
O Bondinho
n° 34
3/2 a 16/2 de 1972
Página 16
O sonho acabou Gil está sabendo tudo (*)
Depoimento a Hamilton Almeida


“…Essa
idéia do sonho acabou (do Lennon)… bom, eu comecei a fazer a letra em
Glastonbury, no último festival que houve na Inglaterra em junho, dia 21 de
junho de 1971, o dia de solstício de verão que é o dia mais longo do ano, é o
dia que o sol vai mais alto, e era o dia exatamente que em Glastonbury se
comemora o dia da fertilidade, no sentido ancestral da cultura, dos costumes
ingleses. Inclusive esse vale foi escolhido porque é onde fica o Thor,
monumento que fica numa montanha construída, uma montanha artificial. Esse
monumento foi posto na linha do vale, que faz justamente no dia de solstício
uma linha que vai direto até a pedra de Stonehenge, onde
o sol se concentra naquele meio de pedra, e forma uma linha de força de energia
que fertiliza toda a região, dentro do sentido da ligação, vamos dizer,
mística, com a coisa cósmica, na visão dos antigos povos da ilha, ta
entendendo? E foi o último também que a gente foi, tava o grupo todo, foi a
turma toda. Eu, o Caetano, Dedé, Sandra, Macalé, Giselda, o Glauber Rocha, o
Júlio Bressane, o Rogério Sganzerla, Helena Ignês, Tini, Nina, Moacir, Áureo e…
sei lá rapaz, mais uns 40 brasileiros. E realmente no dia 21 de junho a gente
sentiu o sol batendo, e a linha de força, as vibrações, tudo, era realmente um
negócio muito forte, era um festival de música pop, era o último que tava se
fazendo na Inglaterra. Havia aquela coisa toda, foi logo depois da entrevista
do John Lennon falando que o sonho tinha acabado, daquela entrevista que o
Caetano tinha feito para a revista Veja, onde ele falava de tudo isso.”
“Eu
para falar que o sonho acabou, no sentido todo de que a música pop tinha
chegado a um fechamento de ciclo e etc, era preciso que eu estivesse achando
mesmo, acreditando mesmo. Eu não ia dizer assim de graça, porque John Lennon
tava dizendo. Eu concordava com ele, a visão dele era perfeita, um dia
inclusive eu tava conversando com Caetano, que disse: “É claro Gil, acabou pra
ele, né?” Eu disse “lógico, acabou para ele, quando acabar para mim, eu falo”.”
“O fim do tropicalismo foi uma coisa do destino. De
repente a gente teve que parar o trabalho, a gente foi preso, teve que sair do
país.”
“Eu
cheguei no Recife, fui fazer um show no Teatro Popular do Nordeste. Fiquei lá
um mês e o pessoal em Recife tinha muito aquela coisa de cultura popular,
naquela época era uma coisa bem viva pro pessoal universitário, tudo o mais
eles tinham essa preocupação com folclore. Então eles achavam que eu era um dos
artistas brasileiros interessados naquela coisa, então eles faziam questão de
levar, de gravar ciranda pra mim, me levar pra ver a Banda de Pífaro em
Caruaru. Eu chorei, fiquei emocionado, de ver aquela coisa tremenda. Então eu
voltei do Recife para o Rio com a certeza de que alguma coisa tinha de ser
feita em termos de movimento, em termos de integração daquelas necessidades que
eu achava que já existiam no universitário brasileiro, ali… Onde Recife é bem
um exemplo, cê ta entendendo? Foi uma porrada que eu tomei lá e que me fez vir
tomar outra no Rio, ta entendendo? Quando eu comecei a reunir o pessoal, pra
ver o que a gente fazia… isso foi em 1967, pouco antes do Festival de Domingo
no parque, de Alegria, Alegria. Então nessa tentativa de reunir o pessoal nada
deu certo. Chico inclusive fala, sem citar a época, mas ele fala na entrevista
à vocês, onde se tentava reunir o pessoal, então chegava um bêbado, outro
chegava tarde, outro tinha que sair… os outros não concordavam com nada
daquilo. E eu com aquela ilusão de tentar reunir o pessoal. Na verdade era uma
atitude minha, era reflexo de uma má consciência política, tentando misturar
tudo com aquela confusão na cabeça de música de protesto, aquela coisa toda de
música participante, não sei quê. Foi uma época em que eu estava realmente
muito confuso. Muito por fora, cê ta entendendo? Mas também me desencantei
logo, tudo ficou logo muito claro que não dava certo, aí fiz “Domingo no Parque”,
fiz o “Frevo Rasgado”, fui aproveitar eu mesmo o material que tinha conseguido
em Recife.”
“A gente foi para a (TV) Tupi fazer o (programa)
Divino Maravilhoso, ainda a gente foi com aquela disposição de oferecer o
melhor, do sentimento, da vibração anterior da gente. Mas no fim a gente já
estava quase desprovido dessa coisa, porque aí já estava terrível, a opinião
pública toda dividida, prefeitos de algumas cidades do interior fazendo
abaixo-assinados para a TV Tupi cortar o programa da gente. Ou seja, você
começa a sentir que você ta marginal, que você está sendo visto como uma coisa
monstruosa, como um câncer, e a imagem do câncer pra mim é uma coisa
deprimente.”
“…
uma moça me entrevistando em Londres há pouco tempo, pra (revista) Manchete, me
perguntou sobre a intencionalidade da violência, se a gente não tinha realmente
intenção… ou seja, não era sádica a nossa atitude, ou masoquista. Não era
sádica em relação ao público, no sentido de “ta, não está entendendo a gente?
Então vamos aumentar a dose, vamos fazer pior ainda, no sentido de vocês não
entenderem mais”. Também não era masoquista no sentido de “vamo ser sofredor,
incompreendido”. Não era, era um misto de todas as coisas, era paranóia, todas
essas coisas. Uma coisa muito difícil de analisar, no sentido de encontrar o
órgão doente, cê ta entendendo? A doença estava no corpo inteiro.”
“Eu
era visto como uma figura demoníaca, mefistofélica, com aquele bigode, aquela
barba.”
“Londres
é roxo e verde. Essas duas cores são muito o símbolo da coisa londrina, roxo…
Roxo, rapaz! Roxo que no Brasil é símbolo de luto, cê tá entendendo? Roxo
é cor de caixão de defunto. Na Inglaterra, roxo é como vermelho é aqui. Uma cor
bonita, que combina com o acinzentado que eles têm na alma, uma cor meio desmaiada.”
Gil: “Pra mim, pop era uma coisa urbana, cê
tá entendendo?”
Repórter:
“Coisa asfáltica…”
Gil: “É… coisa concrética, era muito isso.”
LOUCURA: DISCO DE GIL NA PÁGINA 33

Gravação Realizada pela Equipe de Reportagem de “O
BONDINHO”.
Este
disco faz parte da edição 34 de “O BONDINHO”.
E
não pode ser vendido separadamente.
1972 – GILBERTO GIL
Lado 1
1. O SONHO ACABOU (Gilberto Gil)
1971
2. ORIENTE (Gilberto Gil)
1971
Lado 2
1. FELICIDADE VEM DEPOIS
(Gilberto Gil) 1962
2. EXPRESSO 2222 (Gilberto Gil) 1971
Philips EP n° 6069 009

1972
Revista inTerValo
2000
Ano
X – n° 475

(*) O sonho acabou, Gil
está sabendo tudo,
entrevista realizada por Hamilton Almeida publicada no Bondinho n° 34,
fevereiro de 1972, incluído no livro organizado por Antonio Risério: Gilberto Gil Expresso 2222. São Paulo,
Ed. Corrupio, 1982, págs. 47 – 84.
Fotos ACERVO
ARLETE SOARES
Antigo Pátio da Editora Corrupio. A sede da Editora, uma casa na Barra,
que era também livraria, papelaria, laboratório e galeria foi um ponto cultural
no começo dos anos 1980.