domingo, 22 de octubre de 2023

1971 - BETHÂNIA E CAETANO

 

O GLOBO

15 de janeiro de 1971












Fevereiro de 1971

“A plateia do Som Livre era constituída de jovens cariocas que nada sabiam a respeito de minha prisão e tinham, uma ideia por-rock da contribuição que eu dera à modernização da MPB. Era bem uma plateia sintonizada com essa sigla, tal como ela se afirmara naquele momento. Tinha se passado pouco mais de um ano da minha saída e eu me via frente com o pós-tropicalismo. Os garotos nus da cintura para cima e as garotas de cabelos longos e lisos ovacionaram meu nome. Eles mostraram esperar de mim uma versão mais madura e sofisticada daquilo que estavam aprendendo a cultuar: uma fusão do pop inglês com o samba-jazz carioca. Entrei apenas com meu violão e cantei “Adeus, batucada”, o genial samba de Sinval Silva que fora a mais bela gravação de Carmen Miranda. Nada podia ser mais fiel à história tropicalista: um contraste gritante com o samba-jazz e com a fusion, uma referência a Carmen Miranda (e justamente com um samba em que a grande exilada da música popular brasileira dizia que ia ‘embora chorando, mas com o coração sorrindo’, pois ‘ia deixar todo mundo valorizando a batucada’): a garotada ficou perplexa e decepcionada. Passou desapercebido o fato de que era a primeira vez que eu me apresentava na TV brasileira tocando meu violão.”
  

Veloso, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo: Companhia das Letras. 1997, p. 455