagner falou que eu não tinha capacidade criadora e, por isso, estava impedindo que ele e outros colegas novos aparecessem. E eu ainda não tinha lançado "Sampa", "Terra" e tantas outras. E ele, o que é? Vai para a revista ["Veja"] dizer que eu estava fazendo uma campanha em que eu não estava. E disse que era uma campanha inoportuna, usou uma palavra roubada da minha entrevista [ao jornal "O Globo"].

Folha - No release do CD "A Foreign Sound", você diz: "Gravei-o agora porque posso fazer qualquer coisa". Você pode parar tudo, por exemplo, e fazer um filme?
Caetano - Quando eu falei aquilo, estava um pouco desmerecendo o projeto. Os americanos da [gravadora] Nonesuch, os brasileiros da Universal, o pessoal deste escritório [Natasha] ficavam em cima de mim para eu fazer "A Foreign Sound". Fiz com todo o amor, mas não achava aquilo relevante. Fiz como quem pode fazer qualquer coisa.
Posso parar e fazer um filme? Posso. Mas é preciso saber se eu sinto que vale a pena, pois significa parar uma porção de coisas para muita gente. E estou com tanta vontade de fazer canções, me vieram tantas idéias, que agora tenho que organizar meu tempo para fazer essas coisas que passam na minha cabeça.








2005
Revista ENTRELIVROS
Novembro
Ano I – n° 7
© Duetto Editorial


O papo qualquer coisa de Caetano

Reunião de textos escritos desde os anos 60 resgata a voz de prosador do artista

por Denise Góes

Caetano Veloso veste um parangolé do artista plástico Hélio Oiticica, na capa do livro Marginália, de Marisa Alvarez Lima

Para uns, ele tem sido bússola. Para outros, desorientação. De um jeito ou de outro, Caetano Veloso sempre foi mais do que cantor e compositor. Nas últimas quatro décadas, provocou polêmicas com músicas, comportamentos e opiniões. Recusou o papel de guru. "Não precisa ninguém me acompanhar", cantou. Mas nunca deixou de expor suas idéias. E o fez com eficiência, aliando articulação e uso da mídia.

Esse Caetano articulista, prosador, ensaísta em seus melhores momentos, emerge de O mundo não é chato, uma coletânea de textos organizada por Eucanaã Ferraz que sai pela Companhia das Letras. São artigos, releases e críticas, escritos em diferentes momentos. Uma viagem que começa com os primeiros textos do jovem crítico de cinema dos anos 60, passa pela correspondência gerada no exílio londrino dos anos 70 e chega ao discurso mais recente. É um papo sobre qualquer coisa: da censura ao amor, da estética à política, da sexualidade à manipulação da imprensa.

Como afirma Ferraz, na apresentação da obra: "A escrita de Caetano impressiona sobretudo por sua visão dos matizes a meio de uma coisa e outra, por sua procura extremada, e nunca concluída, por um ponto em que instalar a palavra, apta a exercer sua razão ética, estética e política". Para Ferraz, a prosa de Caetano é um posicionamento político. Um olhar político sobre a música, o brasileiro, o Brasil e sobre ele mesmo.

O livro reúne 90 textos, divididos por temas: Brasil, música, discos, cinema, teatro e literatura, gente, estrangeiro e prosa, com impressões, opiniões e desabafos. Organizados sem ordem cronológica, deixam fluir o sentimento instantâneo, revelando o que pensa o artista no momento em que fala de uma peça, de um fenômeno cultural, do exílio, ou de outro personagem do cenário cultural.


Glauber, resenhado pelo crítico Caetano
Apenas dois textos são inéditos. "Sou pretensioso", ensaio em que Caetano escreve sobre sua vontade de ser cineasta e relata sua experiência em O cinema falado, único filme dirigido por ele, em 1986. Lançado no Festival de Cinema do Rio, o filme provocou críticas apaixonadas e em 2003 voltou a ser discutido após o do lançamento em DVD. No outro texto, "Saindo do centro", Caetano é enfático: "Eu escrevo porque penso demais". E reafirma sua paixão pela prosa: "Eu quero escrever de modo que o prefácio, o julgamento e até mesmo a propaganda e a detração a mim possíveis no ato mesmo da escrita façam parte do corpo da obra".

Se em Verdade tropical, autobiografia lançada em 1997, Caetano relembra fatos e descreve episódios, nessa coletânea estão os textos originais, a fonte primária de tudo que ele já havia descrito em detalhes. Chamam a atenção as críticas de cinema feitas para jornais da Bahia e a série de artigos enviados durante o exílio para O Pasquim.

Ao deixar Santo Amaro da Purificação, no interior da Bahia, aos 18 anos, Caetano Veloso encontrou na Salvador do início dos anos 1960 intensa atividad e cultural. Ainda sem um rumo definido, Caetano vive essa agitação cultural e dá os primeiros passos na carreira musical.

Ao mesmo tempo, amante do cinema, em especial, do cinema italiano, escreve críticas para os jornais Diário de Notícias, de Salvador, e O Archote, de Santo Amaro da Purificação. Os textos revelam um Caetano articulado, apesar de uma linguagem ainda rebuscada, mas com uma noção clara da função de crítico: "E a missão dos críticos não pode ser ensinar-nos o que é cinema, mas induzir-nos a estudá-lo; é espicaçar no espectador inteligente a curiosidade sobre a arte cinematográfica; é levá-lo a procurar ler os compêndios que já foram escritos sobre a cinestética. É orientá-lo".
E é como espectador privilegiado que Caetano analisa Barravento, o primeiro longa-metragem do conterrâneo e amigo Glauber Rocha, e acompanha o surgimento e a consolidação do Cinema Novo como movimento estético do cinema nacional.

Também nesta seção dedicada ao cinema estão artigos mais recentes sobre ídolos da juventude como Fellini e Giulieta Masina e um texto que relembra uma de suas inúmeras discussões polêmicas, desta vez sobre a proibição do filme do diretor franco-suíço Jean-Luc Godard, Je vous salue Marie, que agitou os meios culturais na década de 80. Sem nunca deixar a música como parâmetro, em "Parece um filme menor" Caetano escreve sobre o filme Cazuza, o tempo não pára. Para ele é o primeiro grande filme musical brasileiro e "marca o encontro verdadeiro do nosso cinema com a nossa música popular".

Em outro recorte na vida de Caetano Veloso, o livro remete aos anos 70. Primeiro aos tempos longe do Brasil, longe da Bahia, no exílio, e depois em artigos e críticas sobre personalidades da cultura brasileira. A maior parte dos textos dessa fase foi escrita para O Pasquim, tablóide surgido em plena ditadura militar, pelas mãos de Millôr Fernandes, Jaguar, Ziraldo, Tarso de Castro e Luís Carlos Maciel, que se reuniam num bar da zona sul do Rio. Nas páginas de O Pasquim ficaram registradas as críticas mordazes e irreverentes ao Brasil oficial.

Em 1969, depois de dois meses presos, e de um período de confinamento na Bahia, Caetano e Gilberto Gil são "convidados" a deixar o Brasil e vão para Londres. Caetano passa a escrever suas impressões de exílio para O Pasquim. Nas páginas do jornal carioca, o músico baiano solta o verbo e responde a críticas feitas pelo poeta Ferreira Gullar a João Gilberto e Sérgio Mendes; analisa a música pop nos anos 70; fala sobre um novo disco de Gal e mostra todo o saudosismo ouvindo Luiz Gonzaga e Maria Bethânia. Foi nas entrelinhas dos artigos, no entanto, que Caetano deixou transparecer o quanto o exílio o marcou. Reflexões sobre a vida em um outro país, uma língua diferente. O olhar distante sobre os rumos políticos e culturais do Brasil.
Em um desses artigos, "Hoje quando eu acordei", é um Caetano triste que define: "Quando um homem vê a sua cara no espelho, ele vê objetivamente em que estado a vida o deixou". Escrito em dezembro de 1969, ninguém na época percebeu a referência feita no fim do texto à morte do líder da guerrilha urbana Carlos Marighella: "Nós estamos mortos. Ele está mais vivo do que nós".

Também baiano, Marighella foi um líder comunista que combateu a ditadura de Getúlio Vargas e o regime militar, dessa vez como dissidente do Partido Comunista Brasileiro. Morreu numa emboscada em São Paulo, no dia 4 de novembro de 1969. Em Verdade tropical, Caetano lembraria do episódio. O texto para O Pasquim fora escrito após receber uma revista brasileira onde na capa apareciam as primeiras fotos do exílio ao lado de uma outra, na qual Marighella aparecia morto.

Pouco tempo depois, em 1972, já de volta ao Brasil, Caetano passaria de colaborador a alvo de críticas da turma do Pasquim. A principal delas estaria relacionada a uma suposta decepção política em relação ao músico baiano. Talvez para responder ao jornal, Caetano escreve um artigo para a revista Verbo encantado, de Salvador, no qual desabafa: "Estou contente, até certo ponto, de vez que, como eu esperava a minha volta ao Brasil, a minha decisão de vir morar aqui no Brasil deixou à vontade pessoas que tinham necessidade de discutir e não apenas louvar o meu trabalho". E vai além: "Mas acontece que não só alguns saudavelmente se descontraíram para reiniciar um papo comigo, como também alguns outros se alvoroçaram doentes para me esquartejar e me lançar ao caldeirão".

São ainda dos textos dos anos 70 que emergem algumas referências a nomes como Milton Nascimento, Elis Regina, Jorge Mautner e Jorge Ben, hoje Jorge Ben Jor. Amigos e parceiros a quem Caetano dedica palavras de admiração e carinho. Sobre Milton, Caetano derrete-se: "Milton é nossa grande alegria". Para Elis, manda um recado: "O show business é um bichopapão muito bonito e você engole ele: essa é a mensagem que você passa pra todos os seus colegas de profissão". Em Jorge Mautner e Jorge Ben, Caetano destaca a liberdade criadora, um tanto anárquica.
Em certo momento, Caetano relembra os Doces Bárbaros - reunião com Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa em 1976 - e narra a prisão de Gil e do baterista Chiquinho Azevedo, em Florianópolis, detidos por porte de maconha, durante excursão do show. Caetano: "Nós não saímos para discutir as leis nem a moral. Nem a religião, nem a política, nem a estética. Nós não saímos para discutir. E não discutiremos".

A forte ligação entre Caetano e a irmã Maria Bethânia está refletida em dois textos, um feito para a apresentação do livro Maria Bethânia (Intersong), de Marisa Alvarez Lima, e outro para a revista Careta, do Rio de Janeiro, ambos de 1981. É com carinho e poesia que Caetano a descreve como "pequena e franzina, que deixa o espírito sair pela boca e queima a carne com a luz dos olhos".

O livro também revive, pelos textos escolhidos, o Caetano polêmico, às vezes furioso, ao defender a importância da bossa nova para a música popular brasileira, ao falar sobre o tropicalismo e ao reviver a discussão em torno do cachê de Paulinho da Viola, em show na praia de Copacabana, zona sul do Rio, durante o réveillon de 1995.

A idéia de reunir artistas representativos do cenário musical para homenagear Antonio Carlos Jobim, morto em dezembro de 1994, acabou gerando polêmica em torno de diferentes cachês pagos a artistas como Gal Costa, Milton Nascimento, Chico Buarque, Gil, Caetano e Paulinho da Viola. A discussão ganhou as páginas dos jornais e Paulinho da Viola teria ficado magoado com a atitude dos organizadores do show. Em carta enviada ao Jornal do Brasil, Caetano acusa a imprensa de alimentar a discussão. Falando de Paulinho da Viola, Caetano vocifera: "Não admito que um bando de imbecis ressentidos venha me ensinar a respeitá-lo. Na qualidade de seu amigo, colega e devoto protesto contra a ignomínia de terem-no feito posar de vítima".

Numa outra polêmica que teve repercussão, foi um Caetano indignado que escreveu um longo artigo para a Folha de S.Paulo, em 1993, em que rebate afirmações feitas pelo então correspondente do The New York Times no Brasil, James Brooke. Em seu artigo, o jornalista americano usara Caetano e Gil como exemplos para discutir a atitude dos brasileiros em relação ao homossexualismo. Os músicos baianos são descritos como "bissexuais que usam vestidos em público". A afirmação deixou Caetano possesso, como é possível perceber no texto.

Sem unidade, que de resto não se pode cobrar de uma reunião de textos de natureza tão distinta, o livro de Caetano tem o mérito de resgatar o calor do momento - e alguns deles foram realmente quentes. No lugar do filtro do retrospecto, que faz de Verdade tropical um grande ensaio memorialístico, o fragmento, a sacada, a resposta de bate-pronto. Ninguém precisa concordar com Caetano para admitir que, com ele por perto, o mundo não é chato.


Pequeno dicionário de idéias em construção

"Se você tem uma idéia incrível, é melhor fazer uma canção; está provado que só é possível filosofar em alemão."

Caetano Veloso não ouviu o próprio conselho. Em O mundo não é chato, põe o violão de lado e dá umas filosofadas que poderiam render boas músicas. De qualquer maneira, não se sai mal como livre-pensador. Gustave Flaubert escreveu o Dicionário de idéias feitas. As idéias de Caetano, mal comparando, nada têm de lugar-comum. Os verbetes abaixo, retirados do livro, poderiam ser um "Pequeno dicionário de idéias em construção".

ADVERTÊNCIA Eu mesmo sou contra tudo que penso. Portanto, ninguém tome ao pé da letra nada do que eu digo. Nem ao pé da letra, nem de nenhuma outra forma. Ou melhor: tome de qualquer jeito, que vem dar no mesmo (1970).

BURGUESIA A burguesia não tem força moral para exigir nada dos jovens que a despreza. Enquanto ela era sinceramente errada, sinceramente errados nasciam os seus filhos, agora ela é falsamente boazinha, os jovens não crêem nela nem em si mesmos (1961).

CARMEN MIRANDA Ela era a nossa [dos tropicalistas] caricatura e nossa radiografia (1991).

CAZUZA Podemos chorar de saudade de Cazuza. Mas sempre tornamos a nos alegrar com sua presença divertida e desafiadora, porque ele é uma das pessoas que mais sabem expressar este fato dificílimo de entender e admitir: os humanos somos todos imortais (2001).

CINEMA Procurar saber sobre arte cinematográfica não é apenas um passatempo esnobe, mas uma necessidade cultura e do homem moderno (1960).

"É PROIBIDO PROIBIR" [O slogan anarquista pintado nos muros da Paris de 68 e que virou refrão de canção] é uma deliberada transgressão das leis da lógica que, com sua carga de humor e poesia, não atrapalha os verdadeiros amantes da razão (1999).

ESTADOS UNIDOS Amo os Estados Unidos. Apenas não exijo do Brasil menos do que levar mais longe muito do que se deu ali e, mais importante ainda, mudar o rumo de muitas linhas evolutivas (1993).

GILBERTO GIL Gil é um grande inventor que não registra patente (1992).

FELLINI A palavra saudade, que é a palavra emblema da língua portuguesa e é o nome do que eu sentia (e sinto) em relação a Federico e Giulietta Masina, uma saudade infinita por nunca tê-los visto em pessoa, por ter conversado com eles (muitas vezes) apenas em sonhos (1999).

FERNANDA MONTENEGRO Sendo ao mesmo tempo o oposto de uma excêntrica e o contrário de uma medíocre, Fernanda nos comunica responsabilidade (1990).

GAL COSTA Gal participa dessa qualidade misteriosa que habita os raros grandes cantores de samba: a capacidade de inovar, de violentar o gosto contemporâneo, lançando o samba para o futuro, com a espontaneidade de quem relembra velhas musiquinhas (1967).

IMPRENSA O Cruzeiro não é verdadeira manchete. Fatos e fotos não é o verdadeiro intervalo. Veja não é a verdadeira realidade (1970).

INSPIRAÇÃO Inspiração quer dizer: estar cuidadosamente entregue ao projeto de uma música posta contra aqueles que falam em termos de década e esquecem o minuto e o milênio (1975).

JOÃO GILBERTO É, de todos os tempos, o intérprete brasileiro que melhor compreende a bossa, esse mistério que habita o sambista, e melhor pode jogar com ela (1965).

LÍNGUA PORTUGUESA Amar a língua portuguesa é amar sua capacidade como instrumento universal; falar português é livrar- se da prisão do português (1993).

LONDRES Aqui é o estrangeiro. O inf(v)erno (1969).

LUIZ GONZAGA Ele foi o cara que, no seu tempo, mais e melhor explorou a riqueza possível dos novos meio técnicos. Ele inventou uma forma de conjunto, um tipo de arranjo, um uso do microfone (1970).

MARIA BETHÂNIA Tenho tido muita inveja de Bethânia porque na minha fantasia os acontecimentos da vida dela possuem uma espécie de inteireza diante da qual a minha própria vida parece consistir numa série de imprecisões e transparências (1981).

MILTON NASCIMENTO Milton é um buraco preto. Milton é a mãe de Nina Simone, a avó de Clementina, o filho futuro do neguinho que a gente via upa na estrada do Zumbi de Edu, de Guarnieri, de Elis. Milton é nossa grande alegria (1976).

MITO O que talvez tenha dificultado tudo desde sempre é o fato de nunca antes ter havido no Brasil uma figura popular com tanta pinta de intelectual quanto eu. Não sou um mito nacional, na medida em que Pelé o é, na medida em que Roberto Carlos o é. Nem pretendo sê-lo (1972).

MPB A música popular brasileira não se renova a cada semana. É verdade. Como o povo mesmo, ela é densa, complexa, custa a mudar. Nenhum avanço real é uma pequena mudança (1970).

MÚSICA X CINEMA Faço música popular e sou apaixonado por cinema. Minha música está cheia de imagens invisíveis que vieram das grandes telas (1997).

PARIS Eu gosto de Paris porque é como se de repente Recife virasse o Rio de Janeiro (1969).

PAULINHO DA VIOLA Um abraço sempre novo em Paulinho da Viola cantando, um abraço pelo seu sinal. Paulinho é um grande amor. Deve ser a pessoa de quem mais gosto no Rio de Janeiro que passou em minha vida (1970).

POLÍTICA Era um otimismo tolo crer na força dos ideais de justiça social transformados em slogans nas letras das músicas e em motivação de programas de atuação (1993).

RACISMO Freqüentemente vejo surpresa - às vezes um estranho prazer -- no olhar de quem flagra evidência de racismo entre brasileiros. Mas o que me surpreende é que tais flagrantes possam provocar espanto tão cândido (2000).

TINHORÃO Era preciso odiar com mais veemência as sandices de José Ramos Tinhorão [crítico musical]. Como é que as revistas brasileiras dão espaço àquele bobão? (1969)

TROPICALISMO Tropicalismo foi o apelido que ganhou o resultado de nossa ambição, em 67, de mudar a atitude em relação à estética, à política e ao mercado de música popular no Brasil (1992). O valor do Tropicalismo se resume a sua coragem de gritar que não podemos fugir às responsabilidades criadas por João Gilberto e Tom Jobim (1999).

TROPICALISTAS Nós, os tropicalistas, éramos pessimistas, ou pelo menos namoramos o mais sombrio pessimismo (1993).

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