jueves, 14 de julio de 2016

1983 - AUGUSTO DE CAMPOS



 



17/9/1983 - Folha de S.Paulo - Ilustrada


Sábado, 17 de setembro de 1983

Folha de S.Paulo
Ilustrada 

Enfim a TV digere Augusto de Campos



O especial do programa “Fábrica do Som” que vai ao ar hoje, promove uma homenagem ao poeta, apresentando diversos compositores como Caetano Veloso, Macalé, Walter Franco e outros



Leão Serva

 

Durante as gravações no Sesc, Caetano conversa com Augusto. Entre eles, Lígia, mulher de Augusto e ao fundo Haroldo. Foto: Sérgio Amaral



A TV Cultura apresenta hoje, às 18 horas (com reprise amanhã ào meio-dia), o programa especial do “Fábrica do Som” em homenagem ao poeta Augusto de Campos, o mais doce elemento do trio que gerou o Concretismo. Muita coisa interessante aconteceu no teatro do Sesc Pompéia na última terça-feira, durante a gravação do especial. Os adolescentes fogosos que toda semana se reúnen no teatro para assistir às gravações talvez jamais tivessem ouvido falar do augusto poeta “de campos e espaços”, e sua influência sobre a cultura brasileira.



Mas nunca é tarde para saber, e durante a festa todos aprenderam, nem que tenha sido por osmose. De quebra ouviram um papo quase acadêmico, quando o “chacrítico” apresentador do programa, Tadeu Jungle, ofereceu um prêmio a quem soubesse o significado da palavra “semiótica” (ciencia da predileção dos concretos, desde que Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari se lançaram à conquista de espaços na academia). A resposta, marota e irreverente, veio de um joven da platéia: “é meia-visão. Semi é metade, e ótica e visão”.


Bem antes de começarem as gravações, boa parte do público ainda se aglomerava na porta destinada à produção, desejando ardentemente assistir ao “show de Caetano”, como muitos identificavam a festa.


Dentro, na platéia, uma verdadeira guerra de aviões e bolas de papel . Um quase carnaval antecedia o início da festa. Algumas bolas de papel foram atiradas sobre o canto da platéia reservado às estrelas, junto ao palco, onde sentavam Augusto, sua mulher Lígia (“finge ser digital” escreveu dela o poeta em 53, em lindo poema colorido), o irmão Haroldo, Caetano Veloso e Dedé, Regina Casé, Cid Campos –filho de Augusto, baixista longilíneo, atualmente tocando com o “Sexo dos Anjos”- e outros convidados de Sofia Carvalhosa e Pedrão Vieira, criadores e produtores da festa.




A vaia ao vivo


Para o poeta e seus convidados a agitação do público não impõe qualquer angústia (“esse leão de areia”, como definiu Pignatari). Músicos como os do “Sexo dos Anjos”, Tiago Araripe, Lívio Tragtenberg, Walter Franco, Péricles Cavalcanti, Poçoca, Paulo Barnabé, Arrigo e Eliete Negreiros, todos convidados por terem sido  influenciados por Augusto em seu trabalho, e por apresentarem em seu repertórios peças de autoria dele, não podem estranhar manifestações intensas ou até agressivas do público. O própio Caetano, intensamente saudado, não é um calouro em vaias. Pensando nele e em sua experiência na apresentação da música “Proibido Proibir” (apresentada no FIC, 1968), é que Augusto escreveu o poema-trocadilho visual “Viva Vaia”, que estava pintado no chão do palco, em vermelho, como no original. (Assim como Caetano, anos depois o mesmo ocorreria com Walter Franco, ao apresentar sua música “Cabeça”, no começo dos anos 70).



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De volta ao show, ali não havia conflito que não fosse cena de tevê. Os moços criados em frente da televisão sabem como chamar a atenção das câmaras.

Era isso que Caetano definia depois como procedimento “sensual” do público. Toda aquela agitação é fruto de uma relação peculiar daqueles jovens com a televisão que tanto assistem. Naquele dia faziam a pose para as câmaras. Hoje todos assistirão o programa, para verem-se junto a Caetano.



Para tocar, a grande estrela da noite, Caetano Veloso, teve que trocar algunas palavras com o público. Saudou uma fatia da platéia, dizendo:  “Vocês são os mais animados. Desde que eu cheguei eu vi que vocês são animados”. A turma gritou, adorou, enquanto os monitores de TV mostravam sua vibração. Então o condutor Caetano seguro de si, falou: “Agora deixa tocar”. 

Subitamente instaurou-se o silêncio, acabaram-se os gritos e ele pôde apresentar “Solitude”, “Sampa” e mais uma música que fez para “O Percevejo” de Maiacóvski. Delírios, e fim… desligam-se as cámaras, assentam-se os espíritos.


 


  


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Na edição para a televisão além do show propriamente os espectadores vão assistir a interesante conversa de três horas que reuniu Augusto, Caetano e Arrigo na casa do poeta.








O POETA QUE FAZ AS CABEÇAS

Ruy Castro


 

 
 
Caetano, Augusto e Arrigo no vídeo que faz parte do programa
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Em 1968, Augusto emprestou sua considerável coragem e sagacidade a uma campanha que parecia perdida: a defesa de Caetano Veloso e Gilberto Gil, quando intolerantes de direita e de esquerda foram flagrados juntos na mesma cama com a intenção de silenciar o Tropicalismo.
 
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