sábado, 14 de agosto de 2021

2021 - 50 anos - JOÃO GILBERTO / CAETANO VELOSO / GAL COSTA - Programa Especial da TV Tupi

 








29/9/1971 




















1971
Revista inTerValo
Ano IX - n° 458
Outubro
 
Editora Abril
Capa: Francisco Cuoco
Foto de Francisco Albuquerque
















































































































HÁ 50 ANOS


'João falou, tá falado': A volta de Caetano Veloso do exílio para gravar com João Gilberto e Gal Costa

 11/08/2021 


Caetano Veloso e Dedé Gadelha desembarcam no Rio, em agosto de 1971
Foto de arquivo/Agência O GLOBO


Caetano Veloso baixou no Aeroporto do Galeão às 9h15 daquele domingo, ao lado da atriz Dedé Gadelha, sua companheira na época. Assim que foi liberado pela Alfândega, abraçou os amigos e ficou emocionado ao receber do poeta José Carlos Capinam a notícia de que Nicinha, sua irmã, preparara "aquelas cocadinhas brancas que você gosta". Mas a ficha caiu de verdade num sinal da Avenida Atlântica, em Copacabana, onde o fusca vermelho que o levava parou do lado de um táxi, cujo motorista abriu a janela e gritou para o cantor: "Saravá! Salve a Bahia!". Caetano estava em casa.

Era agosto de 1971. O compositor baiano morava em Londres, onde se exilara em 1969, depois de três meses preso sem motivo nenhum, sem direito a advogado e sem comunicação com a família, na ditadura militar. Em janeiro de 1971, ele já estivera no Brasil para o aniversário de casamento dos pais, mas fora detido na escada do avião e mantido numa sala do Centro do Rio durante seis horas, sob pressão para escrever uma canção em homenagem à rodovia Transamazônica, que o governo estava construindo no Norte do Brasil. Ele foi liberado mesmo sem aceitar fazer a letra, mas aquela situação ergueu mais um trauma em sua cabeça.


Caetano Veloso de cabelo cortado após ser preso, em dezembro de 1968 | Reprodução


De volta a Londres, Caetano chegou a pensar que jamais voltaria a seu país, mas essa perspectiva mudou com um telefonema de João Gilberto, convidando-o para gravar um programa na TV Tupi com ele e Gal Costa. O violonista pai da bossa nova garantiu que, daquela vez, o tropicalista não seria perturbado pelos militares. Portanto, em 8 de agosto de 1971, há 50 anos, lá estava, no Galeão, o quinto dos sete filhos de Dona Canô e Seu Zezinho: "João é meu chefe, ele falou, tá falado. Tomei um avião e vim", explicou o artista, com a expressão alegre, mas cansada, de quem não conseguira nem cochilar no voo, que fizera escalas em Madri e Recife.

O músico de 29 anos recém-completos chegou ao Rio montado em dois tamancos holandeses, com meias de lã cor de vinho, calça de brim azul com uma borboleta numa das pernas, camisa colorida e um jaqueta surrada que alguém chamou de "mais velha do que ele". Recebido pelo grupo de amigos que fora buscá-lo no aeroporto, Caetano quis logo saber das irmãs: "Irene, Nicinha, Bethânia, cadê?". Era a deixa para levar o cantor ao apartamento de Maria Bethânia, em Ipanema.


Caetano Veloso e amigos como Jorge Mautner e Wally Salomão
no aeroporto, em 1971 | Foto de arquivo/Agência O GLOBO


Os planos eram voar para São Paulo ainda naquele domingo e varar a madrugada gravando o programa com João e Gal. No dia seguinte, Caetano queria estar de volta ao Rio para ver Bethânia no Teatro da Praia, em Copacabana, com o show "Rosa dos Ventos". Depois, visitaria a Bahia e retornaria para "swinging London". Na época, o músico se preparava para gravar o segundo álbum no exílio, o antológico "Transa", um dos discos mais importantes da MPB, lançado em 1972.

"Agora, as coisas vão sair mais de dentro de mim. Quase tudo será novo, vou fazê-lo num outro mundo, improvisando, inventando. O primeiro disco foi legal, mas eu achei muito profissional, meio frio, exceto por 'Asa Branca' e 'Maria Bethania'", contou o músico. "O que posso dizer de novidade é isso. O que virá depois, ainda não sei". 

A reportagem sobre a chegada de Caetano no Rio, publicada na edição do GLOBO de 9 de agosto de 1971, é rica em detalhes. O texto não está assinado, mas o jornal relata até o encontro com a irmã Nicinha na residência de Bethânia, que ainda dormia quando o artista adentrou o apartamento. Nicinha estava na cozinha fazendo um xinxim de galinha para o almoço ("comida de inglês deve ser castigo pra estômago de baiano", disse ela), mas saiu para abraçar o irmão. Os dois choraram, mas, logo depois, estavam morrendo de rir. Cercado de amigos, Caetano falava sem parar, contando das novidades, dividindo sua expectativa sobre a gravação do programa, em São Paulo.


Caetano Veloso e sua irmã Nicinha se reencontram na casa de Maria Bethânia, em 1971 - Foto: Manoel Soares/Agência O GLOBO

 

"Você vê... Gal cantando com João deve ser uma coisa grande. Eu é que não sei o que vou fazer do lado deles, que absurdo!", comentou o artista, modesto, antes de descer à rua afim de ligar para São Paulo de um telefone público. Minutos depois, de volta ao apartamento, encontrou Bethânia, que havia, enfim, acordado: "Mas que mulher linda é essa na minha frente?", disse o compositor quando viu a irmã.

O papo continuou animado, e os olhos de Caetano brilharam quando ele contou que o amigo  estava fazendo sucesso na Europa. "As coisas dele por lá tem uma aceitação tremenda, mas não é que esteja fazendo música para inglês ou americano. Gil é um cara profético, eu sou apostólico. Aí está a diferença", refletiu. 

A certa altura, José Carlos Capinam perguntou quando Caetano e Dedé teriam um "inglês", ao que o baiano respondeu: "Dedé é muito preguiçosa. Mas, pro ano que vem, quem sabe? Eu queria ter era uma dúzia. Por enquanto, em Londres, Dedé só quer saber de filmar, não larga a sua Super 8mm. Até eu filmei, quando chegou a primavera em Londres. Nos jardins, só tinha rosa". O primeiro e único filho do casal, Moreno Veloso, nasceria em novembro de 1972, quando eles já tinham voltado por definitivo ao Brasil, naquele mesmo ano (na década de 90, nasceriam Zeca e Tom, filhos da união com a empresária e atual companheira, Paula Lavigne). 

Conforme planejado, Caetano voou para São Paulo e fez o programa com João e Gal. A gravação foi ao ar em outubro daquele ano, na TV Tupi. Havia planos de lançar também um disco, mas o sempre muito exigente e irredutivel cantor de "Desafinado" não aprovou o áudio e vetou a ideia. Quem se interessar pode ouvir dois trechos de 30 minutos do programa no Youtube, em qualidade bastante razoável, graças aos esforços do pesquisador Pedro Fontes. Tem tesouros como Gal cantando "Falsa baiana", Caetano fazendo sua versão de "Asa Branca" e João entregando "Retrato em preto e branco". Os três cantam juntos "Você já foi à Bahia?".

"Acho que a emoção de cantar com João só será superada no dia em que nascer meu primeiro filho. Frise-se, porém, que Dedé não está esperando ainda e que a criança, quando nascer, será filha da cidade de Salvador, capital da minha Bahia", disse o tropicalista depois da gravação do programa. 

Anos mais tarde, o cantor revelaria, no livro "Verdade tropical", lançado em 1997, que aquela visita ao Brasil foi fundamental para ele entender que poderia voltar em segurança ao país. Cinco meses depois, em janeiro de 1972 o músico considerado um inimigo pela ditadura militar retornava a sua terra natal em plena vigência do Ato Institucional 5 (AI-5), que instrumentalizara a sua prisão. Mas a história dessa chegada a gente resgata depois.


Caetano Veloso durante o bate-papo na casa de Maria Bethânia,
em agosto de 1971 | Foto: Manoel Soares/Agência O GLOBO









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