jueves, 6 de noviembre de 2025

2016 - ABRAÇAR E AGRADECER - DVD

 

Foto: Leo Martins / Agência O Globo


Música

Maria Bethânia: 'Só me resta o palco. Vou lá e grito feito uma doida'

 Cantora detalha seu processo de criação e lamenta a ascensão do conservadorismo

por Leonardo Lichote

01/12/2016 


Bethânia: "Vejo a gente querendo imitar o ruim. Estou morta de pena do Brasil" 
 
Foto: Leo Martins / Agência O Globo

 

RIO - Antes de surgir no palco e gritar “feito uma doida”, como diz, Maria Bethânia entra numa calmaria ritualística. A cena é o abre-alas de “Abraçar e agradecer”, DVD (com versão em CD também), que chega agora ao mercado, encerrando as celebrações de seus 50 anos de carreira (em 2015). “Abraçar e agradecer” traz dois discos. No primeiro, está a íntegra do show de mesmo nome, que estreou por aqui em janeiro do ano passado, com músicas como “Começaria tudo outra vez”, “Rosa dos ventos” e “Viramundo”. No segundo disco, estão extras, incluindo cenas das demais comemorações em torno da data. Enquanto lança “Abraçar...” e começa a preparar um novo disco, a cantora baiana de 70 anos concedeu a seguinte entrevista ao GLOBO. E falou de seus rituais, do processo de criação, de influências e de política: “Temos uma natureza diferente da desses brancos europeus e americanos. Somos outra cor. E vejo a gente querendo imitar o ruim. Ah, me deprimo demais (...). Tô morta de pena do Brasil”.

 

- Qual é a importância do ritual?

Acho que me equilibra. Sou muito livre, solta, e é bom ter uma sequência de atitudes a tomar, ter hora para cada coisa... Isso me dá um norte. Chegar três horas antes é imprescindível para mim. Desde a hora em que saio de casa, a maneira como rezo, olho o tempo, vejo as pessoas, aquilo já vai me vestindo para a cena. Ninguém nunca me mandou nem ensinou. Achei um modo de me separar da rua. Não gosto de usar em cena o que uso na rua. Nada que me traga a rua. Quero só aquela caixa preta, que é a plateia, e está ótimo para mim. É meu paraíso. 

- Como você reage quando, por algum motivo, um ritual é quebrado?

Sou disciplinada e me organizo pra que tudo dê certinho. Mas a vida existe pra isso. Às vezes não é aquele ambiente que eu quero, às vezes não consegui fazer minhas etapas no meu tempo de relaxamento. As coisas acontecem, mas eu tenho que acatar, respeitar, não volto atrás não. Não vou fazer de novo. Já passou. Às vezes a rua entra, invade, os aborrecimentos caseiros, tudo. Ninguém morre pra cantar, né? Pelo contrário. Tem que cantar vivo. 

- No DVD aparece também um pequeno camarim montado ao lado do palco.

Os camarins, principalmente no Brasil, nunca são no andar da apresentação. Há muita escada, fios, passa-se por baixo, por cima, uma aventurazinha. E, quando se tem que passar por isso antes de entrar em cena, o diafragma vai embora. Tenho que parar, rezo, gosto de rezar, faço uma respiração e fico pronta para a hora de entrar. Aquele pequeno camarim é onde me troco no intervalo. Porque não daria tempo de fazer o percurso até o camarim, o trânsito engarrafado (risos). 

- Você tem rituais para criar?

O mais importante é o ócio. Ficar soltinha para filtrar o bom, o mau, o médio. Anoto o que vem à cabeça. Música, pensamento, livro, conversa, uma planta que vi, um problema que tenho que resolver. Vou anotando. Isso tudo faz parte para mim do que vou inventar. Tenho milhares de cadernos. E me perco, lógico. O Waly (Salomão) dizia: “Você é igual a mim, risca, escreve, anota tudo”. É uma imundície. Mas é um modo de organizar. 

- O que anda criando?

Estou levantando repertório para o próximo disco. A alguns compositores peço, para outros digo: “Tô começando a fazer, se tiver algo...”. Eles perguntam: “Já tem ideia?”. Digo: “Não, vocês é que vão me dar”. Neste momento estou com ideia nenhuma e com todas as ideias. Porque agora espero o que eles vão me dizer. Como intérprete, eles é que me passam os recados, o que está quente neles, vivo, precisando ser falado. Aí vem política, amor, dor, degradação, paraíso, vem tudo. E vai me ajudando. Adoro este momento, mas ultimamente tem sido mais difícil ter tempo para o ócio. Lembro quando fiz “Mar de Sophia”. Cheguei a Salvador, acordei muito cedo, sentei na varanda, em cima do mar, peguei um papel. Quero fazer alguma coisa sobre água, Dona Sophia (a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen), eu estava com os livros dela. Peguei o papel e fiz os dois discos, escolhi praticamente todos os poetas que queria ali. Parece que fiquei estudando, mas só sentei ali para olhar distraída. 

- Agora você está completamente mergulhada nesse novo disco?

Não, porque tem esse lançamento do DVD, depois vou para a Bahia participar de um show de Margareth (Menezes). No dia 9 recebo o título (de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia). Como muda essa data... A faculdade foi ocupada, desocuparam. Farei uma leitura no dia 14. Depois, mesmo que queiram e que inventem, não vai dar. É Natal, período que fico em branco. Minha mãe morreu num Natal, não me serve não. Festejo o nascimento do Menino Deus todos os dias, prefiro. E também não sou muito de réveillon, essa gincana não me encanta. Então espero em Deus que a maluquice comece a invadir com mais força depois disso. Mas tenho recebido músicas lindas. 

- Nas canções “Mortal loucura” e “Era pra ser” (lançadas neste ano como singles, para trilhas de novelas), você trabalha com músicos mais jovens.

Sabe como foi “Mortal loucura”? Ouvi o disco da Elza (Soares). Fiquei louca. Falei para (José Miguel) Wisnik (a canção é um poema de Gregório de Matos musicado por ele): “Faz com os meninos que trabalharam com a Elza”. Fiquei muito impressionada com o trabalho deles. Elza não vou nem falar, sou perdida por ela. Com Gregório, tinha que ser uma moda de viola doida. E “Era pra ser”, canção linda da Adriana (Calcanhotto), ela disse que queria guitarra ou violão. Eu me lembrei de Pedro Sá. Depois, entrou Moreno (Veloso). 

- Pensa em trabalhar com músicos mais jovens no próximo disco?

Ainda não estou nessa parte. Mas que vou mexer, vou.

- No DVD, há a informação que o Desfile das Campeãs da Mangueira foi exatamente 50 anos depois de sua estreia no “Opinião”. Como você vê essas pontas se encontrando?

Pois é, Kati (Almeida Braga, dona da Biscoito Fino) me falou. Isso é uma coisa mágica. É lindo ter acontecido assim. E tem uma coisa bonita. Desde que terminou o desfile, toda vez que eu tenho um aborrecimento sério, ou tristeza, vem baixinho: “Quem me chamou, Mangueira...”. (trecho do samba-enredo da escola). Aí abre, porque tem uma felicidade tão grande nisso... Algo que nunca alcancei, que vou alcançar talvez noutro patamar. Toda vez, se entristecer, se doer, aquilo vem assim. E aí eu sei que é maior do que tudo que senti, que vi, que vivi. 

- Você está prestes a receber um título de Doutora da Universidade da Bahia. Na Bienal de São Paulo, você lembrou que foi educada em escola pública. Como vê a forma que a educação vem sendo tratada pelo governo Michel Temer?

A primeira coisa que o governo fez foi tirar dinheiro da educação e da saúde. Aliás, todos fazem. Bota em obra, em avião, bota no... ia dizer um palavrão, mas não fica bom para uma senhora. Mas só vejo piorar. Ao mesmo tempo, existem sinais deslumbrantes, como uma escola no Piauí, embaixo de uma árvore, com os meninos entre os melhores de matemática do mundo inteiro. Como sempre, a vida floresce. Mas a educação no Brasil é desastrosa. 

- Você chegou ao Rio em 1965...

No auge da ditadura. 

- Exatamente. Como vê a escalada do conservadorismo hoje no Rio, no Brasil, no mundo? As vitórias de Trump, da direita francesa, de Crivella, que já fez declarações de intolerância com relação a religiões afro-brasileiras...

Agora, ele (Crivella) fala que vai governar para todo mundo, todas as religiões. E tem essa história de que artista é tudo vagabundo, piranha, que tira o dinheiro do povo. As pessoas não querem entender, não querem perder tempo. Tem que passar uma mensagem no WhatsApp, é tudo muito corrido. Essa rapidez de hoje interessa para muitas coisas, mas é um trator em cima de valores fundamentais. As pessoas se desequilibram, perdem a mão. Não por perversidade, mas pela ignorância e pela volúpia da facilidade. A eleição desse senhor americano, a votação na França que a direita ganhou... E quem quer ganhar mesmo é a extremona, a moça lá (Marine Le Pen) que quer que volte Joana D’Arc, que, coitada, era uma menina que queria namorar. 

- E o Brasil no meio disso?

Acho muito triste. Porque a gente é diferente de Europa, de Estados Unidos. A gente é caboclo, é índio. Eu vim de Maputo agora, e chorava de emoção lá. É igual a Santo Amaro. Uma pobreza sem fim e uma alegria sem fim. É como se dissessem: “Estou vivo, vou lutar”. Fui para uma escola pública em Maputo, onde me fizeram uma homenagem. Entrou um menino pequeno com uma guitarra, lindo, sozinho. Deu uns acordes e começou: “Sonho meu/ Sonho meu”. Eu me arrepio até agora. Vem Dona Ivone Lara, essa volta que a coisa deu até ali. Temos uma natureza diferente da desses brancos europeus e americanos. Nós somos outra cor. E vejo a gente querendo imitar o ruim, o que não deu certo. Ah, eu me deprimo demais. Só me resta o palco. Vou lá e grito feito uma doida. Todas as vezes que faço leitura falo disso. Mas acho que entra por um ouvido e sai pelo outro. Fico com pena. Tô morta de pena do Brasil. 

- Você acredita num futuro melhor para o país?

Acho que está longe.












2016 - 3 Singles para Trilhas de Novelas


Abril: MORTAL LOUCURA

Junho: CASINHA BRANCA

Outubro: ERA PRA SER





2016 - MORTAL LOUCURA

Autores: José Miguel Wisnik e Gregório de Matos


Na oração, que desaterra, a terra,

Quer Deus que a quem está o cuidado, dado,

Pregue que a vida é emprestado, estado,

Mistérios mil que desenterra, enterra

 

Quem não cuida de si, que é terra, erra,

Que o alto Rei, por afamado, amado,

É quem lhe assiste ao desvelado, lado,

Da morte ao ar não desaferra, aferra.

 

 Quem do mundo a mortal loucura, cura,

A vontade de Deus sagrada, agrada

Firmar-lhe a vida em atadura, dura.

 

O voz zelosa, que dobrada, brada,

Já sei que a flor da formosura, usura,

Será no fim dessa jornada, nada.

 

 


Direção Artística: Zé Miguel Wisnik

Produção Musical: Marcio Arantes

 

Gravado nos estudios:

YB (SP), por Carlos (Cacá) Lima

Biscoito Fino (RJ), por Fernando Prado / Assistente de gravação: João Thiré

Estudio Audiorama (SP), por Marcio Arantes.

 

Mixado por Gustavo Lenza, no estudio La Nave (SP)

Masterizado por Felipe Tichauer, no estudio RedTraxx Mastering (Miami/FL)

 

Músicos:

Maria Bethânia: Voz

Marcio Arantes: Baixo Synth e Guitarras

Siba: Rabeca

Guilherme Kastrup: Percussão

Paulo Dáfilin: Viola Caipira

 

Animação/Direção de arte: Rafael Rodrigues

 



Trilha sonora original da novela "Velho Chico" - Vol. 1 e 2








2016 - ERA PRA SER

Autor: Adriana Calcanhotto

Era pra ser canção de amor
Era o amor em versos
Era pra ser sobre você e eu e o meu deserto
Era pra ser para você, sempre você, pra sempre
Era pra poder ficar eternamente no presente
 

O amor soprou de outro lugar
Pra derrubar o que houvesse pela frente
Tenho que te falar
Essa canção não fala mais da gente
 

Era pra ser canção de amor
Era o amor em versos
Era pra ser sobre você e eu e o meu deserto
Era pra ser para você, sempre você, pra sempre
Era pra poder ficar eternamente no presente
 

O amor soprou de outro lugar
Pra derrubar o que houvesse pela frente
Tenho que te falar
Essa canção não fala mais da gente
 

O amor soprou de outro lugar
Pra derrubar o que houvesse pela frente
Tenho que te falar
Essa canção não fala mais da gente


Músicos:
 
Maria Bethânia: Voz
Pedro Sá: Guitarra
Moreno Veloso: Cello





Trilha sonora original da novela "A lei do amor" - Vol. 1 e 2







2016 - CASINHA BRANCA

Autores: Gilson Vieira da Silva e Joran Ferreira da Silva


Eu tenho andado tão sozinha ultimamente
Que nem vejo em minha frente
Nada que me dê prazer
Sinto cada vez mais longe a felicidade
Vendo em minha mocidade tanto sonho perecer
 

Eu queria ter na vida, simplesmente
Um lugar de mato verde pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal, uma janela para ver o sol nascer
 

Às vezes, saio a caminhar pela cidade
À procura de amizade, vou seguindo a multidão
Mas me retraio olhando em cada rosto
Cada um tem seu mistério
Seu sofrer, sua ilusão
 

E eu queria ter na vida, simplesmente
Um lugar de mato verde pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal, uma janela para ver o sol nascer

 


Trilha sonora original da novela "Êta mundo bom!." - Vol. 2



martes, 4 de noviembre de 2025

2018 - Especial MINHA CANÇÃO - GAL COSTA

 

Em 2018 Gal participou do programa “Minha Canção”, comandado por Sarah Oliveira na Rádio Eldorado e falou sobre seu novo álbum “A Pele do Futuro”. 

Ela relembrou o processo de criação da música “Palavras no Corpo”, composta por Omar Salomão e Silva.


Foto: Valéria Gonçalves


Em entrevista exclusiva a Sarah Oliveira, Gal Costa dá detalhes sobre nova parceria com Bethânia

A cantora é convidada especial no encerramento da segunda temporada do programa da Rádio Eldorado

 

Por Leandro Cacossi

14/06/2018


Sarah Oliveira recebe Gal Costa no encerramento da segunda temporada do programa 'Minha Canção', da Rádio Eldorado - Foto: Valéria Gonçalves/Estadão

Gal Costa se prepara para lançar disco de inéditas em agosto. No novo trabalho, a cantora retoma uma das mais emblemáticas parcerias da MPB, dividindo os vocais com Maria Bethânia. Gal fala sobre o assunto em conversa com Sarah Oliveira no programa “Minha Canção”.   

A atração da Rádio Eldorado entra na reta final de sua segunda temporada e tem Gal Costa como protagonista de suas duas últimas edições. Ela momentos marcantes de sua carreira em um bate-papo repleto de emoção e boas histórias, tudo embalado por canções emblemáticas de sua carreira. 

Gal não gravava uma música inédita com Bethânia desde década de 1990. A música inédita, chamada “A Fotografia”, tem letra de Jorge Mautner e melodia de César Lacerda. O reencontro afetivo da dupla vem desde a gravação do documentário “O Nome Dela é Gal”, do canal HBO. 

“A música ficou pronta, coloquei voz, mixamos e mandei ontem [terça, 12] pronta para Bethânia ouvir. Ela não me respondeu na hora, demorou um pouco pra me responder. Hoje [quarta, 13],quando acordei, tinha uma mensagem linda dela, toda entusiasmada com nossa música juntas, fiquei felicíssima. As pessoas ao meu redor quando, nos ouvem juntas cantando, se comovem. As junções de nossas vozes provoca isso", afirma Gal Costa. 

Gal Costa também fala sobre a expectativa para o disco de inéditas, com lançamento marcado para agosto. “Fazer show e lançar disco de inéditas com esta idade que estou e com o pique que tenho ainda, que é exatamente o mesmo que eu tinha lá atrás, me deixa realizada. Esta ousadia, esta transgressão que eu provoco desde sempre, tem um sofrimento, mas me traz uma sensação de liberdade e alegria que vocês não podem calcular”, afirma.


Sarah Oliveira recebe Gal Costa no encerramento da segunda temporada do programa 'Minha Canção', da Rádio Eldorado - Foto: Valéria Gonçalves/Estadão

Sarah Oliveira destaca a importância de receber Gal Costa no encerramento da segunda temporada do ‘Minha Canção’. “Desde o início tinha o sonho de trazer a Gal. Ela tem uma trajetória muito importante e uma obra muito vasta, de parcerias com Caetano Veloso, Wally Salomão, Gilberto Gil. Foi tudo guiado pela memória afetiva”, afirma. “Ter ‘nossa rainha’, como eu costumava dizer, finalizando essa segunda temporada, é muito especial e emocionante”, completa a apresentadora. 

O programa ainda conta com os depoimentos de Marília Gabriela, Fernanda Montenegro e Mallu Magalhães. Elas relembram episódios que marcaram suas vidas com músicas gravadas por Gal Costa como trilha sonora. 

O ‘Minha Canção’ especial com Gal Costa vai ao ar em dois episódios. O primeiro, nesta sexta-feira, dia 15/6, a partir das 17h, com reprise no domingo, dia 17/6, no mesmo horário. O segundo, no dia 22/6, com reprise em 24 de junho, sempre às 17h. Você ouve em FM 107,3, no site radioeldorado.com.br e nos aplicativos da Rádio Eldorado para iOS e Android.


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Sarah Oliveira: 'Gal contribuiu para a libertação feminina com corpo livre' 

Sarah Oliveira

Colaboração para Universa, em São Paulo

09/11/2022 


Esta manhã foi das mais tristes da minha vida e de muita gente que vai ler este texto. 

Gal foi embora de supressa. Assim, do nada. De repente, uma ligação, e todos entramos em uma fenda no tempo e no espaço. Que loucura. 

Eu havia trocado mensagens com ela no domingo, depois do show da Björk [no festival Primavera Sound]. Cheguei inebriada por aquele acontecimento e me lembrei da Gal. 

Mandei um carinho para ela na madrugada, que me respondeu prontamente. Conto isso porque acho bonito saberem que uma cantora tão fundamento como a Gal, era tão ligada. Ela era cheia de tesão pela vida, pelas novidades. Todas as entrevistas que me deu, seja na MTV, no GNT ou recentemente, quando gravou meu programa "Minha Canção" [transmitido na Rádio Eldorado], ela esbanjava este vigor.

No dia da gravação do "Minha Canção", chegou animadíssima porque havia recebido, naquela manhã, uma ligação da Bethânia dizendo que amou a música "Minha Mãe", que Jorge Mautner compôs para as duas gravarem juntas, de maneira inédita, depois de tantos anos. Está em seu disco "A Pele do Futuro". E no palco, então, Gal vinha sendo a queridinha dos festivais, um público cada vez mais jovem a acompanhava. Gravou canções inéditas e vinha cantando com gente de várias idades e vertentes. Misturou Caetano, Bethânia, Gil e Mautner com Marília Mendonça, Céu, Emicida, Erasmo, Tim Bernardes, Nando Reis, Caetano, Malu Magalhães, Rubel. Aqui, uma menção honrosa e um agradecimento público ao meu querido amigo Marcus Preto, que foi essencial para a carreira dela nos últimos anos, fazendo esta ponte entre a Gal e todo mundo que a amava e admirava. Isso a alimentou demais. 

Gal ousou ser libertária na ditadura. No Rio, ela encontrava a turma dela todos os dias, em um duto que desembocava no fundo do mar, em Ipanema, e tinham dunas de areia. O lugar acabou levando o apelido de "dunas da Gal". Todo mundo ia lá para vê-la e "virou um reduto dos hippies que pensavam como nós. "Eu vivia na praia e ficava criando com Wally [Salomão] e Caetano", me contou. 

Foi lá que Wally Salomão fez "Mal Secreto" para ela. "Quando você vai embora, movo meu rosto do espelho, minha alma chora." Esta canção está no icônico "Fatal". 

Aliás, "Fatal" é um disco que eu ouço dia sim, dia não. Eu talvez não tenha mencionado isso antes, mas a primeira vez que ouvi "Fatal" foi quando tive vontade de trabalhar com música. Entender a importância daquele disco para a cultura brasileira. 

Foi quando entendi João Gilberto dizendo que Gal era a melhor cantora do Brasil.

A contribuição dela para a libertação feminina foi enorme. A imagem, no seu caso, sempre foi muito importante O que ela vestia, a naturalidade como mostrava o seu corpo, nós mulheres sempre nos identificamos com isso. E isso foi passando de geração a geração. "Minha história é rica neste aspecto, sinto que sou uma cantora emblemática para as mulheres, neste sentido', ela me disse. 

São muitos momentos assim, mas acho que a capa de "Índia" diz tudo. A ditadura censurou a capa, com Gal de tanga cobrindo sua vagina e deixando virilha e coxa à mostra, em foco. O disco era vendido num invólucro preto. 

Conversando sobre "Índia", ela confessou sorrindo: "Outro dia, eu tava ouvindo este disco encantada comigo mesma, pensava: 'Como eu balbuciava lindamente daquela maneira. Eu sempre cantei de maneira rasgada, e em "Índia", eu cantei delicadamente. Como consegui?"

Neste disco, Caetano escreveu para ela "Da Maior Importância". "Rolava um tesão louco entre mim e Caetano, era um amor platônico, mas nunca chegamos às vias de fato. Até hoje não entendo por que não transamos." Quando gravei o programa com Caetano, mostrei este depoimento a ele. Quando ouviu isso, ruborizou como nunca tinha visto e disse: "Eu não sei responder, Gal", e gargalhou. 

Outro dos vários presentes de Caetano para Gal foi o álbum "Recanto". Quando ela lançou este disco, eu estava grávida de minha primeira filha, Chloe. Ela me deu a honra de gravar meu programa "Viva Voz" e também meu documentário "Na Trilha Da Canção" (disponível no GloboPlay e no no YouTube) 

Eu lembro quando ouvi "Recanto Escuro" e a melodia daquela canção me soava doída. Não conseguia parar de chorar, achava que era sensibilidade exacerbada da gestação, mas Gal me confidenciou: "Eu também chorei de soluçar quando ouvi esta letra. Ninguém sabe, mas é uma autobiografia minha e dele que se entrelaçava. Eu sou uma intérprete muito importante para o repertório do Caetano, desde os anos 60. É uma canção profunda.

Ela canta chorando: "Coisas sagradas permanecem". "Espírito é o que enfim resulta." 

Ela também relembrou quando convidou Herbert Vianna para participar de seu "Acústico MTV". Isso foi um pouco antes do acidente dele e ela se emocionou lembrando da emoção do Herbert de estar ali ao seu lado. Ficou muito surpresa por isso. E soltou uma frase que eu carrego até hoje: "Um artista nunca tem a dimensão do que ele representa." 

E finalizou: "Quando você se arrisca e transgride é muito sofrimento, mas se é verdadeiro, você acaba tendo liberdade para fazer o que quiser até o final da sua vida. É uma sensação de dever cumprido, sabe?" 

Sabemos, Gal. Como ela canta em "Com medo, com Pedro" —que Gil escreveu pra ela:

 

"Deus me livre de ter medo agora

Depois que eu já me joguei no mundo

Deus me livre de ter medo agora

Depois que eu já pus os pés no fundo." 

 

Obrigada demais por tudo, vaca profana --fatal-- eterna.



Gal Costa e Sarah Oliveira - Foto: Flávia Montenegro


Gal Costa e Sarah Oliveira - Foto: Arquivo pessoal




sábado, 1 de noviembre de 2025

1993 - JOÃO DONATO e GAL COSTA

 






















































Registro inédito guarda último encontro de Gal Costa e João Donato no palco

 

Por Redação O Sul

11 de agosto de 2023


“A gente queria oferecer a vocês uma surpresa muito agradável: Gal Costa, a minha cantora favorita”. É dessa forma que João Donato chama Gal para dividir com ele alguns números de um show que realizou no dia 3 de dezembro de 1993 na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro. 

Gal entra em cena e começa a improvisar em cima da melodia de Nasci Para Bailar, uma das composições mais famosas de Donato, que está ao piano. Ao avistar Arnaldo Antunes na plateia, Gal pergunta a Donato o que ele acha de chamar Antunes para o palco. Formam, assim, um trio que durante quase 10 minutos brinca em diferentes andamentos – tudo com condução de Donato e sua banda. 

A certa altura, Donato grita ‘pera’. Os três começam, então, uma divertida brincadeira com nomes de frutas. O ritmo é o bolero. Mas o espírito é puro jazz. O público se diverte e, no final, aplaude por quase três minutos. 

O arquivo em áudio desse encontro, o último no palco entre Gal e Donato, existe – e em excelentes condições sonoras. O guardião dessa preciosidade é o produtor e pesquisador musical Marcelo Fróes, dono do selo Discobertas. 

“Desconfio até que exista registro em vídeo também”, diz Froes. O pesquisador encontrou o material no meio de quase 800 fitas cassetes que fazem parte do acervo de Donato. Fróes as ouviu e catalogou os conteúdos delas entre 2014 e 2016. Ele disse que chegou a propor para Donato em 2021 que o material fosse lançado. 

“Gal também ouviu e mandou dizer que aprovava, mas naquele momento estava lançando produto. Pediu que esperássemos um pouco. Mas aí João (Donato) entrou no estúdio para gravar com (Jards) Macalé e tivemos que esperar. Agora nenhum dos dois está aqui. Como ambos gostaram da ideia, eu resolvi tentar mais uma vez”, diz. 

Registros 

Além de Nasci Para Bailar – canção que Gal nunca gravou – o registro traz Gal e Donato em outras cinco músicas: Até Quem Sabe, A Rã, Flor de Maracujá, Nua Ideia e Verbos do Amor. 

Todas foram gravadas por Gal ao longo da carreira. 

Verbos do Amor, parceria de Donato com Abel Silva, lançada pela cantora no disco

Minha Voz (1982), é executada no show com arranjo diferente do registro original, somente em voz e piano. Uma versão jazzística, com delicados vocalizes de Gal ao final. 

Nua Ideia, parceria de Donato com Caetano Veloso, que Gal gravou no disco Plural, aparece com arranjo bem próximo ao criado pelo próprio Donato para o registro fonográfico. 

Em Até Quem Sabe, A Rã e Flor de Maracujá, o entrosamento de Gal e Donato é total. 

Nas três canções, eles repetem a parceria do disco Cantar, lançado por Gal em 1974. Até Quem Sabe ganha introdução mais longa que a consagrada na gravação original. 

Em A Rã, Gal, aquela altura com uma voz mais madura, evoca a suavidade do seu cantar dos anos 1970. Em Flor de Maracujá, a cantora alonga as notas. 

Sexta Básica 

Essa apresentação ocorreu dentro de um projeto de nome Sexta Básica e marcou o reencontro entre Gal e Donato no palco após quase 20 anos, desde que haviam excursionado com a turnê do disco Cantar. 

Gal, em entressafra de projetos, havia se apresentado apenas uma vez no Rio naquele de 1993. Esses dois fatores geraram grande expectativa em torno do show. Os ingressos se esgotaram rapidamente. “Esse reencontro significou muito para ambos”, diz Fróes, que já produziu tanto relançamentos de Donato quanto de Gal.