Sérgio Martins
Coluna quinzenal do jornalista e crítico Sérgio Martins com histórias da música
Opinião
Estes admiradores da música resgatam
raridades da MPB - e as compartilham com o mundo
Sérgio
Martins
Feb
16, 2026
Sempre fui um rato de biblioteca. Nos tempos em que cursei o primeiro grau no Auxiliadora da Instrução, colégio de Santos, minha cidade natal, meu passatempo era me enfurnar naquele universo de livros pelo menos três vezes por semana e retornar com uma preciosidade. Roseli, a responsável pelo lugar, me sugeria obras que, ao lado dos lançamentos da Editora Ática (Cabra das Rocas, O Caso da Borboleta Atíria, O Escaravelho do Diabo, as crônicas da série Para Gostar de Ler etc), me ajudaram a desenvolver o amor pela leitura e pela escrita. Suas indicações eram as obras-primas da literatura mundial e autores nacionais como José Mauro de Vasconcelos, Viriato Corrêa e Luís Jardim.
Minha relação atual com as plataformas de streaming –em especial o YouTube– lembram muito as do meu tempo de frequentador de biblioteca. Por mais que conheça diferentes gêneros, grupos e intérpretes, há sempre uma Roseli a me apresentar um novo mundo. No caso, raridades que dificilmente poderia conhecer por conta própria (ou, se conhecesse, demoraria muito mais tempo do que deveria). A última Roseli que conheci foi a argentina Evangelina Maffei, admiradora de MPB, com foco para os artistas baianos. Ela, aliás, é conhecida dos leitores desse jornal. O repórter Danilo Casaletti publicou em novembro de 2023 uma matéria sobre Corta Essa, parceria de Caetano Veloso e Jards Macalé,que jamais foi gravada. Evangelina foi citada por ter feito menção à música pouco tempo antes da descoberta da letra.
Canais no YouTube têm recuperado materiais raros de artistas
como Maria Bethânia - Foto: Júlia Pereira/Estadão
Acervo Evangelina Maffei, página da pesquisadora no YouTube, é uma pequena história da relação entre a nobreza da MPB (Música Popular Baiana) e o público argentino. Tem performances arrebatadoras de Maria Bethânia, Gal Costa, Simone e Caetano Veloso nos palcos do país na década de 1980. E que espetáculos: Bethânia se faz presente no show Meus Momentos, que traz a direção de Bibi Ferreira e músicos do calibre do tecladista e pianista Túlio Mourão e do percussionista Djalma Corrêa. Nos momentos finais, ressurge com o figurino e o cabelo que usava em 1965 e entrega uma versão estupenda de Carcará, lançada naquele ano.
Gal Costa, estalando de beleza e técnica vocal, renasce numa performance de 1984, período em que administrou sucesso popular (era a época de Festa do Interior e Açaí) com standards do nosso cancioneiro – as versões de Dindi e Samba do Avião, presentes aqui, são magistrais. Bethânia ressurge ainda em outro momento lindo: assiste, embevecida, a homenagens feitas a ela por intérpretes do país de Astor Piazzolla.
O canal Tonico Manoel traz à tona as pesquisas do carioca Manoel Filho. São 739 vídeos, de comerciais de rádios e TV a momentos raros protagonizados por João Gilberto (caso de um registro de Quem Dera, de Sidney Miller, datado de 1968), um show de Nana Caymmi de 1972 e trechos da derradeira apresentação de Elizeth Cardoso. Entre curiosidades e raridades (por exemplo, Emilinha Borba e Nora Ney cantando um jingle contra o Parlamentarismo, em 1962), há entrevistas feitas pelo próprio Manoel. A mais recente foi com o produtor e radialista Adelzon Alves, que impulsionou nada menos que as carreiras de Clara Nunes e do trio vocal Os Tincoãs (de onde saiu Mateus Aleluia, que recentemente foi redescoberto por músicos e jornalistas).
O universo de Roselis traz, inclusive, especialistas num único assunto. Esqueleto Lavrador foi criado pelo DJ e pesquisador Pedro Fontes e tem como objetivo trazer à tona raridades de João Gilberto. Uma de suas descobertas são os áudios de duas apresentações do cantor e violonista baiano em San Francisco, no ano de 2003, e gravações de um especial na TV Tupi, em 1971, onde João canta ao lado de Caetano Veloso e Gal Costa.
Hermeto Pascoal é o tema de bigfootpegrande (assim mesmo, tudo junto e em letras minúsculas) e coloca, para admiração geral de todos, discos dados como perdidos, trilhas sonoras e uma exibição de 2001, onde o “bruxo” é ancorado por uma das melhores formações de sua banda.
Nunca estive a par do salário de Roseli, mas penso que o empenho em me apresentar ao mundo da literatura tenha mais a ver com o amor pela profissão do que por motivos financeiros. Os Roselis da música também o fazem pela alegria do compartilhamento. Evangelina diz não ganhar um tostão pelo material que publica, Manoel também não. Ele só mantém um grupo de whatsapp, onde cobra uma taxa irrisória para compartilhar pérolas de seu acervo e dar dicas musicais. O YouTube, ressalte-se, tem uma atitude impoluta no que se refere à proteção dos direitos de autores e intérpretes: tem uma ferramenta que identifica automaticamente músicas e vídeos protegidos, repassa os direitos autorais a artistas e herdeiros e pode bloquear o conteúdo caso um deles se sinta prejudicado.
Eu
com certeza encontraria meu caminho profissional sem Roseli. Mas a importância
daquela bibliotecária foi muito além de apontar este ou aquele livro para a
minha próxima leitura. Ela foi uma aula de amor pela profissão e de muita,
muita paciência. Porque conseguem imaginar um adolescente “perguntão” três vezes
por semana, pedindo dicas e soltando opiniões por algumas horas? Foi esse
Sérgio que ela enfrentou. As Roselis da música, por sua vez, se tornam
necessárias na formação de novos acólitos da arte e contribuem para nos lembrar
o quão rico e diversificado somos musicalmente. Por mais pessoas assim em
nossas vidas.
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| https://www.youtube.com/watch?v=t_YK7lYIh-I&t=209s |













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