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viernes, 1 de septiembre de 2017

2017 - REFAVELA 40

"
O melhor lugar do mundo é aqui
E agora
…”
[Gilberto Gil, Aqui e agora, 1977]




Bem Gil, idealizador e diretor artístico-musical do projeto em comemoração aos 40 anos de Refavela criou um show com novas leituras das dez faixas do disco, além de canções que fizeram parte do show original, que terá a luxuosa participação da Céu, Moreno Veloso, Maíra Freitas, além de Gilberto Gil, acompanhados de uma banda com músicos que beberam desta fonte, o antológico disco Refavela.

Os shows acontecerão no Rio de Janeiro dia 01 de setembro no Circo Voador, São Paulo dias 07, 08, 09 e 10 de setembro em unidades do Sesc, em Salvador dia 23 de setembro na Concha Acústica do TCA e em Belo Horizonte no dia 29 de setembro no Palácio das Artes.




Moreno Veloso e Gilberto Gil


O GLOBO
Música


O Gilberto Gil da diáspora africana revive em 'Refavela 40'

Filho do cantor lidera banda e recebe Gil, Céu, Moreno Veloso e Maíra Freitas em show que comemora 40 anos do disco do pai

Bem e Gil (ao centro) e a família estendida de ‘Refavela 40’: revivendo a influente música de 1977 - Leo Martins / Agência O Globo

Por SILVIO ESSINGER
01/09/2017

RIO - Em 1977, Gilberto Gil fez uma viagem a Lagos, na Nigéria, para participar do II Festival Mundial de Artes e Cultura Negra (Festac), onde travou contato com o afrobeat de Fela Kuti e com toda uma vibrante nova música africana. Por outro lado, via no Rio a emergência do funk americano nos bailes de subúrbio e, em Salvador, o fenômeno da reafricanização do Carnaval com blocos como o Ilê Aiyê. E, paralelamente, acompanhava o êxodo de moradores de favelas para conjuntos habitacionais bem longe do centro das cidades. Tudo isso fermentou em sua cabeça e deu em “Refavela”, seu disco mais simbólico de uma herança cultural da diáspora africana. Um disco que completa 40 anos com um show-tributo, que estreia nesta sexta no Circo Voador e depois passa por São Paulo (dias 7 a 10), Salvador (23), Belo Horizonte (29) e Porto Alegre (em 10/12).

— “Refavela” nem soa como um disco feito há 40 anos, poderia ser do ano passado — observa Bem, filho de Gil, guitarrista e mentor da homenagem, que montou para o projeto uma banda com Bruno Di Lullo (baixo), Domenico Lancellotti e Thomas Harres (bateria e percussão), Thiagô de Oliveira e Mateus Aleluia (sopros), Nara Gil e Ana Cláudia Lomelino (vocais), mais as vozes convidadas de Maíra Freitas, Moreno Veloso e Céu. — Esperei os 40 anos do disco para fazer esse show, que nasceu de uma ideia do Thomas e do Thiagô. Há uns quatro anos, eles pensaram em comemorar o Fela Day (dia 15 de outubro, aniversário de Fela Kuti) com o meu pai cantando o “Refavela”. Não deu para fazer na época, mas fiquei com aquela ideia.

Envolvido em shows com o Trinca de Ases (ao lado de Gal Costa e Nando Reis), a finalização de um disco de inéditas (produzido por Bem) e ideias novas de reviver nos palcos o lado mais rock do sua produção, Gilberto Gil não participou diretamente da criação do “Refavela 40”. Ele faz a sua parte cantando as músicas do disco que resistiram em seu repertório dos shows: “Refavela” e “Babá Alapalá” (“a primeira vez em que eu me aventurei pela pletora das entidades africanas”, conta). Em “Refavela 40”, Gil é um convidado muito especial de sua família estendida, onde estão filhos de fato (Bem e Nara), um filho adotivo(Moreno) e uma nora (Ana), além de velhos e novos amigos.

— O “Refavela” se inseria num território específico que é o da música negra, num momento em que ela se tornava planetária, com as influências do jazz, da música cubana, dos sambas e dos batuques brasileiros e da música africana que pela primeira vez chegava ao mundo com Fela Kuti, King Sunny Adé e da ju ju music — explana Gil, para quem havia ali “tendências muito nítidas, e muitas delas com a perspectiva da irreversibilidade”. — Eu estava agora na Croácia e nos vários lugares ouvia música. E era predominantemente batuque negro. Com as conformações eletrônicas dos DJs, mas tudo batuque.

Segundo Bem, “Refavela 40” parte do disco do seu pai para ir “a todos os lugares possíveis”:
— O LP tem dez faixas, aí eu resolvi recolher coisas que fazem parte daquela época: músicas que estavam no show do “Refavela”; o “Bicho”, que é um disco-irmão (Caetano Veloso o gravou logo depois de voltar da viagem a Nigéria com Gil); e “Exodus” (álbum de 1977 de Bob Marley), uma vez que “Norte da saudade” e “Sandra” (faixas de “Refavela”), são os primeiros reggaes na obra do meu pai.

Quando convidado por Bem, Moreno Veloso sabia exatamente o que cantar. E não era nem o “Two Naira Fifty Kobo”, reggae do disco do pai, Caetano, incluído no show.
— O “Refavela” tem uma das músicas de amor mais bonitas que eu conheço, “Sandra”, que foi feita para para a minha tia (Sandra Gadelha, então mulher de Gil), irmã da minha mãe (Dedé Gadelha). Canto essa feliz da vida — conta Moreno, que também presta serviços de percussionista em “Refavela 40”. — Soldado no quartel tá querendo trabalhar. E o “Refavela” é um disco em que a percussão é muito bem-vinda, tô lá pra engrossar o caldo.

Além do show, o projeto “Refavela 40” chega com um volume da coleção “O Livro do disco”, da editora Cobogó, dedicado ao LP de 1977 (assinado por Maurício Barros de Castro) e a reedição em vinil do disco. Até o fim do mês, será lançada como single nas plataformas digitais uma nova versão de “É”, faixa que Gil chegou a gravar para o “Refavela”, mas deixou de fora por não considerou satisfatória:
— Aquela versão para o disco era muito Mutantes, essa de agora passa pelas outras versões do rock no Brasil.

Céu, que mata a perene vontade de cantar com o ídolo Gil, diz se se sentir em casa em “Refavela”:
— Eu dei muita sorte, porque o Bem escolheu as que queria cantar, “O norte da saudade”, “Gaivota” e “Nova era”. São aquelas mais downtempo, que eu amo. E vamos fazer uma versão do Marley, o “Jamming”.


Já para Maíra Freitas, filha de Martinho da Vila e novata no campo de Gil, o “Refavela” é “presente, passado e futuro, tudo ao mesmo tempo”: — Eu canto “Ilê Ayê”, “Samba do avião” e “Two Naira Fifty Kobo”. Estou aqui mais curtindo o som que outra coisa.



2019



1977 - Nigeria




  


 
 


 
 
 




martes, 4 de marzo de 2014

1977 - 2° FESTIVAL MUNDIAL DE ARTE E CULTURA NEGRA E AFRICANA (festac '77)




"... Ao ouvir, nos anos 1970, em Lagos, na Nigéria, Abdias do Nascimento dizer que a situação racial brasileira era pior do que o então vigente apartheid da África do Sul — com a explicação de que lá as coisas eram abertas, enquanto no Brasil o racismo era dissimulado — eu disse a amigos: o mínimo que eu exijo é que um racista se sinta obrigado a fingir que não o é. Mas a verdade é que eu me interessava (desde bem antes disso) numa racialização ostensiva da discussão política brasileira...." 


[Jornal O Globo, O cu do mundo, Caetano Veloso, 23/2/2014]














1977
Revista Capricho
Fevereiro de 1977 - n° 424





13/1/1977 - Foto: Aldyr Tavares


1977 - Aldeia Nioufoin, Costa do Marfim




"





Con la participación de 50 países, se realizó en Lagos, Nigeria entre los días 15 de enero y 12 de febrero.


En representación de Brasil concurrieron Gilberto Gil y Caetano Veloso.




Caetano em aldeia Nioufoin, Costa do Marfim
Foto: Fabrício Pedrosa. Arquivo pessoal




                            Foto do álbum "Refavela" de Gilberto Gil (1977)






C A E T A N A G Ô










1977
Revista DOMINGO
JORNAL DO BRASIL
Rio de Janeiro, 10/4/1977
Ano 2 – n° 53


Pág. 32 e 33




 




1977

Revista Ternura

Ano XII – n° 140

Maio 1977

Editora Vecchi








1977
Revista POP
n° 59
Setembro de 1977




 














O FESTAC, a divulgação da cultura africana e o Brasil: problemas e convergências (1)

Por Victor Piaia


O Brasil na Festac

Esta segunda, e mais breve, parte do artigo consistirá em mostrar a atuação e os impactos da participação brasileira no evento. O Brasil é um país muito identificado com a África, algo que é reconhecido também pelos africanos, deste modo, a presença brasileira foi algo que teve relevância tanto nos debates e shows, quanto no aspecto político, como vamos observar a seguir.

Nas artes plásticas fomos representados por artistas como: Maurino dos Santos, Emanuel Araújo, Rubens Valetim, Juarez Paraíso Geraldo Teles Oliveira, Boaventura da Silva, Miguel dos santos, Octávio Araújo, Francisco Biquiba, José Dome e Waldeloir Rego. Já no cinema também tivemos presença, com a exibição de filmes como: Partido Alto, de Rubens Confete; Artesanato do Samba, de Vera Figueiredo e Zózimo Bulbul e Isto é Pelé, de Eduardo Escorel e Luiz Carlos Barreto. Houve também a presença de nomes religiosos, como a Ialorixá Olga do Alaqueto, com as filhas de santo, ligadas ao universo dos orixás reata os laços brasileiros e africanos.

Na música tivemos como maiores destaques a presença de Gilberto Gil e Caetano Veloso, que tiveram a ida anunciada nos jornais. Gilberto Gil não só aceitou o convite como montou uma banda especial para o evento. A repercussão do evento não se ateve somente aos dias de seu funcionamento, mesmo antes, aqui no Brasil, Gil preparou um pequeno trailer mostrando as raízes dessa combinação de culturas que foi exibido em Salvador, nos dias sete, oito e nove de janeiro do mesmo ano.

O disco Refavela foi gravado logo depois da experiência no festival. Mais do que uma troca de sonoridades, é importante perceber a figura pública que é Gilberto Gil, tomando consciência e contato com uma realidade normalmente somente idealizada pelos brasileiros. Em suas palavras:

“Em 77, eu fui participar do Festac, festival de arte e cultura negra, em Lagos, na Nigéria, onde reencontrei uma paisagem sub-urbana do tipo dos conjuntos habitacionais surgidos no Brasil a partir dos anos 50, quando Carlos Lacerda fez em Salvador a Vila Kennedy, tirando muitas pessoas das favelas e colocando-as em locais que, em tese, deveriam recuperar uma dignidade de habitação, mas que, por várias razões, acabaram se transformando em novas favelas.

No entanto, a presença mais impactante no festival foi, sem dúvidas, a de Abdias do Nascimento. Abdias, que nesta época já estava completamente envolvido com a causa do pan-africanismo e da negritude havia preparado um trabalho para ser apresentado no evento intitulado “Democracia racial no Brasil: Mito ou realidade?”. No entanto, como já citado anteriormente, o Brasil fazia parte de um grupo de países, incluindo a Nigéria, que desejava o movimento da Negritude atrelado a órgãos que o “desconfigurariam”, deste modo, houve uma fortíssima pressão do governo brasileiro para que o governo nigeriano impedisse a apresentação do mesmo, o que acabou acontecendo.

Este episódio é uma ponte muito clara de como as relações raciais e o projeto da negritude são complexos e são muito dependentes dos desígnios governamentais. O Brasil, ao proibir a exposição de Abdias, confirmava o próprio texto combatia. Sua participação, no entanto, não se restringiu a esta exposição. Devemos entender a importância destes eventos e dos contatos traçados neles como momentos de construção do pensamento do que viria a se tornar um dos maiores intelectuais da causa negra no Brasil. O próprio episódio aqui brevemente descrito foi narrado com maiores detalhes no livro Sitiado em Lagos, publicado por Abdias, depois do ocorrido.

Deste modo podemos perceber que o Festac de 1977 foi um evento de diversas facetas. Ao mesmo tempo em que cumpria um papel fundamental de troca e difusão das culturas africanos e internacionais, pode ser enxergado também como um retrato de um governo altamente centralizado e pretensamente democrático, mas que em muitos momentos refletia a repressão e a adequação tão presente nos regimes autoritários. Do mesmo jeito, ele também nos ajuda a perceber características do próprio Brasil, seja na facilidade da comunicação e nas raízes comuns com África, seja na dificuldade de se confrontar o discurso da Democracia Racial.


(1) Trabalho sobre o Festival Negro e Africano das Artes e da Cultura, FESTAC. Blog "África em Questão"

http://africaemquestao.wordpress.com/2012/07/27/trabalho-sobre-o-festival-negro-e-africano-das-artes-e-da-cultura-festac/