Terra Magazine
23/05/2013
Caetano – entre Muito e a Banda Cê
PAQUITO
(*)
Tinha
eu quatorze anos quando, levado por minha madrinha, assisti Caetano Veloso – e
A Outra Banda da Terra – ao vivo pela primeira vez. O show era Muito, disco de 1978 que rendeu polêmica
por conta das críticas negativas, a que o próprio Caetano respondia, o que lhe
rendeu acusações de não aceitar opiniões contrárias, atitude que ele mesmo comentou
na sua última coluna em O Globo.
Na
época, apenas o fato de ir a um show era novo pra mim. Só estar em um teatro,
tendo a experiência de ouvir ao vivo os sons que ouvira em discos – de certa
forma, minimizados – era um acontecimento:"o som", sem intermediação
da radiola ou tv. Como ainda não tinha o disco Muito, não conhecia
nenhuma das novas canções – e nem muito também da obra anterior de Caetano –
mas me lembro até hoje do impacto da música Terra, cujo refrão o
público repetia, o que criava um clima ritualístico forte, sem que o cantor
precisasse puxar o coro. Era uma prece conjunta.
No
final do show, os percussionistas que estavam na plateia foram convidados a
subir no palco, pra tocar na última música. Da prece passou-se à festa, e deu
vontade de subir naquele palco, estar com aqueles músicos, ser como aquelas
pessoas confraternizando-se. Eu não tinha consciência, mas o fenômeno da canção
popular estava se dando na minha frente, com desdobramentos até hoje na minha
vida, tanto que me tornei compositor, e escrevo basicamente sobre música aqui
na Terra Magazine.
Outra
lembrança forte é a da postura despojada de Caetano no palco, assim como o
figurino, apenas camiseta branca sem mangas, bermuda e sapatos igualmente
brancos, corpo magro, e os cabelos longos, cacheados e negros.
O
figurino simples se contrapunha às roupas coloridas que se haviam popularizado
com o Tropicalismo, que completara dez anos, e pelo qual eu começava a me
interessar. Com seu violão Ovation,
bojudo, contrastando com a magreza, Caetano levantava o joelho direito e
permanecia algum tempo em posição de garça, um pé no chão, outro suspenso no
ar.
A
partir de então, assisti a quase todos os shows de Caetano, gostava de reparar
na harmonia das músicas, e muitas delas aprendi a tocar apenas observando-o em
apresentações. Com toda sofisticação que há no pensamento e no som de Caetano,
a execução de suas músicas é relativamente simples no violão, o que tornava
possível a um amador tocá-las exatamente como ele, o que era ótimo. Eu podia
repetir em casa o que via no palco.
Assistindo
ao Abraçaço,
seu show mais recente, tantos anos depois, na Concha Acústica do Teatro Castro
Alves, sei que é comum se associar Caetano a um ser mutante, que tanto pode
aparecer num especial de Natal da Globo – com Ivete e Gil – quanto fazer um
show e disco como esse com a banda Cê, que concorre ao Prêmio da Música
Brasileira de Melhor Cantor na categoria de música pop/rock/reggae/hip hop, e
não mpb, como seria mais convencional.
Caetano
sempre fez o trânsito entre categorias aparentemente distintas, mas é um
artista ancorado na tradição, mesmo que seja para reinventá-la, comentando-a.
O
Funk
melódico do Abraçaço é um exemplo: versos de Noel Rosa e Vinicius de Moraes
são citados, dialogando com a rusticidade da música carioca dos subúrbios. (E,
pensando bem, Noel é tão rústico quanto os funkeiros quando se trata de detonar
uma mulher.)
Cláudio
Leal escreveu um artigo legal sobre o Abraçaço aqui na Terra Magazine
(Aquele abraçaço), então vou comentar – além das minhas memórias remotas – a
respeito da banda Cê, que está com
Caetano há três Cds: Cê, Zii e Zie e este Abraçaço.
Após um período em que pretendeu unir a percussão baiana à sofisticação do
jazz, projeto do CC Livro, Caetano montou uma banda simples, com apenas três
músicos jovens (Pedro Sá na guitarra, Marcelo Calado na bateria e Ricardo Dias
Gomes no baixo e teclados), e compôs canções endereçadas ao formato e linguagem
de um tipo de rock mais enxuto.
O
artista e o conjunto integraram-se de tal maneira que a banda Cê é constitutiva desse novo Caetano, contribuindo pra tornar
o Abraçaço
mais forte e denso. A banda também dá conta, na medida, de tocar o Caetano
pré-Cê, mantendo a diversidade rítmica e melódica do compositor, sem afetações,
talvez porque não ambicionem ser virtuoses, não são músicos
"músicos", como bem definiu Pedro Sá, numa conversa que tivemos
depois do show. Eles estão ali pra servir às canções, e não se servir delas.
Eclipse
Oculto
-do disco final com a Outra Banda da
Terra, Uns, de 1983, -mereceu seu arranjo e jeito de execução mais
bacana, sem ambicionar ser pop, e mantendo a urgência do rock. Triste
Bahia, do Transa, tem o clima e arranjo bem semelhantes ao do disco de
1972, cujo despojamento combina com o da Banda Cê, que tocou, no show Cê,
Nine
out of ten, também do Transa, sem querer reinventá-la, o
oposto ao arranjo pra mesma canção do disco Velô (1984), que hoje soa
datado.
O
Velô
pertence aos anos oitenta e, naquele período, o tratamento dado às gravações
tornava a música postiça, quando se pretendia soar tecnicamente avançado.
Curiosamente, o Transa, bem anterior, soa mais moderno que o Velô,
mesmo sendo este repleto de ótimas canções.
Assim
como muita coisa muda, outras permanecem: comparando com o show Muito,
os cabelos de Caetano ficaram brancos – sinal da passagem do tempo, o que
independe de intenções estéticas – e o figurino, antes claro, se tornou escuro.
Mas a posição de garça – e graça – mantém-se até hoje, simbolizando
involuntariamente essa capacidade do artista de equacionar tradição e ruptura:
um pé firme no chão, outro no ar.
(*)
De 2006 a 2014, Paquito foi colunista da revista virtual Terra Magazine de Bob
Fernandes.