martes, 13 de marzo de 2018

1999 - AS CIDADES




"Chico, eu vi o show pensando o tempo todo que ele tivesse sido feito para mim. Especialmente para mim".
[10/1/1999, Caetano Veloso]






 







São Paulo, quarta, 6 de janeiro de 1999 

MÚSICA

Show solo é o primeiro do compositor desde 94

Chico estréia hoje "As Cidades" no Rio

da Reportagem Local

Chico Buarque estréia hoje, no Rio de Janeiro, seu primeiro show solo desde 1994.

"As Cidades" marca a apresentação do CD homônimo, que o cantor e compositor carioca lançou em novembro último.

"As Cidades" teve pré-estréia de "aquecimento" em Juiz de Fora, Minas Gerais, nos dias 28 e 29 de dezembro.

A temporada carioca tem duração prevista de cinco semanas; em 18 de março, o compositor inicia a temporada paulistana no Palace.

O roteiro do show começa com "Paratodos", canção do disco homônimo lançado em 1993, que encerrava o show correspondente, que estreou no mesmo Canecão, em 6 de janeiro de 1994, há exatos cinco anos.

Passeio
Além de canções do novo disco, prevê um passeio pelas três décadas e meia de carreira do artista, incluindo "Quem Te Viu, Quem Te Vê" (67), "Cotidiano" (71), "Construção" (71), "A Noiva da Cidade" (76), "As Vitrines" (81), entre outras.

Temática feminina
Chico selecionou, entre as antigas, canções que diz nunca haver cantado ao vivo, como "O Meu Amor" (78), "Terezinha" (79), "Sob Medida" (79) e "Aquela Mulher" (85), que se agrupam num bloco de temática feminina no show.


Show: As Cidades
Artista: Chico Buarque
Onde: Canecão (av. Wenceslau Brás, 215, Botafogo, zona sul, Rio de Janeiro, tel. 021/543-1241)

Quando: estréia hoje, às 21h30; quintas e domingos, às 21h30, sextas e sábados, às 22h30; até 7 de fevereiro Quanto: de R$ 20 a R$ 40



Jornal do Brasil

08/01/1999

A cidade aos pés de Chico Buarque

É igualzinho Copa do Mundo. Acontece de quatro em quatro anos, deixa a platéia com o coração na boca e rende assunto para o ano inteiro. Mas o dono da bola, Francisco Buarque de Hollanda, deixou claro na quarta-feira - em meio à tribuna de honra em que se transformou o Canecão - que pode ser ainda mais intransigente do que os velhinhos da Fifa: "Não vou mudar a alternância para dois anos não. Aí vai perder a graça", brincou o compositor nos bastidores da estréia carioca do show As cidades.

Enumerar os motivos para a alegria de Chico não é tarefa difícil. Quase falastrão no fim do primoroso espetáculo, devorando uma maçã, ele comemorava a disputa pelos ingressos do show e a venda de 300 mil cópias de seu novo CD. No palco, alternou novas pepitas com antigos sucessos, como Teresinha e O meu amor, do musical A ópera do malandro. "Como tive de retornar às minhas composições por conta do songbook elaborado pelo Almir Chediak, acho que fiquei mesmo com vontade de cantar estas velhas canções. Aliás, muitas delas sequer havia gravado", disse Chico, antes de partir com a família para o restaurante Amarcord, na Lagoa.

Melhor para o público. Que bateu palmas com vontade em Quem te viu, quem te vê, Construção e Cotidiano. Aliás, a audiência estava mais para Shrine Auditorium do que para as arquibancadas do Maracanã. Foram os famosos que puxaram a ovação recebida por Fernanda Montenegro quando a atriz adentrou no Canecão. "Olha só a minha mão, como está gelada!", mostrava a diva. Emocionada, só conseguiu chegar à mesa que dividiu com o marido Fernando Torres e a amiga Maria Bethânia depois de acenar para o público repetidas vezes. Mais Oscar, impossível. "Meus Deus, eu não tenho nervos de aço não. Ih, agora minhas mãos estão trêmulas", dizia, satisfeitíssima.

As palmas, que continuaram enquanto os famosos iam chegando, acabaram gerando situações constrangedoras. O prefeito Luiz Paulo Conde, tal qual a moça feia que pensava ouvir a banda tocando apenas para ela, teve por alguns minutos a certeza da consagração. Só então percebeu que a manifestação era toda para Milton Nascimento, que entrara imediatamente atrás. Em meio a tantos aplausos e aplaudidos, o público se distraía tentando adivinhar quem eram os merecedores das honrarias. "Mas os aplausos não eram para o Lula?", perguntava uma distraída Renée de Vielmond.

A espera de As cidades só não foi mais animada porque a população que se espremia nas mesas do Canecão sofreu com a falta de gelo. Só quem pedisse uísque tinha direito ao acompanhamento on the rocks. "É que o caminhão de gelo não veio. Aí a gente tem de priorizar", explicou uma funcionária. Mas apesar do gelo, da chuva e da fila no estacionamento, todo o sacrifício valeu a pena. A socialite Regina Marcondes Ferraz era das mais animadas. Mesmo depois de esperar longos minutos para que um abnegado a resgatasse de sua Mercedes, com um enorme guarda-chuvas que protegia seu vestido vermelho.

Depois de os casais se entreolharem cúmplices em Cecília e caírem no samba com a homenagem à Mangueira, Chico protagonizou um dos maiores beija-mãos da história do Canecão. Um platô foi instalado no camarim e todos tinham de vencer uma escada para agradecer o mestre. Marieta Severo, que por diversas vezes foi focalizada no telão durante o show - com destaque nas músicas Samba do grande amor e Homenagem ao malandro - jurou que não percebeu nada. "Só fiquei sabendo disso depois do show. Estava tão atenta ao palco que não vi estes detalhes", disse.

No camarim houve tempo para tudo. Deborah Colker confessou que passou quase todo o show com os olhos marejados: "foi muito emocionante". Já Maria Bethânia reencontrou seu senso de brasilidade. "A palavra da noite foi Brasil e Chico é o que há de mais brasileiro. Está para a música como a Fernanda está para o teatro. Chega de caras e caretas! Viva Chico Buarque! Sou, como todas, perdidamente apaixonada por este homem", exclamava a cantora, empolgadíssima. A colega Zélia Duncan acrescentou: "neste show Chico mostrou toda sua generosidade. Ele cantou lindamente tudo o que o público queria ouvir".




E não foi só. Puderam conferir o sorriso aberto do tímido notório Marília Pêra, Oscar Niemeyer, Dona Zica, Edu Lobo, Patrícia Pillar, Zeca Pagodinho, Helena Severo, Paulinho Moska, Benedita da Silva, Marina Lima, Ferreira Gullar, Andréia Beltrão, Nelson Pereira dos Santos. E muitos, muitos outros. Sorriso aberto, Chico falou sobre os arranjos das músicas de As cidades: "São sofisticados, mas despojados. É a simplicidade, que se encontra depois de longo caminho". Ao público, extasiado, só restou concordar. E esperar por mais uma copa do mundo. "Quem sabe com a Fernanda, o Dominguinhos e a Bethânia no palco. Seria o máximo", arrisca Chico. E que ninguém tenha mais dúvidas: o penta, definitivamente, será nosso.

7/1/1999 - Foto: Ana Carolina Fernandes / Folhapress


7/1/1999 – Chico Buarque engata poesia e prosa com Patrícia Pillar nos camarins do Canecão, no Rio de Janeiro - Foto: Ana Carolina Fernandes / Folhapress


1999
Revista Época


Chico, São Paulo e Bahia

Uma declaração de amor pelo show As Cidades

Caetano Veloso

O show do Chico foi uma das coisas mais maravilhosas que vi nos últimos tempos. Uma das emoções mais inteiras e impressionantes que já tive. Os anos passando, e Chico, como artista maravilhoso, foi sedimentando seu talento. 

Esse show é uma prova disso. O público chegava no Canecão, sentava, e aí vinha o Chico, desfiando aquelas canções belíssimas, com um roteiro extraordinariamente bem-feito. O show é lindíssimo. É uma catarata de palavras e melodias bem encontradas. Que fluem com uma naturalidade, que tocam em pontos de muita profundidade e beleza. O público fica louco. Chorei quando vi o novo show de Chico.

Eu adoro a música "Carioca". Embora ninguém fale disso, Chico de fato é muito paulista. Ele nasceu no Rio, mas por mim ele é paulista. Eu o conheci em São Paulo, ele cresceu em São Paulo, se educou em São Paulo, o pai dele era paulista, a casa dele era em São Paulo. Ele se mudou para o Rio depois que já era um homem. As canções que fizeram de Chico Buarque o que ele é foram todas compostas em São Paulo. São canções paulistas. Mas ele não toca muito no assunto, ele ficou como carioca e ponto final. E os paulistas, por sua vez, não reivindicam isso. Eu acho isso uma coisa misteriosa! Isso revela muito sobre São Paulo.

Não quero encher o saco do Chico com essa história. Já encho muito o saco dele, normalmente, porque sou muito falastrão e ele é muito calado. Eu falo muito as coisas que penso, e o Chico acha isso um pouco chato. Mas ele gosta de mim. Quando começaram a sair notícias no jornal sobre o disco dele, que não por acaso chama-se As Cidades, li que uma das músicas chamava-se "Carioca". O disco é todo espetacular, mas essa música resume tudo o que penso sobre o trabalho e o show. Quando ouvi "Carioca", percebi que a canção tinha uma levada algo baiana, algo axé. Aquela mistura de marcha-rancho com samba leva para a Bahia.

Vamos voltar no tempo. Quando a Mangueira fez um desfile em homenagem aos baianos (eu, Bethânia, Gal e Gil), a crítica caiu em cima, os jornais meteram o pau na escola, e a Mangueira quase caiu do Grupo Especial. Anos depois a Mangueira homenageou o Chico, e todo mundo achou maravilhoso. Mas os autores do samba eram paulistas, e eu pensei: "Que coisa reveladora!"

Isso tudo tem um significado sutil e profundo para mim. Quando fui ver o show, Chico canta um samba da Mangueira de décadas atrás que diz mais ou menos o mesmo que a música que fiz para agradecer o desfile em nossa homenagem. É uma letra que começa a enaltecer as coisas da Mangueira e termina sempre assim: Até parece que eu estou na Bahia. O Chico incluiu a música no show e... eu chorei. Fechava toda essa história que penso sobre Chico, São Paulo, Rio, enfim... Eu fui até ele e disse: "Chico, eu vi o show pensando o tempo todo que ele tivesse sido feito para mim. Especialmente para mim".



FOLHA DE S.PAULO

São Paulo, Quinta-feira, 18 de Março de 1999 

SHOW

Chico

MARCOS AUGUSTO GONÇALVES 
Editor de Domingo 

FERNANDO DE BARROS E SILVA 
Editor interino de Opinião 
  


O compositor fala do show que estréia hoje no Palace, em SP, diz que está compondo melhor e pergunta, com humor: "Será que FHC acha que eu sou o Itamar da música?"



"Será que FHC acha que eu sou o Itamar da música?", perguntou um bem-humorado Chico Buarque de Holanda, durante a entrevista que concedeu anteontem à noite à Folha. Chico ironizava as críticas que tem recebido do presidente da República, embora a política já não pareça ocupar em sua vida o espaço de outros tempos.

A partir de amanhã, durante sete semanas, ele estará de volta ao palco em São Paulo. O show que leva ao Palace é uma apresentação do CD "as cidades", recheada com uma oportuna revisão de antigas canções -"umas que eu achei que o disco puxava, outras para o público poder cantar", diz.

"As Cidades" -ou "as cidades", em minúsculas, como grafado no disco- foi recebido com certa frieza por parte da crítica, embora se ouça nele um compositor em pleno domínio de seu repertório e um letrista exímio, agora mais claramente contaminado pela experiência literária.

Gilberto Gil viu em "Iracema", do novo CD, uma relação com "Bye, Bye Brasil". Parece haver, de fato, em "as cidades", um lirismo desencantado, uma espécie de tradução poética da vertigem brasileira nesses tempos pós-utópicos.

Chico fala de música, de política, comenta o livro de Caetano Veloso ("Verdade Tropical") e conta qual foi a reação de seu pai, o historiador Sergio Buarque de Holanda, quando disse a ele: "Papai, estou lendo "Raízes do Brasil"".


Folha - O CD "as cidades" parece atravessado por uma espécie de lirismo desencantado, como se a musa evocada pelas canções estivesse desalojada, inviabilizada pelas próprias canções. É como se você não pudesse mais cantar o Brasil de Tom Jobim, ao qual o disco obviamente se filia. Qual o alcance desse desencanto?
Chico Buarque - Talvez esse desencanto seja uma constante na minha música. Quando essa tristeza foi assinalada por mais de uma pessoa, como uma característica desse disco, eu me perguntei se essa não é uma característica permanente da minha obra. Eu não tenho discos especialmente alegres.
Eu procurei nesse disco uma tonalidade mais grave; há mais canções lentas do que em obras anteriores. Eu hoje domino melhor meu instrumento e me sinto um músico muito melhor do que há 30 anos. Talvez haja no disco a presença e a ausência de Tom Jobim, ao mesmo tempo.

Folha - Há um registro onírico no disco, que muitas vezes surge como pesadelo, como uma vertigem, da qual você aliás parece ter consciência quando afirma, no título de uma canção, "Sonhos Sonhos São".
Chico - Com certeza, o tom de "Sonhos Sonhos São" é vertiginoso. Mas, por outro lado, há também um certo humor presente lá. Essa canção talvez tenha a ver com o clima da minha literatura. A idéia dessa canção é um pouco literária. Eu pretendia transformar em música uma idéia dificilmente musicável, mais literária, que é a idéia do sonho. Eu queria fazer uma música que estivesse dentro do sonho, que traduzisse a sua sensação, e não apenas que falasse dele. Isso remete a "Estorvo" e "Benjamin", meus romances.

Folha - A vertigem dessa canção, que não está ligada mais ao Brasil, mas a cidades aleatórias e cambiáveis, não seria uma versão contemporânea da vertigem de "Bye, Bye, Brasil", que você compôs no início dos anos 80?
Chico -
Isso é engraçado. O Gil, conversando recentemente comigo, comparou "Iracema" a "Bye, Bye, Brasil". Talvez o disco todo permita essa passagem. Não sei.

Folha - Mudando de assunto, por que é que os presidentes da República nunca gostam muito de você?
Chico - (gargalha)

Folha - O presidente Fernando Henrique tem criticado você e manifestado preferência por Caetano Veloso, embora diga que vocês dois e o Gil sejam os três grandes da MPB. Que história é essa?
Chico - Normalmente, quando o político fala de música popular, está fazendo política. Amanhã é capaz que o Lula venha assistir meu show. É um ato político. Eu duvido sinceramente que o Lula goste tanto da minha música. Ele vindo, vai desmentir isso, mas eu não acredito. Já passei por isso várias vezes.
No caso do Fernando Henrique, o fato de ele gostar mais do Caetano e do Gil pode ser mesmo uma apreciação estética, mais do que política. Afinal, o Fernando Henrique nem é tão bom político assim. O Antonio Carlos Magalhães é muito melhor político do que ele. Está há muito mais tempo no métier e não diria uma coisa que não fosse conveniente politicamente.

Folha - O fato de o projeto do Fernando Henrique ser, em linhas gerais internacionalista, apostando num certo tipo de modernização via abertura, talvez o leve a se identificar mais com as posições do Caetano, que sempre esteve mais para a internacionalização, a indústria cultural, o livre mercado. Você talvez seja visto como representante de um pensamento que ele considera condenado, o nacionalismo, a esquerda...
Chico - Será que ele pensa que eu sou o Itamar da música? (gargalha) Acho que não chega a esse ponto também. Se ele me considerasse um Itamar, a reação dele comigo seria mais violenta. Ele me vê mais próximo do Lula, do PT, embora eu não seja do PT. Mas acho engraçado o nervosismo do governo com o Itamar. Sempre houve um certo desdém pelo Itamar e, de repente, todo o ódio se voltou contra ele no círculo mais próximo do presidente.

Folha - Você passa a impressão de que depois da eleição presidencial de 89, entre Collor e Lula, se desencantou da política, de que continua se posicionando e participando meio a contragosto.
Chico - Aquele foi um momento crucial, em que havia chance real de vitória de uma frente de centro-esquerda. Teoricamente, o próprio Fernando Henrique estaria nessa frente. Até o PSDB timidamente apoiou o Lula. Estavam ali representantes de todas as correntes que lutaram contra a ditadura. Eu sempre me vi integrado a movimentos mais amplos, de mudanças amplas, não apenas partidários. Nessa última eleição, eu votei no Lula porque discordo das propostas do Fernando Henrique, mas, no fundo, não queria ver o Lula eleito agora. Seria impossível governar. Olhando agora para trás, até mesmo em 89, se o Lula fosse eleito, dificilmente ele governaria. Estão surgindo revelações sobre restrições militares à eventual posse de Lula em 89.
Eu quis em 98 apenas manifestar meu desacordo com isso, mas sem a ilusão de estar participando minimamente de um movimento, porque não existe mais essa possibilidade. Talvez houvesse em 89, mas hoje até isso eu coloco em dúvida.

Folha - Você publicou "Estorvo" em 91. É um romance que aponta para um profundo mal-estar na civilização brasileira. Em que medida o livro foi uma maneira de responder, solitariamente, não exatamente à decepção política, mas a um desencanto com um projeto de país que se frustrou?
Chico - Não foi uma reação à política. Há uma tendência generalizada de politizar o que eu faço. As pessoas acham que eu sou mais politizado do que realmente sou. Quando eu procuro o caminho da literatura é porque talvez esteja se desgastando meu trabalho com a música. Eu já vinha há um bom tempo sem vontade de fazer música. A literatura para mim foi um caminho anterior à música. Eu entrei na música por acaso. Estudava arquitetura, escrevia e fazia música por brincadeira.

Folha - Nos anos 50, com a bossa nova, e também nos 60, a música popular foi uma espécie de catalisador de uma série de demandas ou de aspirações coletivas. Parecia haver uma utopia coletiva em relação ao Brasil.
Chico - Nos anos 50 havia mesmo um projeto coletivo, ainda que difuso, de um Brasil possível, antes mesmo de haver a radicalização de esquerda dos anos 60. O Juscelino, que de esquerda não tinha nada, chamou o Oscar Niemeyer, que por acaso era comunista, e continua sendo, para construir Brasília. Isso é uma coisa fenomenal. Se você pensar, em contraposição, na década seguinte, quando foi construído o Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, aquele monstro neoclássico no Morumbi, você percebe a diferença.
Brasília não é condenável por ter sido construída. Ela foi construída sustentada numa idéia daquele Brasil que era visível para todos nós. Inclusive nós, que estávamos fazendo música, teatro etc. Aquele Brasil foi cortado evidentemente em 64. Além da tortura, de todos os horrores de que eu poderia falar, houve um emburrecimento do país. A perspectiva do país foi dissipada pelo golpe.

Folha - Mas até o AI-5, a cultura foi de certa forma preservada.
Chico - Foi, é verdade. Em 64 fecharam sindicatos, perseguiram estudantes, cassaram políticos etc., mas nenhum teatro foi fechado. Não havia censura institucional. Eu tive uma única música censurada nesse período. O governo, até 68, incomodou pouco a cultura. Depois foi aquele Deus nos acuda.

Folha - Sobre esse período, comentando o livro do Caetano, "Verdade Tropical", você disse que teria vontade de escrever o lado B dessa história. Você poderia adiantar algumas faixas desse lado B?
Chico - Essa foi uma resposta para me livrar de jornalistas. Eu sou um ficcionista, acho chato escrever memórias, isso não me atrai.

Folha - Mas o livro do Caetano não é de memórias apenas, é um livro que pretende interpretar o período.
Chico - Há coisas ali no livro do Caetano... não é que eu discorde. Às vezes, eu vejo que vivemos os mesmos fatos, antes mesmo de nos conhecermos, sob prismas coincidentes. Às vezes, embora eu entenda o ponto de vista dele, tenho em relação aos fatos que ele menciona pontos de vista inteiramente diferentes. Digo, poxa, interessante que ele tenha interpretado assim, eu vejo diferente, mas não é que haja alguma mentira no livro, não há.

Folha - Você ainda tem contato com os amigos de geração de seu pai (o historiador Sergio Buarque de Holanda, autor de "Raízes do Brasil", morto em 82), com o Antonio Candido, o Décio de Almeida Prado? Qual a sua ligação com eles e com seu pai, do ponto de vista intelectual?
Chico - Eu não tenho contato com esses amigos de meu pai. Tratei eles sempre com muita cerimônia. Eu tinha uma espécie de temor reverencial por essas pessoas.
Eu tinha esse temor até em relação à biblioteca do meu pai. Fui com o tempo me aproximando da biblioteca e não dos amigos. Nunca tive intimidade com o Antonio Candido. Tenho por ele uma admiração muito grande, um carinho. É um tio. Fui mais tarde conhecer o trabalho de crítica literária do Antonio Candido, mas quando já não morava mais na casa de meus pais.
Mais tarde também fui ler os livros de meu pai. Eu me lembro de ter dito: "Papai, estou lendo "Raízes do Brasil". E ele: "Não, não lê, não. Lê "Visão do Paraíso", que é muito melhor".


Show: Chico Buarque em As Cidades
Quando: estréia hoje; quinta, às 21h30, sexta e sábado, às 22h, e domingo, às 19h; até 2/5
Onde: Palace (al. dos Jamaris, 213, Moema, São Paulo, SP, tel. 011/531-4900) 
Quanto: de R$ 35 a R$ 75 (quinta e domingo) e de R$ 40 a R$ 80 (sexta e sábado)




19/3/1999 - Chico Buarque de Hollanda em seu show "Cidades" no Palace
Fotos: Adriana Zehbrauskas/Folhapress

11/4/1999 - Chico Buarque de Hollanda canta e toca violão durante show de seu novo disco "As Cidades", em cartaz no Palace, em São Paulo (SP)
Foto: Ana Ottoni / Folhapress

11/4/1999 - Chico Buarque de Hollanda sorri para fãs no final do show de seu novo disco, "As Cidades", em cartaz no Palace, em São Paulo (SP)
Foto: Ana Ottoni / Folhapress



ISTOÉ Gente

29/11/1999

Chiquinho timbaleiro


A cena aconteceu no final do show de Chico Buarque no sábado 20/11/1999, no Canecão, Rio: depois que o cantor terminou o show e preparava-se para dar o bis, seu neto, Francisco Buarque de Holanda, 3 anos, filho de Helena Buarque e Carlinhos Brown, saiu de trás dos camarins e invadiu o palco mostrando o que anda aprendendo em casa com o pai timbaleiro. - Foto: Kiko Cabral



Chico Buarque em um dos shows de "As cidades" no Canecão. Seu neto Chiquinho subiu no palco nesta apresentação - Fotos: Vera Donato


22/11/1999 - Caetano Veloso no show de Chico Buarque, no Canecão, no Rio de Janeiro (RJ) - Foto: Publius Vergilius / Folhapress

22/11/1999 - Joana no show de Chico Buarque, no Canecão, no Rio de Janeiro (RJ) - Foto: Publius Vergilius / Folhapress
 
22/11/1999 - Evandro Mesquita no show de Chico Buarque, no Canecão, no Rio de Janeiro (RJ) - Foto: Publius Vergilius / Folhapress
















 



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