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BLOG DO MAURO FERREIRA
Por Mauro
Ferreira
Jornalista carioca que escreve sobre música desde 1987, com passagens em
'O Globo' e 'Bizz'. Faz um guia para todas as tribos
Gal Costa reverbera fase
tropical entre rumbas e marchas de raro registro de show feito em Buenos Aires
em 1985
Sucesso de
Carmen Miranda, inédito na voz da cantora baiana, é o maior destaque do roteiro
argentino.
04/01/2026
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| Gal Costa (1945 – 2022) em número de show apresentado em maio de 1985 no Teatro Ópera, em Buenos Aires — Foto: Reprodução |
♫ - ANÁLISE
O acervo da
pesquisadora argentina Evangelina Maffei tem sido um bálsamo para seguidores de
Caetano Veloso, Gal Costa (1945 –
2022) e Maria Bethânia pela difusão de informações e gravações raras desses
artistas.
Organizadora do
referencial blog “Caetano Veloso ...en detalle”, Maffei presenteou os admiradores
de Gal no fim de 2025 com a publicação no YouTube, em caráter extraoficial, do
registro integral do show apresentado pela cantora em 16 de maio de 1985, no
Teatro Ópera, em Buenos Aires, capital da Argentina.
Na ocasião, Gal
já encerrara a fase Tropical com a edição em 1984 do álbum “Profana”, o
primeiro da artista na gravadora então denominada RCA – companhia na qual, cabe
lembrar, Gal debutara no mercado fonográfico com single editado em 1965. No
entanto, ecos dos repertórios dos álbuns “Gal tropical” (1979), “Fantasia”
(1981) e “Minha voz” (1982) ecoam no roteiro do show da artista no Teatro Ópera
entre marchas, sambas e rumbas.
Esse roteiro
traz três músicas pouco ou nunca associadas a Gal. Pela ordem, a primeira é
“Escandalosa” (Moacyr Silva e Djalma Esteves, 1947), rumba com a qual a cantora
Emilinha Borba (1923 – 2005) animou muitos Carnavais na era do rádio. Gal nunca
gravou “Escandalosa”, mas cantou a rumba no especial de TV “Baby Gal” (1983),
possivelmente motivada pela gravação da “Rumba louca” (Moacyr Albuquerque e
Tavinho Paes) no álbum também intitulado “Baby Gal”.
A segunda
música, presumivelmente inédita na voz de Gal até esse show de 1985, é marcha
“I, yi, yi, yi, yi (I like you very much)” (Harry Warren / Mack Gordon, 1941),
sucesso da cantora Carmen Miranda (1909 – 1955) na fase vivida nos Estados
Unidos.
Por fim, há o
samba-enredo “O amanhã”, composto em 1977 por João Sérgio para a escola de
samba União da Ilha do Governador desfilar no Carnaval de 1978. Hoje todo mundo
pensa que foi Simone quem deu projeção ao samba-enredo fora da temporada
carnavalesca, ao gravá-lo no álbum “Delírios, delícias...” (1983), mas, a
rigor, Gal foi a primeira intérprete a cantar o samba com certa repercussão
fora do universo da folia. “O amanhã” encerrava o roteiro do controvertido show
“Fantasia”, apresentado por Gal em 1981 antes do lançamento do álbum homônimo.
De todo modo, cabe registrar o pioneirismo de Elizeth Cardoso (1920 – 1990),
cantora que registrou o samba-enredo “O amanhã” ainda em 1978 no álbum “A
cantadeira do amor”.
No show em
Buenos Aires, o encerramento foi com o samba “Meu nome é Gal”, ouvido em duelo
da voz da cantora com a guitarra de Piska (1951 – 2011), em número que refez os
embates musicais da cantora com os guitarristas Robertinho de Recife (no show
“Gal tropical”, de 1979) e Victor Biglione (no dueto de especial de TV exibido
em 1981). E que voz! O cristal de Gal estava tinindo nos anos 1980,
década do auge vocal da cantora.
Enfim, enquanto
o público espera (em vão?) pelas edições de álbuns com os áudios dos shows
“Índia” (1973), “Cantar” (1974) e “Gal canta Caymmi” (1976), encontrados pelo
pesquisador Rodrigo Faour em 2010 no acervo da gravadora Universal Music, o
registro extraoficial dessa apresentação argentina da cantora em 1985,
disponibilizado pela pesquisadora Evangelina Maffei, atenua a saudade de Gal
Costa.
