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viernes, 31 de mayo de 2024

1998 - MARIA BETHÂNIA - Uma biografia

 


Foto: Marisa Alvarez Lima


Maria Bethânia Vianna Telles Velloso nascida no dia 18 de Junho de 1946 em Santo Amaro da Purificação tinha como sonho subir no palco como atriz. Não estava nos seus planos fazer do canto a sua profissão. Em casa porém, o irmão Caetano já brincava de fazer música. 

Em 1960, Bethânia e Caetano saíram de Santo Amaro para estudar em Salvador. Lá Caetano foi convidado pelo amigo Álvaro Guimarães para musicar a peça BOCA DE OURO de Nélson Rodrigues, montada em 63. Pela primeira vez Bethânia subiu no palco para cantar em público. E foi com um samba de Ataulfo Alves que ela abriu o espetáculo. Antes o que Bethânia conhecia de música era Nora Ney, Aracy de Almeida, Silvio Caldas, Orlando Silva e Maysa. 

Neste mesmo ano, em 63, Bethânia e Caetano conheceram Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Djalma Corrêa, Pitti, Alcivando Luz, Fernando Lona e passaram a cantar e a trabalhar juntos, já com João Gilberto e a bossa nova interferindo e modificando as suas vidas. 

Em junho de 1964, o grupo foi convidado para apresentar um show de música popular na semana de inauguração do Teatro Vila Velha, em Salvador. E surgiu o show NÓS POR EXEMPLO. O segundo espetáculo montado pelo grupo se chamou NOVA BOSSA VELHA, VELHA BOSSA NOVA Ainda em 64, novo show: MORA NA FILOSOFIA. Dessa vez só com Maria Bethânia em cena, lançada oficialmente cantora por Caetano Veloso. Nesse show, Bethânia é vista e aplaudida pela então musa da bossa nova, Nara Leão. 

No ínicio de 65 arrumou as malas às pressas e acompanhada pelo irmão Caetano veio para o Rio de Janeiro, atendendo a um convite de Nara Leão para substituí-la na peça OPINIÃO (participação de Zé Keti e João do Vale, direção musical de Dory Caymmi e direção de Augusto Boal). Bethânia estreou no dia 13 de fevereiro. Começou cantando manso mas em CARCARÁ sua voz explodiu marcando seu primeiro sucesso nacional e popular. A música de João do Vale marcou sua estréia em disco (LP Maria Bethânia lançado pela RCA em 1965) Bethânia assumia uma umagem de cantora de protesto, imagem essa forçada pela proposta e sobretudo pelo sucesso do show OPINIÃO. Ao sentir que o sucesso poderia desviar o curso de seu trabalho, antes mesmo de ter feito a sua opção profissional, Bethânia arrumou as malas de volta a Salvador. 

Disposta a prosseguir cantando, retornou ao Rio de Janeiro em 1966. Pouco depois assinou contrato com a TV Record por seis meses e dirigida por Augusto Boal participou ao lado de Gal, Gil, Caetano, Pitti e Tom Zé do show ARENA CANTA BAHIA no Teatro de Arena. Ainda no ano de 66 e mais uma vez dirigidos por Augusto Boal, os baianos fizeram o show TEMPO DE GUERRA no mesmo Teatro de Arena. 

Maria Bethânia, Vinicius de Moraes e Gilberto Gil no mês de setembro apresentaram no Teatro Opinião o show POIS É, roteiro de Capinam, Torquato Neto e Caetano Veloso, direção musical de Francis Hime e direção geral de Nélson Xavier. E no mês seguinte, outubro de 66, Maria Bethânia enfrentava o público do Maracanãzinho defendendo a música BEIRA MAR de Caetano Veloso e Gilberto Gil, não incluída entre as finalistas do I Festival Internacional da Canção. Em 1967, Bethânia aceitou o convite de Edu Lobo para gravar o disco EDU LOBO E MARIA BETHÂNIA, lançado pela Elenco. Nesse disco, pela voz de Bethânia está o samba SÓ ME FEZ BEM, o primeiro da parceria Edu Lobo- Vinicius de Moraes. 

Sua força no palco marcaria as sucessivas apresentações de Maria Bethânia em boites e teatros do Rio e São Paulo até 1970. Entre elas se destacam: RECITAL BOITE CANGACEIRO (Rio), RECITAL BOITE BARROCO (Rio), YES, NÓS TEMOS MARIA BETHÂNIA (Teatro de Bolso, Rio), COMIGO ME DESAVIM (o primeiro show dirigido por Fauzi Arap, Teatro Miguel Lemos, Rio), RECITAL NA BOITE BLOW UP (SP), BRASILEIRO PROFISSÃO ESPERANÇA (direção de Bibi Ferreira com Ítalo Rossi, Teatro Casa Grande, Rio) 

Em 1968 ela participou do LP Veloso, Gil e Bethânia lançado pela RCA. Caetano e Gil e Bethânia dividiam o lado A do disco cantando uma faixa cada um. Do lado B somente músicas de Noel Rosa interpretadas por Maria Bethânia. 

Ainda em 68, contratada pela Odeon,Bethânia lançou o LP RECITAL NA BOITE BARROCO. Em 69 e 70,respectivamente, Bethânia lançou os LPs MARIA BETHÂNIA e MARIA BETHÂNIA AO VIVO. 

Em 1971, dois acontecimentos marcaram o ínicio de uma nova fase na carreira de Maria Bethânia. Em janeiro ela gravou em estúdio, o LP A TUA PRESCENÇA, seu primeiro disco lançado pelo selo Philips e também o primeiro a receber generosos e unânimes elogios da crítica por sua qualidade técnica e artística. Em julho, dirigida por Fauzi Arap, acompanhada pelo Terra Trio, Bethânia estreava, no Teatro da Praia (Rio), o show ROSA DOS VENTOS. Um espetáculo diferente que dava a Bethânia possibilidade de mostrar sua versatilidade no palco, atuando com atriz e intérprete dos mais variados gêneros de música popular, de bolero ao baião, passando pelo frevo, tango, samba, música jovem ou inspirada nos temas de candomblé. 

Do show ROSA DOS VENTOS, resultou o disco do mesmo nome, lançado em setembro de 71, pela Philips, com produção de Roberto Menescal. Em 71 ainda, ela fez sua primeira viagem internacional, apresentando seus maiores sucessos no MIDEM. 

No ano seguinte, ao lado de Chico Buarque e Nara Leão, Maria Bethania participou do filme QUANDO O CARNAVAL CHEGAR, dirigido por Cacá Diegues. A trilha sonora do filme foi lançado em agosto de 72 pela Philips. 

Em novembro do mesmo ano chegava as lojas o disco DRAMA, produzido por Caetano Veloso. Bethânia apresenta-se no exterior (Itália, Alemanha, Austria, Dinamarca e Noruega). 

Em 1973, Antônio Bivar e Isabel Câmara assinam a direção do show DRAMA, LUZ DA NOITE. Mais uma vez Bethânia lotou o Teatro da Praia. O show está registrado no disco LUZ DA NOITE lançado em dezembro do mesmo ano. 

Em 1974, Bethânia e Fauzi Arap se reencontram para montar o show A CENA MUDA. Com esse show Bethânia comemorou 10 anos de carreira. E foi justamente em cima do tema sucesso que ela e Fauzi traçaram o roteiro musical. O disco A CENA MUDA foi gravado ao vivo no Teatro Casa Grande e lançado em novembro de 1974. 

Chico Buarque e Maria Bethânia despontaram o cenário musical brasileiro praticamente na mesma época. Entretanto nunca tinham pisados juntos num mesmo palco. Esse memorável encontro aconteceu no dia 6 de junho de 1975, idealizado por Caetano Veloso, Rui Guerra e Oswaldo Loureiro. Desse encontro surgiu o lp CHICO BUARQUE E MARIA BETHÂNIA GRAVADO AO VIVO NO CANECÃO, lançado pouco depois da estréia, reunindo os melhores momentos do show. 

No início de 1976, Bethânia entrou mais uma vez em estúdio. Dessa vez para gravar o lp PÁSSARO PROIBIDO, marco de sua carreira. Além do primeiro disco de ouro recebido pela vendagem deste lp, Maria Bethânia, através da música OLHOS NOS OLHOS de Chico Buarque, deixou de ser uma cantora executada somente nas rádios FM para ocupar os primeiros lugares das emissoras AM e ser definitivamente consagrada como uma cantora popular. 

Em julho de 1976 se realizou um encontro histórico: após 10 anos de carreiras individualmente vitoriosas Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa assumiram a identidade de um novo grupo OS DOCES BÁRBAROS. A estréia nacional ocorreu no dia 24 de junho no Anhembi, de São Paulo. 

Toda a efervescente trajetória de OS DOCES BÁRBAROS foi captada pelo diretor Jom Tob Azulay e transformada num divertido, controvertido e satírico longa metragem musical. O registro em disco está num album duplo lançado pela Philips em novembro de 1976. 

No dia 13 de janeiro de 1977, estreava no Teatro da Praia, PÁSSARO DA MANHÃ, um show leve, menos tenso que os anteriores, dirigido por Fauzi Arapi e cenários de Flávio Império. O show ficou registrado num belo lp do mesmo nome. trata-se de um registro de estúdio e não de um disco ao vivo. Com este lp, Maria Bethânia recebeu o segundo disco de ouro da sua carreira. 

Em maio de 1978, Caetano e Bethânia subiram no palco do teatro Santo Antônio. O espetáculo, roteiro de Caetano e Bethânia com sua direção geral, está registrado no lp MARIA BETHÂNIA E CAETANO VELOSO AO VIVO, gravado na Bahia e no Rio (Canecão). 

Pouco antes do natal de 1978 foi lançado o lp ALIBI que pela vendagem antecipada já chegava às lojas como disco de ouro. Todo esse sucesso foi mostrado ao vivo. Dirigida por Fauzi Arapi e cenário de Flávio Império, Maria Bethânia estreou no Teatro Cine Show Madureira (24-29 de julho). 

No mesmo de dezembro de 1979 aconteceu o lançamento do disco MEL. A década de 70 encerraria para Maria Bethânia de um modo particularmente especial. Ela foi a única cantora convidada para participar do especial de fim de ano de Roberto Carlos, produzido pela Rede Globo. Em janeiro de 80, Bethânia pisava no palco do Canecão com o show MEL, dirigida por Wally Salomão. 

Em 1980 a década é aberta com lp TALISMÃ, outro sucesso de vendas e que manteria a sua consagração junto ao grande público e crítica. 

Em 1981 volta ao Teatro da Praia, 10 anos depois de ROSA DOS VENTOS, para estrear o espetáculo ESTRANHA FORMA DE VIDA novamente dirigida por Fauzi Arapi e com cenário de Flávio Império. São apresentados 54 números - entre músicas e textos - que compõem o roteiro. No mesmo ano sai o disco ALTEZA. 

Em 1982 volta ao Canecão (Rio) dirigida por Bibi Ferreira no show NOSSOS MOMENTOS, uma colagem de seus shows anteriores entremeados de canções novas, algumas compostas especialmente para o show. O disco homônimo sai a seguir. 

Em 1983 desgastada com a super exposição alcançada pelo grande sucesso e as super vendas de seus discos e a consequente pressão das gravadoras, volta ao disco com CICLO. Nele ouvem-se canções acústicas e letras sofisticadas, quebrando regras que pareciam permanentes em sua discografia. Aclamado pela crítica e recebido com estranhamento pelo grande público, liberta a cantora de compromissos e à traz de volta à liberdade que sempre a caracterizou na elaboração de seu trabalho. 

No ano de 1984 estréia no Canecão (Rio) o show A HORA DA ESTRELA dirigido por Naum Alves de Souza baseado na obra de Clarice Lispector, um projeto ambicioso com linguagem teatral com música. O repertório trazia canções de Chico Buarque e Caetano Veloso feitas especialmente para o espetáculo. A seguir é lançado o disco A BEIRA E O MAR. Pouco divulgado pela gravadora, passaria desapercebido não fosse o repertório impecável que misturava algumas canções do show A HORA DA ESTRELA com canções inéditas e regravações. Neste disco encontra-se a gravação antológica da canção NA PRIMEIRA MANHÃ de Alceu Valença. 

Em 1985 estréia no Canecão o espetáculo 20 ANOS, novamente uma colagem de espetáculos anteriores, dirigido por Bibi Ferreira. 

Em 1986 Bethânia assina contrato com a RCA para a gravação de 3 discos, o primeiro é DEZEMBROS, disco com canções inéditas de Tom Jobim, Chico Buarque e Caetano Veloso, e uma feita especialmente para ela por Milton Nascimento chamada CANÇÕES E MOMENTOS escrita em homenagem à comovente interpretação da canção A PRIMEIRA MANHÃ feito por ela. 

Em 1988 sai o disco MARIA com participações especiais de Jeanne Moreau e Gal Costa. Na capa uma negra em vez de uma foto da cantora "Simbolizando todas as Marias do mundo." Estréia no Scala (Rio) o show MARIA dirigido por Fauzi Arapi. 

No ano de 1989 é lançado o disco MEMÓRIA DA PELE com canções de Djavan, Chico Buarque entre outros. No Scala (Rio) é apresentado o espetáculo DADAYA - AS 7 MORADAS dirigido por Ulysses Cruz feito para ser apresentado no exterior. 

1990. Os 25 anos de carreira é celebrado com disco e show 25 ANOS. O disco traz participações especiais de Nina Simone, Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, João Gilberto entre outros. O show dirigido por José Possi Netto estréia no Imperator (Rio) e trazia textos de Fausto Fawcett e uma interpretação comovente de EXPLODE CORAÇÃO à capela. 

O disco OLHO D´ÁGUA é lançado em 1982. Sem o apoio da gravadora, mais uma vez o trabalho passa quase desapercebido, não ser pela inclusão da canção ALÉM DA ÚLTIMA ESTRELA em uma novela de televisão. 

O ano de 1993 traz de volta a recordista de vendas do tempo do disco ÁLIBI. O disco AS CANÇÕES QUE VOCÊ FEZ PRA MIM com músicas de Roberto e Erasmo Carlos é um estrondoso sucesso de público e crítica ultrapassando todos os limites de venda daquele ano. O show homônimo dirigido por Gabriel Villela no Canecão (Rio), traz de volta em termos de números e prestígio a consagração da cantora. 

Novamente um rompimento com a gravadora para manter a qualidade inabalável e despreocupada com números de sua carreira. Assina contrato com a gravadora EMI Odeon e lança o disco ÂMBAR com canções de novos compositores como Chico César, Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhoto. O show homônimo dirigido por Fauzi Arapi traz os poemas de Fernando Pessoa declamados por ela entremeados de canções inéditas e outras conhecidas do público. 

Em 1997 sai o registro do show ÂMBAR em um cd duplo intitulado IMITAÇÃO DA VIDA.

 


sábado, 23 de julio de 2022

2022 - Lado C - a trajetória musical de Caetano Veloso até a reinvenção com a bandaCê

 




4/8/2022 – “Depois de tanto trabalho ao lado do meu parceiro Tito Guedes, entregamos o livro ao Caetano. Um dia muito especial, recheado de afeto, gargalhadas e horas de papo.” [Luiz Felipe Carneiro, à direita] 

“Ontem foi dia de dar um abraçaço em Caetano Veloso e entregar pessoalmente a ele um exemplar de "Lado C". Emoção total em ver tantas horas de pesquisa e dedicação materializadas na mão do homenageado. Desses dias pra não esquecer jamais! Agora é esperar pra saber o que ele achou... E viva Caê, sempre!” [Tito Guedes] - Foto: Paula Lavigne




Luiz Felipe Carneiro e Pedro Sá

Luiz Felipe Carneiro e Marcelo Callado






“Lado C” narra a trajetória de Caetano Veloso até a reinvenção com a bandaCê

 

Por Rota Cult

22 de julho de 2022


Muito se conhece e se fala sobre o Caetano Veloso das palavras, o grande letrista, entre os maiores da história da MPB. A roupagem sonora que embala a desconcertante poesia do autor, porém, não é tão lembrada quando se avalia sua obra. Não que seja menos importante. Caetano é um músico incomum e antenado no resultado de seu trabalho, em que forma e conteúdo são indissociáveis. “Lado C” narra justamente a sonoridade buscada por Caetano desde o início de sua carreira, com destaque para a virada radical com a BandaCê, power trio que montou em 2006 com músicos 30 anos mais jovens. Em um período de dez anos, foram três discos de canções inéditas, outros três ao vivo e grandes turnês que rodaram o Brasil e o mundo. 

Escrito pelos pesquisadores Luiz Felipe Carneiro e Tito Guedes, Lado C narra os caminhos que levaram Caetano a essa surpreendente aventura musical. A partir de informações inéditas, os autores contam os bastidores das gravações e o processo criativo de cada disco da trilogia, que culminou em Abraçaço. Eles mostram ainda a relação controversa de Caetano com a imprensa nesse período, detalhes do convívio com sua equipe e a as experiências e parcerias com artistas de diferentes gerações, incluindo os próprios filhos. 

“Esse é, certamente, um período mais recente e pouco comentado da carreira de Caetano, mas que sem dúvida é um dos mais ricos. Ele se reinventou e renovou seu público”, observa Tito. 

No dia 11 de agosto, o livro será lançado na Livraria da Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá 578), a partir das 19h.








11/8/2022 - Os autores, Pedro Sá e Marcelo Callado

11/8/2022 - Os autores e a fotógrafa Thereza Eugênia

11/8/2022 - Os autores e o jornalista, biógrafo e escritor Ruy Castro




Foto: Thereza Eugênia



Pedro Sá






20/8/2022 - Livraria da Travessa - Niterói













CARNEIRO, Luiz Felipe e GUEDES, Tito. Lado C - a trajetória musical de Caetano Veloso até a reinvenção com a bandaCê. Editora Máquina de Livros; 1ª edição (28 julho 2022). 256 páginas



Caetano, Moreno Veloso e banda Cê - gravação Cê - Foto: Giovana Chanley


Caetano Veloso é um artista inquieto, em permanente estado de reinvenção. Em 2006, já consagrado, ele criou a bandaCê, um power trio formado por músicos 30 anos mais jovens. Lançou três discos de canções inéditas, outros três ao vivo e caiu na estrada em turnês que rodaram o Brasil e o mundo, em um dos momentos mais produtivos de sua carreira. "Lado C" revela os caminhos que o levaram a essa surpreendente – e radical – aventura musical, desde as primeiras bandas que formou até os bastidores das gravações e a criação incomum de cada disco da trilogia, que culminou no elogiado “Abraçaço”. O livro mostra ainda a relação intensa de Caetano com a imprensa nesse período, o convívio com as pessoas de sua equipe a as experiências e parcerias com artistas de diferentes gerações, entre eles os próprios filhos. 

Para montar esse quebra-cabeça, os autores Luiz Felipe Carneiro e Tito Guedes pesquisaram centenas de reportagens, discos e vídeos. Também entrevistaram o próprio Caetano, os três integrantes da bandaCê (Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado) e outros 40 nomes fundamentais nessa história, como Arto Lindsay, Jaques Morelenbaum, Arnaldo Brandão, Jards Macalé, Moreno Veloso, Kassin, Rodrigo Amarante, além de produtores, técnicos e amigos do artista.

 “Lado C” traz ainda dezenas de fotos do acervo dos músicos e de pessoas próximas a Caetano. O resultado é um documento valioso não só para fãs, mas também para apaixonados pela Música Popular Brasileira.



ALGUMAS CURIOSIDADES DO LIVRO:

Disco clandestino – Em 2002, Caetano confidenciou ao guitarrista Pedro Sá que tinha vontade de fazer um disco “clandestino”, que não levaria seu nome e teria sua voz modificada eletronicamente. Anos depois, o cantor amadureceu a ideia, mas decidiu assinar o novo trabalho, que seria uma reinvenção de sua imagem. Os dois convocaram Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado, e assim nascia a bandaCê. 

Encontro com Milton – As gravações de Cê foram feitas no mais absoluto sigilo. Milton Nascimento, sem saber de nada, telefonou para o estúdio procurando um técnico. Um ruído de comunicação fez a ligação ser direcionada para Caetano, que resolveu convidá-lo para uma visita no dia seguinte. Milton ouviu uma prévia do disco em primeiríssima mão e o amigo quis saber o que achou. “Mas que pergunta, Caetano…”, respondeu. 

Novo público – A estreia da fase Cê aconteceu no Tim Festival, quase por acaso. Caetano e o trio foram chamados apenas cinco dias antes do evento para ocupar um dos palcos que estava com baixa procura de público. No show, foram apresentadas as 12 faixas inéditas do disco Cê e apenas três sucessos. Resultado: uma plateia de novos fãs fez coro em todas as músicas. 

Musa desmentida – Por causa da faixa Um sonho, Caetano foi parar nas colunas de fofoca. A atriz Luana Piovani usou seu blog na época para contar que a canção tinha sido feita para ela. Só que o compositor a desmentiu, o que levou a atriz a apelidá-lo de “Banana de Pijama”. 

Ronaldo e travestis – Caetano aproveitou a temporada Obra em progresso, em que testava no palco músicas que pretendia gravar no segundo disco com a bandaCê, para comentar notícias dos jornais. Quando o jogador Ronaldo foi acusado de não ter pago um programa com travestis em um motel do Rio, ele resgatou a obscura canção Três travestis, que havia composto nos anos 1980. Mas a plateia gargalhou tanto que Caetano precisou interromper e recomeçar. Semanas depois Ronaldo prestigiou o show, mas a música foi cortada do setlist. 

Protesto de fãs – A nova sonoridade de Caetano com a bandaCê decepcionou algumas pessoas. Depois de uma apresentação na Dinamarca, uma produtora local foi até o camarim e cobrou a ausência de “músicas bonitas”, como Sozinho e O leãozinho. A resposta foi um dos famosos gestos de irritação de Caetano: “Música bonita é o que eu estou fazendo agora! Você é chata! Vai embora daqui, sua chaaaaaaata!!!”. 

Reencontro com tropicalista – Durante as gravações de Abraçaço, Caetano se reencontrou com Rogério Duarte, que fez parte do movimento tropicalista. Quando o disco estava quase pronto, Caetano recebeu dele a música Hino gay. Mas antes que o álbum saísse, Rogério pediu que o amigo trocasse o título para Gayana, como a canção foi creditada. 

Primeira banda – Antes de formar a bandaCê, Caetano já havia experimentado grupos enxutos. O primeiro deles foi para o disco Transa, gravado no exílio londrino em fins de 1971. Ele convocou Jards Macalé e mais três músicos, que trabalharam nos arranjos das canções. O lançamento do LP marcou o seu retorno ao Brasil em 1972, com shows históricos no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Salvador. Ainda nos anos 1970 e 1980, Caetano montaria outros dois grupos: A Outra Banda da Terra e Banda Nova.




Buenos Aires, 28/8/2007 - Caetano, bandaCê e amigos em casa



Fotos: Clara Palacios e Inti Scian

sábado, 16 de julio de 2022

2022 - OUTRAS PALAVRAS: SEIS VEZES CAETANO

 






CARDOSO, Tom. “Outras palavras: Seis vezes Caetano”.  1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Record, 2022. Páginas: 308. 

Lançamento: 25 de julho de 2022.


SINOPSE

"Irreverente e provocadora como seu biografado, Outras palavras reconstrói a vida e a obra de um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Caetano Veloso é um dos símbolos maiores da música popular e da cultura brasileiras. Multifacetado, transgressor e engajado, reuniu ao longo de décadas de carreira uma legião de fãs ávidos por sua produção, prolífica e espetacular, liderou movimentos e jamais deixou de se posicionar politicamente.A juventude em Santo Amaro embalada pelos filmes de Federico Fellini, os contos de Clarice Lispector e o LP Chega de saudade, de João Gilberto; o falso antagonismo com Chico Buarque, uma rivalidade musical fabricada pela imprensa, e os embates com a militância; a nova poética musical da Tropicália; a estética vanguardista e suas experimentações; os envolvimentos e decepções com projetos políticos; e os muitos envolvimentos amorosos que inspiraram ­― declaradamente ou não ― algumas das mais belas composições da música brasileira: em Outras palavras, o jornalista Tom Cardoso invoca o espírito de liderança de Caetano em nossa música, sua independência intelectual e sua impressionante capacidade de manter-se em evidência por décadas a fio.

Em seis capítulos temáticos ­― o homem de Santo Amaro, o polêmico, o líder, o vanguardista, o amante e o político ―, o autor reúne depoimentos, entrevistas e uma extensa pesquisa bibliográfica para apresentar ao leitor o retrato múltiplo de um camaleão da cultura popular brasileira. 

Na orelha deste livro, Rodrigo Faour (pesquisador e autor de História da música popular brasileira sem preconceitos), define assim o artista: 'Um Narciso advogando para o diabo, em meio a extremismo de direita e de esquerda, de caretas e desbundados, com seu modo ‘de ser e estar’ no palco e na vida, quebrando convenções e caretices de diversos níveis, inclusive a mais cruel de todas: o discurso padronizado.'"

















O GLOBO 

'o avesso do avesso do avesso. ou não': livro expõe as contradições de Caetano Veloso


Silvio Essinger

12 de julho de 2022


Autor das biografias de indomáveis figuras como o craque Sócrates, o jornalista Tarso de Castro e a cantora Nara Leão, o paulistano Tom Cardoso se viu na obrigação, na proximidade dos 80 anos de Caetano Veloso (que se completam em 7 de agosto), de escrever um livro sobre ele. Uma obra que, enfim, desse conta do artista “contraditório, tão importante e onipresente na cultura nacional”.

É assim que, dia 25, chega às mãos e olhos dos leitores “Outras palavras: Seis vezes Caetano” (Record), livro que ora o escritor define como “uma biografia pouco convencional”, ora como um “ensaio jornalístico”. E que, por todas as dificuldades em enquadrar o biografado — mas também a fim de parafrasear um dos motes que é humoristicamente atribuído ao artista —, quase se chamou “Caetano ou não”. 

— O tempo inteiro Caetano se contradiz. Mas, ao mesmo tempo, ele é um cara muito corajoso, que comprou brigas por pessoas que tinham tendência a contemporizar. Talvez o Tropicalismo não tivesse existido se fosse só por Gilberto Gil ou Tom Zé — defende Tom, um jornalista de 49 anos. — Caetano expõe muito bem as suas teses, e elas têm uma coerência, um embasamento, mesmo que depois ele mesmo se arrependa delas. Caetano leu muito, tem uma formação teórica forte, e chegou a bater de frente com pensadores tanto de direita quando de esquerda. 


TABARÉU MUSICAL

Iniciado com uma epígrafe de um conterrâneo ilustre (e por vezes antípoda) do artista, Raul Seixas (“É pena eu não ser burro. Não sofria tanto.”), “Outras palavras” se divide em seis vezes/capítulos: O santo-amarense, O polêmico, O líder, O vanguardista, O amante e O político. O primeiro, claro, para falar da infância e adolescência em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano.

Uma vez que Caetano ganha mundo e palco, em meados dos anos 60 (inicialmente em Salvador, depois no Rio e em São Paulo), os outros capítulos transcorrem paralelos até perto dos seus 80 anos. 

— Caetano fala sobre absolutamente tudo, desde que chegou ao Rio para acompanhar [a irmã Maria] Bethânia no “Opinião” [espetáculo do diretor Augusto Boal, no qual ela substituiu Nara Leão, a convite da própria]. Quando ela foi vaiada numa sessão do filme do [diretor Júlio] Bressane [“Bethânia bem de perto – a propósito de um show”, de 1966], Caetano se levantou da cadeira e deu uma declaração de que todos eram imbecis. Ele foi muito veemente ali e não parou mais. 

Uma das primeiras contradições de Caetano é que, apesar de ter tido sua vida mudada pelo “Chega de saudade” de João Gilberto, o tímido rapaz não pensava muito em ser músico (mudou de ideia em Salvador, pressionado pelo amigo Álvaro Guimarães). E uma vez tendo estreado em um LP influenciado pela bossa (“Domingo”, de 1967, com uma também iniciante Gal Costa), poucos meses depois estaria liderando (por falta de outro líder) o elétrico e esteticamente agressivo Tropicalismo. 

— Caetano se sentia meio tabaréu musicalmente. E aí ele tem contato com pessoas fundamentais na trajetória, que são o [artista gráfico] Rogério Duarte, o Zé Agrippino [de Paula, escritor], o [cineasta] Glauber Rocha, o Zé Celso [Martinez Corrêa, diretor teatral]... — conta Tom Cardoso. — Se não fosse por elas, talvez Caetano ainda estivesse pensando em ser professor ou pintor. Ele só se solta mesmo depois de conhecer esses caras desbundados. 

Tom é filho de Jary Cardoso, jornalista que trabalhou na equipe do Guilherme Araújo (empresário de Caetano nos anos 1970) e que depois entrevistou o artista algumas vezes para diversos jornais.

— Meu pai encontrava com o Caetano no Porto da Barra e eles se cumprimentavam com um selinho. Teve até uma época em que eu achei que “Leãozinho” era feita para o meu pai! — diverte-se o escritor, que também entrevistou o artista algumas vezes, mas preferiu não fazê-lo para esse livro em que “o personagem principal é o mais suspeito para falar de si próprio” (embora tenha conversado com muitas pessoas próximas ao cantor). — Caetano sempre falou muito no calor da hora, achei muito mais importante do que entrevistá-lo, resgatar entrevistas de que as pessoas nem lembram mais, declarações que se perderam no tempo. 


NADA A TEMER

Tom Cardoso relembra os muitos embates de Caetano com a imprensa. Nos anos 1970, o ex-exilado foi criticado pela guinada “Odara” de sua música (que supostamente desbundara-se e fechara os olhos à brutalidade do regime militar) e respondeu a acusação dizendo-se patrulhado por um grupo de jornalistas que “obedeciam ao chefe do partido”. Ao mesmo tempo, ele reagia aos ataques de Millôr Fernandes e Paulo Francis, do jornal “Pasquim”, que denominavam o seu grupo de artistas como os “baihunos” (ao que ele, Bethânia, Gil e Gal responderam criando o grupo Doces Bárbaros). 

— Você tinha ali pessoas que se consideravam intelectuais, que faziam um jornal revolucionário, mas que tinham posturas muito conservadoras e preconceituosas. O Caetano é o primeiro a apontar o dedo para eles — observa Tom, reconhecendo que artista certas vezes perdeu a mão em suas respostas ao recorrer a termos homofóbicos (chamou Francis de “bicha amarga”) ou machistas (sobre a cineasta Suzana Amaral, que criticara seu filme “Cinema falado”, Caetano disse que ela não passava “de uma dona de casa que deveria ficar em casa passando óleo de peroba nos móveis”).

Em “Outras palavras”, Tom não se esquiva da tarefa de trazer detalhes sobre a sexualidade de um Caetano que não se considera nem gay e nem bissexual, apesar de ter admitido experiências com homens (de uma transa não concretizada com um amigo, por exemplo, nasceu a música “Eclipse oculto). E também lembra que o artista elogiou os presidentes João Batista Figueiredo e Fernando Collor de Melo, além de ter chegado a considerar Olavo de Carvalho (a quem processaria depois, com sucesso, quando este o acusou de pedofilia) “um importante contraponto ao pensamento de esquerda”. 

— Depois, quando Caetano teve contato com o Jones Manoel, esse professor e historiador marxista pernambucano, ele passou a se considerar menos liberalóide — diz o escritor, para quem definitivamente este “não é um livro contra Caetano”. — Ele é um personagem acima de qualquer suspeita. O que eu vou encontrar que possa desabonar a sua figura? Ele é um homem contraditório, mas não se deve esperar do livro grandes revelações éticas e morais, assim como não se deve esperar de nenhum livro sobre Chico Buarque ou mesmo Roberto Carlos. Eles não têm o que temer.

 

 






















































































Paulo Ricardo









Foto: Reprodução



Luana Piovani - Foto: Divulgação

Sonia Braga - Foto: Divulgação




FOLHA ILUSTRADA









Trecho da capa da Ilustrada que assino hoje, com três livros sobre Caetano Veloso lançados na esteira dos 80 anos do artista. São eles: "Outras palavras: seis vezes Caetano", de Tom Cardoso; "Letras", organizado por Eucanaã Ferraz; e "Lançar mundos no mundo: Caetano Veloso e o Brasil", de Guilherme Wisnik








Caetano Veloso surge 'contraditório' e 'leonino' em livro sobre sua trajetória


LEONARDO LICHOTE 

25 de julho de 2022


BRASÍLIA, DF, 09.03.2022 - O cantor Caetano Veloso

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress



RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O personagem retratado em "Outras Palavras: Seis Vezes Caetano" (Editora Record), de Tom Cardoso, não se deixa capturar facilmente. Num momento, por exemplo, ele assume uma postura sexual avessa a binarismos, décadas antes de isso ser uma pauta banal. "Tendo a rejeitar o conceito [de bissexualidade]. Eu quero mesmo é experimentar sempre, de tudo. Ser capaz de entrar e sair de todas as estruturas". 

Noutro, lança um olhar terno --mesmo que não se descarte a ironia-- sobre o general João Figueiredo, então presidente do Brasil durante a ditadura militar. "Acho que ele tem uma cara de homem que ainda é um pouco menino, que faz uma cara de sério para você achar que ele é sério. Uma seriedade máscula, meio infantil. Eu não antipatizo com ele não." 

Mais do que a manifestação do livre pensar de Caetano, exposto nessas duas aspas, o livro --a partir de declarações do compositor e de pessoas próximas a ele recolhidas ao longo das últimas seis décadas em jornais, revistas, filmes e livros-- documenta o baiano não enquanto personagem acabado, coerente, definido, mas em processo de construção e pleno de contradições. Ou seja, "obra em progresso", para fazer referência ao blog e à série de shows que ele capitaneou em 2008. 

Condensada em pouco mais de 200 páginas --que se somam a anexos como notas, discografia e bibliografia--, sua vida ecoa quase parágrafo a parágrafo os versos que ele mesmo canta em primeira pessoa em "O Quereres". "Onde queres família, sou maluco/ E onde queres romântico, burguês/ Onde queres Leblon, sou Pernambuco/ E onde queres eunuco, garanhão." 

"Entendi que muito mais importante do que eu ouvir Caetano agora sobre todos esses acontecimentos desde a década de 1960 seria ouvi-lo falando de tudo isso no calor da hora, ou seja, suas declarações no momento em que esses fatos se davam", explica o autor, que não entrevistou o baiano ao longo dos dois anos de apuração para fazer o livro. 

"Conversei com algumas pessoas próximas a ele, mas a pesquisa deu preferência aos arquivos de grandes jornais e mesmo da mídia independente. Porque não deixam de ser inéditas e reveladoras falas dele que nunca mais foram lembradas, que não são encontradas no Google." 

O livro, que Cardoso prefere classificar como ensaio em vez de biografia, se divide em seis capítulos, cada um dando conta de um aspecto da personalidade de Caetano --as "seis vezes Caetano" a que se refere o título. Estão lá "o santo-amarense", "o polêmico", "o líder", "o vanguardista", "o amante" e "o político". 

A estrutura, explica Cardoso, foi inspirada na maneira como Paulo Cesar de Araújo organizou seu "Roberto Carlos em Detalhes", biografia proibida pelo Rei e recolhida das livrarias. "De certa forma, foi uma provocação com a campanha que Caetano e todos do movimento Procure Saber fizeram contra as biografias não autorizadas. O que se pode descobrir de comprometedor na vida de artistas como eles? Um envolvimento com o PCC? Não faz sentido essa preocupação", diz o autor.

Não há realmente nada de especialmente comprometedor nas páginas de "Outras Palavras". Há curiosidades como a revelação de quem foi a inspiração para a canção "Eclipse Oculto", relato de uma transa malsucedida --em versos como "mas na hora da cama nada pintou direito"--, o tradutor Paulo César Souza, amigo de Caetano. 

"O próprio Paulo César falou disso numa entrevista de 2008 do jornal baiano 'A Tarde'", explica o autor, desdenhando do teor escandaloso da informação e novamente, por tabela, da resistência às biografias. "Não chega a ser uma grande revelação uma transa de Caetano com um homem hoje em dia, não é?" 

Outras musas de canções aparecem em "O Amante" --das "tigresas" Zezé Motta e Sônia Braga à Gal Costa de "Da Maior Importância", outra letra escrita para um desencaixe amoroso. Nesse mesmo capítulo, são lembrados também o casamento aberto de Caetano e Dedé Gadelha e o início do relacionamento do cantor com Paula Lavigne quando ela era ainda uma adolescente --fatos que nunca foram tratados como segredo, como as muitas declarações dadas ao longo do tempo presentes no livro comprovam. 

Os aspectos mais delicados se mostram não ali, mas na tensa relação de Caetano com a imprensa e a crítica, sobretudo na década de 1970. Numa entrevista em 1978, ele se refere a críticos musicais como obedientes a dois senhores --"um é o dono da empresa, o outro é o chefe do partido." 

Cardoso pondera que o teor das "policialescas críticas" era muitas vezes de patrulha descabida sobre a produção do artista considerada "alienada". Cita como exemplo alguns textos escritos sobre o disco "Bicho", de 1977, que tinha como canção-símbolo a dançante "Odara": "Dançar, nesses tempos sombrios?", reprovava um jornalista. Mas o autor ressalta que "dizer que jornalistas estavam a mando do PCB em plena ditadura era algo sério e perigoso". 

"Vladimir Herzog havia sido assassinado em 1975, não muito tempo antes. Em 1981, houve o atentado no Riocentro. Ou seja, o ambiente ainda era tenso. Algum tempo depois, Caetano deu uma entrevista amistosa ao jornal comunista 'Voz da Unidade' e fez uma espécie de retratação." Ao jornal, o baiano disse: "Profissionalmente eu tive muitos problemas com a crítica, mas não especificamente com os comunistas. Embora tenham dito que eu dedurei algumas pessoas, nunca soube quem é do Partido e quem não é". 

"Ele é muito leonino. É um personagem que lança suas opiniões não como estratégia para chamar a atenção, como marketing, mas por impulsividade. E, nessas horas, é capaz de falas muito coléricas, que se contrapõem a essa coisa meio leãozinho, mais doce, hedonista, odara", diz Cardoso, comparando-o com a personagem de outro livro seu, a biografia "Ninguém Pode com Nara Leão", lançada em 2021. "Nara é o oposto disso, ela tinha preguiça dessa hiperexposição, apesar de ter dado entrevistas muito impactantes." 

Entre as muitas polêmicas do livro, há desde as mais explícitas --como a com Paulo Francis, que o inspirou em certa medida a compor "Reconvexo"-- às mais veladas --como a com Chico Buarque, alimentada sobretudo pela imprensa no período da Tropicália. Se o lança em embates, o caráter "leonino" de Caetano, como identifica Cardoso, também permitiu que se desenvolvesse a figura que aparece no capítulo "O líder". 

"Sem essa personalidade de Caetano, sem sua liderança, não haveria Tropicália, o próprio Gil reconhece isso. Há entrevistas de Gil pouco antes da Tropicália, que mostro no livro, na qual ele falava da 'defesa da pureza da música brasileira'. Ainda havia certa dúvida nele. Em Caetano não. Ele mete o pé na porta e sai abrindo. É ele quem briga com a plateia do Teatro Tuca [no famoso discurso 'vocês não estão entendendo nada']. Ele foi peitando, sempre com um posicionamento corajoso." 

Coragem que aparece em episódios como a bronca que Caetano dá no todo-poderoso Antônio Carlos Magalhães quando este vem lhe cobrar por estar apoiando Collor. "Como você pode falar assim comigo?", disse o músico na ocasião. "Vocês da direita sustentaram esse cara que nós fizemos tudo para derrotar e agora você vem me tratar como se estivéssemos juntos?", continua Caetano, antes de concluir contando que "Toninho Malvadeza ficou ralo". 

ACM como oposição a Collor e Caetano visto como simpático ao ex-presidente --há várias declarações no livro que apontam nesse sentido-- mostra a complexidade não só do cenário político brasileiro, mas do próprio comportamento do músico nesse cenário. O último capítulo de "Outras Palavras", "O político", aparece, portanto, como o mais rico da obra, ao acompanhar o pensamento do artista em movimento incessante. 

Ele sempre declarou desinteresse em participar de organizações políticas ("Nunca pertenci, sequer, ao diretório acadêmico da minha universidade"), o que não o impediu de escrever canções que tocavam em feridas políticas do país e de ser preso e exilado. E menos ainda de participar ativamente da política do país, nunca se furtando a manifestar sua posição.


Divulgação - Caetano Veloso e Maria Bethânia em foto presente no livro 'Outras Palavras: Seis Vezes Caetano", da editora Record 




Divulgação - Caetano Veloso em foto presente no livro 'Outras Palavras: Seis Vezes Caetano", da editora Record - Fotógrafo não identificado/FMIS, Coleção Nelson Motta


"É minha parte favorita do livro", diz Cardoso. "Me surpreendeu muito a maneira como ele vai mudando. Elogia o Lula, dá a entender que o vê como um estadista, e pouco depois sugere que o governo do PT é corrupto. Apoiou Fernando Henrique, mas quando o tucano o citou na cerimônia de posse, Caetano já achou aquilo oportunista. Defendeu Collor quando ninguém mais o defendia, elogiou Olavo de Carvalho. Mais recentemente se aproximou do [jovem historiador marxista] Jones Manoel, dizendo que não é mais o liberalóide que foi. Agora, já declara voto em Lula." 

Na visão do autor, esse comportamento --de constante e desavergonhado autoquestionamento-- se reflete em outros aspectos de sua trajetória, como os que aparecem nos capítulos "o vanguardista" e "o polêmico". "Mas é na política que ele se mostra mais evidente." 

Portanto, ao compilar, como mosaico ordenado, episódios e declarações de Caetano "no calor da hora", o livro mostra que às vésperas dos 80 anos o artista ainda é capaz de driblar expectativas. Seja a de quem espera o lar ou a revolução, o bandido ou o herói, o caubói ou o chinês, o revólver ou o coqueiro.

 

OUTRAS PALAVRAS: SEIS VEZES CAETANO

Quando: Lançamento em 8 de agosto

Preço: R$ 69,90 (308 páginas)

Autor: Tom Cardoso

Editora: Record