Organizado por Gilberto Gil e Naná Vasconcelos.
Gal Costa, Elza Soares e D. Ivone Lara no Festival de Percussão em
Salvador.
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| Elza Soares, Gal Costa e Gilberto Gil |
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| 29/3/1996 - Foto: Adenor Gondim |
São Paulo, quinta-feira, 28 de março de 1996
PercPan cultua o samba do planeta
CARLOS CALADO
ESPECIAL PARA A FOLHA
Tambores africanos e brasileiros procuram uma língua comum,
no show de abertura do 3º Panorama Percussivo Mundial, hoje à noite, em
Salvador, Bahia.
Até sábado, o tradicional Teatro Castro Alves
receberá atrações nacionais e estrangeiras, com destaque para o percussionista
senegalês Doudou N'Diaye Rose, que toca pela primeira vez no país.
A abertura desta noite também promete uma rara
atração. Dividindo a direção artística do evento, Gilberto Gil e o
percussionista Naná Vasconcelos vão reeditar uma parceria que não acontecia
desde o verão de 1973, quando Gil acabara de voltar do exílio em Londres.
"É uma alegria incrível poder tocar de novo
com o Gil", comemora o percussionista pernambucano, que se mudou para os
EUA logo após o primeiro encontro.
Depois de coordenar o PercPan do ano passado,
Naná sentiu necessidade de uma edição um pouco mais voltada para a música
brasileira. Já com o auxílio de Gil, escolheu para 96 o mote "Samba da
Minha Terra", emprestado do clássico samba de Dorival Caymmi.
"Esse verso de Caymmi é bastante amplo para
englobar a idéia de um samba do planeta, o samba de várias terras",
explica Gil.
"No Senegal, você tem o 'sabá', um ritmo
com o mesmo significado do samba. Foi com ele que Doudou compôs o hino nacional
do seu país. Já na Nigéria, você encontra o 'juju' ", compara Naná.
Segundo o percussionista, o festival terá várias
surpresas. A começar da canção, ainda sem título, que Gil acabou de compor e
deve ser exibida amanhã, no segundo show da dupla. "É algo na linha de
'Filhos de Ghandi', mas com a minha levada", adianta Naná.
Surpresas também não devem faltar durante a noite
de encerramento, no sábado, quando Naná e Gil pretendem provocar encontros dos
músicos estrangeiros com os brasileiros, sem ensaios prévios.
Além de Doudou Rose, o elenco internacional tem
mais destaques. Originário da ilha de La Reúnion (próxima a Madagascar), o
africano Granmoun Lélé é autor de mais de 200 canções e também estréia em
palcos brasileiros.
Já o norte-americano Glen Velez é um compositor
e professor de formação erudita que se especializou em instrumentos de
percussão, especialmente alguns semelhantes ao pandeiro, encontrados no
Marrocos, na Argélia e na Índia.
Presença feminina
Naná diz estar satisfeito por poder realizar um
festival com forte presença feminina.
Além das cantoras Gal Costa, Elza Soares e Dona Ivone Lara,
também participam do elenco dois jovens grupos femininos de Salvador: o Bolacha
Maria (formado por Carlinhos Brown) e o Didá (criado por Neguinho do samba, do
Olodum).
Preocupado com o problema da educação musical,
Naná fez questão de incluir dois grupos formados por crianças: o carioca
Herdeiros da Vila Isabel e o pernambucano Maracatu Nação Erê. "O festival
pode ajudar a abrir a cabeça dessa garotada, que é o futuro da música",
diz.
O elenco brasileiro se completa com o grupo
instrumental mineiro Uakti, que costuma utilizar instrumentos artesanais feitos
com tubos de PVC, vidro e outros materiais.
Naná não quer perder a chance de iniciar uma
parceria com os mineiros. "Também vou tocar alguma coisa com eles",
promete.
Os workshops promovidos pelo festival com os
artistas do elenco acontecem pelas manhãs e à tarde, até amanhã, no Castro
Alves.

São Paulo, segunda-feira, 1 de abril de 1996
Ivone Lara rouba a noite em Salvador
CARLOS CALADO
ESPECIAL PARA A FOLHA, EM SALVADOR
A sambista carioca Dona Ivone Lara foi a atração mais aplaudida na
segunda noite de shows do Percpan (Panorama Mundial de Percussão).
O festival vem sendo realizado no Teatro Castro Alves, em Salvador.
Com uma bela seleção de sambas, variando entre o partido alto e o pagode, Dona
Ivone mostrou que as verdadeiras raízes desse gênero já estão bem distantes do
samba plastificado que se ouve atualmente nas rádios.
Arrancando gritos, cada vez que exibia seu rebolado na boca do palco, a
veterana sambista fechou o show com "Sonho Meu", senha para a entrada
de Gal Costa.
Carisma de Gal
Em uma participação muito curta, mas com o carisma de sempre, Gal cantou uma
seleção de sambas-de-roda, incluindo "Remelexo" e "Marinheiro
Só". Deixou a platéia pedindo mais.
Acompanhando Gal, o grupo feminino Bolacha Maria também agradou com suas fusões
de rap, repente, hip-hop e forró.
É mais uma invenção do explosivo Carlinhos Brown, com boas chances de
extrapolar a cena pop baiana.
Granmoun Lélé
Outra esperada atração da noite foi o percussionista Granmoun Lélé, da ilha da
Reunião (na costa oriental da África).
Seu grupo hipnotizou a platéia com ritmos e danças frenéticos, que foram
proibidos durante séculos pelos colonizadores franceses.
Já o norte-americano Glen Velez, especialista em pandeiros de vários cantos do
mundo, não chegou a entusiasmar, com três improvisos um tanto monótonos.
Simpáticos, os garotos do Maracatu Nação Erê (de Pernambuco) acabaram ficando
mais tempo no palco do que o necessário. Precisam de mais vivência musical.
Primeira noite
O 3º PercPan foi aberto na quinta-feira à noite, com os Herdeiros de Vila
Isabel, jovens ritmistas cariocas dirigidos por Armando Marçal.
Também se apresentaram Elza Soares e o Didá, grupo de garotos que combina
percussão, vocais e coreografia africana.
Outra atração foi o trio mineiro Uakti e, em seguida, o senegalês Doudou
N'Diaye Rose, acompanhado por 15 percussionistas.
Antes mesmo da última noite do PercPan, que prometia para sábado um encontro de
todas as atrações exibidas quinta e sexta, já era possível reconhecer o sucesso
desta edição.
Público mais amplo
Naná Vasconcelos e Gilberto Gil acertaram ao abrir mais o leque sonoro da programação, elegendo o tema "Samba da Minha Terra".
Esse recurso estratégico
permitiu que um público bem mais amplo, embora atraído pelos vocais de Gal
Costa, Dona Ivone Lara e Elza Soares, pudesse também entrar em contato com a
arte de grandes percussionistas.
Foi exatamente isso que se viu no Castro Alves: um público respeitoso e sem
preconceitos, curioso por culturas diferentes da sua.
O 3º PercPan provou que, neste final de século, os purismos musicais não levam
a quase nada. É um festival que tem tudo para continuar. E que já poderia
pensar em atingir outras capitais do país.