April
15, 2004 at 8:30 PM
Zankel
MART’NÁLIA
With
special guest appearance by Caetano Veloso
April
16, 2004 at 8 PM
Stern
CAETANO
VELOSO
April
17, 2004 at 8 PM
Stern
CAETANO
VELOSO
DAVID
BYRNE
April
18, 2004 at 7:30 PM
Zankel
VIRGÍNIA
RODRIGUES
With
special guest appearance by Caetano Veloso
SEGUNDO CADERNO
Rio, 09 de abril de 2004
Entre Tio Sam e Bin Laden
Helena
Celestino
Correspondente
NOVA YORK
Por ter dito que Bin Laden era bonito, Caetano Veloso
não conseguiu o visto especial que costumava receber para entrar nos Estados
Unidos, o cobiçadíssimo O1, que é emitido só para pessoas de reconhecido
talento. Oficialmente,
o serviço de imigração americano alegou razões burocráticas e culpou os
organizadores dos dois shows que o músico brasileiro fará na próxima semana no
Carnegie Hall de não terem cumprido o ritual burocrático para dar ao brasileiro
as facilidades de praxe na hora de desembarcar no aeroporto, além do direito de
trabalhar e ficar no país após o fim do contrato para os espetáculos.
Mas, extra-oficialmente, as razões são políticas e não
meramente burocráticas. Foi por causa das críticas aos Estados
Unidos e de declarações consideradas simpáticas a Bin Laden que o serviço de
imigração não teria dado o visto especial para Caetano. Segundo as autoridades
americanas, dificilmente o compositor brasileiro terá de novo direito a esse
tipo de visto. Não caíram no esquecimento as frases de Caetano, que, apesar de
ter condenado o ataque ao World Trade Center no 11 de setembro, teria declarado
que Bin Laden era bonito.
Comentário sobre Bin Laden foi feito em
novembro de 2001
Em novembro de 2001, durante entrevista
coletiva para divulgar o lançamento do CD “Noites do Norte ao vivo”, Caetano
afirmara que não apoiava de maneira alguma as atividades de Osama bin Laden.
Mas, perguntado sobre charges que circulavam na época na internet em que ele
aparecia caracterizado como o líder da al Qaeda, o compositor baiano respondeu:
— Mas ele é um homem bonito e se parece
com algumas pessoas da minha família.
Na mesma entrevista, ele explicou mais:
— Temos uma cara semítica. Quando estive
em Israel, vi muita gente do Iêmen parecida com a minha família, o pessoal me
confundia com judeu iemenita. Vai ver sou. Perguntavam também se eu sou árabe.
Meu pai era mulato. Minha mãe parece indiana. Tem muito a nossa cara no sul de
Portugal, na Sicília. Você sabe, os mouros...
Ficou tudo registrado e, por causa dos
comentários sobre o chefe da al Qaeda, o compositor brasileiro recebeu agora
tratamento com base nos rigores da lei: teve direito só a um visto P-3 para o
período entre 10 e 20 de abril, tempo que cobre a duração do contrato com o
Carnegie Hall. Para tentar conseguir o visto especial, a equipe do show de
Caetano Veloso apelou ao consulado brasileiro em Nova York, seguindo o conselho
das autoridades americanas no Rio, que estranharam a mudança no carimbo do
passaporte do músico mas se disseram incapazes de garantir o visto O1 a que ele
e todas as pessoas de talento excepcional têm direito e que Caetano sempre
recebeu. Mas apesar das boas relações entre o consulado brasileiro e o serviço
de imigração em Nova York, foi impossível conseguir a mudança no documento de
viagem de Caetano. A negociação agora é no sentido de conseguir autorização
para uma permanência do músico por um período maior nos EUA, o que certamente
acontecerá segundo opinião de todos os lados.
No entanto, na semana passada, nas
entrevistas para o lançamento de seu novo disco, “A foreign sound”, apenas com
canções americanas (de Cole Porter a Nirvana, de Gershwin a Stevie Wonder), a
posição de Caetano era de andar contra a corrente. Num momento em que o mundo
vive uma fase de antiamericanismo, ele exaltou a beleza do cancioneiro
produzido nos EUA.
A empresária Paula Lavigne, também mulher
do cantor, tem uma visão mais pragmática de toda essa confusão: acha que houve
uma falha dos produtores do Carnegie Hall. Segundo ela, o visto especial
custaria US$ 5 mil e a produção teria optado pela solução mais barata. Além de
lançar nos EUA “A foreign sound”, Caetano é o principal artista da série de
shows “Perspectives”, que vai apresentar na célebre sala de concertos de Nova
York artistas brasileiros como Mart’Nália, AfroReggae e Virgínia Rodrigues.
Regras mais apertadas depois dos atentados
O aperto nas regras para concessão de vistos de
entrada em território americano, imposto pelo governo do presidente George W.
Bush depois do 11 de setembro, tem sido um tormento para artistas do mundo
inteiro e, conseqüentemente, também para os produtores culturais nos Estados
Unidos. O prazo para emitir os vistos aumentou muito, assim como o número de
vezes em que é negada a autorização para turnês musicais ou literárias. Com
isso, adiamentos ou cancelamentos de concertos e conferências vêm se tornando
mais freqüentes.
— Não existe nenhuma política em vigor excepcional
para artistas e intercâmbio cultural. Depois do 11 de setembro o que está
acontecendo é que há mais cuidado com os dados ligados à segurança e, por isso,
mais pessoas estão sujeitas a este tipo de checagem — disse Janice Jacobs,
assessora da Secretaria de Estado o Serviço de Vistos, ao jornal “The New York
Times”.
Por não conseguir visto, foi cancelada a turnê do
grupo paquistanês Farid Ayaz. Os shows seriam em março, mas só agora sete dos
oito músicos do grupo conseguiram vistos e eles foram remarcados para este mês.
As mesmas dificuldades atingiram cidadãos de países
desenvolvidos. O Joe Pub’s, casa de shows de Nova York, tirou da programação o
espetáculo da cantora de jazz canadense Holly Cole, marcado para o dia 12 de junho,
porque foi avisado de que ela não conseguiria o visto a tempo a menos que
pagasse US$ 1.000 por um serviço chamado “premium process” que dá resposta aos
pedidos em 15 dias — uma espécie de serviço oficial de despachante.
Com o escritor inglês Ian McEwen, autor de pelo menos
um livro premiado — “Amsterdan” — foi pior. Ele não pôde embarcar no aeroporto
de Vancouver porque, segundo a imigração, não teria o visto necessário para
fazer conferências nos Estados Unidos. Só depois de telefonemas entre autoridades
consulares nos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra o problema foi contornado e
ele embarcou 24 horas depois da data prevista.
São
Paulo, terça-feira, 13 de abril de 2004
MÚSICA
Em
reportagem do "New York Times", compositor critica o país e os EUA;
artista toca no Carnegie Hall nesta semana
"A
vida no Brasil é horrível", diz Caetano
DA REDAÇÃO
O cantor e compositor Caetano Veloso, 61, que acaba de lançar o CD "A Foreign Sound", composto por canções em inglês, foi tema de reportagem do jornal "The New York Times" publicada na edição de anteontem.
No texto, assinado por Jon Pareles, um dos críticos mais conhecidos dos EUA, o músico faz análises sobre os norte-americanos ("vocês têm uma vocação para dominar") e os brasileiros ("a vida no Brasil é horrível em muitas maneiras").
"Vocês [norte-americanos] roubaram o nome do continente", diz Caetano. "Apenas os EUA e a África do Sul tomaram os nomes do continente, de uma maneira arrogante inconsciente."
"Dado o explícito escândalo racial que foi vivido pelos dois países, posso escutar ecos dessa decisão naquilo vindo depois: uma vocação para dominar."
O músico tece comparações entre os EUA e o Brasil, como o antigo uso de escravos vindos da África pelos dois países. "Matamos índios. (...) Compartilhamos aquele sentimento da América, que é o sentimento de novo mundo. Temos que pensar nesses problemas, mas acima de tudo abrir nossos corações para a beleza que foi criada nesses novos continentes, porque é uma nova experiência na civilização ocidental."
Vida no Brasil
A reportagem elogia a obra e o novo álbum do cantor, que, segundo Pareles, é "um dos mais graciosos e inovadores compositores do Brasil e do mundo". "Ele é aquela raridade de combinações, um artista profundamente autoconsciente que também segue seus mais alegres instintos. No mais autêntico estilo brasileiro, sua carreira tem misturado sedução e provocação."
Na entrevista, Caetano dá sua visão de Brasil para o crítico norte-americano. "A vida no Brasil é horrível em muitas maneiras, mas é bela também", diz o músico.
"Como nação, somos uma criança, tão grande quanto o continental Estados Unidos, talvez até maiores. (...) Somos muito misturados racialmente. Temos uma responsabilidade histórica de fazer uma coisa boa devido a essa particularidade."
O compositor baiano também faz previsões para o futuro do Brasil. "Mesmo se, no futuro, nós, como brasileiros, não fizermos nada e apenas continuarmos sendo pobres, desorganizados, dominados e corruptos, e desaparecermos lentamente na história -mesmo se esse sonho for apenas uma luz fraca no oceano da história, até agora ele está vivo e vivemos a intensidade desse ambicioso sonho."
Carnegie Hall
A reportagem diz que Caetano retorna nesta semana para Nova York, na condição de curador do projeto "Perspectives", da casa de espetáculos Carnegie Hall (que também abrigará a estréia de seu novo show). O brasileiro é o primeiro músico não-clássico a assumir o cargo.
Ao lado do americano David Byrne, Caetano escolheu artistas brasileiros para o projeto, como Afroreggae (amanhã) e Mart'nália (quinta). Na sexta, o músico apresenta seu "A Foreign Sound" e, no sábado, divide o palco com Byrne. "Perspectives" termina no domingo com a apresentação de Virgínia Rodrigues.
Sobre o novo álbum, que inclui regravações de músicas de artistas como Stevie Wonder e Nirvana, Pareles diz: "Para a maioria dos músicos do exterior, um álbum de covers seria uma tentativa direta de ser conhecido aqui (...). Mas "A Foreign Sound" é consideravelmente mais sutil: (...) uma meditação sobre o exotismo"
O cantor e compositor Caetano Veloso, 61, que acaba de lançar o CD "A Foreign Sound", composto por canções em inglês, foi tema de reportagem do jornal "The New York Times" publicada na edição de anteontem.
No texto, assinado por Jon Pareles, um dos críticos mais conhecidos dos EUA, o músico faz análises sobre os norte-americanos ("vocês têm uma vocação para dominar") e os brasileiros ("a vida no Brasil é horrível em muitas maneiras").
"Vocês [norte-americanos] roubaram o nome do continente", diz Caetano. "Apenas os EUA e a África do Sul tomaram os nomes do continente, de uma maneira arrogante inconsciente."
"Dado o explícito escândalo racial que foi vivido pelos dois países, posso escutar ecos dessa decisão naquilo vindo depois: uma vocação para dominar."
O músico tece comparações entre os EUA e o Brasil, como o antigo uso de escravos vindos da África pelos dois países. "Matamos índios. (...) Compartilhamos aquele sentimento da América, que é o sentimento de novo mundo. Temos que pensar nesses problemas, mas acima de tudo abrir nossos corações para a beleza que foi criada nesses novos continentes, porque é uma nova experiência na civilização ocidental."
Vida no Brasil
A reportagem elogia a obra e o novo álbum do cantor, que, segundo Pareles, é "um dos mais graciosos e inovadores compositores do Brasil e do mundo". "Ele é aquela raridade de combinações, um artista profundamente autoconsciente que também segue seus mais alegres instintos. No mais autêntico estilo brasileiro, sua carreira tem misturado sedução e provocação."
Na entrevista, Caetano dá sua visão de Brasil para o crítico norte-americano. "A vida no Brasil é horrível em muitas maneiras, mas é bela também", diz o músico.
"Como nação, somos uma criança, tão grande quanto o continental Estados Unidos, talvez até maiores. (...) Somos muito misturados racialmente. Temos uma responsabilidade histórica de fazer uma coisa boa devido a essa particularidade."
O compositor baiano também faz previsões para o futuro do Brasil. "Mesmo se, no futuro, nós, como brasileiros, não fizermos nada e apenas continuarmos sendo pobres, desorganizados, dominados e corruptos, e desaparecermos lentamente na história -mesmo se esse sonho for apenas uma luz fraca no oceano da história, até agora ele está vivo e vivemos a intensidade desse ambicioso sonho."
Carnegie Hall
A reportagem diz que Caetano retorna nesta semana para Nova York, na condição de curador do projeto "Perspectives", da casa de espetáculos Carnegie Hall (que também abrigará a estréia de seu novo show). O brasileiro é o primeiro músico não-clássico a assumir o cargo.
Ao lado do americano David Byrne, Caetano escolheu artistas brasileiros para o projeto, como Afroreggae (amanhã) e Mart'nália (quinta). Na sexta, o músico apresenta seu "A Foreign Sound" e, no sábado, divide o palco com Byrne. "Perspectives" termina no domingo com a apresentação de Virgínia Rodrigues.
Sobre o novo álbum, que inclui regravações de músicas de artistas como Stevie Wonder e Nirvana, Pareles diz: "Para a maioria dos músicos do exterior, um álbum de covers seria uma tentativa direta de ser conhecido aqui (...). Mas "A Foreign Sound" é consideravelmente mais sutil: (...) uma meditação sobre o exotismo"
13/4/2004
Caetano Veloso é homenageado no Carnegie Hall de
Nova York
Por Alfons Luna
NOVA YORK, 13 abr (AFP)
- Caetano Veloso e convidados se apresentam, entre 14 e 18 de abril, no show
"Perspectivas", homenagem do Carnegie Hall de Nova York ao cantor e
compositor baiano - a primeira dedicada a um artista não pertencente ao entorno
da música clássica neste respeitado teatro que serviu de porta de entrada para
a bossa nova nos Estados Unidos.
Caetano se apresentará na sexta-feira, 16 de abril, e no sábado, 17, quando será acompanhado pelo amigo David Byrne, ex-vocalista da banda nova-iorquina Talking Heads e que nos últimos anos se dedica a popularizar a música de todos os recantos do mundo através do seu selo, Luaka Bop.
Na quarta-feira, 14 de abril, sobe ao palco do teatro da rua 57 a banda AfroReggae, na quinta-feira, 15, a cantora Mart'nalia - filha do sambista Martinho da Vila - e no domingo, 18, a baiana Virgínia Rodrigues. O elenco foi todo escolhido por Caetano Veloso.
A homenagem a Caetano despertou grande interesse do público. As entradas para as apresentações estão esgotadas e a imprensa local dá ampla cobertura de sua presença em Nova York.
Em entrevista de duas páginas publicada domingo no The New York Times, Caetano refletiu sobre a relação entre Brasil e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que falou sobre as canções de seu último disco, "A Foreign Sound", no qual interpreta peças clássicas do repertório americano, de "Cry me a River" a "Love me Tender", passando por "Smoke Gets in Your Eyes".
As canções mais incomuns do disco são "Carioca", que Fred Astaire e Ginger Rogers interpretaram no filme "Flying Down to Rio" (1933), e "Come as You Are", do extinto grupo de rock Nirvana, de Kurt Cobain.
Com "Carioca", Veloso pretende emendar a visão errônea que a Hollywood dos anos 30, 40 e 50 tinha sobre o Brasil.
Segundo declarações ao The New York Times, Caetano disse que o filme de Fred Astaire "dá a impressão de que ninguém nunca tinha vindo ao Brasil e a canção soava como se ninguém soubesse nada sobre música brasileira". Para repatriar a canção, Caetano recorreu à ajuda de músicos baianos. "Flying down to Rio" foi o primeiro filme em que a dupla artística Astaire-Rogers dançou.
Quanto a "Come as You Are", chama a atenção a versão adocicada somada à melancolia original do Nirvana.
Em qualquer caso, Veloso defendeu para o Times a interpretação de canções estrangeiras: "Se trata de um disco meu e é tão brasileiro quanto os outros".
As homenagens nova-iorquinas a Caetano, de 61 anos, se somam à sua reputação de artista completo. Escritor, cineasta ("Cinema Falado"), foi descrito pelo jornal "Newsday" como o "Bob Dylan e os Beatles num único pacote". Além disso, ele tem todo o mercado em língua inglesa para conquistar.
"Quero ampliar o mercado" e além disso "cantar músicas americanas é voltar a pontos da minha vida e da cultura de massas do século XX", disse recentemente em comunicado de sua gravadora, a Universal, no lançamento do disco.
Segundo ele, a língua portuguesa "é um gueto".
Caetano se apresentará na sexta-feira, 16 de abril, e no sábado, 17, quando será acompanhado pelo amigo David Byrne, ex-vocalista da banda nova-iorquina Talking Heads e que nos últimos anos se dedica a popularizar a música de todos os recantos do mundo através do seu selo, Luaka Bop.
Na quarta-feira, 14 de abril, sobe ao palco do teatro da rua 57 a banda AfroReggae, na quinta-feira, 15, a cantora Mart'nalia - filha do sambista Martinho da Vila - e no domingo, 18, a baiana Virgínia Rodrigues. O elenco foi todo escolhido por Caetano Veloso.
A homenagem a Caetano despertou grande interesse do público. As entradas para as apresentações estão esgotadas e a imprensa local dá ampla cobertura de sua presença em Nova York.
Em entrevista de duas páginas publicada domingo no The New York Times, Caetano refletiu sobre a relação entre Brasil e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que falou sobre as canções de seu último disco, "A Foreign Sound", no qual interpreta peças clássicas do repertório americano, de "Cry me a River" a "Love me Tender", passando por "Smoke Gets in Your Eyes".
As canções mais incomuns do disco são "Carioca", que Fred Astaire e Ginger Rogers interpretaram no filme "Flying Down to Rio" (1933), e "Come as You Are", do extinto grupo de rock Nirvana, de Kurt Cobain.
Com "Carioca", Veloso pretende emendar a visão errônea que a Hollywood dos anos 30, 40 e 50 tinha sobre o Brasil.
Segundo declarações ao The New York Times, Caetano disse que o filme de Fred Astaire "dá a impressão de que ninguém nunca tinha vindo ao Brasil e a canção soava como se ninguém soubesse nada sobre música brasileira". Para repatriar a canção, Caetano recorreu à ajuda de músicos baianos. "Flying down to Rio" foi o primeiro filme em que a dupla artística Astaire-Rogers dançou.
Quanto a "Come as You Are", chama a atenção a versão adocicada somada à melancolia original do Nirvana.
Em qualquer caso, Veloso defendeu para o Times a interpretação de canções estrangeiras: "Se trata de um disco meu e é tão brasileiro quanto os outros".
As homenagens nova-iorquinas a Caetano, de 61 anos, se somam à sua reputação de artista completo. Escritor, cineasta ("Cinema Falado"), foi descrito pelo jornal "Newsday" como o "Bob Dylan e os Beatles num único pacote". Além disso, ele tem todo o mercado em língua inglesa para conquistar.
"Quero ampliar o mercado" e além disso "cantar músicas americanas é voltar a pontos da minha vida e da cultura de massas do século XX", disse recentemente em comunicado de sua gravadora, a Universal, no lançamento do disco.
Segundo ele, a língua portuguesa "é um gueto".
13/4/2004
Caetano Veloso apresenta seu mundo musical em Nova York
Caetano Veloso apresenta seu mundo musical em Nova York
Nova York, 13 abr (EFE).- O cantor e compositor Caetano Veloso preparou para o prestigioso Carnegie Hall de Nova York um festival de música brasileira com seus artistas preferidos, no qual o cantor participará com dois shows próprios.
Esta é uma iniciativa que o Carnegie Hall promove pelo quinto ano consecutivo sob o nome de "Perspectives", no qual pede-se a um artista que escolha aos músicos que mostrem sua visão da arte e da música, para criar um festival pessoal.
As edições anteriores de "Perspectives" tiveram a participação dos pianistas Emanuel Ax e Mitsuko Uchida, do diretor de orquestra Michael Tilson Thomas, e da soprano Dawn Upshaw.
Para seu festival particular, Caetano Veloso escolheu músicos que, em sua opinião, têm importância especial na música brasileira, e que mostrarão sua arte em cinco dias de shows, de 14 a 18 de abril.
O festival terá o samba de Mart'nalia, o hip-hop da banda AfroReggae e a música baiana da cantora Virgínia Rodrigues, revelada pelo próprio Caetano.
O cantor considera estes artistas representantes legítimos da modernização da música brasileira no século XXI.
Mas o prato forte do festival serão os dois shows do próprio Caetano Veloso, um sozinho e outro com o amigo David Byrne, ex-vocalista do Talking Heads, que lançou seu último disco, "Grown Backwards", no último dia 16 de março.
Em seu show sozinho, o cantor brasileiro apresentará canções de toda a carreira e também de seu último trabalho, "A Foreign Sound", no qual recria músicas de Irving Berlim, Cole Porter, Stevie Wonder, Nirvana e Bob Dylan, entre outros artistas americanos.
17/4/2004
Caetano Veloso é aplaudido por cinco minutos no
Carnegie Hall de Nova York
Por Alfons Lua
NOVA YORK, 17 abr (AFP)
- O cantor Caetano Veloso apresentou-se com muita ginga brasileira nesta
sexta-feira no palco do Carnegie Hall de Nova York, onde foi aplaudido por
2.800 pessoas. Os ingressos para o show "Perspectivas" esgotaram-se
em uma semana.
Atraídos pelo bom critério da apresentação, alguns esperavam que fossem também interpretadas músicas do compositor clássico brasileiro Heitor Villa-Lobos; outros, de língua hispânica, queriam ouvir "Currucucú Paloma" e o repertório em espanhol do disco "Fina Estampa".
Aos 40 anos de carreira, o artista de Santo Amaro, Bahia, alegrou a todos com um "smorgasbord", palavra tomada do sueco pelo inglês, de difícil tradução, que serve para referir-se a um festival de coisas diferentes.
Na realidade, "foi uma celebração da variedade, de diferentes ritmos e diferentes lugares. O toque pessoal foi dado com o Nirvana, o rap, e inclusive peças tradicionais", sustentava Daniel Losk, um hondurenho de 27 anos que levou a noiva e os sogros americanos ao show. A base da apresentação foi "A Foreign Sound", o disco recentemente lançado.
Veloso explicou ao público o conflito que representava para ele cantar numa língua que definiu como "a do império". "O português é um gueto", disse, mas quando "se pensa no inglês, pensa-se realmente em poder". Agora bem, "me pergunto o que seria o mundo sem essas maravilhosas canções norte-americanas", acrescentou Veloso, que teve um primeiro contato com Nova York através de um disco gravado ao vivo no Carnegie Hall de Judy Garland que costumava ouvir com a irmã, Maria Bethania. Veloso explicou sua visão de Nova York através de "Manhat (Manhattan)", aquela canção na que se define o bairro-coração da cidade como uma "menina bonita que morde a polpa da maçã". De presente para o público, depois de cinco minutos de aplausos que o obrigaram a voltar de novo ao palco, Veloso cantou a "Garota de Ipanema" e "Mamãe eu Quero".
O "Perspectiva" sobre o cantor de 61 anos começou na realidade na quarta-feira com a apresentação da Banda AfroReggae, seguindo-se, quinta-feira, a da cantora Mart'nalia - filha do sambista de Vila Isabel Martinho da Vila. Sábado à noite haverá uma atuação conjunta de Veloso com David Byrne, o ex-vocalista da popular banda nova-iorquina Talking Heads. Em entrevista de duas páginas publicada domingo passado no The New York Times, Caetano refletiu sobre a relação entre Brasil e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que falou sobre as canções de seu último disco, "A Foreign Sound", no qual interpreta peças clássicas do repertório americano, de "Cry me a river" (Arthur Hamilton) a "Love me tender" (Elvis Presley), passando por "A Smoke gets in your eyes" (Brian Ferry).
As canções mais incomuns do disco são "Carioca", que Fred Astaire e Ginger Rogers interpretaram no filme "Flying down to Rio" (1933), e "Come as you are", do extinto grupo de rock Nirvana, de Kurt Cobain.
Com "Carioca", Veloso pretende emendar a visão errônea que a Hollywood dos anos 30, 40 e 50 tinha sobre o Brasil.
Segundo declarações ao The New York Times, Caetano disse que o filme de Fred Astaire "dá a impressão de que ninguém nunca tinha vindo ao Brasil e a canção soava como se ninguém soubesse nada sobre música brasileira". Para repatriar a canção, Caetano recorreu à ajuda de músicos baianos. "Flying down to Rio" foi o primeiro filme em que a dupla artística Astaire-Rogers dançou.
Quanto a "Come as you are", chama a atenção a versão adocicada somada à melancolia original do Nirvana.
Em qualquer caso, Veloso defendeu para o Times a interpretação de canções estrangeiras: "Se trata de um disco meu e é tão brasileiro quanto os outros".
As homenagens nova-iorquinas a Caetano, de 61 anos, se somam à sua reputação de artista completo. Escritor, cineasta ("Cinema Falado"), foi descrito pelo jornal "Newsday" como o "Bob Dylan e os Beatles num único pacote". Além disso, ele tem todo o mercado em língua inglesa para conquistar.
"Quero ampliar o mercado" e além disso "cantar músicas americanas é voltar a pontos da minha vida e da cultura de massas do século XX", disse recentemente em comunicado de sua gravadora, a Universal, no lançamento do disco.
Atraídos pelo bom critério da apresentação, alguns esperavam que fossem também interpretadas músicas do compositor clássico brasileiro Heitor Villa-Lobos; outros, de língua hispânica, queriam ouvir "Currucucú Paloma" e o repertório em espanhol do disco "Fina Estampa".
Aos 40 anos de carreira, o artista de Santo Amaro, Bahia, alegrou a todos com um "smorgasbord", palavra tomada do sueco pelo inglês, de difícil tradução, que serve para referir-se a um festival de coisas diferentes.
Na realidade, "foi uma celebração da variedade, de diferentes ritmos e diferentes lugares. O toque pessoal foi dado com o Nirvana, o rap, e inclusive peças tradicionais", sustentava Daniel Losk, um hondurenho de 27 anos que levou a noiva e os sogros americanos ao show. A base da apresentação foi "A Foreign Sound", o disco recentemente lançado.
Veloso explicou ao público o conflito que representava para ele cantar numa língua que definiu como "a do império". "O português é um gueto", disse, mas quando "se pensa no inglês, pensa-se realmente em poder". Agora bem, "me pergunto o que seria o mundo sem essas maravilhosas canções norte-americanas", acrescentou Veloso, que teve um primeiro contato com Nova York através de um disco gravado ao vivo no Carnegie Hall de Judy Garland que costumava ouvir com a irmã, Maria Bethania. Veloso explicou sua visão de Nova York através de "Manhat (Manhattan)", aquela canção na que se define o bairro-coração da cidade como uma "menina bonita que morde a polpa da maçã". De presente para o público, depois de cinco minutos de aplausos que o obrigaram a voltar de novo ao palco, Veloso cantou a "Garota de Ipanema" e "Mamãe eu Quero".
O "Perspectiva" sobre o cantor de 61 anos começou na realidade na quarta-feira com a apresentação da Banda AfroReggae, seguindo-se, quinta-feira, a da cantora Mart'nalia - filha do sambista de Vila Isabel Martinho da Vila. Sábado à noite haverá uma atuação conjunta de Veloso com David Byrne, o ex-vocalista da popular banda nova-iorquina Talking Heads. Em entrevista de duas páginas publicada domingo passado no The New York Times, Caetano refletiu sobre a relação entre Brasil e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que falou sobre as canções de seu último disco, "A Foreign Sound", no qual interpreta peças clássicas do repertório americano, de "Cry me a river" (Arthur Hamilton) a "Love me tender" (Elvis Presley), passando por "A Smoke gets in your eyes" (Brian Ferry).
As canções mais incomuns do disco são "Carioca", que Fred Astaire e Ginger Rogers interpretaram no filme "Flying down to Rio" (1933), e "Come as you are", do extinto grupo de rock Nirvana, de Kurt Cobain.
Com "Carioca", Veloso pretende emendar a visão errônea que a Hollywood dos anos 30, 40 e 50 tinha sobre o Brasil.
Segundo declarações ao The New York Times, Caetano disse que o filme de Fred Astaire "dá a impressão de que ninguém nunca tinha vindo ao Brasil e a canção soava como se ninguém soubesse nada sobre música brasileira". Para repatriar a canção, Caetano recorreu à ajuda de músicos baianos. "Flying down to Rio" foi o primeiro filme em que a dupla artística Astaire-Rogers dançou.
Quanto a "Come as you are", chama a atenção a versão adocicada somada à melancolia original do Nirvana.
Em qualquer caso, Veloso defendeu para o Times a interpretação de canções estrangeiras: "Se trata de um disco meu e é tão brasileiro quanto os outros".
As homenagens nova-iorquinas a Caetano, de 61 anos, se somam à sua reputação de artista completo. Escritor, cineasta ("Cinema Falado"), foi descrito pelo jornal "Newsday" como o "Bob Dylan e os Beatles num único pacote". Além disso, ele tem todo o mercado em língua inglesa para conquistar.
"Quero ampliar o mercado" e além disso "cantar músicas americanas é voltar a pontos da minha vida e da cultura de massas do século XX", disse recentemente em comunicado de sua gravadora, a Universal, no lançamento do disco.
POP REVIEW; A Brazilian Singer Reveals Some American Roots
By JON PARELES, APRIL 19, 2004
Caetano Veloso always brings a concept to his concerts, and this week
Carnegie Hall gave him a chance to think bigger, booking a five-night
Perspectives series, including two Carnegie concerts of his own on Friday and
Saturday nights, adding David Byrne on Saturday. It wasn't enough nights for
Mr. Veloso's many facets.
Three acts he chose for Zankel Hall pointed up his socially conscious
side, represented by AfroReggae; his seductive, samba-rooted side, with the
singer Mart'nalia; and his mystical Afro-Bahian side, with the singer Virginia
Rodrigues. An avant-garde poet from São Paulo, Augusto de Campos, was
originally booked for yesterday but canceled, citing of health problems.
For Mr. Veloso's Carnegie Hall show on Friday night, the subjects were language and his affection for songs from the United States. Since the 1960's, when Mr. Veloso and a handful of fellow songwriters revolutionized Brazilian pop, everyone has been able to hear his gift for melody, his tender voice and his daring, felicitous combinations of styles.
But listeners who don't speak Portuguese rely on translations to glimpse
the poetic ways his lyrics juggle romance and history, events and myths,
philosophy and wit. His worldwide impact has been limited because Portuguese
is, as Mr. Veloso said onstage Friday, ''a ghetto language,'' compared with the
reach of English or Spanish.
Mr. Veloso has just released an album of North American songs in
English, ''A Foreign Sound'' (Nonesuch), and his concert on Friday teased at
the cultural interplay of Brazil and the United States. He started with a Noel
Rosa song, ''Não Tem Traducao'': ''There's No Translation.'' Then he sang his
own ''Baby,'' noting how English slang was infiltrating Brazil, and kept its
Brazilian lilt to segue into Paul Anka's ''Diana,'' from which his song quoted
''baby, baby, I love you.''
Later he sang a new song, ''Diferentemente'' (''Differently''), an
easygoing samba that mentioned ''Osama'' and ''Condoleezza'' and had the
English line ''When you look at me I don't know who I am.''
The notion of outsiders' imagining one another kept popping up. Mr. Veloso juxtaposed the map-hopping Rodgers and Hart song ''Manhattan'' with his own ''Manhatã,'' envisioning the island when Indians owned it. He followed his ''O Estrangeiro'' (''The Foreigner'') with ''The Carioca,'' a Brazilian fantasy from the Fred Astaire movie ''Flying Down to Rio.''
The notion of outsiders' imagining one another kept popping up. Mr. Veloso juxtaposed the map-hopping Rodgers and Hart song ''Manhattan'' with his own ''Manhatã,'' envisioning the island when Indians owned it. He followed his ''O Estrangeiro'' (''The Foreigner'') with ''The Carioca,'' a Brazilian fantasy from the Fred Astaire movie ''Flying Down to Rio.''
The homages, twists and paradoxes were implicit, and Mr. Veloso's
elegantly understated band provided him with everything from nonchalant bossa
nova to a wah-wah guitar imitating Brazilian drums. But for much of the concert
Mr. Veloso simply sang Tin Pan Alley ballads recast with Brazilian rhythms.
Sentimentality he would never accept in his own songs didn't bother him in
English, and for too much of the concert he became another visiting crooner,
singing to the audience in a language it happily understood. For that role he
was overqualified.
Having paid his tribute, he devoted Saturday's concert to camaraderie,
splitting and sharing the two-hour set with Mr. Byrne, ''my favorite American
artist.'' Side by side, they were both songwriters with surreal imaginations, a
fondness for the exotic and the syncretic, a sense of humor and a way of
placing grand ambitions in colloquial terms.
Mr. Veloso performed with his cellist, Jacques Morelenbaum, and Mauro
Refosco on percussion; Mr. Byrne played duos with Mr. Refosco. Once again Mr.
Veloso followed ''Manhattan'' with ''Manhatã''; he also sang a Byrne song,
''The Revolution,'' and soon after Mr. Byrne revealed that it had been built on
the rhythm of ''Manhatã.'' But most of Mr. Veloso's set returned to his own
songs, lightly plucked and gorgeously sung in Portuguese: songs about love,
beauty, aesthetics and Brazilian places and traditions.
Directly after Mr. Veloso, Mr. Byrne seemed gawky; unlike Mr. Veloso, he
strained to hit high notes, and his guitar playing is rooted in the stolid rock
beat. But with Mr. Refosco conjuring an entire band, Mr. Byrne's songs revealed
their own charms: wry romantic situations like ''She Only Sleeps'' and
''Everyone's in Love With You,'' tales of transcendence like ''And She Was''
and ''Road to Nowhere,'' and ''Life During Wartime,'' more chilling now than it
was in 1979.
Different as they were, it was clear that Mr. Veloso and Mr. Byrne
understand each other, and they both enjoyed a final juxtaposition: Mr.
Veloso's ''Terra,'' followed by Mr. Byrne's ''Heaven.''
Diario Página 12 - Argentina
14/4/2004
15/4/2004, com Mart'nália |
15/4/2004, com Mart'nália |
Brazilian singer and songwriter Caetano Veloso sings in New York's Carnegie Hall, 16/4/2004 - Foto: Jeff Christensen (Reuters) |
17/4/2005 |
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