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sábado, 16 de noviembre de 2024

2024 - DOUTORA HONORIS CAUSA - Universidad Federal do Ceará (UFC) - MARIA BETHÂNIA

 



15/11/2024 - Foto: Ismael Soares (Sistema Verdes Mares)



“Estou aqui, em primeiro lugar, como mulher, e digo isso a fim de marcar essa necessidade sempre urgente de ampliar o lugar das mulheres na sociedade civil brasileira. E mais, estou aqui como trabalhadora: como uma das muitas trabalhadoras desse imenso, formidável e difícil País. Mas falo a partir de um lugar específico: a música popular".

Maria Bethânia - Cantora, compositora e doutora honoris causa da UFC


Maria Bethânia foi recebida pelo reitor da UFC, 

Custódio Almeida, e pelo governador do Ceará, 

Elmano de Freitas - Foto: Ismael Soares







Custódio Almeida foi quem entregou à artista as chamadas "vestes talares" ou "vestes doutorais", mas, quando foi entregar a ela o capelo, "símbolo doutoral", deixou que a própria se trajasse: "Uma rainha se coroa a si mesma", celebrou o reitor.



















Discurso de Maria Bethânia na sua Titulação de Doutora Honoris Causa, pela UFC.


15 de novembrode 2024

Ao ser homenageada nesta Universidade, devo, primeiramente, eu mesma homenagear aqueles que ao logo desses muitos anos me constituíram como artista. Minha dívida não é pequena. Minha vontade de agradecer não é menor. Mas seriam tantos nomes que é impossível listá-los e reconstituir tudo o que se passa no meu coração. Assim, limito-me a dizer que, comigo, pisam neste chão uma série infinita de escritores, poetas, compositores, cantores, artistas, amigos. 

Agradeço aos membros da Universidade Federal do Ceará, ao Excelentíssimo Senhor Reitor, Custódio Luís Silva de Almeida; ao excelentíssimo Senhor Reitor da Universidade Federal da Bahia, Paulo Cesar Miguez de Oliveira e ao Excelentíssimo Senhor Ministro da Educação, Camilo Santana. 

Saúdo também todas as demais autoridades acadêmicas presentes. 

Agradeço ainda ao professor e poeta Eucanaã Ferraz que me ouviu e orientou nesse discurso. 

Minha gratidão vai, por fim, para todas as autoridades presentes e para cada um dos senhores que aqui vieram para participar dessa solenidade. 

Não me formei em nenhuma Universidade. No entanto, o espaço universitário não me é estranho. Para ser mais clara, preciso voltar no tempo. O ano é 1960. Tenho apenas 13 para 14 anos. Como é costume em minha família, vou para Salvador cursar o antigo ginásio no Colégio Severino Vieira. Não é um momento fácil para mim. Não quero sair de Santo Amaro, não quero ficar longe de minha família, de minha mãe, de minha cidade, de Nossa Senhora da Purificação, nossa padroeira. Mas vou. Sigo com Caetano para Salvador, onde já estão outros dois irmãos, Roberto e Rodrigo, e logo nossa irmã mais velha, Nicinha, se junta a nós. Estou triste, mas da janela de nosso apartamento vejo as águas do dique do Tororó e uma promessa de alegrias vem das suas águas, calmas, verde escuro, silenciosas. 

O tempo passa e guiada por Caetano sou tomada pelo cenário artístico, cultural e humano da capital. Teatro é a minha paixão. Ouvir os textos e ver o preparo dos atores me encanta e me revela a mim mesma. Um desejo se acende com intensidade: viver no palco. 

A UFBA, tendo à frente seu reitor, o professor Edgard Santos, é o centro que sintetiza este momento incrivelmente singular, de grande otimismo transformador. De lá irradia-se uma série de ideias e ações de modernização cultural e educacional da Bahia. Trata-se de um projeto de vanguarda: a criação está livre! a inteligência está solta! Cursos de música, teatro e dança, o Centro de Estudos Afro-Orientais, uma imensa ciranda na qual giram a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, Glauber Rocha e o melhor do cinema, o melhor da dança, o teatro mais arrojado, a música clássica experimental, a excelência da música popular.  

Estamos em 1963, na montagem de Boca de Ouro. A convite do diretor, Álvaro Guimarães, minha voz soa entoando a capela, “Na cadência do samba”, de Ataulfo Alves”. 

Também a convite de Álvaro Guimarães Caetano é chamado para compor a trilha sonora do curta-metragem Moleques de rua e sou chamada para interpretar. Minha vida vai, assim, tomando um rumo que eu não previa. E tudo gira em torno da Universidade, de sua atmosfera, de suas iniciativas e de sua capacidade de inventar vidas, de “lançar mundos no mundo”. É o que deve ser um verdadeiro projeto educacional. 

Como eterna aprendiz de trapezista, dou um salto – no tempo. Seguimos para 2014. Em parceria com a inesquecível professora de literatura portuguesa Cleonice Berardinelli, grande nome da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Faço com ela uma leitura que viraria o documentário O vento lá fora, no qual apresentamos um panorama da poesia de Fernando Pessoa e de seus heterônimos. 

A convite da Universidade Federal de Minas Gerais, tenho a oportunidade de levar ao auditório do campus um recital composto por obras das literaturas brasileira e portuguesa, do qual resultaram no ano seguinte, 2015, o registro audiovisual Bethânia e as palabras e o  intitulado Caderno de Poesias. 

No ano seguinte, a Universidade Federal da Bahia concedeu a mim o título de Doutora Honoris Causa. De lá veio a indicação de meu nome por um grupo de acadêmicos para ocupar a cadeira número 18 da Academia de Letras da Bahia, o que se deu oficialmente em abril de 2023. 

Não posso deixar de registrar, por fim, que em 2019 a Universidade Federal Rural de Pernambuco concedeu a mim a Láurea do Mérito Cultural.  

Eu e a Universidade temos, portanto, uma longa e fértil amizade. 

Poderia dizer que daremos agora um salto para fora dos muros da Universidade; mas uma verdadeira casa de ensino não tem muros – apenas portas, sempre abertas. Uma dessas portas leva a uma de minhas grandes paixões: os trabalhos em escolas públicas que tomam como ponto de partida o trabalho que realizo como intérprete de música popular e, inseparável dele, minha atuação como leitora.  

Citarei apenas três exemplos, a fim de dividir com vocês minha alegria, meu entusiasmo e minha gratidão. O primeiro teve lugar na Cidade do Rio de Janeiro, no Colégio Estadual Vicente Jannuzzi, sob a responsabilidade da professora de filosofia Vânia Aparecida Silva Corrêa Pinto. O álbum Brasileirinho, de 2003, foi convertido em mote para que os estudantes debatessem a importância da literatura e da canção na cultura brasileira, estimulando-os para a escuta atenta, a leitura, a escrita, a pintura, um conjunto de ações, enfim, voltadas para a educação sensível, criativa e ética. O projeto, com o título Brasileirinho: os tons da aquarela cultural de nosso país, teve sua importância reconhecida para além da sala de aula quando, em 2008, a professora Vânia foi uma das vencedoras do prêmio “Professores do Brasil”, do Ministério da Educação.  

A segundo exemplo vem de Pernambuco, de uma escola pública de Camaragibe, onde a professora Ana Cláudia Xavier desenvolveu o projeto Dra. Maricotinha — Poesia da teoria à prática, destinado a estudantes de diversos níveis e voltado para o desenvolvimento da escrita criativa. A professora Ana Cláudia foi uma das vencedoras do prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, em 2018. 

A terceira iniciativa também nasceu em Camaragibe, na Escola Municipal XV de Novembro, sob a responsabilidade da professora Audaci Maria, no âmbito da primeira etapa do ensino básico, voltada para crianças de até cinco anos de idade. Em 2015, a professora criou o Projeto Bethânia Fulozinha, voltado para atividades lúdicas que promovem o aprendizado e o desenvolvimento motor, cognitivo, social, emocional e físico dos alunos. O trabalho culminou no jornalzinho Isso é onça!, feito pela turma do 4° ano da Educação Infantil, que divulga a cada bimestre as invenções, brincadeiras, desenhos e falas das crianças. O nome do jornal faz referência à canção “Moda da onça”, tema popular adaptado por Paulo Vanzolini que gravei em 2014. 

Quero registrar ainda uma iniciativa desenvolvida no campo da saúde mental. Em 2015, o Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira, no Rio de Janeiro, por ocasião da exposição Maria de todos nós, que comemorou meus cinquenta anos de carreira, reuniu diversas obras plásticas realizadas por pacientes em oficinas intituladas Sextas Bethânicas. Devo lembrar que muitos anos antes, em 1971, a cenografia do show Rosa dos ventos, assinada por Flávio Império, foi desenvolvida com os internos da Casa das palmeiras, que tinha à frente a pioneira doutora Nise da Silveira. 

Hoje, mais uma vez, a Universidade me acolhe e reconhece meu trabalho. Fosse eu uma professora, como tantos de vocês aqui, falaria de escritores notáveis como Emília Freitas e Gerardo Melo Mourão, ou de Rachel de Queiroz, a primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras, entre outros filhos desta terra. Deveria falar do mítico Cego Aderaldo, nascido no Crato em 1878, andarilho, tocador, improvisador. Limito-me, porém a citar seus nomes. 

Detenho-me um pouco, no entanto, na figura de Patativa do Assaré, nascido em 1909. Mesmo nascido no seio de uma família pobre, frequentou a escola, o que lhe garantiu a alfabetização. Por volta dos doze anos, começou a fazer repentes e a se apresentar em festejos e cerimônias. Por volta dos vinte anos, adotou definitivamente o pseudônimo Patativa, porque sua poesia falada era comparável ao canto fino e melodioso dessa ave brasileiríssima. Teve seu primeiro livro, Inspiração Nordestina, editado em 1956.

Patativa do Assaré, artista raro, brilhante. Sempre me emociono ao dizer seus versos:

 

Sou um poeta do mato

Vivo afastado dos meios

Minha rude lira canta

Casos bonitos e feios

Eu canto meus sentimentos

E os sentimentos alheios.

Canto da mata frondosa

A sua imensa beleza,

Onde vemos os sinais

Do pincel da natureza,

E quando é preciso eu canto

A mágoa, a dor e a tristeza.

 

O Crato e os poetas populares me levam ao nome que, nesse dia tão especial, concentra todo o sentimento que sustenta a verdade da palavra homenagem: Violeta Arraes Gervaiseau. 

Maria Violeta Arraes de Alencar nasceu aqui, no Ceará, em Araripe. Graduou-se em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e, em Pernambuco, foi presidente da Juventude Universitária Católica de 1948 a 1950, tornando-se assistente de dom Hélder Câmara, arcebispo de Recife e Olinda.  

Em 1951, estudou no Centro Internacional de Economia e Humanismo, em Paris, onde conheceu Pierre Gervaiseau, com quem se casou. Na cidade, participou do Movimento de Cultura Popular, ao lado do grande educador Paulo Freire. Esteve ao lado do irmão Miguel Arraes nos momentos que culminaram com sua deposição e sua prisão na primeira hora do golpe militar, no dia 1º de abril de 1964. Violeta foi presa com o marido e alguns meses depois seguiu para o exílio na França. Lá, Violeta se pós-graduou em psicologia, exercendo a função de psicoterapeuta. 

Desde cedo, Violeta esteve ligada à vida acadêmica, mas se expandiu para muito além dela, ligando-se fortemente aos meios artísticos, culturais e políticos do Brasil e do exterior. Tornou-se bastante conhecida pelo apoio que daria aos exilados brasileiros na França durante a ditadura militar. Assim, ficou conhecida pelo belíssimo nome de “Rosa de Paris”. Nada mais apropriado. 

Caetano, em seu livro de memórias, Verdade tropical, disse muito bem: “ela nos acolheu com um misto de carinho e firmeza que só se encontra nos verdadeiros nordestinos”. Sua casa em Paris foi um pouso seguro para intelectuais e artistas brasileiros perseguidos pelo regime militar, e depois se transformou em algo mais amplo, convertendo-se num verdadeiro centro de divulgação da arte e da cultura brasileiras na França. 

Violeta apoiou também os movimentos anticolonialistas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.  

Com a anistia, em 1979, Violeta regressou ao Brasil, mas cinco anos depois retornou à França, agora como adida cultural na Embaixada brasileira. Mas o Ceará a trouxe de volta em 1987, para assumir a Secretaria de Cultura do Estado. Dez anos depois, seria nomeada reitora da Universidade Regional do Cariri, com sede no Crato. Agora sou “Magnífica”, ela me dizia, rindo. Em seguida, juntamente com Pierre, criou a Fundação Araripe, voltada para preservação da região onde nasceu. No Rio de Janeiro, no dia 7 de junho de 2008, ela nos deixou. 

Pisando este chão cearense, é irresistível afirmar que ela era uma “fortaleza” – porque ela era sólida, segura, dona de uma força moral, de uma energia e de uma constância extraordinárias. Doce e bela fortaleza.  

Lembrá-la me enche de emoção. Extraordinária, engraçada, forte, lúcida, grande senhora e, como ela gostava de se dizer, sertaneja. Ela foi para mim uma “outra” universidade, que me apresentou a poesia do sertão e me deu muitos e altos ensinamentos. Gravei para ela um dos sucessos de dona Inezita Barroso, a canção “Caipira de fato”. 

Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau, patrimônio inestimável do Ceará, flor do sertão, cidadã do mundo, dedicou sua vida à ação cultural e política movida pelo sonho de fazer deste país uma terra de justiça, plena de igualdade e de beleza.  

Como intérprete da canção popular, concluo minha fala rendendo homenagem a um nome fundamental do nosso imenso e deslumbrante cancioneiro: Humberto Teixeira. 

Cearence de Iguatu, onde nasceu em 1915, mostrou sua grandeza com a palavra cantada graças ao encontro com aquele que seria seu principal parceiro, Luiz Gonzaga. Um encontro de gigantes. Compuseram em parceria “Asa Branca”. Ao tratar das desventuras do homem nordestino vitimado pela seca, a canção se converteu numa espécie de hino nacional, um retrato que vai muito além de uma realidade regional e alcança algo universal: o sofrimento e a esperança como forças antagônicas, mas que se equilibram dentro de cada um de nós. 

Este filho notável do Ceará é motivo de orgulho e gratidão para todos os brasileiros, a quem devemos aclamar permanentemente. 

A Universidade Federal do Ceará concede a mim o honroso título de Doutora Honoris Causa, e isso me enche de alegria. Agradeço mais uma vez. Mas acrescento que estou aqui, em primeiro lugar, como mulher; e digo isso a fim de marcar a necessidade, sempre urgente, de ampliar o lugar das mulheres na sociedade civil brasileira. E mais, estou aqui como trabalhadora, como uma das muitas trabalhadoras deste imenso, formidável e difícil país. Mas falo a partir de um lugar específico: a música popular. Aqui está ela: a canção e sua história, a canção e sua força, a canção e seu sangue, a canção e suas asas – o ritmo de suas asas –, a canção e suas dores, a canção e suas alegrias, suas aleluias.  

No Ceará, na Bahia, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, não importa onde, é sempre o palco que me conduz, este lugar sagrado, lugar de festa, onde a menina de Santo Amaro fincou seus pés, e de onde, em reverência, olha nos olhos da vida. E canta.

“Viver…” (Bethânia canta o refrão da música “O que é, o que é?” de Gonzaguinha.)

 

Obrigada, senhores.

Maria Bethânia, Novembro de 2024

 


sábado, 5 de noviembre de 2022

2022 - "CAETANO VELOSO CHEGA AOS 80 TRANSFORMADO PELO SÉCULO 21"

 

Uma bateria de livros, lançada às vésperas do aniversário do compositor, revisa e vasculha sua obra.


Por Pedro Alexandre Sanches

5 de agosto de 2022

 

O que parecia impossível está prestes a acontecer: neste domingo, 7 de agosto, o artista mais jovial e sedutor do Brasil completa 80 anos. Caetano Veloso comemorará a data redonda endereçando um presente para o exército admirador de sua eterna juventude, uma apresentação ao vivo via internet (na plataforma de streaming Globoplay) e televisão (no canal Multishow e com trecho exibido pelo Fantástico), às 20h30, ao lado dos filhos, Moreno, Zeca e Tom, e da irmã mais nova, Maria Bethânia. 

Aparentemente inesgotável, a fonte da juventude mantém-se viva e vivaz, não apenas em Caetano, mas em uma série de oitentões e pré-oitentões (majoritariamente do sexo masculino) que segue ativa nos palcos da MPB, a exemplo de Chico Buarque, Erasmo Carlos, Gal Costa, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor, Marcos Valle, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Paulinho da Viola, Roberto Carlos, Tom Zé e Wanderléa, entre outros. 

Sendo o aniversariante da vez também o mais cerebral entre todos eles, é natural que um dos modos de homenageá-lo seja por meio do lançamento de uma bateria de livros que revisam e vasculham sua obra, a começar por um assinado por Caetano em pessoa. 

Letras (Companhia das Letras), organizado pelo poeta Eucanaã Ferraz, cumpre o desafio de reunir pela primeira vez a totalidade dos textos musicais compostos pelo autor, contabilizados em 390 canções desde 1965 até o momento presente. Não estão incluídas composições de que o autor participou criando apenas a melodia nem interpretações de temas de outros autores, também numerosas em 57 anos de obra gravada.





Mas a homenagem literária mais afetuosa e generosa se chama Lado C – A trajetória Musical de Caetano Veloso até a reinvenção com a bandaCê (Máquina de Livros), assinada pelo jornalista Luiz Felipe Carneiro e pelo pesquisador Tito Guedes, autor de Querem acabar comigo – Da jovem guarda ao trono, a trajetória de Roberto Carlos na visão da crítica musical. Como numa homenagem ao mito de jovialidade do muso, os dois autores fogem do lugar-comum e se dedicam a mergulhar na produção mais recente de Caetano, já no século 21. Munido de farta contextualização histórica e visitas a diversas outras fases musicais do artista, Lado C centra fogo particularmente na trilogia dita roqueira de Caetano, desenvolvida nos álbuns (2006), Zii e Zie (2009) e Abraçaço (2012), todos sob direção musical do filho Moreno e de Pedro Sá e com acompanhamento do power trio formado por Sá, na guitarra, Ricardo Dias Gomes, no baixo e nos teclados, e Marcelo Callado, na bateria. Afinal batizado de bandaCê (com essa grafia), o trio conduziu Caetano à elaboração de “transrocks” influenciados por Lou Reed, Black Sabbath, The Clash, Pixies e The Strokes, dos “transambas” de Zii e Zie e de funks cariocas, raps paulistas e pagodes baianos, igualmente trans, em Abraçaço. 

Com depoimentos dos músicos e do próprio Caetano, o livro destrincha a produção do artista em seus últimos cinco álbuns de material inédito, desde Noites do Norte (2000) até o recente Meu coco (2021), coproduzido pelo ainda mais jovem Lucas Nunes, integrante das bandas Dônica e Bala Desejo. Lado C desnuda, mais que uma nova reinvenção de Caetano junto a um público igualmente rejuvenescido, uma revolução individual vivida pelo artista que entrava na casa dos 60 anos no início da fase . 

As rupturas desse período foram musicais, mas não apenas. Em 2004, Caetano separou-se de Paula Lavigne, com quem foi casado desde 1986. Simultaneamente, o músico interrompia a ligação com o maestro, violoncelista, produtor musical e arranjador Jaques Morelenbaum, que vinha de trabalhos ao lado do mestre bossa-novista Tom Jobim e passou a acompanhar Caetano em 1992, após tocar violoncelo em algumas faixas do disco Circuladô (1991). A erudição de Morelenbaum compôs uma fase mais solene e sisuda do artista, marcada pelos projetos Fina estampa (1994), de cancioneiro latino-americano em espanhol, e A foreign sound (2004), em inglês.

 





Sobre , disse Caetano, em 2006, no material de divulgação do álbum: “Ele me livra um pouco de mim mesmo para que eu me aproxime mais de ser quem sou”. Dono de depoimentos saborosos em Lado C, Jaques Morelenbaum interpreta no livro a separação musical: “O Caetano se separou da Paula e do seu diretor musical ao mesmo tempo, e foi viver uma segunda juventude ao lado de namoradas, de argentinas e de uma banda de garagem formada por meninos bonitos”. 

Mesmo envolta em atmosfera frequentemente depressiva (em faixas como “Minhas lágrimas”, no primeiro volume, ou “Estou triste”, no terceiro), a trilogia veio ao mundo grávida de sexo e de ira, o que certamente ajuda a explicar seu impacto junto a gerações bem mais novas, à medida que as ondas de raiva e ódio se avolumavam pela internet dos anos 2000, 2010 e 2020. 

Adentrando na terceira idade em , Caetano espalhou erotismo em “Outro” (“Feliz e mau como um pau duro”), “Deusa urbana” (“Mucosa roxa, peito cor de rola”), “Musa híbrida” (“Teu buço louro/ Meu canto mestiçoso”) e “Porquê?” (“Estou-me a vir”, anunciando a chegada de um orgasmo). Em sentido diverso e complementar, exorcizou rancores em “Rocks” (“Você foi mor rata comigo”), “Odeio” (“Odeio você”, repete um refrão favorito das plateias renovadas) e outras. Na confluência das vertentes erótica e mórbida, “Homem” (“Eu sou homem/ Pele solta sobre o músculo/ Eu sou homem/ Pelo grosso no nariz”) explicitou um subtexto latente em , o da investigação temerosa sobre o processo de envelhecimento: “Não tenho inveja da adiposidade/ Nem da menstruação/ Só tenho inveja da longevidade/ E dos orgasmos múltiplos”. A experimentação se expandiu nos dois álbuns seguintes, com novas explorações sexuais e/ou provocadoras, por exemplo em “Amor mais que discreto” (2007), de pendor gay, “Tarado ni você” (2009), ou “A bossa nova é foda” (2012). 


Caetano Veloso – Homem

Em 2011, o elixir rejuvenescedor da trilogia expandiu-se para um quarto elemento, o álbum Recanto, de Gal Costa, composto e produzido por Caetano com outro power trio (guitarra e violão de Pedro Baby, baixo de Bruno di Lullo, bateria e programações eletrônicas de Domenico Lancellotti), com canções experimentais como “Autotune autoerótico” e “Sexo e dinheiro” e mais um tratado sincero sobre o envelhecimento, “Tudo dói”. “Esse disco me gera até uma ansiedade. É quase como se ele estivesse me dizendo: ‘Acorda, mulher!’”, descreveu Gal, segundo os autores de Lado C. 

Outro traço forte de transformação do Caetano do século 21 aparece em “Um comunista”, canção de Abraçaço inspirada na saga do guerrilheiro Carlos Marighella. Esse é decifrado em outro livro recém-lançado, Lançar mundos no mundo: Caetano Veloso e o Brasil (Fósforo), assinado pelo arquiteto e ensaísta Guilherme Wisnik. Reedição ampliada de um trabalho originalmente lançado na série Folha Explica (Publifolha, 2005), o livro agora rebatizado percorre habilidosamente toda a produção musical de Caetano, e também avança com apetite especial na produção recente do compositor, em especial no capítulo final, “Careta, quem é você? – A potência do Brasil, 2006-22”.

Wisnik destaca a afinidade de Caetano com o ideário neoliberal dos anos 1990, sob Fernando Henrique Cardoso (“o compositor era visto por muitos como um ideólogo do governo no mundo artístico”). E retorna à reação da mãe do artista, em 2009, a declarações do filho sobre o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em termos como “analfabeto”, “cafona” e “grosseiro”. “Dona Canô prontamente respondeu na imprensa, como quem passa um pito no filho falastrão: ‘Vou me desculpar (…) não é possível que ele chamasse Lula de analfabeto, aliás, ele nem teria o direito de falar assim. Ele é apenas um cantor’”, documenta Wisnik. Por fim, retrata a perda relativa do medo do comunismo, presente não só na canção “Um comunista”, mas também em entrevista de Caetano a Pedro Bial na Globo, já em 2020. “Afastando-se elegante e incisivamente de Bial, referiu-se autocriticamente à própria posição anterior, dizendo não ser mais ‘liberaloide’ como era”, escreve Wisnik, não sem aventar a hipótese de “uma certa malandragem (…) de quem quer estar atualizado e afinado à opinião dos jovens” por trás da guiñada.




O inimaginável aconteceu, e o Peter Pan da MPB já é nosso avô.

 

Um quarto livro a comemorar os 80 anos de Caetano percorre caminhos mais leves e despretensiosos. 

Outras palavras – Seis vezes Caetano (Record), do jornalista Tom Cardoso, coleta frases, depoimentos e escritos do (e sobre o) compositor ao longo das décadas, estabelecendo nexos por vezes pitorescos. Retoma, por exemplo, os contatos desencontrados de Caetano, desde antes de se tornar celebridade, com um de seus ídolos literários, a escritora Clarice Lispector. “Assombra-me que ela tenha tido uma reação de starlet mídia-freak: atribui a Dedé, minha namorada na época, um ataque de ciúme que não se deu absolutamente”, escreveria Caetano muitos anos depois da morte de Clarice. 

Outras Palavras se desenrola entre episódios divertidos e semifofoqueiros, envolvendo João Gilberto, Bethânia, Waly Salomão, Chico Buarque, Fagner, Fernando Collor, Marcelo D2, Luana Piovani, Elis Regina, Roberto Carlos, Fidel Castro, Roberto Marinho… 

Em comparação com os outros livros, Outras Palavras serve por vezes como alívio cômico, em geral alimentando o folclore já vasto em torno do mais novo oitentão brasileiro. Em parte desprezando o mito cruel de uma juventude que nunca terminasse, Caetano Veloso responde aos novos tempos cantando “Não vou deixar” para o neto: “Eu grito e repito, eu não vou!/ o menino me ouviu e já comentou/ o vovô tá nervoso, o vovô/ nervoso, teimoso, manhoso”. O inimaginável aconteceu, e o Peter Pan da MPB já é nosso avô.






Caetano Veloso é capa da Elle Brasil de setembro 2021





redacao@aloalobahia.com

 

O cantor baiano Caetano Veloso estampa uma das capas da revista Elle Brasil, edição de setembro/2021 , que chega às bancas nesta semana. Os cliques da fotógrafa Cecília Duarte foram feitos no alto de uma das falésias de Bonifácio, um vilarejo no sul da Córsega, na França.

A alegria está nítida no artista: após nove anos sem entrar em um estúdio para lançar um disco de inéditas, Caetano quebrou o jejum de quase uma década, botou a mão na massa e gravou "Meu Coco".

Em entrevista à Elle, ele revelou os detalhes do novo álbum. “A canção que dá título ao álbum diz tudo: Meu Coco. Ou seja, é tudo o que passa na minha cabeça. É uma mirada atual sobre temas recorrentes em meu trabalho: nomes, fantasias que esboçam uma decifração do Brasil, homenagens a meus amores”, explica.

Há ainda opções de capas da mesma edição da revista com Pabllo Vittar, MJ Rodriguez e Shirley Mallmann.























lunes, 21 de febrero de 2022

2022 - LETRAS - Eucanaã Ferraz

 


Como parte da comemoração dos seus 80 anos, Caetano Veloso lançará um livro com todas as suas composições desde o início da carreira até “Meu Coco”. 

O livro é organizado pelo poeta e ensaísta Eucanaã Ferraz e será lançado pela editora Companhia das Letras
 
Fonte: Uns Produções e Filmes, 20/2/2022



21/02/2022

POR NINJA


Caetano Veloso lançará livro com letras de todas as suas canções




Foto: Tainá Xavier


A memória do Brasil nas músicas de Caetano. Chegando aos 80 anos em 2022, um dos maiores artistas brasileiros ganhará um registro completo de sua obra na música. Caetano Veloso terá todas as suas composições, incluindo o recente álbum “Meu Coco”, organizadas em um livro chamado “Letras”. O projeto conta com organização do poeta e ensaísta Eucanaã Ferraz pela Companhia das Letras. 

Caetano completará 80 anos em 7 de agosto. Com mais de cinco décadas de carreira, as composições de Caetano traçam um histórico não somente da música brasileira, mas também carregam a própria história do país. Puxado pela irmã Maria Bethânia ao mundo da música, Caetano compôs canções que, desde “Cavaleiro” ou “Samba em Paz”, de 1965, acompanham um movimento de resistência poética em um país marcado por ditadura, exílio, carnaval e uma fome de inspirações e culturas de outros mundos. 

O livro “Letras” será lançado este ano pela Companhia das Letras.



Uns Produções e Filmes

4 de junho de 2022



Agora está mais perto do que nunca! Em comemoração aos seus 80 anos, Caetano Veloso terá todas as quase 400 letras lançadas em um volume pela Companhia das Letras, em agosto!

Organizado pelo poeta e ensaísta Eucanaã Ferraz, o livro “Letras” vai compreender desde as primeiras composições do poeta baiano até as mais recentes, lançadas no último álbum, o “Meu Coco”. O livro vai ser minimalista, sem fotos e com breves textos de apresentação do músico e do organizador.



Resenhando


"Letras" reúne todas as canções de Caetano Veloso em um livro 

sábado, julho 16, 2022 

 

Organizado por Eucanaã Ferraz, livro traz todas as canções escritas por Caetano Veloso reunidas, começando por sua produção mais recente - "Meu Coco", lançado em 2021 - e chegando às primeiras composições do artista

 

“Diante das mais de trezentas letras de canções que compus ao longo de décadas fico quase sem palavras. Tenho apenas de confessar que em ne­nhum caso eu aprovei a letra (ou a música) quando cheguei a completá-la. Com o passar do tempo — e o esquecimento das obras —, tenho me surpreendido com alguma admiração e até com certo encanto diante de uma ou outra canção que fiz” 

Caetano Veloso

 

Dia 29 de julho, chega às livrarias "Letras", de Caetano Veloso, lançado pela Companhia das Letras. Organizado por Eucanaã Ferraz, esse é um livro de poesia reunida de um dos nomes centrais da música e da cultura popular brasileira. Ler uma a uma é acompanhar as transformações de uma obra inesgotável ao longo de mais de sessenta anos. 

Compositor singular, Caetano Veloso inaugurou sua carreira com um compacto simples, em 1965, e dois anos depois lançou o disco "Domingo". Desde então, foram cerca de quarenta álbuns de estúdio, além de gravações ao vivo e coletâneas. 

"Letras" reúne todas as canções escritas por Caetano Veloso, começando por sua produção mais recente - "Meu Coco", lançado em 2021 - e chegando às primeiras composições do artista, em meio a discos de estúdio, canções gravadas por outros cantores, parcerias e trilhas sonoras. 

“Meu intuito não foi senão registrar impressões nascidas no encontro com palavras que, assentadas na matéria silenciosa do papel, reconduzem insistentemente à música, ao corpo inteiro das canções, e fazem precipitar inúmeras contingências pessoais, reminiscências, ânimos, dispositivos da subjetividade que assomam quando entramos em contato com tex­tos poderosíssimos - adjetivo que me parece legítimo em sua imprecisão crítico‑analítica. Posso dizer simplesmente que cada leitor realiza sua fruição”, ressalta Eucanaã Ferraz. 

Ainda que tenham sido escritos para ser cantados, os versos revelam aqui sua vocação verdadeira: são poemas. Ao formular sua experiência individual de modo notável, Caetano Veloso faz com que suas palavras digam respeito a todos nós, seus ouvintes - e leitores.








Capa: Raul Loureiro, com obra “Gambiarra Amarela"

1998, acrílica sobre tela de Emmanuel Nassar, 91×91×3,5cm.

Acervo Banco Itaú. Reprodução de Sérgio Guerini


Reprodução fotográfica












bibliografia

2. Sobre Caetano Veloso e temas afins










Companhia das Letras; 1ª edição

29 julho 2022


Letras é um livro de poesia reunida. Estão aqui todas as canções escritas por um dos nomes centrais da música, da poesia e da cultura popular brasileira. Ler uma a uma é acompanhar as transformações de uma obra inesgotável ao longo de mais de sessenta anos. 

Compositor singular, Caetano Veloso é um poeta extraordinário. Nascido em 1942, o artista inaugurou sua carreira com um compacto simples, em 1965, e dois anos depois lançou o disco Domingo. Desde então, foram cerca de quarenta álbuns de estúdio, além de gravações ao vivo e coletâneas. 

Com organização de Eucanaã Ferraz, Letras reúne todas as canções escritas por Caetano Veloso, começando por sua produção mais recente — Meu coco, lançado em 2021 — e chegando às primeiras composições do artista, em meio a discos de estúdio, canções gravadas por outros cantores, parcerias e trilhas sonoras. 

Ainda que tenham sido escritos para ser cantados, os versos revelam aqui sua vocação verdadeira: são poemas. Ao formular sua experiência individual de modo notável, Caetano Veloso faz com que suas palavras digam respeito a todos nós, seus ouvintes — e leitores.

 


P O R T U G A L


Agosto de 2023

  

Na celebração de 80 anos de vida, Caetano Veloso reúne pela primeira vez as letras de todas as suas músicas.


Organização de Eucanaã Ferraz

 

Editorial: Penguin Random House Grupo Editorial Portugal

ISBN: 9789897874321

Publicación: 08/2023

Formato: EBOOK EPUB