Cartaz central da revista - Foto: Marisa Alvarez Lima |
Foto: Marisa Alvarez Lima |
Esparramada no sofá de couro,
na ampla sala envidraçada, Maria Bethânia está totalmente à vontade na nova
casa, no meio da floresta, longe da badalação de Ipanema onde morava antes.
“Aquela de a gente estar tranquila em casa e toda
hora pintar gente pra bater papo, não dava mais pé.
Eu morava no centro de Ipanema, onde acontecem
todas as coisas, e não estava mais aguentando aquele entra e sai. Gente que eu não
transava, nem conhecia e nem sequer sabia quem era. Sabe, aquelas coisas de as
pessoas passarem na rua e lembrarem: 'Ah, a Bethânia mora aqui. Vamos chegar
lá?' Era esse inferno o dia inteiro. Aqui, as pessoas não vêm mesmo porque é
muito longe, e quando aparecem, eu mesmo despacho. Vou dizendo que sinto muito,
que estou cansada, que não posso atender. Se quiser vir aqui, tem que marcar
hora. Agora só atendo com hora marcada.”' O jeito maroto de falar, gestos
lentos e preguiçosos, não revelam a mulher nervosa e transbordando energia que
a conselho do analista é obrigada a olhar para um aquário, diariamente, durante
vinte minutos, ou fazer trabalhos manuais. Roendo as unhas ou as peles ao
redor, Maria Bethânia diz que preferiu a segunda indicação.
“Me amarro em tudo o que a gente pode criar com as
mãos. Faço bordado, muito, e agora estou pintando também. Não como as pessoas
andam falando, não é nada disso. A hora que sinto vontade, quero criar alguma
coisa, eu faço. Meus quadros são com areia luminosa colorida, não é pintura,
não. Por exemplo: um laguinho azul, um céu cheio de estrelinhas, essas
coisas... Mas não gosto de mostrar, não. É uma coisa muito minha, não para ser
divulgada. Minha profissão é a de cantora, é isso o que eu sei e o que gosto de
fazer realmente.”
A casa é em estilo japonês, com portas de vidro e madeira
correndo em toda a extensão da fachada. Pedrinhas redondas de fundo de rio
contornam uma entradinha que vai até uma ponte de madeira, a qual beira a
piscina e dá acesso à entrada principal. Na sala, esteirinhas servem de
tapetes. A decoração interior não acompanha o resto do estilo. Lá dentro tem de
tudo: objetos de bronze, prata, sininhos, velas coloridas e uma talha imensa
fazendo parede de fundo.
O mesmo jeito e facilidade para os
trabalhos manuais Bethânia tem também na cozinha. Sem empregada, não se afoba.
“Adoro cozinhar. sei fazer de tudo. De tudo mesmo.
Aprendi lá em Santo Amaro, com minha mãe, olhando ela fazer.”
De volta à sala, ela acende um incenso e coloca
dentro de um defumador de prata. Em seguida, põe em ordem alguns enfeites que
estão sobre um grande móvel.
“Eu transo muito essa arrumação, sabe? Sou a rainha do detalhe. E a casa ainda não está como eu quero. Assim que tiver tempo, vou encher
as paredes e os portais com mil coisinhas de prata, de cobre, de tudo.”
Com o ambiente perfumado pelo cheiro de incenso de
sândalo, Bethânia se atira novamente no sofá de couro e mostra um beija-flor na
árvore que quase entra pela janela aberta.
“Ele vem aqui todos os dias. Vou comprar um
vidrinho para colocar água com açúcar e encher tudo aqui de beija-flor.”
Lá longe, o mar da Barra, muito azul, bate na
praia.
Foto: Marisa Alvarez Lima |
“Não transo muito praia, não. Morei anos em Ipanema
e nunca fui à praia lá. Não leio jornais, não vou ao cinema, ao teatro, não
quero saber de nada. Mas não perco as novelas de televisão. Adorava 'Selva de
Pedra', nunca perdia um capítulo. Morria de chorar quando a Simone beijava o
Cristiano, escondidos de todo o mundo. Adoro essas coisas, romance, ternura...
O trabalho? “Uma rotina constante. Sempre estou
fazendo shows, gravando Lps, viajando com show para outros estados. Sempre a
mesma coisa.
Não muda. Mudam as músicas, os textos, as viagens.
Mas é sempre a mesma coisa. Meu roteiro é sempre o mesmo. Agora, o Pierre
Barrouch me chamou para cantar no teatro dele em Paris, mas acho que não vou,
não. Não estou aguentando mais a Europa. Sei lá. Pode ser que até lá tudo mude.
Não me preocupo muito com as coisas. Elas acontecem pra mim sem fatalidade. Até
novembro está tudo marcado para mim. Agora, um show dirigido por Fauzi Arap, no
Teatro da Praia, e que vai ter o nome do meu último Lp: Drama. Quero ver
se tiro o prêmio deste ano, com esse show. E vou tirar, sim.”
Ela não nega a fixação que tem pelo palco.
“É engraçado. Eu não gosto de teatro. Vou raras
vezes assistir a um espetáculo. Mas adoro curtir um palco. Acho a glória, a
maravilha. É a minha vida. Esqueço tudo. Acho tudo legal.”
Das últimas apresentações na Europa trouxe saudades
da Alemanha. Correu todo o país, foi também a três cidades da Áustria, a
Amsterdam, Oslo, Roma e Milão.
“Na Itália não tem grandes novidades. O pessoal já
me conhece. Já estive lá. Mas na Alemanha foi a glória. Além de show, gravei
programas para a televisão, fiz programas de rádio, e gravei um disco. Nos
espetáculos éramos eu, Sebastião Tapajós, que tocava seu violão clássico,
Paulinho da Viola e Pedro dos Santos, que deixou os alemães de boca aberta com
sua percussão. Eu cantava pontos de macumba e músicas do nordeste. Os teatros
se enchiam sem parar, só estudantes. Achei o público jovem alemão
interessadíssimo. Os caras lá queriam saber tudo. Sabe aquela coisa de ir no
camarim pedir autógrafo no final do espetáculo? Pois é. Foi maravilhoso. Um
delírio.”
A excursão foi encerrada na Itália, com um festival
de folclore, onde ela se apresentou ao lado de cantores populares do mundo
inteiro. Do texto do show ela ainda não quer falar.
“Gosto de fazer mistério. O que posso dizer é que
vai ter trechos de Fernando Pessoa e Clarice Lispector, e mais nada. Vai ser o
contrário de Rosa dos Ventos, que foi um show celestial. Drama são
coisas da vida. Uma fagulha do que eu sou. De tudo o que faço em teatro com o
Fauzi.”
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