domingo, 8 de abril de 2018

2018 - AMARO XERÉM



Abril/2018 - Maria Bethânia e Zeca Pagodinho farão turnê juntos - Foto: Leo Martins / O Globo


— Eu disse a ele (Caetano): “Vou fazer um show com Zeca (Pagodinho), e é um encontro que me comove. Há anos não lhe peço nada. Mas deu vontade de lhe pedir”.

— Ele fez um samba de roda misturado, chique, com uma letra sofisticada, mas muito clara.

[2018, Maria Bethânia]




Letra e música: Caetano Veloso

No alto brilha um risco raro
Que passa do mal ao bem
Por cima formando um aro
Por baixo um trilho de trem
De Guadalupe ao Amparo
De Xerém a Santo Amaro
De Santo Amaro a Xerém

O que passa é mais que claro
É todo mundo e é ninguém
Do generoso ao avaro
De Gaza a Jerusalém
Do bem barato ao bem caro
De Xerém a Santo Amaro
De Santo Amaro a Xerém

Aí amor amor amaro
Aí cheirinho de Xerém
Ai amor — paro
Ai amor — vem

Com você nada comparo
Aquele seu vai-e-vem
Quando eu todo me descaro
Do Leblon a Buranhém
Desculpe o meu despreparo
De Xerém a Santo Amaro
De Santo Amaro a Xerém

Por essa luz eu disparo
Sem repetir nhenhenhém
O Brasil é que é meu faro
Levaremos tudo além
É no samba que eu preparo
De Xerém a Santo Amaro
De Santo Amaro a Xerém

Aí amor amor amaro
Aí cheirinho de Xerém
Ai amor — paro
Ai amor — vem

Aí amor amor amaro
Aí cheirinho de Xerém
Ai amor — paro
Ai amor — vem

Por essa luz eu disparo
Sem repetir nhenhenhém
O Brasil é que é meu faro
Levaremos tudo além
É no samba que eu preparo
De Xerém a Santo Amaro
De Santo Amaro a Xerém






A PRIMEIRA PARCERIA A GENTE NUNCA ESQUECE

Durante uma entrevista esta semana para anúncio de sua nova turnê, o cantor Zeca Pagodinho revisitou a origem de seu interesse pela música:
— Em vez de soltar pipa, jogar bola de gude, eu ficava ali ouvindo os coroas. Tinha vizinho que tocava cavaquinho, bandolim, minha tia cantava... Por isso, eu conheço valsas que têm gente da antiga que não conhece. Tenho boa memória para música.
Quer dizer, tinha. Agora não tenho mais.

No que foi carinhosamente interpelado por Maria Bethânia:
— Ainda tem. Quando a música te toca, você pega. O samba de Caetano (“Amaro Xerém”) cantei uma vez e você cantou imediatamente. Impressionante!
— E em Xerém todo mundo já tá cantando! — comemorou Zeca.

A dupla nunca tinha feito qualquer parceria, seja em gravações no estúdio ou em shows, antes de “De Santo Amaro a Xerém”, turnê que estreia hoje, no Recife, e passa por outras cinco capitais — a estreia no Rio será no próximo dia 21, no Km de Vantagens Hall, na Barra.

O encontro nos palcos será aberto com “Amaro Xerém”, o samba assinada por Caetano Veloso (confira letra ao lado), e contará com mais 33 músicas (algumas inéditas), num apanhado que sintetiza as trajetórias dos dois.

No show, eles se alternam entre momentos em dupla ou cantando sozinhos. Mas a banda, uma mescla de músicos que costumam tocar com um ou com o outro, inclui os violões de Jaime Alem e Paulão Sete Cordas, diretores musicais de “De Santo Amaro a Xerém”.

A parceria, assim como o repertório, teve a informalidade e o carinho mútuo como tônica.
— Almoçamos, falamos de repertório livremente, das coisas de que gostávamos de ouvir, cantamos uns pedacinhos e começamos a definir as linhas do show — lembrou Bethânia.




O GLOBO


Cultura

Crítica: Maria Bethânia e Zeca Pagodinho aproximam cantos da Bahia e do Rio

'De Santo Amaro a Xerém', show que une os artistas, estreou neste sábado em Recife


POR LEONARDO LICHOTE
08/04/2018


Maria Bethânia e Zeca Pagodinho na estreia do show 'De Santo Amaro a Xerém', em Recife - Foto: Daniela Nader / Divulgação 

A viagem proposta no nome do show que une Maria Bethânia e Zeca Pagodinho, "De Santo Amaro a Xerém", não é uma estrada reta. Na estreia do espetáculo em Recife, no Classic Hall, no sábado, a dupla traçou um itinerário sinuoso em que ponto de partida e chegada dançam livres, Bahia e Rio se aproximam e se afastam em umbigadas e bailados de salão, num movimento de negociação gingada entre "paro" (rima com Santo Amaro) e "vem" (rima com Xerém) — como sintetiza a letra de "Amaro Xerém", música inédita de Caetano Veloso feita especialmente para a ocasião. Enfim, o samba. Porque o que se revela no palco, acima de uma investigação dos pontos de contato entre Bethânia e Zeca (Mangueira e Portela, ou as canções que os formaram), é uma celebração ao samba, esse acontecimento entranhado na alma dos dois artistas — e do Brasil.

A abertura com "Amaro Xerém" lança luz nesse sentido (apesar do som embolado, que prejudicou sobretudo Bethânia em diferentes momentos da noite). Outra canção que assume essa função no roteiro é outra inédita, "De Santo Amaro a Xerém", de Leandro Fregonesi. Em formato de refrão de samba de roda, ela carrega o verso "o samba é do Brasil inteiro" — sentença que se desdobra ao longo de todo o espetáculo, que atravessa diferentes sotaques e latitudes do samba, tendo Rio e Bahia como lastro.

Se "Amaro Xerém" conceitua com graça a união da dupla, e "Sonho meu", na sequência, amplia os sentidos do diálogo na figura de Dona Ivone Lara (referência para ambos, em lugares diferentes), é no momento seguinte que a potência do encontro se revela inteira. Zeca torna carioca a malícia baiana de "Você não está entendendo nada" — o show valeria apenas por vê-lo cantar versos como "Eu quero tocar fogo nesse apartamento", "Eu como, eu como, eu como, eu como, eu como/ Você" ou "E quero que você venha comigo" ("Lá pra Xerém", improvisou ele). Em seguida, Bethânia emenda "Cotidiano", pintando em tintas fortes a angústia da canção, em contraste harmonioso com o que seu colega de palco acabara de fazer. A aproximação desses cantos — o rigor pleno de leveza em Bethânia, a leveza plena de rigor em Zeca — é a grande força do show.

MISTO DE MÚSICOS
Sob o canto da dupla, a banda acompanho-os na mesma trilha sinuosa. Formada por um misto de músicos que trabalham com Zeca e com Bethânia (cada um apresenta "os seus"), com direção dividida entre Paulão Sete Cordas ("dele") e Jaime Alem ("dela"), a formação inclui, além dos dois diretores (violões), Rômulo Gomes (baixo), Paulo Dafilin (violão e viola), Marcelo Costa (bateria e percussão), Jaguara (percussão), Esguleba (percussão), Paulo Galeto (cavaquinho) e Vitor Mota (sax e flauta). O batuque é o núcleo, atravessando diferentes vertentes do samba, com a presença dos outros instrumentos — como a viola que remete às variações rurais do gênero e a flauta que evoca a tradição do choro.

Já sem a companhia de Bethânia, Zeca reafirma o samba como assunto central da noite com a mítica "Eu sou o samba"; oferece "Verdade" à Bethânia ("Descobri que te amo demais") e "Saudade louca" a seu parceiro Arlindo Cruz ("Tô com saudade dele, que se Deus quiser vai ficar bom e um dia vai estar aqui com a gente de novo"); e dá uma aula de interpretação — algo que ele e ela fizeram várias vezes ao longo da noite — em "Maneiras". À vontade em seu repertório, ele brinca:
— Agora sim chegou o Zeca Pagodinho. Entrei aqui como Jessé, mas agora chegou o Zeca — disse, para minutos depois, apontando para as taças em cima de sua mesinha no palco, deixar claro que Zeca havia chegado. — Esse (vinho) é pra garganta. Esse (cerveja) é pro calor. E esse aqui (água) é pra se acontecer alguma coisa.

Depois de saudar a Bahia ("Tá sempre comigo, eu tinha que ser baiano") com "Samba pras moças" e seu sabor de Recôncavo, Zeca puxa "Ogum". Bethânia volta ao palco e declama sobra a canção a "Oração de São Jorge" — levando para outros terrenos dramáticos o belo samba.

É a vez de a Bethânia estar sozinha. E ela chega afirmando sua baianidade legítima "Falsa baiana" (em base quase samba-reggae), de Geraldo Pereira, mineiro crescido na Mangueira ("O samba é do Brasil inteiro", como diz Fregonesi). A densidade de "Marginália II" ("Aqui é o fim do mundo", repetido várias vezes) desagua na declamação de "Estação derradeira" — o samba como a utopia possível de superação da violência. O samba das grã-finas ("Pano legal") e a ascensão malandra aos salões da alta sociedade ("Café soçaite") também aparecem — ambas, assim como "Marginália II", extraídas do repertório do clássico "Recital na Boite Barroco", da cantora. A urbanidade enfumaçada de "Ronda" e "Negue" contrasta e dialoga com o caráter interiorano de "Santo Amaro da Purificação" (outra inédita de Fregonesi) e "Quixabeira" — caráter interiorano que está também, de formas diferentes, na resistência de "Purificar o Subaé" e no cosmopolitismo de "Reconvexo". Tudo samba, tudo Brasil.

PORTELA E MANGUEIRA
Em seguida, Zeca e Bethânia se alternam em celebrações às suas escolas de coração, Portela e Mangueira — o figurino de ambos pro show faz menção elegante às agremiações, seja na saia verde dela ou na blusa azul clara dele. Nessa parte, Bethânia apresenta a última inédita da noite, "A surdo 1", de Adriana Calcanhotto, feita em homenagem à vitória da Mangueira no ano em que a escola teve a baiana como enredo ("Acordei e era o dia mais feliz do ano", diz um verso do samba novo).

A dinâmica de pot-pourri de sambas-enredos faz o show perder força, mas o rumo é reencontrado na reta final, quando os dois se juntam no palco de novo. É o momento em que a intimidade entre eles — e entre eles e o samba — aparece de forma mais evidente, num passeio por um repertório de memória afetiva: "E daí", "Naquela mesa", "Chão de estrelas"... Zeca, que passara o show chamando a colega de "rainha", solta um "Só tu, Bethânia", referindo-se ao fato de cantar músicas que nunca havia cantado "a não ser em casa". Ela passa boa parte do tempo em que Zeca canta sorrindo pra ele, num fascínio sincero com seu senso rítmico, seu humor e sua interpretação.

No bis, os dois abraçados, Zeca improvisa, sobre o refrão de "Deixa a vida me levar":

— Deixa a Bethânia me levar!
— Levo — ela responde, antes de os dois cantarem "O que é o que é" (exemplo isolado de obviedade num roteiro muito bem amarrado) e saírem do palco de braços dados.

Cotação: bom



18 e 19/5/2018


18/5/2018

18/5/2018



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