lunes, 14 de marzo de 2022

2021 - ENTREVISTA




Caetano necessário: cantor e compositor baiano se mantém contemporâneo


Com obra marcada por poética refinada e sonoridade revigorante, Caetano Veloso falou ao Correio sobre seu processo criativo, obras inéditas e parcerias nos palcos

 

Irlam Rocha Lima

30/10/2021 




Para o artista, o gosto pela canção popular está nele desde sempre

Foto: Fernando Young / Divulgação


Caetano Veloso tinha acabado de gravar um disco, acompanhado pelo clarinetista baiano Ivan Sacerdote. Para lançá-lo, se apresentou em 8 e 9 de fevereiro de 2020, no Teatro Castro Alves, em Salvador. O show seria o ponto de partida de uma turnê que eles fariam por várias capitais brasileiras, inclusive Brasília. Com o advento da pandemia, o projeto foi cancelado. Logo depois, de volta ao Rio de Janeiro, o eterno tropicalista não perdeu tempo e, durante a prolongada quarentena, passou a compor canções, pensando num novo trabalho. 

No estúdio que a mulher e empresária, Paula Lavigne, mandou construir em sua casa, na Avenida Niemeyer, na Zona Sul carioca começou a trabalhar. Neste processo em que teve ao seu lado Lucas Nunes, guitarrista da banda Dônica (da qual faz parte Tom Veloso, filho do compositor), e que durou alguns meses, emergiu Meu coco, álbum de 12 faixas — o primeiro de composições inéditas, desde Abraçaço, de 2012 — cujas letras, de alguma forma, refletem a pluralidade e a beleza do país, mesmo num momento difícil de grandes dificuldades. 

Uma das primeiras músicas a ser criada foi Autoacalanto, feita para o neto Benjamim, filho de Tom. E foram surgindo outras tantos como Ciclamem do Líbano, Enzo Gabriel, GilGal e, obviamente, a faixa título — um samba, a bela canção romántica Cobre, o funk Não vou deixar e o fado Você, que tem a participação da cantora portuguesa Carminho e do bandolinista brasiliense Hamilton de Holanda. A elas se juntam Noite de cristal, gravada por Maria Bethânia em 1988; e Pardo, faixa do novo CD de Céu. 

Todas foram gravadas no primeiro semestre deste ano, contando com a participação de instrumentistas de diferentes gerações — do veterano violoncelista e arranjador Jaques Morelembaum ao jovem violinista Thiago Amud. Em Não vou deixar, veemente, Caetano, contundente manda o necessário recado: “Não vou deixar, não vou deixar, não vou deixar você esculachar com nossa história / É muito amor, é muita luta, é muito gozo / É muita dor, é muita glória”. 

Como fizera em outras das suas composições, em algumas das inéditas do Meu coco, Caetano Veloso homenageia o nome de colegas de ofício, do passado e do presente; e de gêneros musicais diversos, fazendo referência a Noel Rosa, Ary Barroso, Tom Jobim, Chico Buarque, Marília Mendonça, AnaVitória, Glória Groove, Baco Exu, Djonga e Ferrugem. 

 

Entrevista / Caetano Veloso

Até que ponto a presença do neto Benjamim em sua casa foi motivadora durante o processo de criação das canções?

Pelo menos até o ponto de eu compor e gravar Autoacalanto.

 

Ter ficado tanto tempo sem lançar um álbum de composições inéditas lhe provocava que tipo de sentimento?

Eu não pensava nisso. Fiz o show com meus filhos, que resultou numa turnê de cerca de dois anos (e que ainda recebe convites). Canções inéditas deles e a convivência com eles em palcos pelo mundo todo eram novidade mais do que suficiente para mim. Antes disso, fiz outra turnê internacional, com Gil, onde havia ao menos uma canção inédita: As camélias do Quilombo do Leblon. Entre Abraçaço e Meu coco, senti mais que, ao longo dos anos, tinha feito canções demais. Quase que me educava para não compor mais muitas coisas.

 

O fato de Meu coco ser diversificado em termos de gêneros foi algo projetado com antecedência, ou isso ocorreu de forma natural enquanto as músicas iam surgindo?

O mero fato de eu ter que adiar a feitura do disco e ficado em casa isolado, não me levou a encontros que produzissem uma banda, uma formação sonora. Também a (minha) verve de compor caiu nos primeiros meses de 2020, com a pandemia. Fui retomando aos poucos e terminei decidindo fazer o disco em casa, com Lucas Nunes, amigo de meu filho Tom. Daqui, chamamos arranjadores diferentes para orquestrar canções. E as canções também nasceram diferentes. Não eram mais tão dentro do estilo das do verão baiano. Também sou tradicionalmente um autor de coisas diversificadas, sem um gênero preponderante. Desde o tropicalismo, que meus discos exibem mais colagens do que uniformidade. Claro que Jaques Morelenbaum tem um maior número de arranjos. Ele é o mestre que colaborou comigo por décadas. Mas me orgulho também de ter chamado Thiago Amud, jovem compositor, letrista, melodista e arranjador carioca— e o grandioso baiano Letieres Leite (que faleceu recentemente). Sem falar nas percussões de Márcio Victor, Vinicius Cantuária e Marcelo Costa. Tem os tambores do candomblé tocados por meu filho Moreno em GilGal, amparando a minha voz e a voz divina de Dora Morelenbaum.

 

O convite para Lucas Nunes, da Dônica, para trabalhar com você na produção foi por causa dos conhecimentos técnicos ou da musicalidade dele?

Da combinação das duas coisas. Ele é da turma de Dora, Tom, Zé Ibarra, Julia Mestre. Turma novíssima de grande brilho musical.

 

No disco você cita, em tom de homenagem, vários colegas de ofício, de diferentes gerações e estilos. É uma forma de reforçar todo o espectro da música brasileira?

Um amigo me disse que o disco deveria se chamar Nomes, Nomes. Achei engraçado e pertinente. Nomes são um tema meu de há muito. Clever boy samba, que compus em Salvador antes de Coração vagabundo ou De manhã, tinha Brigitte, Belmondo, João Gilberto, Orlandivo... Agora, eu deixei vir à tona os nomes que passaram por meu coco. Não é uma escolha pensada. Ouço coisas diversas, vejo TVZ, além de ter na cuca todos os Arys e Noéis e Caymmis, os Pixiguinhas e Jorge Bens, Djavans. E registrar uma peculiar centralidade de Chico em minha geração.

 

Na condição de vovô, é contundente ao criticar, utilizando a letra do rap Não vou deixar, os desmandos que ocorrem no país atualmente. A crítica é direcionada a alguém especificamente?

A quem nos oprime.

 

Seu gosto pela canção popular o acompanha desde sempre, ou se acentuou de uns tempos para cá?

Meu gosto pela canção popular está comigo desde que eu me entendo por gente. Pequeno, eu já sabia cantar tudo o que ouvia no rádio. Fiquei foi amarrado profissionalmente a ela. O que pra mim é uma sorte. Meu talento é limitado, se comparado a colegas meus, mas a vocação é forte.

 

Que contribuição deu ao disco a Hamilton de Holanda, músico formado pelo Clube do Choro de Brasília, ao acompanhá-lo tocando bandolim, como se fosse guitarra portuguesa, no fado Você-Você, com a participação de Carminho?

Hamilton deu contribuição imensa. Grande músico, ele tratou o violão base que eu apresentei como guia para o que ele fizesse com tão grande cuidado e inspiração que tudo o que eu tinha feito ali foi salvo e enriquecido pelo talento dele. Minha decisão de chamá-lo, em vez de um guitarrista lusitano de fado, tornou a canção mais bonita e mais profunda. Hamilton é um dos maiores músicos do Brasil. De agora e de sempre.

 

Você chegou a estrear o show de lançamento do disco com o clarinetista Ivan Sacerdote, no Teatro Castro Alves, em fevereiro de 2020, que daria início turnê nacional, mas foi impedido por conta da pandemia covid 19. Vai haver turnê do Meu coco?

Acho que agora terei de pensar em apresentar um show referente ao disco Meu coco. Ainda não sei como será. Há formações diversas no disco. Até o ano que vem, devo achar o jeito de levar algo do novo repertório aos palcos.

 

Da angústia à reflexão

 

O Brasil e o brasileiro estão sob análise. A dicotomia de pensamento tem limitado as discussões e reflexões, muitas vezes mostrando o pior que o ser humano traz em seu caráter. Há uma secessão que marginaliza os que pensam de maneira independente e que está provocando uma nova visão da nossa gente, enterrando a imagem da alegada índole pacífica. 

E onde entra Caetano Veloso nessa história? Polemista, com opinião sobre tudo e uma visão única da paisagem social e política, o compositor está de volta — nove anos depois — com um punhado de canções próprias que, sim, têm influência do período de recolhimento forçado, mas que antes de tudo são reflexões bem mais amplas. 

Meu coco é a faixa que dá título ao disco e que funciona com espécie de fio condutor para o que vem em seguida, puxando uma fieira de sacadas. A miscigenação das diversas combinações de raças, conceito já condenado pela ciência, funciona como fator de união do país. A melodia é caótica, apressada, transgressora; tem tempos diferentes, com um arranjo que remete aos tempos de Rogério Duprat. 

Em Anjos tronchos ele reflete sobre a condição da dependência das novas tecnologias e o domínio de candidatos a tiranetes e/ou tarados argentários. “Anjos já mi ou bi ou trilionários / Comandam só seus mi, bi, trilhões / E nós, quando não somos otários / Ouvimos Shoenberg, Webern, Cage, canções”, canta na música lançada antes como single.

 

A miscigenação racial se encontra com a mistura de ritmos, gêneros e estéticas musicais em Sem samba não dá, em que o compositor iguala manifestações sem qualquer preconceito, enfileirando artistas. É um disco de observação, com versos de qualidade, arranjos impecáveis e melodias fluidas que superam até a falta de rima e não obedecem a cânones consagrados das canções — ou seja, não é um disco para tocar no rádio. 

É um Caetano inquieto, um artista que ainda tem necessidade de expor seus pontos de vista e que o faz de maneira forte, criativa e provocadora. E sempre ligado à sua época, mas ainda desafinando os coros colocados nos cantos do ringue, trocando a angústia pela reflexão.

 

martes, 8 de marzo de 2022

2022 - ATO PELA TERRA - CONTRA O PACOTE DA DESTRUIÇÃO

 

9 de março, Brasília - 15h





“Alô, Brasília! Amanhã (09/03), estarei acompanhado de meus colegas artistas, comunicadores e representantes de movimentos sociais para ampliar a voz da sociedade civil no Ato Pela Terra! 

Esperamos que a luz lançada no Senado possa levar a resultados práticos. O presidente da Câmara tem dado mostras de fazer passar toda a desastrosa permissividade que o atual governo propõe. O mundo vendo as proximidades de pesadelos bélicos e o Legislativo brasileiro apressando projetos que desrespeitam todo o cuidado que devemos ao tema ambiental. Esperamos que Pacheco seja mais sensato, educado e capaz de entender onde mora nossa dignidade como nação. 

Espero todos vocês em frente ao Congresso Nacional, a partir das 15h. Vamos juntos cantar pela paz e pressionar o Congresso para barrar o Pacote da Destruição Ambiental. 

O ato será transmitido ao vivo, às 15h, no canal do YouTube do Midia Ninja. Não percam!” 

[8/3/2022, Caetano Veloso, Facebook/Instagram] 

 

Foto: Rodrigo Oliveira









Caetano engrossa convocação de ato contra retrocessos ambientais: "Hora de botar a cara na rua"

Artistas e movimentos se unem contra projetos que facilitam grilagem, agrotóxicos e garimpo em terras indígenas

Murilo Pajolla

Brasil de Fato | Lábrea (AM) |

23 de Fevereiro de 2022

 

Artistas, organizações e movimentos da sociedade civil estão convocando uma manifestação para o dia 9 de março, em Brasília, contra os retrocessos na política ambiental brasileira. O objetivo da manifestação é presionar parlamentares a rejeitar cinco projetos de lei que representam impactos irreversíveis para a Amazônia, os direitos humanos, o clima e a segurança da população. O ato será às 15h, em frente ao Congresso Nacional. 

Um dos autores da convocação é o cantor e compositor Caetano Veloso. Ao Brasil de Fato, ele afirmou que estará junto com os manifestantes na capital federal e ressaltou a importância da mobilização social para barrar a atual agenda antiambiental. 

"Eu acho que está na hora de a gente se manifestar na rua, botar a cara na rua. Então eu vou estar em Brasília, na frente do Congresso, às 15h, no dia 9 de março. E colegas meus também estarão lá, para o meu orgulho e minha honra. Espero que todo mundo preste atenção nisso, porque é um gesto necessário", declarou. 

Entre as propostas que motivaram a mobilização, estão medidas que prejudicam o licenciamento ambiental, facilitam a grilagem de terras, autorizam mineração em terras indígenas, flexibilizam regras de aprovação de agrotóxicos e instituem o "marco temporal" sobre terras indígenas, tese jurídica que permite contestar a demarcação de áreas ocupadas por povos originários.  

Apoiadores 

Além de Veloso, outro artistas que encabeçam o protesto são: Maria Gadú, Seu Jorge, Nando Reis, Bela Gil, Cristiane Torloni, Letícia Sabatella, Bruno Gagliasso e Lázaro Ramos. Entre os movimentos e organizações estão: Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, Greenpeace Brasil, Observatório do Clima, ClimaInfo, e Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. 

“Se esse pacote de leis for aprovado, crimes ambientais serão legalizados e o Brasil se tornará um dos maiores párias climáticos do mundo. Além disso, qualquer tentativa de controlar o desmatamento num novo governo estará fadada ao fracasso”, afirma o manifesto assinado por artistas e organizações.



 























Caetano Veloso canta “Terra” no Salão Negro do Congresso Nacional, onde participou junto a dezenas de artistas de uma Audiência com o presidente do Senado Federal Rodrigo Pacheco para a entrega de uma carta que pede pela não aprovação do Pacote da Destruição (Mídia Ninja/Instagram)