O GLOBO
15 de janeiro de 1971
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| Fevereiro de 1971 |
“A
plateia do Som Livre era constituída de jovens cariocas que nada sabiam a
respeito de minha prisão e tinham, uma ideia por-rock da contribuição que eu
dera à modernização da MPB. Era bem uma plateia sintonizada com essa sigla, tal
como ela se afirmara naquele momento. Tinha se passado pouco mais de um ano da
minha saída e eu me via frente com o pós-tropicalismo. Os garotos nus da cintura
para cima e as garotas de cabelos longos e lisos ovacionaram meu nome. Eles
mostraram esperar de mim uma versão mais madura e sofisticada daquilo que
estavam aprendendo a cultuar: uma fusão do pop inglês com o samba-jazz carioca. Entrei
apenas com meu violão e cantei “Adeus, batucada”, o genial samba de Sinval Silva
que fora a mais bela gravação de Carmen Miranda. Nada podia ser mais fiel à
história tropicalista: um contraste gritante com o samba-jazz e com a fusion,
uma referência a Carmen Miranda (e justamente com um samba em que a grande
exilada da música popular brasileira dizia que ia ‘embora chorando, mas com o
coração sorrindo’, pois ‘ia deixar todo mundo valorizando a batucada’): a
garotada ficou perplexa e decepcionada. Passou desapercebido o fato de que era
a primeira vez que eu me apresentava na TV brasileira tocando meu violão.”
Veloso,
Caetano. Verdade Tropical. São Paulo: Companhia das Letras. 1997, p. 455



