Compositor: Ary Barroso
Gravação original com Francisco Alves e orquestra
de Radamés Gnatalli, em disco 78 rpm, nº 11768, de 18 de agosto de 1939.
Direitos autorais de Irmãos Vitale S/A Industria e
Comércio.
Acervo digitalizado de la obra de Caetano Veloso, organizado por Evangelina Maffei [Buenos Aires, Argentina] Fecha de inicio: 2/12/2010. Sitio oficial de Caetano Veloso: http://www.caetanoveloso.com.br
Compositor: Ary Barroso
Gravação original com Francisco Alves e orquestra
de Radamés Gnatalli, em disco 78 rpm, nº 11768, de 18 de agosto de 1939.
Direitos autorais de Irmãos Vitale S/A Industria e
Comércio.
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Jan, Marlene Moura, Guilherme Araújo, Marisa Alvarez Lima, Guto Burgos e João Vitorino |
Texto de Caetano Veloso para a Revista Status - fevereiro de 1985
Gal só me surpreendeu uma
vez: quando a conheci e a ouvi cantar. Foi uma surpresa tão grande e tão
profunda que ainda hoje vivo sob o seu impacto. Na hora eu pensei: "A
maior cantora do Brasil". Dai em diante foi só acompanhar os modos com que
essa constatação procurou se confirmar. Primeiro era a possibilidade de
realização da cantora de bossa nova ideal, com a combinação exata da emissão e
feeling que eu não encontrava em nenhuma outra (virtude ainda hoje intacta, a
chuva de prata da sua voz cobrindo o País). Depois a realização do rockcarnaval
tropicalista que a tornou estrela. Para mim, sempre mais cantora do que
estrela, embora esse estrelato tenha sido quase sempre uma exteriorização do
brilho de sua personalidade que antes só se revelava (e ocultava) no canto.
Ouvi-la e, talvez principalmente, vê-la cantar Força Estranha foi, para mim, tomar contato com um momento
de integração equilibrada entre as três dimensões - pessoa, estrela, cantora.
Vê-la cantar o Balancê foi
entrar em relação direta com o mito: chorei quase duas horas seguidas depois de
assistir o show "Gal
Tropical" só por causa do Balancê. Marina me alertou para o fato de que é perigoso
manter uma fidelidade assim, obstinada, à luz que se vê numa pessoa,
independente do que acontece com ela ou do que ela faz: nega-se-lhe o drama,
todas as mudanças aparecem ilusões de superfície, aprisiona-se a pessoa. De
todo modo, creio que só eu compartilhei com Marina da opinião favorável ao show
"Fantasia", no meu entender o melhor espetáculo que Gal apresentou
desde "Fatal",
com exceção talvez de "Cantar",
mas "Cantar" fui
eu que dirigiu... os números finais de "Gal Tropical" eram lindos, mas o todo do show era
muito estranho pra mim. "Fantasia" não pareceu (a mim e a Marina)
forte, grande e sincero. Às vezes tenho certeza de que esse show teria sido um
sucesso se tivesse sido lançado em São Paulo, onde o "Tropical" não
pegou como temi que o meu "Velô" talvez ão começasse bem no Rio. Mas
eu gostaria que as pessoas pudessem ver Gal como eu vi no "Fantasia".
Estou absolutamente certo de que é um equivoco profundo e perigoso que assim
não seja e muitas coisas não andarão bem enquanto isso não se der. Ali sim, eu
a vi lindíssimamente bem vestida e bem nua, no caminho certo e cantando bem.
Não se trata de corresponder às subdesenvolvidas exigências brasileiras de que
as cantoras sejam ao mesmo tempo manequins elegantes e pensadoras políticas
(quem reparou na peruca loura da Ella
Fizgerald ou nas botinhas de strass de Sarah Vaughan?). O fundamental é que a roupa se torne
sagrada para quem a veste. Um corpo nu é uma mensagem complexa. Quando eu tava
entrando na puberdade, eu era nudista, misturava meus desejos exibicionistas à
ingênua ideia de que roupa é apenas uma repressão desnecessária, achava que não
devíamos nos envergonhar do nosso corpo e não imaginava que o homem nunca é nu.
Lembro do festival de rock da ilha de Wight, milhares de pessoas nuas na praia:
eu ficava excitado, mas não envergonhado ou escandalizado. Gal estava lá. Eu
nem me lembro se ela tirou a roupa. Eu nunca namorei com ela. Uma vez tive uma
pequena discussão com o jornalista Ruy Castro (terá sido mesmo esse?) por causa
dessa mania atual de se perguntar aos entrevistados se já treparam, se já
brocharam, etc. . . Foi na casa do Eduardo Mascarenhas e por causa da
entrevista deste (ele já tinha se atrapalhado na resposta á pergunta sobre
brochada). Acho uma tolice que as pessoas se sintam na obrigação de narrar suas
intimidades. Pois bem, eu e Gal sempre brochamos todas as vezes que tentamos
brincar de namorar. No início da nossa carreira, dividíamos a cama de casal de
Guilherme Araújo em Sampa. Todas as noites eu tentava seduzi-la com um disco do
Bob Dylan e papo-furado. Ela sempre resistiu e terminávamos as noites às
gargalhadas. Acho que na época dos Doces Bárbaros, na Bahia, nós tentamos
fingir que íamos namorar no hotel onde ela estava hospedada. Foi legal porque
aí a vi nua como ela aparece em algumas dessas fotos bonitas e carinhosas que a
Marisa fez. Tomando banho. Gal é linda. Tem uma boca linda e é magnifico que
por essa boca saia exatamente essa voz. Sempre a senti mulata e uma das coisas
melhores de ela ter cortado agora os cabelos e tirado essas fotos nuas é a
revelação de sua mulatice. São deslumbrantes sobretudo onde a bunda aparece de
perfil, bem negra e bem dura. Há muita alegria física e muita dignidade nesse
corpo de mulher madura e menina. eu não sou leitor (voyeur) dessas revistas de
nua. Raramente olho, sem muito interesse, essas publicações. Parece que eu não
tenho tempo pra isso - é como jogar baralho ou assistir futebol pela TV. Me
entedia. Um dia Regina Casé me pediu um conselho se devia ou não liberar fotos
suas para uma dessas revistas e eu não soube dar. Gal também me perguntou e eu
disse: sou indiferente. Não me sinto, no entanto, indiferente diante de todas
as fotos de mulher nua (ou homem nu) que eu vejo. No caso de Gal, especialmente
eu sinto mil emoções relacionadas com o encontro de extensões daquela qualidade
essencial que um dia eu percebi na sua voz.
CAETANO VELOSO

Milton “Bituca” Nascimento [Rio de Janeiro, 26/10/1942]
80° aniversário
“Milton hoje faz 80 anos. Tenho orgulho de ter nascido no mesmo ano que ele. O texto que escrevi sobre ele em 2014 vale ser repetido:
Milton é a força mais intensa da criação musical do Brasil no mundo desde Carmen Miranda e a bossa nova. Como esta, ele influenciou músicos do primeiro time global. Mas não é principalmente por isso que devemos festejar sempre sua miraculosa existência. É principalmente pelo sentido intrínseco de sua arte, cujos mistérios estamos mais aptos a contemplar, que nós brasileiros celebramos seu nascimento. Os sentidos mais ocultos da construção do Brasil estão compactados em seus acordes com quartas desconcertantes, seus ritmos equívocos, suas melodias sobrenaturais. Sua música e sua pessoa contêm a alma do primeiro negro trazido da África e do primeiro Jesuíta que pisou na América. Conseguimos sentir tudo o que não podemos entender. Ou melhor: entendemos sem tomar plena consciência.
Viva @miltonbitucanascimento,
a beleza, a sensualidade, a fé, a música.”
Caetano Veloso [26/10/2022, Instagram]
"Milton
Nascimento é o maior artista da música de minha geração. Catolicismo mineiro,
DNA africano, Milton desceu o vale do Mississipi e subiu os Andes com seus
acordes e ritmos cheios de milagre e surpresa. Criou uma escola definida,
formou legião de gênios, encantou os gênios do grande mundo e manteve tudo onde
o oculto do mistério se escondeu"
Caetano Veloso [26/10/2019, Instagram]
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| 26/10/2022 - Milton Nascimento - Foto: Marcos Hermes |
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| 26/10/2022 - Paula Lavigne, Caetano Veloso e Milton Nascimento Foto: Marcos Hermes |
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| 26/10/2022 - Caetano Veloso, Nando Reis e Alceu Valença - Instagram |
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| 26/10/2022 - Simone, Caetano Veloso e Alceu Valença - Instagram |
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| 26/10/2022 - Toninho Horta e Caetano Veloso - Instagram |
1976
Revista
MÚSICA do planeta terra N° 3
Ano 1 - n° 3
Editor: Júlio Barroso
Co-editor: Antônio Carlos Miguel
Editora Abril
MILTON
por
CAETANO
Página 15
Texto: Caetano Veloso
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| Foto: Marta Viana |
mil tons
Milton é música, mistério. A memória da gente é o
video-tape: vejo
Roberto
Carlos dando uma entrevista de bastidores de festival; em segundo
plano, Edu
Lobo põe a mão no ombro de Caetano Veloso e os dois saem
de campo.
Não há nada gravado da minha conversa com Chico Buarque
no avião
(com medo), indo pra Salvador pra fazer aquele show. Ion me
disse outro
dia que Tenório Júnior não veio cumprir o trabalho que havia-
mos
combinado porque a formação que eu sugeria era absurda (piano,
tuba,
violino, percussões eu e violão), que eu precisava estudar a História
da Música.
Ontem eu estava no show de Gil vendo como ele se despoja
sem pena da
história de sua música. Que
apresentação extraordinária dos
Novosbaianos
(Baby rides, again, and how!) no Hallellujah! Suponho que
Edu não
curta Jorge Ben tão intensamente quanto eu. Pra que alguém
possa fazer
qualquer coisa assim como "Jóia" é preciso que as gravadoras
tenham Odair
e Agnaldo: o universitário que tenta me entrevistar e salvar
a humanidade
fica indignado diante do meu absoluto respeito profissional
e interesse
estético pelo trabalho de colegas meus como Odair e Agnaldo.
Centenas de
novos compositores e cantores e dezenas de velhos músicos
não
encontram lugar no mercado. Video-tape: em 67 Rita Lee tinha uma
cara de
depois de amanhã. Mas Milton nos redime a todos. De certa forma
é a ele que
devemos agradecer por coisas como Nana Caymmi ter final-
mente feito
um disco tão genial quanto ela de fato é: não é sempre que
as maiores
cantoras do mundo chegam onde Nana chegou quando gravou
"Medo
de Amar". A História da Música Brasileira de hoje é assinada por
Milton
Nascimento. Li numa super-revista underground francesa sobre o
disco de
Wayne Shorter: "le veritable auteur est Milton Nascimento". Mas
tudo isso
são fragmentos de história reunidos por um ignorante no assunto
que se
orgulha em cultivar essa ignorância. Milton é um buraco preto.
Milton é a
mãe de Nina Simone, a avó de Clementina, o filho futuro do
neguinho que
a gente via upa na estrada do Zumbi de Edu, de Guarnieri,
de Elis.
Milton é nossa grande alegria. Milton vinha vindo sozinho pelo
caminho e
todas as estrelas brilhantes se apagaram à sua passagem pra
só voltarem
a brilhar em sua voz quando ele cantasse. E o céu ficou negro
e sem luz e
então houve muita mais luz. Rogério disse que Milton é um
mistério que
o Brasil entendeu. Outro dia eu fiz uma música em cinco por
quatro e com
uma harmonia um tanto complicada, aí Dedé disse que eu
estava
tentando imitar Milton, mas eu queria mesmo era agradar a Milton.
Chico
Buarque disse que Milton é o maior cantor do Brasil.
Fui um dia cantar em Belo Horizonte e não tirei o boné
de Milton da
cabeça e
chamei, Milton de Milton Renascimento porque parecia ter havido
uma
revolução sexual em Minas, uma virada de era astral, novo horizonte.
João
Gilberto, que tudo ensina a todos nós, me ensina a entender que não
devo querer
parar no dizer que Milton destrói minha discussão com Ion
sobre
Beatles X John Coltrane, sobre "Domingo" X "Tropicália".
Que não
devo querer
parar no dizer que várias discussões interessantes são violen-
tamente
interrompidas pelo simples som de Milton e que muitos saberes
têm, assim,
de ser anulados para que se saiba mais. Som imaginário, som
real. Eu amo
Milton. Não me sinto muito à vontade usando palavras pra
me referir a ele. Nem meias palavras bastam. Nem o silêncio. Nem música.
Gravado
e lançado originalmente pela Camerati (TCD 1008-2), o CD foi relançado pela
CIRCUS em 2016.
Ficha Técnica
Direção
musical: José Miguel Wisnik e Ricardo Breim
Direção
artístico: José Miguel Wisnik
Técnicos
de gravação: Júlio Menezes e Vladimir F. Ganzerla
Produção
executiva e mixagem: Claudio Lucci
Gravado
no Estúdio Camerati, Santo André (SP), em julho/dezembro de 92
Piano
acústico nas faixas Se meu mundo cair, Laser, A olhos nus e Polonaise gravado
no Nosso Estúdio (SP).
Capa
e projeto gráfico: Célia Euvaldo e Laura Vinci
Arte
final: ICON- graph
Foto:
Gal Oppido
Figurino:
Caio Rocha
1. SE MEU MUNDO CAIR (José Miguel Wisnik)
2. MUNDO CRUEL (José Miguel Wisnik)
3. LASER (Ricardo Breim/José Miguel Wisnik)
4. VÍRUS (José Miguel Wisnik)
5. MAIS SIMPLES (José Miguel Wisnik)
6. ESTRANHO JARDIM (José Miguel Wisnik)
7. A OLHOS NUS (José Miguel Wisnik)
8. POLONAISE (Adam Mickiewics/Paulo Leminski/José Miguel
Wisnik)
9. A PRIMEIRA VEZ, MAMÃE, QUE EU FUI AO
CINEMA (José Miguel Wisnik)
10. VÔO CEGO (José Miguel Wisnik)
11. SUBIR MAIS (José Miguel Wisnik/Paulo Leminski)
12. PESAR DO MUNDO (José Miguel Wisnik/Paulo
Neves)
13. SOM E FÚRIA (José Miguel Wisnik/Paulo Neves)
14. SONETO DO OLHO-DO-CU (Zé Celso Martinez Correia
e Marcelo Drummond/Verlaine e Rimbaud/José Miguel Wisnik)
15. MESTRES CANTORES (Luiz Tatit/José Miguel
Wisnik)