jueves, 16 de noviembre de 2023

1970 - GAL NA SUCATA

 


Estreia: 28 de maio de 1970



Foto: Carlos Leonam





































The Bubbles: César Fronzi Ladeira, Renato Fronzi Ladeira, Lincoln e Ricardo











viernes, 10 de noviembre de 2023

2023 - "OLHOS NOS OLHOS" - Thereza Eugênia

 



"Na revista Piauí de novembro na página 12 o adorável jornalista, pesquisador, e delicado Thallys Braga fez uma matéria comigo. Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Marina Lima falaram de minhas relações com eles. A vida foi e é generosa comigo so tenho a agradecer a todos que me ajudam a viver. Começaria tudo outra vez e não mudaria uma linha."


Thereza Eugênia, Instagram, 7 de novembro de 2023.



 



Revista piauí

Edição 206

Novembro 2023





OLHOS NOS OLHOS

Os 84 anos de uma fotógrafa da música popular brasileira

Thallys Braga




A cidade de Serrinha, na Bahia, tinha 46 mil habitantes no início da década de 1940. Quase todas as mulheres e homens eram brasileiros, católicos, solteiros, pardos, trabalhadores do campo e com os olhos em perfeito funcionamento. Fugiam da normalidade 72 cegos, 3 estrangeiros e 8 cidadãos sem religião. Havia ainda uma senhora, conhecida por todos como Zizu, que se distinguia das outras pessoas em razão de um laboratório fotográfico que mantinha em casa. Zizu acabara de se tornar avó de uma menina, a pequena Thereza Eugênia Paes da Silva.

A infância de Thereza transcorreu naquele ambiente analógico, iluminado por lâmpadas vermelhas e nenhuma luz natural, onde eram reveladas as fotos dos seus familiares e vizinhos. Na adolescência, ela ganhou do pai uma máquina Kapsa – um modelo quadrado, mais barato que as outras câmeras da época – e começou a registrar a irmã nas paisagens de Serrinha. As paixões de sua juventude eram a fotografia e as canções de Emilinha Borba e Angela Maria, que ouvia na Rádio Nacional. Seu desejo mais profundo era conhecer Copacabana. 

Ela estava com 24 anos quando viajou ao Rio de Janeiro pela primeira vez, acompanhada por amigos baianos (um deles dizia ser primo distante de João Gilberto). Gostou tanto das orlas da Zona Sul, cheias de garotas e garotos bonitos, que não quis voltar para casa. Fez chegar à família o recado de que arranjaria moradia na cidade grande. Tinha acabado de se formar em enfermagem na Bahia e logo conseguiu emprego no Hospital Federal de Ipanema, perto o suficiente da praia e da vida musical da cidade. 

Thereza logo comprou uma máquina fotográfica moderna para registrar os amigos. Numa noite de 1969, foi com eles assistir Maria Bethânia no musical Sob o signo de Bethânia, em Copacabana. Puxou a câmera da bolsa e click, registrou a cantora no palco. Começava ali uma empreitada que marcaria o seu nome na história da música popular brasileira. 

Pouco tempo depois, Thereza estava na casa de Bethânia, no Leblon, fotografando-a em momentos de descontração. “Não lembro como fomos apresentadas. Thereza era namorada de um músico meu, que de vez em quando frequentava minha casa”, conta Bethânia. As fotos despertaram o interesse de Maysa. De volta ao país depois de um período na Europa e nos Estados Unidos, a compositora queria mostrar aos brasileiros a nova silhueta, obtida com uma dieta rigorosa e anfetaminas, e os dentes brancos recém-implantados em Los Angeles. A enfermeira arranjou uma folga no trabalho e foi ao apartamento de Maysa. Retratou-a na sacada, observando o horizonte e o mar. 

Thereza queria ganhar uma grana extra com a fotografia, mas os empresários dos artistas achavam o seu trabalho pouco comercial. Foi com grande surpresa que ela recebeu um convite de Ivone Kassu, assessora de imprensa de Roberto Carlos, para registrar a primeira temporada do cantor no Canecão. Thereza teve que pagar uma colega de trabalho para assumir o seu plantão na enfermaria. Valeu a pena: Roberto colocou a foto na capa do disco que lançou em 1970, com o sucesso Jesus Cristo. “Eu ganhei, em uma noite, o valor que ganhava em um mês de trabalho no hospital”, lembra. 

A essa altura, Thereza começou a se tornar uma fotógrafa conhecida, mas não era por isso que circulava em meio aos famosos. Antes de ter o talento respeitado, ela fez amizades com músicos na Praia de Ipanema. Gal Costa, por exemplo, frequentou a casa de Thereza porque a namorada da cantora na época, a atriz Wilma Dias, tinha interesse por fotografia. E Thereza frequentou a casa de Marina Lima porque conheceu a cantora e os irmãos, Roberto Lima e Antonio Cícero, na areia. “Foi Thereza quem me ensinou a dirigir”, diz Marina. “Ela tinha um Fusca e saímos pela cidade para as aulas de direção.” 

As duas foram juntas ao primeiro show de Caetano Veloso no Brasil depois do exílio, em 1972. Thereza fez uma dupla exposição do cantor durante a apresentação de O que é que a baiana tem, no momento em que ele imitava os trejeitos de Carmen Miranda. Foi com essa imagem que a fotógrafa conquistou a confiança de Guilherme Araújo, que geria as carreiras dos jovens artistas baianos – era o homem que, como diz Caetano em Verdade tropical, “deve ser visto não apenas como um empresário, mas […] um coidealizador do movimento tropicalista”. 

Com a licença do influente Araújo, Thereza ganhou livre acesso aos artistas que o rodeavam. “Quando cheguei ao Rio, ela já era conhecida como a fotógrafa da turma dos Doces Bárbaros”, lembra Ney Matogrosso, que também foi retratado pela baiana. “Nunca vi a Thereza gritar, sempre foi suave. Isso fez eu me aproximar e ficar à vontade com ela.” (Até a entrevista para a piauí, Ney não sabia que Thereza era enfermeira quando eles se conheceram. Na enfermaria, ninguém sabia na época que ela era fotógrafa.) 

Na década de 1970, a fotógrafa registrou o antológico show Fa-tal – Gal a todo vapor e fez a foto de capa do disco Cantar, ambos de Gal. Tirou algumas das fotos mais memoráveis de Caetano, Gilberto Gil, Rita Lee, Alcione, Chico Buarque, Zezé Motta, Angela Ro Ro, Raul Seixas e tantos outros, com ar despretensioso, sem pose de artista. Preferia usar a luz do dia e a iluminação do palco, nunca o flash. “Sempre tive senso de intimidade”, diz. A partir dos anos 1980, ela passou a fotografar menos. “Eu não queria obedecer nada nem ninguém. Não quis trabalhar para nenhum jornal ou gravadora. A enfermagem me dava um salário para viver.” 

Thereza tem 84 anos, completados em outubro passado, e vive da aposentadoria de enfermeira. Seus olhos azuis estão enevoados. Ela usa o Instagram para compartilhar as fotos do acervo pessoal. Os empresários dos artistas que fotografou no passado estão sempre ligando para pedir acesso ao arquivo, mas quase nunca a remuneram pelo uso de suas obras. Dificilmente enviam convites para shows (ela vai a muitos, mas compra os ingressos). 

Suas fotografias estão guardadas em pen drives no armário de casa. Os amigos a aconselharam a vender ou doar o material para uma instituição cultural, mas Thereza tem uma preguiça terrível de lidar com burocracias. Prefere passar os dias assistindo aos mesmos filmes de sempre (ela tem um pen drive com vários longas de Wim Wenders e Woody Allen). Caminha até o Forte de Copacabana todo fim de tarde. Se a paisagem está excepcionalmente bonita, ela fotografa. Se não, pega uma brisa e retorna para o conforto de sua casa.














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Foto: Thereza Eugênia





Foto: Thereza Eugênia
1970 - Capa do LP "Roberto Carlos"






Janeiro de 1972 - Foto: Thereza Eugênia

Caetano Veloso: "Quando ele chegou de Londres, em 1972, fez três apresentações no teatro João Caetano. Só se falava disso, era o grande evento do Rio de Janeiro. Houve um derrame de xerox de convites na praia. Quando alguém entrou com o ingresso falso, Guilherme gritou: 'Deixe entrar, o cara é amigo de Caetano'. Fui com Marina Lima. Era a primeira vez que estava vendo o artista no palco, no seu primeiro show no Rio após o exílio. Impressionada com seus movimentos ao cantar 'O Que é Que a Baiana tem?', fiz uma dupla exposição no mesmo negativo. Acho que foi o artista que mais fotografei."



miércoles, 8 de noviembre de 2023

1968 - AGORA ELA É GAL COSTA

 

17/9/1968 - Gal Costa durante ensaio para a capa do disco Gal Costa
Rio de Janeiro, RJ. - Foto Acervo/Estadão


21/9/1968 - Jornal da Tarde - Chamada de capa 















21 de setembro de 1968


Jornal da Tarde



“Gal Costa está passeando nas ruas e
muitas pessoas a reconhecem
por trás dos óculos escuros. Gal
Costa aparece na televisão
com roupas sofisticadas e o público
não cansa de aplaudí-la. Gal
Costa é a moça que está cantando
“Baby”, a música de
Caetano Veloso. Na página 8, Gal
Costa está falando do
seu sucesso, dos seus amigos baianos,
dos seus velhos e novos
discos, da época em
que ela ainda não era Gal Costa.”













Mas há pelo menos uma pessoa no mundo todo que nem está ligando para êsse cartaz de Gal Costa, a cantora jovem de maior sucesso do momento no Brasil. É Maria da Graça, a menina de Salvador que hoje tem a fama e o apelido de Gal. 

Sempre foi vizinha de Dedé, a espôsa de Caetano. E estavam sempre juntas, uma ao lado da outra. Dedé já era namorada daquele menino muito magro, irmão da Betania, que morava lá longe, no bairro de Nazaré. Isso foi em 62 ou 63? Maria da Graça não se lembra. 

- Ei, Gal, você quer ir ao “Astros do Disco” no sábado?

- Posso ir sim, diga que posso ir. 

Agora ela é Gal Costa, tem que pensar nas gravações e nos programas, nas roupas e nos convites, nas viagens e no seu nome.

Mas não vai esquecer-se do tempo em que era Maria da Graça - isso ela não vai, não, de maneira alguma. 

E aquela vez em que Dedé fêz 15 anos de idade? Dedé insistiu, insistiu, e Maria da Graça acabou cantando só para Caetano ouvir. 

Ela não havia terminado ainda Vagamente, de Ronaldo Bóscoll e Roberto Menescal, e a turma de Caetano já tinha uma nova garôta. 

Vieram as serenatas nas praias, as noites no pátio em frente ao edifício onde ela morava, o show de inauguração do Teatro Vila Velha. Cantigas de roda, as músicas dos amigos, os sambas da época. 

O primo não conseguia chamá-la de Gracinha, ficava com o “Gra...” enflado na garganta. Foi aí que Maria da Graça começou a ser Gal - Gal para o primo, Gal para os antigos, agora Gal para todo mundo. 

O Costa, do sobrenome, é de familia mesmo. O pai: ela já não tem mais, morreu. Era um comerciante, tinha uma loja de jóias e bijuterias no centro da cidade, longe do bairro. É filha única, a mãe vive em Salvador. 

- Mas está passando uns tempos em Brasília. 

Dona Mariah. O sonho de Gal Costa é mudar-se do seu apartamento na avenida São João, alugar outro melhor e trazer a mãe para São Paulo. Pelo menos para uma temporada aqui, não precisa ser para a vida tôda, porque dona Mariah gosta mesmo é de Salvador. 

A mãe nunca se importou com a menina cantando o tempo inteiro, com a menina que misturava as notas da escola com as notas do violão. A mãe de Maria da Graça tem muito orgulho de ser a mãe de Gal Costa. 

Um dia ela ouviu João Gilberto pela primeira vez e aí, bem, ai não podia mais deixar de ser uma cantora. Agora ela prepara um LP. Ia sair já, mas Gal se complicou tôda, há tanta música boa, tanta música que gostaria de cantar que - pronto: o LP vai ficar para depois do Festival da Record, se não atrasar-se mais ainda. 

Mas está indo, está indo bem. Cinco músicas de Caetano - inclusive “Divino Maravilhoso”, que ela vai apresentar no festival - são certas; mais um charleston do Gil, uma qualquer do Os Mutantes, outra do Tom Zé, um samba antigo do Jackson do Pandeiro.

[trecho ilégível] ... pátio muito grande em frente ao edifício onde Maria da Graça morava e turma ficava lá o tempo todo, fazendo serenata, até muito tarde da noite. Dedé, Caetano, Gil, Betánia.

De que compositores ela gosta? De Caetano e Gil, claro. 

- Claro, não. Eu gosto dêles porque eu acho que eles são os melhores compositores brasileiros do momento, porque criticam a sociedade moderna e fazem letras muito bem feitas, muito bonitas, bonitas mesmo, e eu acho que melhor do que eles só mesmo João Gilberto. 

Há a idéia de um show na boate Blow Up, com Jorge Ben. Ia ser agora, como o LP, mas o MPB4 entrou e ela e Ben ficaram para depois. Mas não demora, vai ser logo depois mesmo. 

De Fernando, não. Ela prefere não falar do namorado. Êle esteve em São Paulo há um més e meio mais ou menos, agora já voltou outra vez para Salvador. Gal ficou de escrever, mas onde encontrar tempo? Ficou de escrever, não escreveu. 

Mora num apartamento na avenida São João. Horrível, aquêle ponto: já vai mudar, está procurando outro. Quando encontrar, trará de Salvador a mobília da avó, uma mobília toda antiga, linda. Mas está tão difícil encontrar apartamento, você sabe de algum? 

Ela se preocupa e não se preocupa com roupas. Quer dizer: 

- Preocupo-me na medida em que devo me preocupar, pelos 22 anos que tenho, por exemplo. E não me preocupo ao ponto de ficar preocupada com isso, entende? 

Quem desenha e faz suas roupas de apresentações é a Regina, a costureira de Caetano e de todo o grupo. Foi ela quem fêz aquelas roupas de plástico com que Caetano e os Mutantes cantaram no Festival Internacional da Canção. As outras, as que Gal usa para ficar em casa, passear na rua, ir ao cinema com Dedé - estas são ela mesma quem compra. Nas butiques da rua Augusta. As côres? azul, vermelho, prêto, branco. 

Nos cabelos, papelotes, hora, hora e meia. Ao salão ela só vai quando tem que cortar. Pentear cabelo, em casa mesmo, com os papelotes. No rosto, só pinta os olhos. Batom, não, não precisa.

Melhores cantores: João Gilberto, naturalmente, Maria Betânia. E Roberto Carlos. Ela adora Roberto Carlos. 

Acorda às duas, quando não tem que acordar antes. Passa a tarde no apartamento de Caetano, na avenida São Luis, quando não tem ensaio. À noite, vai ao restaurante Patachou, quando não tem que cantar. E come de tudo, à vontade: se não tomar cuidado, terá que voltar ao regime para não engordar. Beber, bebe pouco. Mas quando bebe, prefere uísque escocês - “puro, por favor” - ou nacional mesmo, se fôr o caso. Cozinha? Não, não cozinha. 

Agora já a param na rua, porque ela é Gal Costa. Mas ela não se preocupa, acha até divertido. De vaia não tem medo, por que ter medo? Já tomou a sua, no Festival da Excelsior. E roi unha, sem parar. Talvez por isso não as pinte. Nos dedos, dois aros de metal prateado e um anel de peças de relógio. 

Viu e reviu Warren Beatty e Faye Dunaway vestidos de Bonnie e Clyde. Foi o filme de que ela mais gostou, dos últimos a que assistiu aqui em São Paulo. 

Agora, quando vai ao cinema, mesmo protegida por grossos óculos escuros, alguém lhe lembrará que ela é Gal Costa, a cantora, do Baby, do pince-nez colocado na frente dos olhos, da estola do penas brancas afogando-lhe. o Pescoço. E ela mesma, Maria da Graça, escreverá nas costas do papel do fã o nome que é dos outros: Gal Costa. 

Gal? Foi Guilherme quem sugeriu para o seu nome artístico aproveitando a invenção do primo de Maria da Graça. Guilherme Araújo, seu empresário. Maria da Graça não ficava bem, parecia nome de cantora de fado. 

Maria da Graça tinha bonecas, como tôdas as meninas, mas gostava era de jogar partidas de bolinha de gude. E de soltar, pipa com os meninos de sua rua. Eram as mais altas pipas, as suas. Os amigos da turma: Fernando (para dizer a verdade, ele era mais do que um amigo. Era o moço da turma que ela olhava mais nos olhos, que ela se preocupava em saber se já tinha chegado ou não), Haly, Duda, Jorge. 

A ultima vez que esteve em Salvador foi no Carnaval. Passou uma semana, brincando nos clubes e na rua, escondida atrás de uma máscara de pierrô estilizado. Já não era a Maria da Graça da turma, mas Gal Costa. 

Para ler, escolhe Guimarães Rosa, Luluzinha, Graciliano Ramos, Pato Donald, James Baldwin, Mickey Mouse, Simone de Beauvoir, Tio Patinhas. Adora o Tio Patinhas, adora o Peninha, aquele pato doido das aventuras de Donald. Adora Gastão, o primo de multa sorte - êle sumiu, que pena não tem aparecido nas últimas aventuras. E madame Minh que graça - e Maga Patalógica aquela bruxa linda? Do Mickey, como personagem, Gal nem quer saber. É um reacionário, um chato de galochas: no final, sai sempre ganhando. Você já viu alguma coisa mais injusta? 

Ela começa a ser um ídolo e nem está ligando. Para Gal, tanto faz. É baixa, nem magra nem gorda, tem olhos castanhos e grandes. Olha para o fotógrafo sem displicêncla, vira o rosto, as mãos finas e curtas param sô bre a cintura bem feita. Passeia na sala do apartamento imitando grande dama, sopra as penas da estola, enrola o pince-nez no colar de pérolas falsas. Brinca com os dedos, cantarola uma música qualquer, chuta o vento. E sorri. 

Chama-se Gal Costa e é feliz, tão feliz quanto Maria da Graça.



domingo, 22 de octubre de 2023

1971 - BETHÂNIA E CAETANO

 

O GLOBO

15 de janeiro de 1971












Fevereiro de 1971

“A plateia do Som Livre era constituída de jovens cariocas que nada sabiam a respeito de minha prisão e tinham, uma ideia por-rock da contribuição que eu dera à modernização da MPB. Era bem uma plateia sintonizada com essa sigla, tal como ela se afirmara naquele momento. Tinha se passado pouco mais de um ano da minha saída e eu me via frente com o pós-tropicalismo. Os garotos nus da cintura para cima e as garotas de cabelos longos e lisos ovacionaram meu nome. Eles mostraram esperar de mim uma versão mais madura e sofisticada daquilo que estavam aprendendo a cultuar: uma fusão do pop inglês com o samba-jazz carioca. Entrei apenas com meu violão e cantei “Adeus, batucada”, o genial samba de Sinval Silva que fora a mais bela gravação de Carmen Miranda. Nada podia ser mais fiel à história tropicalista: um contraste gritante com o samba-jazz e com a fusion, uma referência a Carmen Miranda (e justamente com um samba em que a grande exilada da música popular brasileira dizia que ia ‘embora chorando, mas com o coração sorrindo’, pois ‘ia deixar todo mundo valorizando a batucada’): a garotada ficou perplexa e decepcionada. Passou desapercebido o fato de que era a primeira vez que eu me apresentava na TV brasileira tocando meu violão.”
  

Veloso, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo: Companhia das Letras. 1997, p. 455